{"id":14758,"date":"2017-06-14T19:12:54","date_gmt":"2017-06-14T22:12:54","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=14758"},"modified":"2017-07-03T13:59:26","modified_gmt":"2017-07-03T16:59:26","slug":"a-relevancia-contemporanea-de-marx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/14758","title":{"rendered":"A relev\u00e2ncia contempor\u00e2nea de Marx"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/americadespierta.bloguea.cu\/wp-content\/uploads\/sites\/46\/2015\/04\/claudio-katz.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Claudio Katz*<\/p>\n<p>A comemora\u00e7\u00e3o do 150\u00ba anivers\u00e1rio de O Capital renovou o debate sobre as contribui\u00e7\u00f5es legadas por Marx para a compreens\u00e3o da sociedade actual. O texto continua a suscitar apaixonadas ades\u00f5es e fan\u00e1ticas rejei\u00e7\u00f5es, mas j\u00e1 n\u00e3o exerce a enorme influ\u00eancia que teve nos anos 60 e 70. <!--more-->Tamb\u00e9m n\u00e3o sofre o esquecimento que acompanhou o desmoronamento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Nenhum investigador probo ignora atualmente o significado do livro e as releituras trespassam a academia e a influ\u00eancia que exerce sobre numerosos pensadores.<\/p>\n<p>O interesse por Marx verifica-se entre os economistas que salientam a sua antecipa\u00e7\u00e3o da mundializa\u00e7\u00e3o. Outros descobrem uma precoce interpreta\u00e7\u00e3o da degrada\u00e7\u00e3o do meio ambiente e ligam a aus\u00eancia de solu\u00e7\u00f5es ao desastre ecol\u00f3gico, com a crise civilizacional prevista pelo te\u00f3rico alem\u00e3o.<\/p>\n<p>A sua obra \u00e9 retomada com maior frequ\u00eancia para caracterizar a etapa neoliberal. V\u00e1rios autores investigam as semelhan\u00e7as desse esquema com o \u00abcapitalismo puro\u00bb e desregulado que prevalecia na \u00e9poca de Marx.<\/p>\n<p>Num tempo de privatiza\u00e7\u00f5es, abertura comercial e flexibiliza\u00e7\u00e3o laboral transparecem tra\u00e7os que estavam ocultos durante a fase keynesiana.<\/p>\n<p>Os diagn\u00f3sticos do pensador alem\u00e3o recuperaram nitidez no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>A grande crise que rebentou em 2008 recolocou O Capital num lugar preponderante da literatura econ\u00f4mica. O desmoronamento financeiro n\u00e3o desembocou apenas numa impactante recess\u00e3o. Al\u00e9m disso, precipitou uma expans\u00e3o in\u00e9dita da despesa p\u00fablica para socorrer os bancos.<\/p>\n<p>Marx retoma import\u00e2ncia neste cen\u00e1rio de agudos desequil\u00edbrios capitalistas. Por esta raz\u00e3o, as suas explica\u00e7\u00f5es sobre o funcionamento e a crise do sistema s\u00e3o revisitadas com grande aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Do mesmo modo, alguns analistas pensam que as suas respostas perderam atualidade ao cabo de 150 anos. \u00c9 evidente que o regime vigente \u00e9 muito diferente do que imperava no per\u00edodo que o escritor alem\u00e3o o conheceu. O registo destas diferen\u00e7as contribui para evitar as descobertas dogm\u00e1ticas do \u00abj\u00e1 Marx disse\u00bb sobre acontecimentos que lhe sucederam.<\/p>\n<p>Mas conv\u00e9m tamb\u00e9m recordar que o estudioso alem\u00e3o investigou o mesmo modo de produ\u00e7\u00e3o vigente na atualidade. Esse regime continua regulado pelas mesmas leis e sujeito aos mesmos princ\u00edpios. Todas as denomina\u00e7\u00f5es que ocultam essa persist\u00eancia (economia apenas, mercado, modernidade, p\u00f3s-industrialismo) obstruem a compreens\u00e3o do capitalismo da nossa era.<\/p>\n<p>A obra de Marx manter\u00e1 o seu interesse enquanto subsistir uma estrutura econ\u00f4mico-social governada pela concorr\u00eancia, o lucro e a explora\u00e7\u00e3o. Mas quais s\u00e3o os aspectos mais pertinentes da sua teoria para clarificar o atual modelo neoliberal?<br \/>\n<strong>Refuta\u00e7\u00f5es falhas<\/strong><\/p>\n<p>Marx captou a especificidade do capitalismo corrigindo as inconsist\u00eancias dos seus antecessores da economia pol\u00edtica cl\u00e1ssica. Manteve a indaga\u00e7\u00e3o totalizadora da economia que Smith e Ricardo encararam, superando as ingenuidades da \u00abm\u00e3o invis\u00edvel\u00bb. Ao descobrir as obstru\u00e7\u00f5es com que o capitalismo se depara, revolucionou o estudo desse modo de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O autor de O Capital compreendeu que essas tens\u00f5es s\u00e3o inerentes ao sistema. Destacou que os desequil\u00edbrios n\u00e3o prov\u00eam do comportamento ou da irracionalidade dos indiv\u00edduos, nem obedecem \u00e0 inadequa\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Marx demonstrou que o capitalismo est\u00e1 corro\u00eddo por contradi\u00e7\u00f5es singulares e distintas das prevalecentes em regimes anteriores. Essa compreens\u00e3o permitiu-lhe transformar as cr\u00edticas intuitivas numa impugna\u00e7\u00e3o coerente do capitalismo.<\/p>\n<p>A ortodoxia neocl\u00e1ssica tentou refutar os seus questionamentos com toscos paneg\u00edricos do sistema. Concebeu insustent\u00e1veis fantasias de mercados perfeitos, de consumidores racionais e efeitos ben\u00e9volos do investimento. Recorreu a uma acumula\u00e7\u00e3o de inveros\u00edmeis mitos, que contrastam com as aproxima\u00e7\u00f5es realistas assumidas por Marx.<\/p>\n<p>Os precursores do neoliberalismo n\u00e3o conseguiram desmentir o car\u00e1ter intr\u00ednseco dos desequil\u00edbrios capitalistas. Ensaiaram uma apresenta\u00e7\u00e3o for\u00e7ada dessas tens\u00f5es como resultado de inger\u00eancias estatais, sem explicar por que raz\u00e3o o pr\u00f3prio sistema recria tantos desajustamentos.<\/p>\n<p>Os crit\u00e9rios neocl\u00e1ssicos da maximiza\u00e7\u00e3o \u2013 complementados com as sofisticadas formaliza\u00e7\u00f5es para solucionar alternativas \u2013 ignoram a l\u00f3gica geral da economia. Reduzem a investiga\u00e7\u00e3o nessa disciplina a um simples adestramento em exerc\u00edcios de otimiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O atual predicamento dessa abordagem n\u00e3o prov\u00e9m, pois, da sua solidez te\u00f3rica. \u00c9 assinalado pelas classes dominantes para difundir justifica\u00e7\u00f5es dos atropelos aos assalariados. Instrumentalizam essas agress\u00f5es alegando exig\u00eancias naturais da economia. Sublinham, por exemplo, a impossibilidade de satisfazer as reclama\u00e7\u00f5es populares por restri\u00e7\u00f5es derivadas da escassez. Mas omitem o car\u00e1ter relativo dessas limita\u00e7\u00f5es, apresentando-as como dados atemporais ou invari\u00e1veis.<\/p>\n<p>A hostilidade dos neocl\u00e1ssicos a Marx contrasta com o reconhecimento exibido pela maioria da heterodoxia. Alguns autores dessa vertente, inclusive, procuraram a inclus\u00e3o da economia marxista num campo comum de opositores da teoria neocl\u00e1ssica. Esta pretens\u00e3o ilustra \u00e1reas de afinidade, mas esquece que a concep\u00e7\u00e3o forjada a partir de O Capital conforma um corpo contraposto \u00e0 heran\u00e7a de Keynes.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a principal entre ambas as vis\u00f5es radica na valora\u00e7\u00e3o do capitalismo. A heterodoxia aceita o car\u00e1ter conflituoso do sistema, mas considera que essas tens\u00f5es podem ser resolvidas atrav\u00e9s de uma adequada a\u00e7\u00e3o estatal.<\/p>\n<p>Diferentemente, Marx postulou que essa interven\u00e7\u00e3o s\u00f3 posp\u00f5e (e por fim agrava) os desequil\u00edbrios que pretende resolver. Com este balizamento colocou as bases de uma tese de grande atualidade: a impossibilidade de forjar modelos de capitalismo humano, redistributivo ou regulado. Todo o pensamento marxista contempor\u00e2neo defende esta posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Mais-valia e superexplorados <\/strong><\/p>\n<p>Marx formulou substanciais observa\u00e7\u00f5es para a compreens\u00e3o da atual deteriora\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio. O modelo neoliberal generalizou essa retra\u00e7\u00e3o ao intensificar a concorr\u00eancia internacional. A abertura comercial, a press\u00e3o por menores custos e o imp\u00e9rio da concorr\u00eancia s\u00e3o utilizados para esmagar os recebimentos populares em todos os pa\u00edses. Os patr\u00f5es recorrem \u00e0 chantagem de relocaliza\u00e7\u00e3o das f\u00e1bricas ou a desloca\u00e7\u00f5es efetivas da ind\u00fastria para Oriente \u2013 para baratear a for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n<p>Esse atropelo obedece a crescentes taxas de explora\u00e7\u00e3o que exigem a acumula\u00e7\u00e3o. Marx esclareceu a l\u00f3gica desta press\u00e3o quando distinguiu o trabalho da for\u00e7a de trabalho, quando separou o trabalho necess\u00e1rio dos excedentes e registou que por\u00e7\u00e3o da jornada laboral remunera efetivamente o dono da empresa.<\/p>\n<p>Com essa exposi\u00e7\u00e3o ilustra como atual a apropria\u00e7\u00e3o patronal do trabalho alheio. Apontou que esse confisco fica mascarado pela inovadora coer\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica que impera sob o capitalismo. Diferentemente do escravo ou do vassalo, o assalariado \u00e9 formalmente livre, mas est\u00e1 submetido \u00e0s regras da sobreviv\u00eancia impostas pelos seus opressores.<\/p>\n<p>Marx fundamentou esta an\u00e1lise no seu descobrimento da mais-valia. Demonstrou que a explora\u00e7\u00e3o \u00e9 uma necessidade do sistema. Mas tamb\u00e9m sublinhou que a queda do sal\u00e1rio \u00e9 um processo peri\u00f3dico e vari\u00e1vel. Destacou que depende de processos objetivos (produtividade, base demogr\u00e1fica), conjunturais (ciclos de prosperidade ou de recess\u00e3o) e subjetivos (intensidade e desenlace da luta de classes).<\/p>\n<p>Esta caracteriza\u00e7\u00e3o permite compreender que o fundamento do atropelo neoliberal em curso \u00e9 uma generalizada compuls\u00e3o capitalista para elevar a taxa de mais-valia. Indica tamb\u00e9m que a intensidade e o alcance desta agress\u00e3o s\u00e3o determinados pelas condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas sociais e pol\u00edticas vigentes em cada pa\u00eds.<\/p>\n<p>A teoria do sal\u00e1rio de Marx situa-se nos ant\u00edpodas das fal\u00e1cias neocl\u00e1ssicas de redistribui\u00e7\u00e3o do esfor\u00e7o do trabalhador. Tamb\u00e9m rejeita a ingenuidade heterodoxa de invari\u00e1veis melhorias acordadas na redistribui\u00e7\u00e3o dos recebimentos.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 uma abordagem afastada de qualquer postulado de \u00abmis\u00e9ria crescente\u00bb. O te\u00f3rico alem\u00e3o nunca prognosticou o inexor\u00e1vel empobrecimento de todos os assalariados sob o capitalismo. A significativa melhoria do n\u00edvel de vida popular corroborou essas preven\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Na etapa neoliberal o sal\u00e1rio volta a cair pela necessidade c\u00edclica com que o capitalismo se defronta de acrescentar a taxa de mais-valia, atrav\u00e9s de cortes nas remunera\u00e7\u00f5es dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, Marx apresentou um segundo tipo de caracteriza\u00e7\u00f5es referidas aos desocupados da sua \u00e9poca, que tem especial interesse para a atual compreens\u00e3o da exclus\u00e3o. Este flagelo obedece a press\u00f5es da acumula\u00e7\u00e3o semelhantes \u00e0s estudadas pelo pensador germ\u00e2nico, na sua avalia\u00e7\u00e3o da pauperiza\u00e7\u00e3o absoluta.<\/p>\n<p>O intelectual europeu ficou muito abalado pelas terr\u00edveis consequ\u00eancias do desemprego estrutural. Ilustrou com violentas den\u00fancias as condi\u00e7\u00f5es inumanas de sobreviv\u00eancia enfrentadas pelos empobrecidos. Esses retratos voltam a ter atualidade nos casos de perda definitiva do emprego e consequente degrada\u00e7\u00e3o social. O que Marx investigou na sua descri\u00e7\u00e3o do \u00ablepros\u00e1rio da classe oper\u00e1ria\u00bb reaparece hoje no drama dos subjugados pela trag\u00e9dia da subsist\u00eancia.<\/p>\n<p>O neoliberalismo alargou a pauperiza\u00e7\u00e3o da grande parte dos trabalhadores informais ou flexibilizados. Esses segmentos suportam n\u00e3o s\u00f3 situa\u00e7\u00f5es de sujei\u00e7\u00e3o laboral extrema, tayloriza\u00e7\u00e3o ou desclassifica\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m remunera\u00e7\u00f5es do sal\u00e1rio muito abaixo do valor da for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas esse tormento n\u00e3o impera apenas na periferia. A precariza\u00e7\u00e3o estendeu-se a todos os cantos do planeta e verifica-se nos diversos centros. O n\u00edvel dos sal\u00e1rios continua a diferir de forma significativa nos diversos pa\u00edses, mas a explora\u00e7\u00e3o redobrada verifica-se em numerosas regi\u00f5es. \u00c9 um sofrimento agudo no centro e dram\u00e1tico na periferia. O que Marx observava entre os desocupados da sua \u00e9poca tamb\u00e9m a\u00e7oita atualmente grande parte dos precarizados de todas as latitudes.<\/p>\n<p><strong>Desigualdade e acumula\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>As ideias expostas pelo autor de O Capital permitem interpretar a explos\u00e3o de desigualdade recentemente medida por Pikety. Os dados s\u00e3o angustiantes. Um punhado de 62 bilion\u00e1rios tem o mesmo mont\u00e3o de recursos que 3.600 milh\u00f5es de indiv\u00edduos. Enquanto se desmorona a seguran\u00e7a social, expande-se a pobreza, os magnatas desfinanciam os sistemas de previs\u00e3o, escondendo as suas fortunas em para\u00edsos fiscais.<\/p>\n<p>A desigualdade n\u00e3o \u00e9 o fen\u00f4meno passageiro que descrevem os te\u00f3ricos ortodoxos. Os expoentes mais realistas (ou c\u00ednicos) dessa corrente explicitam a conveni\u00eancia da iniquidade para refor\u00e7ar a submiss\u00e3o dos assalariados.<\/p>\n<p>A fratura social atual \u00e9 frequentemente atribu\u00edda \u00e0 preemin\u00eancia de modelos econ\u00f4micos regressivos. Mas Marx demonstrou que a desigualdade \u00e9 inerente ao capitalismo. Sob esse sistema as diferen\u00e7as de recursos variam em cada etapa, diferem significativamente entre pa\u00edses e est\u00e3o condicionadas pelas conquistas populares ou a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre opressores e oprimidos. Em todos os casos o capitalismo tende a recriar e a alargar as brechas sociais.<\/p>\n<p>Marx atribuiu essa reprodu\u00e7\u00e3o da desigualdade \u00e0 din\u00e2mica de um sistema assente nos lucros derivados da mais-valia extra\u00edda dos trabalhadores. O Capital sublinha esse tra\u00e7o na pol\u00eamica com outras interpreta\u00e7\u00f5es do lucro, centradas na ast\u00facia do comerciante. Tamb\u00e9m objeta as caracteriza\u00e7\u00f5es que sublinham as retribui\u00e7\u00f5es \u00e0 contribui\u00e7\u00e3o do empres\u00e1rio, sem especificar em que consiste essa contribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os neocl\u00e1ssicos nunca conseguiram refutar essas posi\u00e7\u00f5es, com a sua apresenta\u00e7\u00e3o do lucro como um pr\u00eamio \u00e0 absten\u00e7\u00e3o do consumo ou \u00e0 poupan\u00e7a individual. Mais insatisfat\u00f3rias foram as suas caracteriza\u00e7\u00f5es de retribui\u00e7\u00f5es a um inanimado \u00abfator capital\u00bb ou a pagamentos das fun\u00e7\u00f5es de gerente separadas da propriedade da empresa.<\/p>\n<p>Id\u00eanticos desacertos cometeram os keynesianos ao interpretar o lucro como uma contrapresta\u00e7\u00e3o do risco ou da inova\u00e7\u00e3o. Os pensadores mais contempor\u00e2neos dessa escola optaram por desviar o olhar de qualquer refer\u00eancia \u00e0 origem do lucro.<\/p>\n<p>Outros te\u00f3ricos reconhecem a iniquidade do sistema, mas reduzem a origem da desigualdade a anomalias na distribui\u00e7\u00e3o dos recursos, devido a favoritismos ou pol\u00edticas erradas. Nunca ligam esses processos com a din\u00e2mica do capitalismo.<\/p>\n<p>As caracteriza\u00e7\u00f5es convencionais do lucro s\u00e3o mais insustent\u00e1veis no s\u00e9culo XXI que no tempo de Marx. Ningu\u00e9m pode explicar com crit\u00e9rios normais as monumentais fortunas acumuladas pelo 1% dos bilion\u00e1rios globais. Esses lucros, sem justifica\u00e7\u00f5es de qualquer \u00edndole, s\u00e3o hoje mais naturais que no passado.<\/p>\n<p>As cr\u00edticas hoje em voga ao enriquecimento, no m\u00e1ximo, questionam os escandalosos lucros dos banqueiros. Em contrapartida, ponderam os lucros surgidos da produ\u00e7\u00e3o sem avaliar as liga\u00e7\u00f5es entre ambas as formas de rentabilidade.<\/p>\n<p>A releitura de O Capital permite recordar que a fatia obtida pelos banqueiros constitui, apenas, uma por\u00e7\u00e3o da massa total dos lucros criada com a explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Marx analisou tamb\u00e9m as formas violentas que, em certas circunst\u00e2ncias, assume a captura de lucros. Avaliou essa tend\u00eancia em estudos da acumula\u00e7\u00e3o primitiva, que foram utilizados pelos te\u00f3ricos da acumula\u00e7\u00e3o como despossess\u00e3o (Harvey).<\/p>\n<p>Em O Capital investigou as formas coercitivas que apresentou a apropria\u00e7\u00e3o de recursos na g\u00eanesis do capitalismo. Mas o sistema continuou a recriar essas exa\u00e7\u00f5es em diferentes situa\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo e meio posterior. As guerras do M\u00e9dio Oriente, os saques na \u00c1frica ou as expropria\u00e7\u00f5es dos camponeses na \u00c1sia ilustram diferentes modalidades recentes dessa suc\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Marx inaugurou o estudo de formas excepcionais de confisco do trabalho alheio. Essa investiga\u00e7\u00e3o assentou as bases para a clarificar a din\u00e2mica contempor\u00e2nea da infla\u00e7\u00e3o ou da defla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tal como os seus precursores cl\u00e1ssicos, Marx postulou uma determina\u00e7\u00e3o objetiva dos pre\u00e7os em fun\u00e7\u00e3o do seu valor. Precisou que essa magnitude fica estabelecida pelo tempo de trabalho socialmente necess\u00e1rio \u00e0 produ\u00e7\u00e3o dos bens, em convulsivos processos de extra\u00e7\u00e3o de mais-valia e realiza\u00e7\u00e3o de valor.<\/p>\n<p>Essa caracteriza\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 permite refutar a ing\u00eanua apresenta\u00e7\u00e3o neocl\u00e1ssica dos pre\u00e7os como reflexos da utilidade pessoal, ou como espont\u00e2neos emergentes da oferta e da procura. Desmonta tamb\u00e9m a absurda imagem do capitalista como v\u00edtima de escaladas inflacion\u00e1rias ou deflacion\u00e1rias, alheias \u00e0 sua conduta.<\/p>\n<p>Nas conjunturas cr\u00edticas, a determina\u00e7\u00e3o turbulenta dos pre\u00e7os reproduz lucros extraordin\u00e1rios aos grandes patr\u00f5es, atrav\u00e9s de abruptas desvaloriza\u00e7\u00f5es do sal\u00e1rio. Esses mecanismos operam atualmente com a mesma intensidade que as expropria\u00e7\u00f5es violentas da \u00e9poca de Marx.<\/p>\n<p>O Capital facilitou a identifica\u00e7\u00e3o posterior de quem s\u00e3o os art\u00edfices e os benefici\u00e1rios do n\u00edvel que os pre\u00e7os assumem. Essa caracteriza\u00e7\u00e3o n\u00e3o se limita a retratar situa\u00e7\u00f5es de \u00abluta distributiva\u00bb. Sublinha a desigualdade de condi\u00e7\u00f5es em que os trabalhadores disputam com os patr\u00f5es e ressalta a consequente domina\u00e7\u00e3o que exercem os formadores de pre\u00e7os.<\/p>\n<p><strong>Desemprego e inova\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A atual massifica\u00e7\u00e3o do desemprego constitui outra raz\u00e3o para ler Marx. Alguns pensadores neocl\u00e1ssicos assumem essa calamidade com um simples dado. Outros trombeteiam conselhos sobre a potencialidade futura dos servi\u00e7os, para compensar a queda do emprego industrial. Em nenhum pa\u00eds essas previs\u00f5es foram corroboradas.<\/p>\n<p>Muitos analistas afirmam que a educa\u00e7\u00e3o resolver\u00e1 o problema. Mas esquecem-se de mencionar o crescente n\u00famero de desocupados com t\u00edtulos universit\u00e1rios. A destrui\u00e7\u00e3o de postos de trabalho afeta j\u00e1 severamente os segmentos mais qualificados.<\/p>\n<p>Diferentes medi\u00e7\u00f5es come\u00e7aram a registar que no modelo atual o desemprego n\u00e3o se reduz nas fases expansivas, em propor\u00e7\u00e3o equivalente ao seu incremento nos per\u00edodos recessivos. Este flagelo aumenta com a elevada rota\u00e7\u00e3o do capital e a vertiginosa redu\u00e7\u00e3o dos gastos administrativos.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o digital \u00e9 invariavelmente mencionada como a causa principal desta crescente perda de postos de trabalho. Mas os computadores s\u00e3o culpabilizados, omitindo os que definem a sua utiliza\u00e7\u00e3o. Esquece-se que esses instrumentos nunca atuam por si mesmos. S\u00e3o geridos por capitalistas que multiplicam os seus lucros substituindo m\u00e3o-de-obra. A inform\u00e1tica e a automatiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o destroem o emprego espontaneamente. A rentabilidade empresarial \u00e9 que provoca essa demoli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Capital introduziu os principais fundamentos desta caracteriza\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a tecnol\u00f3gica. Marx afirmou que as inova\u00e7\u00f5es s\u00e3o incorporadas para incrementar a taxa de explora\u00e7\u00e3o que alimenta o lucro patronal.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o inform\u00e1tica em curso ajusta-se totalmente a este postulado. \u00c9 um recurso utilizado pelas grandes empresas para potenciar a captura do novo valor gerado pelos assalariados.<\/p>\n<p>Tal como ocorreu no passado com o vapor, a estrada de ferro, a eletricidade ou os pl\u00e1sticos, a digitaliza\u00e7\u00e3o introduz transforma\u00e7\u00f5es radicais na atividade produtiva, comercial e financeira. Barateia o transporte e as comunica\u00e7\u00f5es e modifica completamente aos procedimentos de fabrica\u00e7\u00e3o ou venda das mercadorias.<\/p>\n<p>Um ind\u00edcio desta muta\u00e7\u00e3o \u00e9 a influ\u00eancia alcan\u00e7ada pelos \u00absenhores das nuvens\u00bb. Sete das dez empresas com maior capitaliza\u00e7\u00e3o bolsista atual pertencem ao setor das novas tecnologias da informa\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma d\u00e9cada e meia as firmas com mais capacidade financeira eram petrol\u00edferas, industriais ou automotrizes. Hoje s\u00e3o a Google, Amazon, Facebook ou Twitter.<\/p>\n<p>Esta irrup\u00e7\u00e3o suscita press\u00e1gios felizes entre os pensadores que ocultam as consequ\u00eancias da gest\u00e3o capitalista da inform\u00e1tica. Omitem, por exemplo, que a massifica\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o digital refor\u00e7ou a privatiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o virtual. Este \u00e9 controlado por poucas empresas privadas estreitamente associadas ao Pent\u00e1gono. O Capital permite entender as determinantes capitalistas deste perfil da inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Marx iniciou a indaga\u00e7\u00e3o da tecnologia como fen\u00f4meno social, abrindo um caminho dos estudos que floresceu nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Mas diferentemente dos te\u00f3ricos evolucionistas e schumpeterianos, demonstrou que a altera\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica desestabiliza a acumula\u00e7\u00e3o e potencializa a crise.<\/p>\n<p>A inova\u00e7\u00e3o guiada por princ\u00edpios de lucro imp\u00f5e uma encarni\u00e7ada concorr\u00eancia que multiplica a superprodu\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, induz a hierarquizar o desenvolvimento de ramos t\u00e3o destrutivos como a ind\u00fastria militar.<\/p>\n<p>Marx explicou por que raz\u00e3o o atual sistema impede uma gest\u00e3o social proveitosa das novas tecnologias. Assinalou que essa gest\u00e3o social requeria cit\u00e9rios de coopera\u00e7\u00e3o opostos aos princ\u00edpios da rentabilidade. As potencialidades da informatiza\u00e7\u00e3o como instrumento de bem-estar e solidariedade s\u00f3 emergir\u00e3o numa sociedade emancipada do capitalismo.<\/p>\n<p><strong>Multiplicidade de crises<\/strong><\/p>\n<p>Atualmente, Marx suscita um interesse especial pelos crit\u00e9rios que enunciou para interpretar as crises. O neoliberalismo n\u00e3o provoca apenas crescentes sofrimentos. Cada quinqu\u00eanio ou dec\u00eanio desencadeia convuls\u00f5es que abalam a economia mundial. Essas perturba\u00e7\u00f5es induzem o estudo de O Capital.<\/p>\n<p>As crises do \u00faltimo per\u00edodo inclu\u00edram a bolha japonesa (1993) a eclos\u00e3o do Sudeste asi\u00e1tico (1997), o desabar da R\u00fassia (1998), o desmoronamento das empresas <a href=\"http:\/\/ponto.com\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ponto.com<\/a> (2000) e o descalabro da Argentina (2001). Mas a magnitude e o alcance geogr\u00e1fico do solavanco global de 2008 superaram amplamente aqueles antecedentes. O seu impacto obrigou \u00e0 revis\u00e3o das teorias econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>As recentes crises s\u00e3o efeitos diretos da nova etapa de privatiza\u00e7\u00f5es, de abertura comercial e flexibilidade laboral. N\u00e3o s\u00e3o prolongamentos de tens\u00f5es irresolutas dos anos 70. Emergiram no calor dos desequil\u00edbrios peculiares do neoliberalismo.<\/p>\n<p>Esse modelo erodiu os diques que controlavam os desajustamentos do sistema. Por isso, o atual capitalismo atua com graus de instabilidade muito superiores aos do passado.<\/p>\n<p>Os neocl\u00e1ssicos atribu\u00edram a crise de 2008 a desacertos dos governos ou \u00e0 irresponsabilidade dos devedores. Reduziram todos os problemas a comportamentos individuais, culpabilizaram as v\u00edtimas e apanharam os respons\u00e1veis. Al\u00e9m disso, ainda justificaram os socorros estatais aos bancos, silenciando que essas ajudas contrariam todas as suas pr\u00e9dicas a favor da concorr\u00eancia e do risco.<\/p>\n<p>Os heterodoxos explicaram as mesmas convuls\u00f5es pelo descontrole do risco. Esqueceram que essas supervis\u00f5es s\u00e3o periodicamente socavadas pelas rivalidades entre empresas e bancos. As normas que protegem os neg\u00f3cios das classes dominantes s\u00e3o violadas pela pr\u00f3pria continuidade da acumula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A releitura de O Capital permite superar essas inconsist\u00eancias da economia convencional. Induz a investiga\u00e7\u00e3o da origem sist\u00eamica desses rebentamentos. Oferece pistas para indagar os diversos mecanismos da crise, recordando que o capitalismo desencadeia uma ampla gama de contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O cimento comum desses desequil\u00edbrios \u00e9 a gera\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica de excedentes invend\u00e1veis. Mas essa superprodu\u00e7\u00e3o desenvolve-se por v\u00e1rios caminhos complementares.<\/p>\n<p>Marx salientou a exist\u00eancia de tens\u00f5es entre a produ\u00e7\u00e3o e o consumo, derivadas da estratifica\u00e7\u00e3o de classes da sociedade. Essa caracteriza\u00e7\u00e3o tem grande aplica\u00e7\u00e3o no panorama de agudos problemas de realiza\u00e7\u00e3o do valor das mercadorias, provocado pelo neoliberalismo.<\/p>\n<p>Esse modelo provoca uma amplia\u00e7\u00e3o dos consumos sem permitir o seu desfrute. Expande a produ\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo que diminui os recebimentos populares e precipita crises derivadas da deteriora\u00e7\u00e3o do poder de aquisi\u00e7\u00e3o. O enorme crescimento do endividamento familiar n\u00e3o atenua a vulnerabilidade da procura.<\/p>\n<p>Marx foi o primeiro a mostrar como a concorr\u00eancia obriga os empres\u00e1rios a desenvolverem duas tend\u00eancias opostas: por um lado ampliam as vendas e por outro reduzem os custos salariais. Esta contradi\u00e7\u00e3o apresenta envergaduras e localiza\u00e7\u00f5es muito diferentes em cada \u00e9poca.<\/p>\n<p>Atualmente, o neoliberalismo estimula o consumismo e a riqueza patrimonial financiada com o endividamento nas economias centrais. Ao mesmo tempo imp\u00f5e brutais retra\u00e7\u00f5es do poder de compra nos pa\u00edses perif\u00e9ricos.<\/p>\n<p>O Capital tamb\u00e9m releva os problemas da valoriza\u00e7\u00e3o. Indaga como atua a tend\u00eancia decrescente da taxa de lucro. Demonstra que o aumento do investimento produz um decl\u00ednio percentual do lucro, ao ritmo da pr\u00f3pria expans\u00e3o da acumula\u00e7\u00e3o. O trabalho vivo que alimenta a mais-valia decai proporcionalmente com o incremento da produtividade imposta pela concorr\u00eancia.<\/p>\n<p>Marx salientou que as crises emergem do crescimento capitalista. N\u00e3o s\u00e3o efeitos ocasionais do desperd\u00edcio ou do uso inadequado dos recursos. Explicou, al\u00e9m disso, como o sistema primeiro compensa, para depois agravar a queda peri\u00f3dica da taxa de lucro.<\/p>\n<p>Esta tese permite compreender de que forma o neoliberalismo incrementou a taxa de mais-valia, reduziu os sal\u00e1rios e barateou os fatores de produ\u00e7\u00e3o para contrariar o declive do n\u00edvel de rentabilidade. Tamb\u00e9m ilustrou como o pr\u00f3prio problema reaparece no fim dessa cirurgia. A contradi\u00e7\u00e3o descoberta por Marx, atualmente, verifica-se nas economias mais capitalizadas que sofrem desajustamentos de sobre-investimento.<\/p>\n<p>A apresenta\u00e7\u00e3o combinada e em termos marxistas dos desequil\u00edbrios de realiza\u00e7\u00e3o e valoriza\u00e7\u00e3o em termos marxistas \u00e9 muito pertinente, para compreender a heterogeneidade da mundializa\u00e7\u00e3o neoliberal. Indica que contradi\u00e7\u00f5es de ambos os tipos irrompem nos diferentes polos desse modelo, e como minam a sua estabilidade, a partir dos flancos complementares.<\/p>\n<p><strong>Finan\u00e7as e produ\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Marx sublinhou sempre os determinantes produtivos das crises capitalistas. Na \u00e9poca das enormes transforma\u00e7\u00f5es provocadas pela globaliza\u00e7\u00e3o, esse sublinhado permite evitar leituras simplistas de car\u00e1ter puramente financeiro.<\/p>\n<p>Os grandes capitais deslocam-se atualmente de uma atividade especulativa para outra, em situa\u00e7\u00f5es de alta desregula\u00e7\u00e3o, que acrescentam explos\u00f5es de liquidez. Al\u00e9m disso, a gest\u00e3o das empresas potencia os desajustamentos credit\u00edcios, a instabilidade cambial e a volatilidade bolsista.<\/p>\n<p>Esse processo multiplica as tens\u00f5es suscitadas pelos novos mecanismos de titulariza\u00e7\u00e3o, de derivados e alavancagens. \u00c9 evidente que o neoliberalismo abriu as comportas a um grande festim de especula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas, h\u00e1 j\u00e1 150 anos, Marx demonstrou que essas tresloucadas apostas s\u00e3o pr\u00f3prias do capitalismo. A especula\u00e7\u00e3o \u00e9 uma actividade constitutiva, n\u00e3o \u00e9 uma opcional do sistema. Nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas alcan\u00e7ou dimens\u00f5es desmedidas, mas n\u00e3o constitui um tra\u00e7o caracter\u00edstico do atual modelo.<\/p>\n<p>Esta precis\u00e3o permite observar as conex\u00f5es entre desequil\u00edbrios financeiros e produtivos salientados em O Capital.<\/p>\n<p>Seguindo esta pista, pode notar-se que a atual hegemonia das finan\u00e7as constitui apenas um aspecto da reestrutura\u00e7\u00e3o em curso. N\u00e3o \u00e9 um dado estrutural do capitalismo contempor\u00e2neo. A classe dominante utiliza o instrumento financeiro para recompor a taxa de lucro, atrav\u00e9s de uma maior apropria\u00e7\u00e3o de mais-valias.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a globaliza\u00e7\u00e3o financeira est\u00e1 ligada com o avan\u00e7o da internacionaliza\u00e7\u00e3o produtiva. A multiplicidade de t\u00edtulos em circula\u00e7\u00e3o varia de acordo com uma gest\u00e3o mais complexa do risco. Permite administrar atividades fabris ou comerciais mundializadas e sujeitas aos inesperados vaiv\u00e9ns dos mercados.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a expans\u00e3o do capital fict\u00edcio est\u00e1 ligada a estas condicionantes, e evolui de acordo com os movimentos do capital-dinheiro. Aprovisiona a produ\u00e7\u00e3o e intermedia a circula\u00e7\u00e3o das mercadorias.<\/p>\n<p>Estas conex\u00f5es explicam a persist\u00eancia da globaliza\u00e7\u00e3o financeira depois da crise de 2008. Os capitais continuam fluindo de um pa\u00eds para o outro com a mesma velocidade e liberdade de circula\u00e7\u00e3o, para lubrificar o funcionamento das estruturas capitalistas mais internacionalizadas.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que todas as tentativas de reintroduzir controles aos bancos falharam pela resist\u00eancia dos financistas. Mas essa capacidade de veto ilustra qu\u00e3o emaranhado com o universo produtivo est\u00e1 o mundo do dinheiro. S\u00e3o as duas caras de um mesmo processo de internacionaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Capital aporta numerosas observa\u00e7\u00f5es da din\u00e2mica financeira que explicam essas liga\u00e7\u00f5es, a partir de uma interpreta\u00e7\u00e3o muito original da l\u00f3gica do dinheiro. Destaca o papel insubstitu\u00edvel da moeda na intermedia\u00e7\u00e3o de todo o processo de reprodu\u00e7\u00e3o do capital. Reafirma que as diferentes fun\u00e7\u00f5es do dinheiro em circula\u00e7\u00e3o, o entesouramento ou a dispers\u00e3o dos meios de pagamento, est\u00e3o sujeitos \u00e0 mesma l\u00f3gica objetiva, que regula todo o desenvolvimento das mercadorias.<\/p>\n<p>Esse papel apresentou nos diversos regimes de regula\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria modalidades muito diferentes. O padr\u00e3o ouro do s\u00e9culo XIX diverge claramente das paridades atuais, administradas pelos bancos centrais. Mas em todos os casos dirige um caminho, determinado pela din\u00e2mica da acumula\u00e7\u00e3o, da concorr\u00eancia e da mais-valia.<\/p>\n<p>O Capital contribui para recordar estes fundamentos, n\u00e3o s\u00f3 em contraposi\u00e7\u00e3o aos mitos ortodoxos da transpar\u00eancia mercantil, \u00e0 otimiza\u00e7\u00e3o da atribui\u00e7\u00e3o de recursos ou \u00e0 vig\u00eancia das moedas ex\u00f3genas, neutras e passivas.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m releva as ingenuidades heterodoxas. Marx n\u00e3o apresentou a moeda como uma simples representa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, um mecanismo convencional ou um instrumento moldado ao quadro institucional. Explicou o seu papel necess\u00e1rio e peculiar na metamorfose que o capital desenvolve, para consumar a sua passagem pelos circuitos comerciais, produtivos e financeiros.<\/p>\n<p><strong>Economia mundial e nacional<\/strong><\/p>\n<p>A centralidade que tem O Capital para a compreens\u00e3o da din\u00e2mica contempor\u00e2nea dos sal\u00e1rios, da desigualdade, do desemprego ou da crise deveria levar a uma revis\u00e3o geral das suas contribui\u00e7\u00f5es para a teoria econ\u00f4mica. Seria muito oportuno atualizar, por exemplo, o estudo das controv\u00e9rsias suscitadas pelo livro que Mandel fez no centen\u00e1rio da primeira edi\u00e7\u00e3o de O Capital.<\/p>\n<p>A obra do pensador germ\u00e2nico n\u00e3o esclarece apenas o sentido das categorias b\u00e1sicas da economia. Tamb\u00e9m sugere linhas de investiga\u00e7\u00e3o para compreender a mundializa\u00e7\u00e3o em curso. Marx nunca chegou a escrever o tomo que preparava sobre a economia internacional, mas esbo\u00e7ou as ideias-chave para entender a l\u00f3gica globalizadora do sistema.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XXI, estes princ\u00edpios s\u00e3o muito relevantes. O capitalismo funciona na atualidade a servi\u00e7o de gigantescas empresas transnacionais, que corporizam o salto verificado na internacionaliza\u00e7\u00e3o. A produ\u00e7\u00e3o Wal-Mart \u00e9 maior que as vendas de uma centena de pa\u00edses, a dimens\u00e3o econ\u00f4mica da Mitsubishi transborda o n\u00edvel de atividade da Indon\u00e9sia e a General Motors supera a escala da Dinamarca.<\/p>\n<p>As firmas globalizadas diversificaram processos de fabrica\u00e7\u00e3o em cadeias de valor e mercadorias \u00abfeitas no mundo\u00bb. Desenvolvem todos os seus projetos produtivos em fun\u00e7\u00e3o das vantagens que oferece cada localidade, seja esta em mat\u00e9ria de sal\u00e1rios, de subs\u00eddios ou disponibilidade de recursos.<\/p>\n<p>A expans\u00e3o dos tratados de livre com\u00e9rcio adapta-se a esta muta\u00e7\u00e3o. As companhias necessitam de baixos direitos aduaneiros e liberdade de movimentos para concretizar as transa\u00e7\u00f5es entre as suas firmas associadas. Por isso imp\u00f5em conv\u00eanios que consagram a supremacia das empresas em qualquer lit\u00edgio judicial. Em certas \u00e1reas como a gen\u00e9tica, a sa\u00fade ou o meio ambiente, aqueles pleitos s\u00e3o decisivos.<\/p>\n<p>Uma releitura de O Capital permite superar dois erros muito correntes na interpreta\u00e7\u00e3o da internacionaliza\u00e7\u00e3o em curso. Um equ\u00edvoco sup\u00f5e que o capitalismo atual se rege pelos mesmos padr\u00f5es de preemin\u00eancia nacional que o regiam nos s\u00e9culos XIX ou XX. O desacerto oposto considera que o sistema se globalizou por completo, eliminando as barreiras nacionais, dissolvendo o papel dos estados e forjando classes dominantes totalmente transnacionalizadas.<\/p>\n<p>Marx escreveu a sua principal obra numa etapa da forma\u00e7\u00e3o do capitalismo, uma etapa muito diferente da atual. Mas conceptualizou acertadamente como operam as tend\u00eancias para a mundializa\u00e7\u00e3o, no quadro dos estados e das economias nacionais. Mudou a propor\u00e7\u00e3o e a relev\u00e2ncia comparativa dessa mistura, mas vig\u00eancia dessa combina\u00e7\u00e3o mant\u00e9m-se.<\/p>\n<p>O Capital melhorou as ideias expostas no Manifesto Comunista sobre o car\u00e1ter internacional da expans\u00e3o burguesa. No primeiro ensaio, Marx retratou a cria\u00e7\u00e3o do mercado mundial, a pujan\u00e7a do cosmopolitismo econ\u00f4mico e a veloz universaliza\u00e7\u00e3o das regras mercantis. No seu livro de maturidade precisou as formas que assumiam essas tend\u00eancias e remarcou o seu enlace com os mecanismos nacionais do ciclo e da acumula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Marx ajustou o seu olhar sobre a internacionaliza\u00e7\u00e3o objetando as teses ricardinas das \u00abvantagens comparativas\u00bb. Ressaltou o car\u00e1ter estrutural da desigualdade imperante no com\u00e9rcio internacional. Por isso rejeitou todas as expectativas de converg\u00eancia harmoniosa entre pa\u00edses e as vis\u00f5es de modula\u00e7\u00e3o natural \u00e0s condi\u00e7\u00f5es dos concorrentes.<\/p>\n<p>Esta abordagem permitiu-lhe notar a vig\u00eancia de remunera\u00e7\u00f5es internacionais mais elevadas para os trabalhos de maior produtividade. No in\u00edcio do capitalismo Marx percebeu alguns fundamentos de explica\u00e7\u00f5es posteriores da falha em termos de interc\u00e2mbio.<\/p>\n<p>O te\u00f3rico germ\u00e2nico observou a sequela dos desajustamentos provocados pelo transbordo capitalista das fronteiras nacionais. Registou como esse processo provoca crescentes fraturas \u00e0 escala global.<\/p>\n<p>Por isso, O Capital investigou essa din\u00e2mica em cen\u00e1rios nacionais muito espec\u00edficos. Investigou a evolu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios, dos pre\u00e7os ou do investimento em economias particulares. Pontualmente, detalhou essa din\u00e2mica no desenvolvimento industrial de Inglaterra.<\/p>\n<p>A leitura de Marx convida, pois, a avaliar a mundializa\u00e7\u00e3o atual como um curso preeminente, que coexiste com o continuado desenvolvimento nacional da acumula\u00e7\u00e3o. Sugere que ambos os processos operam de forma simult\u00e2nea.<\/p>\n<p><strong>Polaridades com novo racioc\u00ednio<\/strong><\/p>\n<p>O Capital \u00e9 muito \u00fatil para analisar a l\u00f3gica da rela\u00e7\u00e3o centro-periferia, subjacente \u00e0 atual quebra global. Marx antecipou certas ideias sobre essa divis\u00e3o nas suas observa\u00e7\u00f5es sobre o desenvolvimento geral do capitalismo.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio supunha que os pa\u00edses atrasados repetiriam a industrializa\u00e7\u00e3o do Ocidente. Pensava que o capitalismo se expandia derrubando muralhas, criando um sistema mundial interdependente.<\/p>\n<p>Exp\u00f4s essa ideia no Manifesto Comunista. A\u00ed descreveu como a China e a \u00cdndia seriam modernizadas com a estrada de ferro e a importa\u00e7\u00e3o de t\u00eaxteis brit\u00e2nicos. Marx real\u00e7ava a din\u00e2mica objetiva do desenvolvimento capitalista, e considerava que as estruturas precedentes seriam absorvidas pelo avan\u00e7o das for\u00e7as produtivas.<\/p>\n<p>Mas ao redigir O Capital come\u00e7ou a perceber tend\u00eancias opostas. Notou que a principal pot\u00eancia se modernizava alargando as dist\u00e2ncias em rela\u00e7\u00e3o ao resto do mundo. Esta aproxima\u00e7\u00e3o firmou-se com a sua percep\u00e7\u00e3o do que ocorreu na Irlanda. Ficou impressionado pela forma como a burguesia inglesa abafava o surgimento de manufatureiras na ilha para garantir o predom\u00ednio das suas exporta\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, notou como ela se abastecia de for\u00e7a de trabalho barata para limitar a melhoria dos assalariados brit\u00e2nicos.<\/p>\n<p>Nesta investiga\u00e7\u00e3o intuiu que a acumula\u00e7\u00e3o primitiva n\u00e3o antecipa processos de pujante industrializa\u00e7\u00e3o nos pa\u00edses submetidos ao jugo colonial. Este registo definiu as bases para a cr\u00edtica posterior \u00e0s expectativas de simples arrasto da periferia pelo centro. Com este fundamento se conceptualizou posteriormente a l\u00f3gica do subdesenvolvimento.<\/p>\n<p>Marx n\u00e3o exp\u00f4s uma teoria do colonialismo, nem uma interpreta\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o centro-periferia. Mas deixou uma sementeira de observa\u00e7\u00f5es para a compreens\u00e3o da polariza\u00e7\u00e3o global, que retomaram os seus sucessores e os te\u00f3ricos da depend\u00eancia.<\/p>\n<p>Esta linha de trabalho \u00e9 muito relevante para ver como atualmente o neoliberalismo multiplica as fraturas globais. Nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas ampliaram-se todas as fraturas que empobrecem a periferia inferior. Essa degrada\u00e7\u00e3o intensificou-se com a consolida\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio, o endividamento externo e o avassalamento dos recursos naturais dos pa\u00edses dependentes. Estas confisca\u00e7\u00f5es assumiram modalidades muito sangrentas em \u00c1frica e no mundo \u00e1rabe.<\/p>\n<p>As observa\u00e7\u00f5es de Marx inclu\u00edram tamb\u00e9m um registo de diversidades no centro. Intuiu que o in\u00edcio industrial brit\u00e2nico n\u00e3o seria copiado em Fran\u00e7a, e notou a presen\u00e7a de novos caminhos de crescimento, misturados com servid\u00e3o (R\u00fassia) ou esclavagismo (Estados Unidos).<\/p>\n<p>O autor de O Capital captou estas tend\u00eancias amadurecendo uma altera\u00e7\u00e3o do paradigma conceptual. Nos seus trabalhos mais completos substituiu a primeira abordagem linear \u2013 assente no comportamento das for\u00e7as produtivas \u2013 por uma outra multilinear, centrada no papel transformador dos sujeitos.<\/p>\n<p>Com esta \u00faltima abordagem, a r\u00edgida cronologia de periferias moldadas \u00e0 moderniza\u00e7\u00e3o foi substitu\u00edda por novas vis\u00f5es, que reconhecem a variedade do desenvolvimento hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Esta metodologia de an\u00e1lise \u00e9 importante para notar a especificidade das forma\u00e7\u00f5es interm\u00e9dias, que irromperam de forma persistente em diferentes per\u00edodos dos \u00faltimos centena e meia de anos. Com essa \u00f3tica pode-se avaliar a din\u00e2mica de acelerados processos de crescimento contempor\u00e2neo (China), em etapas de grande reorganiza\u00e7\u00e3o do sistema (neoliberalismo).<\/p>\n<p><strong>Antecipa\u00e7\u00f5es de anti-imperialismo<\/strong><\/p>\n<p>Marx estudou a economia do capitalismo para notar o seu efeito sobre a luta de classes que socava o sistema. Por isso investigou os processos pol\u00edticos revolucion\u00e1rios \u00e0 escala internacional.<\/p>\n<p>Seguiu com interesse especial o curso das rebeli\u00f5es populares da China, \u00cdndia e, sobretudo, da Irlanda, tendo intu\u00eddo da\u00ed a import\u00e2ncia dos nexos entre as lutas nacionais e sociais. Por isso promoveu a ades\u00e3o dos oper\u00e1rios brit\u00e2nicos \u00e0 revolta da ilha cont\u00edgua, tendo-se oposto \u00e0s divis\u00f5es que imperavam entre os oprimidos de ambos os pa\u00edses.<\/p>\n<p>A partir dessa experi\u00eancia, Marx j\u00e1 n\u00e3o concebeu a independ\u00eancia da Irlanda como uma consequ\u00eancia das vit\u00f3rias prolet\u00e1rias em Inglaterra. Sugeriu uma jun\u00e7\u00e3o entre ambos os processos, e transformou o seu internacionalismo cosmopolita inicial na defesa de uma conflu\u00eancia da resist\u00eancia anticolonial com as lutas nas economias centrais.<\/p>\n<p>Na sua etapa do Manifesto, o revolucion\u00e1rio alem\u00e3o propagava den\u00fancias anticoloniais de alta voltagem. N\u00e3o se limitava a descobrir a destrui\u00e7\u00e3o das formas econ\u00f4micas pr\u00e9-capitalistas. Questionava de viva voz as atrocidades das grandes pot\u00eancias.<\/p>\n<p>Mas nesses trabalhos juvenis Marx supunha que a generaliza\u00e7\u00e3o do capitalismo aceleraria a erradica\u00e7\u00e3o ulterior desse sistema. Defendia um internacionalismo prolet\u00e1rio muito b\u00e1sico, aparentado com as velhas utopias universalistas.<\/p>\n<p>Posteriormente, Marx ressaltou o efeito positivo das revolu\u00e7\u00f5es na periferia. Esses ensinamentos foram retomados pelos seus disc\u00edpulos do s\u00e9culo XX, para indicar a exist\u00eancia de uma contraposi\u00e7\u00e3o entre pot\u00eancias opressoras e na\u00e7\u00f5es oprimidas e defender a converg\u00eancia das batalhas nacionais e sociais. Dessas caracteriza\u00e7\u00f5es surgiram as estrat\u00e9gias de alian\u00e7a dos assalariados metropolitanos com os despossu\u00eddos do mundo colonial.<\/p>\n<p>Com este fundamento, forjou tamb\u00e9m a s\u00edntese do socialismo com o anti-imperialismo, desenvolvida pelos te\u00f3ricos do marxismo latino-americano. Essa conex\u00e3o induziu as converg\u00eancias da esquerda regional com o nacionalismo revolucion\u00e1rio, para enfrentar o imperialismo estadunidense. Esta jun\u00e7\u00e3o inspirou a revolu\u00e7\u00e3o cubana e foi retomada pelo processo bolivariano.<\/p>\n<p>Numa conjuntura marcada pelas agress\u00f5es de Trump, esse acervo de experi\u00eancias readquire import\u00e2ncia. Os atropelos do magnata induzem a revitaliza\u00e7\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es anti-imperialistas, especialmente em pa\u00edses t\u00e3o espezinhados como o M\u00e9xico. Ali ressurge a mem\u00f3ria de resist\u00eancias aos avassalamentos perpetrados pelos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Marx observava como as grandes humilha\u00e7\u00f5es nacionais desencadeiam processos revolucion\u00e1rios. O que ele percebeu no s\u00e9culo XIX volta a gravitar na actualidade.<\/p>\n<p><strong>Adversidades e ideologia <\/strong><\/p>\n<p>Marx tinha de lidar com momentos de isolamento, refluxo da luta popular e a consolida\u00e7\u00e3o do dom\u00ednio burgu\u00eas. A escrita de v\u00e1rias partes de O Capital coincidiu com essas circunst\u00e2ncias. Enfrentou a mesma adversidade que prevalece atualmente nas conjunturas de estabiliza\u00e7\u00e3o do neoliberalismo.<\/p>\n<p>Nesse tipo de situa\u00e7\u00f5es, o pensador alem\u00e3o investigou como a classe dominante domina. Conceitualizou o papel da ideologia no exerc\u00edcio dessa supremacia. No estudo do fetichismo da mercadoria que tratou em O Capital h\u00e1 v\u00e1rias refer\u00eancias a esta problem\u00e1tica.<\/p>\n<p>\u00c9 importante retomar essas considera\u00e7\u00f5es para observar como funcionou o neoliberalismo nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Os art\u00edfices do modelo atual transmitem fantasias de sabedoria dos mercados e ilus\u00f5es de prosperidade espont\u00e2nea. Pressagiam derrames de lucros e recriam numerosas mitologias do individualismo.<\/p>\n<p>Com essa bateria de falsas expectativas, propagam uma influente ideologia em todos os sentidos do termo. Marx destacou essa variedade de facetas das cren\u00e7as propaladas pelos dominadores para tornar natural a sua opress\u00e3o.<\/p>\n<p>O credo neoliberal fornece todos os argumentos utilizados pelo establishment para justificar a sua primazia. Ainda que o grau de penetra\u00e7\u00e3o dessas ideias seja muito vari\u00e1vel, salta \u00e0 vista a sua incid\u00eancia na subjetividade de todos os indiv\u00edduos. Mas tal como no tempo de Marx, o capitalismo reproduz-se tamb\u00e9m atrav\u00e9s do medo. O sistema transmite cren\u00e7as sobre um futuro venturoso e ao mesmo tempo generaliza o p\u00e2nico perante esse provir. O neoliberalismo multiplicou especialmente a ang\u00fastia do desemprego, a humilha\u00e7\u00e3o perante a flexibilidade laboral e a desesperan\u00e7a face \u00e0 fratura social.<\/p>\n<p>Esses temores s\u00e3o transmitidos pelos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o com sofisticados disfarces e variados enganos. N\u00e3o configuram apenas o sentido comum imperante na sociedade. Atuam como f\u00e1bricas de propaga\u00e7\u00e3o de todos os valores conservadores.<\/p>\n<p>Os meios de comunica\u00e7\u00e3o complementam (ou substituem) as velhas institui\u00e7\u00f5es escolares, militares ou eclesi\u00e1sticas na sustenta\u00e7\u00e3o da ordem burguesa. A imprensa escrita, os meios audiovisuais e as redes sociais ocupam um espa\u00e7o inimagin\u00e1vel no s\u00e9culo XIX. Expandem as ilus\u00f5es e os temores que sustentam politicamente a hegemonia do neoliberalismo.<\/p>\n<p>Mas esses mecanismos ficaram seriamente abalados pela perda de legitimidade provocado pelo descontentamento popular. Trump, o Brexit e a ascens\u00e3o de partidos reacion\u00e1rios na Europa ilustram como esse mal estar pode ser capturado pela direita. Face a este tipo de situa\u00e7\u00f5es Marx forjou uma perdur\u00e1vel tradi\u00e7\u00e3o de conceber alternativas, combinando a resist\u00eancia com a compreens\u00e3o da conjuntura.<\/p>\n<p><strong>Projeto socialista<\/strong><\/p>\n<p>Marx participou ativamente nos movimentos revolucion\u00e1rios que debatiam as ideias do socialismo e do comunismo. Manteve essa intensa interven\u00e7\u00e3o enquanto escrevia O Capital. Nunca detalhou o seu modelo de sociedade futura, mas exp\u00f4s as bases desse porvir.<\/p>\n<p>O ac\u00e9rrimo cr\u00edtico da opress\u00e3o alentava a cria\u00e7\u00e3o de regimes econ\u00f4micos assentes na expans\u00e3o da propriedade p\u00fablica. Tamb\u00e9m promovia a cria\u00e7\u00e3o de regimes pol\u00edticos assentes na auto-administra\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>Marx apostava num in\u00edcio breve desses sistemas na Europa. Percebeu na Comuna de Paris uma antecipa\u00e7\u00e3o do seu projeto. Concebia o in\u00edcio dessa transforma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria no Velho Continente e imaginava uma propaga\u00e7\u00e3o ulterior a todo o planeta.<\/p>\n<p>\u00c9 sabido que a hist\u00f3ria seguiu uma traject\u00f3ria muito diferente. O triunfo bolchevique de 1917 inaugurou a sequ\u00eancia de grandes vit\u00f3rias populares do s\u00e9culo XX. Esses avan\u00e7os inclu\u00edram tentativas de constru\u00e7\u00e3o socialista em v\u00e1rias regi\u00f5es da periferia.<\/p>\n<p>As classes dominantes ficaram aterrorizadas, e fizeram concess\u00f5es in\u00e9ditas para conter a pujan\u00e7a dos movimentos anticapitalistas. Nos anos 70-80 os emblemas do socialismo eram t\u00e3o populares, que se tornava imposs\u00edvel contar quantos partidos e movimentos reivindicavam essa denomina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m \u00e9 conhecido o que aconteceu posteriormente. A queda da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica deu lugar a um prolongado per\u00edodo de rea\u00e7\u00e3o contra o igualitarismo, que atualmente ainda persiste.<\/p>\n<p>Este panorama foi alterado pela resist\u00eancia popular e o decl\u00ednio do modelo pol\u00edtico-ideol\u00f3gico da globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal. Nestas circunst\u00e2ncias, a releitura de O Capital converge com redescobrimentos do projeto socialista. Os jovens j\u00e1 n\u00e3o carregam os traumas da gera\u00e7\u00e3o anterior, nem as frustra\u00e7\u00f5es que pavimentaram a queda da URSS.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria experi\u00eancia de luta \u00e9 ensinadora. Muitos ativistas compreendem que a conquista da democracia efetiva e a igualdade real exigem que seja forjado um outro sistema social. Perante o sofrimento provocado pelo capitalismo, intuem a necessidade de construir um horizonte de emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A chegada de Trump incorpora novos ingredientes nesta batalha. O abastado presidente tenta recuperar pela for\u00e7a a primazia dos Estados Unidos. Pretende refor\u00e7ar a primazia de Wall Street e a preemin\u00eancia do lobby petrol\u00edfero, reativando o unilateralismo b\u00e9lico.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00f3 proclama que os Estados Unidos devem alistar-se para ganhar as guerras. J\u00e1 iniciou o seu programa militarista com bombardeios na S\u00edria e Afeganist\u00e3o. Al\u00e9m disso, exige uma subordina\u00e7\u00e3o do Velho Continente que socava a continuidade da Uni\u00e3o Europeia. Trump n\u00e3o se limita a construir o muro na fronteira mexicana. Acelera a expuls\u00e3o de imigrantes, incentiva golpes de direita na Venezuela e amea\u00e7a Cuba.<\/p>\n<p>Nesta convulsa conjuntura Marx retoma atualidade. Os seus textos n\u00e3o trazem apenas um guia para a compreens\u00e3o da economia contempor\u00e2nea. Tamb\u00e9m oferecem ideias para a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, \u00e0 volta de tr\u00eas eixos primordiais do momento: refor\u00e7ar a resist\u00eancia anti-imperialista, multiplicar a batalha ideol\u00f3gica contra o neoliberalismo e garantir a centralidade do projecto socialista.<\/p>\n<p><strong>Atitudes e compromissos<\/strong><\/p>\n<p>As teorias que Marx introduziu revolucionaram todos os par\u00e2metros da reflex\u00e3o e transformaram as bases do pensamento social. Mas o te\u00f3rico alem\u00e3o salientou-se tamb\u00e9m como um grande lutador. Desenvolveu um tipo de vida que atualmente identificar\u00edamos com milit\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Marx colocou-se na bancada dos oprimidos. Reconheceu os interesses sociais em jogo e rejeitou a atitude do observador neutro. Participou de forma decidida na a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Este posicionamento orientou o seu trabalho para os problemas da classe trabalhadora. Promoveu a conquista dos direitos sociais com os olhos postos no forjar uma sociedade liberta da explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Marx propiciou uma estreita conflu\u00eancia da elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica com a pr\u00e1tica pol\u00edtica. Inaugurou um modelo de fus\u00e3o do intelectual, do economista e do socialista que foi retomado por in\u00fameros pensadores.<\/p>\n<p>Com essa postura evitou desacertos: o ref\u00fagio acad\u00eamico afastado do compromisso pol\u00edtico e do deslumbramento pragm\u00e1tico pela a\u00e7\u00e3o. Com ele chegou uma dupla mensagem de interven\u00e7\u00e3o na luta e trabalho intelectual para compreender a sociedade contempor\u00e2nea. Continuar por esse caminho \u00e9 a melhor homenagem aos 150 anos de O Capital.<\/p>\n<p><strong>BIBLIOGRAFIA B\u00c1SICA<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Amin, Samir 1973. \u00bfC\u00f3mo funciona el capitalismo?, Siglo XXI, Buenos Aires.<\/p>\n<p>&#8211; Anderson, Kevin B, 2010. 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