{"id":14805,"date":"2017-06-19T14:20:38","date_gmt":"2017-06-19T17:20:38","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=14805"},"modified":"2017-07-03T14:00:19","modified_gmt":"2017-07-03T17:00:19","slug":"ricardo-antunes-nossas-classes-dominantes-sempre-oscilaram-entre-a-conciliacao-e-o-golpe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/14805","title":{"rendered":"Ricardo Antunes: Nossas classes dominantes sempre oscilaram entre a concilia\u00e7\u00e3o e o golpe"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/esquerdadiario.com.br\/ideiasdeesquerda\/wp-content\/uploads\/2017\/05\/FINALAntunesbis.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Entrevistamos Ricardo Antunes, um dos principais nomes da sociologia do trabalho na atualidade,\u00a0professor titular de Sociologia no Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH\/Unicamp), autor de t\u00edtulos como \u201cAdeus ao Trabalho?\u201d e \u201cOs sentidos do Trabalho\u201d.<!--more--><\/p>\n<p>Nessa entrevista, Antunes oferece\u00a0sua vis\u00e3o sobre a crise pol\u00edtica que vive o pa\u00eds hoje, na qual apresenta que\u00a0se trata de \u201c<em>uma crise pol\u00edtica profunda do regime aberto com a constitui\u00e7\u00e3o de 1988<\/em>\u201d. Nesse sentido, comenta os fundamentos da crise a partir das pr\u00f3prias ra\u00edzes da Nova Rep\u00fablica de 1988.<\/p>\n<p>Antunes segue a entrevista desenvolvendo\u00a0uma vis\u00e3o sobre o\u00a0<em>modus operandi<\/em>\u00a0da domina\u00e7\u00e3o de classes no Brasil, quando afirma que \u201c<em>As nossas classes dominantes sempre oscilaram no controle do poder pol\u00edtico e da domina\u00e7\u00e3o no Brasil, oscilando entre a concilia\u00e7\u00e3o e o golpe, a concilia\u00e7\u00e3o e o desenho autocr\u00e1tico, a concilia\u00e7\u00e3o e a devasta\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>. Tendo isso em vista,\u00a0analisa o significado do golpe institucional vivido no Brasil, \u00e0 luz da an\u00e1lise mais estrutural do sistema pol\u00edtico brasileiro.<\/p>\n<p>Como parte disso, parte de comentar a degrada\u00e7\u00e3o que significa o governo de Michel Temer e as \u201creformas\u201d que visa implementar, n\u00e3o deixa de tecer duras cr\u00edticas ao PT, como um dos partidos dominantes dentro desse sistema pol\u00edtico, e apresenta as causas da degrada\u00e7\u00e3o do partido: \u201c<em>O PT pouco a pouco foi se transformando num partido no\u00a0 qual as lutas sociais foram sendo deixadas gradativamente de lado<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Por fim, analisa as perspectivas do PT no futuro, momento no qual responde a pergunta sobre a poss\u00edvel recomposi\u00e7\u00e3o do Lula e do PT, partindo do forte ataque e mesmo a \u201cdevasta\u00e7\u00e3o\u201d que promove o governo Temer, que pode levar a alguma for\u00e7a do sentimento de \u201cmal menor\u201d a Lula, mas mais estruturalmente o soci\u00f3logo afirma que \u201c<em>uma recomposi\u00e7\u00e3o forte do PT \u00e9 muito dif\u00edcil, porque a descren\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao partido \u00e9 muito grande em todos os espa\u00e7os<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Veja a entrevista na integra a seguir. Realizada em abril\u00a0de 2017 por Iuri Tonelo.<\/p>\n<p><strong>IdE:\u00a0Frente \u00e0\u00a0escalada da crise pol\u00edtica atual que afeta os principais partidos do sistema pol\u00edtico, podemos falar de uma crise do regime de 1988?<\/strong><\/p>\n<p>RA: Sim, uma crise pol\u00edtica profunda do regime aberto com a constitui\u00e7\u00e3o de 1988. Talvez, para dar alguns tra\u00e7os dessa crise, possam ser mencionados dois movimentos muito conectados. O primeiro movimento \u00e9 uma crise geral do sistema de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do capital, ou seja, h\u00e1 uma crise da representa\u00e7\u00e3o burguesa de amplitude global. Crise esta que se manifesta, em um completo descompasso, num fosso profundo entre a vida real cotidiana das pessoas e a representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica institucional. Estou trabalhando na It\u00e1lia durante dois meses e isso \u00e9 vis\u00edvel aqui. O movimento nas ruas n\u00e3o bate com a temperatura e o term\u00f4metro pol\u00edtico institucional. Na Inglaterra j\u00e1 vemos isso com o Brexit, num movimento galvanizado pelas direitas que tenta fazer com que o Reino Unido saia da Uni\u00e3o Europeia pelo descontentamento com a forma de dom\u00ednio e de governo que vem sendo levada tamb\u00e9m na Europa \u2013 e isso vale pra um conjunto de pa\u00edses, o caso norteamericano, etc. H\u00e1, portanto, uma disjuntiva entre a vida real e a vida pol\u00edtica institucional.<\/p>\n<p>E essa crise tamb\u00e9m \u00e9 evidenciada no caso brasileiro, porque com o regime instaurado a partir de 88 foi na verdade uma constru\u00e7\u00e3o do velho MDB do Sarney, chamada \u201cNova Rep\u00fablica\u201d, que contemplava um movimento de abertura com o novo. Houve naquele momento uma importante luta social no Brasil que foi controlada e acomodada pelo Centr\u00e3o.<\/p>\n<p>Instaurou-se uma Nova Rep\u00fablica com Sarney e depois, com a constitui\u00e7\u00e3o de 1988, as elei\u00e7\u00f5es de 89, etc. E nas elei\u00e7\u00f5es os partidos dominantes se reorganizaram e elegeram o Collor e n\u00f3s chegamos em uma mesma situa\u00e7\u00e3o atual com um velho e mesmo PMDB governando, com Temer, mas num momento de profunda social, pol\u00edtica e instituicional crise do executivo, crise do legislativo, crise do judici\u00e1rio. Uma rela\u00e7\u00e3o profundamente incestuosa entre todas as esferas do poder e as classes burguesas no Brasil mostra que estamos vivendo um regime em decomposi\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o \u00e9 uma crise profunda do regime para a qual n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel pensar em seu arremedo, n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel pensar nas suas velhas respostas, porque os desafios que se colocam s\u00e3o de muita amplitude.<\/p>\n<p><strong>IdE:\u00a0Como voc\u00ea avalia o conjunto das reformas do governo Temer? Quais implica\u00e7\u00f5es ter\u00e3o para o processo de precariza\u00e7\u00e3o da vida dos trabalhadores?<\/strong><\/p>\n<p>RA: As nossas classes dominantes sempre oscilaram no controle do poder pol\u00edtico e da domina\u00e7\u00e3o no Brasil, oscilando entre a concilia\u00e7\u00e3o e o golpe, a concilia\u00e7\u00e3o e o desenho autocr\u00e1tico, a concilia\u00e7\u00e3o e a devasta\u00e7\u00e3o. Agora \u00e9 o momento da devasta\u00e7\u00e3o. Passados os anos, \u2013 basicamente nos governos Lula e Dilma, em que imperou a concilia\u00e7\u00e3o \u2013 com as classes dominantes\u00a0 ganhando muito e o Brasil crescendo, uma parte pequen\u00edssima dos ganhos sobrava para as classes populares e isso funcionou no per\u00edodo de expans\u00e3o. Agora, no momento de crise econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica de amplitude global e que chegou de modo devastador no Brasil, \u00e9 hora para lembrar de Florestan Fernandes, da contrarrevolu\u00e7\u00e3o preventiva.<\/p>\n<p>O que significa isso nos dias de hoje? \u00c9 um rearranjo das classes dominantes, para prevenirem-se contra qualquer perda maior dessa crise em rela\u00e7\u00e3o aos seus interesses, o que implica em desmontar\u00a0 a legisla\u00e7\u00e3o social, protetora do trabalho, que existe h\u00e1 mais de 70 anos no Brasil. Essa \u00e9 a quest\u00e3o fundamental. N\u00e3o \u00e9 um golpe contra o Lula e o PT, \u00e9 evidente que num dado momento o governo do PT deixou de ser o governo ideal para as classes dominantes como foi, digamos, boa parte no primeiro e segundo governo Lula e em parte do governo Dilma, quando tivemos \u00a0um crescimento exponencial. Agora \u00e9 hora de devastar os direitos sociais do trabalho, arrebentar a previd\u00eancia, instaurar a terceiriza\u00e7\u00e3o total do trabalho, o que significa o retorno \u00e0 escravid\u00e3o no Brasil. As classes trabalhadoras v\u00e3o ter desregramentos, desregula\u00e7\u00f5es ainda mais intensas. Vamos ter uma sociedade, se pud\u00e9ssemos assim dizer, inspirada no que na Inglaterra se chama de\u00a0<em>Zero Hour Contract<\/em>, o contrato zero hora. Tem trabalho, trabalha, n\u00e3o tem trabalho, n\u00e3o trabalha. Recebe pelas horas que se trabalha e n\u00e3o tem nenhum direito social preservado depois.<\/p>\n<p>\u00c9 isso que se quer instaurar com a terceiriza\u00e7\u00e3o e com o trabalho intermitente, quando tem trabalho \u00e9 chamado, quando n\u00e3o existe, n\u00e3o tem trabalho e nem direitos. \u00a0A condi\u00e7\u00e3o disso \u00e9 instaurar um padr\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o do trabalho ilimitado, num contexto em que o capitalismo \u00e9 devastador na China, na \u00cdndia, na \u00c1sia, na \u00c1frica, na Am\u00e9rica Latina, na Am\u00e9rica do Norte, na Europa. \u00c9 uma disputa para ver quem vai aumentar e intensificar ainda mais o padr\u00e3o da superexplora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho e, desse modo, recompor a domina\u00e7\u00e3o burguesa, a expans\u00e3o capitalista sob o comando financeiro. Na It\u00e1lia inventaram o trabalho a voucher, trabalho que \u00e9 pago por um ticket. Abriu-se ainda mais o espa\u00e7o para a burla aqui. Essa \u00e9 a trag\u00e9dia do nosso tempo, \u00e9 uma reorganiza\u00e7\u00e3o burguesa sob comando e orienta\u00e7\u00e3o do capital financeiro que n\u00e3o tem limites para sua explora\u00e7\u00e3o e devasta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>IdE: O PT vive um momento que poder\u00edamos considerar como uma crise hist\u00f3rica, atestada nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es. Quais foram os tra\u00e7os fundamentais que levaram a essa separa\u00e7\u00e3o entre o partido e os trabalhadores?<\/strong><\/p>\n<p>RA: O PT teve como seu grande m\u00e9rito, sua grande for\u00e7a e seu grande \u00eaxito o fato de ter nascido em 1980 como uma conflu\u00eancia de movimentos sociais, sindicais e pol\u00edticos, agrupamentos e individualidades, que em seu conjunto tinha enorme enraizamento na classe trabalhadora. O PT nasce representando a classe trabalhadora urbana-industrial, o chamado operariado da ind\u00fastria, no qual os metal\u00fargicos do ABC s\u00e3o o principal exemplo. O PT tinha forte inser\u00e7\u00e3o nas camadas m\u00e9dias assalariadas que viviam um processo de proletariza\u00e7\u00e3o. O PT tinha inser\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m em setores do campesinato e do proletariado rural, ou seja, o PT tinha como grande trunfo essa for\u00e7a que lhe dava inclusive radicalidade, ainda que num plano predominantemente espont\u00e2neo, uma vez que ele expressava esse descontentamento das classes populares em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura e \u00e0 domina\u00e7\u00e3o burguesa no Brasil.<\/p>\n<p>Mas este processo que levou a essa crise profunda do PT nesses \u00faltimos anos, \u00e9 um processo complexo que eu s\u00f3 posso indicar daqui a alguns pontos. O PT pouco a pouco foi se transformando num partido no\u00a0 qual as lutas sociais foram sendo deixadas gradativamente de lado, \u00e9 um processo gradual e n\u00e3o de um dia pra noite, os interesses da classe trabalhadora, dos assalariados, da popula\u00e7\u00e3o trabalhadora rural, do campesinato, dos assalariados m\u00e9dios proletarizados foram sendo deixados de lado para tornar-se um partido que visualizava as possibilidades da vit\u00f3ria eleitoral.<\/p>\n<p>Segundo ponto: neste processo de se tornar um partido eleitoralmente forte, o PT foi fazendo aquilo que todos os partidos da ordem que acabam se adequando ao sistema parlamentar, ao sistema institucional, acabam por fazer. Ele foi fazendo concess\u00f5es atr\u00e1s de concess\u00f5es, entre elas, ideol\u00f3gicas, program\u00e1ticas e te\u00f3ricas e isto fez com que, para que ele pudesse ganhar prefeituras e governos importantes e por fim, chegar na vit\u00f3ria presidencial, ele fizesse concess\u00f5es de todo tipo. Basta ver o programa do PT de 1989, primeira tentativa de elei\u00e7\u00e3o do Lula, em que o Brasil se dividiu ao meio, e o programa eleitoral, com base na Carta aos Brasileiros de 2002, que o dono da Odebrecht acabou de dizer que ele pr\u00f3prio ajudou o PT a fazer essa carta. Isso demostra a que n\u00edvel de corros\u00e3o ideol\u00f3gica o Partido dos Trabalhadores, pelo seu n\u00facleo dominante que tem no Lula a sua figura central e no seu entorno,\u00a0 chegou. Ou seja, \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e pol\u00edtica que chegou o n\u00facleo dominante do PT.<\/p>\n<p>O resultado n\u00e3o poderia ter sido outro. Quanto mais forte o PT se mostrava eleitoralmente, quanto mais vi\u00e1vel era a sua possibilidade de vit\u00f3ria, quanto mais palat\u00e1vel o PT se tornava para as classes dominantes, para as fra\u00e7\u00f5es dominantes, para os setores conservadores, mais ele fazia concess\u00f5es. O resultado tr\u00e1gico disso foi, anos depois, como acabamos de ver,\u00a0 o golpe, o impeachment da Dilma,\u00a0 processo que tomou todo o ano de 2015 at\u00e9 2016 e levou ao impeachment.<\/p>\n<p>Quando o PT, mesmo depois da vit\u00f3ria eleitoral de Dilma em 2014, continuou fazendo concess\u00f5es e mais concess\u00f5es para as classes dominantes, para as fra\u00e7\u00f5es dominantes, para todos os grandes setores da burguesia, Dilma falou que ia ter reforma da previd\u00eancia (depois da elei\u00e7\u00e3o), falou que ia se pensar na quest\u00e3o da terceiriza\u00e7\u00e3o. S\u00f3 que era evidente, o PT tinha que tamb\u00e9m, de algum modo, se ocupar com a press\u00e3o que vinha dos movimentos sociais e populares, que de alguma maneira, ainda davam base de sustenta\u00e7\u00e3o ao PT. O resultado de tudo isso foi a convers\u00e3o, foi um transformismo dentro do PT (pra recordar Gramsci), o PT acabou se convertendo em um partido da ordem. Sua transmuta\u00e7\u00e3o de partido da esquerda para partido dentro da ordem. O seu resultado foi que, ao final do processo do impeachment, ele estava sendo fagocitado pelas classes dominantes, estava completamente sem resposta e uma profunda express\u00e3o disso \u00e9 o fato de que durante o processo do impeachment da Dilma (que como sabemos teve um claro car\u00e1ter de um golpe parlamentar, com profundas resson\u00e2ncias judiciais e completo apoio da grande m\u00eddia) n\u00e3o houve um dia de greve geral contra a deposi\u00e7\u00e3o de Dilma. O PT e seus movimentos sindicais, como a CUT, e seus movimentos sociais mais pr\u00f3ximos n\u00e3o conseguiram fazer um dia, nem mesmo algumas horas, de paralisa\u00e7\u00e3o completa do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Portanto o PT converteu-se em um partido da ordem ao dar preval\u00eancia a sua a\u00e7\u00e3o institucional e eleitoral, e ao desd\u00e9m que sempre marcou o seu n\u00facleo dominante pela ideologia (n\u00e3o falo aqui dos v\u00e1rios agrupamentos de clara inspira\u00e7\u00e3o socialista dentro do PT, que nunca chegaram ao n\u00facleo de poder no partido). Esse n\u00facleo lulista jamais se aproximou de uma ideologia socialista com claro perfil anticapitalista; nos governos Lula e Dilma, sequer se falou em socialismo (na Europa, por exemplo, os partidos falam em socialismo ao modo deles, ainda que pratiquem, o social-liberalismo). Tanto Lula como Dilma sequer mencionavam a palavra socialismo, para n\u00e3o ferir sua pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes e para n\u00e3o sofrer nenhuma restri\u00e7\u00e3o dos diversos grupos burgueses que estavam no poder juntamente com o governo do PT. O resultado hoje \u00e9 um partido que vive uma crise profunda, e qual vai ser o seu futuro \u00e9 dif\u00edcil prever. \u00c9 evidente que o PT tem f\u00f4lego pra continuar sendo um partido com caracter\u00edsticas de um partido institucional, porque ele est\u00e1 arraigado em prefeituras, tem n\u00facleos e estrutura\u00e7\u00e3o, mas voltar a ser um partido respeitado pelas lutas populares, considerado pela classe trabalhadora como sendo uma das suas principais representa\u00e7\u00f5es, acho essa possibilidade muito distante do cen\u00e1rio socio-pol\u00edtico brasileiro. Como previs\u00e3o em pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 boa ideia, eu falo aqui como hip\u00f3tese que me parece mais plaus\u00edvel, uma vez que parece muito dif\u00edcil imaginar que o PT possa recuperar e voltar a ser o que foi para a esquerda brasileira e para a classe trabalhadora. Ele teria que primeiro fazer uma autocr\u00edtica muito profunda e atacar o n\u00facleo central da sua trag\u00e9dia \u2013 que \u00e9 tamb\u00e9m, tristemente, o sinal de sua for\u00e7a pol\u00edtica \u2013\u00a0 que \u00e9 o lulismo. Eliminar o lulismo n\u00e3o est\u00e1 no arco de possibilidades do PT. E isso \u00e9 algo que certamente n\u00e3o vai ser feito dentro do PT nos pr\u00f3ximos anos e n\u00e3o sei se em algum momento ser\u00e1.<\/p>\n<p><strong>IdE: \u00c9 poss\u00edvel uma recomposi\u00e7\u00e3o do PT com \u201cLula 2018\u201d? Quais os limites para esse processo?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel! \u00c9 poss\u00edvel, j\u00e1 que a devasta\u00e7\u00e3o do governo Temer \u00e9 de muita intensidade, com o envolvimento do governo Temer, de seus ministros, dos parlamentares e, sabemos tamb\u00e9m, do judici\u00e1rio na Lava Jato \u2013 por mais que ainda n\u00e3o tenha chegado, a imprensa brasileira hoje tem dito que em algum momento a Lava Jato dever\u00e1 chegar tamb\u00e9m no judici\u00e1rio. \u00c9 poss\u00edvel que tudo isso leve a uma situa\u00e7\u00e3o do tipo: o governo Lula\/Dilma terminou na lona, como\u00a0 em uma luta de boxe, mas o governo Temer \u00e9 ainda muito pior. E por qu\u00ea? Porque al\u00e9m da profunda corros\u00e3o pol\u00edtica e \u00e9tica (se \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel falar nesses termos do PMDB), h\u00e1 uma profundidade da crise econ\u00f4mica e uma intensifica\u00e7\u00e3o da crise institucional (pol\u00edtico e institucional), o que por certo d\u00e1 algum oxig\u00eanio a Lula e ao PT.<\/p>\n<p>Mas eu penso que uma recomposi\u00e7\u00e3o forte do PT \u00e9 muito dif\u00edcil, porque a descren\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao partido \u00e9 muito grande em todos os espa\u00e7os, nas classes m\u00e9dias conservadoras (que um dia abra\u00e7aram o PT), na classe m\u00e9dia progressista e mais cr\u00edtica pela percep\u00e7\u00e3o de que o PT passou longe de alguma coisa que pudesse ser efetivamente exemplo de transforma\u00e7\u00e3o brasileira, e para as classes populares. H\u00e1 muitos setores das classes populares que perceberam que com o PT, no longo per\u00edodo que esteve no governo, quase tr\u00eas governos, n\u00e3o houve mudan\u00e7as estruturais profundas de nenhum tipo. O Bolsa Fam\u00edlia \u00e9 um programa assistencial e mesmo assistencialista, \u00e9 de amplitude; houve aumentos reais do sal\u00e1rio m\u00ednimo comparado ao governo Fernando Henrique Cardoso, isso tamb\u00e9m \u00e9 verdade. Mas essas medidas n\u00e3o desestruturaram a mis\u00e9ria brasileira, os pilares da mis\u00e9ria brasileira se mant\u00e9m intactos, a estrutura concentradora de propriedade na agroind\u00fastria se mant\u00e9m, n\u00e3o houve nenhuma reforma agr\u00e1ria profunda, os pilares da superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho est\u00e3o presentes, como ali\u00e1s os dados t\u00eam mostrado, com o desemprego exponencial, a destrui\u00e7\u00e3o das conquistas salariais, mesmo pequenas neste \u00faltimo per\u00edodo, e a degrada\u00e7\u00e3o, corros\u00e3o e desmonte da legisla\u00e7\u00e3o social protetora do trabalho.<\/p>\n<p>O desafio da esquerda \u00e0 esquerda do PT, \u00e9 dizer:\u00a0<strong><em>acabou o ciclo de concilia\u00e7\u00e3o de classes<\/em><\/strong>, acabou a ideia do mito de que era capaz costurar os deuses e os diabos na terra do sal, como eu escrevi recentemente. Esse mito acabou. A esquerda social e pol\u00edtica, de perfil anticapitalista, vai ter um longo per\u00edodo para poder tentar se reagrupar, para poder tentar sentir aquilo que verdadeiramente vem das lutas populares e da vida cotidiana, e iniciar um processo de constru\u00e7\u00e3o de algo novo. Que n\u00e3o passa, no meu entendimento, pelo PT, muito menos pela figura do Lula.<\/p>\n<p>O PT tem muitos militantes s\u00e9rios, tem muitos lutadores sociais que ainda t\u00eam alguma esperan\u00e7a no PT. Eu n\u00e3o estou falando desses n\u00facleos, dessas individualidades e desses agrupamentos. Eu estou dizendo que o PT, com o desenho que ele tem, com o inquestion\u00e1vel dom\u00ednio lulista, com aquele n\u00facleo que o controla passo a passo e o vem controlando h\u00e1 anos, este grupo que d\u00e1 o tom dominante no PT, n\u00e3o fala mais pelo conjunto da esquerda. Essa fase acabou. Est\u00e1 sepultada pol\u00edtica e socialmente.\u00a0 O PT n\u00e3o pode ter a ilus\u00e3o de que vai ser o partido da esquerda brasileira nas elei\u00e7\u00f5es de 2018. H\u00e1 de se pensar em um projeto alternativo de longo prazo e de muita vincula\u00e7\u00e3o com as lutas sociais, com as lutas populares, com \u00eanfase extra-parlamentar e extra-institucional, sob impuls\u00e3o da classe trabalhadora, do movimento sindical de classe e com as periferias, urbanas e rurais, sem deixar de lembrar da import\u00e2ncia da luta das comunidades ind\u00edgenas. Algo inteiramente novo tem que ser lapidado, (re)constru\u00eddo e incentivado.<\/p>\n<p>http:\/\/esquerdadiario.com.br\/ideiasdeesquerda\/?author=1<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Entrevistamos Ricardo Antunes, um dos principais nomes da sociologia do trabalho na atualidade,\u00a0professor titular de Sociologia no Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/14805\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-14805","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3QN","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14805","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14805"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14805\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14805"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14805"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14805"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}