{"id":14344,"date":"2017-05-09T17:20:39","date_gmt":"2017-05-09T20:20:39","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=14344"},"modified":"2017-05-20T02:22:23","modified_gmt":"2017-05-20T05:22:23","slug":"transfobia-luto-e-odio-a-cada-dia-mais-um-de-nos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/14344","title":{"rendered":"TRANSFOBIA, LUTO E \u00d3DIO: A CADA DIA, MAIS UM DE N\u00d3S"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/eEkUBVczT-6MYP7r2GDzsZUe2Ptqe1dO7qSWMH9htW7mnO5b22F1AKd8X4dTavGQOSK-I92-d1v5vHzdyEjTRR8Vdiy5Nzh-_4aZ718tOxu9XSDuAOWLM1FuUQHQtus3fDk0Z-9dXm9Tp1aVfQkNPt0MJZQ871zbnA3ySF_enRStRta7f_8F8Vc94BJDU-4RoLi2DlyrYDdpWLmUZy7Xd3WC6Xx5-ihiP2QQ_AM4umt0PFaIMnDAy1X1kg-yWRhjAFxomSmV3v0a3LFHerK7JifqGjQuodnajUM03GksP0PGo6VbZ3wpr0JhqONAKL3X3c23B4qH15VgduZP9JAabMxgnrt5yGhACDvxHebX5CSzmYlgYDoO6R-e4Leo_ej1ftMyqkAk-j5YJ49GbAn3F-rP_SfXsxTAP3BrjyyR3fm13ZlH1ZR0X7RyG63M4DECNrSVRCMiGnM27-chlEFvVgebPY9qntmpoGJqQk4pxHQdBHV6K-oAGSVyJC090HfFxsFN0E51J9V5mfA6KfwaSl7AHF7Wj55ZgLUOb7t0OXZE45dlbtm80Enlzrs2IJww0f0V7rNF80p1Mu-peqFIX2SqiyM6coWDDvrnQeHc_gkDtST-i45KCJZJ2h1y8UFBllBdfjU5N37bvwPE_kxNj4vxjNTiY3K2z7B9Q7hMWQ=s291-no\" alt=\"imagem\" \/>Domingo, 07\/05, acordamos com a dor de mais um de n\u00f3s levado &#8211; Thadeu, trabalhador\u00a0 trans e negro, foi assassinado em sua casa na Bahia. Acordamos domingo como acordamos s\u00e1bado, <!--more-->ali\u00e1s, com a not\u00edcia da perda de Luana Muniz, trabalhadora travesti carioca, e como acordamos todos os dias, pela certeza ou pelo medo.<\/p>\n<p>Acordamos, ali\u00e1s, como acordam dia a dia esposas de Amarildos e m\u00e3es de Dandaras e Lauras, chorando assassinatos de Cl\u00e1udias, e familiares das v\u00edtimas do Carandiru, ou como a m\u00e3e perif\u00e9rica em p\u00e2nico porque o filho, negro, ainda n\u00e3o chegou e a PM ronda &#8211; e acordamos, ainda assim, menos piores do que como Rafael Braga acordar\u00e1 pelos pr\u00f3ximos 11 anos. E cada not\u00edcia que nos chega da barb\u00e1rie di\u00e1ria, seja pela m\u00eddia ou pela proximidade, alimenta aqueles nossos conhecidos sentimentos de \u00f3dio e revolta &#8211; sem rosto, sem alvo, s\u00f3 \u00f3dio e revolta. Domingo foi a dor por Thadeu, trabalhador trans e negro, que nos reavivou essa dor. Toda manh\u00e3 como essa ressoa, no fundo de n\u00f3s, inevitavelmente, os \u201cpor qu\u00ea?\u201d, os \u201cat\u00e9 quando?\u201d e os \u201cquando serei eu?\u201d.<\/p>\n<p>Se as diversas formas de domina\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o que a nossa classe sofre tem ra\u00edzes comuns, \u00e9 fato que s\u00e3o diversas nas suas especificidades. Como ignorar que vivemos no pa\u00eds recordista mundial em assassinato de travestis e transexuais (e em buscas por pornografia trans na internet), ou que a popula\u00e7\u00e3o negra trabalhadora sofre um verdadeiro exterm\u00ednio pelas m\u00e3os da sociedade e do Estado? Como ignorar a composi\u00e7\u00e3o \u00e9tnica do sistema carcer\u00e1rio, das regi\u00f5es perif\u00e9ricas &#8211; ou da pr\u00f3pria classe? Como ignorar que 90% da popula\u00e7\u00e3o de travestis e mulheres trans est\u00e1 relegada \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o e que o suic\u00eddio ou a idea\u00e7\u00e3o suicida \u00e9 uma realidade para cerca de 66% dos homens trans? Parece at\u00e9 sempre dif\u00edcil, para n\u00f3s, alcan\u00e7ar com a m\u00e3o qualquer sentimento de pertencimento maior do que nossos grupos de afinidade mais imediata &#8211; n\u00e3o por qualquer pressuposta falta de empatia, mas talvez porque as formas espec\u00edficas das nossas opress\u00f5es s\u00e3o t\u00e3o brutais e eficazes, t\u00e3o presentes e persistentes, que nos cercam a todo momento, atravessam todas as nossas rela\u00e7\u00f5es (inclusive as com pessoas da nossa classe) e acabam por ocupar todo o nosso campo de vis\u00e3o.<\/p>\n<p>Encontrar nossas respostas, no entanto, pede n\u00e3o que ignoremos o quinh\u00e3o de barb\u00e1rie que nos cerca atr\u00e1s de uma abstra\u00e7\u00e3o qualquer de uma \u201cclasse trabalhadora\u201d homog\u00eanea, mas que a compreendamos de fato, que aprendamos a encontrar as rela\u00e7\u00f5es e determina\u00e7\u00f5es com engajamento real na transforma\u00e7\u00e3o das coisas. Isso pressup\u00f5e, logo de in\u00edcio, p\u00f4r de lado as perspectivas que colocam nossas opress\u00f5es como um problema estritamente cultural, ou meramente comportamental. A pr\u00f3pria experi\u00eancia concreta, na verdade, nos mostra o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>O conjunto das precariedades t\u00edpicas da nossa experi\u00eancia social tem lugares comuns: as rela\u00e7\u00f5es acentuadamente prec\u00e1rias de acesso ao trabalho, com destaque para os trabalhos informais e de maior vulnerabilidade, como o trabalho sexual, nas centrais de call center ou no com\u00e9rcio ambulante e que implicam diretamente nas possibilidades concretas de subsist\u00eancia (e na sua forma); o acesso dificultado e inconsistente \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica, inclusive com inexist\u00eancia ou incipi\u00eancia de atendimentos espec\u00edficos para necessidades espec\u00edficas; a nega\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de qualidade; o encarceramento em massa e os dois-pesos-duas-medidas da lei, acompanhado pela persegui\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia policial; a nega\u00e7\u00e3o multifacetada do direito de acesso pleno ao espa\u00e7o p\u00fablico (e portanto, tamb\u00e9m ao pol\u00edtico), convertido em arena de viol\u00eancias e exclus\u00f5es; assim como as variadas consequ\u00eancias e implica\u00e7\u00f5es desse lugar de margem.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que a forma que essa precariza\u00e7\u00e3o assume \u00e9 atravessada por um forte \u201ccaldo cultural\u201d racista, LGBTf\u00f3bico e mis\u00f3gino que d\u00e1 o tom dessas viol\u00eancias e parametriza comportamentos sociais e o tratamento que nos \u00e9 direcionado nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais, e que mesmo retroalimenta essa aparente exclus\u00e3o. \u00c9 importante entendermos, no entanto, que esse \u201ccaldo cultural\u201d n\u00e3o veio do nada nem \u00e9 o ponto de partida do problema, ainda que lhe d\u00ea apar\u00eancia.<\/p>\n<p>Ele \u00e9, sim, em partes, consequ\u00eancia da hist\u00f3rica domina\u00e7\u00e3o masculina, das divis\u00f5es sexuais e generificadas do trabalho e dos consequentes modelos organizativos de fam\u00edlia, bem como dos mais de tr\u00eas s\u00e9culos de escraviza\u00e7\u00e3o do povo negro no Brasil e das suas infinitas implica\u00e7\u00f5es e consequ\u00eancias. Mas \u00e9 mais que isso. G\u00eanero e racismo n\u00e3o s\u00e3o apenas tipos de domina\u00e7\u00e3o anteriores ao capitalismo que perduram at\u00e9 os tempos atuais. S\u00e3o domina\u00e7\u00f5es que perduraram porque foram instrumentalizadas, incorporadas, adaptadas e condicionadas para fazerem parte da pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o do capitalismo! O modelo tradicional de fam\u00edlia foi e \u00e9 fundamental para a organiza\u00e7\u00e3o tanto da hereditariedade da propriedade privada, para a burguesia, quanto para a reprodu\u00e7\u00e3o da vida dos \u201cindiv\u00edduos livres\u201d para a classe trabalhadora; a escraviza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra foi pe\u00e7a fundamental nos primeiros passos (de mais de tr\u00eas s\u00e9culos!) de forma\u00e7\u00e3o do capitalismo no Brasil e na pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>As precariedades citadas n\u00e3o s\u00e3o express\u00e3o de uma exclus\u00e3o social &#8211; ao contr\u00e1rio, s\u00e3o o indicativo dos lugares exatos onde estamos convenientemente inclu\u00eddas! Somos o ex\u00e9rcito industrial de reserva, mantidas nas margens porque \u00e9 fundamental para o sistema que essas margens existam; somos parte, com nossas opress\u00f5es, do rebaixamento do valor da for\u00e7a de trabalho, da obsolesc\u00eancia programada da for\u00e7a de trabalho; estamos onde estamos porque \u00e9 lucrativo demais, para os pretensos donos do mundo, que continuemos aqui e assim. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 cultural, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 comportamental, n\u00e3o \u00e9 \u201ca maldade e o car\u00e1ter de pessoas ruins\u201d. \u00c9 um mundo, um sistema, que nos reserva um lugar e um papel espec\u00edficos na sua perpetua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O ponto, aqui, n\u00e3o \u00e9 o de justificar ou minimizar o problema. \u00c9 o contr\u00e1rio: precisamos gritar e fazer saber que n\u00e3o \u00e9 coisa pequena! Que n\u00e3o se resolve com campanhas informativas do Estado ou com programas de TV, que n\u00e3o \u00e9 um problema de discursos equivocados ou de falta de conscientiza\u00e7\u00e3o\u2026 Que \u00e9 s\u00e9rio, profundo e sist\u00eamico. Tampouco \u00e9 inten\u00e7\u00e3o amenizar, de qualquer forma, o \u00f3dio e a revolta. \u00c9 tamb\u00e9m o contr\u00e1rio: que eles ganhem corpo, forma, rosto e alvo; que eles nos motivem a lutar, mais e mais, mesmo quando tudo parece dificultar e o des\u00e2nimo parece engessar. Para que, juntos, coletivamente e organizados, reunamos for\u00e7a para destruir o que precisa ser destru\u00eddo e igualmente juntos, construir a nossa emancipa\u00e7\u00e3o. Como classe e esp\u00e9cie, em toda a sua diversidade.<\/p>\n<p>Toda a solidariedade e apoio aos que sofrem, diariamente, com nossas mortes. Solidariedade de classe, da nossa, e diversa como ela \u00e9.<\/p>\n<p>Coletivo LGBT\u00a0Comunista<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Domingo, 07\/05, acordamos com a dor de mais um de n\u00f3s levado &#8211; Thadeu, trabalhador\u00a0 trans e negro, foi assassinado em sua casa \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/14344\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[182],"tags":[],"class_list":["post-14344","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-lgbt"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3Jm","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14344","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14344"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14344\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14344"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14344"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14344"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}