{"id":14383,"date":"2017-05-13T18:09:33","date_gmt":"2017-05-13T21:09:33","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=14383"},"modified":"2017-05-29T15:59:51","modified_gmt":"2017-05-29T18:59:51","slug":"ensaio-geral-os-resultados-parciais-da-greve-de-massas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/14383","title":{"rendered":"Ensaio geral: os resultados parciais da greve de massas"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"404\" width=\"720\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.pressenza.com\/wp-content\/uploads\/2017\/04\/greve-720x404.jpg?resize=720%2C404&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/>Por Gabriel Landi Fazzio*<\/p>\n<blockquote><p>\u201c<em>Eu n\u00e3o sei bem o que seja, mas sei que seja o que ser\u00e1. O que ser\u00e1 que ser\u00e1 que se veja vai passar por l\u00e1<\/em>\u201d. <em>Linha de Montagem<\/em>, <em>Chico Buarque<\/em>.<!--more--><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201c<em>Em diferentes momentos da evolu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, dependendo das diferentes condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, nacionais-culturais, de vida, etc., diferentes formas de luta passam para primeiro plano, tornam-se as principais formas de luta, e, em liga\u00e7\u00e3o com isto, modificam-se tamb\u00e9m as formas secund\u00e1rias, acess\u00f3rias de luta.\u201d <\/em><em>A Guerra de Guerrilhas<\/em><em>, Lenin.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<br \/>\n1 \u2013 Rumo \u00e0 greve geral de 15 de mar\u00e7o<\/strong><br \/>\n<strong>2 \u2013 O primeiro passo n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um avan\u00e7o: \u00e9 um rumo<\/strong><br \/>\n<strong>3 \u2013 28 de abril: greve, bloqueios e manifesta\u00e7\u00f5es<\/strong><br \/>\n<strong>4 \u2013 A Esquerda Socialista e a greve geral<\/strong><br \/>\n<strong>Ap\u00eandice \u2013 O que \u00e9 uma greve de massas?<\/strong><\/p>\n<p>No centro de S\u00e3o Paulo, as primeiras bombas do batalh\u00e3o de choque explodiram pouco depois da zero hora de 28 de abril, dispersando um pequeno grupo <em>aut\u00f4nomo<\/em> de jovens que ensaiava algum protesto <em>espont\u00e2neo <\/em>em frente \u00e0 C\u00e2mara (sem qualquer significado maior). Depois, a noite calou sobre a cidade. Quantas pessoas, nos grandes centros urbanos, dormiram incertas sobre como seria a manh\u00e3? Cientes de que a classe trabalhadora brasileira ousara prometer uma greve geral.<\/p>\n<p>\u00c9 bem verdade que os patr\u00f5es cuidaram de boa parte da agita\u00e7\u00e3o ao longo da semana, com seus preparativos generalizados contra a paralisa\u00e7\u00e3o de \u201csuas\u201d atividades. E, por outro lado, a simpatia da ampla maioria do povo trabalhador pelas palavras de ordem dos grevistas parecia cada vez mais n\u00edtida. Qual seria, afinal, a amplitude da greve geral? E seus resultados?<\/p>\n<p>Como comunistas, acreditamos que \u00e9 nosso dever n\u00e3o esconder as debilidades de nossas for\u00e7as, mas critic\u00e1-las abertamente para livrarmo-nos delas \u201co mais cedo poss\u00edvel e de maneira mais radical\u201d. Mas \u00e9 preciso que essa cr\u00edtica se volte em a\u00e7\u00e3o en\u00e9rgica em frente, n\u00e3o em hesita\u00e7\u00e3o contemplativa, apostando num desfecho negativo e conspirando, com a ina\u00e7\u00e3o, para sua realiza\u00e7\u00e3o. Ainda mais quando a propaganda antigrevista ventilada pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o comerciais busca minimizar o significado que se pode extrair do dia 28 de abril.<\/p>\n<p>Por isso n\u00e3o nos parece demais repetir: \u201co dia 28 de abril de 2017 fica marcado como uma data em que a classe trabalhadora assumiu novamente o protagonismo das lutas no pa\u00eds.\u201d Ou, em outras palavras: a classe trabalhadora passa a se firmar como for\u00e7a dirigente na oposi\u00e7\u00e3o aos planos da burguesia. Somos atacados enquanto trabalhadores; lutamos como trabalhadores. Esse impulso para que orientemos as lutas de massas por uma perspectiva de <em>unidade da classe trabalhadora<\/em> \u00e9, por si s\u00f3, um passo adiante na luta ideol\u00f3gica pela eleva\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia de classe do proletariado.<\/p>\n<p>\u00c9 autoevidente que a greve geral de 28 de abril n\u00e3o obteve seus objetivos declarados \u2013 barrar os ataques do governo dos capitalistas. Por isso mesmo devemos evidenciar os seus resultados ideol\u00f3gicos e organizativos, contra toda tend\u00eancia oportunista a avaliar uma luta determinada apenas por seus resultados mais econ\u00f4micos, menosprezando sua import\u00e2ncia enquanto momento de uma longa s\u00e9rie de lutas rumo \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Portanto, ainda que os pr\u00f3ximos lances das lutas de classes demandem grandes esfor\u00e7os para a supera\u00e7\u00e3o das insufici\u00eancias do movimento revolucion\u00e1rio (com ainda poucos la\u00e7os org\u00e2nicos com as massas trabalhadoras que passam a se mover), apenas ap\u00f3s nos determos um pouco mais nas constata\u00e7\u00f5es positivas das potencialidades abertas poderemos avaliar as condi\u00e7\u00f5es para tal supera\u00e7\u00e3o. Notemos alguns dos elementos mais significativos que indicam uma intensifica\u00e7\u00e3o da mobiliza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Antes ainda, \u00e9 preciso lembrar como chegamos \u00e0 <em>greve geral de abril<\/em> pela <em>greve geral de 15 de mar\u00e7o<\/em> \u2013 o primeiro ato do ensaio geral grevista.<\/p>\n<p><strong>Rumo \u00e0 greve geral de 15 de mar\u00e7o<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 iam mais de duas d\u00e9cadas desde que pela \u00faltima vez se levantou, em massa, o chamado \u00e0 greve geral. Em 1996 a paralisa\u00e7\u00e3o de 12 milh\u00f5es de trabalhadores n\u00e3o bastou para barrar as contrarreformas do governo burgu\u00eas da \u00e9poca, e tal derrota do movimento oper\u00e1rio terminou de precipitar seu refluxo. Evid\u00eancia disso \u00e9 que a quantidade de greves de 1997 apenas foi retomada em 2012. Deste ano em diante as paralisa\u00e7\u00f5es da produ\u00e7\u00e3o se tornaram cada vez mais numerosas e amplas, e o movimento grevista se intensificou at\u00e9 nos setores mais mal remunerados do proletariado (o \u201cprecariado\u201d), como garis e operadores de call centers. Ainda assim, mesmo com o acirramento das lutas de massas, de 2013 em diante, as manifesta\u00e7\u00f5es se lan\u00e7aram \u00e0s ruas sem atingir <em>politicamente<\/em> os locais de trabalho. A classe trabalhadora ia \u00e0s ruas sob a ins\u00edgnia da \u201cmultid\u00e3o cidad\u00e3\u201d.<\/p>\n<p>Neste per\u00edodo de descenso das lutas de massas da classe trabalhadora, boa parte das dire\u00e7\u00f5es do movimento oper\u00e1rio se integrou \u00e0 pol\u00edtica burguesa, e dezenas de intelectuais \u201cde esquerda\u201d velaram a \u201cmorte da classe trabalhadora\u201d. Essa tend\u00eancia foi enfraquecida abruptamente pela temer\u00e1ria e vexaminosa ruptura da burguesia com a pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes, ao longo do impeachment de Dilma: com a not\u00f3ria passagem da burguesia \u00e0 ofensiva, a classe trabalhadora foi for\u00e7ada \u00e0 defensiva \u2013 ou, como seria for\u00e7oso lembrar, \u00e0 emin\u00eancia de uma derrota colossal.<\/p>\n<p>Todos os est\u00e1gios da luta de classes que se iniciam em junho de 2013 e atravessam a consolida\u00e7\u00e3o do governo Temer at\u00e9 o 15 de mar\u00e7o t\u00eam esta marca: apresentam como a <em>forma de luta predominante<\/em> as manifesta\u00e7\u00f5es de massas, a <em>ocupa\u00e7\u00e3o das ruas<\/em>, a luta legal, reivindicativa, mediante o direito de livre manifesta\u00e7\u00e3o. Essa forma de luta, que se generalizou ao longo dos \u00faltimos anos, conferiu um novo impulso \u00e0s massas, mas tamb\u00e9m evidenciou seus in\u00fameros limites: nem em seu auge lograram deter a ofensiva golpista do impeachment, ou mesmo se equiparar \u00e0 erup\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea de 2013. A luta democr\u00e1tica de massas contra o golpismo precisaria ser ultrapassada pela luta grevista de massas do proletariado contra a espolia\u00e7\u00e3o. Nas manifesta\u00e7\u00f5es de massas, a classe trabalhadora se dilui em meio ao \u201cpovo\u201d (composto por classes sociais diversas, exceto a burguesia) e \u00e0 legalidade pac\u00edfica, t\u00edpica das camadas m\u00e9dias \u2013 que, diga-se de passagem, dirigiram ideologicamente a oposi\u00e7\u00e3o de esquerda em todo o per\u00edodo anterior. Na greve geral, a classe trabalhadora assalariada aparece destacada \u00e0 frente, como primeira fileira, a artilharia pesada de todo o povo explorado e oprimido.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto em que o chamado \u00e0 greve geral se firmou, mostrando-se <em>necess\u00e1ria<\/em> e arrastando crescentemente ades\u00f5es, ainda que fosse vista por muitos setores populares como uma possibilidade remota, uma amea\u00e7a agitativa que n\u00e3o se poderia cumprir, qui\u00e7\u00e1 com efeitos desmoralizadores e catastr\u00f3ficos. Em 22 de setembro e em 11 de novembro de 2016 alguns setores paralisaram pontualmente suas atividades e foram organizadas manifesta\u00e7\u00f5es de massas de baixa ades\u00e3o.<\/p>\n<p>A greve de 15 de mar\u00e7o demorou meses para engrossar suas fileiras. Mesmo a combativa decis\u00e3o dos trabalhadores da educa\u00e7\u00e3o de paralisar suas atividades por um dia, em 15 de mar\u00e7o, foi humildemente anunciada como \u201cgreve geral da educa\u00e7\u00e3o\u201d. Nos meses seguintes, sob a press\u00e3o das contrarreformas de Temer, a passagem acelerada de diversos dos setores mais atrasados do movimento oper\u00e1rio para a greve empurrou o movimento muito mais longe do que seus primeiros impulsionadores poderiam prever. A ades\u00e3o dos rodovi\u00e1rios foi decisiva no Rio de Janeiro e Curitiba, como a dos metrovi\u00e1rios em Recife e Belo Horizonte.<\/p>\n<p>Mas, em S\u00e3o Paulo, a paralisa\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea de ambos reverberou profundamente. N\u00e3o \u00e9 exagero dizer que, provavelmente, este \u00e9 o elemento mais significativo na compreens\u00e3o do dia 15 de mar\u00e7o e seus desdobramentos.<\/p>\n<p>Em 15 de mar\u00e7o j\u00e1 \u00e9 razo\u00e1vel afirmar que n\u00e3o havia <em>ningu\u00e9m <\/em>na cidade de S\u00e3o Paulo que desconhecesse a palavra de ordem pela <em>greve geral contra as reformas do governo<\/em>. Pela primeira vez na hist\u00f3ria os metrovi\u00e1rios e condutores de \u00f4nibus paralisaram conjuntamente no maior centro urbano do pa\u00eds, fazendo reconhecer a for\u00e7a do proletariado dos transportes.<\/p>\n<p>Como em todos os momentos anteriores das manifesta\u00e7\u00f5es de massas, essa luta grevista n\u00e3o obteve qualquer vit\u00f3ria em suas reivindica\u00e7\u00f5es. Mas, em termos ideol\u00f3gicos, essa forma de luta obteve efeitos agitativos comparativamente maiores, e um sentido pol\u00edtico muito mais preciso: o de classe, n\u00e3o apenas o democr\u00e1tico-formal.<\/p>\n<p>Uma das mais expl\u00edcitas evid\u00eancias disso se encontra nas efusivas manifesta\u00e7\u00f5es de apoio amplamente registradas dos trabalhadores no geral \u00e0 paralisa\u00e7\u00e3o <em>pol\u00edtica <\/em>dos metrovi\u00e1rios contra a reforma da previd\u00eancia \u2013 as greves que, no seu <em>efeito<\/em>, sempre sofreram grande recha\u00e7o popular, passaram a ser apoiadas quando superaram seu <em>car\u00e1ter<\/em> <em>corporativo<\/em>.<\/p>\n<p>Ambas as greves foram julgadas ilegais pelo Tribunal Regional do Trabalho, uma vez que eram greves com objetivos <em>pol\u00edticos<\/em>, e n\u00e3o <em>econ\u00f4micos<\/em>. Essa desavergonhada tomada de posi\u00e7\u00e3o do direito do trabalho em favor da burguesia indignou mesmo o mais legalista dos democratas pequeno-burgueses \u2013 ainda que, decerto, tenha seus efeitos negativos sobre os setores mais atrasados das massas, tanto por abrir portas aos cortes de pontos quanto por <em>ilegalizar<\/em> a greve. Em 15 de mar\u00e7o a Justi\u00e7a do Trabalho aceita abertamente desempenhar o papel de coveira de si mesma, causando n\u00e1usea mesmo \u00e0s alas mais reformistas e trabalhistas do movimento oper\u00e1rio. Assim, o movimento oper\u00e1rio deu de ombros \u00e0 estrita legalidade e seguiu organizando sua greve.<\/p>\n<p>Nesse sentido, 15 de mar\u00e7o j\u00e1 representa uma das maiores ondas de greves <em>pol\u00edticas <\/em>das \u00faltimas d\u00e9cadas. Percebe-se uma crescente inclina\u00e7\u00e3o das massas populares pelas palavras de ordem contra o projeto governamental de desmonte da previd\u00eancia social \u2013 ainda que refletida em boa medida num apoio passivo, hesitante.<\/p>\n<p>Sobre o pr\u00f3prio movimento oper\u00e1rio organizado, o impacto subjetivo de 15 de mar\u00e7o foi gigantesco: com a reverbera\u00e7\u00e3o muito maior do que a esperada das greves, muitos setores hesitantes foram atirados ao entusiasmo; os sabich\u00f5es que cantarolavam que \u201ca greve geral \u00e9 imposs\u00edvel\u201d baixaram sua voz. O dia 15 de mar\u00e7o confirmou o sentido que a luta social deve seguir: a greve de massas, a mobiliza\u00e7\u00e3o de todo o povo trabalhador sob a for\u00e7a arrastadora do proletariado, a \u00fanica for\u00e7a social capaz de p\u00f4r verdadeiramente em risco os planos das classes dominantes.<\/p>\n<p><strong>O primeiro passo n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um avan\u00e7o, \u00e9 um rumo <\/strong><\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que diz a propaganda patronal, o dia de greve geral \u00e9 um dia de intensa atividade, ao menos para os setores organizados e mobilizados da classe trabalhadora. Em 18 cidades do Brasil, desde a madrugada, os comandos grevistas come\u00e7aram a fechar as garagens dos \u00f4nibus. Nos metr\u00f4s, mesmo o deslocamento de funcion\u00e1rios administrativos para as linhas n\u00e3o evitou a paralisa\u00e7\u00e3o de quase todo o fluxo. Mal o sol raiou e, ao longo de todo o territ\u00f3rio nacional, foram bloqueadas rodovias, avenidas, barcas, aeroportos e portos pelos trabalhadores sem moradia, trabalhadores do campo, popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e grupos de estudantes, especialmente secundaristas. Os metal\u00fargicos cruzaram os bra\u00e7os em diversas f\u00e1bricas do pa\u00eds, bem como os petroleiros, oper\u00e1rios da constru\u00e7\u00e3o civil (em Fortaleza, 90% dos canteiros de obra foram paralisados), estivadores, aerovi\u00e1rios, funcion\u00e1rios dos correios, qu\u00edmicos, banc\u00e1rios, trabalhadores dos servi\u00e7os e professores \u2013 inclusive nas escolas privadas, um fato novo, em escala (foram 227 s\u00f3 em S\u00e3o Paulo), no movimento dos trabalhadores da educa\u00e7\u00e3o. As trabalhadoras e os trabalhadores de mais de uma centena de sindicatos e de diversos movimentos populares uniram seus esfor\u00e7os numa a\u00e7\u00e3o concentrada e unit\u00e1ria.<\/p>\n<p>O com\u00e9rcio foi gravemente afetado: al\u00e9m de muitos estabelecimentos sequer abrirem, estimou-se uma \u201cperda\u201d na casa dos R$5 bilh\u00f5es. Os preju\u00edzos \u00e0 produ\u00e7\u00e3o propriamente dita a burguesia nem ousa anunciar publicamente. Ao fim, estima-se que cerca de 40 milh\u00f5es de brasileiros tiver a sua rotina de trabalho interrompida \u2013 isso em um pa\u00eds que, de seus 200 milh\u00f5es de habitantes, tem 60,5 milh\u00f5es de assalariados, segundo o PNAD de 2014.<\/p>\n<p>As manifesta\u00e7\u00f5es de massas foram \u00e0s ruas em tom secund\u00e1rio, como ap\u00eandice da greve \u2013 como sua voz pol\u00edtica, sua constitui\u00e7\u00e3o em sujeito de massas, para apresentar as reivindica\u00e7\u00f5es unificadas de todo o movimento: nenhum direito a menos, a retirada de tramita\u00e7\u00e3o de todas as propostas de contrarreformas do trabalho, da previd\u00eancia, dos direitos sociais, em suma, a interrup\u00e7\u00e3o de tudo o que constitui o governo Temer e a agenda da burguesia brasileira!<\/p>\n<p>Adiante, retornaremos a an\u00e1lise da combina\u00e7\u00e3o entre cada uma dessas formas de luta. No momento, baste dizer que a mobiliza\u00e7\u00e3o de centenas de milhares de pessoas em todo o pa\u00eds foi fruto da coordena\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es de in\u00fameras organiza\u00e7\u00f5es prolet\u00e1rias e populares das mais diversas orienta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p>S\u00f3 foi poss\u00edvel atingir tamanha mobiliza\u00e7\u00e3o porque o movimento contou com a ades\u00e3o expressiva de diversos sindicatos tradicionalmente enredados na pol\u00edtica burguesa, em maior ou menor grau. Essa passagem \u00e0 luta causa, naturalmente, desconfian\u00e7as \u2013 seja entre as for\u00e7as revolucion\u00e1rias, seja no conjunto da pr\u00f3pria classe, que se influencia enormemente pela ret\u00f3rica burguesa em torno do imposto sindical \u2013 que faz confundir a corrup\u00e7\u00e3o burguesa do sindicalismo com a luta oper\u00e1ria. Mas seria um equ\u00edvoco de nossa parte resumir a ades\u00e3o das bases do sindicalismo de direita (For\u00e7a, UGT e afins) \u00e0 greve geral nesses termos.<\/p>\n<p>Ainda que consideremos que o sindicalismo de direita se move para a greve geral apenas para preservar o imposto sindical, seria despropositado crer que seja isso que empurra suas bases para a ades\u00e3o em massa \u00e0 greve \u2013 por mais coa\u00e7\u00e3o que esse sindicalismo pudesse utilizar, nos seus setores mais mafiosos. Por outro lado, nota-se a tend\u00eancia \u00e0 radicaliza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria base: veja-se o caso dos condutores de S\u00e3o Paulo, amea\u00e7ados pela demiss\u00e3o em massa prevista de 14 mil cobradores; ou os trabalhadores das linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda da CPTM que, em assembl\u00e9ia, deliberaram pela paralisa\u00e7\u00e3o dos trens contra a decis\u00e3o da diretoria do sindicato de manter as atividades.<\/p>\n<p>Temos todos os motivos para desconfiar do sindicalismo patronal, mesmo quando este se atira \u00e0 luta. Por isso seguiremos denunciando e combatendo suas dire\u00e7\u00f5es, seus objetivos, seus m\u00e9todos que, decerto, os levar\u00e3o ora ou outra \u00e0 negocia\u00e7\u00e3o, na qual buscar\u00e3o permutar a luta de nossa classe em troca de seus privil\u00e9gios. Mas temos o dever de lutar ao lado deste sindicalismo nas greves pol\u00edticas de massas \u2013 principalmente se ele se atira \u00e0 luta sob um deslize da massa trabalhadora em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 a\u00e7\u00e3o grevista! N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel sequer conceber a supera\u00e7\u00e3o destas dire\u00e7\u00f5es sem que todos seus cr\u00edticos se liguem profundamente \u00e0 pr\u00f3pria luta das massas que come\u00e7am a se mover para fora dos limites burocr\u00e1ticos do sindicalismo, com seus diss\u00eddios coletivos, multas por greves ilegais, prud\u00eancias e afins.<\/p>\n<p>Ver na greve geral de 28 de abril algo como um ato <em>perform\u00e1tico<\/em> n\u00e3o poderia passar por mera retic\u00eancia cr\u00edtica, combate ao entusiasmo cego: n\u00e3o seria apenas uma desconfian\u00e7a para com as dire\u00e7\u00f5es reformistas da classe trabalhadora, mas uma profunda descren\u00e7a no potencial <em>revolucion\u00e1rio<\/em> do proletariado \u2013 potencial a ser desenvolvido a cada est\u00e1gio da luta que se atravesse, com seus obst\u00e1culos espec\u00edficos. Apenas um tamanho ceticismo poderia permitir ver os elementos performatividade das manifesta\u00e7\u00f5es de massas e cegar-se para o elemento inovador da greve geral \u00e0 qual estas se subordinam.<\/p>\n<p>Em verdade, um passo firme foi dado \u00e0 frente no sentido oposto ao da a\u00e7\u00e3o perform\u00e1tica: um rumo que traduz, j\u00e1 na forma, elementos de um conte\u00fado radical de classe. Come\u00e7ou a desmoronar o temor, t\u00e3o difundido pelos reformistas no seio da classe, da \u201cimpossibilidade de fazer a greve geral na atual conjuntura\u201d.<\/p>\n<p><strong>28 de abril: greve geral, bloqueios e manifesta\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>A esta altura, pretendermos j\u00e1 ter demonstrado que, a despeito de n\u00e3o ter atingido seus objetivos expressos (barrar as contrarreformas), a greve geral de 28 de abril obteve <em>conquistas<\/em> \u2013 no plano da organiza\u00e7\u00e3o, da a\u00e7\u00e3o unit\u00e1ria, da consci\u00eancia classista, etc. A entrada em cena do proletariado, o potencial de sua posi\u00e7\u00e3o dirigente na luta do pr\u00f3ximo per\u00edodo, se expressa no fato de que a forma de luta <em>de classe<\/em> do proletariado (ou seja, a sua forma particular e intransfer\u00edvel, que nenhuma outra classe ou camada social pode realizar com mesmo impacto e efeito) se tornou a luta principal que levanta a oposi\u00e7\u00e3o social a Temer: a luta grevista.<\/p>\n<p>N\u00e3o pretendemos dizer que <em>com certeza <\/em>haver\u00e1, em breve, uma grave geral ainda maior: dizemos apenas que a tarefa concreta que o movimento de massas agora se colocar\u00e1 \u00e9 precisamente esta, e que do seu sucesso depende todo o futuro imediato, de vit\u00f3ria ou n\u00e3o da ofensiva burguesa. E, a cada dia, mais trabalhadoras e trabalhadores est\u00e3o mais conscientes desta verdade.<\/p>\n<p>Deste modo, \u00e9 preciso tirar o m\u00e1ximo poss\u00edvel de li\u00e7\u00f5es, para organizar o amanh\u00e3 de modo superior, mais consciente.<\/p>\n<p>Em 28 de abril se combinaram de modo sucessivo tr\u00eas formas de luta: a greve geral, os bloqueios e as manifesta\u00e7\u00f5es de massas. Nesta precisa combina\u00e7\u00e3o reside todo o potencial da experi\u00eancia de 28 de abril em termos da supera\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter perform\u00e1tico (pequeno-burgu\u00eas) da luta de massas. A luta pela hegemonia prolet\u00e1ria no movimento de massas passa precisamente por essa experi\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>A greve geral<\/strong> se apresentou como o fio condutor de toda a mobiliza\u00e7\u00e3o. Foi o maior ato de agita\u00e7\u00e3o (e propaganda) da luta da classe oper\u00e1ria em d\u00e9cadas, diante do qual imensas parcelas da sociedade foram interpeladas a tomar posi\u00e7\u00e3o, mesmo que hipoteticamente. Apresentou o conflito geral do pa\u00eds nitidamente nos termos da <em>luta da classe trabalhadora contra o governo dos grandes propriet\u00e1rios<\/em>.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 demais notar que, ao longo da semana, a agita\u00e7\u00e3o pela greve geral se alastrou em propor\u00e7\u00f5es inesperadas: n\u00e3o apenas diversos sindicatos se lan\u00e7aram \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o de suas categorias (o relato de um camarada sobre a agita\u00e7\u00e3o, de porta em porta, de dirigentes do Sindicato dos Porteiros de S\u00e3o Paulo na Avenida Paulista, \u00e9 um curioso exemplo); como amplos setores da Igreja Cat\u00f3lica e alguns setores evang\u00e9licos convocaram seus fi\u00e9is \u00e0 greve, e apoios foram manifestados por diversas entidades e personalidades influentes nas camadas m\u00e9dias. Ou seja: a greve geral foi erguida como uma palavra de ordem, express\u00e3o concentrada do comando \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o do conjunto da classe trabalhadora, na qual mesmo in\u00fameros setores das camadas m\u00e9dias depositaram sua convic\u00e7\u00e3o, chamando-a \u00e0 a\u00e7\u00e3o para deter o governo pela paraliza\u00e7\u00e3o do trabalho.<\/p>\n<p>Quando raiou o dia 28 de abril, a greve nos transportes de 18 cidades j\u00e1 <em>impedia a ida<\/em> de imensas parcelas da popula\u00e7\u00e3o trabalhadora a seus locais de trabalho &#8211; nos casos em que n\u00e3o forneciam justificativa para a express\u00e3o <em>parcialmente ativa do apoio passivo<\/em>, o boicote. Nesse sentido, contra a simplifica\u00e7\u00e3o burguesa, tomemos nota do potencial das greves do transporte para a liberta\u00e7\u00e3o grevista de for\u00e7as que, por si pr\u00f3prias, n\u00e3o poderiam paralisar, em categorias de trabalhadores menos mobilizadas, mais pulverizadas, terceirizadas, etc.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m nesse sentido [1] pesaram decisivamente os <strong>bloqueios<\/strong>. Em 28 de abril os bloqueios se apresentaram (ainda que n\u00e3o em termos conscientes) como <em>a forma de luta de todas as camadas da sociedade que n\u00e3o est\u00e1 em greve. <\/em>Isso pode n\u00e3o ser evidente, mas por diversos motivos \u00e9 verdade: seja porque apresenta nitidamente uma <em>atividade<\/em> que n\u00e3o se confunde com a <em>paralisa\u00e7\u00e3o <\/em>da produ\u00e7\u00e3o, seja porque extrapola violentamente o direito de greve. Ademais, de fato, foi eminentemente a forma da luta das camadas que <em>n\u00e3o fizeram greve<\/em> &#8211; ou porque n\u00e3o est\u00e3o inseridas imediatamente na produ\u00e7\u00e3o, como desempregados e estudantes; ou porque est\u00e3o inseridas numa posi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o lhes permite paralisar, como os trabalhadores aut\u00f4nomos, pequenos produtores, etc. \u00c9, contudo, uma forma de luta absolutamente subordinada \u00e0 greve geral: \u00e9 o m\u00e9todo \u201cguerrilheiro\u201d e disperso de qualquer pequeno grupo que deseje lutar <em>ao lado do proletariado<\/em>, somando for\u00e7as para sua a\u00e7\u00e3o grevista de massas.<\/p>\n<p>Essa subordina\u00e7\u00e3o dos bloqueios \u00e0 greve implica uma mudan\u00e7a fundamental em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo anterior, no qual os bloqueios surgiam como forma de luta residual, pouco discern\u00edveis dos pr\u00f3prios protestos de massas, que buscavam exercer press\u00e3o sobre os governos atrav\u00e9s da interrup\u00e7\u00e3o do tr\u00e2nsito e, com isso, da rotina de trabalho dos centros urbanos (exceto nos casos dos bloqueios de rodovias pelo movimento dos trabalhadores rurais, em que essa forma de luta se apresentava com alguma autonomia que, desde logo, apontava para a paralisa\u00e7\u00e3o da <em>circula\u00e7\u00e3o \u2013 <\/em>sen\u00e3o da pr\u00f3pria mercadoria for\u00e7a de trabalho, ao menos das demais).<\/p>\n<p>A extrapola\u00e7\u00e3o da luta grevista para al\u00e9m de seus limites econ\u00f4mico-legais, acompanhada dos piquetes rodovi\u00e1rios \u201cfoquistas\u201d, foi recebida pelas classes dominantes, seu Estado e sua m\u00eddia como uma <em>viol\u00eancia<\/em> de classe criminosa \u2013 que trataram de apresentar como uma viol\u00eancia contra os pr\u00f3prios trabalhadores e seu direito de ir e vir a servi\u00e7o de seu empregador! Mas a viol\u00eancia efetiva da greve \u00e9 outras: a de arrancar aos patr\u00f5es o sagrado direito sobre o peda\u00e7o principal de cada dia da vida e atividade de seus empregados, e fazer com que cessem de acumular riqueza, ao menos momentaneamente.<\/p>\n<p>Nesse contexto, se ressaltou nas <strong>manifesta\u00e7\u00f5es de massas <\/strong>o car\u00e1ter de <em>forma pac\u00edfica de a\u00e7\u00e3o de massas<\/em> em 28 de abril. A paralisa\u00e7\u00e3o dos transportes n\u00e3o s\u00f3 dificultou o acesso \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m lhes esvaziou qualquer papel de obstru\u00e7\u00e3o vi\u00e1ria (exceto nas cidades menores), despindo-as at\u00e9 nisso do seu conte\u00fado de \u201cviol\u00eancia contra a ida e vinda\u201d. Esse tom acess\u00f3rio que os atos de rua assumiram ao lado da greve geral teve, em algumas capitais, o efeito de diminu\u00ed-los em maior ou menor grau em rela\u00e7\u00e3o ao atual grau de mobiliza\u00e7\u00e3o j\u00e1 recentemente demonstrado.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, o chamado <em>nacional <\/em>de uma greve geral teve um efeito mobilizador, nas cidades do interior do pa\u00eds, muito maior que todos chamados anteriores por dias de manifesta\u00e7\u00f5es coordenadas. Atos em apoio \u00e0 greve geral e contra as \u201creformas\u201d ocorreram em centenas de cidades do pa\u00eds (cerca de 254, segundo levantamentos midi\u00e1ticos pessimistas).<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 exagero dizer que mais de um milh\u00e3o de pessoas foram \u00e0s ruas em manifesta\u00e7\u00e3o em todo o pa\u00eds, numa das maiores ondas de protestos de tal tipo desde Junho de 2013. As estimativas otimistas d\u00e3o conta de que, em Recife, quase 200 mil pessoas foram \u00e0s ruas; 150 mil em Belo Horizonte; 100 mil em Fortaleza; 80 mil em Salvador; 70 mil em S\u00e3o Paulo, Campo Grande, Goi\u00e2nia e Natal; 50 mil em Bel\u00e9m; 40 mil em Manaus; 30 mil em Curitiba; 10 mil em Porto Alegre, dando apenas alguns exemplos. A PM, em in\u00fameras cidades, se recusou a fazer suas estimativas pr\u00f3prias, apenas podendo nos levar a crer que a cifra total, caso oficial, poderia por em causar o discurso oficial sobre nosso \u201cfracasso\u201d&#8230;<\/p>\n<p>Ainda que em algumas cidades a mobiliza\u00e7\u00e3o tenha sido expressiva e acima das expectativas, a ades\u00e3o relativamente baixa aos protestos dos quais talvez se esperasse mais do que o efetivado (como em S\u00e3o Paulo, com suas 70 mil pessoas) parece contradizer a afirma\u00e7\u00e3o do par\u00e1grafo acima. Mas \u00e9 preciso ter em vista que n\u00e3o foram apenas as grandes metr\u00f3poles que realizaram greves e protestos contra o governo usurpador, como lembra o camarada Edmilson Costa:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cNo Brasil profundo, constitu\u00eddo pelas pequenas e m\u00e9dias cidades do interior, tamb\u00e9m se realizaram manifesta\u00e7\u00f5es. Por exemplo, foram realizados atos contra o governo em Bujari, no Acre; Marituba, no Par\u00e1; Gurupi, no Tocantins; Arapiraca, em Alagoas; Assu, no Rio Grande do Norte; Lauro de Freitas, na Bahia; Juari, no Mato Grosso; Sabar\u00e1, Minas Gerais; Tatu\u00ed, S\u00e3o Paulo e Iju\u00ed, no Rio Grande do Sul. Isso sem contar as cidades de porte m\u00e9dio, onde em quase todas ocorreram manifesta\u00e7\u00f5es contra o governo.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, protestos se estenderam por Piracicaba, Ribeir\u00e3o Preto, S\u00e3o Carlos, Bauru (cerca de 4 mil!), Mar\u00edlia, Campinas, Franca, S\u00e3o Roque&#8230; Em Minas Gerais, estima-se terem ocorrido ao menos 60 atos de massas. Cerca de 130 munic\u00edpios do Cear\u00e1 se mobilizaram, segundo o MST, bem como diversos do Maranh\u00e3o, Alagoas, Esp\u00edrito Santo, enfim, todos os estados da federa\u00e7\u00e3o. Na ampla maioria das cidades, portanto, as manifesta\u00e7\u00f5es representaram uma das maiores ondas de mobiliza\u00e7\u00e3o desde Junho de 2013 \u2013 e, sem d\u00favida, a com mais n\u00edtido conte\u00fado classista, at\u00e9 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quele ano.<\/p>\n<p>Na mesma medida em que se generalizaram os protestos se generalizou a repress\u00e3o. Sob os ares de uma greve geral, o aparato repressivo n\u00e3o se conteve e respondeu \u00e0 altura: dispersou desde cedo os bloqueios, manteve-se alerta e reprimiu a ampla maioria das manifesta\u00e7\u00f5es pac\u00edficas ao redor do pa\u00eds. No Rio de Janeiro as duas grandes a\u00e7\u00f5es policiais ao longo do dia inviabilizaram a pr\u00f3pria reuni\u00e3o das manifesta\u00e7\u00f5es por muito tempo. As for\u00e7as repressivas se lan\u00e7aram contra os piquetes e protestos, ferindo e prendendo dezenas de militantes prolet\u00e1rios. Ao fim do dia, a brutalidade policial levou as manifesta\u00e7\u00f5es pac\u00edficas a coroarem o dia com, em verdade, uma onda razoavelmente ampla de enfrentamentos entre as massas e as pol\u00edcias em todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em abrang\u00eancia, 28 de abril de 2017 levou \u00e0s ruas e aos choques contra a pol\u00edcia um n\u00famero significativamente menor de pessoas que as jornadas de junho de 2013. Contudo, tamb\u00e9m em escala, a greve geral disseminou um senso de pertencimento de classe dos trabalhadores com potencial de explicitar os antagonismos fundamentais de modo muito mais n\u00edtido. [2] Qualquer \u201cradicalidade das formas de a\u00e7\u00e3o\u201d que supostamente se possa ver em Junho \u00e9, na verdade, apenas uma sombra da radicalidade da greve geral de massas: n\u00e3o vai \u00e0 raiz da luta de classes, infundindo na pr\u00f3pria forma de luta a radicalidade da a\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria de massas, no conte\u00fado de sua inser\u00e7\u00e3o objetiva. A ado\u00e7\u00e3o de formas de <em>a\u00e7\u00e3o direta de massas<\/em> t\u00edpicas dos trabalhadores (trancamentos, piquetes, greves, a\u00e7\u00f5es em porta de f\u00e1brica etc.) ensina muito mais que as perform\u00e1ticas barricadas de entulhos, vidra\u00e7as quebradas e provoca\u00e7\u00f5es deliberadas ao aparato de repress\u00e3o \u2013 tanto porque envolve camadas mais vastas na execu\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es, quanto por demonstrar, com o impacto da paralisa\u00e7\u00e3o, toda a centralidade do trabalho e da classe que o realiza.<\/p>\n<p>O car\u00e1ter de classe e conte\u00fado das mobiliza\u00e7\u00f5es de 28 de abril \u00e9 muito distinto daquele das Jornadas de junho de 2013 tamb\u00e9m por isso \u2013 do mesmo modo que pelas suas palavras de ordem em oposi\u00e7\u00e3o ao conjunto de contrarreformas voltadas \u00e0 intensifica\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o, do aumento da extra\u00e7\u00e3o de mais-valia absoluta, enfim, por suas reinvindica\u00e7\u00f5es defensivas <em>prolet\u00e1rias<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso combater em nosso movimento a tend\u00eancia pequeno-burguesa a superestimar as virtudes da irrup\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 a\u00e7\u00e3o organizada \u2013 como se o car\u00e1ter de classe da a\u00e7\u00e3o de massas fosse um fator secund\u00e1rio frente \u00e0 sua radicalidade formal. Se \u00e9 verdade que a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria n\u00e3o pode ocorrer sem a subleva\u00e7\u00e3o mais ou menos \u201cepif\u00e2nica\u201d da milh\u00f5es de pessoas; por outro lado nenhuma explos\u00e3o das massas poder\u00e1 marchar muito al\u00e9m de <em>reivindica\u00e7\u00f5es<\/em> se n\u00e3o se preparar longamente, atrav\u00e9s das sucessivas fases da luta de classes, para a a\u00e7\u00e3o organizada e consciente da classe oper\u00e1ria, para n\u00e3o apenas explodir em demandas, mas para realizar os grandes feitos organizativos que se exige de uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o. [3]<\/p>\n<p><strong>A Esquerda Socialista e a greve geral<\/strong><\/p>\n<p>Com o principal desta contribui\u00e7\u00e3o delineado, restam alguns apontamentos finais.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, vale destacar a fal\u00eancia da palavra de ordem pelas elei\u00e7\u00f5es gerais: n\u00e3o apenas essa palavra de ordem comprovou sua insufici\u00eancia na mobiliza\u00e7\u00e3o das massas, em contraste com as palavras de ordem defensivas e classistas; mas tamb\u00e9m se mostrou sua pr\u00f3pria incapacidade de erguer-se como palavra de ordem de unidade e ofensiva, no curso da greve geral do dia 28 de abril. Se isso n\u00e3o determina, de pronto, seu abandono pela vanguarda, por outro lado demonstra o acerto das for\u00e7as revolucion\u00e1rias que n\u00e3o cederam \u00e0 sua press\u00e3o, express\u00e3o perfeita da hegemonia pequeno-burguesa e suas ilus\u00f5es democr\u00e1ticas sobre o movimento oper\u00e1rio.<\/p>\n<p>Por sua vez, a greve geral n\u00e3o \u00e9 nem nunca foi uma panaceia para todos os males da esquerda revolucion\u00e1ria. \u00c9, apenas, \u201c<em>um<\/em> dos meios de luta, necess\u00e1rio em <em>certas<\/em> condi\u00e7\u00f5es\u201d. A greve geral se torna necess\u00e1ria, no atual est\u00e1gio da luta de classes, justamente pela avassaladora ofensiva com que a burguesia empurra contra a parede o prolet\u00e1rio, que desesperadamente recorrer a todos os meios de resist\u00eancia dispon\u00edveis. Torna-se necess\u00e1rio, al\u00e9m disso, do ponto de vista da esquerda revolucion\u00e1ria, na medida em que provoca uma agita\u00e7\u00e3o tamanha entre os trabalhadores que revolve as bases do sindicalismo de concilia\u00e7\u00e3o que hoje \u00e9 dominante.<\/p>\n<p>Por isso, a agita\u00e7\u00e3o por uma nova greve geral n\u00e3o pode aparecer como um fim em si, como se uma nova paralisa\u00e7\u00e3o (pouco importa qual a sua dura\u00e7\u00e3o) pudesse representar qualquer avan\u00e7o, a menos que acompanhada de uma disputa acelerada pelas bases do movimento oper\u00e1rio. Se, por um lado, boas not\u00edcias j\u00e1 se anunciam nesse rumo (como a vit\u00f3ria da esquerda socialista no Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro), por outro muito a que se fazer \u2013 em especial no que tange aos trabalhadores dos \u00f4nibus, em cujas bases a interven\u00e7\u00e3o das for\u00e7as revolucion\u00e1rias foi at\u00e9 hoje evitada com base no banditismo maior ou menor do sindicalismo reacion\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u00c9 apenas o sucesso nesta frente da luta que permitir\u00e1 vencer as hesita\u00e7\u00f5es deste sindicalismo oficial, disposto a sentar \u00e0 mesa de negocia\u00e7\u00f5es com o governo e rifar, em nome da manuten\u00e7\u00e3o da estrutura sindical vigente, todas as demais medidas de reestrutura\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de emprego. Inclusive vai neste sentido toda a t\u00e1tica deliberada ap\u00f3s o dia 28: uma semana de \u201cpress\u00e3o\u201d sobre os parlamentes promovida \u00e0s escondidas das bases, em conversas de gabinete em Bras\u00edlia, sem qualquer indicativo de nova greve. Caso essas semanas de \u201cpress\u00e3o sobre Bras\u00edlia\u201d n\u00e3o obtenham qualquer ganho, sequer aos burocratas, uma nova e maior greve pode ser esperada ainda para este semestre. Do contr\u00e1rio, a esquerda socialista depender\u00e1 precisamente desse enraizamento para poder fazer avan\u00e7ar a organiza\u00e7\u00e3o de uma nova paralisa\u00e7\u00e3o da mesma envergadura.<\/p>\n<p>De todo modo, \u00e9 previs\u00edvel que a mera ocorr\u00eancia da greve do dia 28 estimule crescentemente o recurso \u00e0s greves para cada luta parcial e econ\u00f4mica que se seguir\u00e1, nas categorias isoladamente consideradas.<\/p>\n<p>Caberia, por fim, o balan\u00e7o: diante do chamado \u00e0 greve geral, como a classe trabalhadora respondeu? Houve hesita\u00e7\u00f5es gigantescas, isso \u00e9 verdade. Mas houve, tamb\u00e9m, um apoio decidido e qualitativamente superior em muitas categorias historicamente menos influenciadas pela esquerda classista. Houve, tamb\u00e9m, grande apoio passivo, que agora deve ser crescentemente organizado e mobilizado.<\/p>\n<p>O que se espera da vanguarda, portanto, \u00e9 que n\u00e3o se quede catat\u00f4nica; receosa de n\u00e3o repetir amanh\u00e3 a grandiosidade de seus feitos do dia 28. \u00c9 preciso empenho, energia e aud\u00e1cia. S\u00f3 com uma a\u00e7\u00e3o resoluta, toda o ganho do movimento oper\u00e1rio que resulta do dia 28 de abril, em termos de legitima\u00e7\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o \u201cmoral\u201d, poder\u00e1 ser levada adiante. Quanto mais forte for a a\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, mais simpatia atrair\u00e1 de todos demais setores oprimidos da sociedade.<\/p>\n<p>Sabemos que podemos mais pela boca de nossos pr\u00f3prios inimigos: ao anunciar que os protestos foram \u201cabaixo do previsto\u201d, Temer revelou que o monitoramento interno do governo (leia-se, o aparato de vigil\u00e2ncia ligado \u00e0 repress\u00e3o) constatou que h\u00e1 \u201cuma ades\u00e3o em outros setores da sociedade\u201d, para al\u00e9m do sindicalismo tradicional. Em outras palavras: h\u00e1 todo um colossal apoio est\u00e1tico das massas ao movimento, com cujas bandeiras e m\u00e9todos concordam, mas ao qual n\u00e3o se integraram.<\/p>\n<p>Nossa tarefa \u00e9 clara: converter em for\u00e7a ativa toda a energia potencial da revolta que se alastra pela classe oper\u00e1ria. Seguir unindo as lutas defensivas sob uma perspectiva classista, e, no interior dessas lutas, avan\u00e7ar numa agita\u00e7\u00e3o unificada por um programa de car\u00e1ter anticapitalista, que aponte para a constru\u00e7\u00e3o do Poder Popular e o socialismo.<\/p>\n<p>*Militante do PCB-SP.<\/p>\n<hr \/>\n<p>[1] Mesmo nos pa\u00edses onde a chamada flexibiliza\u00e7\u00e3o produtiva reverteu a tend\u00eancia \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o do proletariado nos locais imediatos de trabalho, ainda assim a tend\u00eancia \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o do proletariado nos centros urbanos se manteve e aprofundou. \u00c9 nesse sentido que a paralisa\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, nesses centros urbanos, depende vitalmente da paralisa\u00e7\u00e3o geral dos transportes e vias.<\/p>\n<p>[2] &#8220;Se somos atacados pelo inimigo, \u00e9 bom, porque isto prova que tra\u00e7amos uma linha de demarca\u00e7\u00e3o bem n\u00edtida, entre o inimigo e n\u00f3s. E se ele nos ataca com viol\u00eancia, pintando-nos com as piores palavras e difamando tudo quanto fazemos, melhor, porque isto prova n\u00e3o s\u00f3 que estabelecemos uma linha de demarca\u00e7\u00e3o n\u00edtida entre o inimigo e n\u00f3s, mas ainda que conquistamos \u00eaxitos em nosso trabalho.&#8221; Mao Zedong.<\/p>\n<p>[3] \u201cE n\u00e3o seria poss\u00edvel imaginar a pr\u00f3pria revolu\u00e7\u00e3o sob a forma de um ato \u00fanico (como parecem fazer os Nadejdine): a revolu\u00e7\u00e3o ser\u00e1 uma sucess\u00e3o r\u00e1pida de explos\u00f5es mais ou menos violentas, alternando-se algumas fases de calma moment\u00e2nea mais ou menos profunda\u201d. O que Lenin afirma em \u201cQue fazer?\u201d poderia, nesse aspecto, se aplicar a todas fases ascendentes da luta de classes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Gabriel Landi Fazzio* \u201cEu n\u00e3o sei bem o que seja, mas sei que seja o que ser\u00e1. 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