{"id":14010,"date":"2017-04-04T14:25:03","date_gmt":"2017-04-04T17:25:03","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=14010"},"modified":"2017-04-25T18:23:22","modified_gmt":"2017-04-25T21:23:22","slug":"a-verdadeira-barbarie","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/14010","title":{"rendered":"A verdadeira barb\u00e1rie"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Captura-de-tela-de-2014-07-29-082938-e1406633894588.png?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Alexandre Pimenta<\/p>\n<p>Isabelle Stengers, em seu\u00a0<em>No tempo das cat\u00e1strofes<\/em>, recupera uma no\u00e7\u00e3o essencial de Rosa Luxemburgo para pensarmos o tempo de\u00a0hoje: a barb\u00e1rie. Tal no\u00e7\u00e3o n\u00e3o se refere apenas \u00e0 odiosa tend\u00eancia \u00e0 guerra perp\u00e9tua do capitalismo em sua fase imperialista, que, por si s\u00f3, tem como horizonte a desola\u00e7\u00e3o de uma nova Roma a ruir. Isso n\u00e3o a diferenciaria de um humanista qualquer. A barb\u00e1rie, para Rosa, diz respeito diretamente \u00e0 incapacidade das classes <!--more-->revolucion\u00e1rias de imporem fim ao caos imanente \u00e0 ordem do capital, prolongando-a assim ao infinito. \u201cMilh\u00f5es de prolet\u00e1rios de todas as l\u00ednguas caem no campo da vergonha, assassinam seus irm\u00e3os, rasgam a pr\u00f3pria carne com um canto de escravos nos l\u00e1bios\u201d. Eis a imagem da verdadeira barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que o texto citado por Stengers tem como t\u00edtulo e tema principal \u201cA crise da socialdemocracia\u201d, de 1915. Ou seja, a crise, a capitula\u00e7\u00e3o, a recusa em aprender com os erros e derrotas, da alternativa ao \u201cprogresso\u201d capitalista: o socialismo. Esse limbo tenebroso, da cat\u00e1strofe que amea\u00e7a n\u00e3o findar com a concomitante insufici\u00eancia do novo para se firmar, foi tamb\u00e9m notado e enfatizado por muitos outros revolucion\u00e1rios, como Engels, Gramsci e Lenin. Este \u00faltimo, principalmente, colocou como central a tarefa de\u00a0constru\u00e7\u00e3o de um instrumento de sistematiza\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias das lutas populares que conseguisse forjar uma autonomia do proletariado no plano da luta de classes pol\u00edtica e ideol\u00f3gica: o partido (\u00e0 \u00e9poca, socialdemocrata). Tal elemento, a servi\u00e7o das massas, seria imprescind\u00edvel para a passagem de tal limbo, j\u00e1 que a crise dos de cima e a dos de baixo n\u00e3o seria condi\u00e7\u00e3o suficiente para criar uma nova sociedade. O Di\u00e1rio Liberdade recentemente publicou um trecho preciso d\u2019<em>A<\/em>\u00a0<em>Comemora\u00e7\u00e3o do Primeiro de Maio pelo Proletariado Revolucion\u00e1rio<\/em>, de 1913, onde Lenin diz: \u201cNem a opress\u00e3o dos de baixo, nem a crise dos de cima\u00a0s\u00e3o suficientes para produzir a revolu\u00e7\u00e3o \u2014 a \u00fanica coisa que produzir\u00e3o ser\u00e1 a putrefa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds \u2014 se o referido pa\u00eds n\u00e3o possuir uma classe revolucion\u00e1ria capaz de transformar o estado passivo de opress\u00e3o em estado ativo de c\u00f3lera e de insurrei\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Tais li\u00e7\u00f5es permanecem extremamente atuais, mesmo que possamos depur\u00e1-las depois de passado um s\u00e9culo de luta de classes \u2013 removendo seus ran\u00e7os teleol\u00f3gicos e o que Stengers chama de &#8220;palavras de ordem triunfalistas encenando os fins da humanidade&#8221;, por exemplo. Apesar de o caminhar sangrento do imperialismo necessitar sempre de ser objeto de espanto e mobiliza\u00e7\u00e3o, o mais preocupante deve ser a situa\u00e7\u00e3o daqueles que poderiam dar uma resposta pol\u00edtica \u00e0 altura. Ora, o pr\u00f3prio imperialismo \u00e9 uma m\u00e1quina de gerar organismos transnacionais, resolu\u00e7\u00f5es e proje\u00e7\u00f5es que anunciam e planejam o caos mais ou menos administr\u00e1vel. Afinal, precisa de aparatos que ponham as coisas para funcionar dentro da \u00fanica alternativa (do) poss\u00edvel: a mais lucrativa. N\u00e3o \u00e9 sob essa din\u00e2mica que se encontrar\u00e1 sa\u00edda, mas no lado de c\u00e1 \u2013 na crise dos de baixo, onde habita outra alternativa, aquela al\u00e9m do poss\u00edvel dado hoje.<\/p>\n<p>Enxergar como verdadeira barb\u00e1rie as falhas nos processos de aprendizagem e ac\u00famulo das classes dominadas em sua luta, suas derrotas que abrem espa\u00e7o para o inimigo retirar o que sobrou de sua moral e sua pr\u00e1tica\u00a0pode nos levar a um fatalismo maior ainda, de fato. Afinal, pior que a cat\u00e1strofe em si \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o de desaparecimento de seu ant\u00eddoto. No entanto, esse \u00e9 o encontro em que efetivamente nos defrontamos com o imenso trabalho a ser feito. Imenso do tamanho da crise do proletariado e sua vanguarda. Imenso, por\u00e9m incontorn\u00e1vel.<\/p>\n<p>O texto de 1915 de Rosa foi escrito na pris\u00e3o, enquanto prolet\u00e1rios eram lan\u00e7ados na primeira grande guerra imperialista com o aux\u00edlio da socialdemocracia alem\u00e3 em decad\u00eancia. Trabalhadores de v\u00e1rios outros pa\u00edses tamb\u00e9m abra\u00e7avam o nacionalismo, o militarismo, e matavam seus companheiros de classe numa disputa de na\u00e7\u00f5es burguesas, em vez de se unirem para combater a sociedade que os explorava. A barb\u00e1rie estava ali e era preciso encar\u00e1-la, em todas as suas dimens\u00f5es. \u201cNa guerra mundial atual o proletariado caiu mais baixo que nunca. Isto \u00e9 uma desgra\u00e7a para toda a humanidade. Mas seria o fim do socialismo apenas se o proletariado internacional se recusasse a avaliar a profundidade de sua queda e a tirar os ensinamentos que ela traz\u201d.<\/p>\n<p>A seriedade dessa tarefa, a de resolver o incontorn\u00e1vel, pode parecer \u00f3bvia, mas precisou ser repetida milhares de vezes pelos dirigentes em quest\u00e3o. Isso porque ilus\u00f5es provindas da ideologia dominante se proliferam em qualquer organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. Hoje, no entanto, j\u00e1 n\u00e3o podemos evocar (nem garantir) tal tarefa com a justificativa de o proletariado ser uma esp\u00e9cie de Messias da Hist\u00f3ria. Mas sim porque ele \u00e9 empurrado a tal pelas pr\u00f3prias estruturas e tend\u00eancias desse modo de produ\u00e7\u00e3o. E caso n\u00e3o o fa\u00e7a, n\u00e3o haver\u00e1 nenhuma ast\u00facia da raz\u00e3o na esquina para salv\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Assim, os procedimentos de autocr\u00edtica, no seio da verdadeira barb\u00e1rie, v\u00e3o muito al\u00e9m de uma necessidade formal. Estes se tornam vitais. \u201cA autocr\u00edtica implac\u00e1vel n\u00e3o \u00e9 apenas um direito vital para a classe oper\u00e1ria, \u00e9 para ela tamb\u00e9m o dever supremo\u201d, diz Rosa no mesmo texto.<\/p>\n<p>No mundo atual, ap\u00f3s a miragem do fim da hist\u00f3ria vir abaixo com a crise global, o vazio da posi\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria e sua teoria, derrotada e quase completamente soterrada ao final do s\u00e9culo XX, tem sido substitu\u00edda por supostas alternativas de vertentes fascistas e suas j\u00e1 conhecidas constru\u00e7\u00f5es de bodes expiat\u00f3rios. Prometem que da automutila\u00e7\u00e3o do povo surgir\u00e1 a dita retomada do crescimento, como nos pacotes de austeridade; ou que do exterm\u00ednio dos n\u00e3o semelhantes vir\u00e1 a ordem, como no racismo\/xenofobia; ou ainda que do ego\u00edsmo selvagem se poder\u00e1 fugir do destino da grande massa, como na nova\u00a0<em>ethos<\/em>\u00a0das rela\u00e7\u00f5es de trabalho ultraflex\u00edveis. S\u00e3o as facetas da verdadeira barb\u00e1rie renovada. &#8220;No aspecto pol\u00edtico o imperialismo \u00e9, em geral, uma tend\u00eancia para a viol\u00eancia e apara a rea\u00e7\u00e3o&#8221; dizia Lenin, em seu livro <em>Imperialismo<\/em>. Tal jogo mort\u00edfero \u00e9 o que resta se a crise n\u00e3o se reverte em crise revolucion\u00e1ria, e cada vez que se tenta apelar, como &#8220;filisteus assustados&#8221; (Lenin), para a tal democracia parlamentar, maiores elementos do povo, desiludidos, s\u00e3o engolidos por esse jogo.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que se radicaliza a verdadeira barb\u00e1rie hoje, abre-se uma brecha para combat\u00ea-la tamb\u00e9m radicalmente, caso n\u00e3o procuremos contornar as tarefas centrais. \u00c9 uma esp\u00e9cie de oportunidade que os revolucion\u00e1rios russos viram com o estourar da primeira grande guerra. Repetir um gesto daquela ordem talvez seja a \u00fanica chance para tornarmos a palavra\u00a0<em>amanh\u00e3<\/em>\u00a0em algo menos perturbador.<\/p>\n<p>https:\/\/gz.diarioliberdade.org\/artigos-em-destaque\/item\/143982-a-verdadeira-barbarie.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Alexandre Pimenta Isabelle Stengers, em seu\u00a0No tempo das cat\u00e1strofes, recupera uma no\u00e7\u00e3o essencial de Rosa Luxemburgo para pensarmos o tempo de\u00a0hoje: a barb\u00e1rie. \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/14010\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-14010","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3DY","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14010","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14010"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14010\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14010"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14010"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14010"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}