{"id":14091,"date":"2017-04-12T17:07:56","date_gmt":"2017-04-12T20:07:56","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=14091"},"modified":"2017-05-03T11:06:07","modified_gmt":"2017-05-03T14:06:07","slug":"atualidade-de-mariategui","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/14091","title":{"rendered":"ATUALIDADE DE MARIATEGUI"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/4\/45\/JCM_1929.jpg\" alt=\"imagem\" \/>Por Miguel Urbano Rodrigues<\/p>\n<p>Em Lima tinham-me falado da import\u00e2ncia de Mariategui.<\/p>\n<p>Dias depois, no Cuzco, entrei numa livraria e vi numa estante os <em>Siete Ensayos de Interpretacion de la Realidad Peruana.<\/em><!--more--><\/p>\n<p>Foi no in\u00edcio de novembro de 1970. Comprei o livro e comecei a l\u00ea -lo no hotel; quase n\u00e3o dormi nessa noite. Senti algo pr\u00f3ximo de deslumbramento.\u00a0Recordo que ao longo da vida adquiri outros exemplares; ofereci uns e perdi outros.<\/p>\n<p>Antes de regressar a Portugal em l974, consegui que uma editora de S\u00e3o Paulo, a Alfa Omega, publicasse no Brasil os <em>Siete Ensayos, <\/em>com um pref\u00e1cio de Florestan Fernandes.<\/p>\n<p><strong>O PERCURSO NA \u00abIDADE DA PEDRA\u00bb<\/strong><\/p>\n<p>Li h\u00e1 semanas um interessante livro da professora brasileira Leila Escorsim Netto : <em>Mariategui-Vida e Obra*.<\/em> Numa nota pr\u00e9via a autora esclarece que o seu ensaio nasceu de uma tese de doutoramento sobre o grande revolucion\u00e1rio peruano; e informa que o seu objetivo foi contribuir para a divulga\u00e7\u00e3o no Brasil do \u00abmaior pensador marxista latino-americano do s\u00e9culo 20\u00bb.<\/p>\n<p>Mas Leila n\u00e3o desconhece que o marxismo de Mariategui tem sido tema de muitas pol\u00eamicas. N\u00e3o \u00e9, portanto, surpreendente que sejam tamb\u00e9m pol\u00eamicas muitas das opini\u00f5es que ela emite sobre o pensamento e a personalidade do biografado.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Carlos Mariategui (1894\/1930) nasceu em Moquegua, no Sul do pa\u00eds, numa fam\u00edlia modesta. O pai era funcion\u00e1rio de um Tribunal, a m\u00e3e uma mesti\u00e7a.<\/p>\n<p>Ainda na adolesc\u00eancia, para ajudar a m\u00e3e, abandonada pelo marido, come\u00e7ou a trabalhar como ajudante de tip\u00f3grafo no di\u00e1rio conservador <em>La Prensa, <\/em>de Lima.<\/p>\n<p>Tendo apenas conclu\u00eddo o ensino prim\u00e1rio, cedo revelou paix\u00e3o pela leitura e pela escrita e textos seus, assinados com pseud\u00f4nimo, foram publicados pelo jornal.\u00a0As cr\u00f4nicas de Juan Croniqueur sobre os mais diferentes temas chamaram a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Peru era ent\u00e3o governado por uma oligarquia agr\u00e1ria. A pequena elite de <em>criollos<\/em> descendentes de espanh\u00f3is, concentrada nas costas, detinha o poder econ\u00f4mico e pol\u00edtico. A esmagadora maioria da popula\u00e7\u00e3o, \u00edndios e mesti\u00e7os, era v\u00edtima de uma explora\u00e7\u00e3o compar\u00e1vel \u00e0 do per\u00edodo colonial. Mas, nas altas planuras andinas e nos vales da <em>Sierra<\/em>, subsistia a propriedade comunit\u00e1ria da terra, heran\u00e7a do Imp\u00e9rio Inca.<br \/>\nO jovem Mariategui\u00a0nas suas cr\u00f4nicas denunciava o regime olig\u00e1rquico, a corrup\u00e7\u00e3o, a semiescravid\u00e3o dos \u00edndios pelos latifundi\u00e1rios feudais.<\/p>\n<p>Ganhou prest\u00edgio nos meios intelectuais de esquerda. Mas as suas cr\u00edticas ao sistema, ent\u00e3o publicadas em <em>El Tiempo, <\/em>refletiam uma atitude humanista, a aus\u00eancia de uma op\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p>A sua sa\u00fade, fr\u00e1gil desde a inf\u00e2ncia, piorou a partir dos oito anos quando fraturou um joelho e ficou coxo.<\/p>\n<p>Anos depois, ele pr\u00f3prio qualificou o seu combate pol\u00edtico na juventude como a fase da sua \u00abidade da pedra\u00bb.<\/p>\n<p>Mas incomodava o governo. O presidente Augusto Leguia, que em breve assumiria poderes ditatoriais, para n\u00e3o o prender mas afast\u00e1-lo do pa\u00eds, enviou-o para a Europa; confiou-lhe a miss\u00e3o de explicar o Peru aos italianos.<\/p>\n<p><strong>UM MARXISTA HER\u00c9TICO <\/strong><\/p>\n<p>Na It\u00e1lia, Mariategui leu muito: Marx, Lenin,Trotsky, Gramsci, Rosa Luxemburgo, Kautsky, cl\u00e1ssicos gregos, mas tamb\u00e9m ensaios, teatro e fic\u00e7\u00e3o: Freud, Nietzsche, Shakespeare, Proust, Anatole France, Zola, Barbusse, Romain Rolland, Gide, Joyce, Thomas Mann, Tolstoi, Dostoiewski, Gorki, Malaparte, Papini, Marinetti, Pirandello, d\u2019Annunzio, etc.\u00a0Uma dose excessiva para poder assimilar em apenas tr\u00eas anos uma transmiss\u00e3o de saber e cultura t\u00e3o ampla, densa e variada.<\/p>\n<p>Assumiu-se como marxista ao ultrapassar a fronteira da \u00abidade da revolu\u00e7\u00e3o\u201d. Foi pelos caminhos da Europa, afirmou, que encontrou o seu pa\u00eds e come\u00e7ou a compreend\u00ea-lo. Visitou a Franca, a Su\u00ed\u00e7a, a Alemanha, a \u00c1ustria, a Hungria, a Checoslov\u00e1quia. \u00a0A Europa revelou-lhe \u00abat\u00e9\u00a0que ponto pertencia a um mundo primitivo e ca\u00f3tico\u00bb.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro refor\u00e7ou a sua convic\u00e7\u00e3o de que o mundo estava no limiar de uma \u00e9poca de grandes revolu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas a influ\u00eancia\u00a0 de\u00a0 Benedetto Croce e\u00a0de Freud \u00a0est\u00e1 na origem de tend\u00eancias que colidem com\u00a0o materialismo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>A sua concep\u00e7\u00e3o de vanguarda era t\u00e3o ampla que foi seduzido pelo futurismo e se entusiasmou com o surrealismo, que definiu como antecipa\u00e7\u00e3o do \u00abverdadeiro realismo\u00bb, atribuindo-lhe um conte\u00fado positivo.<\/p>\n<p>N\u00e3o via o marxismo, tal como o pr\u00f3prio Marx, como um sistema est\u00e1tico, e sim din\u00e2mico, num processo enriquecido por contribui\u00e7\u00f5es nascidas da evolu\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria. Mas, para exemplificar\u00a0essa atitude, recorreu a uma linguagem reveladora das contradi\u00e7\u00f5es da sua forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Utilizou com frequ\u00eancia a express\u00e3o \u00abrevisionismo de Lenin\u00bb para elogiar a atitude criadora do revolucion\u00e1rio russo ao ir \u00abmais al\u00e9m do Capital\u00bb na aplica\u00e7\u00e3o do pensamento de Marx a sociedades em permanente mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o captou, creio, \u00a0a diferen\u00e7a entre a aplica\u00e7\u00e3o do marxismo a um mundo transformado e a revis\u00e3o do marxismo por socialdemocratas como Bernstein e Kautsky, que, dizendo-se marxistas, se incompatibilizaram com a sua vis\u00e3o da Hist\u00f3ria, admitindo que se podia chegar ao socialismo atrav\u00e9s de reformas institucionais, sem revolu\u00e7\u00e3o. Essa contradi\u00e7\u00e3o \u00e9, ali\u00e1s, assinal\u00e1vel na sua obra de cr\u00edtica liter\u00e1ria, reunida em livros editados postumamente pelos filhos.<\/p>\n<p>Muitos dos textos de <em>El Alma Matinal<\/em> deixam transparecer sequelas do anticapitalismo rom\u00e2ntico. Distanciou-se do seu esteticismo juvenil, mas \u00e9 absurdo o elogio simult\u00e2neo a Breton, Nietzsche e Lenin.<\/p>\n<p>Em artigos dedicados \u00e0 cr\u00edtica do fascismo italiano, subestima e deturpa o papel dos intelectuais na Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u00abA intelig\u00eancia &#8211; escreveu, comentando a ades\u00e3o ao fascismo de intelectuais europeus &#8211; \u00e9 essencialmente oportunista. O papel dos intelectuais na hist\u00f3ria resulta na realidade muito modesto (\u2026) Os intelectuais constituem\u00a0a clientela da ordem, da tradi\u00e7\u00e3o, do poder, da for\u00e7a, etc, e, em caso de necessidade, do porrete do \u00f3leo de r\u00edcino\u00bb.<br \/>\nA generaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00a0inaceit\u00e1vel, carece de fundamento cient\u00edfico.<\/p>\n<p>Manifestou repetidamente admira\u00e7\u00e3o por Benedetto Croce. Tinha por merecida a \u00abenorme fama\u00bb do fil\u00f3sofo liberal italiano.<\/p>\n<p>Ouso afirmar que, tal como em Fidel Castro, um voluntarismo n\u00e3o consciencializado contribuiu para uma forma\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica onde se fundem o idealismo e o materialismo.<br \/>\nA especificidade do chamado marxismo mariateguiano valeu-lhe cr\u00edticas de acad\u00eamicos que atribuem contradi\u00e7\u00f5es do seu pensamento a um estudo insuficiente de Marx. A professora Leila Escorsim, sua grande admiradora, registra\u00a0no marxismo de Mariategui\u00a0contradi\u00e7\u00f5es insepar\u00e1veis de uma forma\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica\u00a0pobre.<\/p>\n<p>Mas essas limita\u00e7\u00f5es n\u00e3o afetam minimamente a grandeza e o significado da sua obra. Ali\u00e1s, n\u00e3o se deve esquecer a \u00e9poca e o pa\u00eds em que viveu e a doen\u00e7a que lhe abreviou a vida (nos \u00faltimos anos amputaram-lhe a perna atrofiada).<\/p>\n<p><strong>O AMAUTA<\/strong><\/p>\n<p>Foi no regresso ao Peru, em l923, que Mariategui escreveu os <em>Siete Ensayos<\/em>. Fundou o Partido Comunista do Peru\u00a0(icialmente intitulado socialista) e a Confedera\u00e7\u00e3o Geral dos Trabalhadores do Peru-CGTP.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos sete anos da sua vida, enfrentando sempre dificuldades financeiras para sustentar a fam\u00edlia, desenvolveu uma atividade fren\u00e9tica, apesar do agravamento da sa\u00fade sempre prec\u00e1ria.<\/p>\n<p>A revista que criou, <em>Amalta, <\/em>\u00e9 ainda recordada como um instrumento cultural \u00edmpar e, indiretamente, guia para a a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. Nela colaboraram, entre outros, Haya de la Torre (com o qual posteriormente rompeu), Jorge Lu\u00eds Borges, Ruben Dario, Jorge Guillen, Pablo Neruda, Jos\u00e9 Antonio Mella, Diego Ribera, Jos\u00e9 Vasconcelos, Gabriela Mistral, \u00a0Jesus Herzog.<\/p>\n<p>Amautas, recorde-se, eram no Peru pr\u00e9-colombiano os detentores do saber que educavam a fam\u00edlia do Inca e a nobreza. A escolha do nome \u00e9 significativa da ambi\u00e7\u00e3o de uma iniciativa que, sendo cultural, foi tamb\u00e9m pol\u00edtica, divulgando textos de Marx, Rosa Luxemburgo, Trotsky, Stalin, Bukharin, Gorki, Ortega y Gasset,\u00a0etc.<br \/>\nNos <em>Siete Ensayos <\/em>reuniu trabalhos diferentes. Neles est\u00e3o ausentes as contradi\u00e7\u00f5es do seu marxismo.<\/p>\n<p>O primeiro \u00e9 sobre a evolu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do Peru desde o per\u00edodo colonial; o segundo\u00a0sobre o problema do \u00edndio; o terceiro sobre a terra; o quarto sobre a instru\u00e7\u00e3o p\u00fablica; o quinto sobre a quest\u00e3o religiosa; o sexto sobre regionalismo e centralismo; o s\u00e9timo sobre a literatura.<\/p>\n<p><strong>INTERROGA\u00c7OES SEM RESPOSTA<\/strong><\/p>\n<p>At\u00e9 onde teria ido Mariategui se a morte n\u00e3o o atingisse em plena juventude?<br \/>\nSeria especulativa qualquer resposta \u00e0 pergunta. Mas o seu pensamento, obra e trajet\u00f3ria conduzem a uma certeza: Mariategui aceitou a expuls\u00e3o e a deporta\u00e7\u00e3o de Trotsky, que admirava, vendo nele o porta-voz da \u00abortodoxia comunista\u00bb, mas teria reagido com indigna\u00e7\u00e3o aos processos de Moscou\u00a0em 1937 e 1938.<\/p>\n<p>A sua atitude, perante a evolu\u00e7\u00e3o da III Internacional, anunciou tens\u00f5es\u00a0 inevit\u00e1veis. Aderiu com entusiasmo \u00e0 defesa da frente \u00fanica anti-imperialista, mas desaprovou a mudan\u00e7a de estrat\u00e9gia da organiza\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o VI Congresso. As comunica\u00e7\u00f5es que enviou \u00e0 I Confer\u00eancia Comunista Latino Americana de Buenos Aires, dirigida pelo argentino\u00a0 Vict\u00f3rio Codovilla (ele n\u00e3o compareceu por doen\u00e7a) foram ali criticadas n\u00e3o merecendo aprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se tivesse vivido mais alguns anos, as suas posi\u00e7\u00f5es teriam sido denunciadas\u00a0pelo PCUS como contrarrevolucion\u00e1rias e ele como instrumento da burguesia.<\/p>\n<p>Era ent\u00e3o imprevis\u00edvel o rumo que a Hist\u00f3ria tomaria e inimagin\u00e1vel que a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica desapareceria\u00a0e a R\u00fassia se transformaria num pa\u00eds capitalista.<br \/>\nMas o pensamento e a obra de Mariategui ficaram.<\/p>\n<p>No limiar do s\u00e9culo XXI, a pr\u00f3pria direita peruana reconhece a dimens\u00e3o de grandeza do autor dos <em>Siete Ensayos. <\/em>E os comunistas da Am\u00e9rica Latina veem nele o introdutor do marxismo no Continente.<\/p>\n<p>*Mariategui,Vida e Obra, Leila Escorsim, Ed. Express\u00e3o Popular,316 p\u00e1ginas, S\u00e3o Paulo 2006<br \/>\nhttp:\/\/www.odiario.info\/atualidade-de-mariategui\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Miguel Urbano Rodrigues Em Lima tinham-me falado da import\u00e2ncia de Mariategui. 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