{"id":150,"date":"2009-06-16T07:04:00","date_gmt":"2009-06-16T07:04:00","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=150"},"modified":"2009-06-16T07:04:00","modified_gmt":"2009-06-16T07:04:00","slug":"cordobazo-o-dia-mais-importante-da-historia-argentina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/150","title":{"rendered":"Cordobazo: o dia mais importante da hist\u00f3ria argentina"},"content":{"rendered":"\n<p>&#8220;Eu era estudante secundarista, ent\u00e3o fui quase sozinho porque n\u00e3o t\u00ednhamos nenhuma organiza\u00e7\u00e3o. Eu sabia mais ou menos por onde as pessoas iriam passar. Eu morava num bairro mais perif\u00e9rico, fui andando e comecei a me integrar \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es e tudo o mais. Foi duro porque est\u00e1vamos nos manifestando e de repente aparecia a pol\u00edcia e atirava, mas atirava para valer, era para matar&#8221;<\/p>\n<p>O testemunho acima foi dado por Osvaldo Coggiola \u00e0 Rede Brasil Atual. Hoje Professor Titular do Departamento de Hist\u00f3ria e Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas da Universidade de S\u00e3o Paulo, era um jovem de 17 anos na \u00e9poca do Cordobazo, o evento que, segundo ele, foi o &#8220;dia mais importante da hist\u00f3ria da Argentina&#8221;.<\/p>\n<p>Em 1969, o pa\u00eds vivia sob o governo ditatorial de Juan Carlos Ongan\u00eda. Poderia ter sido apenas mais um dos ditadores saudados pelo di\u00e1rio Clar\u00edn nos sucessivos golpes de Estado que insistira em frequentar a Casa Rosada, mas n\u00e3o foi dessa maneira. Ongan\u00eda realizou uma pol\u00edtica de congelamentos salariais, proibi\u00e7\u00e3o de greves e persegui\u00e7\u00e3o de dirigentes sindicais.<\/p>\n<p>Para o dia 29 de maio, os tr\u00eas maiores sindicatos acertaram uma paralisa\u00e7\u00e3o de 36 horas. Agust\u00edn Tosco, um dos protagonistas, deu na ocasi\u00e3o uma defini\u00e7\u00e3o feliz sobre o epis\u00f3dio: &#8220;O Cordobazo \u00e9 a express\u00e3o militante, do mais alto n\u00edvel quantitativo e qualitativo, da tomada de consci\u00eancia de um povo que se encontra oprimido e que quer liberar-se para construir uma vida melhor porque sabe que pode viv\u00ea-la e que quem impede s\u00e3o os que especulam e beneficiam-se com o adiamento e a frustra\u00e7\u00e3o de todos os dias&#8221;.<\/p>\n<p>Sa\u00eddos \u00e0s ruas para protestar, os trabalhadores foram reprimidos a bala pela pol\u00edcia. O movimento estava longe do fim. A morte de um manifestante fez com que uma cidade inteira fosse \u00e0 busca de justi\u00e7a. Oper\u00e1rios da periferia logo encontraram no centro os universit\u00e1rios e os secundaristas. &#8220;Tudo ficou na m\u00e3o dos manifestantes. A pol\u00edcia fugiu, nas 24 horas seguintes praticamente n\u00e3o sobraram autoridades em C\u00f3rdoba&#8221;, lembra Coggiola. A pol\u00edcia, despreparada para enfrentar manifesta\u00e7\u00e3o tamanha, cedeu lugar ao Ex\u00e9rcito que, j\u00e1 avisado das dificuldades, organizou uma repress\u00e3o que deixou dezenas de mortos. Parte da popula\u00e7\u00e3o, que ainda guardava as armas usadas para derrubar Juan Domingo Per\u00f3n em 1955, atirava agora contra os militares.<\/p>\n<p>&#8220;Eu me lembro que se faziam barricadas para que o Ex\u00e9rcito n\u00e3o entrasse nas principais vias e, desde as sacadas, jogavam coisas para que fizessem as barricadas. Sof\u00e1s, cadeiras, pneus. A solidariedade popular foi simplesmente enorme. Ningu\u00e9m ag\u00fcentava mais um governo autorit\u00e1rio, cretino, obscurantista, era tudo o que podia haver de insuport\u00e1vel&#8221;, aponta o professor. Apesar de terem armas nas m\u00e3os e de uma popula\u00e7\u00e3o carente em termos econ\u00f4micos, saques n\u00e3o eram permitidos durante o Cordobazo: &#8220;N\u00e3o se entrou nas lojas, nas mercearias. Poderiam ter quebrado vidra\u00e7as e roubado. Lembro de uma pessoa que tentou entrar em uma loja de m\u00e1quina de escrever. Imediatamente, outras pessoas que estavam perto impediram que roubasse. A \u00fanica coisa que houve foi roubo de registro de cr\u00e9dito imobili\u00e1rio. As pessoas que tinham tomado cr\u00e9dito e que n\u00e3o conseguiam pagar. O restante foi tudo uma manifesta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que n\u00e3o teve nada a ver com vandalismo. Estavam para manifestar-se contra o governo, para defender sua posi\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>A greve nacional iniciada em C\u00f3rdoba espalhou-se por todo o pa\u00eds. Vieram o Rosariazo e o Tucumanazo &#8211; atente-se que em Buenos Aires, onde estavam os sindicatos mais antigos e ligados ao peronismo, os l\u00edderes n\u00e3o permitiram que o movimento tomasse grandes propor\u00e7\u00f5es. Come\u00e7ava a cair o regime de Ongan\u00eda, que teria que abrir m\u00e3o do poder no ano seguinte. Lamentavelmente, foi um golpe militar organizado por Alejandro Lanusse que dep\u00f4s o presidente. Com a press\u00e3o popular, elei\u00e7\u00f5es foram convocadas.<\/p>\n<p>A d\u00e9cada seguinte veria Juan Domingo Per\u00f3n voltar ao poder. Mas j\u00e1 n\u00e3o era o mesmo. Tratava-se de um presidente debilitado pelo c\u00e2ncer, que pouco governava. Depois da morte dele, assumiu a esposa, Isabelita Per\u00f3n, que nem de longe tinha o mesmo carisma e habilidades de Evita, e acabou sendo um fantoche nas m\u00e3os dos generais. Em 1976, decidiram que Isabelita j\u00e1 poderia retirar-se e a ditadura mais sangrenta da Am\u00e9rica Latina era oficialmente instalada &#8211; e, novamente, saudada pelo di\u00e1rio Clar\u00edn. O Cordobazo, nas palavras de Coggiola, abortou.<\/p>\n<p>Mas seria incorreto dizer que o movimento de 69 n\u00e3o teve consequ\u00eancias: &#8220;houve nas universidades um questionamento geral a absolutamente tudo, n\u00e3o s\u00f3 \u00e0s autoridades, mas aos m\u00e9todos de ensino, aos professores reacion\u00e1rios, ou seja, foi um movimento que teve consequ\u00eancias muito al\u00e9m das reivindica\u00e7\u00f5es imediatas. No plano pol\u00edtico, reivindicando o fim da ditadura. No plano ideol\u00f3gico, reivindicando o fim das rela\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias. Houve um processo de organiza\u00e7\u00e3o muito r\u00e1pido. Surgiram comit\u00eas de bairro, al\u00e9m dos sindicatos de esquerda, que come\u00e7aram a ganhar elei\u00e7\u00f5es uma atr\u00e1s da outra&#8221;, lembra o ent\u00e3o manifestante. Os estudantes secundaristas de C\u00f3rdoba, que at\u00e9 1969 n\u00e3o estavam organizados, dias depois se reuniram em uma federa\u00e7\u00e3o da qual Osvaldo Coggiola foi um dos dirigentes.<\/p>\n<p>A Argentina transformou-se no centro de mobiliza\u00e7\u00e3o da esquerda na Am\u00e9rica Latina, ainda que a situa\u00e7\u00e3o do Chile chamasse mais aten\u00e7\u00e3o por conta da atua\u00e7\u00e3o de Salvador Allende. A gera\u00e7\u00e3o setentista, como ficaram conhecidos os jovens que participaram do Cordobazo, seria dizimada pelo governo ditatorial iniciado em 1976. &#8220;Foi uma gera\u00e7\u00e3o que teve uma posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e cultural audaciosa, mas que sofreu muito. Quase todos meus colegas de adolesc\u00eancia est\u00e3o mortos&#8221;, lamenta o professor. Dos 23 estudantes expulsos da Universidade de C\u00f3rdoba no in\u00edcio do regime militar, apenas cinco sobreviveram \u00e0s semanas seguintes. Coggiola \u00e9 um deles. Depois de alguns anos estudando na Fran\u00e7a, acabou desembarcando no Brasil, onde est\u00e1 at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>A comunh\u00e3o entre oper\u00e1rios, estudantes e classe m\u00e9dia jamais voltaria a ocorrer desta forma, ainda que se pensar em uma rela\u00e7\u00e3o parecida durante o &#8220;Que se vayan todos&#8221;, do fim de 2001 e in\u00edcio de 2002.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Rede Brasil Atual\nO historiador Osvaldo Coggiola conta como foi o Cordobazo, movimento que iniciou a derrubada de uma ditadura e que completa 40 anos.\nOs sobreviventes do Cordobazo formariam uma gera\u00e7\u00e3o que mudaria os par\u00e2metros culturais e sociais da Argentina, mas acabaria v\u00edtima da ditadura.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/150\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[57],"tags":[],"class_list":["post-150","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c68-argentina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2q","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/150","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=150"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/150\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=150"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=150"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=150"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}