{"id":14001,"date":"2017-04-04T13:51:44","date_gmt":"2017-04-04T16:51:44","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=14001"},"modified":"2017-04-25T18:23:05","modified_gmt":"2017-04-25T21:23:05","slug":"seguranca-privada-herdeira-da-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/14001","title":{"rendered":"\u201cSeguran\u00e7a\u201d privada, herdeira da ditadura"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/ci5.googleusercontent.com\/proxy\/4sn2pI2MEhEKzQF8JTC-6lMir_HfciTObMJay2v-0yT7u01zvmN5N6GgHz80Ovdat9xHgvCskU2PmZWq1HbdflPd5BLXKTJDVXAqr9-GVyjF2hN9rI8tF10s4RyfO-7uQI4pH5-ksX9G=s0-d-e1-ft#http:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/170401-SegPrivada2-485x267.jpg\" alt=\"imagem\" \/>OUTRAS PALAVRAS<\/p>\n<p><em>Documentos revelam: um decreto do regime militar deu origem ao obscuro ramo das empresas de \u201cprote\u00e7\u00e3o\u201d, ligadas a torturadores e pol\u00edticos corruptos e envolvidas at\u00e9 hoje em viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos<\/em><!--more--><\/p>\n<p>Por <strong>Ciro Barros<\/strong> e <strong>Iuri Barcelos<\/strong>, na <a href=\"http:\/\/apublica.org\/\" target=\"_blank\"><em>P\u00fablica<\/em><\/a><\/p>\n<p>Regulamentado pela Junta Militar que substituiu o general Costa e Silva no governo, o setor de seguran\u00e7a privada criou um ramo de neg\u00f3cios pr\u00f3spero para os membros das For\u00e7as Armadas e do aparato repressivo da ditadura. De acordo com documentos analisados pela reportagem da <strong>P\u00fablica<\/strong>, as empresas de seguran\u00e7a constitu\u00eddas por esses agentes durante a ditadura se envolveram tamb\u00e9m em casos de tortura, assassinatos, desaparecimento, c\u00e1rcere privado e outras viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos.<\/p>\n<p>Os documentos examinados pela reportagem no Arquivo Nacional e no Arquivo P\u00fablico do Estado de S\u00e3o Paulo s\u00e3o provenientes dos \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a e tratam do per\u00edodo que vai do <a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/decreto-lei\/1965-1988\/Del1034.htm\" target=\"_blank\">Decreto-Lei 1.034, de 21 de outubro de 1969<\/a> \u2013promulgado para regulamentar o setor dois meses depois do afastamento de Costa e Silva, acometido por uma isquemia cerebral \u2013 at\u00e9 os anos da redemocratiza\u00e7\u00e3o. O decreto obrigava \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o de \u201cdispositivos de seguran\u00e7a\u201d \u2013 vigil\u00e2ncia ostensiva armada e sistemas de alarme \u2013 por todos os estabelecimentos de cr\u00e9dito. Essa foi a primeira vez que a seguran\u00e7a privada foi citada na legisla\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>\u201cOs roubos a banco vinham sendo praticados tanto por criminosos \u2018comuns\u2019 como pelas organiza\u00e7\u00f5es da chamada \u2018luta armada\u2019 e geraram grande preocupa\u00e7\u00e3o nos governos militares\u201d, explica o pesquisador Andr\u00e9 Zanetic, do N\u00facleo de Estudos da Viol\u00eancia da Universidade de S\u00e3o Paulo (NEV-USP).<\/p>\n<p>O decreto conferiu poder de pol\u00edcia no interior dos estabelecimentos de cr\u00e9dito tamb\u00e9m aos agentes de seguran\u00e7a privada, que, al\u00e9m do certificado de antecedentes criminais, tinham de obter um atestado ideol\u00f3gico emitido pelo Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (Dops). Para isso, os nomes dos candidatos eram submetidos ao SNI, que vetava aqueles com \u201cinclina\u00e7\u00f5es subversivas\u201d.<\/p>\n<p>Os documentos mostram que nas capitais e no interior agentes de seguran\u00e7a privada, n\u00e3o raro associados ao aparato de repress\u00e3o do regime, foram apontados como respons\u00e1veis por torturas, mortes e desaparecimentos.<\/p>\n<p><strong>Gama Lima e o \u201cCenimar privado\u201d<\/strong><\/p>\n<p>A empresa de seguran\u00e7a privada Agents foi fundada em 1973 pelo primeiro-tenente da Marinha Francisco da Gama Lima Netto seis anos depois de ele ter passado \u00e0 reserva \u2013 ele serviu no Centro de Intelig\u00eancia da Marinha (Cenimar) entre 1963 e 1967. Rapidamente, a Agents se tornou uma das maiores do ramo no Brasil: chegou a contar com 200 carros e mil vigilantes. Entre suas clientes figuravam, por exemplo, a TV Globo, a Companhia Hidrel\u00e9trica de Furnas e o governo do Paran\u00e1. Tamb\u00e9m era de propriedade de Gama Lima a empresa Scorpion Com\u00e9rcio e Empreendimentos Ltda., especializada em equipamentos eletr\u00f4nicos ligados \u00e0 seguran\u00e7a privada. O tenente reformado fundou ainda a ASIS Brasil \u2013 Associa\u00e7\u00e3o Internacional de Seguran\u00e7a, a filial brasileira da ASIS International, <em>think tank<\/em> estadunidense do ramo da seguran\u00e7a que re\u00fane membros das esferas p\u00fablica e privada.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" src=\"https:\/\/ci5.googleusercontent.com\/proxy\/ZyrNijnv99GLxUOt5ELX08lP9wD0sWsBwNuoDRUm5AapHGLrZJva3hUXfymYx4lmjwU_UuPoVA31OhFCNdefE_ChwHkiTkGSV1PnmlXqg_KqSB2PTVH0SaZS_1PFrpwDry6y-V292PG1DRZ4El0fr9bqCvL_G6fVis46S64=s0-d-e1-ft#http:\/\/s3-sa-east-1.amazonaws.com\/apublica-files-main\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/28093832\/GamaLima1.png\" \/><\/p>\n<p>Em suas empresas, Gama Lima se cercou de seus ex-colegas. O diretor t\u00e9cnico da Agents, por exemplo, era ningu\u00e9m menos que Fernando Pessoa de Rocha Paranhos, capit\u00e3o de mar e guerra que comandou o Cenimar entre 1968 e 1971. Paranhos est\u00e1 na <a href=\"http:\/\/exame.abril.com.br\/brasil\/quem-eram-e-o-que-faziam-os-agentes-que-mandavam-na-ditadura\/\" target=\"_blank\">lista final<\/a> de agentes respons\u00e1veis por viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV), implicado no sequestro do paraibano Jo\u00e3o Roberto Borges de Souza, estudante e militante do PCB, ocorrido em 7 de outubro de 1969. Segundo a CNV, Souza foi sequestrado por membros do Cenimar e do Comando de Ca\u00e7a aos Comunistas (CCC) em Catol\u00e9 do Rocha, Para\u00edba. O sequestro se deu depois de sua quarta pris\u00e3o, quando, traumatizado pela tortura, passou a se esconder. Tr\u00eas dias depois, sua morte foi noticiada por uma r\u00e1dio paraibana como afogamento em um a\u00e7ude de Catol\u00e9 do Rocha. O corpo apresentava claros sinais de agress\u00e3o. Segundo um boletim de 1974 da Anistia Internacional, ele foi jogado no a\u00e7ude depois de ter sido torturado at\u00e9 a morte.<\/p>\n<p>Outro nome ligado ao Cenimar que aparece entre os contratados da empresa de Gama Lima \u00e9 o ex-chefe do Grupo de Opera\u00e7\u00f5es Especiais (Goesp) da Secretaria Estadual de Seguran\u00e7a da Guanabara, o inspetor Jos\u00e9 Paulo Boneschi. Ele chegou a chefiar o temido Departamento de Opera\u00e7\u00f5es de Informa\u00e7\u00f5es do Rio de Janeiro (DOI I). Boneschi era tamb\u00e9m um dos diretores da ASIS e foi citado no livro de Carlos Marighella <em>Por que resisti \u00e0 pris\u00e3o<\/em> (Edi\u00e7\u00f5es Contempor\u00e2neas, 1965) como um dos principais torturadores que prestavam servi\u00e7os ao Cenimar e ao DOPS da Guanabara. Entre os torturados por Boneschi est\u00e1, por exemplo, Dilson Arag\u00e3o. Filho de um almirante brizolista, ele foi preso pelo DOPS em 20 de maio de 1964. \u201cFui torturado no dia 27 de maio, das 14 \u00e0s 17 horas, pelos agentes do DOPS, Solimar e Boneschi (\u2026). Bateram-me dias seguidos e s\u00f3 me deixavam sair quando ficava desacordado\u201d, contou Arag\u00e3o <a href=\"http:\/\/www.marciomoreiraalves.com\/downloads\/torturas-e-torturados.pdf\" target=\"_blank\">em depoimento publicado no jornal <em>Correio<\/em> <em>da Manh\u00e3<\/em>.<\/a><\/p>\n<p>O engenheiro Arnaldo Mouth\u00e9 foi outro a denunciar Boneschi por tortura. \u201cFui colocado no escuro com um feixe de luz nos olhos, quando fui inquirido. A cada negativa \u00e0s perguntas incriminat\u00f3rias, recebia estrangulamento, socos, tapas e cuteladas. Fui insultado e amea\u00e7ado de morte e sequestro. Chegaram a amea\u00e7ar a minha fam\u00edlia. Cheguei a perder os sentidos pelas cuteladas e estrangulamento\u201d, relatou. \u201cOs meus espancadores e torturadores s\u00e3o os agentes do DOPS \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do Cenimar, S\u00e9rgio Alex Toledo, Solimar e Boneschi e outros da Marinha.\u201d Segundo o engenheiro, Fernando de Rocha Paranhos foi um dos oficiais da Marinha que assistiu \u00e0 sua tortura. Boneschi consta como autor de v\u00e1rios outros epis\u00f3dios de tortura relatados no livro <em>Torturas e torturados<\/em>, do jornalista M\u00e1rcio Moreira Alves, e \u00e9 um dos torturadores listados no projeto <a href=\"http:\/\/bnmdigital.mpf.mp.br\/pt-br\/\" target=\"_blank\">Brasil: Nunca Mais<\/a>, da Arquidiocese de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Segundo <a href=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/politica\/agenda-de-sargento-que-morreu-no-caso-riocentro-traz-nomes-da-atual-comunidade-de-informacoes-2792216\" target=\"_blank\">reportagem<\/a> dos jornalistas Chico Ot\u00e1vio e Alessandra Duarte, do jornal <em>O Globo<\/em>, o coronel da PM carioca Paulo C\u00e9sar Am\u00eandola, atual secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a municipal do Rio de Janeiro, tamb\u00e9m trabalhava na Agents. Fundador do Batalh\u00e3o de Opera\u00e7\u00f5es Especiais da PM do Rio (Bope), Am\u00eandola, que chegou a cumprir mandados de busca pelo Centro de Opera\u00e7\u00f5es de Defesa Interna (Codi) do I Ex\u00e9rcito, tamb\u00e9m j\u00e1 cumpriu miss\u00f5es pelo Cenimar. Em <a href=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/rio\/na-gestao-de-crivella-um-ex-guerrilheiro-seu-captor-20677614\" target=\"_blank\">outra entrevista<\/a> ao <em>Globo<\/em>, Am\u00eandola contou que participou de uma miss\u00e3o na Bahia, onde prendeu o ent\u00e3o militante do MR-8 C\u00e9sar Benjamin, hoje secret\u00e1rio municipal do Rio (Educa\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Nos anos 1980, a empresa de Am\u00eandola foi acusada de manter uma central de grampos clandestinos e chantagear diversas autoridades e institui\u00e7\u00f5es como o Banco Nacional de Habita\u00e7\u00e3o; o ex-deputado Ant\u00f4nio Ferreira; Jos\u00e9 Carlos de Borra, funcion\u00e1rio da Companhia Estadual de Habita\u00e7\u00e3o; o ministro-chefe do SNI Octavio Aguiar de Medeiros; e Ney Webster de Ara\u00fajo, presidente da Companhia Auxiliar de Empresas El\u00e9tricas (Caeeb). A central seria comandada pelo delegado Walter Abreu, denunciado por um detetive particular que tamb\u00e9m fazia parte da empresa. A morte de um funcion\u00e1rio da Telerj, Her\u00e1clito de Souza Faffe, foi associada a Gama Lima. Acusado de integrar a central de grampos da Agents, Faffe foi morto com uma inje\u00e7\u00e3o letal na n\u00e1dega esquerda. Sua morte nunca foi devidamente esclarecida.<\/p>\n<p>Gama Lima foi associado tamb\u00e9m \u00e0 morte do ex-jornalista e informante do SNI Alexandre von Baumgarten, mas a autoria desse assassinato nunca foi comprovada.<\/p>\n<p><strong>Sacop\u00e3: a tropa de choque privada das mineradoras da Amaz\u00f4nia<\/strong><\/p>\n<p>\u201cEstamos interessados em nome\u00e1-los nossos representantes para a limpeza da \u00e1rea de nossa sucursal em Altamira [\u2026]. Tivemos \u00f3timas refer\u00eancias [de] vossa empresa nos servi\u00e7os de \u201copera\u00e7\u00e3o limpeza\u201d no garimpo do Rio Tra\u00edra e no de Alta Floresta assim como na \u00e1rea da Brascan [em] RO.\u201d Esse \u00e9 um trecho de uma carta endere\u00e7ada em janeiro de 1986 ao coronel da reserva do Ex\u00e9rcito Ant\u00f4nio de Almeida Fernandes, ex-comandante da Guarda Territorial de Rond\u00f4nia \u2013 corpora\u00e7\u00e3o civil que posteriormente se tornaria a Pol\u00edcia Militar do estado.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" src=\"https:\/\/ci5.googleusercontent.com\/proxy\/bEZHCskWohWtVRmUhuA4FAV-C59wLjrzleArDXUgcVL-mhGKCTwtazjA1PQObD0T6QMWtSwJhwHPtDxcMnVdaLyDUK5MSgl78hn48IfCEZp4YhQYEzshWd_gNT6kYiyQ4z1uL1GWTW_qAM9pvItc6wCQ_seKC71Pba8=s0-d-e1-ft#http:\/\/s3-sa-east-1.amazonaws.com\/apublica-files-main\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/28094928\/tadeu1.png\" \/><\/p>\n<p>A carta foi escrita por um representante da Payne Investment Company, fundo de investimentos americano com sede em Miami que estaria interessado em comprar parte da mineradora Oca, que desde os anos 1970 detinha concess\u00f5es de lavra em uma \u00e1rea disputada por garimpeiros \u2013 onde hoje \u00e9 o munic\u00edpio de Senador Jos\u00e9 Porf\u00edrio, no Par\u00e1. O neg\u00f3cio dependia dos servi\u00e7os de \u201climpeza\u201d (expuls\u00e3o dos garimpeiros da \u00e1rea de lit\u00edgio) a cargo da Sacop\u00e3 Presta\u00e7\u00e3o de Servi\u00e7os, empresa de seguran\u00e7a privada com sede em Manaus e com atua\u00e7\u00e3o marcante em \u00e1reas de conflitos fundi\u00e1rios na Amaz\u00f4nia nos anos 1980, envolvendo, principalmente, mineradoras. A Sacop\u00e3 era dirigida por tr\u00eas ex-integrantes do Comando Militar da Amaz\u00f4nia (CMA), \u00f3rg\u00e3o vinculado ao Ex\u00e9rcito: o coronel Ant\u00f4nio Fernandes, o tenente-coronel da ativa Jo\u00e3o Batista de Toledo, ex-chefe de pol\u00edcia do CMA, e o tenente da reserva Tadeu Abrah\u00e3o Fernandes. As negocia\u00e7\u00f5es da Payne com a Oca n\u00e3o foram comprovadas pelos \u00f3rg\u00e3os de intelig\u00eancia, mas a carta demonstra que Payne conhecia algumas das pr\u00e1ticas da Sacop\u00e3, que n\u00e3o eram l\u00e1 muito secretas.<\/p>\n<p>A discri\u00e7\u00e3o n\u00e3o fazia o estilo da Sacop\u00e3. <a href=\"https:\/\/books.google.com.br\/books?id=DkstDgAAQBAJ&amp;pg=PA97&amp;lpg=PA97&amp;dq=%22Jo%C3%A3o+Batista+de+Toledo%22+policia+CMA&amp;source=bl&amp;ots=YgmhpDDYOg&amp;sig=f63oiTP40vGxINsKL9tONBu2-8U&amp;hl=en&amp;sa=X&amp;ved=0ahUKEwiS0ZLuut7SAhUBFJAKHatfAn8Q6AEIGjAA#v=onepage&amp;q&amp;f=false\" target=\"_blank\">Em uma entrevista ao rep\u00f3rter Laurentino Gomes, da revista <em>Veja<\/em><\/a>, em novembro de 1985, Tadeu Abrah\u00e3o Fernandes se gabou da procura pelos servi\u00e7os da empresa. \u201c\u00c9 tanto servi\u00e7o que n\u00e3o d\u00e1 para respirar\u201d, disse. Quase a totalidade \u2013 90% \u2013 dos vigilantes da empresa eram egressos das For\u00e7as Armadas, segundo o pr\u00f3prio Fernandes. Ela cobrava caro pelos servi\u00e7os, sobretudo se houvesse risco de resist\u00eancia nos conflitos agr\u00e1rios. \u201cN\u00e3o somos jagun\u00e7os: somos prestadores de servi\u00e7os, especialistas em posseiros e garimpeiros\u201d, definiu o ex-tenente do Ex\u00e9rcito. Ele exaltou os dois feitos da empresa at\u00e9 ent\u00e3o: a \u201climpeza\u201d de territ\u00f3rios pertencentes \u00e0s mineradoras Brascan e Paranapanema ocupados por garimpeiros no Mato Grosso e em Rond\u00f4nia nos primeiros anos de vida da Sacop\u00e3, ainda no regime militar. Fernandes exaltava a Sacop\u00e3 como \u201ca melhor empresa de seguran\u00e7a rural do pa\u00eds\u201d.<\/p>\n<p>No alvorecer da democracia, a Sacop\u00e3 continuava em alta. Outra mineradora, a Brasinor, contratou a empresa de seguran\u00e7a para dar fim a um conflito com garimpeiros que se arrastava desde 1983. A Brasinor havia comprado concess\u00f5es para explora\u00e7\u00e3o dos garimpos Madalena e Cajueiro, no munic\u00edpio de Altamira, no Par\u00e1. A \u00e1rea j\u00e1 era ocupada por garimpeiros e ind\u00edgenas anteriormente e o conflito se arrastava desde ent\u00e3o. No in\u00edcio de 1985, a mineradora \u2013 cujo diretor industrial era Oscar Luiz da Silva J\u00fanior, ex-tenente e filho do general Oscar Luiz da Silva, ex-comandante do III Ex\u00e9rcito \u2013 contratou a Sacop\u00e3 para dar fim \u00e0s animosidades. O conflito nos garimpos Cajueiro e Madalena foi deflagrado no dia 2 de fevereiro daquele ano, j\u00e1 com Tancredo Neves eleito para presidir o pa\u00eds na redemocratiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os documentos do SNI descrevem espancamentos, pris\u00f5es ilegais e at\u00e9 epis\u00f3dios de tortura contra \u00edndios, barqueiros e garimpeiros locais durante a \u201copera\u00e7\u00e3o limpeza\u201d, que come\u00e7ou com 20 homens da Sacop\u00e3. \u201cEles me jogaram no terreiro e me bateram com coronha de espingarda e me juraram com ponta de faca nos meus p\u00e9s. Eles disseram que aquele local n\u00e3o era meu, era da firma Brasinor, e disseram que aquela \u00e1rea n\u00e3o era ind\u00edgena\u201d, relatou o ind\u00edgena Manoel Curuaia, apelidado de \u201c\u00cdndio No\u00e1\u201d. As \u00e1reas da Brasinor estavam em disputa: ind\u00edgenas remanescentes das etnias Kuruaya e Xipaya viviam em \u00e1reas pr\u00f3ximas \u00e0s concess\u00f5es da Brasinor desde os anos 1940 e j\u00e1 tinham contato com a popula\u00e7\u00e3o local desde ent\u00e3o. Os \u00edndios j\u00e1 haviam se integrado aos seringueiros e, posteriormente, aos garimpeiros que vieram com a descoberta de ouro nos anos 1970.<\/p>\n<p>Dentro da \u00e1rea de lavra da mineradora, a \u00edndia Maria das Chagas Lopes Curuaia, sobrinha de \u00cdndio No\u00e1, vivia com o marido, o garimpeiro Jo\u00e3o Lima, e reivindicava a demarca\u00e7\u00e3o da \u00e1rea. Em depoimento prestado na sede da Funai em Altamira, ela contou que ficou sob a mira de quatro espingardas enquanto seus pertences eram destru\u00eddos. Depois foi expulsa da pr\u00f3pria casa. \u201cDisseram para eu sair, que a casa n\u00e3o era mais nossa, era deles\u201d, afirmou. Em outro relato, o garimpeiro Edward de Souza Silva relatou que foi obrigado a chupar pe\u00e7as de chumbo entregues pelos homens da Sacop\u00e3 antes de ser levado algemado para o avi\u00e3o que o conduziu \u00e0 delegacia de Rur\u00f3polis. \u201cO avi\u00e3o decolou. O tenente [comandante da a\u00e7\u00e3o da Sacop\u00e3] falou que ia jogar n\u00f3s de cima do avi\u00e3o. No meio da viagem, bateram no Neguinho [outro garimpeiro preso]\u201d, contou Edward. A Pol\u00edcia Federal abriu um inqu\u00e9rito para apurar esses fatos, mas a investiga\u00e7\u00e3o n\u00e3o prosperou.<\/p>\n<p>Em outubro de 1985, a Sacop\u00e3 foi requisitada novamente por uma mineradora. Dessa vez, a cliente era a Paranapanema, uma das maiores do pa\u00eds, que ostenta at\u00e9 hoje o t\u00edtulo de maior produtora nacional de estanho refinado. Assim como a Brasinor, a Paranapanema tinha nos seus quadros um militar, o coronel da reserva e engenheiro Nelson Dorneles da Silva, assessor regional da empresa e respons\u00e1vel por pelo menos duas subsidi\u00e1rias no Amazonas.<\/p>\n<p>A Sacop\u00e3 participou do despejo de \u00edndios Tukano e garimpeiros de uma \u00e1rea pertencente a uma subsidi\u00e1ria da Paranapanema, a Rio Marmelos S.A., em S\u00e3o Gabriel da Cachoeira (AM), no alto Rio Negro. A empresa chegou em abril de 1986 \u00e0 regi\u00e3o da serra do Tra\u00edra, onde a Rio Marmelos detinha concess\u00f5es de pesquisa mineral. Ali fazia meses havia um conflito instaurado desde que garimpeiros chegaram \u00e0 regi\u00e3o e passaram a ocup\u00e1-la, invadindo uma terra ind\u00edgena. Quando o conflito atingiu as terras da Rio Marmelos, a Sacop\u00e3 entrou em a\u00e7\u00e3o, detendo 20 garimpeiros que ocupavam \u00e1reas da Rio Marmelos. A opera\u00e7\u00e3o foi descrita como \u201cfac\u00edlima\u201d por Fernandes. \u201cEles formam um bando de cag\u00e3o. [\u2026] Quando o pau comeu, todos eles se entregaram\u201d, vangloriou-se em entrevista ao <em>Jornal do Com\u00e9rcio<\/em>, de Manaus. A imprensa amazonense, que cobriu o caso na \u00e9poca, atesta a participa\u00e7\u00e3o da Sacop\u00e3 na pris\u00e3o dos garimpeiros. \u201cQuando a gente estava preso no barrac\u00e3o, o capit\u00e3o Humberto tentava explicar quem comandava a opera\u00e7\u00e3o. De repente, para provar isso, chegou o soldado mais antigo do grupo, o PM Thom\u00e9, e ordenou: \u2018Thom\u00e9, diga para o pessoal aqui quem \u00e9 que est\u00e1 nos pagando\u2019. O soldado, sem refletir, respondeu que era a Paranapanema e quase foi agredido pelo oficial\u201d, afirmou Juvenal Ayres, um dos garimpeiros detidos, em entrevista ao jornal <em>A Cr\u00edtica<\/em>.<\/p>\n<p>Os documentos dos \u00f3rg\u00e3os de intelig\u00eancia registram outro epis\u00f3dio envolvendo a Sacop\u00e3 em solo amazonense, dessa vez no munic\u00edpio de Presidente Figueiredo. Em junho de 1985, o professor Egydio Schwade e sua companheira, Doroti Alice Schwade, estavam sentados em frente da sede da Funai em Bras\u00edlia quando um ind\u00edgena da etnia Waimiri-Atroari perguntou: \u201cO que \u00e9 que civilizado joga de avi\u00e3o e que queima corpo da gente por dentro?\u201d. O casal ficou perplexo \u2013 Schwade pertencia ao Conselho Indigenista Mission\u00e1rio (Cimi), \u00f3rg\u00e3o indigenista ligado \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica. Nos meses seguintes, durante um trabalho de alfabetiza\u00e7\u00e3o feito pelo casal com os ind\u00edgenas, perguntas semelhantes foram se repetindo. \u201cPor que Kam\u00f1a [civilizado] matou Ki\u00f1a [como os Waimiri-Atroari chamam a si mesmos]?\u201d \u201cO que \u00e9 que Kam\u00f1a jogou do avi\u00e3o e matou Ki\u00f1a?\u201d<\/p>\n<p>\u201cA gente se comunicava com eles por desenhos, e os desenhos retratavam esses epis\u00f3dios de viol\u00eancia\u201d, conta Schwade. Foi a partir desses di\u00e1logos que se tomou conhecimento de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/508652-waimiri-atroari-desaparecidos-politicos-entrevista-especial-com-egydio-schwade\" target=\"_blank\">diversos epis\u00f3dios de viol\u00eancia sofridos pelos Waimiri-Atroari<\/a> \u2013 os casos foram apresentados na Comiss\u00e3o Estadual da Verdade do Amazonas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" src=\"https:\/\/ci4.googleusercontent.com\/proxy\/AmZbi9u6VDLaoQ_-iOJSe0DUA5BFOplIUhT9tIVcBDqlgCRo7Yi8uTcuiJbke_299UPALuTrVTFp9G2Rn1i1PuquDlxM9EmlaG-yWW7mv96BYBAmEra_4umxD6tEc1lHDJYL9Q5NSUuNnkyNDoKyTacWpTTJxrcsjdF3rmSw6A=s0-d-e1-ft#http:\/\/s3-sa-east-1.amazonaws.com\/apublica-files-main\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/28093849\/indios-copy.png\" \/><\/p>\n<p>Os \u00edndios denunciaram viol\u00eancias cometidas por pessoas ligadas \u00e0 Taboca Minera\u00e7\u00e3o, outra subsidi\u00e1ria da Paranapanema, dirigida pelo coronel Nelson Dorneles e protegida pela Sacop\u00e3. Entre os anos 1970 e 1980, na \u00e1rea ocupada pela Taboca havia pelo menos nove aldeias ind\u00edgenas \u2013 fotografadas pela Funai em 1968 \u2013 que desapareceram. Os \u00edndios chegaram a fazer expedi\u00e7\u00f5es em busca dos parentes mortos nessas aldeias, por eles chamados de Tikiriya, mas n\u00e3o os encontraram. \u201cComo era uma \u00e1rea controlada pela Sacop\u00e3 a servi\u00e7o da Paranapanema, quem mais poderia ser respons\u00e1vel por esses epis\u00f3dios?\u201d, questiona Schwade, que durante o trabalho de alfabetiza\u00e7\u00e3o j\u00e1 ouvira dos \u00edndios frases como: \u201cTaboca chegou, Tikiriya sumiu, por qu\u00ea? Por qu\u00ea?\u201d e \u201cA casa toda furada. Parede caiu. Taboca foi no lugar onde Tikiriya morava\u201d. Um dos ind\u00edgenas chegou a desenhar a maloca com o telhado furado e as paredes caindo.<\/p>\n<p>Em outra \u00e1rea da Paranapanema, a hidrel\u00e9trica do Pitinga, al\u00e9m do desaparecimento de ind\u00edgenas, foram registrados epis\u00f3dios de viol\u00eancia contra trabalhadores do canteiro da usina. Em 12 entrevistas colhidas <a href=\"http:\/\/200.129.163.131:8080\/bitstream\/tede\/2330\/1\/Disserta%C3%A7%C3%A3o%20-%20Denison%20Silvan%20Menezes%20da%20Silva.pdf\" target=\"_blank\">na tese de mestrado do pesquisador Denison Silvan Menezes<\/a>, ex-funcion\u00e1rio da Paranapanema entre 1983 e 1987 e mestre em sociedade e cultura na Amaz\u00f4nia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), ex-oper\u00e1rios descrevem a\u00e7\u00f5es violentas da Sacop\u00e3. \u201cA guarda patrimonial era muito r\u00edgida e tinha muita autonomia para se impor aos trabalhadores. Tinha at\u00e9 cela na guarita, para prender os trabalhadores, e, \u00e0s vezes, levavam os coitados para um canil, com c\u00e3es pastores-alem\u00e3es dentro. Eu mesmo fiz o piso do canil. Soubemos de um caso em que os guardas chegaram a tirar a unha de um cidad\u00e3o. Ele precisava falar algo e, como n\u00e3o falou, arrancaram as unhas dele\u201d, contou a Menezes o pedreiro Edmar Fonseca.<\/p>\n<p>No fim dos anos 1980, a Sacop\u00e3 foi contratada pelo fazendeiro Newton Tavares para atuar na fazenda Guanabara, em Normandia (RR). Tavares havia comprado a fazenda em 1968 e vivia em lit\u00edgio com os \u00edndios Macuxi que habitavam a regi\u00e3o. Nos anos 1980, ele contratou a Sacop\u00e3. Os Macuxi denunciaram a atua\u00e7\u00e3o da empresa de seguran\u00e7a em relatos colhidos pelo jornal <em>Igreja a Caminho<\/em>, editado pelo Centro de Informa\u00e7\u00e3o da Diocese de Roraima. \u201cForam dois anos de terror e medo, dois anos de c\u00e1rcere em um curral que o Newton Tavares denominou por conta pr\u00f3pria de Maloca de Santa Cruz\u201d, relatam os Macuxi. Os \u00edndios chegaram a acusar os homens da Sacop\u00e3 de tentativa de estupro contra uma Macuxi e reagiram \u2013 chegaram a manter os agentes de seguran\u00e7a sob c\u00e1rcere privado. Cerca de 15 \u00edndios foram presos na ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo um documento do SNI datado de 1989, a Sacop\u00e3 n\u00e3o possu\u00eda autoriza\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal para prestar servi\u00e7os de seguran\u00e7a at\u00e9 ent\u00e3o. \u201cDurante certo per\u00edodo, essa empresa prestou servi\u00e7os de seguran\u00e7a a fazendeiros e mineradoras, no estado de Roraima \u2013 sem estar legalizada para isso\u201d, afirma o documento.<\/p>\n<p><strong>A VIP e o saque aos garimpos de Minas<\/strong><\/p>\n<p>Fundada em Belo Horizonte em 1975, a VIP Vigil\u00e2ncia Industrial e Particular era de Edmar Moreira Batista, ex-presidente da Itatiaia Empresa de Seguran\u00e7a e Estabelecimento de Cr\u00e9dito e, posteriormente, deputado federal pelo DEM. Os documentos do SNI registram que, em 1986, a empresa tinha em seus quadros policiais civis do antigo aparelho repressivo da ditadura militar. Entre eles estava o ex-delegado da Metropol Gabriel Ign\u00e1cio Prata Neto, destitu\u00eddo do cargo durante o governo de Aureliano Chaves (1975-1978) por den\u00fancias de tortura e depois secret\u00e1rio adjunto de Seguran\u00e7a P\u00fablica de Minas Gerais. Thacir Omar de Menezes Sia, ex-superintendente da Pol\u00edcia Civil e membro do Dops de Minas Gerais, tamb\u00e9m fazia parte da empresa.<\/p>\n<p>Segundo o informe do SNI, os policiais civis vinham ocupando garimpos nos munic\u00edpios mineiros de Nova Era, Ant\u00f4nio Dias e Itabira atrav\u00e9s da VIP. \u201cEsses policiais est\u00e3o armando indiv\u00edduos condenados pela Justi\u00e7a e policiais militares reformados, com a cobertura da Empresa de Seguran\u00e7a VIP, que contrata os interessados e presta o apoio log\u00edstico aos trabalhos do grupo\u201d, relata o informe do SNI. A den\u00fancia relatava tamb\u00e9m que os homens da VIP haviam se apropriado de min\u00e9rios em diversos garimpos dos tr\u00eas munic\u00edpios, expulsando os garimpeiros locais. Nessas a\u00e7\u00f5es, eles frequentemente usavam coletes da Pol\u00edcia Civil de Minas Gerais. As pedras extra\u00eddas dos garimpos eram vendidas ilegalmente em Itabira.<\/p>\n<p>Milhares de garimpeiros haviam migrado para a regi\u00e3o com a descoberta de lavras de alexandrita em Ant\u00f4nio Dias em 1986; dois anos depois, foram encontradas minas de esmeralda no munic\u00edpio de Nova Era. Sob a justificativa de manter a seguran\u00e7a nos garimpos, os agentes da VIP tomaram as melhores lavras da regi\u00e3o. Em 12 de janeiro de 1989, uma equipe chefiada pelos delegados Gabriel Ign\u00e1cio Prata Neto, Antonio Edson Deroma, Mauro Santiago Neves e Thacir Omar de Menezes Sia expulsou 500 garimpeiros da fazenda Quilombo, em Nova Era, com a ajuda de pistoleiros locais. Segundo o informe do SNI, a a\u00e7\u00e3o incluiu ex-capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito Jo\u00e3o C\u00e2mara Gomes Carneiro, <a href=\"http:\/\/nucleopiratininga.org.br\/a-tortura-nao-quer-fazer-falar-ela-pretende-calar\/\" target=\"_blank\">reconhecido pela diretora do grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro, Cec\u00edlia Coimbra, como um de seus torturadores.<\/a><\/p>\n<p>O caso foi denunciado por Sergio Casadei, presidente da Cooperativa Mista dos Garimpeiros do Centro-Leste de Minas Gerais em telex enviado ao ent\u00e3o ministro da Justi\u00e7a Oscar Dias Corr\u00eaa. \u201cTendo em vista amea\u00e7as que estamos sofrendo por parte de elementos da Pol\u00edcia Civil de Minas Gerais pelo fato de termos denunciado a a\u00e7\u00e3o destes elementos contra garimpeiros da regi\u00e3o de Itabira, Ant\u00f4nio Dias e Nova Era, solicitamos a V. Excia. garantias de vida para n\u00f3s e nossos familiares\u201d, escreveu Casadei.<\/p>\n<p><strong>A Solu\u00e7\u00e3o, tropa da PM usada nos conflitos agr\u00e1rios em Goi\u00e1s<\/strong><\/p>\n<p>A empresa A Solu\u00e7\u00e3o \u2013 Empreendimentos e Servi\u00e7os em Im\u00f3veis Ltda. foi fundada em 1983 em Goi\u00e2nia. Na primeira altera\u00e7\u00e3o contratual, Irineu da Silva Mattos, tenente-coronel do Ex\u00e9rcito e ex-secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica de Goi\u00e1s (1975-1979) entrou como s\u00f3cio majorit\u00e1rio. Nos anos seguintes, a empresa teria muito servi\u00e7o pela frente.<\/p>\n<p>Com o lan\u00e7amento do Plano Nacional de Reforma Agr\u00e1ria, em 5 de junho de 1985, pelo rec\u00e9m-empossado presidente Jos\u00e9 Sarney, as ocupa\u00e7\u00f5es de terra se multiplicaram em todo o pa\u00eds. Em Goi\u00e1s, a rea\u00e7\u00e3o foi imediata. Irineu se juntou a outras pessoas que, como ele, eram propriet\u00e1rias de terra para fundar o Movimento de Defesa do Direito de Propriedade, que posteriormente se tornaria a Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Ruralista (UDR). Entre os companheiros de Irineu estavam, por exemplo, o coronel An\u00edbal de Carvalho Coutinho \u2013 <a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/politica\/noticia\/2014\/12\/veja-lista-dos-377-apontados-como-responsaveis-por-crimes-na-ditadura.html\" target=\"_blank\">tamb\u00e9m implicado pela CNV<\/a> por participa\u00e7\u00e3o na execu\u00e7\u00e3o, desaparecimento for\u00e7ado e oculta\u00e7\u00e3o dos cad\u00e1veres de dois militantes do Movimento de Liberta\u00e7\u00e3o Popular (Molipo) \u2013 e o hoje senador Ronaldo Caiado (DEM-GO).<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" src=\"https:\/\/ci4.googleusercontent.com\/proxy\/CI3VoyVvHo-8mg9eRs2I6zSEQnTiwsv-EZKz_XMbG-2DR5hjU7m_g-k0JAWnWmpdryESZdF9X6N1tV2tIU26JtRH_9orOlHrvwUb0LpuEAEXU3NXW0ZKnKpt5RG1LuBz5QfF5v60upZErhZrsxb_NENGyK5ZiUrVuUw=s0-d-e1-ft#http:\/\/s3-sa-east-1.amazonaws.com\/apublica-files-main\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/28093906\/irineu.png\" \/><\/p>\n<p>A Solu\u00e7\u00e3o oferecia treinamento para os funcion\u00e1rios das fazendas, mas, segundo um informe do SNI, seus quadros eram compostos basicamente por ex-policiais militares goianos, alguns expulsos da corpora\u00e7\u00e3o. Um dos principais conflitos envolvendo a empresa de Irineu ocorreu no munic\u00edpio de Colmeia, norte de Goi\u00e1s, hoje estado do Tocantins. Desde 1972, 86 fam\u00edlias ocupavam terras p\u00fablicas que integravam a fazenda Vale do Juari, com mais de 5 mil hectares de \u00e1rea. Em janeiro de 1986, o Grupo Executivo das Terras do Araguaia e Tocantins (Getat) vistoriou o local, que seria desapropriado para a reforma agr\u00e1ria. O pretenso propriet\u00e1rio da \u00e1rea, Luiz Esp\u00edndola Cardoso, conseguiu na Justi\u00e7a uma liminar de reintegra\u00e7\u00e3o de posse. Durante o despejo, segundo relat\u00f3rios da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT), o posseiro Diolino Costa de Lima foi torturado. Mesmo assim os sem-terra voltaram \u00e0 fazenda, e o fazendeiro contratou os servi\u00e7os da Solu\u00e7\u00e3o. Em 17 de mar\u00e7o de 1986, acompanhados de policiais militares, os homens da Solu\u00e7\u00e3o foram \u00e0 fazenda para mais um despejo. Tr\u00eas posseiros (dois adultos e uma crian\u00e7a de colo) morreram. No mesmo dia, o ex-soldado da PM de Goi\u00e1s Irac\u00edlio C\u00edcero Batista de Farias, que prestava servi\u00e7o \u00e0 Solu\u00e7\u00e3o, foi morto.<\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca, a morte de Irac\u00edlio foi atribu\u00edda aos posseiros, mas um documento do SNI diz que ele morreu ap\u00f3s uma discuss\u00e3o com outro ex-policial contratado para prestar servi\u00e7os \u00e0 Solu\u00e7\u00e3o. A morte ocorrera antes mesmo do despejo, para o qual ambos haviam sido contratados pelo tenente-coronel reformado Jos\u00e9 Fernandes Mour\u00e3o, segundo um informe do SNI. Os documentos mostram que, al\u00e9m de chefe de seguran\u00e7a nas mineradoras locais, Mour\u00e3o era o grande aliciador de policiais para os quadros da Solu\u00e7\u00e3o. A vers\u00e3o do SNI foi confirmada pela ex-companheira de Irac\u00edlio, Marineide de Abreu Passos, e por outras testemunhas. A Solu\u00e7\u00e3o sempre negou que contratasse policiais para seus quadros. Em outro documento, a empresa admitiu ter adquirido armas irregularmente.<\/p>\n<p>No m\u00eas mesmo de mar\u00e7o de 1986, a Confer\u00eancia Nacional de Bispos do Brasil (CNBB) e a CPT entregaram um dossi\u00ea sobre o caso ao presidente Jos\u00e9 Sarney. Depois disso, houve reiterados casos de sequestros e espancamentos de posseiros e tiroteios com feridos de ambos os lados. Quando o decreto de desapropria\u00e7\u00e3o finalmente saiu, o fazendeiro Luiz Cardoso entrou com um mandado de seguran\u00e7a. Enquanto o caso estava na Justi\u00e7a, o posseiro Vilmone Campos da Silva foi morto em uma festa e seu irm\u00e3o, Ione Campos da Silva, baleado. O conflito s\u00f3 cessou com a cria\u00e7\u00e3o do assentamento, em 1989.<\/p>\n<p>A Solu\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das poucas empresas abertas na ditadura que permanecem ativas at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p><strong>Outro lado<\/strong><\/p>\n<p>A <strong>P\u00fablica <\/strong>tentou contato com todas as empresas ainda existentes e com as pessoas citadas nesta reportagem, mas n\u00e3o conseguiu contato com os personagens envolvidos.<\/p>\n<p><em>Cr\u00e9dito da arte interativa: <strong>Bruno Fonseca\/Ag\u00eancia P\u00fablica<\/strong><\/em><\/p>\n<p>http:\/\/outraspalavras.net\/brasil\/seguranca-privada-herdeira-da-ditadura\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"OUTRAS PALAVRAS Documentos revelam: um decreto do regime militar deu origem ao obscuro ramo das empresas de \u201cprote\u00e7\u00e3o\u201d, ligadas a torturadores e pol\u00edticos \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/14001\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-14001","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3DP","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14001","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14001"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14001\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14001"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14001"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14001"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}