{"id":151,"date":"2009-06-16T07:06:47","date_gmt":"2009-06-16T07:06:47","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=151"},"modified":"2009-06-16T07:06:47","modified_gmt":"2009-06-16T07:06:47","slug":"um-retrato-honesto-da-venezuela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/151","title":{"rendered":"Um retrato honesto da Venezuela"},"content":{"rendered":"\n<p>O livro de Gilberto Maringoni (A Revolu\u00e7\u00e3o Venezuelana, Editora Unesp, 2009) merece ser saudado com um ant\u00eddoto perfeito contra a manipula\u00e7\u00e3o informativa que, na imprensa brasileira, atingiu as raias de uma lavagem cerebral. Jornalista e historiador, Maringoni fala de um tema que conhece em primeira m\u00e3o. Viajou v\u00e1rias vezes \u00e0 Venezuela e l\u00e1 entrevistou quase todos os nomes que valiam a pena no tumultuado enredo pol\u00edtico local &#8211; dos caciques da oposi\u00e7\u00e3o conservadora, como Teodoro Petkoff, \u00e0s figuras mais graduadas do regime esquerdista, entre as quais o pr\u00f3prio Ch\u00e1vez, al\u00e9m das mais variadas fontes na esfera acad\u00eamica.<\/p>\n<p>Com dados confi\u00e1veis em m\u00e3os, o autor desvenda o enigma oculto sob a campanha midi\u00e1tica anti-chavista: como \u00e9 poss\u00edvel que um caudilho supostamente t\u00e3o desastrado mantenha alt\u00edssimos \u00edndices de apoio popular durante tanto tempo? \u00c9 errado reduzir, como insistem os detratores da experi\u00eancia venezuelana, o prest\u00edgio de Ch\u00e1vez \u00e0 bonan\u00e7a petroleira da \u00faltima d\u00e9cada. O Venezuela j\u00e1 viveu outros per\u00edodos de alta dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo, sem que a popula\u00e7\u00e3o tivesse tido acesso a mais do que umas magras migalhas do banquete. A marca da gest\u00e3o chavista \u00e9 algo que as primeiras gest\u00f5es municipais petistas defendiam no Brasil e que, lamentavelmente, diluiu-se no loda\u00e7al dos compromissos com as classes dominantes: a invers\u00e3o das prioridades em favor das multid\u00f5es oprimidas, ainda que ao pre\u00e7o do confronto aberto contra as elites privilegiadas.<\/p>\n<p>Na Venezuela, os gastos sociais aumentaram de 8,2% do PIB, em 1998, para 13,6% em 2006. Os \u00edndices de pobreza ca\u00edram de 55,1% para 27,5%. O sal\u00e1rio m\u00ednimo se elevou numa escala sem precedentes em qualquer outro pa\u00eds do chamado Terceiro Mundo e milh\u00f5es de venezuelanos passaram a ter acesso a uma infinidade de benesses antes inalcan\u00e7\u00e1veis &#8211; desde servi\u00e7os essenciais, como assist\u00eancia m\u00e9dica e dent\u00e1ria, aos \u00edcones do consumo descart\u00e1vel, como telefones celulares. Nesse cen\u00e1rio em que a mudan\u00e7a passa do plano da ret\u00f3rica para a exist\u00eancia cotidiana, torna-se f\u00e1cil entender porque Ch\u00e1vez foi vitorioso em todas as freq\u00fcentes consultas eleitorais que promoveu, com apenas uma exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O grande m\u00e9rito de Maringoni \u00e9 que ele n\u00e3o se limita a salientar as conquistas do processo pol\u00edtico venezuelano, mas tamb\u00e9m aponta, sem medo de entrar em pol\u00eamica com os defensores mais entusiastas do chavismo, os limites do festejado &#8220;socialismo do s\u00e9culo XXI&#8221;. Concretamente: ap\u00f3s dez anos de &#8220;revolu\u00e7\u00e3o bolivariana&#8221;, o velho modelo de desenvolvimento dependente latino-americano, erigido com base na exporta\u00e7\u00e3o de produtos prim\u00e1rios (no caso, o petr\u00f3leo), permanece inalterado. Os ganhos desse modelo, \u00e9 verdade, passaram a beneficiar, pela primeira vez, a maioria da popula\u00e7\u00e3o, sobretudo depois que Ch\u00e1vez retirou a estatal Petr\u00f3leos de Venezuela S.A. (PDVSA) das m\u00e3os da camarilha que a controlava, enquadrando a empresa sob o controle p\u00fablico. Mas o caminho ainda est\u00e1 no seu in\u00edcio: &#8220;O Estado continua ineficiente, lerdo, corrupto e avesso \u00e0s interfer\u00eancias populares&#8221;, escreve o autor.<\/p>\n<p>Mesmo que seja prematuro falar em uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o na Venezuela, \u00e9 ineg\u00e1vel que o governo de Ch\u00e1vez mudou a face pol\u00edtica daquela sociedade e, em certa medida, de toda a Am\u00e9rica do Sul. A influ\u00eancia venezuelana se faz presente em todo um conjunto de pa\u00edses onde, pela primeira vez, o poder de Estado passa a ser exercido em benef\u00edcio das maiorias. Como afirma Maringoni, referindo-se \u00e0 \u00e9poca de ofensiva conservadora mundial p\u00f3s-1989: &#8220;A Venezuela \u00e9, com todos os problemas, o pa\u00eds onde mais se avan\u00e7ou, nesse per\u00edodo, na contesta\u00e7\u00e3o ao neoliberalismo e no questionamento do poder global dos Estados Unidos.&#8221; A\u00ed reside a explica\u00e7\u00e3o para o \u00f3dio que Ch\u00e1vez desperta entre os donos da m\u00eddia brasileira e internacional. Ele \u00e9, de fato, um sapo dif\u00edcil de engolir.<\/p>\n<p>(*) Igor Fuser \u00e9 jornalista, professor na Faculdade C\u00e1sper L\u00edbero, mestre em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, doutorando em Ci\u00eancia Pol\u00edtica na Universidade de S\u00e3o Paulo e membro do Conselho Editorial do Brasil de Fato.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"(Resenha do livro &#8220;A Revolu\u00e7\u00e3o Venezuelana&#8221;, de Gilberto Maringoni) Igor Fuser* Na lista dos dem\u00f4nios da m\u00eddia empresarial, o posto n\u00famero 1 pertence, disparado, a Hugo Ch\u00e1vez, com sua boina vermelha e l\u00edngua ferina. Raramente se passa um dia sem que alguma publica\u00e7\u00e3o da chamada &#8220;grande imprensa&#8221; despeje regulares doses de veneno contra o presidente venezuelano, apresentado como louco, fanfarr\u00e3o, ditador ou incompetente. Essa cantilena se mant\u00e9m h\u00e1 mais dez anos. Para ser exato, desde o in\u00edcio de 1999, quando o antigo coronel iniciou, ap\u00f3s sua chegada ao governo, a transforma\u00e7\u00e3o de um dos pa\u00edses de estrutura social mais in\u00edqua no planeta &#8211; mais de 50% dos habitantes na mis\u00e9ria, em contraste com os lucros nababescos das exporta\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo &#8211; em uma refer\u00eancia mundial para todos os que cultivam os valores da justi\u00e7a e da igualdade.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/151\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[45],"tags":[],"class_list":["post-151","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c54-venezuela"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2r","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/151","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=151"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/151\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=151"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=151"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=151"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}