{"id":14312,"date":"2017-05-05T19:30:15","date_gmt":"2017-05-05T22:30:15","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=14312"},"modified":"2017-05-20T02:23:09","modified_gmt":"2017-05-20T05:23:09","slug":"a-cultura-do-estupro-e-a-crise-do-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/14312","title":{"rendered":"A cultura do estupro e a crise do capitalismo"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.cinema.ucla.edu\/sites\/default\/files\/AngelaDavisBlogPhoto.jpg?w=747&#038;ssl=1\" \/>Sofia Manzano*<\/p>\n<p>No final dos anos 1970, a comunista negra estadunidense Angela Davis escreveu, em seu livro\u00a0<em>Mulheres, ra\u00e7a e classe<\/em>\u00a0(Boitempo, 2016), o que reproduzo aqui.<!--more--><\/p>\n<p><em>Como a base da licen\u00e7a para estuprar as mulheres negras durante a escravid\u00e3o era o poder econ\u00f4mico dos propriet\u00e1rios de escravos, a estrutura de classe da sociedade capitalista tamb\u00e9m abriga um incentivo ao estupro. Na verdade, parece que homens da classe capitalista e seus parceiros de classe m\u00e9dia s\u00e3o imunes aos processos judiciais porque cometem suas agress\u00f5es sexuais com a mesma autoridade incontestada que legitima suas agress\u00f5es di\u00e1rias contra o trabalho e a dignidade de trabalhadoras e trabalhadores.<\/em><\/p>\n<p><em>A exist\u00eancia generalizada do ass\u00e9dio sexual no trabalho nunca foi um grande segredo. De fato, \u00e9 precisamente no trabalho que as mulheres \u2013 em especial quando n\u00e3o est\u00e3o organizadas em sindicatos \u2013 s\u00e3o mais vulner\u00e1veis. Por j\u00e1 terem estabelecido a domina\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica sobre suas subordinadas do sexo feminino, empregadores, gerentes e supervisores podem tentar reafirmar sua autoridade em termos sexuais. O fato de que as mulheres da classe trabalhadora s\u00e3o mais intensamente exploradas do que os homens contribui para sua vulnerabilidade ao abuso sexual, enquanto a coer\u00e7\u00e3o sexual refor\u00e7a, ao mesmo tempo, sua vulnerabilidade \u00e0 explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<\/em><\/p>\n<p><em>Homens da classe trabalhadora, seja qual for sua etnia, podem ser motivados a estuprar pela cren\u00e7a de que sua masculinidade lhe concede o privil\u00e9gio de dominar as mulheres. &#8230; Quando homens da classe trabalhadora aceitam o convite ao estupro que lhes \u00e9 estendido pela ideologia da supremacia masculina, eles est\u00e3o aceitando um suborno, uma compensa\u00e7\u00e3o ilus\u00f3ria \u00e0 sua falta de poder.<\/em><\/p>\n<p><em>A estrutura de classe do capitalismo encoraja homens que det\u00e9m poder econ\u00f4mico e pol\u00edtico a se tornarem agentes cotidianos da explora\u00e7\u00e3o sexual. A presente epidemia de estupros ocorre em um momento em que a classe capitalista est\u00e1 furiosamente reafirmando sua autoridade em face de desafios globais e nacionais. Tanto o racismo quanto o sexismo, centrais para a estrat\u00e9gia dom\u00e9stica de aumentar a explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, t\u00eam recebido um encorajamento sem precedentes. N\u00e3o \u00e9 mera coincid\u00eancia que, \u00e0 medida que a incid\u00eancia de casos de estupro tem aumentado, a posi\u00e7\u00e3o das trabalhadoras tem piorado de modo vis\u00edvel. As perdas econ\u00f4micas das mulheres s\u00e3o t\u00e3o severas que seus sal\u00e1rios, quando comparados aos dos homens, est\u00e3o mais baixos do que h\u00e1 uma d\u00e9cada. A prolifera\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia sexual \u00e9 a face brutal de uma intensifica\u00e7\u00e3o generalizada do sexismo, que necessariamente acompanha essa agress\u00e3o econ\u00f4mica.<\/em><\/p>\n<p><em>Dada a complexidade do contexto social em que o estupro acontece hoje, qualquer tentativa de trat\u00e1-lo como um fen\u00f4meno isolado est\u00e1 fadada ao fracasso. Uma estrat\u00e9gia eficaz contra o estupro deve ter como objetivo mais do que a erradica\u00e7\u00e3o do estupro \u2013 ou mesmo o sexismo \u2013 por si s\u00f3. A luta contra o racismo deve ser um tema cont\u00ednuo do movimento antiestupro, que deve defender n\u00e3o apenas as mulheres de minorias \u00e9tnicas, mas tamb\u00e9m as muitas v\u00edtimas da manipula\u00e7\u00e3o racista das acusa\u00e7\u00f5es de estupro. As dimens\u00f5es cr\u00edticas da viol\u00eancia sexual constituem uma das facetas de uma profunda e cont\u00ednua crise do capitalismo. Como lado violento do sexismo, a amea\u00e7a de estupro persistir\u00e1 enquanto a opress\u00e3o generalizada contra as mulheres continuar a ser uma muleta essencial para o capitalismo. O movimento antiestupro e suas importantes atividades atuais \u2013 que variam de ajuda emocional e legal a campanhas educacionais e de autodefesa \u2013 devem ser situados em um contexto estrat\u00e9gico que tenha em vista a derrota definitiva do capitalismo monopolista.<\/em><\/p>\n<p>Se n\u00e3o soub\u00e9ssemos que esse texto foi escrito h\u00e1 quase 50 anos, diria que reflete exatamente a situa\u00e7\u00e3o em que as mulheres brasileiras est\u00e3o submetidas nesse exato momento. O que podemos tirar dessa aparente coincid\u00eancia?<\/p>\n<p>Quando Angela Davis o escreveu, os EUA, para enfrentar uma de suas mais profundas crises, em que o d\u00f3lar era contestado como moeda por outras economias imperialistas e sua estrutura produtiva sofria forte concorr\u00eancia dos novos padr\u00f5es de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho lan\u00e7ados pelo Jap\u00e3o, passavam por uma reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva que deixou as antigas cidades industriais, como Chicago e Detroit, repletas de desempregados. A crise foi contornada, na esfera econ\u00f4mica, atrav\u00e9s de uma forte pol\u00edtica monet\u00e1ria com o aumento dos juros dos t\u00edtulos p\u00fablicos dos EUA e a recupera\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar como moeda forte. Na esfera pol\u00edtica \u2013 mas n\u00e3o menos econ\u00f4mica \u2013 inicia-se o desmonte do Estado Democr\u00e1tico de Direito com a ascens\u00e3o da Era Reagan \u2013 Bush.<\/p>\n<p>Essas transforma\u00e7\u00f5es estruturais consolidam, na principal economia do mundo, a domin\u00e2ncia do capital financeiro na determina\u00e7\u00e3o da din\u00e2mica capitalista. Angela Davis captura esse movimento, no momento mesmo em que ocorre e, de forma brilhante, relaciona os fen\u00f4menos sociais da viol\u00eancia sofrida pela classe trabalhadora, em especial pelas mulheres, aos movimentos do processo de acumula\u00e7\u00e3o de capital.<br \/>\nEsse tipo de an\u00e1lise \u00e9 o que permite a combina\u00e7\u00e3o entre a luta das mulheres e a luta de classes, bem como a luta dos negros e a luta de classes.<\/p>\n<p>Aqui no Brasil, enfrentamos a prolifera\u00e7\u00e3o do estupro agravada ainda mais com a cultura da viol\u00eancia da classe dominante brasileira. N\u00e3o podemos deixar de relacionar, como faz Angela Davis para os EUA, esses fen\u00f4menos com a din\u00e2mica do processo de acumula\u00e7\u00e3o de capital em nosso pa\u00eds. Infelizmente, a falta de compreens\u00e3o pol\u00edtica e a pouca forma\u00e7\u00e3o te\u00f3rica da maioria dos militantes das causas das chamadas minorias os impedem de fazer essa rela\u00e7\u00e3o e tornam esses movimentos, apesar de importantes, insens\u00edveis aos problemas fundamentais.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o podemos perder tempo, nossas vidas est\u00e3o amea\u00e7adas, por isso, n\u00e3o deixarei de repetir:<\/p>\n<p><em>O movimento antiestupro e suas importantes atividades atuais \u2013 que variam de ajuda emocional e legal a campanhas educacionais e de autodefesa \u2013 devem ser situados em um contexto estrat\u00e9gico que tenha em vista a derrota definitiva do capitalismo monopolista.<\/em><\/p>\n<p>Em homenagem a\u00a0Angela Davis.<\/p>\n<p>*Membro do Comit\u00ea Central do PCB<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Sofia Manzano* No final dos anos 1970, a comunista negra estadunidense Angela Davis escreveu, em seu livro\u00a0Mulheres, ra\u00e7a e classe\u00a0(Boitempo, 2016), o que \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/14312\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[180],"tags":[],"class_list":["post-14312","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-feminista"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3IQ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14312","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14312"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14312\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14312"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14312"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14312"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}