{"id":14228,"date":"2017-04-26T15:26:53","date_gmt":"2017-04-26T18:26:53","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=14228"},"modified":"2017-08-24T18:57:23","modified_gmt":"2017-08-24T21:57:23","slug":"argentina-em-contrarrevolucao-acidentada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/14228","title":{"rendered":"Argentina em contrarrevolu\u00e7\u00e3o (acidentada)"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.clarin.com\/sociedad\/Biolcati-Mauricio-Macri-Exposicion-Palermo_CLAIMA20110714_0156_34.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><strong><em>A tentativa de constru\u00e7\u00e3o de uma ditadura mafiosa.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Jorge Beinstein<!--more--><\/p>\n<p>A hip\u00f3tese de que a Argentina se encontra atualmente submersa em um processo de tipo contrarrevolucion\u00e1rio pode parecer exagerada. N\u00e3o teria sentido falar de contrarrevolu\u00e7\u00e3o quando n\u00e3o existia em 2015 nenhuma amea\u00e7a revolucion\u00e1ria, mas uma experi\u00eancia que do ponto de vista econ\u00f4mico poderia ser caracterizada como keynesianismo light extremamente sens\u00edvel \u00e0s press\u00f5es do establishment e associada a um pacote pol\u00edtico-cultural igualmente moderado, ainda que reivindicasse outros temas que os da milit\u00e2ncia revolucion\u00e1ria dos anos 1960 e 1970, o fazia apagando seu programa e suas formas de luta, reduzindo-a \u00e0 imagem herb\u00edvora de uma gera\u00e7\u00e3o \u201cidealista\u201d, que <em>\u201cqueria mudar o mundo\u201d<\/em>. Isso e um pouco mais (sobretudo uma gradual transfer\u00eancia de rendas para as classes baixas) bastaram \u00e0s elites dominantes para levantar a bandeira do combate contra o \u201cpopulismo\u201d e arrastar grandes setores das camadas m\u00e9dias.<\/p>\n<p>Nem todas as contrarrevolu\u00e7\u00f5es foram geradas por situa\u00e7\u00f5es ou perigos revolucion\u00e1rios, em certos casos se tratava de processos que visavam liquidar reformas ou bloqueios que impediam a ofensiva elitista. Se nos atemos \u00e0 experi\u00eancia hist\u00f3rica, essa modera\u00e7\u00e3o do advers\u00e1rio constitui uma condi\u00e7\u00e3o importante para a irrup\u00e7\u00e3o de avalanches reacion\u00e1rias, Ignazio Silone se referiu \u00e0 ascens\u00e3o do fascismo italiano como <em>\u201ca vit\u00f3ria de uma contrarrevolu\u00e7\u00e3o que enfrentava uma revolu\u00e7\u00e3o inexistente\u201d<\/em>[1], aus\u00eancia que incentivou a agressividade fascista certa de sua impunidade.<\/p>\n<p><strong>De 1955 a 1976<\/strong><\/p>\n<p>Poder\u00edamos localizar em 1955 a primeira tentativa contrarrevolucion\u00e1ria[2], o objetivo de seus protagonistas locais era o retorno \u00e0 velha sociedade olig\u00e1rquica de come\u00e7os do s\u00e9culo XX, a tentativa fracassou apesar das repress\u00f5es e proscri\u00e7\u00f5es transbordadas pelo novo pa\u00eds com seus sindicatos oper\u00e1rios, suas ind\u00fastrias e suas novas classes m\u00e9dias. N\u00e3o pode ser considerado um fracassado de todo, pois iniciou um complexo processo de submiss\u00e3o aos Estados Unidos, de estrangeiriza\u00e7\u00e3o industrial e financeira, de concentra\u00e7\u00e3o de rendas, de reconvers\u00e3o policial das For\u00e7as Armadas. O mesmo despertou resist\u00eancias populares que foram se estendendo e radicalizando at\u00e9 chegar a disputar o poder, em come\u00e7os dos anos 1970. Seu corpo pol\u00edtico era o peronismo que, como assinalara Cooke, se converteu \u201cno fato maldito do pa\u00eds burgu\u00eas\u201d, bloqueando sua estabiliza\u00e7\u00e3o. Os c\u00edrculos dirigentes n\u00e3o podiam consolidar seu predom\u00ednio enquanto as for\u00e7as populares n\u00e3o conseguissem derrota-los. \u00c9 o que Portantiero definiu como <em>empate hegem\u00f4nico<\/em>. N\u00e3o se tratou de um cabo-de-guerra com resultado zero. Esse p\u00e2ntano coberto por uma densa camada de podrid\u00e3o pol\u00edtica engendrou germes, primeiros desenvolvimentos e articula\u00e7\u00f5es de um leque social parasit\u00e1rio, que foi se apropriando dos circuitos econ\u00f4micos e institucionais do pa\u00eds interrelacionado com a expans\u00e3o imperial dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>A ditadura instalada em 1976 marcou o salto qualitativo do processo degenerativo do sistema. A acumula\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as perversas se converteu em vit\u00f3ria do capitalismo g\u00e2ngster, onde convergiam velhos oligarcas reconvertidos e burgueses presun\u00e7osos, militares, propriet\u00e1rios rurais e de grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o, fornecedores do Estado, industriais, banqueiros e comerciantes, massa difusa atravessada pela integra\u00e7\u00e3o da cultura da especula\u00e7\u00e3o financeira e dos neg\u00f3cios r\u00e1pidos em geral com pr\u00e1ticas criminosas a grande escala.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m de seu final pol\u00edtico grotesco, a contrarrevolu\u00e7\u00e3o de 1976 implantou mudan\u00e7as duradouras, j\u00e1 que a partir dela a classe dominante transformada em lumpemburguesia deixou definitivamente para tr\u00e1s seus componentes industrialistas-nacionais (pouco serias) ou olig\u00e1rquicas-aristocr\u00e1ticas (com sombrios passados n\u00e3o muito distantes). Tamb\u00e9m obteve outros \u00eaxitos n\u00e3o menos significativos, como a consolida\u00e7\u00e3o nos espa\u00e7os pol\u00edticos, jur\u00eddico, sindicais e comunicacionais de redes mafiosas, que passaram a ser o elenco central do sistema e, sobretudo, ao destruir no passado os desafios dos revolucion\u00e1rios dos anos 1960-1970.<\/p>\n<p>De todos os modos, n\u00e3o consolidou estruturas est\u00e1veis de domina\u00e7\u00e3o. A din\u00e2mica de curto prazo e transnacionalizada foi levando o sistema para o desastre de 2001 que aparentou selar seu esgotamento hist\u00f3rico ainda que, na realidade, s\u00f3 tenha se tratado do recuo t\u00e1tico das elites aturdidas e algumas assustadas pela derrubada, \u00e0 espera de tempos melhores.<\/p>\n<p>A era Menem, que marcou nos anos 1990 o auge ideol\u00f3gico desse ciclo, coincidiu com os fen\u00f4menos globais de financeiriza\u00e7\u00e3o e unipolaridade estadunidense, deixou entre suas v\u00e1rias heran\u00e7as uma direita peronista pol\u00edtica e sindical que vinha de antes, por\u00e9m que passou a constituir o instrumental operativo normal dos c\u00edrculos dominantes.<\/p>\n<p><strong>De 2001 a 2015<\/strong><\/p>\n<p>A degrada\u00e7\u00e3o dos anos 2000 e 2001 n\u00e3o derivou em uma nova contrarrevolu\u00e7\u00e3o. As classes dirigentes deterioradas foram incapazes de superar pela direita sua pr\u00f3pria crise, n\u00e3o puderam aglutinar seus n\u00facleos centrais, impondo um regime dur\u00e1vel de pen\u00faria generalizada para as classes baixas, e a possibilidade de agrupar as camadas m\u00e9dias como locomotiva quebrada pelo resultado econ\u00f4mico catastr\u00f3fico de fins de 2001. Ent\u00e3o, se produziu uma situa\u00e7\u00e3o que, ao que parece, reproduzia a dos anos do \u201cempate hegem\u00f4nico\u201d, ainda que na realidade se tratasse de outra coisa: um p\u00e2ntano sem alternativas, sem bandeiras \u00e0 vista, onde a classe dominante n\u00e3o podia mostrar as suas e as classes populares careciam delas.<\/p>\n<p>O resultado foi a irrup\u00e7\u00e3o, em 2003, de um h\u00edbrido progressista que foi avan\u00e7ando no espa\u00e7o <em>\u201cdo poss\u00edvel\u201d<\/em>. A melhoria dos pre\u00e7os internacionais das mat\u00e9rias primas, a expans\u00e3o do mercado do Brasil e outros benef\u00edcios externos foram combinados com estrat\u00e9gias de amplia\u00e7\u00e3o prudente do mercado interno. Aumentaram os sal\u00e1rios reais recuperando os n\u00edveis de meados dos anos 1990, por\u00e9m abaixo dos meados dos 1980 e inferiores, por sua vez, aos de meados dos anos 1970. Reduziu-se o desemprego, duplicou-se o n\u00famero de aposentados (e renacionalizou-se o sistema de aposentadoria), por\u00e9m ficaram intactos os interesses dos grupos parasit\u00e1rios dominantes.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia obteve seu auge quando come\u00e7ou o esvaziamento dos pre\u00e7os internacionais das mat\u00e9rias primas, enquanto a expans\u00e3o indolor do mercado interno tocava os limites do sistema. Esgotou-se a amplia\u00e7\u00e3o desse mercado, apelando para o encolhimento do desemprego com sal\u00e1rios reais em alta moderada. O passo seguinte necess\u00e1rio teria sido distribuir rendas para as classes baixas em grande escala, acelerando os crescimentos salariais, o que requeria estabelecer um forte controle p\u00fablico do com\u00e9rcio interior (bloqueando as corridas inflacion\u00e1rias), do com\u00e9rcio exterior e do mercado de divisas (para libertar a economia da chantagem dos exportadores concentrados) e do sistema banc\u00e1rio (para reduzir custos financeiros). Por\u00e9m, isso n\u00e3o podia ser feito sem a quebra do poder de bloqueio das m\u00e1fias, cujos instrumentos midi\u00e1ticos e jur\u00eddicos cumprem um papel decisivo. Dito de outra maneira: para que a economia continuasse crescendo era preciso ir mais al\u00e9m dos limites concretos do pa\u00eds burgu\u00eas-mafioso, implantando uma revolu\u00e7\u00e3o popular democratizadora do conjunto das rela\u00e7\u00f5es sociais, objetivo inexistente no imagin\u00e1rio daquele governo. Os argumentos b\u00e1sicos do kirchnerismo eram que essa ofensiva n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o era necess\u00e1ria, mas que tamb\u00e9m resultava suicida, dado o enorme poder da direita ou que n\u00e3o existia respaldo popular necess\u00e1rio para dita aventura. Claro, o apoio n\u00e3o aparecia porque n\u00e3o era incentivado mediante grandes medidas sociais (salariais, de cr\u00e9dito, etc.). Assim foi como a din\u00e2mica astuta \u201cdo poss\u00edvel\u201d se converteu no caminho para a derrota, o h\u00edbrido pode reinar durante doze anos gra\u00e7as ao recuo inicial das elites dirigentes. Contudo, seu reinado possibilitou a recomposi\u00e7\u00e3o dessas elites, sua reimplanta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, midi\u00e1tica, pol\u00edtica, jur\u00eddica, orquestrando um enorme tsunami reacion\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>La contrarrevoluci\u00f3n<\/strong><\/p>\n<p>Com a chegada de Macri \u00e0 presid\u00eancia, desencadeou-se um fen\u00f4meno que combina aspectos pr\u00f3prios de uma restaura\u00e7\u00e3o conservadora e seus aspectos neofascistas com outros que expressam uma desaforada fuga saqueadora para diante. Nostalgias dos tempos de ditadura militar e do menemismo mais algumas pequenas doses desbotadas de velho aristocratismo olig\u00e1rquico unidas ao \u00edmpeto do saqueados completamente desinteressado dessas ou outras nostalgias, ao que se agrega o desprezo para com os pobres. Tudo isso atravessado por componentes de barb\u00e1rie altamente destrutivos.<\/p>\n<p>Observemos, em primeiro lugar, o comportamento do sujeito do desastre, reitera\u00e7\u00e3o ampliada e radicalizada do espectro lumpemburgu\u00eas dos anos 1990, onde se apresentam personagens de configura\u00e7\u00e3o vari\u00e1vel imersos em complexas tramas de opera\u00e7\u00f5es que v\u00e3o desde atividades industriais mescladas com confusos neg\u00f3cios de exporta\u00e7\u00e3o e importa\u00e7\u00e3o at\u00e9 obscuros contratos de obras p\u00fablicas, ganhando muito dinheiro com a compra-venda de jogadores de futebol vinculada \u00e0 lavagem mundial de fundos provenientes do narcotr\u00e1fico, concretizando empreendimentos agr\u00edcolas, crescimentos exorbitantes de pre\u00e7os, contrabandos, manipula\u00e7\u00f5es financeiras, golpes ao Estado e manipula\u00e7\u00f5es de multim\u00eddias. Mundo tenebroso protegido por redes midi\u00e1ticas e jur\u00eddicas, reduzida lumpemburguesia transnacionalizada, rodeada por um c\u00edrculo mais estendido de aspirantes \u00e0 c\u00fapula, onde se transitam ju\u00edzes, pol\u00edticos, burocratas sindicais, jornalistas e comerciantes audazes, exercendo sua influ\u00eancia sobre grandes massas flutuantes de classe m\u00e9dia.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel visualizar o topo da classe dominante argentina como a uma sorte de articula\u00e7\u00e3o mafiosa inst\u00e1vel, que pode em certas conjunturas unir for\u00e7as em torno de uma ofensiva saqueadora, por\u00e9m que mais adiante aparece submersa em intermin\u00e1veis disputas internas, assediada pelas consequ\u00eancias sociais e econ\u00f4micas de seus saqueios e por um contexto global de crise.<\/p>\n<p>Dois personagens sintetizam o percurso hist\u00f3rico dessa classe desde sua distante origem na col\u00f4nia at\u00e9 hoje: Jos\u00e9 Alfredo Martines de Hoz e Maurizio Macr\u00ec.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia Martinez de Hoz se instalou em Buenos Aires em fins do s\u00e9culo XVIII e acumulou uma primeira fortuna com o contrabando e o tr\u00e1fico de escravos, convertida depois em grande propriet\u00e1ria de terras (mediante exterm\u00ednio de povos origin\u00e1rios). Em 1866, o descendente Jos\u00e9 Toribio Martinez de Hoz fundou em sua casa a Sociedade Rural Argentina, basti\u00e3o da oligarquia. Muito tempo depois, Jos\u00e9 Alfredo Martinez de Hoz, encabe\u00e7ando neg\u00f3cios legais e ilegais muito diversificados, em 1976, foi o c\u00e9rebro civil da ditadura militar dando cobertura institucional aos neg\u00f3cios parasit\u00e1rios dominantes, como o ditado na <em>Lei de entidades financeiras<\/em> vigente at\u00e9 hoje. Os Martinez de Hoz representam o ciclo completo que vai desde as origens coloniais, passando pela consolida\u00e7\u00e3o aristocr\u00e1tica-latifundi\u00e1ria at\u00e9 chegar a sua transforma\u00e7\u00e3o lumpemburguesa.<\/p>\n<p>Por sua parte, Maurizio Macr\u00ec \u00e9 o primog\u00eanito de um cl\u00e3 mafioso origin\u00e1rio da Cal\u00e1bria. Seu av\u00f4, Giorgio, acumulou uma importante fortuna na It\u00e1lia mussoliniana como empreiteiro do estado em obras p\u00fablicas (principalmente na Abiss\u00ednia ocupada pelo ex\u00e9rcito italiano). Terminada a guerra, fundou uma for\u00e7a pol\u00edtica neofascista, por\u00e9m assediado pelos novos tempos democr\u00e1ticos, emigrou para a Argentina, seguido logo depois por seus filhos em 1949. Seu primog\u00eanito, Franco, continuando a especialidade de seu pai, em pouco tempo se converteu em empres\u00e1rio do setor de constru\u00e7\u00e3o, fazendo grandes neg\u00f3cios como empreiteiro do estado e contraiu matrim\u00f4nio nos anos 1950 com Alicia Blanco Villegas, pertencente a uma tradicional fam\u00edlia de latifundi\u00e1rios da Prov\u00edncia de Buenos Aires. O grande salto se deu durante a \u00faltima ditadura militar em estreita rela\u00e7\u00e3o com v\u00e1rios de seus chefes. Foi o caso do Almirante Massera, com quem compartilhou o pertencimento \u00e0 c\u00e9lebre sociedade mafiosa italiana P2. Seguindo a linha sucess\u00f3ria cl\u00e1ssica, seu primog\u00eanito Maurizio aparece, segundo explicam diversos autores, como o herdeiro e chefe natural do cl\u00e3 familiar, o <strong><em>capobastone<\/em><\/strong> da <strong><em>\u2019ndrina<\/em><\/strong> (se empregarmos a terminologia da m\u00e1fia calabresa: a <strong><em>\u2018ndrangheta<\/em><\/strong>)[3]. \u00c9 um caso sem precedentes na hist\u00f3ria argentina e muito raro a n\u00edvel global que um personagem deste tipo ocupe a presid\u00eancia de uma pa\u00eds, ainda que essa aberra\u00e7\u00e3o possa ser compreendida a partir da degrada\u00e7\u00e3o profunda da burguesia argentina. J\u00e1 n\u00e3o se trata de pol\u00edticos ou militares vendidos \u00e0s m\u00e1fias nem de oligarcas transformados em mafiosos, mas de um mafioso convertido em Presidente.<\/p>\n<p>Tudo isto nos serve para entender melhor a contrarrevolu\u00e7\u00e3o em curso. Desde dezembro de 2015, se sucederam vertiginosamente medidas como a hiperdesvaloriza\u00e7\u00e3o do peso, a redu\u00e7\u00e3o ou anula\u00e7\u00e3o de imposto sobre a exporta\u00e7\u00e3o, o crescimento de taxas de juros e de tarifas de eletricidade ou a abertura importadora e a liberaliza\u00e7\u00e3o do mercado cambial, que aumentaram o ritmo inflacion\u00e1rio, contra\u00edram os sal\u00e1rios reais, encolheram o mercado interno, aumentaram o d\u00e9ficit fiscal, o desemprego e a fuga de capitais. Como \u00e9 l\u00f3gico, os investimentos estrangeiros anunciados nunca chegaram, enquanto aumenta sem cessar a d\u00edvida p\u00fablica externa. Todo o anterior pode ser sintetizado como um grande saqueio concentrador de rendas, que v\u00e3o sendo sistematicamente enviados ao exterior, pilhagem sustentada com d\u00edvidas que, em princ\u00edpio, deveria derivar cedo ou tarde em uma megacrise ao estilo do ocorrido em 2001.<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno n\u00e3o se reduz ao plano econ\u00f4mico. Estende suas garras para o conjunto da vida social, desde a destrui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, at\u00e9 a sinuosa reinstala\u00e7\u00e3o da <em>teoria dos dois dem\u00f4nios<\/em>, aliviando a carga do genoc\u00eddio da \u00faltima ditadura (que segundo o governo macrista n\u00e3o seria t\u00e3o grande) e a tentativa reduzir os direitos sindicais e de protesto, passando pela gradual implanta\u00e7\u00e3o repressiva e pelo bombardeio midi\u00e1tico convencional e atrav\u00e9s das redes sociais, inflando formas subculturais fascistas. Visualizando sua din\u00e2mica geral e mais al\u00e9m dos discursos oficiais, o governo macrista aponta desde sua instala\u00e7\u00e3o para a consolida\u00e7\u00e3o de uma ditadura mafiosa, sistema autorit\u00e1rio de governo com rosto civil e apar\u00eancia constitucional, que vem avan\u00e7ando em meio de incompet\u00eancias e desordens. A l\u00f3gica do processo \u00e9 simples: o encolhimento do mercado local combina com um mercado internacional arrefecido que n\u00e3o permite auges exportadores, empurra as elites dominantes a acentuar a rapina interna, o que apresenta crescentes problemas de controle do descontentamento popular. A intoxica\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica se torna insuficiente e a base social do governo vai se restringindo. Ent\u00e3o, o recurso \u00e0 repress\u00e3o direta com mais ou menos coberturas \u201clegais\u201d vai se convertendo em um instrumento cada vez mais importante.<\/p>\n<p><strong>O p\u00e2ntano e o labirinto<\/strong><\/p>\n<p>Duas imagens, a do p\u00e2ntano e a do labirinto, facilitam a compreens\u00e3o da trag\u00e9dia argentina.<\/p>\n<p>Os primeiros meses de 2017 marcam o atolamento do processo, a impopularidade do governo ascende rapidamente, alguns c\u00edrculos opositores assinalam fracassos macristas como resultado da estupidez do presidente, de sua falta de intelig\u00eancia. Seria mais acertado v\u00ea-los como as consequ\u00eancias do choque entre uma mentalidade mafiosa simplificadora e audaz, muito eficaz no mundo dos neg\u00f3cios obscuros, por\u00e9m crescentemente ineficaz ante a implanta\u00e7\u00e3o de uma sociedade complexa. Um amplo leque de cumplicidades parlamentares e sindicais, de n\u00e3o-oficialismos complacentes, possibilitou o avan\u00e7o esmagador dos primeiros meses, por\u00e9m a persist\u00eancia da recess\u00e3o e a multiplica\u00e7\u00e3o de perversidades governamentais foram gerando uma oposi\u00e7\u00e3o popular crescente. A realidade se apresenta como um p\u00e2ntano que bloqueia, dificulta a marcha para os depredadores, cujos del\u00edrios se afundam no barro viscoso do territ\u00f3rio conquistado. A l\u00f3gica do poder faz com que as tentativas de sair dessa situa\u00e7\u00e3o tendam a agrav\u00e1-la, a intoxica\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica vai perdendo efic\u00e1cia, as arbitrariedades jur\u00eddicas e as repress\u00f5es engendram seu contr\u00e1rio: rep\u00fadio popular. O governo vai mudando de aspecto, a mem\u00f3ria latente mafiosa-fascista da <em>\u2018ndrina<\/em> original, do mussoliniano av\u00f4 Giorgio, convergindo com os recursos dos magn\u00edficos neg\u00f3cios realizados nos tempos de Massera e Videla, aparece a partir do rosto crispado de Maurizio substituindo a cara am\u00e1vel fabricada pelos assessores de imagem. O selo autorit\u00e1rio convocador de minorias ferozes aparece como a bandeira da contrarrevolu\u00e7\u00e3o assediada.<\/p>\n<p>De todos os modos, o atual sistema de poder n\u00e3o se apoia s\u00f3 em suas pr\u00f3prias for\u00e7as, conta com um aliado decisivo: a debilidade estrat\u00e9gica de suas v\u00edtimas emaranhadas em um labirinto que lhes impediu at\u00e9 agora de passar \u00e0 ofensiva. Labirinto simb\u00f3lico, psicol\u00f3gico, por\u00e9m tamb\u00e9m constru\u00eddo com aparatos sindicais e repressivos, institui\u00e7\u00f5es degredadas, din\u00e2micas econ\u00f4micas depressivas.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o lembrar dos dirigentes opositores e de outros n\u00e3o tanto repetindo, desde os primeiros dias do processo, seu desejo de que <em>\u201co governo vai bem porque desse modo o pa\u00eds tamb\u00e9m ir\u00e1 bem\u201d<\/em>, enquanto o governo desvalorizava, eliminava impostos \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o, subia as taxas de juros, liberava importa\u00e7\u00f5es, dava os primeiros sinais repressivos. Como n\u00e3o ter presentes esses mesmos personagens insistindo que Macri \u00e9 um governo leg\u00edtimo, avalizado por sua origem eleitoral democr\u00e1tica e que, por conseguinte, deveria desfrutar de governabilidade at\u00e9 o final legal de seu mandato (fins de 2019), ignorando sua chegada ao poder atrav\u00e9s de uma sucess\u00e3o de manipula\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas e jur\u00eddicas, que bem poderia ser caracterizada como golpe brando, e seu desenvolvimento posterior como constru\u00e7\u00e3o em ziguezague, por\u00e9m sistem\u00e1tica, de um sistema ditatorial.<\/p>\n<p>Encontramo-nos ante o bloqueio ideol\u00f3gico de pol\u00edticos que predicam a submiss\u00e3o \u201c\u00e0s institui\u00e7\u00f5es\u201d (mafiosas) e de chefes sindicais dedicados a arrefecer os protestos sociais, come\u00e7ando pela c\u00fapula da CGT, condenando as bases populares a percorrer um confuso labirinto sem sa\u00edda real. Tentam nos convencer de que esse labirinto tem uma porta de sa\u00edda e que um conjunto de s\u00e1bios dirigentes podem localizar o <em>fio de Ariadna,<\/em> que permitir\u00e1 superar a armadilha. Recomenda aferrar-se ao mesmo e percorrer mansamente passagens que atravessas prazos eleitorais (e suas correspondentes intrigas politiqueiras), decis\u00f5es arbitr\u00e1rias de camarilhas jur\u00eddicas, avalanches midi\u00e1ticas e poss\u00edveis di\u00e1logos com um poder autorit\u00e1rio. Na realidade, o labirinto n\u00e3o tem sa\u00edda. A \u00fanica possibilidade emancipadora \u00e9 destru\u00ed-lo nos c\u00e9rebros das v\u00edtimas, nas ruas, implantando uma ampla ofensiva popular, esmagando as fortalezas elitistas (midi\u00e1ticas, jur\u00eddicas, empresariais, pol\u00edticas).<\/p>\n<p>O que aparece com o fracasso econ\u00f3mico de Macri: uma recess\u00e3o que pode derivar na normaliza\u00e7\u00e3o de uma <em>\u201ceconomia de baixa intensidade\u201d<\/em>, de estancamento tendencial prolongado (mais al\u00e9m de algumas expans\u00f5es an\u00eamicas), pode chegar a converter-se na consolida\u00e7\u00e3o de uma sociedade desintegrada, ca\u00f3tica, abrigando v\u00e1rias \u00e1reas submersas na pobreza e na indig\u00eancia, governada por uma c\u00fapula mafiosa (com ou sem o <em>capobastone<\/em> calabr\u00eas).<\/p>\n<p>Se observarmos a longo prazo, constataremos que desde a forma\u00e7\u00e3o da Argentina moderna, em fins do s\u00e9culo XIX, se perpetuou a reprodu\u00e7\u00e3o, como componente imprescind\u00edvel do subdesenvolvimento, de uma classe dominante olig\u00e1rquica que chega agora \u2013 finalmente \u2013 a seu n\u00edvel de degenera\u00e7\u00e3o extrema da articula\u00e7\u00e3o mafiosa, navegando nos circuitos globais de neg\u00f3cios parasit\u00e1rios. Esse percurso hist\u00f3rico foi de tanto em tanto atravessado por tentativas democratizantes, que buscavam principalmente integrar o sistema de camadas sociais exclu\u00eddas. Por\u00e9m, uma e outra vez, o sistema as desbaratou, impondo sua din\u00e2mica excludente. S\u00f3 foi poss\u00edvel faz\u00ea-lo porque essas ondas populares nunca eliminaram os pilares essenciais de sua domina\u00e7\u00e3o, apaziguadas, desviadas, enganadas pelos mitos modificadores do pa\u00eds burgu\u00eas, suas passagens institucionais, pseudopatri\u00f3ticas ou globalistas, dialoguistas ou restauradores da ordem.<\/p>\n<p>Em \u00faltima inst\u00e2ncia, trata-se do combate entre a criatividade do povo, reprodu\u00e7\u00e3o ofensiva de identidade, desenvolvimento de lutas, enfrentando hoje as for\u00e7as tan\u00e1ticas desatadas por uma elite, cujo \u00fanico horizonte \u00e9 o saqueio.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/beinstein.lahaine.org\/b2-img\/Beinstein_Argentinaencotrarrevolucion_ab.pdf\" target=\"_blank\">http:\/\/beinstein.lahaine.org\/<wbr \/>b2-img\/Beinstein_<wbr \/>Argentinaencotrarrevolucion_<wbr \/>ab.pdf<\/a><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n<hr \/>\n<p>[1] Ignazio Silone, \u201cL\u2019\u00e9cole des dictateurs\u201d, Gallimard, Paris, 1981.<\/p>\n<p>[2] Fica aberta a reflex\u00e3o acerca do significado do golpe de estado de 1930.<\/p>\n<p>[3] Recomendo a leitura de:<br \/>\n&#8211; Rocco Carbone, \u201cAndragathos\u201d, P\u00e1gina 12, 24 de febrero de 2017, &lt;<a href=\"https:\/\/www.pagina12.com.ar\/22055-andragathos\" target=\"_blank\">https:\/\/www.pagina12.com.ar\/<wbr \/>22055-andragathos<\/a>&gt;<\/p>\n<p>&#8211; \u201cAntonio Macri, italian leader of the \u2018Ndrangheta&#8230;\u201d, &lt;<a href=\"https:\/\/www.revolvy.com\/topic\/Antonio%20Macr%C3%AC&amp;uid=157\">https:\/\/www.revolvy.com\/topic\/<wbr \/>AntonioMacr\u00ec&amp;uid=157<\/a>&gt;<\/p>\n<p>&#8211; Horacio Verbitsky, \u201cDe Calabria al Plata. El presidente Maurizio Macr\u00ec y las mafias\u201d, P\u00e1gina 12, 9 de abril de 2017, &lt;<a href=\"https:\/\/www.pagina12.com.ar\/30709-de-calabria-al-plata\" target=\"_blank\">https:\/\/www.pagina12.com.ar\/<wbr \/>30709-de-calabria-al-plata<\/a> &gt;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A tentativa de constru\u00e7\u00e3o de uma ditadura mafiosa. 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