{"id":14406,"date":"2017-05-15T13:27:42","date_gmt":"2017-05-15T16:27:42","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=14406"},"modified":"2017-05-29T16:00:27","modified_gmt":"2017-05-29T19:00:27","slug":"marx-e-o-trabalho-algumas-notas-a-pensar-no-presente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/14406","title":{"rendered":"Marx e o trabalho &#8211; algumas notas a pensar no presente*"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/1.bp.blogspot.com\/-41rOSdUb2lo\/T8uPT8S5yQI\/AAAAAAAAB50\/DsOet3cuw8U\/s1600\/Classe%2Boperaria.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/>Manuel Gusm\u00e3o<\/p>\n<p>ODi\u00e1rio.info &#8211; 12 de Maio 2017<!--more--><\/p>\n<p>&#8220;Marx \u00e9 atual porque continuamos a viver n\u00e3o s\u00f3 numa sociedade de classes, mas numa sociedade em que o capitalismo se mant\u00e9m como o modo de produ\u00e7\u00e3o e de reprodu\u00e7\u00e3o social dominante, embora em configura\u00e7\u00f5es concretas que Marx n\u00e3o conheceu&#8221;.<\/p>\n<p>No centro da ofensiva capitalista, econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica, na sua orienta\u00e7\u00e3o dominante que \u00e9 a do neoliberalismo, est\u00e1 uma profunda deprecia\u00e7\u00e3o do trabalho. Embora esta deprecia\u00e7\u00e3o se articule com outras pr\u00e1ticas e objetivos da pol\u00edtica neoliberal, ela assume caracter\u00edsticas e produz efeitos de tal modo nocivos e perigosos que talvez justifique um tratamento relativamente aut\u00f4nomo. A que chamamos deprecia\u00e7\u00e3o do trabalho?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c0 continuada baixa dos sal\u00e1rios reais ou \u00e0 tend\u00eancia para a baixa da parte da remunera\u00e7\u00e3o do trabalho na distribui\u00e7\u00e3o da riqueza socialmente produzida em favor do aumento da parte que dela vem a caber ao capital;<\/p>\n<p>&#8211; \u00e0 tend\u00eancia para o real aumento do desemprego independentemente de m\u00ednimas flutua\u00e7\u00f5es estat\u00edsticas, ali\u00e1s manipuladas;<\/p>\n<p>&#8211; ao aumento do trabalho prec\u00e1rio nas suas diversas formas: trabalho a prazo, a &#8220;recibos verdes&#8221; (por conta pr\u00f3pria), trabalho intermitente, etc.;<\/p>\n<p>&#8211; \u00e0 facilita\u00e7\u00e3o por diversas vias das demiss\u00f5es sem justa causa.<\/p>\n<p>Desde cedo o movimento oper\u00e1rio percebeu que o desemprego (a cria\u00e7\u00e3o de um ex\u00e9rcito de reserva de m\u00e3o-de-obra dispon\u00edvel) era um dos meios que o capital usava para pressionar a baixa do valor dos sal\u00e1rios dos trabalhadores empregados e que a amea\u00e7a de demiss\u00e3o era, para al\u00e9m de todas a justifica\u00e7\u00f5es circunstanciais invocadas, uma outra forma de condicionar o valor da for\u00e7a de trabalho e de tentar obter o consentimento dos trabalhadores nessa deprecia\u00e7\u00e3o do seu trabalho.<\/p>\n<p>De que maneira Marx, nascido a 05 de maio de 1818, pode ainda hoje ajudar-nos a compreender e a lutar contra esta situa\u00e7\u00e3o? S\u00e3o in\u00fameros os textos em que Marx foi construindo um modelo de an\u00e1lise do trabalho, da oposi\u00e7\u00e3o antag\u00f4nica entre o trabalho e o capital, da contradi\u00e7\u00e3o entre o car\u00e1ter social da produ\u00e7\u00e3o e a apropria\u00e7\u00e3o privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o e dos lucros, entre o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas e as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, base material da luta de classes na nossa era.<\/p>\n<p>Marx apresenta no Capital um modelo de compreens\u00e3o do trabalho que \u00e9 preciosamente operativo (no cap. 5 do Tomo I do Livro Primeiro). Marx considera ent\u00e3o que &#8220;os elementos simples do processo de trabalho s\u00e3o [1] a atividade conforme o objetivo, ou o pr\u00f3prio trabalho, [2] o seu objeto e [3] o seu meio&#8221; (206). Elementos simples de um processo complexo, eles encontram-se entre si em rela\u00e7\u00e3o de transforma\u00e7\u00e3o, de interdepend\u00eancia ou interdetermina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>[1] A \u00abatividade conforme o objetivo\u00bb \u00e9 o conjunto de opera\u00e7\u00f5es, gestos e movimentos atrav\u00e9s dos quais o oper\u00e1rio transforma um determinado objeto, usando certos meios e de acordo com uma pr\u00e9via representa\u00e7\u00e3o mental do que pretende obter, como resultado da sua atividade.<\/p>\n<p>[2] O objeto de trabalho \u00e9 aquilo que o trabalho, usando determinados meios, transforma num produto.<\/p>\n<p>[3] \u00abO meio de trabalho \u00e9 uma coisa ou um complexo de coisas que o oper\u00e1rio interp\u00f5e entre si e o objeto de trabalho e que lhe serve de guia da sua atividade sobre este objeto\u00bb (207). Os meios s\u00e3o assim n\u00e3o s\u00f3 instrumentos de modifica\u00e7\u00e3o do objeto, mas \u00abtodas as condi\u00e7\u00f5es objetivas que s\u00e3o afinal requeridas para que o processo se efetive. Elas n\u00e3o entram diretamente nele, mas ele sem elas n\u00e3o pode de modo algum ou pode apenas imperfeitamente processar-se\u00bb (209). E Marx adianta uma observa\u00e7\u00e3o important\u00edssima: \u00abO que distingue as \u00e9pocas econ\u00f4micas n\u00e3o \u00e9 o que \u00e9 feito, mas como, com que meios de trabalho \u00e9 feito. Os meios de trabalho s\u00e3o n\u00e3o apenas medidores do grau de desenvolvimento da for\u00e7a de trabalho humana, mas tamb\u00e9m indicadores das rela\u00e7\u00f5es sociais em que se trabalha\u00bb (208).<\/p>\n<p><strong>Marx \u00e9 atual<\/strong><\/p>\n<p>O processo de trabalho \u00e9 essencialmente uma modifica\u00e7\u00e3o do objeto de trabalho, operada pela atividade humana atrav\u00e9s do uso de meios de trabalho. O processo extingue-se no produto. O seu produto \u00e9 um valor de uso, uma mat\u00e9ria da natureza apropriada \u00e0s necessidades humanas por modifica\u00e7\u00e3o de forma.<\/p>\n<p>Se considerarmos todo o processo do ponto de vista do seu resultado, do produto, ent\u00e3o ambos \u2013 meios de trabalho e objeto de trabalho \u2013 aparecem como meios de produ\u00e7\u00e3o e o pr\u00f3prio trabalho como trabalho produtivo. Entretanto, esta determina\u00e7\u00e3o de trabalho produtivo, tal como resulta do ponto de vista do processo de trabalho simples, n\u00e3o basta de modo algum para compreender o processo de produ\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>Assim, quando se diz que a produtividade dos portugueses \u00e9 baixa est\u00e1 se escamoteando o peso dos fatores de produ\u00e7\u00e3o na produtividade, e escondendo a dimens\u00e3o incontornavelmente coletiva e social que ele acha inscrita na natureza universal do trabalho \u2013 ningu\u00e9m trabalha sozinho, mesmo quando aparentemente isso acontece; todos n\u00f3s trabalhamos no todo ou em parte com objetos e meios de trabalho produzidos por outros, todos n\u00f3s executamos uma atividade que comporta procedimentos, gestos t\u00e9cnicos socialmente produzidos e validados, adquiridos pela experi\u00eancia, ou aprendidos e ensinados.<\/p>\n<p>Entretanto, Marx admite que uma parte fundamental do trabalho humano \u00e9 a pr\u00f3pria manuten\u00e7\u00e3o em vida e a\u00e7\u00e3o da humanidade dos humanos.<\/p>\n<p>Como \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel admitir que o pensamento de Marx continue atual, quer na sua dimens\u00e3o cr\u00edtica, quer como projeto? Marx \u00e9 atual porque continuamos a viver n\u00e3o s\u00f3 numa sociedade de classes, mas numa sociedade em que o capitalismo se mant\u00e9m como o modo de produ\u00e7\u00e3o e de reprodu\u00e7\u00e3o social dominante, embora em configura\u00e7\u00f5es concretas que Marx n\u00e3o conheceu.<\/p>\n<p>*Este artigo foi publicado no \u201cAvante!\u201d n\u00ba 2267, 11.05.2017<\/p>\n<p>http:\/\/www.odiario.info\/marx-e-o-trabalho-algumas-notas\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Manuel Gusm\u00e3o ODi\u00e1rio.info &#8211; 12 de Maio 2017\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/14406\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-14406","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3Km","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14406","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14406"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14406\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14406"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14406"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14406"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}