{"id":14517,"date":"2017-05-24T11:03:18","date_gmt":"2017-05-24T14:03:18","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=14517"},"modified":"2017-06-08T14:14:32","modified_gmt":"2017-06-08T17:14:32","slug":"1917-quatro-notas-no-centenario-da-revolucao-bolchevique","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/14517","title":{"rendered":"1917 &#8211; Quatro notas no centen\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o Bolchevique"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/ci3.googleusercontent.com\/proxy\/Lp2WTiQH4BDeCxtioh3U9enzyPhKiTtdrSiMsrhuSNZvAOY05atPbbZ9DYR0oCMQVG6uaqvfEd5an232CvDWNUeWbCBh3j8=s0-d-e1-ft#http:\/\/www.odiario.info\/b2-img\/higiniopolo_03.jpg\" alt=\"imagem\" \/>Recordar a revolu\u00e7\u00e3o bolchevique n\u00e3o \u00e9 um exerc\u00edcio de nostalgia do passado, mas um tempo de aposta no futuro, no socialismo e no car\u00e1ter social que devem ter as for\u00e7as produtivas. A Revolu\u00e7\u00e3o de 1917 foi o ponto de partida das novas lutas revolucion\u00e1rias no mundo, e a sua contribui\u00e7\u00e3o para a <!--more-->constru\u00e7\u00e3o do socialismo n\u00e3o desapareceu, porque o capitalismo n\u00e3o pode resolver os problemas da humanidade. Aqui reside o valor da revolu\u00e7\u00e3o bolchevique e da vis\u00e3o de Lenin.<\/p>\n<p>1. 1917 \u00e9 uma data germinal, que p\u00f4s ante os olhos dos trabalhadores do mundo a certeza de que acabar com o capitalismo e construir o socialismo \u00e9 poss\u00edvel. Nessa data termina o velho mundo burgu\u00eas que tinha ensanguentado o planeta no s\u00e9culo XIX e inicia-se uma nova era, onde a uni\u00e3o oper\u00e1ria e socialista criada pela revolu\u00e7\u00e3o bolchevique enfrentar\u00e1 o projeto de modernidade capitalista que foi o nazismo. A revolu\u00e7\u00e3o bolchevique mudou radicalmente o destino da R\u00fassia e do mundo. Cinquenta anos depois da publica\u00e7\u00e3o de <em>O Capital<\/em>, a R\u00fassia convertia-se numa refer\u00eancia global, e a revolu\u00e7\u00e3o levou o pa\u00eds a ser uma das duas superpot\u00eancias mundiais.<\/p>\n<p>O empenho da direita liberal em rebaixar a revolu\u00e7\u00e3o bolchevique a uma esp\u00e9cie de \u00abgolpe de Estado\u00bb n\u00e3o tem qualquer credibilidade, para al\u00e9m da utilidade propagand\u00edstica para a direita, nem resiste \u00e0 prova dos fatos: a revolu\u00e7\u00e3o de Outubro contou com um impressionante apoio popular que, come\u00e7ando em Petrogrado, percorreu toda a geografia russa, num clima revolucion\u00e1rio onde milh\u00f5es de trabalhadores, soldados e camponeses se organizavam e se reconheciam nos sovietes. Essa revolu\u00e7\u00e3o p\u00f4s a igualdade entre os seres humanos no centro dos objetivos pol\u00edticos e das quest\u00f5es universais, p\u00f4s m\u00e3os \u00e0 obra na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade sem classes, no tempo em que eram vis\u00edveis as multid\u00f5es oper\u00e1rias nos combates pol\u00edticos do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o foi um banho de sangue: esquece-se com frequ\u00eancia, mas a revolu\u00e7\u00e3o bolchevique apenas causou seis mortos, e foi a interven\u00e7\u00e3o imperialista em ajuda dos restos do czarismo que fez rebentar a guerra civil posterior que causou uma mortandade que superou a da grande guerra. Se de 1914 a 1917 a R\u00fassia sofreu entre dois e quatro milh\u00f5es de mortos, aquela agress\u00e3o das pot\u00eancias capitalistas \u00e0 R\u00fassia revolucion\u00e1ria, depois do fim da guerra, causou mais oito milh\u00f5es de mortos, por causa dos combates, da destrui\u00e7\u00e3o das colheitas e da fome. Sobrepor-se a essa situa\u00e7\u00e3o, reconstruir o pa\u00eds foi uma tarefa de tit\u00e3s, mas n\u00e3o seria para a R\u00fassia a pior prova do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o sofreu um ataque que nenhum outro pa\u00eds no s\u00e9culo XX teve que suportar: do ataque dessas treze pot\u00eancias capitalistas (desde os Estados Unidos at\u00e9 a Fran\u00e7a, a Checoslov\u00e1quia, a Gr\u00e3-Bretanha, a Pol\u00f4nia, o Jap\u00e3o) que apoiaram os brancos czaristas na \u00abguerra civil\u00bb dos anos vinte, passou-se \u00e0s amea\u00e7as latentes de Londres e de Paris e, depois, ao ataque da Alemanha nazi que abriu a Segunda Guerra Mundial onde a URSS perdeu vinte e sete milh\u00f5es de cidad\u00e3os. \u00c9 costume dar pouca aten\u00e7\u00e3o ao que implicou administrar um pa\u00eds que tinha perdido quase quarenta milh\u00f5es de pessoas num per\u00edodo de trinta anos, e p\u00f4-la \u00e0 cabe\u00e7a do desenvolvimento no mundo posterior \u00e0 guerra de Hitler. Al\u00e9m disso, no p\u00f3s-guerra, quando quase n\u00e3o se tinha iniciado a reconstru\u00e7\u00e3o, teve logo que enfrentar a press\u00e3o ocidental derivada da doutrina Truman que deu in\u00edcio \u00e0 guerra fria.<\/p>\n<p>Depois do \u00abcomunismo de guerra\u00bb e da NEP, Outubro come\u00e7ou a planifica\u00e7\u00e3o estatal da economia, impugnando o monop\u00f3lio burgu\u00eas que tinha conquistado todos os pa\u00edses. No plano interno, estabeleceu-se a jornada laboral de oito horas, que ficaria posteriormente reduzida a sete horas, asseguraram-se as leis para a igualdade entre homens e mulheres; eliminou-se o analfabetismo; criou-se o primeiro sistema sanit\u00e1rio p\u00fablico e gratuito do mundo, a reforma aos sessenta anos para homens e mulheres, um sistema universal de pens\u00f5es, garantiram-se por lei vinte meses de baixa por maternidade, e a seguran\u00e7a no trabalho fez com que os trabalhadores n\u00e3o temessem o desemprego, ao mesmo tempo que dispunham de casas cedidas pelo Estado, e tantas conquistas sociais que aqui n\u00e3o podem ser detalhadas. A Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica p\u00f4s sempre a solidariedade entre os povos, o internacionalismo, como um dos seus fundamentos, e nunca teve uma pol\u00edtica agressiva contra o Ocidente. Essa mentira, repetida e amplificada pela propaganda, teve como objetivo estender o medo entre as popula\u00e7\u00f5es dos pa\u00edses capitalistas e disciplinar os aliados europeus dos Estados Unidos \u00e0 volta da OTAN, o novo instrumento de interven\u00e7\u00e3o imperialista.<\/p>\n<p>Outubro converteu um pa\u00eds atrasado numa pot\u00eancia industrial e cient\u00edfica em poucos anos, ainda que acompanhada de uma dura repress\u00e3o de Stalin. O primeiro estado socialista da hist\u00f3ria teve como conceitos definit\u00f3rios o trabalho e a fun\u00e7\u00e3o determinante da classe oper\u00e1ria na sociedade; a amizade e a solidariedade entre os povos, o internacionalismo, a justi\u00e7a social, a cultura e o progresso cient\u00edfico, a rejei\u00e7\u00e3o do nacionalismo e da opress\u00e3o. Houve tamb\u00e9m tra\u00e7os negativos: a dura repress\u00e3o pol\u00edtica (filha do temor nascido da guerra civil, do acosso militar posterior, da agress\u00e3o nazi e, secundariamente, das lutas internas de poder), o medo ante os \u00f3rg\u00e3os do Estado, as evidentes insufici\u00eancias democr\u00e1ticas, e a inefic\u00e1cia ligada \u00e0 burocratiza\u00e7\u00e3o e aos focos de corrup\u00e7\u00e3o, bem como o aparecimento de sinais de irresponsabilidade e \u00e0 neglig\u00eancia no trabalho que, n\u00e3o obstante, n\u00e3o invalidam como pretende a direita o conjunto da experi\u00eancia sovi\u00e9tica. Os laborat\u00f3rios ideol\u00f3gicos do liberalismo continuam a colocar a \u00eanfase na repress\u00e3o, ainda que aludam aos mortos causados pela revolu\u00e7\u00e3o bolchevique e o estado socialista, costumam ocultar a enorme mortandade causada pelo capitalismo tanto na expans\u00e3o colonial do s\u00e9culo XIX, como ao longo do s\u00e9culo XX. E as matan\u00e7as n\u00e3o pararam com o s\u00e9culo XXI: a\u00ed est\u00e1 o caos do M\u00e9dio Oriente provocado pelas agress\u00f5es e guerras dirigidas pelos Estados Unidos.<\/p>\n<p>O mundo n\u00e3o \u00e9 melhor sem a URSS: nem sequer a amea\u00e7a at\u00f4mica desapareceu, apesar dos supostos \u00abdividendos da paz\u00bb que o neoliberalismo prometeu. Nem sequer se reduziram os perigos da guerra: de acordo como o SIPRI [1], o com\u00e9rcio mundial de armas est\u00e1 no ponto mais quente desde o fim da guerra fria, e o caos criado pelos Estados Unidos no M\u00e9dio Oriente \u00e9 uma causa evidente disso, juntamente com a desconfian\u00e7a pelos prop\u00f3sitos de Washington. Desde logo, o mundo n\u00e3o \u00e9 melhor para os habitantes do antigo espa\u00e7o sovi\u00e9tico, como o evidenciam todas as sondagens, apesar de um quarto de s\u00e9culo de veneno nacionalista ter feito aflorar os tra\u00e7os mais desprez\u00edveis do ser humano em muitos territ\u00f3rios. Como na Ucr\u00e2nia, onde os grupos paramilitares fascistas percorrem desafiantes as ruas.<\/p>\n<p>2. O caminho aberto por Outubro de 1917 termina abruptamente quando se arreou a bandeira no \u00faltimo dia do triste ano de 1991, enquanto Yeltsin e os seus comparsas se emborrachavam nas est\u00e2ncias do Kremlin. A reforma iniciada por Gorbatchov, saudada com entusiasmo porque prometia a renova\u00e7\u00e3o e o \u00abretorno a Lenin\u00bb, derivou numa desordem econ\u00f4mica e organizativa que, longe de resolver os problemas da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, os agudizou, fazendo aparecer a escassez e alimentando nacionalismos destruidores e reacion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Depois das vacila\u00e7\u00f5es e dos graves erros de Gorbatchov, foram os pr\u00f3prios dirigentes do pa\u00eds, com Yeltsin \u00e0 frente, juntamente com a ambi\u00e7\u00e3o de personagens como o ucraniano Leonid Kravchuk, o bielorrusso Stanislav Shushki\u00e9vich, seguidos pelo uzbeque Islom Karimov, o cazaque Nursult\u00e1n Nazarb\u00e1yev, e o azeri Gueidar Aliev, entre outros, que se lan\u00e7aram na destrui\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. O Tratado de Belavezha, subscrito por Yeltsin, Kravchuk e Shushki\u00e9vich em 8 de dezembro de 1991, violou a Constitui\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica e desrespeitou a vontade da popula\u00e7\u00e3o, que se tinha pronunciado em referendo de mar\u00e7o de 1991 rejeitando a divis\u00e3o da URSS, e imp\u00f4s a destrui\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, oculta com a roupagem da CEI, uma fic\u00e7\u00e3o apressadamente criada para encobrir o medo ao vazio. Destru\u00edram tamb\u00e9m o COMECON e o Pacto de Vars\u00f3via.<\/p>\n<p>A destrui\u00e7\u00e3o n\u00e3o era uma inevitabilidade, como continua a manter a doutrina liberal. As reformas necess\u00e1rias na URSS eram poss\u00edveis, mas o projeto gorbachoviano apenas conseguiu gerar o descontentamento e o caos. A paralisia pol\u00edtica de Gorbatchov na sua etapa final e o est\u00edmulo \u00e0 divis\u00e3o impulsionado por Yeltsin, Kratchuk e Susshki\u00e9vich s\u00f3 podem qualificar-se como trai\u00e7\u00e3o ao seu pr\u00f3prio pa\u00eds: a ret\u00f3rica nacionalista chegou depois, com o objetivo de consolidar o seu pr\u00f3prio poder em todas as rep\u00fablicas \u00f3rf\u00e3s da URSS.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que j\u00e1 tinham aparecido algumas reclama\u00e7\u00f5es nacionalistas na Arm\u00eania e no B\u00e1ltico, ainda que essas tens\u00f5es nacionalistas na Arm\u00eania e nas tr\u00eas rep\u00fablicas do B\u00e1ltico tivessem sido estimuladas por dirigentes como Alexander Yakovlev, enquanto no C\u00e1ucaso a incompet\u00eancia governamental permitiu tamb\u00e9m o crescimento nacionalista: na Ge\u00f3rgia, o conservador e ditatorial Zviad Gamsajurdia p\u00f4de alcan\u00e7ar a presid\u00eancia, gra\u00e7as \u00e0 neglig\u00eancia e \u00e0 falta de iniciativa de Edvard Shevardnadze. No Azerbaij\u00e3o, o traidor e tr\u00e2nsfuga Gueidar Aliev apressou-se a apoderar-se de todos os recursos do poder. Na Arm\u00eania, onde existia uma forte consci\u00eancia nacional, rebentou uma din\u00e2mica de guerra com o Azerbaij\u00e3o depois da escalada de tens\u00e3o que teve a sua origem na matan\u00e7a de Sumga\u00edt, onde bandos de azeris atacaram a popula\u00e7\u00e3o arm\u00eania, assassinando dezenas de pessoas, numa confusa provoca\u00e7\u00e3o de que ainda hoje se desconhecem os seus inspiradores. A guerra civil entre arm\u00eanios e azeris fez o resto: durou tr\u00eas anos, e as feridas ainda n\u00e3o sararam passados que foram vinte e cinco anos. Nas cinco rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas da \u00c1sia central, onde n\u00e3o havia reclama\u00e7\u00f5es nacionalistas, os dirigentes apressaram-se a proclamar a independ\u00eancia depois de se conjurarem para a assinatura do Tratado de Belavezha. No seu conjunto, as guerras e conflitos que ent\u00e3o se iniciaram (na Mold\u00e1via e na Chech\u00e9nia, em Nagorno-Karabaj e na Oss\u00e9tia, no C\u00e1ucaso e na \u00c1sia central), causaram a morte de centenas de milhares de pessoas.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos olharam com bonomia as ditaduras criadas em muitas das antigas rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas, fecharam os olhos \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, \u00e0 repress\u00e3o pol\u00edtica e aos tra\u00e7os grotescos dos novos regimes, que v\u00e3o desde a corrida ao dinheiro das filhas de Karimov, at\u00e9 \u00e0 nomea\u00e7\u00e3o de Dariga Nazarbayeva, filha do ditador Nazarbayev, como vice-primeira ministro do Cazaquist\u00e3o; passando pelo filho de Aliev, Ilham Aliev, convertido em novo ditador que, por sua vez, acaba de nomear sua mulher, Mehribian Alieva, vice-presidente do pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u00c0 incompet\u00eancia e ao oportunismo dos convertidos e tr\u00e2nsfugas que iniciaram a fuga em frente na busca da consolida\u00e7\u00e3o do seu pr\u00f3prio poder, juntam-se muitas provoca\u00e7\u00f5es, a maioria das quais continuam sem esclarecimento. Conhecemos algumas, como o massacre da torre da televis\u00e3o em Vilna, capital lituana, em janeiro de 1991: ali, ocorreu uma matan\u00e7a de catorze pessoas que comoveu o mundo, enquanto as chancelarias e a imprensa internacional acusavam o ex\u00e9rcito e o governo sovi\u00e9ticos. No entanto, sab\u00eamo-lo agora, foi um massacre provocado pelos nacionalistas de Sajudis [2] e pelo pr\u00f3prio governo nacionalista lituano, cujos pistoleiros dispararam contra os seus pr\u00f3prios seguidores, para acusar a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e precipitar a independ\u00eancia. Tudo isto foi reconhecido anos depois por Audrius Butkevicius, ent\u00e3o chefe militar do governo lituano. N\u00e3o foi a primeira nem seria a \u00faltima mentira: em 2008, quando o governo georgiano de M\u00edjeil Saakashvili (um oculto agente da CIA que confiava que a sua aventura seria amparada por Washington e a OTAN) lan\u00e7a uma provocadora ofensiva militar sobre a Oss\u00e9tia do sul, acontecimento que originou uma breve guerra com a R\u00fassia, noticiada na CNN acompanhada de imagens de tanques georgianos como se fossem russos, ao mesmo tempo que a destrui\u00e7\u00e3o causada pelos bombardeios da Ge\u00f3rgia na Oss\u00e9tia era apresentada como se fossem os efeitos de ataques russos na cidade de Gori, onde se passou muito mais do que not\u00edcias desvirtuadas. Depois de tudo, esses partid\u00e1rios da mentira t\u00eam consumados professores em Washington, um dos quais foi o secret\u00e1rio de Estado Colin Powell que, em 5 de fevereiro de 2003, chegou a agitar um tubo que dizia poder conter antrax, perante os olhares at\u00f4nitos dos membros do Conselho de Seguran\u00e7a; a quem tamb\u00e9m mostrou diapositivos que, segundo o governo norte-americano de Bush, demonstravam que o Iraque tinha \u00abarmas de destrui\u00e7\u00e3o massiva\u00bb. Era tudo mentira.<\/p>\n<p>\u00c9 comum recorrer-se \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o de \u00abteorias conspirat\u00f3rias da hist\u00f3ria\u00bb para desativar algumas nefastas evid\u00eancias. No entanto, as coisas s\u00e3o mais simples e, ao mesmo tempo, mais complexas: todas as pot\u00eancias internacionais defendem os seus interesses e os seus projetos e utilizam para isso todo o tipo de recursos, da diplomacia \u00e0 press\u00e3o pol\u00edtica. Muitas recorrem \u00e0 mentira, \u00e0s provoca\u00e7\u00f5es e \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o de grupos terroristas e, nesse tipo de a\u00e7\u00f5es, os Estados Unidos e os seus aliados d\u00e3o as cartas.<\/p>\n<p>Sabemos hoje, por exemplo, que os servi\u00e7os secretos norte-americanos trabalharam desde Bacu e com a cumplicidade de Aliev para incendiar a Chech\u00eania e criar novos focos de conflito no C\u00e1ucaso, e n\u00e3o renunciaram a continuar futuramente a jogar essa cartada. Washington n\u00e3o s\u00f3 conserva em seu poder a capacidade de reativar conflitos no sul da R\u00fassia, como move os seus pe\u00f5es na \u00c1sia central para dificultar um hipot\u00e9tico reagrupamento das velhas rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas em torno de Moscou. Por vezes, acender o pavio, e as guerras tomam logo din\u00e2mica pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Os problemas que a R\u00fassia enfrentava no final da d\u00e9cada de oitenta (devido \u00e0 incompet\u00eancia dos governos de Gorbatchov, que os agravaram com projetos e iniciativas que criaram graves disfun\u00e7\u00f5es na economia sovi\u00e9tica) eram uma brincadeira se comparados com o desastre apocal\u00edptico que chegou na d\u00e9cada de noventa, sob a dire\u00e7\u00e3o de Yeltsin, Chubais, Gaidar e Chernomirdin (assessorados pelo governo norte-americano, o Banco Mundial, o Fundo Monet\u00e1rio Internacional e peritos estadunidenses), que destruiu a economia, colonizou a estrutura do Estado e, de acordo com diversas investiga\u00e7\u00f5es, provocou uma atroz mortandade entre a popula\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica: s\u00f3 na R\u00fassia (que contava com metade dos habitantes da URSS), a investiga\u00e7\u00e3o de David Stucker, da Universidade de Oxford, de Lawrence King da Universidade de Cambridge e Martin McKee da London School of Hygiene and Tropical Medicine, publicada pela revista m\u00e9dica Lancet, chegou \u00e0 conclus\u00e3o que a terapia de choque de Yeltsin tinha causado um milh\u00e3o de mortos. Aquele delirante programa foi poss\u00edvel gra\u00e7as ao golpe de estado de 1993, que causou uma matan\u00e7a em Moscou e noutras cidades, e que contou com o apoio do Ocidente, que amparou uma esp\u00e9cie de via militar para o capitalismo. A destrui\u00e7\u00e3o da URSS permitiu \u00e0s novas elites surgidas da confus\u00e3o gorbatchoviana e aos seus comparsas apoderarem-se das propriedades p\u00fablicas e garantir o seu poder em todas as rep\u00fablicas.<\/p>\n<p>O golpe de Estado de Yeltsin em 1993, aben\u00e7oado por Clinton, Major, Khol e Mitterrand, numa irrespons\u00e1vel e delirante opera\u00e7\u00e3o, levou quase \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria R\u00fassia como afirma a pr\u00f3pria Hel\u00e8ne Carr\u00e8re d\u2019Encausse. Na opini\u00e3o do Partido Comunista russo, vinte e cinco anos depois do desaparecimento da URSS, as suas consequ\u00eancias continuam por superar. A privatiza\u00e7\u00e3o da economia, levada a cabo por delinquentes, destruiu milhares de empresas e aglomerados industriais, tornou poss\u00edvel que a maior parte da riqueza sovi\u00e9tica, quer na R\u00fassia quer nas outras rep\u00fablicas, esteja hoje em m\u00e3os privadas.<\/p>\n<p>3. Putin representa hoje a nova direita conservadora russa, patriota, de complexa significa\u00e7\u00e3o: por um lado utiliza os or\u00e7amentos p\u00fablicos e os recursos do pa\u00eds para o seu pr\u00f3prio enriquecimento, criando uma oligarquia obscenamente rica, ao mesmo tempo que se degradam as condi\u00e7\u00f5es de trabalho, o direito \u00e0 habita\u00e7\u00e3o, \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os; por outro, deteve a destrui\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e iniciou a sua reconstru\u00e7\u00e3o, afastando o fantasma da destrui\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria R\u00fassia (objectivo a que n\u00e3o renunciaram os estrategos do Pent\u00e1gono e dos servi\u00e7os secretos norte-americanos). Na pol\u00edtica interna, Putin n\u00e3o teve d\u00favidas em aplicar programas neoliberais que prejudicam os trabalhadores e a maioria da popula\u00e7\u00e3o. E ainda que n\u00e3o desistam de privatizar, mant\u00eam importantes \u00e1reas de propriedade p\u00fablicas: o Partido Comunista russo criticava em fevereiro de 2017 a tentativa do governo de M\u00e9dvedev de privatizar quase oitocentas empresas de propriedade p\u00fablica. Putin \u00e9 um exemplo mais desses dirigentes que fizeram da pol\u00edtica e do exerc\u00edcio do poder o centro da sua exist\u00eancia, personagens que se adaptam a qualquer \u00e9poca e que se sustentam em complexos equil\u00edbrios sempre que isso lhes permita manter-se no poder.<\/p>\n<p>Se bem que a sua pol\u00edtica externa procure recuperar o protagonismo perdido, n\u00e3o est\u00e1 no centro das suas preocupa\u00e7\u00f5es combater o imperialismo norte-americano, embora esteja consciente que este, por tr\u00e1s das sangrentas aventuras de Washington no Afeganist\u00e3o, no Iraque e na L\u00edbia e a expans\u00e3o da OTAN, amea\u00e7a as fronteiras da pr\u00f3pria R\u00fassia, e enfrente os prop\u00f3sitos imperialistas norte-americanos na S\u00edria, ao mesmo tempo que alinhava uma alian\u00e7a estrat\u00e9gica com a China, cujo objetivo \u00e9 limitar o poder estadunidense no mundo. Uma parte da esquerda pouco prudente, que se alimenta de esquem\u00e1ticas an\u00e1lises sem matizes, chegou a equiparar a pol\u00edtica externa russa com a norte-americana, aludindo a um suposto imperialismo comum, ainda que em confronto, esquecendo que enquanto Washington tem mais de setecentas bases militares nuns cento e vinte pa\u00edses do planeta, Moscou s\u00f3 tem uma base no exterior. Outra parte confunde Putin com um dirigente comunista.<\/p>\n<p>O partido de Putin, R\u00fassia Unida, navega entre a complexidade e a ambiguidade: o seu nacionalismo leva-o a assumir com orgulho a condi\u00e7\u00e3o de superpot\u00eancia da URSS mas, ao mesmo tempo, rejeita que o desenvolvimento e o fortalecimento do pa\u00eds fosse consequ\u00eancia da revolu\u00e7\u00e3o bolchevique de 1917 e do socialismo. Enquanto Putin continua a trabalhar para limitar a influ\u00eancia comunista no pa\u00eds (as suas ag\u00eancias de intelig\u00eancia criaram nos \u00faltimos anos tr\u00eas partidos \u00abcomunistas\u00bb para atacar em for\u00e7a o Partido Comunista dirigido por Guennadi Ziugan\u00f3v), tem muito cuidado para n\u00e3o atacar frontalmente o socialismo sovi\u00e9tico (ao contr\u00e1rio do que acontecia nos anos de Yeltsin), como conhecedor que \u00e9 das simpatias que o comunismo continua a conservar entre os russos. A revolu\u00e7\u00e3o bolchevique e o socialismo, a par dos tra\u00e7os negativos que desenvolveu, continuam a ser defendidos pelos trabalhadores: a \u00faltima sondagem realizada por Levada Center entre a popula\u00e7\u00e3o russa, no final de janeiro de 1917, revela que a maioria dos cidad\u00e3os tem boa opini\u00e3o de Brejnev e Stalin e, ainda que 22% rejeite a figura do georgiano, apenas 9% t\u00eam m\u00e1 opini\u00e3o do Brejnev, e o apoio ao socialismo \u00e9 amplamente majorit\u00e1rio, at\u00e9 ao ponto de quererem o regresso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Contraditoriamente, tamb\u00e9m Putin mant\u00e9m uma consider\u00e1vel aprova\u00e7\u00e3o que, indubitavelmente, \u00e9 devida ao fato de ele ter acabado com a criminalidade mafiosa nas ruas durante os anos de Yeltsin, e ao seu novo protagonismo que traz peso internacional ao pa\u00eds.<\/p>\n<p>Putin navega entre duas \u00e1guas: recuperou o hino sovi\u00e9tico, o desfile da vit\u00f3ria sobre o nazismo, mant\u00e9m a bandeira vermelha com a foice e o martelo no ex\u00e9rcito, enquanto tenta desenvolver uma nova imagem russa, simbolizada na bandeira tricolor, tudo isto sem esquecer que, agora, est\u00e1 previsto dedicar uma rua e erigir um monumento a Fidel Castro; mas tamb\u00e9m assiste aos ritos da igreja ortodoxa, mant\u00e9m excelentes rela\u00e7\u00f5es com o patriarca Kiril, e viu com agrado o munic\u00edpio de Moscovo erigir uma est\u00e1tua ao rival de Napole\u00e3o, o czar Alexandre I, muito perto do jardim das muralhas do Kremlin, onde s\u00e3o recordadas as cidades her\u00f3icas da resist\u00eancia contra os nazis durante a Segunda Guerra Mundial; bem como um monumento, tamb\u00e9m junto ao Kremlin, dedicado ao pr\u00edncipe Vladimir, como \u00abreunificador das terras russas\u00bb, gestos, todos eles, dirigidos ao enaltecimento do orgulho nacional. A nova R\u00fassia n\u00e3o p\u00f4de recuperar toda a influ\u00eancia que a URSS exerceu no plano internacional e, ainda que desde a interven\u00e7\u00e3o de Putin na Confer\u00eancia de Munique de 2007 o seu governo tenha levantado a voz para denunciar a expans\u00e3o norte-americana para as suas fronteiras, n\u00e3o conseguiu evitar o golpe de Estado em Kiev, nem o perigoso foco de guerra de Donb\u00e1ss nas suas fronteiras, nem a chegada das for\u00e7as da OTAN \u00e0 Ucr\u00e2nia: a recupera\u00e7\u00e3o da Crimeia \u00e9 apenas um pr\u00eamio de consola\u00e7\u00e3o, apesar de ter fortalecido o seu prest\u00edgio entre os russos. Ao mesmo tempo, Putin est\u00e1 consciente que o potencial militar russo n\u00e3o \u00e9 compar\u00e1vel ao sovi\u00e9tico, mas conserva uma importante parte do seu poder de dissuas\u00e3o, gra\u00e7as ao arsenal at\u00f4mico herdado da URSS, que o governo de M\u00e9dvedev est\u00e1 a renovar.<\/p>\n<p>S\u00e3o diversos os tra\u00e7os que caracterizam as outras antigas rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas, e v\u00e3o desde a exist\u00eancia de uma suposta democracia na Est\u00f4nia, Let\u00f4nia e Litu\u00e2nia, que convivem com a marginaliza\u00e7\u00e3o e a falta de respeito pelos direitos c\u00edvicos dos russos ali residentes, a complac\u00eancia para com os nacionalismos sect\u00e1rios, os grupos nost\u00e1lgicos do nazismo, at\u00e9 \u00e0s satrapias do Turquemenist\u00e3o, Uzbequist\u00e3o e Cazaquist\u00e3o, j\u00e1 para n\u00e3o falar da extrema-direita que se apoderou do governo da Ucr\u00e2nia. Por sua vez, momentaneamente, os antigos pa\u00edses socialistas europeus est\u00e3o convertidos em redutos da direita nacionalista e da ultradireita: da Pol\u00f4nia \u00e0 Hungria passando pela Rom\u00eania, Bulg\u00e1ria e, inclusive a Rep\u00fablica Checa ou a Eslov\u00e1quia apresentam inquietantes tra\u00e7os xen\u00f3fobos, de extrema-direita ou mesmo fascistas.<\/p>\n<p>A Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica foi uma refer\u00eancia e um incentivo para o movimento oper\u00e1rio mundial, e o ataque \u00e0s conquistas sociais foi poss\u00edvel em muitas regi\u00f5es do planeta, tamb\u00e9m pelo desaparecimento da URSS. Ainda que j\u00e1 se tivesse iniciado o ataque sistem\u00e1tico do neoliberalismo contra os direitos dos trabalhadores, a aus\u00eancia a URSS estimulou a revanche: o incremento da explora\u00e7\u00e3o, a redu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios, o aumento da idade da reforma, a perda de direitos na sa\u00fade, na educa\u00e7\u00e3o, a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, o aumento arbitr\u00e1rio dos hor\u00e1rios laborais, a perda de pens\u00f5es foi a m\u00e3o de um ambicioso projeto de domina\u00e7\u00e3o que os Estados Unidos lan\u00e7aram em muitas regi\u00f5es do planeta, desde as guerras na Iugosl\u00e1via at\u00e9 \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do Kosovo, as guerras no Afeganist\u00e3o, no Iraque, na L\u00edbia, na S\u00edria e o golpe de estado na Ucr\u00e2nia, isto para citar apenas os mais graves, tal como o acantonamento de novas tropas da OTAN e a desloca\u00e7\u00e3o do seu escudo antim\u00edsseis, bem como o seu programa de conten\u00e7\u00e3o da China, agora considerado o novo inimigo global. Esse projeto de domina\u00e7\u00e3o, que Washington iniciou depois do desaparecimento da URSS, viu-se entorpecido por dois fen\u00f4menos imprevistos pelos seus centros de investiga\u00e7\u00e3o e pela sua diplomacia: o impressionante fortalecimento chin\u00eas depois da sua entrada na OMC, e o novo papel exercido pela R\u00fassia que, com Putin, deixou para tr\u00e1s a subordina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos anos de Yeltsin e Kozirev.<\/p>\n<p>4. Uma parte da esquerda socialdemocrata ou esquerdista celebrou como uma vit\u00f3ria o desaparecimento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, evidenciando uma enorme miopia pol\u00edtica e uma falta de perspectiva estrat\u00e9gica, que a cat\u00e1strofe humana com os milh\u00f5es de mortos causados pelas reformas capitalistas em todo o antigo bloco socialista europeu n\u00e3o os fez rever. Tampouco os retrocessos posteriores dos direitos sociais no mundo ocidental os levaram a interrogar-se sobre os efeitos da aus\u00eancia sovi\u00e9tica. A destrui\u00e7\u00e3o da URSS debilitou os partidos comunistas em todo o mundo, ainda que n\u00e3o deva perder-se de vista que a maior organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do mundo tem essa ideologia: o Partido Comunista Chin\u00eas, e que existem relevantes partidos da mesma tend\u00eancia em todos os continentes que se proclamam filhos da revolu\u00e7\u00e3o de Outubro. Ao mesmo tempo, para sua surpresa, danificou os partidos socialdemocratas, cuja cumplicidade com as pol\u00edticas neoliberais (da Fran\u00e7a \u00e0 Gr\u00e9cia, da Espanha \u00e0 It\u00e1lia, da Venezuela \u00e0 Gr\u00e3-Bretanha) do \u00faltimo quarto de s\u00e9culo os levou a uma crise que pode ser terminal.<\/p>\n<p>5. Nestes vinte e cinco anos transcorridos desde o eclipse da URSS, as propostas e a a\u00e7\u00e3o do governo dos defensores do capitalismo basearam-se no aniquilamento do chamado Estado de Bem-Estar, nas demiss\u00f5es arbitr\u00e1rias de trabalhadores, na precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, na redu\u00e7\u00e3o unilateral dos sal\u00e1rios, no ataque \u00e0 instru\u00e7\u00e3o p\u00fablica, na tentativa de elimina\u00e7\u00e3o dos sistemas p\u00fablicos de sa\u00fade e de pens\u00f5es pagas pelo Estado; e a esquerda e os sindicatos foram incapazes (apesar das muito honrosas lutas e resist\u00eancias) de fazer frente a esse programa de devasta\u00e7\u00e3o da dignidade humana e da confian\u00e7a num mundo mais justo.<\/p>\n<p>Os laborat\u00f3rios ideol\u00f3gicos do neoliberalismo tentaram destruir o orgulho e a consci\u00eancia oper\u00e1ria, marcar a fogo os trabalhadores, toscos e grosseiros habitantes da periferia do sistema; pretenderam enraizar a no\u00e7\u00e3o de que as ideias de esquerda, de socialismo, de comunismo s\u00e3o escabrosas recorda\u00e7\u00f5es de um mundo que morreu, e que a modernidade reside na adapta\u00e7\u00e3o servil, no consumo do lixo ideol\u00f3gico escarrado por todos os \u00e9crans utilizados pelo sistema capitalista e todos os outros mecanismos de controle da informa\u00e7\u00e3o. Essa opera\u00e7\u00e3o fez mossa na esquerda, que viu como se reduziam os seus militantes, como se apagava a mem\u00f3ria hist\u00f3rica do movimento oper\u00e1rio, como se declaravam obsoletos o marxismo e a luta de classes, se acusava a esquerda impotente para se atualizar, inclusive se declarava desaparecido o mundo oper\u00e1rio de ontem (portanto a necessidade de sindicatos e partidos de esquerda), apesar da evid\u00eancia de existirem mais trabalhadores fabris no mundo que noutro qualquer momento da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Os problemas da esquerda j\u00e1 v\u00eam de longe. Achille Ochetto, o art\u00edfice da volta della Bolognina que liquidou o Partido Comunista Italiano, afirmou ent\u00e3o, com a ardilosa ret\u00f3rica dos que se atribuem sempre o novo para arrojarem os seus opositores para o inferno das ideias mortas da hist\u00f3ria, o po\u00e7o escuro do passado obsoleto: \u00abN\u00e3o temos de continuar pelos velhos caminhos, mas inventar os novos para unificar as for\u00e7as do progresso\u00bb. Na realidade, limitaram-se a mudar para os velhos caminhos da submiss\u00e3o ao capitalismo que desembocaram nesse triste e impotente Partido Democr\u00e1tico. Desde ent\u00e3o, na Europa apareceram partidos e movimentos que, de maneira confusa, pretendem articular as energias da esquerda, da oposi\u00e7\u00e3o: desde o Syriza ao Podemos, desde o Movimento 5 Estrelas ao Die Linke, desde o ef\u00eamero Partido Anticapitalista Franc\u00eas aos verdes (ontem antagonistas, e hoje integrados), todas essas for\u00e7as se movem no campo da modera\u00e7\u00e3o e do medo: s\u00e3o filhos da derrota, e revelam-se incapazes de romper o cord\u00e3o umbilical com o capitalismo e, com exce\u00e7\u00e3o do Die Linke, de propor um horizonte socialista.<\/p>\n<p>Uma op\u00e7\u00e3o \u00e9 (nunca esquecendo o imprescind\u00edvel trabalho pol\u00edtico nas f\u00e1bricas e nas empresas) articular amplos blocos sociais para lutarem nas ruas, nas elei\u00e7\u00f5es e nos parlamentos, outra muito diferente \u00e9 apostar na cria\u00e7\u00e3o de partidos vagamente de esquerda que renunciem a combater pelo socialismo. Porque a miragem que, novamente, se agita perante o rosto dos trabalhadores e dos exclu\u00eddos, \u00e9 a de a de voltar a construir uma esquerda t\u00edmida, d\u00f3cil, que renuncie ao socialismo, resignada perante o poder capitalista. Al\u00e9m disso, essa nova e limitada esquerda revela-se incapaz de atrair os trabalhadores que, num mundo cheio de incertezas, sucumbem com frequ\u00eancia aos populismos demag\u00f3gicos que articulam o discurso da extrema-direita.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma evid\u00eancia que se imp\u00f5e: para o conjunto da humanidade, o capitalismo foi incapaz de resolver os seus problemas, os de acumula\u00e7\u00e3o e de expans\u00e3o depredadora e sem limites que p\u00f4s o planeta \u00e0 beira da cat\u00e1strofe. No entanto, o rebentar da crise criou miragens para uma assinal\u00e1vel parte da popula\u00e7\u00e3o e dos trabalhadores: legi\u00f5es de cidad\u00e3os esperam que a pior parte das dentadas das crises os n\u00e3o afete, e reagem politicamente perante o medo de perder tudo, perante as novas migra\u00e7\u00f5es causadas pelas guerras coloniais, refugiando-se no ninho de v\u00edboras da nova extrema-direita, que lhes oferece um regresso \u00e0 velha seguran\u00e7a, aos estados nacionais, a ilus\u00f3rias fortalezas onde resistem \u00e0 chegada de outros trabalhadores mais pobres e a refugiados das guerras. Al\u00e9m disso, essa extrema-direita lan\u00e7a as suas propostas (de Le Pen a Trump, de Ksczsiski a Orb\u00e1n, de Petry a Wilders), por vezes envolvidas numa ret\u00f3rica que, sem hipocrisia, chega inclusive a parecer \u00abprogressista\u00bb, e reclamam prote\u00e7\u00e3o para as ind\u00fastrias nacionais, olhando-se no espelho dos anos trinta do s\u00e9culo XX, sem verem que aquele programa trouxe duras lutas comerciais, novas aventuras coloniais e, por fim, a guerra. As institui\u00e7\u00f5es europeias, com a socialdemocracia e esses novos e vagos movimentos de esquerda revelam-se impotentes para fazerem frente \u00e0 extrema-direita, mas face ao perigo do novo fascismo \u00e9 urgente opor um bloco social, como o que levantaram os partidos comunistas entre as duas guerras em muitos pa\u00edses da Europa.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel reformar o capitalismo, e as op\u00e7\u00f5es que se empenham em passar para caminhos dessa natureza, que recuperam velhos esquemas socialdemocratas est\u00e3o no caminho do fracasso. A direita pretende, em todos os pa\u00edses, fazer retroceder os direitos dos trabalhadores, privatizar as propriedades p\u00fablicas, acabar com a sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o gratuitas, converter os reformados em ref\u00e9ns das companhias de seguros e entidades financeiras. E isso n\u00e3o se combate com t\u00edmidas ideias reformistas.<\/p>\n<p>O drama da esquerda, bem presente na Europa, mas tamb\u00e9m noutros continentes, \u00e9 que, apesar de estar consciente da impossibilidade da reforma do capitalismo, fica paralisada para propor vias socialistas, devido \u00e0 press\u00e3o do poder e aos meios de comunica\u00e7\u00e3o. A democracia representativa burguesa e o parlamentarismo mostraram os seus limites, e o movimento oper\u00e1rio e os novos movimentos sociais devem recuperar a a\u00e7\u00e3o nas f\u00e1bricas e incrementar a presen\u00e7a dos trabalhadores na luta das ruas.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 como a esper\u00e1vamos, mas recordar a revolu\u00e7\u00e3o bolchevique n\u00e3o \u00e9 um exerc\u00edcio de nostalgia do passado, mas um tempo de aposta no futuro, o socialismo e o car\u00e1ter social que devem ter as for\u00e7as produtivas devem estar no centro das preocupa\u00e7\u00f5es da esquerda. O novo horizonte dos filhos da revolu\u00e7\u00e3o bolchevique deve desenvolver, juntamente com a propriedade p\u00fablica dos meios de produ\u00e7\u00e3o, quatro aspectos essenciais: a liberta\u00e7\u00e3o da mulher, a amplia\u00e7\u00e3o da democracia e da liberdade, uma justa distribui\u00e7\u00e3o do trabalho e do bem-estar no mundo e a cat\u00e1strofe ecol\u00f3gica.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o bolchevique de 1917 foi o ponto de partida das novas lutas revolucion\u00e1rias no mundo, e a sua contribui\u00e7\u00e3o para a constru\u00e7\u00e3o do socialismo n\u00e3o desapareceu, porque o capitalismo n\u00e3o pode resolver os problemas da humanidade, e aqui reside o valor da revolu\u00e7\u00e3o bolchevique e da vis\u00e3o de Lenin. Essa revolu\u00e7\u00e3o, mil vezes enterrada, acusada de car\u00eancias democr\u00e1ticas e libert\u00e1rias, criadora do pa\u00eds s\u00edmbolo da vit\u00f3ria contra o nazismo que o fez v\u00edtima da matan\u00e7a mais cruel da hist\u00f3ria; art\u00edfice do \u00fanico pa\u00eds que durante d\u00e9cadas enfrentou solit\u00e1rio o imperialismo ocidental; est\u00edmulo de novas revolu\u00e7\u00f5es no mundo e sustent\u00e1culo da luta anticolonial, continua a fornecer o fermento da revolta, porque, apesar de tudo, o legado bolchevique continua vivo, e a escolha continua a ser entre socialismo ou barb\u00e1rie.<\/p>\n<p><em>Notas do Tradutor:<\/em><\/p>\n<p><em>[1] Trata-se da sigla inglesa do Stockolm International Peace Research Institute<\/em><\/p>\n<p><em>[2] Movimento Reformador Lituano, que dirigiu os acontecimentos que levaram \u00e0 independ\u00eancia da Litu\u00e2nia, e que mais tarde se transformou em partido pol\u00edtico. Dissolveu-se depois de 1993, dando origem a outros partidos reacion\u00e1rios.<\/em><\/p>\n<p><em>[3] O \u00abgiro della Bolignina\u00bb, considerado o primeiro passo para a passagem do Partido Comunista Italiano (partido revisionista dito eurocomunista) no Partido Democr\u00e1tico, foi apresentado por Achille Ochetto, de surpresa, no 45\u00ba anivers\u00e1rio da batalha da Porta Lame em 12 de Novembro de 1989.<\/em><\/p>\n<p><em>*Higino Polo, publicista e historiador \u00e9 colaborador habitual de El Viejo Topo<\/em><\/p>\n<p><em>Este artigo foi publicado em n\u00ba 351 (Abril de 2017) de El Viejo Topo e reproduzido em <a href=\"http:\/\/www.lahaine.org\/mundo.php\/1917-cuatro-notas-en-el\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/www.lahaine.org\/mundo.<wbr \/>php\/1917-cuatro-notas-en-el<\/a><\/em><\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Paulo Gasc\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>ODI\u00c1RIO.INFO<\/p>\n<p>http:\/\/www.odiario.info\/1917-quatro-notas-no-centenario-da\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Recordar a revolu\u00e7\u00e3o bolchevique n\u00e3o \u00e9 um exerc\u00edcio de nostalgia do passado, mas um tempo de aposta no futuro, no socialismo e no \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/14517\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[74],"tags":[],"class_list":["post-14517","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c87-revolucao-russa"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3M9","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14517","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14517"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14517\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14517"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14517"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14517"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}