{"id":13963,"date":"2017-03-31T13:21:57","date_gmt":"2017-03-31T16:21:57","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=13963"},"modified":"2017-04-20T14:57:37","modified_gmt":"2017-04-20T17:57:37","slug":"as-varias-partituras-de-uma-revolucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13963","title":{"rendered":"As v\u00e1rias partituras de uma Revolu\u00e7\u00e3o*"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.odiario.info\/b2-img\/faustoneves2014_01.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Fausto Neves<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o musical da Revolu\u00e7\u00e3o Bolchevique, em compositores e em int\u00e9rpretes, na forma\u00e7\u00e3o de m\u00fasicos e de p\u00fablicos, no acesso das massas \u00e0 M\u00fasica, n\u00e3o se fez esperar. A M\u00fasica foi at\u00e9 \u00e0s f\u00e1bricas, clubes populares, cidades, campo, grandes e pequenos centros urbanos. A Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica ofereceu ao Mundo grandes e inesquec\u00edveis nomes.<!--more--><\/p>\n<p>Apesar de todas as lutas terr\u00edveis pela sobreviv\u00eancia da jovem Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, Lenin\u00a0deu sempre grande import\u00e2ncia \u00e0 frente cultural, \u00e0 necessidade de n\u00e3o destruir, mas recuperar, o seu imenso patrim\u00f4nio, capturado de h\u00e1 muito pela classe burguesa.<\/p>\n<p>Numa Revolu\u00e7\u00e3o que tentava sobreviver entre guerras vizinhas e trai\u00e7\u00f5es internas, rebocando todo um povo da mis\u00e9ria de um feudalismo tardio para o novo socialismo, a M\u00fasica, como todas as outras artes, adere \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o e tenta ocupar o seu lugar no frenesi\u00a0de cada dia. Muitos s\u00e3o os compositores que abra\u00e7am a Revolu\u00e7\u00e3o e nela enriquecem as emo\u00e7\u00f5es e as formas. As experi\u00eancias sucedem-se, os resultados v\u00e3o sendo analisados e, apesar da quase impossibilidade de paragem para pensar perante a voragem de Outubro, as teorias surgem em paralelo com as d\u00favidas. Arte de Interven\u00e7\u00e3o e\/ou Interven\u00e7\u00e3o pela Arte? Chegada da Arte \u00e0s massas atrav\u00e9s da eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel cultural destas ou de uma simpl\u00f3ria facilita\u00e7\u00e3o daquela? H\u00e1 tempo \u00fatil de Revolu\u00e7\u00e3o para a efic\u00e1cia da primeira ideia, ou a pretensa rapidez de resposta da segunda poder\u00e1 sacrificar o futuro?<\/p>\n<p>Reagruparam-se duas tend\u00eancias antag\u00f4nicas na Associa\u00e7\u00e3o Russa dos M\u00fasicos Prolet\u00e1rios e na Associa\u00e7\u00e3o de M\u00fasica Contempor\u00e2nea, rejeitando a primeira toda e qualquer tradi\u00e7\u00e3o em favor da exclusiva composi\u00e7\u00e3o de can\u00e7\u00f5es e hinos interventivos acess\u00edveis \u00e0s massas, e a segunda, rompendo com a pr\u00f3pria m\u00fasica russa e importando as est\u00e9ticas mais experimentalistas de outros centros mundiais.<\/p>\n<p>Apesar do aparente radicalismo simplista das posi\u00e7\u00f5es \u2013 ambas afastadas do pensamento inicial de Lenin\u00a0\u2013, todas as grandes discuss\u00f5es est\u00e9ticas mundiais que a esquerda travaria a\u00ed e nos anos seguintes, sob a press\u00e3o, ou de p\u00f4r a Arte ao servi\u00e7o da fr\u00e1gil Revolu\u00e7\u00e3o, ou de responder com urg\u00eancia dram\u00e1tica \u00e0 ascens\u00e3o da extrema-direita na Europa dos anos seguintes, glosavam estes problemas, de uma maneira mais ou menos sutil. Foi o caso dos pensadores marxistas Benjamin, Brecht, Bloch e Lukacz, entre outros, ou mesmo de Lopes-Gra\u00e7a e de um tal Ant\u00f3nio Vale (pseud\u00f4nimo de \u00c1lvaro Cunhal) nas p\u00e1ginas portuguesas da V\u00e9rtice. Respondendo na pr\u00e1tica a estas preocupa\u00e7\u00f5es, o alem\u00e3o Hans Eisler, compositor vanguardista \u00e0 \u00e9poca, escreve em paralelo os revolucion\u00e1rios Kampflieder ou Arbeiterlieder, e dirige o Coro dos Trabalhadores de Viena; Pablo Casals, grande violoncelista, cria e dirige a Orquestra Oper\u00e1ria em Barcelona, sob o governo da Frente Republicana; o nosso Fernando Lopes-Gra\u00e7a lan\u00e7a as Can\u00e7\u00f5es Her\u00f3icas contra Salazar, lado a lado com a sua obra mais erudita.<\/p>\n<p>Claro que os ser\u00e1ficos representantes de uma sociedade que matou Mozart, ostracizou Beethoven ou obrigou Bach a ser uma esp\u00e9cie de \u00abAmbr\u00f3sio-da-Ferrero-Rocher\u00bb no fornecimento de cantatas a rotineiros of\u00edcios religiosos, n\u00e3o perdoam a \u00abOutubro\u00bb o fato de, direta ou indiretamente, ganhar a arte de todas estas individualidades para o servi\u00e7o do Progresso, para a celebra\u00e7\u00e3o da era da passagem do Capitalismo para o Socialismo.<\/p>\n<p><strong>Da URSS para o mundo<\/strong><\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o musical da Revolu\u00e7\u00e3o Bolchevique, em compositores e em int\u00e9rpretes, na forma\u00e7\u00e3o de m\u00fasicos e de p\u00fablicos, no acesso das massas \u00e0 M\u00fasica, n\u00e3o se fez esperar. A M\u00fasica foi at\u00e9 \u00e0s f\u00e1bricas, clubes populares, cidades, campo, grandes e pequenos centros urbanos. A Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica ofereceu ao Mundo grandes e inesquec\u00edveis nomes.<\/p>\n<p>Na composi\u00e7\u00e3o, para al\u00e9m dos reconhecid\u00edssimos Serguei Prokofief \u2013 lembremo-nos da \u00abCantata de Outubro\u00bb, executada na Festa! \u2013, Dmitri Shostakovitch e, num n\u00edvel pr\u00f3ximo, Katchaturian ou Kabalevski, muitos outros nomes, que nos s\u00e3o omitidos ou n\u00e3o associados \u00e0 Arte Sovi\u00e9tica, se impuseram: Glazounov, Miaskovski, Gli\u00e8re, Vassilenko, Gnessin, Chaporine, Nikolaieva (tamb\u00e9m celebrada pianista e pedagoga) e Makarova, entre muitos outros. Os provectos conservat\u00f3rios de m\u00fasica de Leninegrado e Moscovo enriqueceram-se com a sovietiza\u00e7\u00e3o do ensino e dos seus princ\u00edpios pedag\u00f3gicos, e influenciaram rapidamente todo o mundo musical, sendo progressivamente procurados por jovens estudantes internacionais. Uma pl\u00eaiade de artistas formados ap\u00f3s Outubro \u2013 sucedendo a nomes como Goldweiser, Oborin, Oistrak (pai), Neuhaus ou Knouchevitski \u2013 foi idolatrada e disputad\u00edssima nos grandes teatros mundiais: os pianistas Richter, Guilels, Sak, os violinistas Kogan, Oistrak (filho), Weiman, os violoncelistas Chafran e Rostropovitch, para al\u00e9m de maestros, orquestras, grupos de c\u00e2mara, muitos deles que ainda hoje ostentam a sua indel\u00e9vel forma\u00e7\u00e3o art\u00edstica sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>O delicado equil\u00edbrio entre os interesses da Revolu\u00e7\u00e3o e do Progresso e o \u00e2mago individual do criador, tendo tido momentos de sobressalto na hist\u00f3rica Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, foi analisado e depurado pelo recuo hist\u00f3rico, pela experi\u00eancia e pela sagacidade de \u00c1lvaro Cunhal: \u00abUm apelo \u00e0 arte que interv\u00e9m na vida social \u00e9 intrinsecamente um apelo \u00e0 liberdade, \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o, \u00e0 fantasia, \u00e0 descoberta e ao sonho. Ou seja: \u00e0 n\u00e3o obedi\u00eancia a quaisquer \u00abregras\u00bb obrigat\u00f3rias, antes a considera\u00e7\u00e3o de que a criatividade art\u00edstica, mesmo quando parte de certas \u00abregras\u00bb, acaba por modific\u00e1-las, ultrapass\u00e1-las e super\u00e1-las.\u00bb[1]<\/p>\n<p><em>1. Cunhal, \u00c1lvaro. 1996. A Arte, o Artista e a Sociedade, p. 203. Lisboa: Editorial Caminho.<br \/>\n*Este artigo foi publicado no \u201cAvante!\u201d n\u00ba 2260, 23.03.2017<\/em><\/p>\n<p>http:\/\/www.odiario.info\/as-varias-partituras-de-uma-revolucao\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Fausto Neves A produ\u00e7\u00e3o musical da Revolu\u00e7\u00e3o Bolchevique, em compositores e em int\u00e9rpretes, na forma\u00e7\u00e3o de m\u00fasicos e de p\u00fablicos, no acesso das \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13963\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[74],"tags":[],"class_list":["post-13963","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c87-revolucao-russa"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3Dd","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13963","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13963"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13963\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13963"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13963"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13963"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}