{"id":1436,"date":"2011-04-30T18:52:53","date_gmt":"2011-04-30T18:52:53","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1436"},"modified":"2011-04-30T18:52:53","modified_gmt":"2011-04-30T18:52:53","slug":"a-outra-face-da-otan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1436","title":{"rendered":"A outra face da OTAN"},"content":{"rendered":"\n<p>A OTAN \u00e9 o principal bra\u00e7o armado do imperialismo. Mas os meios que utiliza n\u00e3o se resumem \u00e0s agress\u00f5es militares abertas. Tem tamb\u00e9m um longo e criminoso curr\u00edculo de organiza\u00e7\u00e3o de grupos clandestinos e ac\u00e7\u00f5es secretas de car\u00e1cter terrorista e fascista.<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s j\u00e1 vivemos um lapso de tempo durante o qual numerosos sucessos conduziram a conflitos armados em quase todas as partes do mundo. A g\u00e9nese desses conflitos tem sido quase sempre intrigante. As not\u00edcias sobrecarregadas de imagens e as an\u00e1lises convertidas em propaganda, com suas doses de racionalidade e de emo\u00e7\u00e3o, as mensagens subliminares que circulam, a avalanche de factos e mensagens que nos submerge, anestesiam o observador que de cidad\u00e3o corre o risco de ser convertido em espectador.<\/p>\n<p>A racionalidade que justifica a inevitabilidade que desemboca em guerra \u00e9 uma manipula\u00e7\u00e3o cruel e ign\u00f3bil. Compreender a realidade subjacente a \u201cfazer a guerra\u201d passa por entender um bocado de hist\u00f3ria e de economia e outros conhecimentos mais. Mas n\u00e3o basta depurar e avaliar os factos vis\u00edveis. \u00c9 preciso ir aos estratos ocultos da realidade, porque \u201cfazer a guerra\u201d passa muito por ocultar, intimidar, manipular e mentir. Ao \u201cinimigo\u201d, aos aliados e ao pr\u00f3prio povo.<\/p>\n<p>Obras publicadas por antigos oficiais na reserva e investiga\u00e7\u00f5es conduzidas por novos investigadores t\u00eam vindo a iluminar, ainda que palidamente, essa face oculta de \u201cfazer a guerra\u201d. A OTAN, cumpridos sessenta anos de experi\u00eancia no terreno sob a lideran\u00e7a dos EUA, durante os quais esta potencia e aquela alian\u00e7a acumularam uma impressionante sucess\u00e3o de ac\u00e7\u00f5es e golpes militares, de batalhas e de guerras prolongadas \u00e0 roda do mundo, merece particular aten\u00e7\u00e3o. Muito do que se passa no mundo tem ou amea\u00e7a ter a sua m\u00e3o. No M\u00e9dio Oriente, nos Balc\u00e3s, no C\u00e1ucaso, na \u00c1sia Central, na Am\u00e9rica Latina e em \u00c1frica, l\u00e1 onde os conflitos e as guerras se sucedem \u201cinexplicavelmente\u201d &#8211; como se esse fosse o estado normal da natureza humana, o que n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>Este artigo tomou como ponto de partida o trabalho do investigador su\u00ed\u00e7o Daniele Ganser e outras investiga\u00e7\u00f5es que t\u00eam emergido recentemente sobre a estrat\u00e9gia de tens\u00e3o e particularmente a \u201cOpera\u00e7\u00e3o Gladio\u201d conduzida sob os ausp\u00edcios da OTAN [1].<\/p>\n<p><strong>UMA REVELA\u00c7\u00c3O NO FIM DA GUERRA-FRIA<\/strong><\/p>\n<p>Em It\u00e1lia, 1990, o juiz Felice Casson, enquanto investigando actos terroristas atribu\u00eddos \u00e0 extrema-direita, descobriu nos arquivos dos servi\u00e7os secretos militares italianos evid\u00eancia de um at\u00e9 ent\u00e3o desconhecido \u201cex\u00e9rcito de retaguarda\u201d com liga\u00e7\u00e3o \u00e0 OTAN. Um documento datado de 1 de Junho de 1959 registava a exist\u00eancia de um \u201ccomit\u00e9 de planeamento clandestino\u201d (CPC) directamente conectado ao supremo quartel-general das for\u00e7as aliadas na Europa (SHAPE) sediado em Bruxelas, comit\u00e9 que coordenaria opera\u00e7\u00f5es anti-comunistas clandestinas e opera\u00e7\u00f5es armadas n\u00e3o convencionais. O mesmo documento remetia para um outro anterior, de 16 de Novembro de 1956, um acordo entre a CIA e o SIFAR (anterior servi\u00e7o de informa\u00e7\u00f5es das for\u00e7as armadas italianas) que constitu\u00eda a base da Opera\u00e7\u00e3o Gladio [2,3].<\/p>\n<p>O assunto foi levado ao Senado italiano, que no Ver\u00e3o desse ano de 1990 constituiu uma comiss\u00e3o de investiga\u00e7\u00e3o na qual o primeiro-ministro Giulio Andreotti comprovou a exist\u00eancia da referida coopera\u00e7\u00e3o entre os servi\u00e7os secretos dos dois pa\u00edses, sob a coordena\u00e7\u00e3o da OTAN atrav\u00e9s do citado CPC e de um outro \u201ccomit\u00e9 clandestino aliado\u201d (ACC). \u00abAp\u00f3s organizada a [dita] resist\u00eancia clandestina, a It\u00e1lia foi chamada a participar nos trabalhos do CPC em 1959, no \u00e2mbito do \u201csupremo quartel-general das for\u00e7as aliadas na Europa\u201d (SHAPE), [\u2026] em 1964 os servi\u00e7os secretos italianos entraram tamb\u00e9m para o ACC, um organismo encarregue de coordenar a rede de evas\u00e3o e fuga entre as v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es\u00bb [4].<\/p>\n<p>O primeiro-ministro mais informou e descreveu a exist\u00eancia de numerosos esconderijos de armamento e outros equipamentos espalhados pelo pa\u00eds, para aprovisionamento de unidades de guerrilha de retaguarda, independentes das for\u00e7as regulares. E alegou que todos os primeiros-ministros anteriores o haviam sabido tamb\u00e9m. V\u00e1rios outros pol\u00edticos negaram colaborar no inqu\u00e9rito ou o conhecimento dos factos. S\u00f3 o Presidente da Republica de ent\u00e3o, Francesco Cossiga, o confirmou e por se orgulhar de ter sido anteriormente (logo ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial) parte activa na implementa\u00e7\u00e3o da Opera\u00e7\u00e3o Gladio. O relat\u00f3rio da comiss\u00e3o do Senado foi publicado em 1995, n\u00e3o obstante o silencio de v\u00e1rias partes inquiridas e as dificuldades de consensualiza\u00e7\u00e3o no seio da mesma comiss\u00e3o [5,6].<\/p>\n<p>Ainda assim a investiga\u00e7\u00e3o estabeleceu que: \u00abObviamente as tens\u00f5es que caracterizam estes 40 anos e que foram objecto de an\u00e1lise tiveram tamb\u00e9m ra\u00edzes sociais e portanto internas. Contudo, tais tens\u00f5es nunca teriam perdurado tanto tempo e n\u00e3o teriam atingido t\u00e3o tr\u00e1gicas dimens\u00f5es, e o caminho da verdade n\u00e3o teria sido bloqueado tantas vezes, se a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica interna n\u00e3o tivesse sido condicionada e supervisionada pelo quadro internacional em que a It\u00e1lia estava integrada\u00bb [7,8].<\/p>\n<p>Os senadores reflectiam neste texto sint\u00e9tico o elevado n\u00edvel atingido pela viol\u00eancia na It\u00e1lia durante a Guerra-Fria comparativamente a outros pa\u00edses europeus. Na d\u00e9cada de 70, ac\u00e7\u00f5es terroristas, maioritariamente conduzidas por comandos de extrema-direita, provocaram cerca de 5 mil mortes; s\u00f3 no ano de 1978 registaram-se mais de 3 mil ac\u00e7\u00f5es da extrema-direita, de que resultaram 831 mortos e 3121 feridos. O tr\u00e1gico rapto e assass\u00ednio de Aldo Moro em 1978 \u00e0s m\u00e3os das \u201cBrigadas Vermelhas\u201d foi um acontecimento significativo; Aldo Moro, ent\u00e3o presidente da Democracia Crist\u00e3, que fora chefe de governo por v\u00e1rias vezes e que ent\u00e3o era o negociador do \u201ccompromisso hist\u00f3rico\u201d entre a Democracia Crist\u00e3 e o Partido Comunista para forma\u00e7\u00e3o de um novo governo bipartid\u00e1rio foi, segundo v\u00e1rios testemunhos, \u201csacrificado\u201d para proteger a Opera\u00e7\u00e3o Gladio e fazer valer os objectivos desta. Nas palavras de Steve Pieczenik, agente enviado pelo Presidente dos EUA para integrar a \u201ccomiss\u00e3o de crise\u201d que acompanhou o rapto: \u00abTivemos de sacrificar Aldo Moro para manter a estabilidade da It\u00e1lia\u00bb [9] [10].<\/p>\n<p>Um grupo de senadores encabe\u00e7ados por Giovanni Pellegrini prosseguiu a sua investiga\u00e7\u00e3o e publicou um relat\u00f3rio adicional em 2000. A\u00ed afirmam que, para al\u00e9m de preparar a resist\u00eancia a uma hipot\u00e9tica invas\u00e3o sovi\u00e9tica, a organiza\u00e7\u00e3o paramilitar secreta Gladio combateu os Partidos Comunista e Socialista Italianos, em colabora\u00e7\u00e3o com a CIA, os servi\u00e7os secretos militares italianos e terroristas de extrema-direita italianos, a pretexto de que aqueles partidos atrai\u00e7oassem a OTAN a partir do interior do pa\u00eds. Segundo o juiz Felice Casson, a estrat\u00e9gia de tens\u00e3o foi aplicada durante a Guerra-Fria em contra-posi\u00e7\u00e3o \u00e0 esquerda italiana \u00abisto \u00e9, visando criar tens\u00f5es no seio do pa\u00eds a fim de promover tend\u00eancias sociais e pol\u00edticas conservadoras e reaccion\u00e1rias (\u2026) enquanto a estrat\u00e9gia era aplicada, era necess\u00e1rio proteger os que estavam por detr\u00e1s dela, porque a evidencia que os implicava estava sendo descoberta. As testemunhas retiveram informa\u00e7\u00e3o para protegerem os extremistas direitistas\u00bb [11,12].<\/p>\n<p>Na an\u00e1lise de Daniele Ganser, a bival\u00eancia dos ex\u00e9rcitos secretos manifestou-se diferentemente nos diferentes pa\u00edses, de acordo com a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica interna de cada um. Em It\u00e1lia, onde o partido comunista emergiu da guerra com prest\u00edgio pelo seu papel na resist\u00eancia ao nazi-fascismo, com forte interven\u00e7\u00e3o na vida pol\u00edtica do pa\u00eds e implanta\u00e7\u00e3o eleitoral, a Gladio teve um forte envolvimento na manipula\u00e7\u00e3o e desestabiliza\u00e7\u00e3o da vida pol\u00edtica do pa\u00eds, que contribu\u00edram para o enfraquecimento do sistema democr\u00e1tico. Na Su\u00ed\u00e7a, onde aquelas condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o se verificaram, as respectivas consequ\u00eancias tamb\u00e9m n\u00e3o. Ainda segundo esse autor, em Espanha, Portugal, Gr\u00e9cia e Turquia, pa\u00edses com acentuado ascendente das for\u00e7as armadas na vida pol\u00edtica, os ex\u00e9rcitos secretos intervieram no combate \u00e0s oposi\u00e7\u00f5es aos respectivos regimes [13].<\/p>\n<p>Em 22 de Novembro de 1990, o Parlamento Europeu debateu as ent\u00e3o recentes revela\u00e7\u00f5es das investiga\u00e7\u00f5es feitas pelo juiz Felice Casson e pelo Senado italiano. A quest\u00e3o suscitou reac\u00e7\u00f5es desencontradas das v\u00e1rias fam\u00edlias pol\u00edticas, uns valorizando a \u201cprudente precau\u00e7\u00e3o\u201d outros as \u201cfontes de terror\u201d, uns denunciando a manipula\u00e7\u00e3o conduzida pelos ex\u00e9rcitos secretos que em nome da defesa da democracia de facto a debilitaram, outros a ofensa aos \u00f3rg\u00e3os de soberania a cujo controlo essas organiza\u00e7\u00f5es clandestinas se subtra\u00edram. Sem compet\u00eancias expressas nas esferas da defesa e seguran\u00e7a, o Parlamento apenas aprovou uma resolu\u00e7\u00e3o de protesto dirigida \u00e0 OTAN e aos EUA, e recomendou \u00aba todos os estados membros que tomassem medidas, se necess\u00e1rio constituindo comiss\u00f5es parlamentares de inqu\u00e9rito, para recensear a lista completa de organiza\u00e7\u00f5es envolvidas, e ao mesmo tempo apurar as suas liga\u00e7\u00f5es aos respectivos servi\u00e7os de intelig\u00eancia de estado, e as suas eventuais liga\u00e7\u00f5es com grupos terroristas e ou outras pr\u00e1ticas ilegais\u00bb. Apenas a It\u00e1lia, a B\u00e9lgica e a Su\u00ed\u00e7a (esta n\u00e3o sendo da Uni\u00e3o) realizaram investiga\u00e7\u00f5es parlamentares e publicaram os correspondentes relat\u00f3rios. Demais inst\u00e2ncias de pa\u00edses europeus, bem como dos EUA e a OTAN, n\u00e3o deram qualquer seguimento \u00e0s interpela\u00e7\u00f5es ou recomenda\u00e7\u00f5es \u2013 prolongando o silenciamento de numerosos atentados terroristas e crimes de morte, e de usurpa\u00e7\u00e3o de direitos e garantias fundamentais e de soberanias de estado.<\/p>\n<p>Nas palavras do MP Vandemeulebroucke: \u00abos or\u00e7amentos destas organiza\u00e7\u00f5es secretas s\u00e3o igualmente secretos. N\u00e3o foram discutidos em qualquer parlamento. E n\u00f3s queremos expressar a nossa preocupa\u00e7\u00e3o pelo facto de (\u2026) agora se descobrir que existem centros de tomada de decis\u00e3o e de sua consecu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o est\u00e3o sujeitos a qualquer forma de controlo democr\u00e1tico\u00bb. E nas do MP Falqui: \u00abN\u00e3o haver\u00e1 um futuro, senhoras e senhores, se n\u00e3o eliminarmos a ideia de termos vivido numa esp\u00e9cie de estado dual &#8211; um aberto e democr\u00e1tico, o outro clandestino e reaccion\u00e1rio. \u00c9 por isso que queremos saber o qu\u00ea e quantas redes Gladio t\u00eam existido nos anos recentes nos estados membros da Comunidade Europeia\u00bb [14].<\/p>\n<p><strong>A G\u00c9NESE DESSAS ORGANIZA\u00c7\u00d5ES SUBVERSIVAS<\/strong><\/p>\n<p>Opera\u00e7\u00f5es secretas na retaguarda da frente inimiga atingiram larga extens\u00e3o durante a Segunda Guerra Mundial. Winston Churchill, 1940, criou um ex\u00e9rcito secreto brit\u00e2nico designado \u201cExecutivo de Opera\u00e7\u00f5es Especiais\u201d (SOE) cuja miss\u00e3o era \u00abincendiar a Europa atrav\u00e9s do apoio a movimentos de resist\u00eancia e da condu\u00e7\u00e3o de ac\u00e7\u00f5es subversivas em territ\u00f3rio detido pelo inimigo\u00bb [15]. O SOE manteria \u00edntimas rela\u00e7\u00f5es com os servi\u00e7os de outros pa\u00edses onde o Reino Unido operou.<\/p>\n<p>Em Outubro de 1945, o estado-maior brit\u00e2nico determinou a cria\u00e7\u00e3o de uma rede, baseada na experi\u00eancia da SOE, capaz quer de r\u00e1pida expans\u00e3o em caso de guerra, quer de assistir opera\u00e7\u00f5es clandestinas brit\u00e2nicas em tempo de paz. Consequentemente, ap\u00f3s a Guerra, alicer\u00e7ados na longa experiencia do SOE em guerra secreta, os servi\u00e7os secretos estrangeiros brit\u00e2nicos MI6 desempenham um papel fulcral no estabelecimento de ex\u00e9rcitos secretos de retaguarda anti-comunista, organizados por v\u00e1rios servi\u00e7os secretos nacionais estrangeiros [16].<\/p>\n<p>Em Novembro de 1990, quando a Opera\u00e7\u00e3o Gladio foi revelada na It\u00e1lia com suas ramifica\u00e7\u00f5es pelo continente, o primeiro-ministro John Major declinou comentar as revela\u00e7\u00f5es e as suspeitas. Mas o general italiano Gerardo Serravalle que comandara a Gladio italiana entre 1971 e 74, em entrevista \u00e0 BBC em 1991 confirmou a intensa colabora\u00e7\u00e3o mantida com a organiza\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica. Pela mesma altura foi confirmado tamb\u00e9m o \u00edntimo envolvimento brit\u00e2nico com os servi\u00e7os secretos su\u00ed\u00e7os [17,18].<\/p>\n<p>Em breve os servi\u00e7os secretos norte-americanos se infiltrariam beneficiando da cumplicidade Anglo-Americana. L\u00edcio Gelli, l\u00edder da loja ma\u00e7\u00f3nica P2, desmascarada em It\u00e1lia em 1981, ardente anti-comunista que manteve cumplicidades com os norte-americanos, bem como Rupert Allason, conservador ingl\u00eas, editor de Intelligence Quarterly, confirmaram a secreta coopera\u00e7\u00e3o Anglo-Americana no apoio \u00e0s redes de retaguarda anti-comunista na Europa ao longo da Guerra-Fria [19,20].<\/p>\n<p>Os modernos servi\u00e7os secretos norte-americanos foram tamb\u00e9m inspirados e assistidos pelos servi\u00e7os secretos brit\u00e2nicos, desde o in\u00edcio da Segunda Grande Guerra Mundial, tirando partido da experiencia do SOE. Ap\u00f3s o fim da Guerra, em 1947, os servi\u00e7os norte-americanos foram reestruturados na \u201cCentral Intelligence Agency\u201d (CIA) e no \u201cNational Security Council\u201d (NSC). Logo em Junho de 1948 o NSC emitiu uma directiva autorizando a CIA a levar a cabo ac\u00e7\u00f5es clandestinas em todo o mundo e criando um ramo da CIA (designado OPC) dedicado a tais ac\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Tais ac\u00e7\u00f5es abrangiam e abrangem \u00abpropaganda, guerra econ\u00f3mica, ac\u00e7\u00f5es preventivas incluindo sabotagem, anti-sabotagem, demoli\u00e7\u00e3o e medidas de evacua\u00e7\u00e3o; subvers\u00e3o contra estados hostis incluindo apoio a movimentos de resist\u00eancia clandestinos, grupos de guerrilha e de liberta\u00e7\u00e3o refugiados, e apoio a elementos aut\u00f3ctones anti-comunistas em pa\u00edses do mundo livre amea\u00e7ados\u00bb. Todavia a directiva exclu\u00eda a guerra convencional: \u00abTais opera\u00e7\u00f5es n\u00e3o incluir\u00e3o conflitos armados por for\u00e7as militares identificadas, espionagem, contra-espionagem, nem ac\u00e7\u00f5es de encobrimento e divers\u00e3o para opera\u00e7\u00f5es militares\u00bb [21].<\/p>\n<p>Uma investiga\u00e7\u00e3o no Senado dos EUA, liderada por Frank Church, conclu\u00edda em 1976, verificou que as ac\u00e7\u00f5es encobertas da CIA, at\u00e9 1950 se haviam focalizado no estabelecimento de ex\u00e9rcitos de retaguarda na Europa Ocidental, visando apoiar as for\u00e7as armadas da OTAN face a um hipot\u00e9tico ataque sovi\u00e9tico; ap\u00f3s o que essas ac\u00e7\u00f5es passaram a compreender tamb\u00e9m golpes de estado e assassiOTANs de personalidades estrangeiras [22].<\/p>\n<p>Uma investiga\u00e7\u00e3o no Senado da B\u00e9lgica, no seguimento da \u201cdescoberta\u201d dos ex\u00e9rcitos secretos de retaguarda da OTAN, revelou que desde 1948 existiu um \u201ccomit\u00e9 clandestino da uni\u00e3o ocidental\u201d (CCWU), que reunia regularmente respons\u00e1veis de servi\u00e7os secretos europeus tendo em vista coordenar a guerra secreta n\u00e3o convencional anti-comunista. Quando o Tratado de Washington fundou a OTAN em 1949, esse CCWU foi silenciosamente integrado na OTAN, tendo tomado o nome \u201cClandestine Planning Committee\u201d (CPC). Os senadores tamb\u00e9m confirmaram que um segundo centro de comando, designado \u201cAllied Clandestine Committee\u201d (ACC), tinha sido estabelecido em 1957 \u00e0 ordem do supremo comando aliado para a Europa (SACEUR) [23].<\/p>\n<p>O Pent\u00e1gono, juntamente com a CIA, dirigia os ex\u00e9rcitos clandestinos na Europa, enquanto no supremo comando SACEUR, um general norte-americano, supervisionava esses ex\u00e9rcitos secretos.<\/p>\n<p>A rede de guerra clandestina foi montada em extremo secretismo. Quando foi revelada em 1990, o porta-voz da OTAN negou-a categoricamente num primeiro momento, a 5 de Novembro. No dia seguinte, um outro porta-voz declarou que o anterior desmentido fora falso, e que a OTAN nunca comenta mat\u00e9rias de segredo militar [24].<\/p>\n<p><strong>A GLADIO EM PORTUGAL<\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, o movimento anti-fascista portugu\u00eas acreditou que havia chegado a hora de mudan\u00e7a de regime e mobilizou-se para esse efeito. Por\u00e9m a ditadura contou ainda com as suas for\u00e7as internas, a pol\u00edcia pol\u00edtica e a Legi\u00e3o Portuguesa; como contou ainda com solidariedade externa, sobretudo da parte dos EUA, que lhe assegurou o acesso \u00e0 OTAN em 1949.<\/p>\n<p>Aquando da revela\u00e7\u00e3o da Opera\u00e7\u00e3o Gladio em It\u00e1lia, 1990, a imprensa portuguesa publicou noticias relativas \u00e0 exist\u00eancia de um bra\u00e7o da Gladio em Portugal, organizado no seio da OTAN e financiado pela CIA, localmente dirigida pela PIDE e dissimulada na Aginter Press. Gl\u00e1dio teria estado envolvida em assass\u00ednios em Portugal e em suas antigas col\u00f3nias. Nomes referidos a prop\u00f3sito incluem Humberto Delgado, Eduardo Mondlane e Am\u00edlcar Cabral; embora a \u00edntima coopera\u00e7\u00e3o entre v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es secretas com miss\u00f5es semelhantes ou complementares, de que a Opera\u00e7\u00e3o Gladio era extens\u00e3o e parte, torna essa atribui\u00e7\u00e3o individualizada vazia de sentido [25].<\/p>\n<p>Segundo a investiga\u00e7\u00e3o feita pelo Senado italiano, Aginter Press escondia um ex\u00e9rcito secreto comandado pelo capit\u00e3o Yves Guillon, alias Yves Guerin-Serac, um franc\u00eas veterano das guerras da Coreia, da Arg\u00e9lia e do Vietname; e bem assim um centro de informa\u00e7\u00e3o da CIA-PIDE especializado em ac\u00e7\u00f5es provocat\u00f3rias; mais apurou que o ramo portugu\u00eas da Gladio providenciara treino a elementos da extrema-direita italiana, a pista que havia conduzido a investiga\u00e7\u00e3o at\u00e9 Portugal [26, 27].<\/p>\n<p>Guerin-Serac chegou a Portugal em fins de 1962, tendo sido integrado como instrutor na Legi\u00e3o Portuguesa, organiza\u00e7\u00e3o paramilitar fascista de apoio ao regime, e depois numa unidade anti-guerrilha militar. Em Setembro de 1966, foi um dos que se constitu\u00edram na Aginter Press, nome apto a dissimular o apoio financeiro e operacional recebido de servi\u00e7os secretos estrangeiros, para al\u00e9m da PIDE, e a presen\u00e7a de operacionais e aventureiros de v\u00e1rias nacionalidades. Segundo o pr\u00f3prio Guerin-Serac, \u00abAs nossas for\u00e7as compreendem dois tipos de homens: Oficiais que vieram at\u00e9 n\u00f3s depois de combaterem na Indochina e Arg\u00e9lia, e alguns mesmo ap\u00f3s a guerra da Coreia (\u2026) Intelectuais que, nesse per\u00edodo se dedicaram ao estudo das t\u00e9cnicas de subvers\u00e3o Marxista (\u2026) Durante este per\u00edodo estabelecemos contactos pr\u00f3ximos entre grupos que emergiam em It\u00e1lia, B\u00e9lgica, Alemanha, Espanha e Portugal, com ideias afins, com o fito de formarmos o n\u00facleo de uma verdadeira Liga Ocidental de Luta contra o Marxismo\u00bb [28].<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m segundo Guerin-Serac a Aginter Press participou, em colabora\u00e7\u00e3o com a CIA e a For\u00e7a Especial de Barretes Verdes (EUA), em grupos operacionais na campanha \u201cantiterrorista\u201d que na Guatemala, entre 1968 e 1971, ter\u00e1 provocado cerca de 50000 mortos. Aginter esteve depois envolvida na guerra secreta que no Chile, em 1973, conduziu ao assassiOTAN do Presidente leg\u00edtimo Salvador Allende e \u00e0 instala\u00e7\u00e3o do ditador Augusto Pinochet [29].<\/p>\n<p>Aquando do 25 de Abril de 1974, a sede da Aginter Press em Lisboa foi encerrada, documenta\u00e7\u00e3o e operacionais desapareceram. No relato de um jornalista italiano: \u00abTr\u00eas colegas meus estavam l\u00e1 quando os arquivos da Aginter foram confiscados. Tiraram fotos de partes, muito poucas, do grande volume de informa\u00e7\u00e3o confiscada (\u2026) Os documentos foram destru\u00eddos pelos militares portugueses porque obviamente eles recearam complica\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com os governos de It\u00e1lia, Fran\u00e7a e Alemanha, caso as actividades da Aginter nos v\u00e1rios pa\u00edses europeus fossem reveladas\u00bb [30].<\/p>\n<p>E quando em Novembro de 1990 chegou a revela\u00e7\u00e3o, as autoridades portuguesas questionadas negaram peremptoriamente existir qualquer registo da exist\u00eancia ou actividade da \u201cestrutura Gladio\u201d em Portugal [31].<\/p>\n<p>Mas a investiga\u00e7\u00e3o feita no entretanto revelou a Aginter Press como uma organiza\u00e7\u00e3o de sinistro sucesso. N\u00e3o s\u00f3 pela sua interven\u00e7\u00e3o intimidat\u00f3ria e repressiva em Portugal, e na sabotagem pol\u00edtica aos movimentos de liberta\u00e7\u00e3o nas col\u00f3nias portuguesas; como tamb\u00e9m no suporte a organiza\u00e7\u00f5es neo-fascistas e na manipula\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es esquerdistas na Europa, e ainda no treino e fornecimento de meios conducentes a actos violentos no quadro da estrat\u00e9gia de tens\u00e3o; e mais al\u00e9m, no apoio a organiza\u00e7\u00f5es ou regimes repressivos e criminosos na Am\u00e9rica Latina. [32]<\/p>\n<p>Extintas no 25 de Abril, a PIDE e a Aginter Press, os seus agentes e operacionais dispersaram. Dos elementos mais respons\u00e1veis da PIDE alguns foram presos e levados a julgamento, a maioria dissimulou-se. Dos elementos da Aginter a maioria ter\u00e1 prosseguido a sua carreira criminosa no estrangeiro, outros ficaram dormentes no pa\u00eds. No auge do processo revolucion\u00e1rio, entre 1974 e 1976, de uns e de outros ressurgiu o Exercito de Liberta\u00e7\u00e3o de Portugal (ELP) que, \u00e0 sua maneira, prosseguiu a mesma estrat\u00e9gia de tens\u00e3o, a cl\u00e1ssica miss\u00e3o da Gladio, lan\u00e7ando ac\u00e7\u00f5es terroristas, contra-informa\u00e7\u00e3o, reanima\u00e7\u00e3o de grupos neofascistas, desestabiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, visando eliminar a ferro e fogo e pela mentira a organiza\u00e7\u00e3o e o prest\u00edgio das for\u00e7as democr\u00e1ticas incluindo o Partido Comunista. [33]<\/p>\n<p>A Opera\u00e7\u00e3o Gladio encontrou em Portugal terreno f\u00e9rtil durante a ditadura.<\/p>\n<p>Um documento revelador da sua natureza e ac\u00e7\u00e3o \u00e9 uma carta de intimida\u00e7\u00e3o remetida a anti-fascistas na d\u00e9cada de 60 ainda antes da constitui\u00e7\u00e3o da Aginter Press. Essa carta ostenta a figura de um capacete romano com a palavra Gladius, e \u00e9 subscrita por \u201cOs Centuri\u00f5es\u201d. Dela destacamos as seguintes passagens: \u00abSomos Cem. Poder\u00edamos ser milhares a afirmar a Na\u00e7\u00e3o e defende-la dos Abutres e dos Traidores: dos abutres de fora; dos traidores de dentro. &#8211; Para afirmar a Na\u00e7\u00e3o e defend\u00ea-la dos Abutres seremos dezenas de milhar. Para defender a Na\u00e7\u00e3o dos traidores somos Cem. &#8211; Centuri\u00f5es regressados de Angola, Mo\u00e7ambique e Guin\u00e9 \u2013 somos cem. Condenamos a trai\u00e7\u00e3o que o governo e os seus \u00f3rg\u00e3os n\u00e3o consegue reprimir por meios legais. Somos cem que vimos tantas vezes a morte de perto que ela se tornou familiar. A morte ser\u00e1 a nossa arma contra a trai\u00e7\u00e3o!\u00bb<\/p>\n<p>De forma sucinta, este documento comporta v\u00e1rias mensagens em conson\u00e2ncia com os resultados das investiga\u00e7\u00f5es feitas pelo Senado italiano e investiga\u00e7\u00f5es subsequentes. Ele confirma a exist\u00eancia de uma organiza\u00e7\u00e3o clandestina com duas miss\u00f5es, uma de ex\u00e9rcito de retaguarda para a resist\u00eancia em cen\u00e1rio de ocupa\u00e7\u00e3o \u201csovi\u00e9tica\u201d, outra de vigil\u00e2ncia e repress\u00e3o sobre pessoas ou organiza\u00e7\u00f5es que identificassem como amea\u00e7a \u201cmarxista\u201d. Revela tamb\u00e9m a sua base e conex\u00f5es militares, em Portugal e para al\u00e9m das suas fronteiras nas ent\u00e3o col\u00f3nias. E atrav\u00e9s das f\u00f3rmulas de linguagem, identifica-se com a extrema-direita e a pol\u00edcia pol\u00edtica do passado regime.<\/p>\n<p>O que mais uma vez comprova n\u00e3o ser bastante conhecermos a racionalidade do que nos \u00e9 dito e mostrado, temos de tamb\u00e9m conhecer a racionalidade da mentira que nos \u00e9 dada e da verdade ocultada. Isto no mundo tal qual \u00e9 hoje e aqui.<\/p>\n<p><em>Artigo publicado em Seara Nova n.\u00ba 1715, 2011, pp. 8-12<\/em><\/p>\n<p><em>BIBLIOGRAFIA<\/em><\/p>\n<p><em>1 &#8211; Daniele Ganser, OTAN\u2019s Secret Armies. <\/em><em>Operation Gladio and Terrorism in Western Europe. Frank Cass, London January 2005.<\/em><\/p>\n<p><em>Godon Duff: Gladio, How we terrorize ourselves, Veterans Today, November 14, 2010. <\/em><em>(acedido 2 Mar\u00e7o 2011)<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.veteranstoday.com\/2010\/11\/14\/gordon-duff-gladio-how-we-terrorize-ourselves\/\" target=\"_blank\"><em>http:\/\/www.veteranstoday.com\/2010\/11\/14\/gordon-duff-gladio-how-we-terrorize-ourselves\/<\/em><\/a><em>.<\/em><\/p>\n<p><em>2 &#8211; Wikipedia, The Free Encyclopedia, Operation Gladio. (last modified on 23 February 2011; acedida 2 de Mar\u00e7o de 2011)<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Operation_Gladio\" target=\"_blank\"><em>http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Operation_Gladio<\/em><\/a><\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/www.odiario.info\/?p=2050\" target=\"_blank\">http:\/\/www.odiario.info\/?p=2050<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: ODiario.info\n\n\n\n\n\n\n\n\nRui Namorado Rosa\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1436\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-1436","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-na","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1436","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1436"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1436\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1436"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1436"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1436"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}