{"id":14789,"date":"2017-06-16T12:18:55","date_gmt":"2017-06-16T15:18:55","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=14789"},"modified":"2017-07-03T13:59:56","modified_gmt":"2017-07-03T16:59:56","slug":"miguel-urbano-rodrigues-cidadao-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/14789","title":{"rendered":"Miguel Urbano Rodrigues, cidad\u00e3o do mundo"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/ci3.googleusercontent.com\/proxy\/ir_Wy8zcr-GG1RtwfbFB70eG_lVtsC15gMn93kjHJ38QUPnrnY9EsL6YYUJJlWzcQ0f6w_YyUxffTsLfeJoH8Ax4VHW_Yj3GnM3hauErLvJTYRatHeZsYfNQgYrdDx1pD5YWiBKgUQjvx8wSNdwo2aen-Q=s0-d-e1-ft#https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2017\/06\/miguel-urbano-rodrigues.jpg?w=620&amp;h=620\" alt=\"imagem\" \/><strong>&#8220;O meu eventual leitor n\u00e3o sabe o esfor\u00e7o que fiz para escrever, sem emo\u00e7\u00e3o, esta pouca de linhas sobre o Miguel Urbano. A not\u00edcia de sua morte foi, para mim, como um soco na boca do est\u00f4mago. Sei que, sem este meu amigo e camarada, o mundo de que ele foi cidad\u00e3o pleno ficou mais pobre.&#8221;<\/strong><!--more--><\/p>\n<p>Por Jos\u00e9 Paulo Netto<\/p>\n<p>no Blog da Boitempo<\/p>\n<p>Morreu Miguel Urbano Tavares Rodrigues (Moura, 2.8.1925-Vila Nova de Gaia, 27.5.2017). O seu falecimento foi objeto de incont\u00e1veis obitu\u00e1rios na imprensa europeia (portuguesa, espanhola, francesa), latino-americana (e, obviamente, brasileira) e africana (em especial, mas n\u00e3o exclusivamente, nos <em>Palops<\/em> \u2013 os Pa\u00edses Africanos de L\u00edngua Oficial Portuguesa). Explica-se: Miguel Urbano, portugu\u00eas do Alentejo, tornou-se um cidad\u00e3o do mundo \u2013 conheceu v\u00e1rias dezenas de pa\u00edses de quatro continentes, por muitos anos viveu no Brasil e, no fim do s\u00e9culo XX, alguns em Cuba.<\/p>\n<p>Miguel Urbano, por\u00e9m, jamais foi um <em>turista acidental<\/em>: tornou-se cidad\u00e3o do mundo porque, por onde passou, participou direta ou indiretamente das lutas sociais que ali se travavam, porque investigou, documentou e denunciou \u2013 na condi\u00e7\u00e3o de jornalista \u2013 a mis\u00e9ria, a opress\u00e3o e a injusti\u00e7a; e porque sempre orientou a sua conduta c\u00edvica pelos ideais socialistas.<\/p>\n<p>Se acaso o meu eventual leitor examinar, aleatoriamente, pelo menos uma dezena dos obitu\u00e1rios a que me referi, verificar\u00e1 que a atividade de Miguel Urbano \u00e9 sobretudo evocada pelo not\u00e1vel jornalista que ele foi. Come\u00e7ou, ainda jovem, quando frequentava o curso de Letras na hoje Universidade de Lisboa, no <em>Di\u00e1rio de Not\u00edcias <\/em>(1949-1956) e depois, ainda capital portuguesa, no <em>Di\u00e1rio Ilustrado<\/em> (at\u00e9 1957). Pressionado pela censura salazarista, deixou o pa\u00eds e fixou-se no Brasil: aqui esteve de 1957 a 1974, foi editorialista de <em>O<\/em> <em>Estado de S. Paulo<\/em> e, na primeira metade dos anos 1970, editor internacional da revista <em>Vis\u00e3o<\/em> \u2013 ao mesmo tempo em que participava do <em>Portugal Democr\u00e1tico<\/em>, \u00f3rg\u00e3o dos antifascistas portugueses editado, entre 1956 e 1975, tamb\u00e9m em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>A aventura que foi o sequestro do \u201cSanta Maria\u201d, em 1961 \u2013 a famosa <em>opera\u00e7\u00e3o Dulcineia<\/em>, capitaneada por Henrique Galv\u00e3o (1895-1970) \u2013, tornou-o amplamente conhecido e, de algum modo, conscientizou-o da necessidade de um combate mais organizado para a derrubada do regime de Salazar. Simp\u00e1tico ao socialismo, tr\u00eas anos depois vinculou-se ao Partido Comunista Portugu\u00eas\/PCP (certa feita, observou que esta decis\u00e3o, que marcaria toda a sua vida, fora influenciada pela leitura, em 1961, do romance <em>O caminho das tormentas<\/em>, de Alexei Tolstoi).<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos possibilitou o seu regresso a Portugal. Logo assumiu a reda\u00e7\u00e3o do <em>Avante!<\/em>, \u00f3rg\u00e3o oficial do PCP e, em 1976, a dire\u00e7\u00e3o de <em>O di\u00e1rio<\/em>, jornal de massas que circulou at\u00e9 1990. A partir de 1986, dividiu o seu trabalho editorial com a interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica institucional: come\u00e7ou na Assembleia Municipal de Moura, passou como deputado pela Assembleia da Rep\u00fablica (1990-1995) e chegou \u00e0 Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa. Embora tivesse ra\u00edzes em suas origens familiares (seu pai, abastado propriet\u00e1rio alentejano, colaborara na Primeira Rep\u00fablica portuguesa com Afonso Costa, o <em>mata-frades<\/em>), a pr\u00e1tica da pol\u00edtica institucional n\u00e3o o entusiasmava: sua paix\u00e3o era o jornalismo. E essa paix\u00e3o o impulsionou, j\u00e1 no s\u00e9culo XXI, ao exerc\u00edcio jornal\u00edstico atrav\u00e9s de novos instrumentos: em 2002 criou o site <em><span class=\"m_-4798951864309756826skimlinks-unlinked\"><a href=\"http:\/\/resistir.info\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">resistir.info<\/a><\/span><\/em> e, em 2006, o <em>di\u00e1<span class=\"m_-4798951864309756826skimlinks-unlinked\"><a href=\"http:\/\/rio.info\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">rio.info<\/a><\/span>.<\/em><\/p>\n<p>Com suas colunas e seus textos redigidos em prosa escorreita, cristalina e direta publicados em dezenas de ve\u00edculos de v\u00e1rias partes do mundo, justifica-se a \u00eanfase que os obitu\u00e1rios deram \u00e0 sua atividade jornal\u00edstica \u2013 e, em Portugal, ficou mais que comprovado que Miguel Urbano ocupa, na imprensa do pa\u00eds, no s\u00e9culo XX, um lugar \u00edmpar.<\/p>\n<p>Penso, contudo, que essa \u00eanfase pode obscurecer, ou deixar na sombra, outras dimens\u00f5es do seu fazer, como \u00e9 o caso da sua interven\u00e7\u00e3o como organizador cultural, de que \u00e9 emblem\u00e1tica a cria\u00e7\u00e3o dos <em>Encontros Internacionais de Serpa<\/em>, eventos de resson\u00e2ncia que Miguel Urbano organizou em 2004, 2007 e 2010, reunindo pensadores de v\u00e1rios pa\u00edses. Pode, ainda, minimizar a sua reflex\u00e3o te\u00f3rico-pol\u00edtica, exemplificada em ensaios como <em>Op\u00e7\u00f5es da revolu\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina <\/em>(1968), <em>Revolu\u00e7\u00e3o e vida <\/em>(1977) e <em>N\u00f3madas e sedent\u00e1rios na \u00c1sia Central <\/em>(1999). E isto sem mencionar as suas incurs\u00f5es liter\u00e1rias: <em>O homem de negro<\/em> (1958), <em>Do fundo do tempo <\/em>(1979), <em>Alva<\/em>(2001) e <em>A metamorfose de Efig\u00e9nia <\/em>(2010). Vale lembrar que, assim como a pol\u00edtica institucional, tamb\u00e9m a literatura envolveu outro familiar seu: o irm\u00e3o Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013), igualmente um conhecido opositor do regime de Salazar, foi ficcionista de nomeada, premiado pela Associa\u00e7\u00e3o Internacional de Cr\u00edticos Liter\u00e1rios e tendo as suas <em>obras completas <\/em>editadas pela D. Quixote (Lisboa).<\/p>\n<p>Por outra parte, julgo que devemos considerar que, substantivamente, Miguel Urbano foi um <em>escritor<\/em>. N\u00e3o creio que se aplica a ele a imagem de um pol\u00edgrafo: seja como jornalista, como publicista pol\u00edtico, como pensador fino (leia-se, por exemplo, a <em>Medita\u00e7\u00e3o descont\u00ednua sobre o envelhecimento<\/em>, de 2009), Miguel Urbano n\u00e3o tinha a linguagem apenas como meio \u2013 ela era <em>artesania e arte<\/em>. Provam-no as suas mem\u00f3rias, os bel\u00edssimos dois volumes de <em>O tempo e o espa\u00e7o em que vivi <\/em>(2002): nelas, rela\u00e7\u00f5es e experi\u00eancias pessoais s\u00e3o transfiguradas em evoca\u00e7\u00f5es que apreendem o essencial do movimento socioc\u00eantrico de um homem que se disp\u00f4s, durante a segunda metade do s\u00e9culo XX, a interpretar <em>e <\/em>transformar o mundo.<\/p>\n<p>Talvez caiba aqui, a finalizar, uma nota pessoal. Meu primeiro encontro com Miguel Urbano ocorreu em S\u00e3o Paulo, em finais de 1973; depois nos revimos em Portugal, em 1976 e 1977. N\u00e3o aprofundamos rela\u00e7\u00f5es e, anos depois, quando me tornei correspondente no Brasil do seu <em>O di\u00e1rio<\/em>, passamos por alto as raz\u00f5es dessa cordial dist\u00e2ncia. Julgo que havia raz\u00f5es pol\u00edticas para rela\u00e7\u00f5es t\u00e3o cautelosas: \u00e0 \u00e9poca, Miguel Urbano me identificava, equivocadamente, como um \u201ceurocomunista\u201d \u2013 e, \u00e0 \u00e9poca, essa qualifica\u00e7\u00e3o era muito pouco simp\u00e1tica a membros do PCP. S\u00f3 nos aproximamos mesmo em meados dos anos 1980, quando ele saudou com entusiasmo um ensaiozinho meu sobre a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos. A partir da\u00ed e ao longo das d\u00e9cadas de 1990 e 2000, tornamo-nos bem chegados.<\/p>\n<p>O meu eventual leitor n\u00e3o sabe o esfor\u00e7o que fiz para escrever, sem emo\u00e7\u00e3o, esta pouca de linhas sobre o Miguel Urbano. A not\u00edcia de sua morte foi, para mim, como um soco na boca do est\u00f4mago. Sei que, sem este meu amigo e camarada, o mundo de que ele foi cidad\u00e3o pleno ficou mais pobre.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2017\/06\/13\/miguel-urbano-rodrigues-cidadao-do-mundo\/\">Miguel Urbano Rodrigues, cidad\u00e3o do&nbsp;mundo<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;O meu eventual leitor n\u00e3o sabe o esfor\u00e7o que fiz para escrever, sem emo\u00e7\u00e3o, esta pouca de linhas sobre o Miguel Urbano. 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