{"id":14147,"date":"2017-04-20T14:33:18","date_gmt":"2017-04-20T17:33:18","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=14147"},"modified":"2017-05-03T11:07:17","modified_gmt":"2017-05-03T14:07:17","slug":"losurdo-toda-a-historia-da-guerra-fria-foi-a-luta-entre-a-emancipacao-anticolonial-e-a-reacao-colonialista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/14147","title":{"rendered":"Losurdo: &#8220;Toda a hist\u00f3ria da guerra fria foi a luta entre a emancipa\u00e7\u00e3o anticolonial e a rea\u00e7\u00e3o colonialista&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/ci5.googleusercontent.com\/proxy\/whuaVgxxkvOvhgUq4qLrfR9QLzCG5phoDs77no9HmykosklQZuE4igvbV1CKP0FWl2U_U6LemSX6WSSP-vwWMQgW3Y9pTa46PHzhlc7atGgQToq94vAD_i5uMMa7Nzm9zzBVhMEdjNE4SujW_TrFKw=s0-d-e1-ft#https:\/\/gz.diarioliberdade.org\/media\/k2\/items\/cache\/0c5f67fd9a7c027ab556b6951c02669e_L.jpg\" alt=\"imagem\" \/>Na semana passada, o fil\u00f3sofo marxista italiano Domenico Losurdo esteve no Brasil para o lan\u00e7amento de seu novo livro, Guerra e Revolu\u00e7\u00e3o, publicado pela Boitempo Editorial, sobre o centen\u00e1rio da Grande Revolu\u00e7\u00e3o Socialista de Outubro. Na oportunidade, Losurdo concedeu ao NOVACULTURA.info uma entrevista na qual discutimos temas candentes tais como a centralidade da quest\u00e3o colonial, a opress\u00e3o da mulher como uma das formas de luta de classes, a reintrodu\u00e7\u00e3o da Doutrina Monroe na Am\u00e9rica Latina, etc.<!--more--><\/p>\n<p>NOVACULTURA.info:\u00a0Em seus escritos, voc\u00ea enfatiza muito o m\u00e9rito hist\u00f3rico de Lenin na compreens\u00e3o da luta de liberta\u00e7\u00e3o nacional dos povos coloniais e semicoloniais como parte integral da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria mundial, e inclusive em seu \u00faltimo livro Guerra e Revolu\u00e7\u00e3o, voc\u00ea coloca a revolu\u00e7\u00e3o de Outubro como respons\u00e1vel por ter desencadeado a primeira etapa da revolu\u00e7\u00e3o anticolonial mundial. Como voc\u00ea enxerga esse processo?<\/p>\n<p>Losurdo:\u00a0\u00c9 claro. Lenin insistiu na import\u00e2ncia da quest\u00e3o nacional. Temos a declara\u00e7\u00e3o de Lenin, onde segundo ele, sob o Imperialismo, a quest\u00e3o nacional tem enorme import\u00e2ncia. Podemos dizer que Lenin, ainda que ele tenha morrido em 1924, antecipou a hist\u00f3ria do s\u00e9culo XX. Por que isso? Temos ao menos tr\u00eas raz\u00f5es para isso. Primeiro, Lenin apreciou a revolu\u00e7\u00e3o dos povos coloniais. Em Baku, no Congresso dos Povos do Oriente, em 1920, temos um grande salto na hist\u00f3ria da ideologia comunista, e mesmo na do movimento revolucion\u00e1rio, de modo que a conclus\u00e3o do Manifesto Comunista: \u201cProlet\u00e1rios de todos os pa\u00edses, uni-vos!\u201d muda para Lenin. O novo lema era \u201cProlet\u00e1rios de todos os pa\u00edses, e na\u00e7\u00f5es oprimidas do mundo, uni-vos!\u201d. Com isso, n\u00f3s temos n\u00e3o um sujeito revolucion\u00e1rio, mas dois sujeitos revolucion\u00e1rios. De um lado, o mundo capitalista, temos o proletariado como o dirigente da revolu\u00e7\u00e3o anticapitalista, mas no Terceiro Mundo, no mundo colonial ou semicolonial, temos o segundo sujeito revolucion\u00e1rio, e este s\u00e3o os povos oprimidos. E desta forma, Lenin antecipou talvez a mais importante caracter\u00edstica do s\u00e9culo XX. Se considerarmos este s\u00e9culo, o s\u00e9culo anterior, podemos dizer que a revolu\u00e7\u00e3o anticolonial foi o conte\u00fado mais importante dele, a revolu\u00e7\u00e3o anticolonial mundial.<\/p>\n<p>Imediatamente antes da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, vemos umas poucas pot\u00eancias capitalistas e imperialistas dominando a I Guerra Mundial. \u00c1frica era, claro, uma col\u00f4nia. \u00cdndia era uma col\u00f4nia. Indon\u00e9sia era uma col\u00f4nia. China era uma col\u00f4nia. Am\u00e9rica Latina, como consequ\u00eancia da doutrina Monroe, era uma col\u00f4nia. Com a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro e com a revolu\u00e7\u00e3o anticolonial, ligada a ela, tudo mudou. Tudo mudou. E Lenin corretamente antecipou que a revolu\u00e7\u00e3o anticolonial seria o maior fen\u00f4meno do s\u00e9culo XX. Mas Lenin antecipou as caracter\u00edsticas do s\u00e9culo XX de outra forma tamb\u00e9m. Por exemplo, ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, ele escreveu que talvez a URSS seria o objeto de uma s\u00e9rie de guerras napole\u00f4nicas contra ela. E esta antecipa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m foi muito correta. Porque imediatamente ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, temos a invas\u00e3o da R\u00fassia Sovi\u00e9tica por parte dos pa\u00edses ocidentais como a Gr\u00e3-Bretanha, Fran\u00e7a, e da \u00c1sia, do Jap\u00e3o. Depois, temos a invas\u00e3o, claro, da Alemanha de Hitler. Ap\u00f3s a derrota da Alemanha de Hitler, temos a guerra fria e a amea\u00e7a de uma nova invas\u00e3o.<\/p>\n<p>Neste sentido, tamb\u00e9m, Lenin compreendeu as caracter\u00edsticas do s\u00e9culo XX, e temos que considerar neste aspecto. Durante a I Guerra Mundial, por que o Ex\u00e9rcito alem\u00e3o parece t\u00e3o decidido em conquistar Paris? Lenin escreveu, nos anos da I Guerra, que \u201cse esta guerra conclu\u00edsse a conquista napole\u00f4nica da Fran\u00e7a por parte da Alemanha, ver\u00edamos mesmo na Europa uma grande luta de liberta\u00e7\u00e3o nacional contra Alemanha pela Fran\u00e7a conquistada e pelo subjugado povo franc\u00eas\u201d, e durante a II Guerra, o que vemos a antecipa\u00e7\u00e3o de Lenin. A Alemanha de Hitler havia conquistado a Fran\u00e7a, e mesmo na Fran\u00e7a, nos fins da II guerra Mundial, vemos uma Guerra de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional contra a Alemanha. Com isso, o s\u00e9culo XX, foi um s\u00e9culo, ap\u00f3s I Guerra Mundial, onde as guerras de liberta\u00e7\u00e3o nacional, as guerras contra a opress\u00e3o colonial ou semicolonial era basicamente a regra. Lenin compreendeu isso, que sem entender a quest\u00e3o nacional e colonial, n\u00e3o somos capazes de entender o s\u00e9culo XX e n\u00e3o somos capazes de entender o processo de emancipa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>NOVACULTURA.info:\u00a0No livro\u00a0Fuga da Hist\u00f3ria, voc\u00ea utiliza o termo \u201cautofobia\u201d para falar da postura da esquerda atual. Eu gostaria aqui de partir tamb\u00e9m da express\u00e3o de Lenin de \u201csocial-imperialismo\u201d, ou \u201csocial-chauvinismo\u201d. Aqui no Brasil, geralmente os setores da esquerda que tendem \u00e0 certo tipo de autofobia sobre os processos hist\u00f3ricos da constru\u00e7\u00e3o do socialismo, tamb\u00e9m s\u00e3o acompanhados de certo \u201csocial-chauvinismo\u201d, n\u00e3o apenas na importa\u00e7\u00e3o de teorias euroc\u00eantricas, de determinadas concep\u00e7\u00f5es ligadas ao que chamam de marxismo ocidental, mas na nega\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o nacional e colonial, e na elimina\u00e7\u00e3o das revolu\u00e7\u00f5es de liberta\u00e7\u00e3o nacional do s\u00e9culo XX da tradi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica a ser reivindicada pela esquerda e pelas for\u00e7as populares, mesmo que n\u00f3s no Brasil tamb\u00e9m sejamos um pa\u00eds perif\u00e9rico. Gostaria de saber se voc\u00ea tamb\u00e9m tra\u00e7a uma rela\u00e7\u00e3o entre tal autofobia, da nega\u00e7\u00e3o do papel cumprido pelas experi\u00eancias hist\u00f3ricas do socialismo, e o chauvinismo, negando a centralidade quest\u00e3o nacional e colonial.<\/p>\n<p>Losurdo:\u00a0Sim, no que tange a autofobia, temos que falar de autofobia em certa esquerda porque se tra\u00e7armos um balan\u00e7o correto e hist\u00f3rico do s\u00e9culo XX, da hist\u00f3ria que se desenvolveu no despertar da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, temos que dizer, n\u00f3s n\u00e3o podemos entender nem mesmo o avan\u00e7o da democracia no mundo ocidental sem o papel dos Partidos Comunistas e sem a influ\u00eancia da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro. Eu digo em meu livro Guerra e Revolu\u00e7\u00e3o, que podemos falar de democracia apenas depois da derrubada das tr\u00eas grandes discrimina\u00e7\u00f5es. Eu digo que o Ocidente Liberal, por s\u00e9culos, foi marcado por tr\u00eas grandes discrimina\u00e7\u00f5es. A primeira grande discrimina\u00e7\u00e3o era, ou \u00e9, a discrimina\u00e7\u00e3o contra mulheres, que por s\u00e9culos, mesmo nos pa\u00edses mais liberais, eram exclu\u00eddas dos direitos pol\u00edticos, n\u00e3o tinham nem o direito ao voto como do direito de ser eleita nos \u00f3rg\u00e3os representativos, como por exemplo o Parlamento. E o primeiro grande pa\u00eds que eliminou a discrimina\u00e7\u00e3o contra as mulheres foi a R\u00fassia Revolucion\u00e1ria, apenas um ano depois, a Alemanha, ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de Novembro, vemos a elimina\u00e7\u00e3o da discrimina\u00e7\u00e3o contra as mulheres, e ainda mais tarde, nos EUA. Em pa\u00edses como a It\u00e1lia, se viu a supera\u00e7\u00e3o dessa discrimina\u00e7\u00e3o contra as mulheres apenas depois da derrota do Fascismo, apenas depois da Rezistenza, a resist\u00eancia antifascista, com o papel do Partido Comunista. Com isso, n\u00e3o podemos entender a completa elimina\u00e7\u00e3o da primeira grande discrimina\u00e7\u00e3o contra as mulheres, sem a contribui\u00e7\u00e3o dos comunistas e sem a contribui\u00e7\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro.<\/p>\n<p>A segunda grande discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9 a discrimina\u00e7\u00e3o censit\u00e1ria, a discrimina\u00e7\u00e3o baseada na renda. Nesse caso tamb\u00e9m podemos ver as limita\u00e7\u00f5es da Democracia Liberal. Por muito tempo, ou por s\u00e9culos, apenas os propriet\u00e1rios possu\u00edam o direito de votar ou de serem eleitos. Os pobres n\u00e3o tinham tal direito. E essa segunda grande discrimina\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m foi eliminada em consequ\u00eancia da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro e do Movimento Comunista Internacional. Se voc\u00ea considerar um pa\u00eds como a Gr\u00e3-Bretanha, o pa\u00eds cl\u00e1ssico do liberalismo, neste pa\u00eds, vemos essa segunda grande discrimina\u00e7\u00e3o, e Lenin em seu Estado e Revolu\u00e7\u00e3o, polemiza com essa discrimina\u00e7\u00e3o censit\u00e1ria. E mesmo se considerarmos um pa\u00eds como a It\u00e1lia, sim, vemos que a Segunda C\u00e2mara, ou a Primeira C\u00e2mara, este \u00e9 o Senado, o Senado era o monop\u00f3lio da aristocracia e da Grande Burguesia. O povo era exclu\u00eddo desta c\u00e2mara atrav\u00e9s da lei, n\u00e3o apenas na pr\u00e1tica, mas j\u00e1 era uma exclus\u00e3o censit\u00e1ria realizada atrav\u00e9s da lei. \u00c9 claro, ap\u00f3s a Resistenza, ap\u00f3s a grande luta onde os comunistas frequentemente foram os l\u00edderes, a situa\u00e7\u00e3o mudou.<\/p>\n<p>Mas talvez, a mais importante grande discrimina\u00e7\u00e3o a ser considerada \u00e9 a discrimina\u00e7\u00e3o contra pessoas de origem colonial. E essa grande discrimina\u00e7\u00e3o se manifesta sob duas formas diferentes. Se n\u00f3s pegarmos um pa\u00eds como os EUA, claro, os negros n\u00e3o tinham direitos pol\u00edticos, e tenho que acrescentar, n\u00e3o tinham nem direitos civis tamb\u00e9m. Sim, todos sabem que os negros eram exclu\u00eddos dos transportes p\u00fablicos, eram humilhados, mas talvez o mais importante, eles eram o alvo de justi\u00e7amentos, esses eram uma tortura contra os negros, e tortura que ao mesmo tempo era um espet\u00e1culo de massas. Havia an\u00fancios na imprensa onde o povo era chamado a assistir esse \u201cespet\u00e1culo\u201d. Com isso, o povo negro era exclu\u00eddo n\u00e3o s\u00f3 dos direitos pol\u00edticos, mas tamb\u00e9m dos direitos civis. Mas essa terceira grande discrimina\u00e7\u00e3o se manifesta em outra forma. Os pa\u00edses onde o povo negro ou onde os povos coloniais eram a maioria, esses pa\u00edses n\u00e3o tinham o direito de serem pa\u00edses independentes. Eles eram col\u00f4nias ou semicol\u00f4nias. Esta terceira grande discrimina\u00e7\u00e3o, nestas duas formas, foi eliminada com a decisiva contribui\u00e7\u00e3o do movimento comunista.<\/p>\n<p>Agora, a primeira conclus\u00e3o. Assim, temos que reconhecer n\u00e3o apenas os comunistas, mas uma historiografia correta, deve reconhecer que o movimento comunista, apesar de seus erros e at\u00e9 crimes, tem um papel crucial no processo de emancipa\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o temos raz\u00e3o para sermos niilistas com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa hist\u00f3ria. O Niilismo \u00e9 apenas consequ\u00eancia da autofobia. \u00c9 claro que esta autofobia tem sido cultivada pela ideologia dominante, mas os comunistas que seguem essa ideologia dominante s\u00e3o respons\u00e1veis por um tipo de capitula\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, e a autofobia de algumas for\u00e7as de esquerda ou alguns comunistas \u00e9 um tipo de capitula\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica que s\u00f3 pode ser entendida como capitula\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o como resultado de uma correta an\u00e1lise hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>NOVACULTURA.info:\u00a0Aquilo que convencionou a se chamar de \u201crevolu\u00e7\u00f5es coloridas\u201d, que voc\u00ea descreve em seu livro sobre a n\u00e3o-viol\u00eancia e que ocorreram no Egito, Tun\u00edsia, Ucr\u00e2nia, L\u00edbia, podem ser consideradas uma parte da contrarrevolu\u00e7\u00e3o colonial?<\/p>\n<p>Losurdo:\u00a0\u00c9 claro, em minha opini\u00e3o, se considerarmos a hist\u00f3ria ap\u00f3s o triunfo do Ocidente na guerra fria, podemos ver uma sucess\u00e3o de guerras. A primeira contra o Iraque, contra a Iugosl\u00e1via, a nova guerra contra o Iraque, a guerra contra a L\u00edbia, a guerra contra a S\u00edria. E o que tem essas guerras em comum? Os alvos dessas guerras sempre eram pa\u00edses com um passado de revolu\u00e7\u00f5es anticoloniais e antifeudais. Os alvos nunca eram por exemplo, a Ar\u00e1bia Saudita, ou as monarquias do Golfo. Os alvos nunca foram pa\u00edses que n\u00e3o tiveram revolu\u00e7\u00f5es antifeudais e anticoloniais. Os alvos eram pa\u00edses com esse passado anticolonial e antifeudal semelhante. \u00c9 claro que essas revolu\u00e7\u00f5es anticoloniais e antifeudais possu\u00edam seus elementos de fraquezas, erros, e tudo mais, mas eram revolu\u00e7\u00f5es anticoloniais e antifeudais.<\/p>\n<p>E agora, essas guerras s\u00e3o guerras neocoloniais, \u00e9 claro! Pa\u00edses foram destru\u00eddos. A Iugosl\u00e1via foi destru\u00edda, a L\u00edbia foi destru\u00edda, a S\u00edria foi destru\u00edda. E h\u00e1 inclusive um regresso reacion\u00e1rio, se considerarmos por exemplo, a condi\u00e7\u00e3o das mulheres. Na L\u00edbia, com a derrubada de Gaddafi, temos a reintrodu\u00e7\u00e3o da poligamia. Eu n\u00e3o acredito que a poligamia seja a amplia\u00e7\u00e3o da liberdade da mulher, \u00e9 claro que n\u00e3o. Mas essa \u00e9 a consequ\u00eancia dessa guerra neocolonial. Essa guerra mirou pa\u00edses com essas revolu\u00e7\u00f5es antifeudais e anticoloniais no passado. \u00c9 claro que essas guerras podem ser levadas a cabo de diferentes maneiras, e talvez o melhor caminho para o Imperialismo seja a desestabiliza\u00e7\u00e3o desses pa\u00edses desde dentro, e podemos ver muitos exemplos, na L\u00edbia e na S\u00edria tamb\u00e9m. Sobre a S\u00edria, hoje a imprensa burguesa demoniza Assad, mas essa \u00e9 apenas a ideologia da guerra. N\u00f3s s\u00f3 precisamos ler o texto do jornal \u201cThe Neoconservative Revolution\u201d, no come\u00e7o do s\u00e9culo XXI, no m\u00ednimo dez anos antes da eclos\u00e3o da dita Guerra Civil S\u00edria. Se lermos esse texto, falam abertamente que Assad era o culpado por Israel e o culpado pelos Estados Unidos, e esse texto do Neo Conservative Revolution chama pela derrubada de Assad. E vemos a destrui\u00e7\u00e3o da S\u00edria, milh\u00f5es de pessoas est\u00e3o mortas ou desalojadas, est\u00e3o condenadas a voar como refugiados, a condi\u00e7\u00e3o das mulheres \u00e9 terr\u00edvel, n\u00e3o apenas vemos a reintrodu\u00e7\u00e3o da poligamia, vemos a reintrodu\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o dom\u00e9stica da mulher. E \u00e9 essa a realidade.<\/p>\n<p>Este \u201cregime change\u201d, essas revolu\u00e7\u00f5es coloridas, \u00e9 claro, s\u00e3o golpes organizados a partir de Washington ou de Bruxelas, particularmente de Washington. E os Estados Unidos tentou dar um golpe na China tamb\u00e9m. Na China, a dita \u201cPrimavera chinesa\u201d, em 1989, na pra\u00e7a de Tiananmen, foi uma tentativa de realiza\u00e7\u00e3o de uma revolu\u00e7\u00e3o colorida na China. Se essa revolu\u00e7\u00e3o colorida tivesse sido bem-sucedida na China, o pa\u00eds mais populoso do mundo, a cat\u00e1strofe teria sido bastante grande, e nesse caso tamb\u00e9m voc\u00ea pode ver a hipocrisia do Ocidente Liberal.<\/p>\n<p>NOVACULTURA.info:\u00a0Para se referir a esse processo da condi\u00e7\u00e3o das mulheres com a reintrodu\u00e7\u00e3o da poligamia e da escravid\u00e3o sexual oriundas das agress\u00f5es imperialistas recentes, em seu livro \u201cEsquerda Ausente\u201d voc\u00ea usa o termo \u201ccontrarrevolu\u00e7\u00e3o neocolonial e antifeminista\u201d. Em outra obra sua, voc\u00ea afirma que a luta das mulheres e a opress\u00e3o contra a mulher tamb\u00e9m s\u00e3o formas das lutas de classes. Pode nos falar um pouco sobre isso?<\/p>\n<p>Losurdo:\u00a0Sim, claro. Eu j\u00e1 falei da segunda forma da luta de classes. A primeira forma, \u00e9 claro, \u00e9 a luta de classes do proletariado e das classes populares contra a burguesia e contra o capitalismo. A segunda forma, eu j\u00e1 disse. Eu me referi ao Congresso de Baku, onde o lema que conclui o Manifesto Comunista \u201cProlet\u00e1rios de todos os pa\u00edses, uni vos\u201d, e o novo lema ap\u00f3s o Congresso de Baku \u201cProlet\u00e1rios de todos os pa\u00edses, e na\u00e7\u00f5es oprimidas de todo o mundo, uni vos\u201d. Neste caso, Lenin identificou dois sujeitos revolucion\u00e1rios, o proletariado, \u00e9 claro, e as na\u00e7\u00f5es oprimidas. Mas temos que falar de outro sujeito revolucion\u00e1rio. Neste caso, eu estou falando das mulheres. Isso n\u00e3o \u00e9 surpreendente. Primeiro, podemos falar da segunda forma de luta de classes, a luta das na\u00e7\u00f5es oprimidas. Se considerarmos justamente como luta de classes a luta dos oper\u00e1rios em f\u00e1bricas por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho e de vida, por que dever\u00edamos negar o car\u00e1ter de luta de classes se um povo em S\u00e3o Domingo, Haiti faz sua revolu\u00e7\u00e3o contra a escravid\u00e3o e a escraviza\u00e7\u00e3o? \u00c9 claro que isso \u00e9 luta de classes!<\/p>\n<p>E sobre as mulheres, \u00e9 claro, as mulheres por muito tempo, por s\u00e9culos, foram exclu\u00eddas dos direitos pol\u00edticos, e algumas vezes at\u00e9 mesmo dos direitos civis. Elas eram for\u00e7adas a trabalhar, mas apenas em locais muito ruins, onde as condi\u00e7\u00f5es de trabalho fossem muito ruins. As mulheres eram exclu\u00eddas dos melhores locais de trabalho. Elas n\u00e3o tinham nem o direito \u00e0 universidade, por exemplo. \u00c9 claro que essa luta das mulheres por emancipa\u00e7\u00e3o \u00e9 outra forma de luta de classes. A minha vis\u00e3o \u00e9 bem clara, eu acredito que \u00e9 a vis\u00e3o de Marx e Engels n\u00e3o apenas porque Engels disse que a opress\u00e3o da mulher foi, e eu cito Engels, \u201ca primeira opress\u00e3o de classe\u201d. Engels j\u00e1 havia falado sobre a luta das mulheres contra a opress\u00e3o e contra a escravid\u00e3o dom\u00e9stica e afins, como uma forma de luta de classes. N\u00e3o apenas por essa raz\u00e3o, se considerarmos a teoria marxista, n\u00f3s podemos tra\u00e7ar essa conclus\u00e3o. A explora\u00e7\u00e3o tem a ver com formas de divis\u00f5es injustas do trabalho. Esta divis\u00e3o injusta do trabalho pode ser considerada a \u00e2mbito internacional, os povos coloniais que s\u00e3o frequentemente escravos ou semi-escravo, esta divis\u00e3o injusta do trabalho pode ser considerada a \u00e2mbito internacional, como j\u00e1 disse; a \u00e2mbito nacional, essa sendo o proletariado e outras classes exploradas pela burguesia; e esta divis\u00e3o injusta do trabalho pode ser considerada dentro das rela\u00e7\u00f5es entre homens e mulheres. Temos que compreender as formas que a divis\u00e3o injusta do trabalho seja considerada em tr\u00eas diferentes \u00e2mbitos.<\/p>\n<p>NOVACULTURA.info:\u00a0Outro perigo de guerra constante da \u00e9poca atual \u00e9 o perigo de guerra na Pen\u00ednsula Coreana, que vive constantemente sob provoca\u00e7\u00f5es por parte das bases militares dos Estados Unidos. O que voc\u00ea pens sobre isso, ainda mais considerando que tamb\u00e9m \u00e9 um pa\u00eds que realizou uma revolu\u00e7\u00e3o anticolonial vitoriosa e edificou seu socialismo sob estas bases, e sendo o primeiro pa\u00eds a desferir um golpe no Imperialismo norte-americano?<\/p>\n<p>Losurdo:\u00a0Em minha opini\u00e3o, toda a hist\u00f3ria da Guerra Fria foi, ao mesmo tempo, uma hist\u00f3ria da luta entre a emancipa\u00e7\u00e3o anticolonial e a rea\u00e7\u00e3o colonialista. E a Coreia foi protagonista de uma grande revolu\u00e7\u00e3o anticolonial, e, \u00e9 claro, os Estados Unidos, sob todas as formas, tentou sufocar esta revolu\u00e7\u00e3o anticolonial. Do outro lado, n\u00e3o podemos nos permitir ignorar os erros dos l\u00edderes da Coreia do Norte. Eles est\u00e3o certos em temer ser derrubados como Gaddafi ou Saddam Hussein foram derrubados, e nesse sentido eu concordo com voc\u00ea, o principal respons\u00e1vel pela situa\u00e7\u00e3o extremamente perigosa na Pen\u00ednsula Coreana s\u00e3o os Estados Unidos, quanto a isso, n\u00e3o restam d\u00favidas. Mas talvez as respostas da lideran\u00e7a norte-coreana n\u00e3o seja sempre a correta, porque agora os Estados Unidos e o Jap\u00e3o t\u00eam o pretexto de militarizar toda a pen\u00ednsula ao instalar o aparato antim\u00edsseis, e neste caso os Estados Unidos e o Jap\u00e3o t\u00eam o pretexto de preparar a guerra contra a China tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>NOVACULTURA.info:\u00a0Voc\u00ea pode enviar aos leitores de NOVACULTURA.info uma mensagem de solidariedade ao povo brasileiro, que assim como voc\u00ea enfatizou a revolu\u00e7\u00e3o anticolonial mundial, a revolu\u00e7\u00e3o brasileira tamb\u00e9m \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o dirigida contra as classes dominantes submissas \u00e0s pot\u00eancias imperialistas, principalmente dos Estados Unidos?<\/p>\n<p>Losurdo:\u00a0No final da Guerra Fria, os EUA tentaram reintroduzir a Doutrina Monroe na Am\u00e9rica Latina. Eles estavam muito confiantes que iriam derrubar Castro em Cuba, e consolidar a domina\u00e7\u00e3o colonial ou semicolonial em toda a Am\u00e9rica Latina. Como voc\u00eas sabem, a hist\u00f3ria se desenvolveu de maneira muito diferente, a rebeli\u00e3o contra a Doutrina Monroe foi muito disseminada, n\u00e3o apenas em Cuba, mas Brasil, Venezuela, Nicar\u00e1gua. Mas agora podemos ver a tentativa dos Estados Unidos em reintroduzir a Doutrina Monroe, e neste sentido vemos a nova tentativa do colonialismo e do neocolonialismo, os EUA tentam at\u00e9 mesmo reintroduzir na Am\u00e9rica Latina o dito Consenso de Washington, que \u00e9 o Consenso do Neoliberalismo.<\/p>\n<p>Foto: NOVACULTURA.info<\/p>\n<p>Fonte:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.novacultura.info\/\" target=\"_blank\">NOVACULTURA.info<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Na semana passada, o fil\u00f3sofo marxista italiano Domenico Losurdo esteve no Brasil para o lan\u00e7amento de seu novo livro, Guerra e Revolu\u00e7\u00e3o, publicado \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/14147\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[74],"tags":[],"class_list":["post-14147","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c87-revolucao-russa"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3Gb","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14147","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14147"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14147\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14147"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14147"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14147"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}