{"id":15055,"date":"2017-07-16T14:52:36","date_gmt":"2017-07-16T17:52:36","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=15055"},"modified":"2017-08-05T14:09:26","modified_gmt":"2017-08-05T17:09:26","slug":"reforma-trabalhista-a-cara-do-capitalismo-real","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/15055","title":{"rendered":"\u201cReforma\u201d Trabalhista: a cara do capitalismo real"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/ci5.googleusercontent.com\/proxy\/50xoWTkH98R0xMDDRAVyXALm2iUcz94_FDezBjNF5khRCGc09AALumqmIIpbDnPrz1iztdfUBrWWZ4H9LytLcqgUgWdYSVC_27P6u9l3_PQe8tBU-u2p81S7I2sh7iMnUzUoTICxA9bAdvdgIibqlN9iIWc=s0-d-e1-ft#http:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/170712-Drooker-e1499874428581-485x222.jpg\" alt=\"imagem\" \/>CHRISTIAN DUARTE E CARLOS SALAS<\/p>\n<p><em>Temer, Eun\u00edcio e os escroques do Senado s\u00e3o coadjvantes. Como o sistema age, <!--more-->h\u00e1 quarenta anos, para reduzir sal\u00e1rios e direitos \u2014 enquanto engorda os acionistas e executivos<\/em><\/p>\n<p>Por <strong>Christian Duarte <\/strong>e<strong> Carlos Salas <\/strong>| Imagem:<strong> Eric Drooker<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p>Texto publicado originalmente no site do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (<a href=\"http:\/\/www.cesit.net.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cesit\/Unicamp<\/a>).<br \/>\nT\u00edtulo original: \u201cAs novas e velhas m\u00e1scaras da terceiriza\u00e7\u00e3o no capitalismo contempor\u00e2neo\u201d<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Em artigo recente do <em>Wall Street Journal<\/em> (2 de fevereiro de 2017), intitulado \u201cO fim dos empregados\u201d, se encontra a declara\u00e7\u00e3o de um diretor da empresa <em>Virgin Airways<\/em> feita em uma reuni\u00e3o com investidores em mar\u00e7o de 2016: \u201cvamos terceirizar cada um dos postos de trabalho que conseguirmos, sempre que estes n\u00e3o se relacionem com o tratamento direto com o p\u00fablico\u201d. Em dezembro de 2016, quando a terceiriza\u00e7\u00e3o j\u00e1 se havia generalizado, a empresa foi vendida. Hoje, a <em>Virgin Airways<\/em> terceiriza a venda de passagens a\u00e9reas, o manejo das bagagens, as repara\u00e7\u00f5es maiores e a alimenta\u00e7\u00e3o nos voos, o que se traduz em maiores lucros por passageiro que a m\u00e9dia das companhias a\u00e9reas.<\/p>\n<p>Este exemplo n\u00e3o \u00e9 um fato isolado. O processo acentuado de externaliza\u00e7\u00e3o inclui hoje em dia numerosas empresas que aproveitam a flexibilidade da legisla\u00e7\u00e3o trabalhista e o ambiente anti-sindical nos Estados Unidos para diminuir custos e aumentar os dividendos de seus acionistas. Como sempre ocorre nestas circunst\u00e2ncias, os preju\u00edzos para os trabalhadores s\u00e3o dobrados, uma vez que a diminui\u00e7\u00e3o dos custos e a piora das condi\u00e7\u00f5es de trabalho afetam tantos aqueles que passam a desempenhar as atividades subcontratadas quanto os que permanecem nas empresas terceirizadas.<\/p>\n<p>Este processo de externaliza\u00e7\u00e3o das atividades n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno novo no capitalismo. A onda anterior mais recente havia sido a do chamado \u201cenxugamento das empresas\u201d nos anos 1980 e 1990 do s\u00e9culo passado. No entanto, a terceiriza\u00e7\u00e3o, com seus altos e baixos, acompanha a hist\u00f3ria do capitalismo. A situa\u00e7\u00e3o atual de ofensiva dos grupos capitalistas para impor os custos de recupera\u00e7\u00e3o e sa\u00edda da crise sobre os trabalhadores \u00e9, portanto, mais um cap\u00edtulo da permanente disputa entre capital e trabalho, no qual a terceiriza\u00e7\u00e3o desempenha um papel central.<\/p>\n<p>Neste texto se examina, de maneira geral, a hist\u00f3ria recente dos processos de terceiriza\u00e7\u00e3o e como este processo vem acompanhado pelo deslocamento geogr\u00e1fico da produ\u00e7\u00e3o e dos servi\u00e7os e pela consolida\u00e7\u00e3o de redes econ\u00f4micas, as chamadas cadeias de produ\u00e7\u00e3o ou de valor. Ser\u00e1 mostrado que estes processos seguem uma l\u00f3gica intr\u00ednseca de busca de maior rentabilidade \u2013 o que inclui redu\u00e7\u00e3o de custos diretos e indiretos. Segundo a l\u00f3gica empresarial, estes custos indiretos incluem sindicatos e impostos. Portanto, uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para o avan\u00e7o nos processos de externaliza\u00e7\u00e3o produtiva \u00e9 a mudan\u00e7a institucional e das pol\u00edticas p\u00fablicas. Ademais, as recentes transforma\u00e7\u00f5es produtivas e de organiza\u00e7\u00e3o se acentuam apoiadas por mudan\u00e7as e avan\u00e7os importantes e diversos na tecnologia, especialmente na tecnologia de transporte, informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nas se\u00e7\u00f5es a seguir ser\u00e3o analisados os efeitos destes processos sobre os trabalhadores e, em particular, sobre as trabalhadoras, que constituem uma parte significativa da m\u00e3o de obra ocupada nos setores produtivos onde a terceiriza\u00e7\u00e3o \u00e9 mais expressiva. Finalmente, ser\u00e1 destacado como a terceiriza\u00e7\u00e3o \u2013 seja na forma de externaliza\u00e7\u00e3o simples ou de deslocamento geogr\u00e1fico das atividades \u2013 traz consigo uma mudan\u00e7a na estrutura organizacional das empresas e tem profundas consequ\u00eancias sobre a organiza\u00e7\u00e3o e as condi\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\n<p><strong>1. O enxugamento (<em>downsizing<\/em>) empresarial no per\u00edodo 1980-2000<\/strong><\/p>\n<p>No estudo da terceiriza\u00e7\u00e3o na sua express\u00e3o atual faz necess\u00e1rio considerar a forma com a qual o capitalismo reestruturou as empresas a partir dos anos 1980, em um processo duplo de fus\u00f5es e aquisi\u00e7\u00f5es, seguido de uma redu\u00e7\u00e3o da planta de trabalho.<\/p>\n<p>De fato, a nota jornal\u00edstica citada no in\u00edcio deste artigo tem um importante precedente em uma s\u00e9rie de artigos publicados pelo <em>New York Times<\/em> em 1996 e que foram reunidos no livro <em>The Downsizing of America<\/em> (publicado em 1996). Define-se <em>downsize<\/em> como a elimina\u00e7\u00e3o planejada de postos de trabalho ou empregos, isto \u00e9, uma decis\u00e3o consciente da empresa de cortar parte da for\u00e7a de trabalho ou eliminar fun\u00e7\u00f5es, n\u00edveis hier\u00e1rquicos ou unidades (Cascio, 1993).<\/p>\n<p>O in\u00edcio dos anos 1990 testemunhou um acentuado processo de elimina\u00e7\u00e3o de postos de trabalho no setor manufatureiro dos Estados Unidos, ao mesmo tempo que a ocupa\u00e7\u00e3o nas atividades de servi\u00e7os crescia (Baumol <em>et al.<\/em>, 2003). Este processo n\u00e3o foi resultado de uma contra\u00e7\u00e3o na demanda dos produtos manufaturados ou da intensifica\u00e7\u00e3o do progresso t\u00e9cnico. No per\u00edodo com os maiores cortes \u2013 entre 1983 e 1996 \u2013 a economia americana cresceu, em m\u00e9dia, 3.5% ao ano, n\u00e3o havendo, portanto, um suposto \u201cambiente recessivo\u201d que justificasse as demiss\u00f5es em massa.<\/p>\n<p>As demiss\u00f5es estiveram associadas, na verdade, a uma estrat\u00e9gia de reestrutura\u00e7\u00e3o corporativa que buscava incrementar os lucros l\u00edquidos das empresas e aumentar seu valor acion\u00e1rio. No discurso dos executivos, as pr\u00e1ticas de <em>downsizing<\/em> visavam a redu\u00e7\u00e3o de suas opera\u00e7\u00f5es a fim de revitalizar a companhia e garantir sua competitividade. De fato, a realidade era oposta: as empresas mantinham um quadro executivo inchado, enquanto os sal\u00e1rios dos trabalhadores de base eram contra\u00eddos. A tend\u00eancia de queda dos sal\u00e1rios dos trabalhadores da produ\u00e7\u00e3o se relaciona com a abordagem mais agressiva que as corpora\u00e7\u00f5es americanas adotaram com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 negocia\u00e7\u00e3o salarial com os sindicatos . (Gordon, 1996).<\/p>\n<p>Tal processo se materializou em demiss\u00f5es generalizadas em algumas ind\u00fastrias, as quais nem sempre deram como resultado o alcance do objetivo buscado (Baumol <em>et al.<\/em>, 2003, Cap\u00edtulo 9). A demiss\u00e3o irrestrita em \u00e1reas de menores custos levou a perdas de produtividade, mas garantiu maiores lucros l\u00edquidos e menores custos salariais. Entre os setores mais afetados estiveram o de vestu\u00e1rio, o de eletr\u00f4nicos de consumo, o de fabrica\u00e7\u00e3o de brinquedos e o de joalheria. Voltaremos mais tarde a examinar brevemente os dois primeiros setores.<\/p>\n<p>O enxugamento da planta de trabalho nesses anos se soma \u00e0s perdas de postos de trabalho derivadas das fus\u00f5es e aquisi\u00e7\u00f5es dos anos 1980. Uma interessante discuss\u00e3o sobre a origem e o impacto deste processo, que resulta em queda no n\u00famero de empresas e diminui\u00e7\u00e3o de postos de trabalho em muitas delas, pode ser encontrada no texto de Gordon (1996), ironicamente intitulado <em>Fat and Mean<\/em>. O argumento de Gordon \u00e9 que, devido \u00e0 crise de rentabilidade empresarial nos anos 1970, a classe capitalista assumiu o caminho do crescimento liderado pelos lucros (<em>profit-led growth<\/em>), isto \u00e9, dedicou seus esfor\u00e7os a controlar o crescimento dos sal\u00e1rios, combater os sindicatos e conseguir apoio governamental para diminuir as prote\u00e7\u00f5es legais aos trabalhadores. Este processo culmina com a elei\u00e7\u00e3o de Ronald Reagan e representa o in\u00edcio da era neoliberal. \u00c9 neste novo ambiente pol\u00edtico que aparece a epidemia de fus\u00f5es e aquisi\u00e7\u00f5es e que desemboca no movimento de demiss\u00f5es em massa do in\u00edcio dos anos 1990.<\/p>\n<p>As demiss\u00f5es de pessoas ocupadas em uma empresa \u2013 quando n\u00e3o derivam de mudan\u00e7as substantivas na demanda do produto ou dos servi\u00e7os proporcionados pela firma \u2013 n\u00e3o est\u00e3o diretamente ligadas com o progresso t\u00e9cnico poupador de trabalho, nem tampouco com o ciclo de neg\u00f3cios. Atualmente, trata-se de um movimento motivado pelo interesse de recuperar, no curto prazo, o valor acion\u00e1rio das empresas para oferecer maiores lucros anuais distribu\u00eddos aos acionistas. Deve-se, tamb\u00e9m, ao resultado de transforma\u00e7\u00f5es na estrutura das empresas, orientadas para ampliar os lucros em um horizonte temporal mais amplo.<\/p>\n<p>O foco dos gerentes americanos neste movimento de demiss\u00f5es em massa dos anos 1990 passou a ser demitir trabalhadores e distribuir rendas de forma a garantir os pre\u00e7os das a\u00e7\u00f5es, o que gerou elevados retornos aos acionistas (seguindo o princ\u00edpio de governan\u00e7a de \u201cmaximiza\u00e7\u00e3o de valor ao acionista\u201d) e tamb\u00e9m aos gerentes, uma vez que o ganho com a valoriza\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o se tornou uma parte cada vez maior dos seus sal\u00e1rios. Em outras palavras, os executivos aumentaram a lucratividade e os retornos financeiros para si e para os acionistas em detrimento dos rendimentos dos trabalhadores.<\/p>\n<p>No entanto, tais pol\u00edticas nem sempre se transformam em resultados positivos para as empresas, especialmente para as de menor tamanho. No caso das grandes empresas, o impacto da l\u00f3gica de curto ou longo prazo na rentabilidade pode variar bastante. O impacto sustentado na rentabilidade \u00e9 maior para aquelas empresas que seguem uma l\u00f3gica de longo prazo (McKinsey, 2017). Para algumas firmas, os benef\u00edcios econ\u00f4micos antecipados n\u00e3o se materializaram \u2013 como redu\u00e7\u00e3o dos custos, aumento dos lucros e do retorno sobre o investimento \u2013 e nem os benef\u00edcios organizacionais de se operar com uma estrutura reduzida. Do ponto de vista do emprego, houve decl\u00ednio da estabilidade, queda do tempo de perman\u00eancia (aumento da rotatividade), baixos sal\u00e1rios, elevada flexibilidade e crescimento da desigualdade de renda e da riqueza. Muitas das vezes, os resultados negativos se davam pela queda da produtividade do trabalho, uma vez que a moral dos empregados era deteriorada pela permanente amea\u00e7a de desemprego (Cascio, 1993).<\/p>\n<p>Em \u00faltima inst\u00e2ncia, a reestrutura\u00e7\u00e3o da planta de trabalho \u00e9 sempre um instrumento para aumentar a rentabilidade, se transformando em elemento para amea\u00e7ar os trabalhadores e dissuadir os sindicatos (Baumol <em>et al<\/em>., 2003; Gordon, 1996; Harrison, 1997). O discurso corporativo de que o <em>downsize<\/em> atende \u00e0s necessidades das empresas tornarem-se mais enxutas e eficientes para competir nos mercados globais e nos novos setores mascara a realidade de um conflito de apropria\u00e7\u00e3o da riqueza gerado pela empresa que op\u00f5em os acionistas e os gerentes, de um lado, pelos ganhos de maiores dividendos e sal\u00e1rios (respectivamente), e os trabalhadores, de outro, que, atrav\u00e9s da inseguran\u00e7a no emprego gerada pelas demiss\u00f5es em massa apresentaram, em m\u00e9dia, sal\u00e1rios reais declinantes nos Estados Unidos nos anos 1980 e 1990 (Gordon, 1996).<\/p>\n<p>Na manufatura, a diminui\u00e7\u00e3o de postos de trabalho tamb\u00e9m est\u00e1 associada com os processos de terceiriza\u00e7\u00e3o. De fato, a terceiriza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma estrat\u00e9gia usada pelas empresas que t\u00eam uma longa hist\u00f3ria que corre paralela \u00e0 do capitalismo. Mecanismos de subcontrata\u00e7\u00e3o podem ser identificados j\u00e1 na Alta Idade M\u00e9dia na produ\u00e7\u00e3o de vestu\u00e1rio a partir da l\u00e3 atrav\u00e9s do sistema de <em>putting out<\/em>, ou seja, a externaliza\u00e7\u00e3o para as \u00e1reas rurais de partes do processo de produ\u00e7\u00e3o que era levado a cabo nas oficinas artesanais das cidades.<\/p>\n<p>As primeiras formas deste sistema aparecem j\u00e1 no s\u00e9culo XIV (Landes, 1969, Cap\u00edtulo 2), e se transformam em um sistema generalizado na Inglaterra durante os s\u00e9culos XVI e XVII (Littlefield e Reynolds, 1990). Este sistema de produ\u00e7\u00e3o \u2013 caracterizado por uma rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia entre um mercador-empres\u00e1rio e um trabalhador (ou trabalhadora) rural \u2013 representa um avan\u00e7o na divis\u00e3o do trabalho. Ao mesmo tempo, cont\u00e9m a semente das formas de trabalho assalariado que culminam com o Capitalismo Industrial, uma vez que diversas etapas da produ\u00e7\u00e3o s\u00e3o desenvolvidas por artes\u00e3os especializados, ainda que o mercador capitalista mantenha a propriedade dos materiais ao longo de todas as etapas de produ\u00e7\u00e3o (Littlefield e Reynolds, 1990). Arranjos de subcontrata\u00e7\u00e3o semelhantes ao sistema de <em>putting out<\/em> persistem nas sociedades contempor\u00e2neas, vis\u00edveis no trabalho de confec\u00e7\u00e3o e que renascem em economias como a dos Estados Unidos, por exemplo (Rosen, 2002).<\/p>\n<p>2. <strong>Da externaliza\u00e7\u00e3o ao deslocamento para o exterior<\/strong><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da ind\u00fastria t\u00eaxtil e do vestu\u00e1rio nos Estados Unidos exemplifica o uso da externaliza\u00e7\u00e3o nas primeiras etapas da industrializa\u00e7\u00e3o devido, principalmente, \u00e0 exist\u00eancia de oficinas de pequeno porte, sobretudo nas atividades de elabora\u00e7\u00e3o do vestu\u00e1rio. Muitas destas oficinas eram de car\u00e1ter familiar, com for\u00e7a de trabalho basicamente feminina. Com isso, as m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de trabalho e a explora\u00e7\u00e3o eram a regra. As ind\u00fastrias t\u00eaxteis e de vestu\u00e1rio mais importantes dos Estados Unidos localizaram-se no Nordeste do pa\u00eds, entre Nova Iorque e Massachusetts. N\u00e3o obstante, as oficinas familiares de costura existiam ao longo do territ\u00f3rio norte-americano, particularmente nos estados do Sul. O fato de que no Nordeste a estrutura destas ind\u00fastrias fosse dominada por grandes unidades favoreceu o processo de organiza\u00e7\u00e3o de seus trabalhadores, elemento que ganhou import\u00e2ncia depois da Segunda Guerra Mundial e levou a importantes ganhos de sal\u00e1rios e condi\u00e7\u00f5es de trabalho, bem como a quase extin\u00e7\u00e3o das oficinas mais prec\u00e1rias. Contudo, a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica internacional do p\u00f3s-guerra \u2013 com a necessidade de reconstruir o Jap\u00e3o e combater o avan\u00e7o da esquerda no Sudeste Asi\u00e1tico \u2013 levou a um processo de est\u00edmulo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o t\u00eaxtil e de vestu\u00e1rio no Jap\u00e3o, Coreia, Hong Kong e, posteriormente, Taiwan (Rosen, 2002). Assim se inicia o crescimento explosiva da ind\u00fastria t\u00eaxtil e do vestu\u00e1rio no leste da \u00c1sia.<\/p>\n<p>A entrada destas mercadorias nos Estados Unidos come\u00e7ou a colocar press\u00e3o sobre as empresas do Nordeste, as quais confrontaram uma intensa competi\u00e7\u00e3o com as atividades de elabora\u00e7\u00e3o de vestu\u00e1rio, concentrada nas empresas do Sul, caracterizadas por menores sal\u00e1rios, quase total aus\u00eancia de sindicatos e forte presen\u00e7a de pequenas unidades e oficinas familiares. Assim, no fim dos anos 1970, observa-se o fen\u00f4meno de relocaliza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica com um movimento do Norte em dire\u00e7\u00e3o ao Sul e \u00e0 Calif\u00f3rnia, que leva \u00e0 generaliza\u00e7\u00e3o dos <em>sweat shops<\/em>: oficinas prec\u00e1rias, sem medidas de seguran\u00e7a ocupacional, baixos sal\u00e1rios e longas jornadas, que trabalhavam como terceirizadas de grandes empresas. Depois de uma not\u00e1vel melhoria nas condi\u00e7\u00f5es de trabalho no Norte dos Estados Unidos no per\u00edodo do P\u00f3s-Guerra, j\u00e1 nos anos 1990 a produ\u00e7\u00e3o de vestu\u00e1rio nestas oficinas havia reaparecido, em particular em Nova York.<\/p>\n<p>Em suma, a transforma\u00e7\u00e3o das atividades t\u00eaxteis e de vestu\u00e1rio nos Estados Unidos obedece a um processo mais complexo que a simples busca por menores custos trabalhistas. Esta foi resultado da geopol\u00edtica que surgiu depois da Segunda Guerra Mundial de conten\u00e7\u00e3o do avan\u00e7o das for\u00e7as de esquerda no mundo, em particular na \u00c1sia. Ao apoiar a capacidade produtiva das ind\u00fastrias t\u00eaxteis primeiro e depois da ind\u00fastria do vestu\u00e1rio, o governo dos Estados Unidos conseguiu recriar as condi\u00e7\u00f5es para um desenvolvimento industrial nos pa\u00edses asi\u00e1ticos, mas, simultaneamente, colaborou com a perda de import\u00e2ncia da ind\u00fastria t\u00eaxtil e do vestu\u00e1rio no pr\u00f3prio pa\u00eds, ainda que tenha terminado refor\u00e7ando o papel das empresas comercializadoras destes produtos.<\/p>\n<p>Apesar do progresso t\u00e9cnico ter facilitado a opera\u00e7\u00e3o de plantas t\u00eaxteis modernizadas nos Estados Unidos \u2013 com a subsequente perda de empregos \u2013 uma parte importante do processo produtivo do vestu\u00e1rio n\u00e3o p\u00f4de ser modernizado ou automatizado. A busca de espa\u00e7os onde a produ\u00e7\u00e3o de vestu\u00e1rio fosse mais barata e sem a presen\u00e7a de sindicatos levou \u00e0 expans\u00e3o desta ind\u00fastria para a costa Oeste. Este movimento n\u00e3o parou a\u00ed, chegando aos pa\u00edses da \u00c1sia no in\u00edcio dos anos 1960, ao M\u00e9xico em meados dos anos 1970 e \u00e0 Am\u00e9rica Central nos anos 1980, dando origem a uma onda de deslocamento produtivo.<\/p>\n<p>Este deslocamento rapidamente abarcou a ind\u00fastria de eletr\u00f4nicos de consumo, de sapatos, de brinquedos e de joalheria. Todo o processo de mudan\u00e7a na distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica destas atividades produtivas esteve marcado por uma forte presen\u00e7a da for\u00e7a de trabalho feminina com baixos sal\u00e1rios e m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de trabalho (Elson e Pearson, 1981; Safa, 1981). Na d\u00e9cada de 1980, a introdu\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o flex\u00edvel e a fabrica\u00e7\u00e3o em lotes (Piore e Sabel, 1984) eram vistas como elementos que eliminariam grandes blocos de for\u00e7a de trabalho pouco qualificada na ind\u00fastria global do vestu\u00e1rio. No entanto, tal processo n\u00e3o ocorreu de forma generalizada nesta atividade, tampouco na eletr\u00f4nica de consumo ou na produ\u00e7\u00e3o de joias. O motivo \u00e9 que os ganhos de produtividade derivados de mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas n\u00e3o eram suficientemente grandes para justificar a elimina\u00e7\u00e3o dos trabalhadores menos qualificados.<\/p>\n<p>Ainda que uma parte do processo, como a produ\u00e7\u00e3o de insumos, p\u00f4de ser automatizada com \u00eaxito, outras resistiriam \u00e0 completa mecaniza\u00e7\u00e3o. A ind\u00fastria t\u00eaxtil passou por um intenso processo de moderniza\u00e7\u00e3o a partir dos anos 1970 com a generaliza\u00e7\u00e3o das fibras artificiais, enquanto a ind\u00fastria do vestu\u00e1rio mudou o processo de design de roupas e o corte dos padr\u00f5es e a ind\u00fastria eletr\u00f4nica automatizou os processos de produ\u00e7\u00e3o de componentes b\u00e1sicos. N\u00e3o obstante, os processos de acabamento, costura ou montagem n\u00e3o foram automatizados. Assim, a op\u00e7\u00e3o por externalizar os processos produtivos intensivos em trabalho e, posteriormente, desloc\u00e1-los ao exterior dependia de numerosos fatores, como: a abertura comercial e as necessidades de investimento estrangeiro da economia receptora; as condi\u00e7\u00f5es institucionais de baixa regula\u00e7\u00e3o e estabilidade pol\u00edtica dos pa\u00edses recebedores; a possibilidade de monitorar o processo produtivo; e os custos e a facilidade de transporte.<\/p>\n<p>A crise mundial iniciada em 1973 abriu espa\u00e7o para a queda das barreiras comerciais como resultado dos processos de reestrutura\u00e7\u00e3o global que se desencadeiam na busca de uma renovada rentabilidade (Armstrong <em>et al<\/em>., 1991; Gordon, 1995). A agenda mundial de livre com\u00e9rcio se acentua a partir dos anos 1980, quando se vive a crise da d\u00edvida em muitos pa\u00edses de menor grau de desenvolvimento e dos subsequentes programas de ajuste estrutural orientados pelo Banco Mundial (Beneria, 1999; Armstrong <em>et al<\/em>., 1991). Nestes programas enfatizou-se que as barreiras comerciais fossem diminu\u00eddas ou desmanteladas enquanto se buscava maior investimento estrangeiro direto. Estes processos acentuaram a globaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de vestimentas para o mercado dos Estados Unidos, situa\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m foi incentivada pelos grandes grupos de com\u00e9rcio varejista (Rosen, 2002). Assim, o atual processo de deslocamento produtivo inicia-se como resultado da busca de vantagens na produ\u00e7\u00e3o, de menores custos de trabalho e menos regula\u00e7\u00f5es trabalhistas, objetivo que se soma com as metas geopol\u00edticas da Guerra Fria de cria\u00e7\u00e3o de mercados para os produtos asi\u00e1ticos e, obviamente, para os produtos dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>O processo de expandir a terceiriza\u00e7\u00e3o para fora das fronteiras nacionais onde residem as empresas controladoras requer uma s\u00e9rie de condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas. Entre elas, destacam-se a possibilidade de supervisionar \u00e0 dist\u00e2ncia estes processos, de contar com transporte barato e eficiente e de dispor de uma estrutura organizacional flex\u00edvel e capaz de responder de imediato a mudan\u00e7as nos mercados e se adaptar \u00e0s condi\u00e7\u00f5es institucionais dos pa\u00edses para onde se desloca a produ\u00e7\u00e3o. Entre os componentes tecnol\u00f3gicos destas necessidades destacam-se os meios de transporte baratos e eficientes. De fato, um dos elementos que facilitou o transporte de grandes volumes de mercadorias a baixo custo foi a uniformiza\u00e7\u00e3o dos cont\u00eaineres (Levinson, 2016) tanto em termos de design quanto de volume, o que facilitou o transporte, a carga e a descarga de mercadorias. Esta homogeneiza\u00e7\u00e3o \u00e9 um fato relativamente recente na hist\u00f3ria dos transportes: a primeira viagem de um cont\u00eainer padr\u00e3o foi feita entre Newark e Galveston em 1956.<\/p>\n<p>Os outros elementos que permitiram o deslocamento da produ\u00e7\u00e3o foram avan\u00e7os na eletr\u00f4nica e nas comunica\u00e7\u00f5es, como a microeletr\u00f4nica, os computadores e as comunica\u00e7\u00f5es confi\u00e1veis e de alta velocidade. Sob estas condi\u00e7\u00f5es a produ\u00e7\u00e3o de vestu\u00e1rio se fragmentou geograficamente de forma importante: deslocou-se para Jap\u00e3o, Coreia, Taiwan, \u00cdndia, Bangladesh e Vietnam, e tamb\u00e9m para o M\u00e9xico e Am\u00e9rica Central. Esta mudan\u00e7a aconteceu ao mesmo tempo em que muito do setor de eletr\u00f4nicos de consumo abandonou o territ\u00f3rio dos Estados Unidos e seguiu o caminho da \u00c1sia e, posteriormente, do M\u00e9xico. No caso do Jap\u00e3o, Coreia e Taiwan, a produ\u00e7\u00e3o de propriedade local destas ind\u00fastrias consolidou-se ao ponto de que atualmente \u2013 no caso do setor de eletr\u00f4nicos de consumo \u2013 a maioria das grandes empresas do setor s\u00e3o asi\u00e1ticas (Chandler, 2005) ou produzem seus equipamentos fora dos Estados Unidos \u2013 como \u00e9 o caso da Apple, HP e Dell, que terceirizam sua produ\u00e7\u00e3o para empresas asi\u00e1ticas.<\/p>\n<p>3. <strong>A an\u00e1lise da geografia da produ\u00e7\u00e3o global<\/strong><\/p>\n<p>Nas se\u00e7\u00f5es anteriores foi exposto o caminho que as empresas dominantes seguiram no P\u00f3s-Guerra e que culmina na mundializa\u00e7\u00e3o capitalista (Chesnais, 1997), na qual os processos produtivos dispersam-se ao redor do mundo, ao mesmo tempo em que se criam novos espa\u00e7os de consumo (Coe e Hess, 2013). Estes movimentos nos processos produtivos s\u00e3o iniciados por empresas multinacionais (Dicken, 2011) que se movem pelo mundo sem problemas aparentes. Uma perspectiva popularizada por comentaristas como Thomas Friedman imagina o mundo como um espa\u00e7o plano onde as mercadorias correm livremente entre produtores e consumidores \u201cglobalizados\u201d com prefer\u00eancias altamente homog\u00eaneas (Friedman, 2007). Esta imagem simplista deixa de lado as complexidades das rela\u00e7\u00f5es entre o produtor final e as empresas fornecedoras dos insumos, e entre aquele e o consumidor.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o \u00e9 um acidente, j\u00e1 que quando se observa de perto esta rela\u00e7\u00e3o material consumidor-produto-insumo aparecem n\u00e3o apenas as empresas produtoras, distribuidoras e os fornecedores, mas tamb\u00e9m os trabalhadores, as rela\u00e7\u00f5es sociais mais amplas, o Estado e as rela\u00e7\u00f5es entre Estados. Em outras palavras, as an\u00e1lises simplistas abstraem do espa\u00e7o social onde ocorrem as transa\u00e7\u00f5es comerciais e os processos produtivos. Ao considerar a complexidade dos processos produtivos globais, \u00e9 necess\u00e1rio um instrumental que d\u00ea conta das inter-rela\u00e7\u00f5es entre empresas, governo e contexto social. Assim, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, a an\u00e1lise da produ\u00e7\u00e3o global e, consequentemente, do com\u00e9rcio internacional foi marcada pelo uso do conceito de cadeias globais, seja de produ\u00e7\u00e3o, seja de valor e, mais recentemente, pela ideia de redes globais de valor (Bair, 2008).<\/p>\n<p>Bair (2008) apresenta, no cap\u00edtulo inicial de seu livro, uma genealogia do conceito de cadeia global, que vai desde a ideia inicial de Gary Hamilton e Immanuel Wallerstein de cadeias globais de mercadorias, passando pelo conceito de Cadeia Global de Produ\u00e7\u00e3o at\u00e9 a ideia de Sturgeon de Cadeia Global de Valor. A \u00eanfase pode mudar, mas a ideia \u00e9 que se deve analisar a produ\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os \u2013 desde o in\u00edcio de um processo que servir\u00e1 de um insumo a outros at\u00e9 o momento do consumo final \u2013 com adi\u00e7\u00f5es relativas aos processos de coordena\u00e7\u00e3o globalizados que governam estas trocas desde a base at\u00e9 o consumo final. Trata-se, assim, de uma an\u00e1lise onde um de seus elementos centrais refere-se a quais empresas participam no processo e, sobretudo, quem comanda o resultado final. Em qualquer caso, trata-se de uma an\u00e1lise linear, quase do tipo insumo-produto.<\/p>\n<p>Como uma forma de levar em conta que todo processo produtivo \u00e9 parte de uma s\u00e9rie de redes de produ\u00e7\u00e3o, cada uma das quais contribui para o resultado final, nos \u00faltimos anos aparece a ideia de redes globais de valor. Apesar da contribui\u00e7\u00e3o destas an\u00e1lises para compreender a evolu\u00e7\u00e3o recente da produ\u00e7\u00e3o globalizada, \u00e9 importante assinalar o papel quase ornamental que t\u00eam os trabalhadores nas primeiras an\u00e1lises de Cadeias Globais. Apenas recentemente se discutiram alternativas de an\u00e1lises da estrutura da economia globalizada na qual se insere claramente o papel do trabalho (Coe, 2012).<\/p>\n<p>Existe, portanto, uma necessidade importante de examinar estas cadeias e redes de maneira que o trabalho tenha um papel relevante e n\u00e3o seja considerado como um agente passivo (Selwyin, 2011). Neste sentido, deve-se enfatizar a imperiosa necessidade de recuperar a ideia de que estas cadeias s\u00e3o formadas muitas vezes a partir de processos de terceiriza\u00e7\u00e3o e deslocamento produtivo. Ao estudar a maneira com a qual o capitalismo contempor\u00e2neo implantou a produ\u00e7\u00e3o em diversas regi\u00f5es, aparece tamb\u00e9m a necessidade de destacar o papel do espa\u00e7o nestas formas de reorganiza\u00e7\u00e3o produtiva. Dicken (2011) d\u00e1 conta da maneira em que os processos globais e locais se articulam de maneira que a geografia da produ\u00e7\u00e3o se transforma em um elemento explicativo de como se constroem as cadeias globais.<\/p>\n<p>O exemplo mais cl\u00e1ssico \u00e9 o do chamado \u201cVale do Sil\u00edcio\u201d, que se transforma de uma \u00e1rea de produ\u00e7\u00e3o industrial de produtos eletr\u00f4nicos e computadores em uma \u00e1rea que concentra as empresas que controlam enormes cadeias globais no setor de eletr\u00f4nicos de consumo e de comunica\u00e7\u00f5es, mas que n\u00e3o contam mais com esta produ\u00e7\u00e3o industrial, transferida para a \u00c1sia ou para o M\u00e9xico (L\u00fcthje <em>et al<\/em>., 2013). De qualquer forma \u2013 como mostra o estudo do conglomerado da ind\u00fastria eletr\u00f4nica de Guadalajara no M\u00e9xico (Gallagher e Zarsky, 2007) \u2013 a constru\u00e7\u00e3o das cadeias globais correspondentes dependeu de decis\u00f5es que levaram em conta a localiza\u00e7\u00e3o espacial, a facilidade de transporte e de comunica\u00e7\u00e3o e o ambiente institucional, e n\u00e3o apenas as caracter\u00edsticas de proximidade ou a exist\u00eancia de abundante m\u00e3o de obra qualificada.<\/p>\n<p>4. <strong>Externaliza\u00e7\u00e3o e deslocamento produtivo atual: o papel das finan\u00e7as<\/strong><\/p>\n<p>A partir dos anos 1970, o com\u00e9rcio mundial intensificou-se, primeiro pela recupera\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o na \u00c1sia e depois por um intenso movimento de fragmenta\u00e7\u00e3o de atividades produtivas que foram levadas para fora dos pa\u00edses capitalistas mais desenvolvidos, em particular para fora dos Estados Unidos. Este processo, iniciado nas atividades t\u00eaxteis e de vestu\u00e1rio, rapidamente englobou a ind\u00fastria de eletr\u00f4nicos de consumo, de produ\u00e7\u00e3o de sapatos e de brinquedos. Encabe\u00e7ado por empresas transnacionais, o deslocamento produtivo levou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o ou consolida\u00e7\u00e3o de atividades industriais nos pa\u00edses que receberam estes novos investimentos. A etapa seguinte foi a relocaliza\u00e7\u00e3o das atividades de servi\u00e7os, como o atendimento a clientes \u2013 os chamados <em>call centers<\/em> \u2013 para outros pa\u00edses. O \u00faltimo avan\u00e7o nesta \u00e1rea dos servi\u00e7os est\u00e1 representado pelo deslocamento das atividades de contabilidade, servi\u00e7os de consultoria e, sobretudo, de cria\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o de tecnologias da informa\u00e7\u00e3o (Lazonick, 2009).<\/p>\n<p>Tem-se assistido a um duplo processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o no capitalismo desenvolvido e industrializa\u00e7\u00e3o no capitalismo em desenvolvimento. A deslocaliza\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o e o deslocamento de determinadas etapas do processo produtivo das empresas dos pa\u00edses desenvolvidos para a periferia do capitalismo, em especial a \u00c1sia, transformaram esta regi\u00e3o numa importante recebedora de investimento direto, o que acarretou na difus\u00e3o acelerado do progresso t\u00e9cnico. Os exemplos mais claros s\u00e3o os Estados Unidos e o Reino Unido e a Coreia e Bangladesh. Os dois lados da moeda do deslocamento das atividades e servi\u00e7os entre pa\u00edses levaram a uma discuss\u00e3o sobre os benef\u00edcios potenciais dos pa\u00edses emissores e dos pa\u00edses receptores destes deslocamentos (Paus, 2009). N\u00e3o obstante, o deslocamento da produ\u00e7\u00e3o e dos servi\u00e7os parece apenas beneficiar \u00e0s empresas que continuam sendo as controladoras (Milberg e Winkler, 2013), ainda que nem sempre a externaliza\u00e7\u00e3o produtiva resulte em grandes benef\u00edcios para as empresas (Berggren e Bengtsson, 2004).<\/p>\n<p>Para o caso do Estados Unidos, revelou-se que grandes empresas que externalizaram sua produ\u00e7\u00e3o ou suas atividades de servi\u00e7o \u2013 mesmo quando t\u00eam maiores margens de lucro \u2013 n\u00e3o usam seus excedentes para o reinvestimento produtivo e sim para o investimento em ativos financeiros ou para recomprar seus pr\u00f3prios t\u00edtulos e aumentar o valor de suas a\u00e7\u00f5es ou os pagamentos aos seus acionistas (Milberg e Winkler, 2009). O resultado \u00e9 um esfor\u00e7o de financeiriza\u00e7\u00e3o da economia e uma menor taxa de investimento produtivo (Milberg e Winkler, 2013). Para as empresas nos pa\u00edses receptores de investimento a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 de bonan\u00e7a (Nelson, 2014), mas n\u00e3o para os trabalhadores. Assim, a economia global, hoje, conta com uma crescente atividade do setor financeiro e uma financeiriza\u00e7\u00e3o das empresas produtivas que se retroalimentam entre si, no marco de uma estagna\u00e7\u00e3o na maior parte das economias capitalistas desenvolvidas e de uma precariza\u00e7\u00e3o significativa do trabalho.<\/p>\n<p>5. <strong>Conclus\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o se\u00e7\u00f5es anteriores foi visto como a economia global tem transformado o com\u00e9rcio internacional e a produ\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s das cadeias globais (e, \u00e0s vezes, locais) de produ\u00e7\u00e3o. Estas cadeias cont\u00eam empresas que est\u00e3o sendo terceirizadas por outras, empresas aut\u00f4nomas que oferecem seus produtos em mercados que n\u00e3o est\u00e3o restritos a apenas um comprador, e empresas que est\u00e3o em localiza\u00e7\u00f5es distantes dos mercados finais. A constru\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o destas redes \u00e9 um processo que envolve n\u00e3o apenas as empresas. Envolve tamb\u00e9m os trabalhadores e o contexto institucional de cada pa\u00eds ou regi\u00e3o que participa nestes processos. N\u00e3o obstante, o estudo particular de como os trabalhadores s\u00e3o afetados pela externaliza\u00e7\u00e3o e pela deslocaliza\u00e7\u00e3o produtiva n\u00e3o tem estado presente nas pesquisas sobre cadeias de valor.<\/p>\n<p>Apenas a partir do esfor\u00e7o recente de alguns pesquisadores (Milberg e Winkler, 2013; Peck, 2017) \u00e9 que se tem buscado sanar sistematicamente esta omiss\u00e3o. No entanto, existem exemplos na literatura de uma preocupa\u00e7\u00e3o clara em rela\u00e7\u00e3o aos efeitos da desigualdade gerados pelo deslocamento produtivo. Harrison (1994) adverte sobre os efeitos da terceiriza\u00e7\u00e3o tanto na empresa contratante quanto nas empresas contratadas. O autor destaca que o uso de trabalhadores temporais ou de jornadas reduzidas \u2013 inclusive no interior de grandes empresas \u2013 se traduz em incentivo para a diminui\u00e7\u00e3o do custo salarial e, consequentemente, abertura do leque salarial. Quando Harrison escreveu este texto, o modelo de empresa que terceirizava estava nas atividades de produ\u00e7\u00e3o de vestu\u00e1rio ou cal\u00e7ado. No in\u00edcio da d\u00e9cada de 2000, por sua vez, o novo modelo de emprego que se deriva a partir da emula\u00e7\u00e3o daquilo que \u00e9 feito nas empresas de alta tecnologia \u2013 notadamente as do Vale do Sil\u00edcio \u2013 parece destacar o emprego tempor\u00e1rio e com sal\u00e1rios estagnados, contribuindo para o crescimento da instabilidade do trabalho e maior desigualdade econ\u00f4mica (Lazonick, 2009).<\/p>\n<p>A terceiriza\u00e7\u00e3o e o deslocamento produtivo t\u00eam tido um grande impacto sobre a for\u00e7a de trabalho feminina, uma vez que as principais atividades afetadas se relacionam com ind\u00fastrias ou servi\u00e7os altamente feminizados (Beneria, 2015). Mesmo quando os processos atuais afetam atividades de servi\u00e7os com significativa presen\u00e7a masculina, as mulheres \u2013 particularmente aquelas que vivem nos pa\u00edses capitalistas menos desenvolvidos \u2013 continuam sendo as principais afetadas pela redistribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica das atividades econ\u00f4micas. Estas tend\u00eancias apenas acentuam aquelas j\u00e1 presentes nos grandes movimentos de fus\u00f5es e aquisi\u00e7\u00f5es e no enxugamento de empresas que ocorrem a partir dos anos 1980 nos Estados Unidos e em outros pa\u00edses de capitalismo desenvolvido. Isto mostra que a busca de maior rentabilidade poss\u00edvel e de maior controle do processo de trabalho segue sendo uma prioridade do capitalismo atual, globalizado ou n\u00e3o (Newsome <em>et al<\/em>., 2015). Trata-se, assim, de uma repeti\u00e7\u00e3o de uma antiga hist\u00f3ria, que deve ser contada a partir dos matizes derivados do estudo global e suas intera\u00e7\u00f5es com os processos locais (Peck, 2017a).<\/p>\n<p>A terceiriza\u00e7\u00e3o, longe de ser um simples mecanismo para o melhor aproveitamento dos recursos dispon\u00edveis em uma economia globalizada, orientada para o aumento da produtividade e cujos benef\u00edcios se distribuem entre os trabalhadores participantes, se converte em amea\u00e7a para os trabalhadores do mundo capitalista, desenvolvido ou n\u00e3o (Levy, 2005). Particularmente porque a l\u00f3gica das empresas globalizadas \u00e9, em geral, uma l\u00f3gica de curto prazo que usa parte dos excedentes monet\u00e1rios em atividades financeiras (Millberg, 2013), o que significa um menor n\u00edvel de investimento produtivo e um apoio importante ao dom\u00ednio do capital financeiro, sobretudo de car\u00e1ter especulativo. Nas condi\u00e7\u00f5es atuais de baixo crescimento global, a busca de uma sa\u00edda para a crise parece se concentrar em conseguir que novamente os trabalhadores arquem com os custos. Os acontecimentos pol\u00edticos recentes tanto no Brasil como no Reino Unido e nos Estados Unidos revelam evid\u00eancias que corroboram este ponto. Este avan\u00e7o da direita que traz consigo fortes retrocessos nos processos de democratiza\u00e7\u00e3o representa um enorme desafio para os trabalhadores.<\/p>\n<p>\u2014<br \/>\n<strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>Armstrong, P., Glyn, A., Harrison, J., &amp; Harrison, J. (1991). <em>Capitalism since 1945<\/em> (Vol. 20). Oxford: Basil Blackwell.<\/p>\n<p>Bair, Jennifer (2008). <em>Frontiers of Commodity Chain Research<\/em>. Stanford University Press.<\/p>\n<p>Barker K. Drucilla y Susan A. 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