{"id":15174,"date":"2017-07-31T16:55:17","date_gmt":"2017-07-31T19:55:17","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=15174"},"modified":"2017-08-14T19:10:23","modified_gmt":"2017-08-14T22:10:23","slug":"estabelecer-o-poder-popular-para-servir-as-massas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/15174","title":{"rendered":"Estabelecer o Poder Popular para servir as massas"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/bloglavrapalavra.files.wordpress.com\/2017\/07\/1.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><strong>Por Samora Machel, via <\/strong><a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/machel\/1974\/mes\/poder.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Marxists.org<\/strong><\/a><\/p>\n<p><em>Em 24 de julho a classe trabalhadora mo\u00e7ambicana rememora o Dia das Nacionaliza\u00e7\u00f5es, <!--more-->em que se nacionalizaram a Sa\u00fade, a Educa\u00e7\u00e3o e a Justi\u00e7a (1975), bem como as casas alugadas (1976), passando a ser garantido a cada residente do pa\u00eds a propriedade pessoal de uma habita\u00e7\u00e3o permanente e uma de f\u00e9rias \u2013 mas proibiu-se a loca\u00e7\u00e3o residencial. Nessa fase organizou-se um sistema de autogest\u00e3o em que comit\u00eas de trabalhadores, normalmente organizados pelas c\u00e9lulas da FRELIMO.<\/em><\/p>\n<p><em>Em homenagem \u00e0 data, o Blog Lavra Palavra publicou o texto do camarada Samora Machel sobre as quest\u00f5es do Poder Popular em Mo\u00e7ambique, com todas suas especificidades.<\/em><\/p>\n<p>Celebramos neste ano de 1974 o 10\u00ba anivers\u00e1rio do desencadeamento da nossa luta armada. Dez anos durante os quais in\u00fameros militantes e o Povo aceitaram toda a esp\u00e9cie de sacrif\u00edcios e todo o tipo de priva\u00e7\u00f5es, dez anos a superar dificuldades e a provarmos que somos capazes de alcan\u00e7ar a vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Come\u00e7amos j\u00e1 a conhecer a vit\u00f3ria. Em regi\u00f5es cada vez mais vastas da nossa P\u00e1tria o Povo j\u00e1 compara e diz \u201cantes da Revolu\u00e7\u00e3o\u201d e \u201choje\u201d. O nosso Povo come\u00e7a a saborear o fruto da sua luta.<\/p>\n<p>Mas ao mesmo tempo todos estamos conscientes que a vit\u00f3ria final n\u00e3o \u00e9 para amanh\u00e3 e que um longo caminho ainda nos espera.<\/p>\n<p>Qual a raz\u00e3o dos nossos sacrif\u00edcios? Porque motivo o inimigo se mostra t\u00e3o intransigente e cruel? E porque raz\u00e3o, apesar da condena\u00e7\u00e3o de todos os homens justos no mundo, ele continua a encontrar os apoios e ajudas necess\u00e1rios para prosseguir os seus crimes?<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que tudo isto tem lugar apenas porque queremos a nossa Independ\u00eancia?<\/p>\n<p>Mas afinal em 1143 e em 1640 Portugal tamb\u00e9m lutou pela sua Independ\u00eancia. Os Estados Unidos que hoje apoiam o colonialismo portugu\u00eas fizeram no s\u00e9culo XVIII uma guerra para se libertarem do colonialismo brit\u00e2nico e serem independentes. A Fran\u00e7a e a Inglaterra que financiam e armam Portugal fascista e colonialista, lutaram ainda h\u00e1 poucos anos, de 1939 a 1945, contra o fascismo hitleriano, sofrendo grandes perdas e sacrif\u00edcios a fim de preservarem a independ\u00eancia nacional.<\/p>\n<p>\u00c0 volta de Mo\u00e7ambique encontramos muitos pa\u00edses independentes. Madagascar que era col\u00f4nia francesa, Tanz\u00e2nia, Z\u00e2mbia, Malawi, Swazil\u00e2ndia, antigas col\u00f4nias brit\u00e2nicas. E todos estes pa\u00edses tornaram-se independentes atrav\u00e9s de negocia\u00e7\u00f5es entre a pot\u00eancia colonizadora e a col\u00f4nia.<\/p>\n<p>Porque raz\u00e3o a Inglaterra e a Fran\u00e7a aceitaram reconhecer \u00e0 maioria das suas col\u00f4nias o direito \u00e0 independ\u00eancia, e hoje apoiam uma guerra colonial?<\/p>\n<p>Porqu\u00ea ent\u00e3o dez anos de guerra colonial, dez anos de bombardeamentos, dez anos de massacres de popula\u00e7\u00f5es, dez anos durante os quais a OTAN e os pa\u00edses ocidentais t\u00eam feito tudo para ajudar Portugal?<\/p>\n<p>N\u00f3s dizemos frequentemente que no curso da luta a nossa grande vit\u00f3ria foi saber transformar a luta armada de liberta\u00e7\u00e3o nacional em Revolu\u00e7\u00e3o. Por outras palavras, o nosso objetivo final de luta n\u00e3o \u00e9 i\u00e7ar uma bandeira diferente da portuguesa, fazer elei\u00e7\u00f5es mais ou menos honestas em que pretos e n\u00e3o os brancos s\u00e3o eleitos, ou ter no Pal\u00e1cio da Ponta Vermelha em Louren\u00e7o Marques um Presidente preto, em vez dum governador branco. N\u00f3s dizemos que o nosso objetivo \u00e9 conquistar a independ\u00eancia completa, instalar um Poder Popular, construir uma Sociedade Nova sem explora\u00e7\u00e3o, para benef\u00edcio de todos aqueles que se sentem mo\u00e7ambicanos.<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que se encontra a explica\u00e7\u00e3o da guerra. Como um homem assaltado de piolhos \u00e9 obrigado a mergulhar a roupa na \u00e1gua a ferver para liquidar os piolhos sem se interessar pela cor ou origem dos piolhos, n\u00f3s fomos obrigados a aceitar mergulhar o nosso pa\u00eds no fogo da guerra para liquidar a explora\u00e7\u00e3o, qualquer que seja a sua origem ou cor dos seus agentes.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 em causa \u00e9 pois o estabelecimento do Poder Popular que afirma a nossa independ\u00eancia e personalidade e liquida a explora\u00e7\u00e3o, o que implica a destrui\u00e7\u00e3o do Poder dos exploradores que a fomenta.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso mesmo que os pa\u00edses imperialistas que vivem da explora\u00e7\u00e3o v\u00eam socorrer Portugal porque est\u00e3o interessados em que a explora\u00e7\u00e3o continue.<\/p>\n<p>Hoje, gra\u00e7as \u00e0 nossa luta, um Poder novo constr\u00f3i-se na nossa P\u00e1tria.<\/p>\n<p>Dez anos de Poder da FRELIMO n\u00e3o \u00e9 muito. Jovens que somos assumimos responsabilidades que esmagam os velhos. O Poder dos exploradores tem centenas e milhares de anos de experi\u00eancia, enquanto o nosso Poder \u00e9 jovem e ao mesmo tempo tem de resolver os problemas que o Poder milenar dos exploradores nunca conseguiu.<\/p>\n<p>O Poder novo n\u00e3o \u00e9 uma coisa abstrata. O Poder novo somos n\u00f3s com todas as nossas insufici\u00eancias quem tem de o exercer.<\/p>\n<p>De nenhuma nuvem vai descer o Homem Novo capaz de exercer o Poder novo.<\/p>\n<p>A nossa responsabilidade \u00e9 grande enquanto a nossa capacidade \u00e9 ainda pequena. Mas temos uma grande vantagem que \u00e9 decisiva: possu\u00edmos a linha de orienta\u00e7\u00e3o correta, as massas est\u00e3o conosco.<\/p>\n<p>Mas ao construirmos o nosso Poder, ao exerc\u00ea-lo, trazemos em n\u00f3s, nas ideias, nos h\u00e1bitos e nos costumes, todas as deforma\u00e7\u00f5es criadas pelo Poder antigo.<\/p>\n<p>Por isso continuamente temos que retificar os nossos m\u00e9todos de trabalho, introduzir o bisturi da cr\u00edtica e da autocr\u00edtica, para amputar a heran\u00e7a enorme, pesada e negativa que nos transmite a sociedade antiga.<\/p>\n<p>Para este d\u00e9cimo anivers\u00e1rio que celebraremos em breve queremos analisar o nosso Poder, repensar a nossa atividade, estudar o que fizemos e o que resta para fazer e sobretudo corrigir as deforma\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Come\u00e7aremos por estudar, na primeira parte, o que \u00e9 o Poder, o que exprime e que valores incarna. Analisaremos a diferen\u00e7a que existe na origem, natureza, m\u00e9todos e objetivos entre o Poder colonial capitalista e o Poder Popular constru\u00eddo sob a dire\u00e7\u00e3o da FRELIMO.<\/p>\n<p>Ao abordarmos esta quest\u00e3o crucial estaremos em condi\u00e7\u00f5es de compreender a raz\u00e3o porque o conflito entre n\u00f3s e o inimigo \u00e9 de tal maneira antag\u00f4nico que s\u00f3 a guerra o pode resolver. Com efeito, a edifica\u00e7\u00e3o do Poder Popular que exprime a subida ao Poder duma nova classe, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel quando a classe anterior e o seu Poder s\u00e3o derrubados. E ao assumirmos esta no\u00e7\u00e3o que estamos em condi\u00e7\u00f5es de verificar a impossibilidade de conciliar os nossos interesses com os do inimigo, atrav\u00e9s de pretensas autonomias ou de independ\u00eancias, que salvaguardam a ess\u00eancia do Estado colonial capitalista.<\/p>\n<p>A natureza popular do Poder em vias de edifica\u00e7\u00e3o implica uma democracia profunda e real, que nunca existiu na Hist\u00f3ria da nossa P\u00e1tria.<\/p>\n<p>Assim como o Poder, a Democracia n\u00e3o \u00e9 uma coisa abstrata: para que ela se exer\u00e7a e possua um conte\u00fado concreto \u00e9 necess\u00e1rio que organizemos as condi\u00e7\u00f5es para a sua materializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por isso uma segunda parte \u00e9 consagrada ao estudo da Democracia, nova experi\u00eancia que pela primeira vez o nosso Povo vive.<\/p>\n<p>Finalmente, porque nos nossos diversos centros o Poder Popular e Democr\u00e1tico j\u00e1 \u00e9 exercido na pr\u00e1tica, eles aparecem como laborat\u00f3rios da nossa experi\u00eancia e centros difusores da nossa linha e dos seus resultados pr\u00e1ticos. Importa pois que precisemos como os nossos centros devem cumprir essa tarefa e quais os requisitos, indispens\u00e1veis para que levem a cabo a sua miss\u00e3o hist\u00f3rica.<\/p>\n<h4>1. O poder dos exploradores \u00e9 para oprimir o povo. O nosso poder \u00e9 o poder do povo<\/h4>\n<p>No processo do desenvolvimento hist\u00f3rico das sociedades, entre os homens foram forjadas diversas rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>Na aurora da Humanidade, quando se opera a transi\u00e7\u00e3o dos s\u00edmios em homens, os seres pr\u00e9-humanos viviam em bandos errantes dominados pela preocupa\u00e7\u00e3o de sobreviver. A totalidade do esfor\u00e7o era consumida imediatamente e frequentemente ela n\u00e3o conseguia satisfazer as necessidades b\u00e1sicas. Os seres pr\u00e9-humanos alimentavam-se de ra\u00edzes, frutos selvagens e cad\u00e1veres de animais.<\/p>\n<p>Assim viveram durante centenas de milhares de anos os antepassados da Humanidade. A partir dum certo momento esses antepassados come\u00e7am a utilizar ossos ou paus para escavarem as ra\u00edzes, para ca\u00e7ar animais. Come\u00e7am a utilizar instrumentos para produzirem a sua alimenta\u00e7\u00e3o, a produ\u00e7\u00e3o ainda que extremamente primitiva inicia-se, o s\u00edmio d\u00e1 lugar ao homem. A produ\u00e7\u00e3o demarca o homem do animal e liberta o seu c\u00e9rebro abrindo-lhe o caminho para o progresso.<\/p>\n<p>Com o aparecimento da produ\u00e7\u00e3o, numa primeira fase a colheita e ca\u00e7a, numa segunda fase a agricultura e a cria\u00e7\u00e3o de gado, a Humanidade come\u00e7a a desenvolver-se.<\/p>\n<p>Surge a divis\u00e3o do trabalho, o melhoramento dos instrumentos de produ\u00e7\u00e3o e das t\u00e9cnicas de produ\u00e7\u00e3o. Com isso o esfor\u00e7o produtivo do homem j\u00e1 consegue produzir mais do que aquilo que ele pr\u00f3prio necessita para subsistir. A produ\u00e7\u00e3o cria um excedente.<\/p>\n<p>O aparecimento de excedentes na produ\u00e7\u00e3o fornece a base material, as condi\u00e7\u00f5es objetivas para que surjam no seio da sociedade for\u00e7as que procuram apropriar-se desses excedentes em detrimento dos que produziram.<\/p>\n<p>A sociedade divide-se em classes opostas, com interesses diferentes: uns querem apropriar-se do fruto do trabalho dos outros, enquanto estes \u00faltimos recusam. As rela\u00e7\u00f5es humanas que at\u00e9 aquele momento eram de coopera\u00e7\u00e3o tornam-se rela\u00e7\u00f5es de luta entre exploradores e explorados.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que todo este processo levou centenas de milhares de anos, n\u00e3o foi do dia para a noite que surgiram interesses opostos, classes antag\u00f4nicas. Mas o fundamental \u00e9 o processo.<\/p>\n<p>Desde que na sociedade apareceram interesses diferentes e antag\u00f4nicos, a quest\u00e3o do \u201cPoder\u201d, o problema de saber quem deve decidir, que crit\u00e9rios usar para decidir em favor de quem, tornou-se uma quest\u00e3o fundamental no seio da sociedade.<\/p>\n<p>Um grupo determinado s\u00f3 poder\u00e1 impor os seus interesses e fazer triunfar os seus objetivos, se possuir o controle da sociedade, por outras palavras se dirigir essa sociedade.<\/p>\n<p>Dirigir a sociedade significa organizar a sociedade para servir os interesses do grupo dirigente, impor a vontade deste grupo a todos os outros grupos, quer estejam de acordo ou n\u00e3o. Com o correr do tempo o grupo dirigente leva os outros grupos a considerarem a sua domina\u00e7\u00e3o como a melhor, a mais justa e a mais s\u00e1bia, a que corresponde aos interesses de todos.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 assim at\u00e9 ao momento em que as novas for\u00e7as no seio da sociedade tomam consci\u00eancia dos seus interesses prejudicados pelo grupo dirigente, unem-se, lutam, derrubam o poder anterior e instalam o seu novo poder, reorganizando a sociedade para satisfazer os seus apetites.<\/p>\n<p>At\u00e9 a uma \u00e9poca recente da Hist\u00f3ria da Humanidade, foram as diversas classes exploradoras \u2014 senhores de escravos, feudais, burgueses \u2014 quem sucessivamente dominou a sociedade e a organizou pol\u00edtica, econ\u00f4mica, ideol\u00f3gica, cultural, administrativa e juridicamente em seu favor.<\/p>\n<p>Assim foi porque as largas massas exploradas nem tinham a suficiente consci\u00eancia de classe que as unisse, nem possu\u00edam a ideologia capaz de lhes dar a vis\u00e3o do conjunto dos seus interesses e capaz de lhes fornecer a estrat\u00e9gia e t\u00e1tica de luta adequadas para a conquista e exerc\u00edcio do poder.<\/p>\n<p>Historicamente, a primeira vez que as largas massas exploradas, ap\u00f3s v\u00e1rias tentativas fracassadas, conquistaram e exerceram o Poder, foi em 1870 em Paris. A Comuna de Paris foi esmagada ao fim de alguns meses pela coliga\u00e7\u00e3o entre os reacion\u00e1rios franceses e os reacion\u00e1rios alem\u00e3es, e 30 000 trabalhadores foram massacrados.<\/p>\n<p>Em 1917, finalmente, sob a dire\u00e7\u00e3o de Lenin, as massas exploradas conquistaram o Poder na R\u00fassia czarista e constru\u00edram a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, o Primeiro Estado no mundo com o Povo no Poder. A partir da vit\u00f3ria das for\u00e7as democr\u00e1ticas na guerra antifascista. o Poder Popular estendeu-se a novos pa\u00edses como a China, a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica da Coreia, e a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Vietn\u00e3 na \u00c1sia. Na Europa o Poder Popular foi erigido em numerosos pa\u00edses tais como a Rep\u00fablica Socialista da Rom\u00eania, a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica Alem\u00e3, a Rep\u00fablica Socialista da Bulg\u00e1ria, etc\u2026. Na Am\u00e9rica latina, com a vit\u00f3ria das for\u00e7as populares em Cuba em 1959 instalou-se o primeiro Estado Popular no continente americano.<\/p>\n<p>A instala\u00e7\u00e3o do Poder Popular tornou-se uma realidade para perto de 1\/3 da Humanidade. As zonas em que as massas trabalhadoras conquistaram o Poder, s\u00e3o conhecidas como \u201ccampo socialista\u201d constitu\u00eddo hoje por 14 pa\u00edses.<\/p>\n<p>No nosso pa\u00eds, senhores de escravos, feudais, reis, imperadores, dominaram a sociedade at\u00e9 \u00e0 conquista colonial. A burguesia colonialista instalou-se ent\u00e3o no poder e imp\u00f4s a sua vontade a todas as camadas do pais at\u00e9 ao momento em que a nossa luta come\u00e7ou a derrub\u00e1-la.<\/p>\n<p>A domina\u00e7\u00e3o sucessiva das diversas minorias exploradoras \u2014 a ditadura sobre as massas \u2014 \u00e9 exercida sempre duma maneira mais ou menos camuflada a fim que as massas n\u00e3o compreendam a sua verdadeira situa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o se apercebam que est\u00e3o sujeitas \u00e0 opress\u00e3o.<\/p>\n<p>No nosso pa\u00eds antes da conquista colonial, os r\u00e9gulos e chefes tribais que exerciam o poder afirmavam que o seu poder representava a vontade dos antepassados.<\/p>\n<p>Por exemplo, em certos reinos, o Povo n\u00e3o podia ver a cara do rei, noutros casos era proibido falar ao rei, s\u00f3 se podia ouvir a sua voz.<\/p>\n<p>Ainda nos nossos dias<em>, <\/em>em algumas regi\u00f5es em que o poder dos r\u00e9gulos permaneceu relativamente intacto, \u00e9 habitual encontrarmos situa\u00e7\u00f5es deste g\u00eanero que camuflam, com os mitos e a supersti\u00e7\u00e3o, a realidade cruel da opress\u00e3o dos senhores feudais.<\/p>\n<p>Os colonialistas, para melhor camuflarem a sua domina\u00e7\u00e3o e impedirem as massas de compreenderem e se revoltarem contra a sua situa\u00e7\u00e3o miser\u00e1vel, estimularam a supersti\u00e7\u00e3o. Assim difundiram numerosas religi\u00f5es no nosso seio que, dividindo as massas, enfraqueciam-nas. Ao mesmo tempo as religi\u00f5es todas elas pregavam ao Povo a resigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No nosso pa\u00eds os mission\u00e1rios ensinavam-nos que desobedecer ao governo e ao colono era pecado, que dev\u00edamos estar muito gratos ao colonialismo portugu\u00eas porque nos trazia a verdadeira f\u00e9. No s\u00e9culo passado, a Igreja justifica o com\u00e9rcio criminoso de escravos afirmando que este era bom, pois permitia que os escravos fossem batizados. O atual arcebispo de Louren\u00e7o Marques, Cust\u00f3dio Alvim Pereira, muitas vezes repetiu publicamente que o Povo mo\u00e7ambicano n\u00e3o devia reivindicar a independ\u00eancia, porque esta s\u00f3 podia servir o comunismo e o Isl\u00e3, por outras palavras, a independ\u00eancia era um pecado contra Deus. No discurso feito em Junho de 1961 aos seminaristas da arquidiocese de Louren\u00e7o Marques, no tempo em que era ainda bispo-coadjutor, ele exprimiu os seguintes princ\u00edpios:<\/p>\n<ol>\n<li>A independ\u00eancia \u00e9 uma coisa indiferente para o bem dos homens. Pode ser boa quando se verificam condi\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas e culturais, mas estas \u00faltimas ainda n\u00e3o existem em Mo\u00e7ambique.<\/li>\n<li>Enquanto n\u00e3o existem estas condi\u00e7\u00f5es, fundar ou tomar parte no movimento pela independ\u00eancia, \u00e9 agir contra a natureza.<\/li>\n<li>Mesmo quando existem condi\u00e7\u00f5es, a m\u00e3e P\u00e1tria tem o direito de se opor \u00e0 independ\u00eancia desde que sejam respeitadas as liberdades e os direitos e se procure o bem estar e progresso civil e religioso para todos.<\/li>\n<li>Todos os movimentos que utilizam a viol\u00eancia s\u00e3o contra o Direito Natural, porque se a independ\u00eancia \u00e9 um bem deve ser obtida por meios pac\u00edficos.<\/li>\n<li>Quando o movimento \u00e9 terrorista, o clero em consci\u00eancia, n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 obrigado a abster-se como tamb\u00e9m a opor-se. Isto \u00e9 uma consequ\u00eancia l\u00f3gica da natureza da sua miss\u00e3o.<\/li>\n<li>Mesmo se o movimento \u00e9 pac\u00edfico conv\u00e9m que o clero se abstenha para poder ser o guia espiritual de todos. O Superior pode impor esta absten\u00e7\u00e3o, como o faz em Louren\u00e7o Marques.<\/li>\n<li>Os Povos nativos da \u00c1frica t\u00eam a obriga\u00e7\u00e3o de agradecer os benef\u00edcios que lhes foram dados pelos colonizadores.<\/li>\n<li>As pessoas instru\u00eddas t\u00eam a obriga\u00e7\u00e3o de combater abertamente as ilus\u00f5es dos menos instru\u00eddos sobre a independ\u00eancia.<\/li>\n<li>A independ\u00eancia africana atual nasce quase sempre da Revolu\u00e7\u00e3o e do comunismo. A doutrina da Santa S\u00e9 \u00e9 bem clara na sua oposi\u00e7\u00e3o ao comunismo ateu e revolucion\u00e1rio: a grande revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 a do Evangelho.<\/li>\n<li>A palavra de ordem \u201ca \u00c1frica para os africanos\u201d \u00e9 uma monstruosidade filos\u00f3fica, um desafio \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o crist\u00e3 porque os acontecimentos atuais mostram-nos que o Comunismo e o Islamismo desejam impor a sua civiliza\u00e7\u00e3o aos africanos.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Nessa mesma interven\u00e7\u00e3o o atual chefe da Igreja em Mo\u00e7ambique conclu\u00eda:<\/p>\n<p>\u201cAmai a vossa terra que \u00e9 Mo\u00e7ambique integrado em Portugal, da mesma maneira que um habitante do Algarve se interessa pela sua prov\u00edncia sem esquecer a P\u00e1tria comum\u2026 os atuais movimentos de liberta\u00e7\u00e3o africanos s\u00e3o contra a Igreja\u201d.<\/p>\n<p>Em resumo, segundo este prelado, devemos agradecer a explora\u00e7\u00e3o colonial, o trabalho for\u00e7ado e a venda de homens para as minas, a pilhagem das nossas terras e as culturas for\u00e7adas. Devemos agradecer a opress\u00e3o da palmat\u00f3ria, do chicote, das deporta\u00e7\u00f5es para S\u00e3o Tom\u00e9. Devemos agradecer a humilha\u00e7\u00e3o do racismo e das mulheres violadas, os filhos do mato e o sermos transformados num Povo de moleques. Devemos agradecer o obscurantismo, a falta de escolas e a supersti\u00e7\u00e3o, a falta de hospitais e assist\u00eancia social. Devemos agradecer pois. Revoltarmo-nos contra isso \u00e9 pecado, pegarmos em armas quando nos v\u00eam massacrar como em Mueda, Xinavane, Louren\u00e7o Marques, Wiriyamu \u00e9 pecado, \u00e9 ser contra a Igreja.<\/p>\n<p>Conhecemos muitas homilias dos bispos e padres cat\u00f3licos, muitas prega\u00e7\u00f5es de xeiques mu\u00e7ulmanos, muitos serm\u00f5es de todas as igrejas protestantes, e at\u00e9 a uma \u00e9poca muito recente, todos nos diziam que nos dev\u00edamos resignar, que dev\u00edamos aceitar e agradecer.<\/p>\n<p>Devemos notar no entanto que, perante os crimes crescentes cometidos pelo inimigo, nos \u00faltimos tr\u00eas anos erguem-se vozes cada vez mais numerosas nos meios religiosos condenando a guerra colonial e os seus massacres. Mas estas vozes ainda aparecem como isoladas e assim n\u00e3o as podemos classificar como tomadas de posi\u00e7\u00e3o oficiais, p\u00fablicas e claras das Igrejas em Mo\u00e7ambique contra o colonialismo.<\/p>\n<p>Mas al\u00e9m da supersti\u00e7\u00e3o, a sociedade burguesa colonialista utiliza outros argumentos para camuflar e justificar o seu poder ditatorial.<\/p>\n<p>Eles dizem que n\u00f3s somos uma ra\u00e7a inferior e atrasada, com costumes primitivos, um Povo ignorante que deve ser educado pela ra\u00e7a superior e avan\u00e7ada, cheia de bons costumes e de sabedoria. A Constitui\u00e7\u00e3o portuguesa diz expressamente que a ess\u00eancia da Na\u00e7\u00e3o portuguesa \u00e9 \u201ccivilizar\u201d os \u201cb\u00e1rbaros\u201d que n\u00f3s somos. Eles repetem continuamente este argumento, muito embora toda a gente veja que em Portugal h\u00e1 mais de 40% de analfabetos, que a mis\u00e9ria dos camponeses e do Povo portugu\u00eas \u00e9 enorme, o seu obscurantismo n\u00e3o \u00e9 inferior ao nosso e t\u00eam tantas ou mais supersti\u00e7\u00f5es do que n\u00f3s, embora diferentes.<\/p>\n<p>Dizem isso quando nos querem convencer. Mas na pr\u00e1tica, e quando formulam a sua linha pol\u00edtica, dizem e fazem coisas muito diferentes.<\/p>\n<p>O falecido cardeal arcebispo de Louren\u00e7o Marques, Teod\u00f3sio Clemente de Gouveia, numa pastoral de 1960 em que fixava a linha pol\u00edtica das escolas escrevia:<\/p>\n<p>\u201cAs escolas s\u00e3o necess\u00e1rias, sim; mas as escolas em que ensinemos aos nativos o caminho da dignidade humana e a grandeza da na\u00e7\u00e3o que os protege\u201d.<\/p>\n<p>Vir-nos \u201ceducar\u201d significa claramente tornar-nos submissos, escravos mentais do colonialismo.<\/p>\n<p>O General Kaulza de Arriaga, derrotado vergonhosamente em Mo\u00e7ambique, nas li\u00e7\u00f5es que dava ao Curso de Altos Comandos do Ex\u00e9rcito colonial fascista, no ano letivo de 1966-1967, dizia:<\/p>\n<p>\u201cSe em Angola ou Mo\u00e7ambique houvesse 20 ou 30 milh\u00f5es de negros, o problema para n\u00f3s seria extremamente grave; ainda bem que essas popula\u00e7\u00f5es s\u00e3o t\u00e3o reduzidas. Eu n\u00e3o sei se isto resultou da exporta\u00e7\u00e3o que se fez para o Brasil; se foi isso, ainda bem que se fez essa exporta\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Depois de aprovar o com\u00e9rcio infame de escravos, a forma mais degradante da explora\u00e7\u00e3o e humilha\u00e7\u00e3o humana, o \u201ccivilizador\u201d Kaulza de Arriaga que publicamente discursava sobre a conquista do \u201ccora\u00e7\u00e3o dos africanos\u201d e o \u201cmultiracialismo\u201d, preconizava ao mesmo tempo a liquida\u00e7\u00e3o do nosso Povo. Assim ele diz que:<\/p>\n<p>\u201cOutro problema muito importante \u00e9 o problema da demografia: primeiro, crescimento branco: depois, limita\u00e7\u00e3o do crescimento negro\u201d.<\/p>\n<p>A \u201cigualdade racial\u201d e a miss\u00e3o de \u201cpromo\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es africanas\u201d, s\u00e3o bem esclarecidas quando o general escreve:<\/p>\n<p>\u201ca multiracialidade tem de ser aut\u00eantica e mant\u00e9m-se aut\u00eantica mesmo quando \u00e0 sombra dela porventura precisamos de travar ligeiramente a promo\u00e7\u00e3o dos Povos negros. Depois temos de convencer esta gente que estamos a promov\u00ea-los num ritmo adequado\u2026 Claro que existe um outro problema: \u00e9 que tamb\u00e9m n\u00e3o vamos ser demasiado eficientes na promo\u00e7\u00e3o dos negros, pois devemos promov\u00ea-los sim, mas nada de exageros\u201d.<\/p>\n<p>Em resumo, \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d, \u201ceduca\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cpromo\u00e7\u00e3o\u201d, s\u00e3o apenas para camuflagem da realidade concreta de explora\u00e7\u00e3o e pilhagem, opress\u00e3o, brutaliza\u00e7\u00e3o e humilha\u00e7\u00e3o. Palavras bonitas para nos enganarem e adormecerem. Por isso, atrav\u00e9s de cada palavra de ordem do regime de opress\u00e3o devemos ver a realidade que ela encobre.<\/p>\n<p>A burguesia afirma ainda que deve ser a minoria inteligente e capaz, os ricos e os doutores, quem deve governar a maioria que eles consideram brutos e incapazes.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/dicionario\/verbetes\/s\/salazar.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Oliveira Salazar<\/a>, o grande orientador do colonial-fascismo portugu\u00eas, exprime claramente esta concep\u00e7\u00e3o dizendo (F.C.C. Egerton: <em>Salazar, Portugal and her Leader):<\/em><\/p>\n<p>\u201cEsta hierarquia entre o trabalho de inven\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o e a execu\u00e7\u00e3o propriamente dita, n\u00e3o s\u00f3 exprime uma necessidade inerente da produ\u00e7\u00e3o material, como tamb\u00e9m reflete a desigualdade imposta pela natureza \u00e0 capacidade dos indiv\u00edduos, uma coisa a que a sociedade n\u00e3o pode, nem deve tentar opor-se\u201d.<\/p>\n<p>Um dos maiores escritores portugueses, E\u00e7a de Queiroz, numa obra magistral em que denuncia e desmascara a burguesia \u2014 <em>O Conde de Abranhos \u2014 <\/em>explica-nos a mentalidade da burguesia exploradora e opressora atrav\u00e9s do sistema de educa\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria:<\/p>\n<p>\u201cAssim o estudante fica para sempre penetrado desta grande ideia social: que h\u00e1 duas classes \u2014 uma que sabe, outra que produz. A primeira naturalmente, sendo o c\u00e9rebro, governa; a segunda sendo a m\u00e3o, opera e veste, cal\u00e7a, nutre e paga a primeira\u2026 Bachar\u00e9is s\u00e3o os pol\u00edticos, os oradores, os poetas e por ado\u00e7\u00e3o t\u00e1tica, os capitalistas, os banqueiros, os altos negociadores. Futricas s\u00e3o os carpinteiros, os trolhas, os cigarreiros, os alfaiates\u2026 Esta ideia de divis\u00e3o em duas classes \u00e9 salutar, porque assim educados nela, os que saem da universidade n\u00e3o correm o perigo de serem contaminados pela ideia contr\u00e1ria \u2014 ideia absurda, ateia, \u2014destruidora da harmonia universal \u2014 de que o futrica pode saber tanto como sabe o Bacharel. N\u00e3o, n\u00e3o pode: logo, as intelig\u00eancias s\u00e3o desiguais e assim fica destru\u00eddo esse princ\u00edpio pernicioso da igualdade das intelig\u00eancias, base funesta dum socialismo perverso\u201d.<\/p>\n<p>Os opressores, em particular a burguesia colonial, com o objetivo de camuflarem a sua a\u00e7\u00e3o e manterem-nos ignorantes, passam a vida a gritar-nos nas orelhas que exercem o poder para benef\u00edcio de todos, ou da maioria, que o fazem para difundirem o progresso, a civiliza\u00e7\u00e3o, a religi\u00e3o crist\u00e3. Eles afirmam-nos sempre que \u00e9 um grande sacrif\u00edcio o exerc\u00edcio do poder, que s\u00e3o pesad\u00edssimas as responsabilidades, que de boa vontade e cora\u00e7\u00e3o alegre as abandonariam, se a isso os n\u00e3o obrigasse o dever.<\/p>\n<p>Os discursos que ouvimos, os artigos nos jornais, a propaganda na r\u00e1dio, toda a m\u00e1quina de intoxica\u00e7\u00e3o colonialista, diariamente nos tenta convencer que o poder dos opressores \u00e9 o melhor do mundo, que nos devemos sentir felizes pela domina\u00e7\u00e3o e s\u00f3 os ingratos, loucos e comunistas podem pensar o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>No entanto \u00e9 muito diferente a realidade que podemos descobrir por detr\u00e1s das palavras maravilhosas.<\/p>\n<p>Do Governador Geral ao Chefe do posto, todo o aparelho administrativo s\u00f3 tem um objetivo: fazer tudo para que as companhias, os ricos, os capitalistas, explorem o povo.<\/p>\n<p>As leis que s\u00e3o feitas, os impostos que s\u00e3o cobrados, as ordens que s\u00e3o dadas, nunca servem o Povo, sempre s\u00e3o para benef\u00edcio dos patr\u00f5es. Se algumas vezes, aparentemente, uma lei parece beneficiar o Povo, \u00e9 porque a revolta do Povo era muito forte e ent\u00e3o fez-se qualquer coisa para tentar acalmar a c\u00f3lera de Povo com o objetivo de desmobilizar as massas e assim poder continuar a domina\u00e7\u00e3o colonial.<\/p>\n<p>Um exemplo disto foi a greve da estiva em Louren\u00e7o Marques em 1963. Antes da greve eles pagavam de 12.00 a 15.00 por dia aos estivadores, mas depois da greve e apesar da repress\u00e3o, temendo uma revolta mais s\u00e9ria dos estivadores, eles subiram os sal\u00e1rios para 28.00. Agora, por causa da guerra, em toda a parte se sobem os sal\u00e1rios com o objetivo de corromper as pessoas, fazer-lhes esquecer que vivem colonizadas, exploradas, oprimidas, humilhadas. Da mesma maneira, nas zonas em que eles temem que o povo comece a apoiar a luta, que a luta se estenda para essa zona, os colonialistas diminuem logo a sua arrog\u00e2ncia, difundem grandes fotografias de pretos e brancos juntos e aparentemente alegres. No entanto, trata-se apenas duma m\u00e1scara, pois a PIDE continua a prender, torturar e assassinar pessoas enquanto que para efeitos de propaganda se distribuem rebu\u00e7ados \u00e0s crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Mas a natureza da opress\u00e3o continua a mesma.<\/p>\n<p>As leis do governo continuam a mandar-nos prender e a vender-nos para as minas da \u00c1frica do Sul. Quem ganha s\u00e3o os donos das minas de ouro, quem perde a vida, quem regressa tuberculoso, sem um bra\u00e7o ou uma perna, somos n\u00f3s.<\/p>\n<p>S\u00e3o as leis do governo quem nos obriga a cultivar o algod\u00e3o e a vend\u00ea-lo \u00e0s companhias. Quem ganha s\u00e3o as companhias, mas somos n\u00f3s quem nunca tem roupa para se vestir apesar de ter produzido o algod\u00e3o.<\/p>\n<p>As leis do governo entregam-nos como m\u00e1quina de trabalho \u00e0s companhias de a\u00e7\u00facar, \u00e0s companhias de ch\u00e1. As companhias ganham muitos e muitos milhares de contos, mas nas nossas casas, de manh\u00e3 n\u00f3s e as nossas fam\u00edlias n\u00e3o temos ch\u00e1 nem a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>\u00c9 a administra\u00e7\u00e3o que nos prende se recusamos cumprir a vontade da companhia, \u00e9 ela que nos for\u00e7a a irmos trabalhar nas machambas [quintas, terra agricult\u00e1veis], nas minas e nas f\u00e1bricas.<\/p>\n<p>S\u00e3o os nossos impostos quem paga o vencimento dessa administra\u00e7\u00e3o que nos oprime, s\u00e3o os nossos impostos quem paga a pol\u00edcia que nos prende quando desobedecemos \u00e0 companhia, s\u00e3o os nossos impostos quem paga o ex\u00e9rcito que nos massacra se nos revoltamos contra a opress\u00e3o.<\/p>\n<p>Somos n\u00f3s e o nosso trabalho quem paga tudo, mas quem \u00e9 servido e obedecido s\u00e3o os que exploram.<\/p>\n<p>Os burgueses e os colonialistas dizem que os tribunais s\u00e3o imparciais e fazem justi\u00e7a. A propaganda diz que a justi\u00e7a \u00e9 cega para n\u00e3o distinguir entre o rico ou o pobre, o grande senhor ou o pequeno trabalhador e assim dizer a verdade, dar o pr\u00eamio ao justo, castigar o culpado.<\/p>\n<p>Dizem isso \u00e9 certo. Mas nunca ningu\u00e9m ouviu dizer que os tribunais da burguesia e do colonialismo mandaram devolver a terra aos camponeses que foram espoliados. Hoje, como acontece para a barragem de Cabora Bassa em que 25 000 pessoas foram espoliadas das suas terras e expulsas, nenhum tribunal nos d\u00e1 raz\u00e3o. Ningu\u00e9m ouviu dizer que o tribunal condenou a PIDE por assassinar e torturar pessoas ou por ter pessoas meses e anos na cadeia sem serem julgadas. Os tribunais condenam os que lutam pelo Povo e aprovam, apoiam e elogiam os que massacram o Povo.<\/p>\n<p>Estes exemplos muito concretos que toda a gente conhece, que cada um de n\u00f3s verificou diariamente na sua vida, mostram muito claramente para que serve o poder dos colonialistas e capitalistas, quem \u00e9 que dele beneficia.<\/p>\n<p>Quando o poder est\u00e1 na m\u00e3o dos exploradores, ele serve os exploradores e imp\u00f5e a ditadura dos exploradores.<\/p>\n<p>Na sociedade dos exploradores, para se exercer o poder \u00e9 necess\u00e1rio pertencer ao grupo explorador, dedicar-se de corpo e esp\u00edrito ao servi\u00e7o dos exploradores.<\/p>\n<p>Na sociedade tradicional n\u00e3o \u00e9 qualquer pessoa que pode ser r\u00e9gulo. Para se ser r\u00e9gulo deve-se pertencer \u00e0 camada feudal, ser da fam\u00edlia do chefe, isto \u00e9, ser seu filho ou seu sobrinho. Quem designa o novo r\u00e9gulo ou \u00e9 o r\u00e9gulo anterior ou um \u00f3rg\u00e3o composto por feudais.<\/p>\n<p>Da mesma maneira se passa na sociedade burguesa, onde o poder pertence \u00e0s companhias, aos grandes capitalistas e \u00e9 exercido pelos servidores fi\u00e9is do capital.<\/p>\n<p>Toda a gente sabe que um Governador-Geral ou Ministro, al\u00e9m de se enriquecer durante o seu mandato, quando \u00e9 substitu\u00eddo encontra imediatamente uma alta posi\u00e7\u00e3o nos bancos e companhias. Deputados, governadores, ministros, saem das companhias e dos bancos para o governo, do governo para as companhias e para os bancos.<\/p>\n<p>Por exemplo, Pimentel dos Santos que agora \u00e9 governador de Mo\u00e7ambique, at\u00e9 \u00e0 sua nomea\u00e7\u00e3o em Outubro de 1971, entre os seus diversos cargos, tinha o de Presidente do Conselho de Administra\u00e7\u00e3o da Companhia Mineira do Lobito. \u00c9 claro que apesar de governador ele continua ligado \u00e0 sua companhia e servindo-a. Assim, em Setembro de 1972, a sua companhia, em associa\u00e7\u00e3o com a Betlehem Steel dos Estados Unidos e a Companhia de Ur\u00e2nio de Mo\u00e7ambique, recebeu em concess\u00e3o para a prospec\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o de min\u00e9rios uma \u00e1rea de dezenas de milhares de quil\u00f4metros quadrados, compreendidas entre Cioco e Changara na Prov\u00edncia de Tete. Podemos repetir o mesmo exemplo com cada um dos ministros, governadores, deputados, etc\u2026.<\/p>\n<p>No quadro de uma sociedade colonial como aquela que existe em Mo\u00e7ambique controlada pelo colonialismo, al\u00e9m das \u201cqualidades\u201d exigidas pela sociedade burguesa normal, requer-se que o indiv\u00edduo perten\u00e7a \u00e0 ra\u00e7a colonizadora ou ao menos se encontre totalmente submetido ao colonizador, transformando-se ent\u00e3o em verdadeiro fantoche.<\/p>\n<p>Estes fatos conhecidos de todos, mostram-nos claramente que o Poder, o Estado, n\u00e3o s\u00e3o instrumentos t\u00e9cnicos e neutros, mas sim armas utilizadas pelas classes exploradoras contra as massas exploradas.<\/p>\n<p>A opress\u00e3o que existe n\u00e3o \u00e9 porque o chefe de posto, administrador ou governador s\u00e3o maus, t\u00eam mau cora\u00e7\u00e3o ou se enchem de satisfa\u00e7\u00e3o ao explorar-nos.<\/p>\n<p>Duma maneira geral, individualmente, humanamente, eles n\u00e3o s\u00e3o nem melhores nem piores que qualquer outra pessoa, de qualquer outra ra\u00e7a.<\/p>\n<p>Eles s\u00e3o aquilo que s\u00e3o em virtude da posi\u00e7\u00e3o que ocupam.<\/p>\n<p>Se por acaso surge um administrador ou chefe de posto que sinta a sua consci\u00eancia torturada pelos crimes que \u00e9 for\u00e7ado a praticar, se ele ousa opor-se \u00e0quilo que \u00e9 a sua tarefa, ele \u00e9 imediatamente afastado, substitu\u00eddo, punido.<\/p>\n<p>E por isso que afirmamos sempre lutar contra um sistema e n\u00e3o contra pessoas individualmente.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica do colonialismo portugu\u00eas e da guerra de agress\u00e3o em nada foram alteradas pelas melhores ou piores qualidades humanas de Marcelo Caetano, quando este substituiu Salazar, da mesma maneira que a pr\u00e1tica criminosa e assassina da PIDE persiste sob o novo nome de DGS.<\/p>\n<p>A exist\u00eancia de classes exploradoras, brancas ou negras ou de qualquer outra cor, produz um Poder e um Estado exploradores.<\/p>\n<p>Por isso n\u00f3s dizemos sempre que lutamos contra a explora\u00e7\u00e3o do Homem pelo Homem, de que o colonialismo portugu\u00eas \u00e9 hoje a principal express\u00e3o no nosso pais. Por outras palavras, isto significa que o nosso objetivo \u00e9 derrubar o Poder das classes exploradoras em Mo\u00e7ambique representadas principalmente pelas burguesias coloniais e imperialistas, destruir o Estado Colonial, forma essencial da domina\u00e7\u00e3o colonialista e imperialista na nossa P\u00e1tria.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio conhecer claramente estes pontos. H\u00e1 nacionalistas, uns ingenuamente por n\u00e3o possu\u00edrem uma consci\u00eancia de classe desenvolvida, outros porque est\u00e3o comprometidos com a explora\u00e7\u00e3o, que pensam que o objetivo da nossa luta deveria ser a de instalar um Poder negro, em vez dum Poder branco, nomear ou eleger africanos para os diferentes postos pol\u00edticos, administrativos, econ\u00f4micos e outros, que s\u00e3o hoje ocupados por brancos. Os primeiros, quando engajados na pr\u00e1tica, compreendem e aceitam a necessidade da destrui\u00e7\u00e3o do Estado explorador, enquanto os \u00faltimos, identificando-se ao sistema, recusam a destrui\u00e7\u00e3o do Estado explorador. Em resumo, para estes nacionalistas, a quem o Poder colonial, porque estrangeiro, n\u00e3o d\u00e1 inteira satisfa\u00e7\u00e3o, o objetivo final da luta seria na realidade o de \u201cafricanizar\u201d a explora\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que eles recusam a nossa ideologia revolucion\u00e1ria \u2014 como recusam sobretudo as transforma\u00e7\u00f5es da mentalidade e comportamento que exigimos, que pretendem n\u00e3o ter import\u00e2ncia para o combate contra o colonialismo.<\/p>\n<p>Esta posi\u00e7\u00e3o \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o reacion\u00e1ria que p\u00f5e em causa a natureza e o objetivo da luta.<\/p>\n<p>A nossa luta, para eles, deveria ser uma luta entre o Poder negro e o Poder branco, quando para n\u00f3s a luta \u00e9 entre o Poder dos exploradores e o Poder Popular.<\/p>\n<p>Vimos j\u00e1 que num Estado explorador toda a m\u00e1quina do Poder, as suas leis, a sua administra\u00e7\u00e3o, tribunais, pol\u00edcia, ex\u00e9rcito, t\u00eam o objetivo \u00fanico de manter a explora\u00e7\u00e3o, servir os exploradores.<\/p>\n<p>O Estado, o Poder, as leis, n\u00e3o s\u00e3o t\u00e9cnicas ou instrumentos neutros que podem igualmente ser utilizados pelo inimigo e por n\u00f3s. Por isso a quest\u00e3o decisiva n\u00e3o \u00e9 a de substituir o pessoal europeu pelo pessoal africano.<\/p>\n<p>Da mesma maneira que os colonialistas t\u00eam o seu modo de combater e n\u00f3s temos o nosso, eles t\u00eam a sua ci\u00eancia militar e n\u00f3s a nossa, assim n\u00f3s temos o nosso poder, e eles t\u00eam o deles. H\u00e1 um antagonismo entre, n\u00f3s e eles sobre a origem, natureza, m\u00e9todos e objetivos do Poder.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos fundar um Estado popular, com as suas leis e sua m\u00e1quina administrativa, a partir dum Estado cujas leis, cuja m\u00e1quina administrativa foi inteiramente concebida pelos exploradores para os servir.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 governando com um Estado concebido para oprimir as massas que se pode servir as massas.<\/p>\n<p>\u201cAfricanizar\u201d o poder colonial e capitalista retira o sentido \u00e0 nossa luta. Para que serviria a luta se continu\u00e1ssemos submetidos ao trabalho for\u00e7ado, \u00e0s companhias, \u00e0s minas, mesmo se tudo estiver cheio de gerentes e capatazes africanos? Para qu\u00ea o sacrif\u00edcio se continuarmos a ser obrigados a vender o gado e o algod\u00e3o, em feiras que s\u00f3 beneficiam os comerciantes, mesmo se estes forem africanos? Qual a raz\u00e3o de ser de tanto sangue, se no fim continu\u00e1ssemos submetidos a um Estado que, mesmo se governado por mo\u00e7ambicanos, s\u00f3 serve os ricos e os poderosos? Como manter uma pol\u00edcia que prende e tortura os trabalhadores, guardar um ex\u00e9rcito que dispara contra o Povo, mesmo se todos os generais forem pretos?<\/p>\n<p>Um Estado de ricos e poderosos em que uma minoria decide e imp\u00f5e a sua vontade, quer a aceitemos ou n\u00e3o, quer compreendamos ou n\u00e3o, \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o sob novas formas da situa\u00e7\u00e3o contra a qual lutamos.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o do poder popular \u00e9 a quest\u00e3o essencial da nossa Revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E neste quadro que se torna absurdo falar de autonomia, ou conceber uma independ\u00eancia que nos seja oferecida por Caetano ou sucessores.<\/p>\n<p>As massas populares compreenderam, o seu instinto de classe fez-lhes compreender esta quest\u00e3o: a Independ\u00eancia, a autonomia, concebidas pelo Imperialismo, pelo colonialismo, s\u00e3o t\u00e1ticas destinadas a manterem tudo como antes, a manterem a explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi por isso, porque assumiram a defesa do seu poder, que as massas aceitam os sacrif\u00edcios mais heroicos para estender a luta e consolidar as zonas libertadas. Todas as ofensivas do inimigo, por mais furiosas e violentas, t\u00eam-se quebrado diante desta intransig\u00eancia firme das massas em defenderem o seu poder.<\/p>\n<p>Quando no nosso seio, entre 1967 e 1969, o grupo de novos exploradores tinha conseguido em grande medida paralisar a dire\u00e7\u00e3o e come\u00e7ar a desviar o sentido da nossa luta para implantar de novo uma ditadura de exploradores, foi o povo, o instinto de classe das nossas massas laboriosas que assumindo o perigo que corr\u00edamos, deu \u00e0s for\u00e7as revolucion\u00e1rias no seio da dire\u00e7\u00e3o o apoio decisivo que nos conduziu \u00e0 vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>O nosso Poder representa os interesses do nosso povo trabalhador, exprime a nossa vontade de expulsar o colonialismo e o imperialismo e criar uma sociedade nova sem explora\u00e7\u00e3o. O nosso poder \u00e9 a express\u00e3o revolucion\u00e1ria da alian\u00e7a que, defendendo os interesses da nossa classe camponesa e oper\u00e1ria, une todas as camadas e grupos sociais, animados de esp\u00edrito patri\u00f3tico e democr\u00e1tico: oper\u00e1rios, camponeses, trabalhadores das planta\u00e7\u00f5es e das serra\u00e7\u00f5es, das Concess\u00f5es, trabalhadores das minas e caminhos de ferro, dos portos e ind\u00fastrias, motoristas e mec\u00e2nicos, intelectuais, t\u00e9cnicos e funcion\u00e1rios, estudantes e empregados, pequenos e m\u00e9dios comerciantes, etc\u2026 O poder que est\u00e1 a nascer traduz esta nova rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as que surge no nosso Pa\u00eds, favor\u00e1vel \u00e0 alian\u00e7a popular. A antiga ditadura da minoria exploradora sobre o povo substitui-se o poder do povo, que se imp\u00f5e a todas as for\u00e7as colonialistas e classes reacion\u00e1rias, o Poder da maioria esmagadora que submete a \u00ednfima minoria e destr\u00f3i a explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O nosso Poder \u00e9 diferente na forma e no conte\u00fado de tudo o que existiu no passado no nosso Pa\u00eds.<\/p>\n<p>O Poder pertence ao povo, \u00e9 exercido pelos seus aut\u00eanticos representantes, para servir os interesses do povo.<\/p>\n<p>Na reuni\u00e3o de Maio de 1970, o Comit\u00ea Central da FRELIMO num documento em que se define as qualidades de um membro do Comit\u00ea Central afirma:<\/p>\n<p>\u201c\u00e9 entre os militantes que realizam de uma maneira mais saliente estas qualidades de militante, que se deve escolher os membros que devem dirigir a organiza\u00e7\u00e3o e em particular os membros do Comit\u00ea Central. O membro do Comit\u00ea Central deve vir das fileiras da luta. O membro do Comit\u00ea Central deve distinguir-se pela sua devo\u00e7\u00e3o \u00e0 luta de liberta\u00e7\u00e3o nacional, pelo abandono de si pr\u00f3prio para entregar-se \u00e0 luta e para servir os interesses do Povo\u201d.<\/p>\n<p>O mesmo documento, ao expor as qualidades exigidas do militante da FRELIMO, sublinha:<\/p>\n<p>\u201cE um servidor das massas e sacrifica-se pela maioria\u201d.<\/p>\n<p>Quer isto dizer que, enquanto na outra zona, na zona dos exploradores, se exige do dirigente ser um servidor dos exploradores, sa\u00eddo das suas fileiras, na nossa zona o dirigente sai das massas, das fileiras da luta, e <em>\u00e9 <\/em>um servidor das massas que est\u00e1 pronto a sacrificar tudo, incluindo a pr\u00f3pria vida, em benef\u00edcio da maioria, na defesa da maioria.<\/p>\n<p>A maioria somos n\u00f3s, n\u00f3s camponeses, n\u00f3s oper\u00e1rios, n\u00f3s trabalhadores nascidos do povo explorado, dominado, e que temos o objetivo de nos libertarmos, de construir a nova sociedade, a sociedade que corresponde aos nossos Interesses.<\/p>\n<p>A nossa luta j\u00e1 instalou o nosso poder em vastas regi\u00f5es da nossa P\u00e1tria. Nessas regi\u00f5es s\u00e3o os nossos interesses que comandam. A linha pol\u00edtica da FRELIMO que exprime esses interesses aplica-se diariamente em todos os setores de trabalho para beneficiar a maioria. A linha pol\u00edtica da FRELIMO que orienta o nosso poder transforma diariamente as rela\u00e7\u00f5es sociais, as rela\u00e7\u00f5es entre os homens, ela transforma a sociedade. A nossa linha transforma a natureza, p\u00f5e os recursos da nossa terra \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da maioria, mobiliza as leis da natureza para beneficiar as largas massas.<\/p>\n<p>A partir do momento em que o nosso poder se exerceu na educa\u00e7\u00e3o, definimos que a tarefa desta era de educar o homem para vencer a guerra, construir uma sociedade nova e desenvolver a P\u00e1tria.<\/p>\n<p>O nosso ensino destina-se a p\u00f4r a ci\u00eancia ao servi\u00e7o do povo e da revolu\u00e7\u00e3o, a fazer dos alunos, estudantes e intelectuais, trabalhadores ao servi\u00e7o dos outros trabalhadores.<\/p>\n<p>Quando tom\u00e1mos o poder na frente da sa\u00fade, dissemos que no trabalho hospitalar devemos materializar o princ\u00edpio que a revolu\u00e7\u00e3o liberta o povo.<\/p>\n<p>N\u00e3o queremos hospitais para ricos onde trabalham grandes t\u00e9cnicos que s\u00e3o ricos e servem os ricos. Poucos nos importa o luxo dos hospitais burgueses e colonialistas, o que nos interessa \u00e9 fazer do nosso hospital uma base, um destacamento operacional de luta contra a doen\u00e7a f\u00edsica e tamb\u00e9m a doen\u00e7a que mina o esp\u00edrito, a supersti\u00e7\u00e3o, a ignor\u00e2ncia, o tribalismo, o esp\u00edrito burgu\u00eas.<\/p>\n<p>Em Cabo Delgado, em Niassa, em Tete, em Manica e Sofala, as companhias, os ricos propriet\u00e1rios abandonam as nossas zonas e fogem.<\/p>\n<p>Assim o nosso poder instala-se na produ\u00e7\u00e3o. J\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o as companhias e os ricos que definem os objetivos da produ\u00e7\u00e3o e do trabalho e beneficiam do nosso esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>Hoje, porque temos o Poder, a produ\u00e7\u00e3o liberta o homem, d\u00e1-lhe a sua identidade de transformador da natureza e da sociedade. Produzimos para aprender e aprendemos para produzir e lutar melhor, produzimos para satisfazer as nossas necessidades, para alimentar as nossas crian\u00e7as e fam\u00edlias, vivermos melhor.<\/p>\n<p>O nosso Poder cria a produ\u00e7\u00e3o coletiva ao servi\u00e7o do Povo e da Revolu\u00e7\u00e3o, destr\u00f3i a produ\u00e7\u00e3o exploradora, transforma os produtores individualistas em produtores integrados na coletividade. A produ\u00e7\u00e3o em vez de dividir os homens em explorados e exploradores une-os agora todos, faz de todos servidores do Povo, desenvolvendo o bem estar do Povo.<\/p>\n<p>Nas zonas livres o Estado colonial e burgu\u00eas foi destru\u00eddo, as estruturas feudais desapareceram. Surge um novo Poder que \u00e9 democr\u00e1tico que \u00e9 nosso.<\/p>\n<p>Os elementos que exercem o Poder gozam realmente da confian\u00e7a das massas pois cresceram politicamente no seio da luta das massas. Eles discutem continuamente com as massas. As novas orienta\u00e7\u00f5es, as novas diretrizes, v\u00eam da discuss\u00e3o e da experi\u00eancia pr\u00e1tica das massas, s\u00e3o assumidas pelas massas para serem aplicadas.<\/p>\n<p>Do C\u00edrculo \u00e0 Localidade, do Distrito \u00e0 Prov\u00edncia e \u00e0 Na\u00e7\u00e3o, pela primeira vez na nossa Hist\u00f3ria, o Povo tem um poder que \u00e9 seu, que n\u00e3o sente como coisa estranha que o submete.<\/p>\n<p>Poder que pertence \u00e0 maioria explorada e que imp\u00f5e a vontade desta a toda a Na\u00e7\u00e3o, assim \u00e9 o nosso Poder.<\/p>\n<h4>2. Organizar a Vida Democr\u00e1tica<\/h4>\n<p>O exerc\u00edcio do Poder, a sua forma e os seus m\u00e9todos, devem corresponder ao seu conte\u00fado.<\/p>\n<p>Mas acontece muitas vezes que o conte\u00fado novo seja ainda guardado nas garrafas velhas, isto \u00e9, exprime-se pela forma antiga.<\/p>\n<p>O nosso Estatuto ao definir os m\u00e9todos de trabalho na FRELIMO \u2014 cap\u00edtulo VII, al\u00ednea a) e seguintes \u2014 expressamente estabelece uma s\u00e9rie de pontos que podem ser resumidos nas f\u00f3rmulas seguintes: livre discuss\u00e3o, submiss\u00e3o da minoria \u00e0 maioria, responsabilidade coletiva, cr\u00edtica e autocr\u00edtica do trabalho e do comportamento.<\/p>\n<p>O nosso Estatuto, o conte\u00fado da nossa a\u00e7\u00e3o, exigem uma democracia real, uma verdadeira liberdade de express\u00e3o de opini\u00e3o, uma discuss\u00e3o profunda acerca das decis\u00f5es que tomamos.<\/p>\n<p>Por isso na nossa vida damos tanta import\u00e2ncia \u00e0s reuni\u00f5es com as massas e com os combatentes. S\u00e3o as reuni\u00f5es que permitem auscultar o verdadeiro sentimento e consci\u00eancia da base, detectar as contradi\u00e7\u00f5es, explicar e fazer assumir a linha e as orienta\u00e7\u00f5es concretas para cada situa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica.<\/p>\n<p>As nossas decis\u00f5es devem sempre ser democr\u00e1ticas no conte\u00fado e na forma. No conte\u00fado quer dizer que elas correspondem aos interesses reais das largas massas. Na forma significa que as largas massas devem participar na elabora\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o, senti-la como delas e n\u00e3o imposta de cima para baixo.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es concretas, de emerg\u00eancia, em que o respons\u00e1vel tem que assumir a tarefa de decidir s\u00f3 sem consultar ningu\u00e9m. Numa emboscada o comandante n\u00e3o vai reunir os combatentes para que estes votem o momento em que se abre o fogo, se d\u00e1 o assalto ou ordem de recuo.<\/p>\n<p>Mas em contrapartida, quanto mais e melhor antes da batalha o respons\u00e1vel discutiu com os combatentes, lhes fez assumir o sentido e objetivo da batalha em que se engajam, as dificuldades e a t\u00e1tica a seguir, tanto mais estes estar\u00e3o disciplinados na linha do fogo, mais prontos estar\u00e3o para o sacrif\u00edcio, porque a vit\u00f3ria depende dum bom combate que resulta do comando que libertou a iniciativa da base.<\/p>\n<p>Pode acontecer por vezes que no curso da discuss\u00e3o um companheiro ou se exprima mal, ou mesmo exponha uma ideia errada. A nossa tend\u00eancia pode ser ent\u00e3o a de o mandar calar, na base da nossa autoridade. O resultado \u00e9 negativo: primeiro porque esse orador sentir-se-\u00e1 incompreendido e persistir\u00e1 na sua ideia errada indo at\u00e9 murmurar fora da reuni\u00e3o. Segundo, e mais importante ainda, para se combater uma ideia errada \u00e9 necess\u00e1rio que todos, ou a larga maioria, compreendam como e porque a ideia \u00e9 errada.<\/p>\n<p>A democracia no seio do Partido \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para que todos e cada um se sintam engajados e respons\u00e1veis da situa\u00e7\u00e3o, pois que a cria\u00e7\u00e3o e desenvolvimento da situa\u00e7\u00e3o sempre foram associados.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que nas estruturas temos escal\u00f5es diferentes. Na pr\u00e1tica o tipo e natureza de cada discuss\u00e3o variam em fun\u00e7\u00e3o do escal\u00e3o em que a discuss\u00e3o se estabelece, o que \u00e9 normal. Mas o princ\u00edpio de discutir e elaborar a decis\u00e3o em conjunto deve sempre ser mantido.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o burocr\u00e1tica, isto \u00e9, a decis\u00e3o tomada pura e simplesmente pelo chefe ou dire\u00e7\u00e3o sem que haja um debate e explica\u00e7\u00e3o com as massas, embora possa ter um conte\u00fado excelente \u2014 o que \u00e9 dif\u00edcil \u2014 n\u00e3o mobiliza as massas, que em \u00faltima an\u00e1lise s\u00e3o quem a deve assumir, p\u00f4r em aplica\u00e7\u00e3o e defender.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o burocr\u00e1tica arrisca-se, embora tendo um bom conte\u00fado, a n\u00e3o corresponder ao n\u00edvel de compreens\u00e3o das massas, por outras palavras, ser irrealista e criar uma contradi\u00e7\u00e3o que teria sido evitada se uma discuss\u00e3o tivesse tido lugar.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o democr\u00e1tica exige uma prepara\u00e7\u00e3o rigorosa. Antes da discuss\u00e3o devemos proceder a uma investiga\u00e7\u00e3o cuidadosa do assunto ou assuntos a debater, detectar o sentido geral da quest\u00e3o, estarmos claros sobre a linha do partido na mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>Assim preparados estamos em condi\u00e7\u00f5es de orientar a discuss\u00e3o e formular as orienta\u00e7\u00f5es corretas, as palavras de ordem exatas.<\/p>\n<p>Devemos sempre considerar que, se uma orienta\u00e7\u00e3o em si \u00e9 correta, muitas vezes se tentamos imp\u00f4-la pode ser negativa por n\u00e3o corresponder \u00e0 compreens\u00e3o das massas. Em particular, as orienta\u00e7\u00f5es que contrariam as tradi\u00e7\u00f5es devem ser introduzidas progressivamente, depois de uma mobiliza\u00e7\u00e3o profunda que toque em especial o setor ou setores que s\u00e3o mais v\u00edtimas dessa tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao orientarmos uma discuss\u00e3o devemos utilizar a t\u00e1tica de unir os setores conscientes, isolar as for\u00e7as recalcitrantes, ganhar ao ponto de vista justo a maioria hesitante.<\/p>\n<p>Por isso nas discuss\u00f5es n\u00e3o podemos ser abstratos, temos que tocar os pontos concretos, raspar as crostas para que sangrem as feridas e assim todos sintam realmente a necessidade da resolu\u00e7\u00e3o do problema.<\/p>\n<p>Preparar pois a discuss\u00e3o como quem prepara um combate: fazer um reconhecimento estrat\u00e9gico e t\u00e1tico dos pontos a discutir, conhecer os pontos fracos e fortes nossos e daquilo que queremos combater, organizar e dispor corretamente as nossas ideias, conhecermos como avan\u00e7ar e como recuar se necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Para levarmos a cabo a ofensiva de democratiza\u00e7\u00e3o dos nossos m\u00e9todos de trabalho, devemos dar uma import\u00e2ncia \u00e0 democracia pol\u00edtica, econ\u00f4mica e militar no nosso seio.<\/p>\n<p>Ao trabalharmos devemos sempre ter em mente que o Poder pertence ao Povo e somos todos igualmente oprimidos e humilhados, vendidos e explorados, massacrados, que somos irm\u00e3os da mesma classe com uma mesma miss\u00e3o: servir o Povo. \u00c9 esta a base da nossa unidade, o ponto de partida da nossa democracia.<\/p>\n<p>A democracia pol\u00edtica \u00e9 fundada na discuss\u00e3o coletiva, na resolu\u00e7\u00e3o coletiva dos nossos problemas. Todos e cada um s\u00e3o chamados a exprimirem os seus pontos de vista sobre como melhor servir o Povo em cada situa\u00e7\u00e3o concreta. Todos e cada um s\u00e3o respons\u00e1veis pela vida da Organiza\u00e7\u00e3o, pelo desenvolvimento e consolida\u00e7\u00e3o da luta e Revolu\u00e7\u00e3o. Todos e cada um t\u00eam o dever de desenvolver criadoramente a nossa linha, sintetizando as nossas experi\u00eancias ricas, adquiridas no combate pol\u00edtico e armado contra o inimigo, na transforma\u00e7\u00e3o da sociedade, na mobiliza\u00e7\u00e3o das leis da natureza a favor do progresso coletivo.<\/p>\n<p>Os erros cometidos, individuais ou coletivos, as viola\u00e7\u00f5es da nossa linha e da nossa disciplina devem servir-nos para nos educar. As li\u00e7\u00f5es tiradas dos erros devem ser discutidas pelas massas para que elas adquiram a nova experi\u00eancia. As viola\u00e7\u00f5es da linha e as agress\u00f5es contra a nossa disciplina devem ser objeto de discuss\u00e3o e cr\u00edtica p\u00fablica das massas. Fazendo assim, por um lado utilizamos os erros para aprofundar a nossa consci\u00eancia pol\u00edtica, e por outro lado entregamos \u00e0s massas a defesa da linha e da disciplina, que \u00e9 a sua propriedade.<\/p>\n<p>A tend\u00eancia de certos camaradas de esconder perante as massas os erros cometidos especialmente por respons\u00e1veis, reflete falta de democracia pol\u00edtica e falta de confian\u00e7a nas massas.<\/p>\n<p>O poder pertence ao Povo trabalhador. A linha pol\u00edtica exprime os interesses das massas laboriosas e a disciplina \u00e9 a sentinela que defende a linha. Assim \u00e9 evidente que a defesa da linha e da disciplina compete primeiramente \u00e0s massas populares, essa defesa \u00e9 a defesa da sua vida.<\/p>\n<p>Confiar \u00e0s massas a tarefa de criticar os erros, os desvios e agress\u00f5es contra a linha e a disciplina \u00e9 afirmar tamb\u00e9m que os erros, os desvios e agress\u00f5es, os crimes, s\u00e3o antes de tudo atos pol\u00edticos que refletem ou insufici\u00eancias na compreens\u00e3o da linha ou oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 linha. Neste quadro a den\u00fancia e cr\u00edtica p\u00fablicas constituem li\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que nos educam e educam tamb\u00e9m aquele que violou a linha.<\/p>\n<p>\u00c9 por esta raz\u00e3o que nos opomos de maneira geral aos julgamentos secretos ou \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o imediata com a elabora\u00e7\u00e3o de c\u00f3digos penais e disciplinares. O julgamento secreto quando introduzido como sistema impede as massas de exercerem o seu Poder e abre o caminho para abusos eventuais. Os c\u00f3digos por seu lado tendem a congelar a evolu\u00e7\u00e3o din\u00e2mica e o processo de transforma\u00e7\u00e3o constante em que nos engajamos, podem por isso facilmente despolitizar e burocratizar a justi\u00e7a.<\/p>\n<p>A democracia militar \u00e9 assegurada pela participa\u00e7\u00e3o de todos na sintetiza\u00e7\u00e3o das nossas experi\u00eancias de combate, no estudo coletivo do conjunto do nosso pa\u00eds e do inimigo, nas li\u00e7\u00f5es tiradas em comum sobre cada a\u00e7\u00e3o, na discuss\u00e3o constante sobre os m\u00e9todos para estendermos a luta armada a novas zonas e consolidar a nossa retaguarda.<\/p>\n<p>A democracia econ\u00f4mica insere-se diretamente no nosso combate pela liquida\u00e7\u00e3o do sistema de explora\u00e7\u00e3o do homem.<\/p>\n<p>Asseguramos a democracia econ\u00f4mica abolindo primeiramente o poder das companhias e das classes exploradoras coloniais-capitalistas, ou tradicionais-feudais. Impedindo que estas classes explorem os trabalhadores, criamos as bases da democracia econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>O nosso trabalho de mobiliza\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o das massas na transforma\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o individual ou familiar em produ\u00e7\u00e3o coletiva consolida o processo da democracia econ\u00f4mica. Com efeito, agindo assim impedimos que a produ\u00e7\u00e3o individual ou familiar degenere em propriedade exploradora originando classes de novos exploradores. Simultaneamente tornamos concreto o princ\u00edpio justo de que todas as riquezas do nosso pa\u00eds e o nosso esfor\u00e7o pertencem \u00e0 coletividade, servem a coletividade e destinam-se a desenvolver e melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida e o bem estar do Povo.<\/p>\n<p>Neste quadro, o trabalho, a participa\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 um dever como tamb\u00e9m um direito de todos e cada um.<\/p>\n<p>Para a Revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 desempregados, in\u00fateis ou inv\u00e1lidos, talentos que n\u00e3o possam ser utilizados. Todos t\u00eam o dever e o direito de participarem na luta coletiva pela transforma\u00e7\u00e3o da sociedade e pela utiliza\u00e7\u00e3o dos recursos da natureza em proveito da coletividade. A participa\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o une-nos \u00e0 nossa classe, e a recusa de participa\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o exprime uma oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa linha e um apoio aos exploradores.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o coletiva sobre os m\u00e9todos de aumentar, diversificar \u00e9 melhorar a nossa produ\u00e7\u00e3o, a s\u00edntese constante e coletiva das nossas experi\u00eancias positivas e negativas, a decis\u00e3o tomada em comum sobre o m\u00e9todo de reparti\u00e7\u00e3o dos frutos da produ\u00e7\u00e3o tendo em conta as necessidades quer da guerra, quer da eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de vida das largas massas, garantem o desenvolvimento da democracia econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Dentro deste quadro compreendemos que manifesta\u00e7\u00f5es de pregui\u00e7a no nosso seio, a falta de respeito pelos bens do Povo e da Organiza\u00e7\u00e3o, constituem atentados graves contra a nossa linha pol\u00edtica de democracia econ\u00f4mica, express\u00f5es dum esp\u00edrito de parasita, esp\u00edrito de explorador.<\/p>\n<p>O processo e a experi\u00eancia da democracia \u00e9 novo no nosso pa\u00eds. O nosso Povo, porque sempre viveu sujeito \u00e0 domina\u00e7\u00e3o das diversas classes exploradoras, nunca conheceu a democracia real.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o trouxe a democracia, ela afirma-se j\u00e1 a diversos n\u00edveis: pol\u00edtico, econ\u00f4mico, militar. Ela \u00e9 exercida ainda no quadro das estruturas da Organiza\u00e7\u00e3o. Importa na fase presente alargarmos o campo da sua aplica\u00e7\u00e3o, materializando assim ainda mais o princ\u00edpio de que o Poder pertence \u00e0s massas trabalhadoras.<\/p>\n<p>Dentro deste quadro, uma necessidade importante, que corresponde \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o do Poder nas zonas libertadas, \u00e9 a de progressivamente, come\u00e7ando dos escal\u00f5es inferiores, ir generalizando o sistema de elei\u00e7\u00f5es para a designa\u00e7\u00e3o dos respons\u00e1veis civis da popula\u00e7\u00e3o, por outras palavras, criarmos verdadeiras estruturas democr\u00e1ticas de base do Poder administrativo.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que as elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem ser an\u00e1rquicas, mas t\u00eam de ser orientadas de maneira a que a escolha das massas recaia nos elementos que assumiram na ideia e comportamento a linha do Partido, possuam capacidade de iniciativa e de organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Importa por isso exercer uma grande vigil\u00e2ncia para impedir que sejam eleitos elementos com tend\u00eancias exploradoras, embora gozando de popularidade \u2014 por raz\u00f5es subjetivas ou a\u00e7\u00f5es demag\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Velhos e jovens, homens e mulheres, igualmente devem participar na escolha e devem aparecer no exerc\u00edcio das responsabilidades lutando contra a tend\u00eancia arcaica de discriminar a mulher e os jovens.<\/p>\n<p>Devemos compreender que na medida em que a revolu\u00e7\u00e3o se desenvolve e se consolida e a vida se reorganiza, uma divis\u00e3o de tarefas cada vez mais n\u00edtida se estabelece entre a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a administra\u00e7\u00e3o e as estruturas militares.<\/p>\n<p>A associa\u00e7\u00e3o cada vez maior de representantes eleitos das popula\u00e7\u00f5es \u00e0s tarefas de administra\u00e7\u00e3o das mesmas, fomenta a iniciativa das massas e habitua as massas \u00e0 vida democr\u00e1tica, cria um sentido de responsabilidade coletiva, leva as massas a exercerem o poder.<\/p>\n<p>Em definitivo, na fase final, a tarefa do Partido pol\u00edtico \u00e9 dirigir, organizar, orientar e educar as massas; a tarefa das estruturas administrativas \u00e9 p\u00f4r em pr\u00e1tica as decis\u00f5es nos diferentes campos da vida econ\u00f4mica e social, enquanto que a tarefa da estrutura militar \u00e9 apoiar as massas e proteg\u00ea-las, expulsar o inimigo da P\u00e1tria, defender a P\u00e1tria e participar ativamente na sua reconstru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Partido dirige e orienta a reorganiza\u00e7\u00e3o da vida das massas e a reconstru\u00e7\u00e3o nacional, como orienta e dirige o ex\u00e9rcito, definindo-lhe os alvos, educando a consci\u00eancia. O ex\u00e9rcito cria as condi\u00e7\u00f5es para libertar o Povo e a terra. A administra\u00e7\u00e3o, ela p\u00f5e em aplica\u00e7\u00e3o as diretrizes sobre a reconstru\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>Na fase atual em que aumentam e se diversificam as tarefas da administra\u00e7\u00e3o, importa progressivamente irmos democratizando os m\u00e9todos do trabalho e de designa\u00e7\u00e3o de respons\u00e1veis.<\/p>\n<p>Os nossos m\u00e9todos de trabalho n\u00e3o s\u00e3o secund\u00e1rios, pois que s\u00e3o eles quem materializa a aplica\u00e7\u00e3o das decis\u00f5es.<\/p>\n<p>Para um \u00f3rg\u00e3o de dire\u00e7\u00e3o trabalhar com as massas necessita que esteja unido.<\/p>\n<p>Quando existem contradi\u00e7\u00f5es num \u00f3rg\u00e3o de dire\u00e7\u00e3o nasce o boato, a intriga e a cal\u00fania. Cada fac\u00e7\u00e3o procurar\u00e1 mobilizar apoio para a sua corrente, dividindo as massas. Quando estamos desunidos, dividimos as massas e os combatentes, conduzimos a base a perder confian\u00e7a na dire\u00e7\u00e3o, a desmobilizar-se e tornar-se inativa, abrimos brechas por onde o inimigo penetra. Finalmente dividimos os nossos amigos.<\/p>\n<p>Para estarmos unidos e unirmos as massas, devemo-nos conhecer bem.<\/p>\n<p>Conhecermo-nos bem \u00e9 sabermos que estamos corretos na ideia e no comportamento, e quando h\u00e1 algo de incorreto, estarmos prontos a assumir a responsabilidade, submetendo-nos \u00e0 cr\u00edtica e autocr\u00edtica.<\/p>\n<p>A unidade no seio da dire\u00e7\u00e3o, \u00e0 volta da linha correta seja a que escal\u00e3o for, \u00e9 a for\u00e7a motriz do setor e condi\u00e7\u00e3o para o sucesso da tarefa.<\/p>\n<p>Da mesma maneira que uma pessoa se deve alimentar diariamente a fim de que o seu corpo se encontre em condi\u00e7\u00f5es prop\u00edcias para aguentar as tarefas e dificuldades, assim tamb\u00e9m a unidade se alimenta diariamente.<\/p>\n<p>A vida coletiva, o trabalho coletivo, o estudo em conjunto, a cr\u00edtica e autocr\u00edtica, a ajuda m\u00fatua, s\u00e3o alimentos, os sais e vitaminas da unidade.<\/p>\n<p>Os membros da dire\u00e7\u00e3o n\u00e3o devem ter vidas separadas uns dos outros, cada um ter uma vida pr\u00f3pria e s\u00f3 se juntarem no momento em que h\u00e1 reuni\u00f5es. Os membros duma dire\u00e7\u00e3o, tendo em conta \u00e9 claro as tarefas de cada um e as desloca\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias, devem esfor\u00e7ar-se por viverem juntos, conhecendo-se assim melhor no quotidiano, apreendendo as defici\u00eancias de cada um, para melhor se corrigirem mutuamente. Trabalharem juntos, produzirem juntos, suarem juntos, juntos sofrerem os rigores da marcha, juntos superarem as dificuldades do inimigo, da natureza, cria la\u00e7os fortes de amizade e respeito m\u00fatuo. O que nos liga n\u00e3o s\u00e3o palavras, mas muitas a\u00e7\u00f5es que vivemos juntos servindo o Povo, liga-nos uma unidade irrigada pelo suor e sofrimento, fertilizada pelo sangue.<\/p>\n<p>Assim, quando sentimos que um companheiro est\u00e1 atrasado, vamo-nos esfor\u00e7ar por faz\u00ea-lo avan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Temos que compreender que a ignor\u00e2ncia de um \u00e9 um ponto fraco coletivo e afeta o trabalho de todos.<\/p>\n<p>Como podemos aceitar por exemplo, que o nosso companheiro continue analfabeto, sem falar portugu\u00eas? Ser\u00e1 necess\u00e1rio, para alfabetizarmos esse camarada, para lhe ensinarmos portugu\u00eas, que se re\u00fana o Comit\u00ea Central e vote uma resolu\u00e7\u00e3o sobre isso?<\/p>\n<p>O ponto fraco de um nunca pode servir de ponto forte para ningu\u00e9m, o ponto fraco de um, o erro de um dificulta o trabalho de todos, prejudica a nossa tarefa, enfraquece <em>a <\/em>coletividade.<\/p>\n<p>A nossa preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 de avan\u00e7ar como as vagas do mar, avan\u00e7ar em conjunto, n\u00e3o deixar outros atrasados e ignorantes cometendo erros.<\/p>\n<p>Organizar o estudo pol\u00edtico, cient\u00edfico e liter\u00e1rio para em conjunto assumirmos a situa\u00e7\u00e3o e dispormos da t\u00e9cnica capaz de nos ajudar a superar as dificuldades.<\/p>\n<p>Utilizar com frequ\u00eancia a cr\u00edtica e autocr\u00edtica, tanto para retificar os m\u00e9todos de trabalho, como para corrigir os erros e desvios individuais.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o fazer da cr\u00edtica e autocr\u00edtica uma rotina religiosa, uma esp\u00e9cie de confession\u00e1rio em que dizemos os pecados, somos absolvidos, recebemos uma penit\u00eancia e preparamo-nos para repetir as mesmas situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Combatermos energicamente o esp\u00edrito de vit\u00f3ria, a auto-satisfa\u00e7\u00e3o. Nada mais rid\u00edculo e falso do que ouvir um camarada dizer que \u201ctudo est\u00e1 bem, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 boa\u201d.<\/p>\n<p>Afirma\u00e7\u00f5es como esta mostram auto-satisfa\u00e7\u00e3o e rotina, como demonstram falta de an\u00e1lise, incapacidade para detectar as defici\u00eancias e organizar o combate contra elas.<\/p>\n<p>A falta de an\u00e1lise e estudo conduz \u00e0 ignor\u00e2ncia dos problemas e \u00e0 hesita\u00e7\u00e3o perante as situa\u00e7\u00f5es concretas, e um vacilante n\u00e3o pode ter autoridade perante as massas.<\/p>\n<p>Um elemento n\u00e3o \u00e9 respons\u00e1vel, n\u00e3o \u00e9 dirigente, apenas porque foi eleito ou designado para executar uma tarefa.<\/p>\n<p>A verdadeira autoridade que faz um dirigente, \u00e9 a autoridade pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Quando um dirigente n\u00e3o possui a confian\u00e7a dos seus companheiros e as massas, ou tendo-a possu\u00eddo perdeu-a, cai na autoridade administrativa, no autoritarismo.<\/p>\n<p>Possuir autoridade pol\u00edtica \u00e9 primeiramente demonstrar, pelo comportamento e ideias, que se assumiu a linha do partido e se vive essa linha continuamente.<\/p>\n<p>O dirigente \u00e9 em todo o momento o representante, o defensor e o exemplo da linha pol\u00edtica da FRELIMO.<\/p>\n<p>Se surge uma contradi\u00e7\u00e3o entre a linha e o comportamento do dirigente, este n\u00e3o se encontra em condi\u00e7\u00f5es de perante as massas representar, defender e mostrar o que \u00e9 a linha.<\/p>\n<p>Costumamos dizer duma maneira vulgar, que aquele que tem bife na boca n\u00e3o pode falar.<\/p>\n<p>Por outras palavras, um respons\u00e1vel que \u00e9 indisciplinado, por muito que fale de disciplina, s\u00f3 explicar\u00e1 na realidade a indisciplina e com a sua indisciplina vai fomentar liberalismo e anarquia.<\/p>\n<p>Um respons\u00e1vel que desvia bens do Partido para satisfazer os seus interesses e v\u00edcios poder\u00e1 fazer mil discursos sobre a import\u00e2ncia de respeitar os bens do Partido e do Povo, o pre\u00e7o do sangue com que esse material foi adquirido. Na realidade ele s\u00f3 pode ensinar corrup\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas, e estas lutar\u00e3o entre si para ver quem mais e melhor se beneficia dos bens do Partido, quem mais e melhor explorar\u00e1 a seu favor o sangue e suor do Povo.<\/p>\n<p>Um respons\u00e1vel que recuse ter calos nas m\u00e3os poder\u00e1 fazer centenas de reuni\u00f5es sobre a produ\u00e7\u00e3o, mas isso n\u00e3o levar\u00e1 ningu\u00e9m a produzir e n\u00e3o organizar\u00e1 uma s\u00f3 cooperativa.<\/p>\n<p>Um respons\u00e1vel que fale de produ\u00e7\u00e3o coletiva e queira manter a sua machamba e o seu gado, continuar\u00e1 a ensinar que devemos persistir na propriedade privada.<\/p>\n<p>Um respons\u00e1vel que organiza o combate contra as tradi\u00e7\u00f5es que oprimem a mulher e \u00e9 o primeiro a aceitar que os filhos e filhas sejam submetidos aos ritos de inicia\u00e7\u00e3o, na realidade mobiliza as massas para continuarem mergulhadas nas tradi\u00e7\u00f5es reacion\u00e1rias.<\/p>\n<p>Um respons\u00e1vel que vem explicar o valor da higiene e sa\u00fade e \u00e9 incapaz de cavar uma s\u00f3 latrina, de limpar a sua casa e libert\u00e1-la de moscas e mosquitos, que n\u00e3o ferve a \u00e1gua de beber, que continua a recorrer a curandeiros e feiticeiros, conduz pelo seu exemplo o Povo a fazer o mesmo.<\/p>\n<p>Em resumo, as massas dir\u00e3o sempre: ele diz palavras porque lhe deram ordem de dizer essas palavras, mas essas palavras s\u00e3o vazias como o vento, deixa passar e tudo continuar\u00e1 como antes.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 que o respons\u00e1vel, pelo seu comportamento, cria o caos, e temendo a censura dos seus superiores, temendo ser afastado do seu posto que rodeou de privil\u00e9gios, vai impor uma ditadura \u00e0s massas para criar uma fachada de coisas bonitas quando tudo est\u00e1 em ru\u00ednas.<\/p>\n<p>Em vez de discutir e convencer, berrar\u00e1 ordens, dar\u00e1 puni\u00e7\u00f5es, e ao mesmo tempo, porque com a sua vida cria compromissos, n\u00e3o pode punir os seus c\u00famplices, criando uni sentimento geral de injusti\u00e7a, n\u00e3o pode punir os que conhecem os seus pontos fracos criando liberalismo.<\/p>\n<p>Este respons\u00e1vel cria todas as condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para fomentar contradi\u00e7\u00f5es nas massas, divis\u00f5es, abre as portas e janelas aos boatos e intrigas, em resumo, instala uma base inimiga onde deveria ser um centro difusor da vida da FRELIMO.<\/p>\n<p>A autoridade pol\u00edtica exige do respons\u00e1vel uma alta disciplina, isto \u00e9, que as suas ideias, vontade e comportamento se identifiquem totalmente com a linha da FRELIMO e as decis\u00f5es dos \u00f3rg\u00e3os competentes. A autoridade pol\u00edtica requer ainda compet\u00eancia, vontade de aprender, capacidade em reconhecer as pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es e decis\u00e3o em combat\u00ea-las.<\/p>\n<p>Um incompetente n\u00e3o est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de dirigir e organizar. Para manter a sua posi\u00e7\u00e3o impor\u00e1 decis\u00f5es, e como estas ter\u00e3o de ser erradas, ele impedir\u00e1 a discuss\u00e3o e a cr\u00edtica. Ao mesmo tempo ele oprimir\u00e1 todos aqueles em quem sente qualidades superiores, porque conhecendo apenas a sua ambi\u00e7\u00e3o, ignorando as necessidades do conjunto, ele v\u00ea na compet\u00eancia dos outros \u201cconcorr\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Quanto mais competente \u00e9 um elemento, mais vontade de aprender dos outros ele tem, melhor reconhecer\u00e1 as suas limita\u00e7\u00f5es e lutar\u00e1 contra elas. Por isso fomentar\u00e1 sempre um esp\u00edrito coletivo, a discuss\u00e3o; estimular\u00e1 a iniciativa dos seus subordinados e combater\u00e1 o burocratismo que dificulta e trava o progresso.<\/p>\n<p>Um dirigente deve possuir a vis\u00e3o do conjunto, a \u00fanica que lhe permite compreender como a sua tarefa ou setor de atividade se integra no processo geral da luta. Assim poder\u00e1 definir os objetivos e prioridades do seu trabalho a curto, m\u00e9dio e longo termo.<\/p>\n<p>\u00c9 estabelecendo as prioridades corretamente que se pode planificar o trabalho. Planificar significa organizar a tempo os recursos materiais e humanos, criar as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e materiais para se atingirem os objetivos programados dentro do per\u00edodo determinado, estabelecer a estrat\u00e9gia e a t\u00e1tica adequadas para utiliza\u00e7\u00e3o mais eficiente dos recursos de maneira a cumprir-se corretamente o plano.<\/p>\n<p>Um aspecto final que \u00e9 exigido do dirigente \u00e9 a preocupa\u00e7\u00e3o constante pela melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida das massas e combatentes. A Revolu\u00e7\u00e3o destina-se a criar melhores condi\u00e7\u00f5es de vida.<\/p>\n<p>Isso implica as transforma\u00e7\u00f5es materiais que fornecem a base objetiva da eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de vida. Esta a\u00e7\u00e3o requer tamb\u00e9m uma a\u00e7\u00e3o de explica\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o para que por um lado se compreenda a necessidade da transforma\u00e7\u00e3o e por outro se compreenda como beneficiar da transforma\u00e7\u00e3o e como a utilizar.<\/p>\n<p>Assim, por exemplo, n\u00e3o basta criar-se uma horta, \u00e9 necess\u00e1rio ainda que as pessoas compreendam o beneficio que lhes traz o consumo da salada e como a consumir. N\u00e3o \u00e9 suficiente cavarem-se latrinas numa povoa\u00e7\u00e3o ou base: \u00e9 indispens\u00e1vel explicar-se qual a sua necessidade e como as utilizar.<\/p>\n<p>Em \u00faltima an\u00e1lise, um respons\u00e1vel, uma dire\u00e7\u00e3o, exprimem a nossa linha.<\/p>\n<p>Assim a sua qualidade central \u00e9 a defesa da linha, a preocupa\u00e7\u00e3o pela vida da Organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, pela vida das massas e combatentes.<\/p>\n<p>\u00c9 este o crit\u00e9rio supremo para apreciarmos os m\u00e9ritos do nosso trabalho, a pedra de toque para distinguirmos a dire\u00e7\u00e3o correta e eficaz da dire\u00e7\u00e3o incompetente e errada.<\/p>\n<p>Na zona colonialista e capitalista a dire\u00e7\u00e3o \u00e9 julgada em fun\u00e7\u00e3o dos benef\u00edcios que a sua atividade traz para as classes exploradoras e a sua capacidade em impedir e reprimir o movimento reivindicativo das massas.<\/p>\n<p>Porque o nosso objetivo \u00e9 servir o Povo e o Poder pertence ao Povo, o nosso crit\u00e9rio s\u00e3o as transforma\u00e7\u00f5es operadas no seio da sociedade e a utiliza\u00e7\u00e3o dos recursos da natureza em benef\u00edcio das largas massas.<\/p>\n<h4>3. Centros Difusores da Linha<\/h4>\n<p>Um centro nosso, educacional ou sanit\u00e1rio, uma creche ou posto comercial, uma cooperativa ou destacamento, uma base ou um distrito, para al\u00e9m da sua tarefa espec\u00edfica, tem a miss\u00e3o fundamental de ser um centro difusor da nossa linha e da nova vida, um modelo da nova sociedade em constru\u00e7\u00e3o e das novas rela\u00e7\u00f5es sociais entre os homens.<\/p>\n<p>Como uma lanterna na noite escura nos indica o caminho a seguir, os nossos centros mostram \u00e0s massas o processo de constru\u00e7\u00e3o da nova sociedade. Isto implica que os centros apare\u00e7am como agentes din\u00e2micos na transforma\u00e7\u00e3o da mentalidade do homem, e for\u00e7as motrizes na mobiliza\u00e7\u00e3o das leis e recursos da natureza para elevar o n\u00edvel de vida das massas.<\/p>\n<p>No processo de transforma\u00e7\u00e3o do homem e da sociedade encontramos numerosos obst\u00e1culos.<\/p>\n<p>Compete-nos transformar a massa enorme, diversa e rica, que do Rovuma ao Maputo e dos confins de Tete ao Oceano Indico, constitui o nosso Povo. H\u00e1 velhos incrustados em tradi\u00e7\u00f5es arcaicas e jovens deformados pelos falsos valores do colonialismo e capitalismo. Temos mulheres a quem durante mil\u00eanios a sociedade oprimiu asfixiando a iniciativa. V\u00eam para as nossas fileiras advogados e engenheiros, soci\u00f3logos e economistas, t\u00e9cnicos e intelectuais, frequentemente doutrinados pela burguesia para desprezarem o trabalho manual e se conceberem como uma elite dirigente que nada tem a aprender. Mas encontramos tamb\u00e9m camponeses analfabetos com uma experi\u00eancia do mundo limitada aos horizontes da sua povoa\u00e7\u00e3o, a quem a domina\u00e7\u00e3o colonial inculca a ideia de que constituem uma massa ignorante e bruta incapaz de raciocinar ou possuir iniciativa. Das f\u00e1bricas e das minas, das serra\u00e7\u00f5es e das planta\u00e7\u00f5es, dos transportes chega-nos uma classe oper\u00e1ria embrion\u00e1ria, com uma consci\u00eancia de classe fraca e ainda incapaz de assumir o seu papel dirigente no processo de transforma\u00e7\u00e3o da sociedade. Das administra\u00e7\u00f5es e escrit\u00f3rios, das casas comerciais e banc\u00e1rias v\u00eam a n\u00f3s funcion\u00e1rios e empregados eivados duma mentalidade pequeno-burguesa.<\/p>\n<p>As zonas rurais e urbanas enviam-nos continuamente novos elementos possuindo as suas deforma\u00e7\u00f5es espec\u00edficas.<\/p>\n<p>Nas zonas rurais a vida \u00e9 particularmente desorganizada, sem no\u00e7\u00e3o de programa ou pontualidade, profundamente dominada pela rotina e tradi\u00e7\u00f5es ultrapassadas que inibem o progresso e paralisam a iniciativa. Para o campon\u00eas o Poder \u00e9 o governo hostil e estrangeiro que se manifesta pela caderneta e imposto, pelo recrutamento for\u00e7ado <em>e <\/em>os baixos pre\u00e7os fixados \u00e0 venda dos produtos penosamente obtidos, pela palmat\u00f3ria e <a href=\"http:\/\/www.dicionarioinformal.com.br\/machila\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">machila<\/a>. O terror asfixia a iniciativa. O homem vive em contradi\u00e7\u00e3o permanente com uma natureza que desconhece e teme, com um Estado que o explora, oprime e humilha. As suas rela\u00e7\u00f5es sociais v\u00e3o pouco para al\u00e9m da povoa\u00e7\u00e3o em que vive e quando muito estendem-se ao grupo lingu\u00edstico que \u00e9 seu.<\/p>\n<p>Na cidade colonial-capitalista a luta pela sobreviv\u00eancia \u00e9 feroz e for\u00e7a os seres ao ego\u00edsmo, \u00e0 concorr\u00eancia. A ambi\u00e7\u00e3o, a luta para mais e melhor explorar outros homens destroem a confian\u00e7a entre as pessoas e fazem delas rivais. Funcion\u00e1rios e empregados fomentam cal\u00fanias e intrigas contra colegas para serem promovidos em seu detrimento. Adulam-se chefes, procuram-se \u201ccunhas\u201d, arranjam-se alian\u00e7as de uns contra outros, humilham-se as pessoas para salvaguardarem o seu p\u00e3o quotidiano. A cultura degenerada colonial capitalista exalta gostos degradantes e corruptos que animalizam o homem. A cada um \u00e9 inculcado o desejo do Poder e do luxo constru\u00eddos por cima da explora\u00e7\u00e3o e humilha\u00e7\u00e3o dos outros seres.<\/p>\n<p>No campo, como sobretudo na cidade, domina ainda a onda de opress\u00e3o colonial-fascista. A a\u00e7\u00e3o da PIDE procura infundir um terror permanente nas pessoas que as conduza a resignar-se \u00e0 fatalidade dum destino de explora\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O desencadeamento da luta e as vit\u00f3rias que alcan\u00e7amos mostram duma maneira concreta que n\u00e3o existe nenhum destino ou fatalidade, que somos capazes de transformar a sociedade o criar uma Nova Vida.<\/p>\n<p>Por isso as pessoas procuram a FRELIMO. Todos odeiam o inimigo, a opress\u00e3o e a humilha\u00e7\u00e3o, a explora\u00e7\u00e3o e o terror, muito embora frequentemente n\u00e3o esteja bem clara a defini\u00e7\u00e3o do inimigo. Todos anseiam pela liberdade e est\u00e3o dispostos a sacrificar-se por ela mesmo quando ainda ignorem como exprimir corretamente o seu conte\u00fado. Todos aspiram a um mundo diferente ainda que n\u00e3o possam precisar qual a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Assim, sem clareza, com d\u00favidas e incertezas, com v\u00edcios e defeitos, com tradi\u00e7\u00f5es mortas e gostos decadentes, presos no tribalismo ou no individualismo, com a iniciativa asfixiada e a intelig\u00eancia temendo pensar, com os complexos herdados e impostos, cada um chega \u00e0 luta, cada um vem \u00e0 FRELIMO procurando a resposta certa, o caminho correto.<\/p>\n<p>A nossa tarefa \u00e9 a de a todos integrar e transformar em servidores do Povo, combatentes defendendo os interesses das massas exploradas, militantes da causa da liberta\u00e7\u00e3o da P\u00e1tria.<\/p>\n<p>Nenhum milagre vir\u00e1 ajudar-nos nesta tarefa gigantesca. O processo de transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 feito pelos homens que somos, lutando continuamente contra as nossas pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Para nos transformarmos e transformarmos os homens que cada dia chegam a n\u00f3s precisamos de viver organizados, por outras palavras possuir o aparelho, as estruturas capazes de aplicarem a linha.<\/p>\n<p>Sem estarmos organizados n\u00e3o conseguimos transformar-nos a n\u00f3s pr\u00f3prios e seremos ao contr\u00e1rio arrastados pelo peso dos h\u00e1bitos e gostos da outra zona.<\/p>\n<p>Viver organizado significa primeiramente possuir estruturas. As estruturas s\u00e3o a presen\u00e7a organizada da FRELIMO no nosso seio. S\u00e3o elas que nos mostram qual a nossa tarefa, como ela se combina com todas as outras tarefas e como estamos assim integrados no corpo da FRELIMO. Sem as estruturas, por outras palavras sem a integra\u00e7\u00e3o na FRELIMO, viveremos isolados, como membros fora do corpo.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que por mais inteligente, din\u00e2mica, trabalhadora e dedicada que uma pessoa seja, ela n\u00e3o pode sozinha fazer todos os trabalhos do centro em que vive. S\u00e3o as estruturas que nos fornecem os mecanismos adequados para distribuirmos as tarefas entre n\u00f3s.<\/p>\n<p>As estruturas fornecem-nos os canais apropriados para a resolu\u00e7\u00e3o dos problemas que enfrentamos no nosso trabalho e na nossa vida.<\/p>\n<p>\u00c9 atrav\u00e9s das nossas estruturas que asseguramos a discuss\u00e3o dos nossos problemas, descobrimos como aplicar a nossa linha duma maneira criadora em cada situa\u00e7\u00e3o concreta enfrentada. \u00c9 no quadro das nossas estruturas que corrigimos os nossos m\u00e9todos de trabalho.<\/p>\n<p>As estruturas s\u00e3o o instrumento da democratiza\u00e7\u00e3o da nossa vida, pois que levam \u00e0 participa\u00e7\u00e3o de todos duma maneira organizada, \u00e0 solu\u00e7\u00e3o dos problemas de maneira coletiva.<\/p>\n<p>Quando levamos todos a participarem na resolu\u00e7\u00e3o dos problemas, quando fazemos que todos e cada um se sinta respons\u00e1vel pela resolu\u00e7\u00e3o dos problemas enfrentados, estamos a coletivizar a nossa dire\u00e7\u00e3o, a coletivizar a nossa vida.<\/p>\n<p>As estruturas n\u00e3o caem do c\u00e9u, elas s\u00e3o produtos de situa\u00e7\u00f5es precisas e respondem a necessidades concretas. Quer dizer que as estruturas devem ser operacionais, isto \u00e9, responder \u00e0s necessidades e situa\u00e7\u00f5es precisas de um dado centro. Elas devem permitir uma divis\u00e3o e coordena\u00e7\u00e3o das tarefas do centro, a execu\u00e7\u00e3o da tarefa principal e das outras tarefas revolucion\u00e1rias.<\/p>\n<p>E evidente que n\u00e3o vivemos uma situa\u00e7\u00e3o estacion\u00e1ria: o desenvolvimento da luta, a a\u00e7\u00e3o inimiga modificam constantemente a situa\u00e7\u00e3o que vivemos. A modifica\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o, a mudan\u00e7a de condi\u00e7\u00f5es requerem que as estruturas se adaptem a elas. As estruturas devem adaptar-se \u00e0 vida, n\u00e3o \u00e9 a vida que se deve submeter \u00e0s estruturas. Isto significa que as estruturas devem ser flex\u00edveis, para poderem sempre adaptar-se \u00e0 situa\u00e7\u00e3o concreta.<\/p>\n<p>As estruturas t\u00eam uma fun\u00e7\u00e3o: assegurar uma continuidade e desenvolvimento do trabalho, permitir que as nossas tarefas sejam cumpridas corretamente em todas as condi\u00e7\u00f5es, por outras palavras, elas devem ser din\u00e2micas, elas s\u00e3o transmissoras da energia que faz movimentar a m\u00e1quina.<\/p>\n<p>Mas as estruturas s\u00e3o tamb\u00e9m os homens, sem eles as estruturas tornam-se apenas bonecos, mais ou menos bem desenhados numa folha de papel ou num quadro.<\/p>\n<p>Frequentemente no processo da revolu\u00e7\u00e3o surgem erros e desvios, muito embora a linha seja clara e as estruturas adequadas. E ao n\u00edvel das insufici\u00eancias que possu\u00edmos, que devemos situar a causa destes erros e desvios.<\/p>\n<p>O desenvolvimento da nossa Revolu\u00e7\u00e3o, a extens\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o da nossa luta armada suscitam o aparecimento de novas contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Cada progresso suscita sempre uma rea\u00e7\u00e3o, a Revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre oposta pela contrarrevolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A contradi\u00e7\u00e3o principal que surge entre n\u00f3s na fase presente \u00e9 entre as exig\u00eancias da situa\u00e7\u00e3o e a nossa capacidade.<\/p>\n<p>A luta, a instala\u00e7\u00e3o do poder popular, desenvolvem-se mais rapidamente do que a consci\u00eancia e a capacidade dos quadros, sobre quem pesa a tarefa de orientar, canalizar e dinamizar o processo geral.<\/p>\n<p>O aspecto principal desta contradi\u00e7\u00e3o manifesta-se na incapacidade das estruturas de alguns centros em resolverem por si corretamente os diferentes problemas que surgem, a sua dificuldade em definir e planificar as tarefas, a impossibilidade desses centros em integrarem e transformarem efetivos crescentes que lhes s\u00e3o confiados, as popula\u00e7\u00f5es cada vez mais numerosas de que s\u00e3o respons\u00e1veis.<\/p>\n<p>Ora todos n\u00f3s possu\u00edmos uma linha clara de orienta\u00e7\u00e3o, uma linha provada pela pr\u00e1tica: a linha da FRELIMO, que cobre todos os aspectos da nossa vida e todos os setores da nossa luta. A an\u00e1lise criadora da linha permite-nos encontrar a resposta adequada para cada situa\u00e7\u00e3o concreta que enfrentamos. As nossas estruturas t\u00eam acompanhado a evolu\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o, estamos sempre a organizarmo-nos. Temos conosco as massas, temos as estruturas, a linha.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o onde se encontra a causa da contradi\u00e7\u00e3o? Como resolver a contradi\u00e7\u00e3o para passarmos a uma fase superior? A resposta est\u00e1 nos quadros, que s\u00e3o o fator decisivo na aplica\u00e7\u00e3o da linha e na vida das estruturas.<\/p>\n<p>Perguntamos, porque \u00e9 que os quadros veteranos da luta, que constru\u00edram com numerosos sacrif\u00edcios aquilo que somos hoje, se deixam, como dizemos, ultrapassar?<\/p>\n<p>Temos primeiramente como causa desta situa\u00e7\u00e3o, o esp\u00edrito de vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>As grandes vit\u00f3rias que alcan\u00e7amos, tanto no campo da luta armada como no da liquida\u00e7\u00e3o das for\u00e7as reacion\u00e1rias e na destrui\u00e7\u00e3o das infiltra\u00e7\u00f5es inimigas no nosso seio, ou ainda na reconstru\u00e7\u00e3o nacional, levam certos camaradas a s\u00f3 verem vit\u00f3rias cont\u00ednuas, a desprezarem taticamente o inimigo, a considerarem sempre a situa\u00e7\u00e3o como \u201cnormal\u201d, \u201cboa\u201d, e nunca tiram li\u00e7\u00f5es dos revezes, n\u00e3o estudam como combater as nossas limita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por isso deixam de estudar a nossa linha, acham que j\u00e1 conhecem o suficiente e a\u00ed est\u00e3o as vit\u00f3rias a prov\u00e1-lo. O resultado \u00e9 o abandono da an\u00e1lise pol\u00edtica, a nossa consci\u00eancia torna-se insens\u00edvel aos desvios e agress\u00f5es contra a linha e assim n\u00e3o conseguimos detectar e destruir no ovo as infiltra\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas, morais e f\u00edsicas do inimigo.<\/p>\n<p>Negligenciam o estudo cient\u00edfico, consideram que j\u00e1 sabem o suficiente, tanto mais que a\u00ed est\u00e3o as vit\u00f3rias a prov\u00e1-lo. Mas o desenvolvimento da guerra e da reconstru\u00e7\u00e3o nacional requerem conhecimentos cient\u00edficos cada vez mais s\u00f3lidos e superiores, e n\u00f3s n\u00e3o os temos. Como resultado desta atitude a nossa ignor\u00e2ncia bloqueia o progresso, e o que n\u00e3o progride estagna e apodrece.<\/p>\n<p>Deixam de estudar o inimigo, consideram que j\u00e1 o conhecem suficientemente, e a prova \u00e9 que a\u00ed est\u00e3o as vit\u00f3rias. Mas as manobras do inimigo evoluem continuamente, o seu esp\u00edrito criminoso e desesperado cresce com cada derrota. N\u00e3o estudar continuamente o inimigo, desprez\u00e1-lo taticamente, leva-nos \u00e0 rotina, e por isso a sermos surpreendidos pelas novas manobras do inimigo, pelos seus novos crimes. Assim, em vez de mantermos a ofensiva, em vez de destruirmos a cobra quando est\u00e1 no ovo, ca\u00edmos na defensiva, descobrimos a cobra quando, j\u00e1 adulta, levanta a sua cabe\u00e7a venenosa para nos liquidar.<\/p>\n<p>Abandonam o combate interno pouco a pouco, j\u00e1 estamos suficientemente puros, j\u00e1 nos demarc\u00e1mos o suficiente do inimigo porque n\u00e3o temos contato f\u00edsico com ele. Pouco a pouco a velha vida, a vida da outra zona penetra, o liberalismo introduz-se, a corrup\u00e7\u00e3o surge, os compromissos come\u00e7am a paralisar-nos, as ideias erradas pululam, a supersti\u00e7\u00e3o espalha-se. Cria-se com isto o clima de relaxamento, a desconfian\u00e7a e a injusti\u00e7a infiltram-se, a divis\u00e3o surge e o inimigo descobre que o terreno come\u00e7a a fertilizar-se para ele poder agir.<\/p>\n<p>O esp\u00edrito de vit\u00f3ria \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o de oportunismo de esquerda: leva-nos a desprezar taticamente o inimigo, conduz-nos ao aventureirismo. Cedo ou tarde o esp\u00edrito de vit\u00f3ria far-nos-\u00e1 pagar em sacrif\u00edcios, far-nos-\u00e1 pagar caro em baixas pesadas e in\u00fateis os erros que cometemos.<\/p>\n<p>O esp\u00edrito de vit\u00f3ria \u00e9 irm\u00e3o g\u00eameo do esp\u00edrito de derrota, o oportunismo de esquerda \u00e9 a outra face do oportunismo de direita.<\/p>\n<p>Quando, em consequ\u00eancia dos erros cometidos pelo esp\u00edrito de vit\u00f3ria, se sofrem revezes, os aventureiros caem ent\u00e3o no esp\u00edrito de derrota, temem o inimigo do ponto de vista estrat\u00e9gico, come\u00e7am a s\u00f3 analisar fracassos, deixam de ver os progressos da luta. Como tinham o esp\u00edrito de vit\u00f3ria r\u00e1pida, a guerra torna-se \u201cintermin\u00e1vel\u201d nas suas cabe\u00e7as. As vit\u00f3rias alcan\u00e7adas s\u00e3o para eles casuais e isoladas.<\/p>\n<p>Com este esp\u00edrito passam a realizar as suas tarefas com um desinteresse evidente, abandonam totalmente a vis\u00e3o de conjunto, s\u00f3 v\u00eam erros nos trabalhos efetuados pelos outros camaradas, mas recusam-se a apontar e discutir os erros, a propor solu\u00e7\u00f5es justas. Preferem o murm\u00fario \u00e0 cr\u00edtica e autocr\u00edtica, a intriga \u00e0 discuss\u00e3o aberta. Criam os seus grupinhos, os seus aliados.<\/p>\n<p>S6 analisar fracassos, s\u00f3 ver erros, torna-se uma maneira de justificar e camuflar o abandono das posi\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, o desinteresse pelo trabalho.<\/p>\n<p>Criam-se doen\u00e7as e problemas imagin\u00e1rios, apresentam-se como incompreendidos, perseguidos, m\u00e1rtires de conspira\u00e7\u00f5es e inimigos que s\u00f3 existem na sua imagina\u00e7\u00e3o ociosa e doentia.<\/p>\n<p>Os corpos continuam na nossa zona, mas os esp\u00edritos j\u00e1 se instalaram na outra zona, sonhando com o conforto e corrup\u00e7\u00e3o vistos como coisas maravilhosas.<\/p>\n<p>Uma outra insufici\u00eancia que aparece frequentemente ligada \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es anteriores \u00e9 o esp\u00edrito de \u201cveterano\u201d, de \u201cantigo\u201d na guerra e na pol\u00edtica e por isso sabe tudo, nada tem a aprender sobretudo das novas gera\u00e7\u00f5es. As novas gera\u00e7\u00f5es em particular, cheias de dinamismo e desejosas de introduzir novas ideias e m\u00e9todos, s\u00e3o concebidas como concorrentes indesej\u00e1veis que v\u00eam desalojar os \u201cveteranos\u201d da sua rotina e privil\u00e9gios.<\/p>\n<p>Estes \u201cveteranos\u201d, que de veteranos s\u00f3 possuem a antiguidade e n\u00e3o a riqueza duma experi\u00eancia sintetizada para ser transmitida \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es, s\u00e3o elementos estagnados mentalmente. Cumprem rotineiramente as suas tarefas sem se preocuparem em introduzir novos m\u00e9todos nascidos da experi\u00eancia adquirida. Ao trabalhar n\u00e3o se preocupam em realizar a tarefa o melhor e mais rapidamente poss\u00edvel, e cometem erros que justificam dizendo que errar \u00e9 humano. T\u00eam vergonha de reconhecer a sua ignor\u00e2ncia e assim recusam-se a aprender, persistindo nos velhos caminhos errados. A sua antiguidade \u00e9 pretexto para reclamarem privil\u00e9gios e darem prioridade aos seus problemas pessoais e ego\u00edstas. Querem um tratamento especial porque s\u00e3o antigos, esquecendo-se que dos veteranos exigimos sobretudo um esp\u00edrito e comportamento exemplares que nos eduquem na Nova Vida. Impedem a promo\u00e7\u00e3o de novos quadros e novas for\u00e7as e procuram semear a desconfian\u00e7a contra elas. Fazem isso porque perderam a vis\u00e3o do conjunto e a no\u00e7\u00e3o das necessidades crescentes da guerra e reconstru\u00e7\u00e3o nacional. Preocupam-se pois com postos e n\u00e3o com as tarefas da luta, querem defender privil\u00e9gios e rotinas que os transformam em pequenos capitalistas.<\/p>\n<p>Estas manifesta\u00e7\u00f5es exprimem a contradi\u00e7\u00e3o permanente entre o velho e o novo, o progresso e a rotina, o esp\u00edrito de desenvolvimento e o esp\u00edrito conservador. Esta contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 pr\u00f3pria de todas as revolu\u00e7\u00f5es e o m\u00e9todo para a tratar corretamente \u00e9 de educar os quadros no esp\u00edrito de progresso, na vis\u00e3o do conjunto e no sentido de servir as massas ganhando as novas gera\u00e7\u00f5es para desenvolver o trabalho.<\/p>\n<p>As novas gera\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m devem ser educadas corretamente. Estas novas gera\u00e7\u00f5es, quando nas nossas zonas libertadas, quando crescem nos nossos centros, s\u00e3o frequentemente consideradas automaticamente como \u201crevolucion\u00e1rias\u201d, impregnadas da nossa linha. Elas pr\u00f3prias assim tamb\u00e9m o pensam. Por isso negligencia-se por vezes o trabalho pol\u00edtico no seu seio, o combate coletivo contra os gostos, os v\u00edcios e defeitos da outra zona. Sem qualquer base e porque simplesmente cresceram fora da presen\u00e7a inimiga, consideram-se as novas gera\u00e7\u00f5es livres do passado.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 um erro grave e perigoso que pode conduzir \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de pequenos reacion\u00e1rios no nosso seio, quando estamos convencidos de que formamos gera\u00e7\u00f5es de continuadores da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Devemos compreender que as novas gera\u00e7\u00f5es crescem em contato com as velhas gera\u00e7\u00f5es que lhes transmitem os v\u00edcios do passado. A nossa pr\u00e1tica demonstra-nos como \u00e9 que crian\u00e7as e jovens nos nossos pr\u00f3prios centros s\u00e3o contaminados pelas ideias, h\u00e1bitos e gostos decadentes. Na nossa situa\u00e7\u00e3o a a\u00e7\u00e3o subversiva do inimigo tamb\u00e9m desempenha um papel importante na introdu\u00e7\u00e3o e fomento dos valores e pr\u00e1ticas da outra zona. Finalmente, e durante todo o per\u00edodo em que ainda subsistir o capitalismo e o imperialismo no mundo, a sua propaganda e subvers\u00e3o far-se-\u00e3o sentir entre n\u00f3s, e a conquista da independ\u00eancia e do Poder n\u00e3o constituem de modo algum garantia de impermeabiliza\u00e7\u00e3o contra os valores decadentes.<\/p>\n<p>Com efeito, n\u00e3o \u00e9 em dez ou vinte anos que se liquidam os pesos mortos duma heran\u00e7a milenar. Os valores, os gostos, as concep\u00e7\u00f5es que v\u00eam do passado, ainda que contr\u00e1rias \u00e0 linha, contr\u00e1rias \u00e0 nossa vida, contr\u00e1rias ao progresso, continuam fortes. A luta abalou-os, mas ainda \u00e9 muito cedo para cantarmos vit\u00f3rias. Este combate pol\u00edtico ter\u00e1 que se prosseguir durante dezenas de anos, at\u00e9 que realmente a mentalidade nova ganhe a quase totalidade da sociedade e novos problemas e contradi\u00e7\u00f5es surjam exigindo novos combates. Por outro lado, as novas gera\u00e7\u00f5es cresceram sem contato direto com a explora\u00e7\u00e3o, a opress\u00e3o, a humilha\u00e7\u00e3o pr\u00f3prias da sociedade colonialista e capitalista. Elas conhecem os bombardeamentos, mas nunca sofreram a palmat\u00f3ria, combateram contra helic\u00f3pteros mas nunca foram submetidas ao trabalho for\u00e7ado, liquidaram soldados inimigos mas n\u00e3o foram presas para pagar impostos, testemunharam crimes mas nunca foram vendidas para as minas.<\/p>\n<p>No seio das largas massas existe uma rica experi\u00eancia de sofrimento, um enorme potencial de \u00f3dio contra o inimigo. Mas as experi\u00eancias n\u00e3o s\u00e3o suficientemente trocadas, n\u00e3o s\u00e3o suficientemente sintetizadas para que se aprofunde o conhecimento e o \u00f3dio contra o inimigo, contra a explora\u00e7\u00e3o. Podemos dizer que se desperdi\u00e7a a experi\u00eancia de sofrimento que devia servir para formar as novas gera\u00e7\u00f5es e consolidar a consci\u00eancia das massas em geral.<\/p>\n<p>Para superar estas defici\u00eancias e resolver as contradi\u00e7\u00f5es da fase presente, a ofensiva ideol\u00f3gica e organizacional imp\u00f5e-se.<\/p>\n<p>Isto significa agir ao n\u00edvel das se\u00e7\u00f5es e do grupo, no que respeita \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito, e dos c\u00edrculos no que concerne a organiza\u00e7\u00e3o das massas.<\/p>\n<p>Mas para que realmente transformemos as se\u00e7\u00f5es e c\u00edrculos em c\u00e9lulas de base, em centros da nossa vida pol\u00edtica, sentiu-se a necessidade de agir sobre os quadros, porque \u00e9 sobre estes que recai a tarefa de dinamiza\u00e7\u00e3o da base.<\/p>\n<p>Devemos dinamizar cada setor de trabalho com os elementos que, pelo seu comportamento e pelas suas ideias, demonstram ter assumido criadoramente a nossa linha e fazerem parte da vanguarda da nossa organiza\u00e7\u00e3o, que possuem o esp\u00edrito de iniciativa e vis\u00e3o do conjunto, se preocupam em combinar a sua tarefa principal com as outras tarefas revolucion\u00e1rias, engajam-se no combate interno, estudam e s\u00e3o sens\u00edveis aos m\u00ednimos desvios e agress\u00f5es contra a linha, defendem a disciplina que \u00e9 a sentinela da nossa linha pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m dos problemas concretos e das feridas precisas existentes em cada setor, dire\u00e7\u00e3o e quadros devem preocupar-se em:<\/p>\n<p>a) Representar, Inculcar <em>e <\/em>defender a nossa linha no seu setor;<\/p>\n<p>b) fazer assumir e defender a nossa disciplina que \u00e9 a sentinela da nossa pol\u00edtica;<\/p>\n<p>c) p\u00f4r a pol\u00edtica nos postos de comando em todas as nossas atividades;<\/p>\n<p>d) organizar o setor de trabalho, organiz\u00e1-lo no esp\u00edrito de combate entre duas linhas e na demarca\u00e7\u00e3o crescente entre n\u00f3s e o inimigo, na aquisi\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o de conjunto e na combina\u00e7\u00e3o entre a tarefa principal e as outras tarefas revolucion\u00e1rias;<\/p>\n<p>e) organizar e orientar os militantes na an\u00e1lise cr\u00edtica di\u00e1ria das atividades individuais e coletivas e na sintetiza\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias, na liberta\u00e7\u00e3o da iniciativa e na destrui\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito de rotina e na cria\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito de inova\u00e7\u00e3o e progresso;<\/p>\n<p>f) organizar e orientar o setor de trabalho no estudo pol\u00edtico, na alfabetiza\u00e7\u00e3o e eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel cient\u00edfico, no estudo e an\u00e1lise da nossa situa\u00e7\u00e3o e do inimigo;<\/p>\n<p>g) manter uma ofensiva intensa e permanente de combate coletivo e de purifica\u00e7\u00e3o das nossas fileiras dos elementos incorrig\u00edveis, imperme\u00e1veis \u00e0 linha e que persistem nos gostos corruptos, nos v\u00edcios e defeitos, e recusam a transforma\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>h) organizar e orientar o estudo das experi\u00eancias te\u00f3ricas e pr\u00e1ticas das outras revolu\u00e7\u00f5es, a fim de tirar li\u00e7\u00f5es \u00fateis para a nossa situa\u00e7\u00e3o, e educar os militantes no esp\u00edrito revolucion\u00e1rio internacionalista.<\/p>\n<p>Podemos afirmar essencialmente que a ofensiva ideol\u00f3gica deve-nos criar uma consci\u00eancia pol\u00edtica s\u00f3lida fundada em tr\u00eas pontos centrais:<\/p>\n<ol>\n<li>Conhecimento profundo da nossa linha pol\u00edtica.<\/li>\n<li>Conhecimento \u00edntimo da nossa luta, tanto na sua evolu\u00e7\u00e3o como no seu significado para o nosso Povo e os outros Povos do Mundo.<\/li>\n<li>Confian\u00e7a total nas massas unidas e organizadas sob a dire\u00e7\u00e3o da nossa linha correta, estar consciente de que as massas neste quadro compreendem e assumem a luta, t\u00eam energia criadora e s\u00e3o invenc\u00edveis qualquer que seja o advers\u00e1rio e a sua for\u00e7a.<\/li>\n<\/ol>\n<p>A dinamiza\u00e7\u00e3o exige uma investiga\u00e7\u00e3o cuidadosa, tanto para determinar os problemas concretos existentes no setor em que devemos agir, como tamb\u00e9m na sele\u00e7\u00e3o do n\u00facleo dinamizador, que realmente deve ser composto por elementos de vanguarda.<\/p>\n<p>Dinamizando os quadros, que s\u00e3o o fator decisivo na aplica\u00e7\u00e3o da nossa linha pol\u00edtica, estaremos em condi\u00e7\u00f5es de transformar as se\u00e7\u00f5es e c\u00edrculos em c\u00e9lulas de base da nossa organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>E esta a\u00e7\u00e3o que nos habilitar\u00e1 a enquadrar e transformar a vida das massas que em n\u00famero crescente se integram na nossa organiza\u00e7\u00e3o, assegurando assim o alargamento consolidado da nossa frente. Esta a\u00e7\u00e3o criar\u00e1 ainda as condi\u00e7\u00f5es para que se constitua no nosso seio a vanguarda organizada do nosso Povo e das classes trabalhadoras exploradas, instrumento indispens\u00e1vel para o desenvolvimento da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e popular em Mo\u00e7ambique.<\/p>\n<p>Neste quadro, a natureza das rela\u00e7\u00f5es entre os nossos centros e as massas populares tem um papel fundamental.<\/p>\n<p>S\u00e3o as massas a fonte de vida da nossa organiza\u00e7\u00e3o, s\u00e3o elas a for\u00e7a principal e decisiva no processo da liberta\u00e7\u00e3o da nossa P\u00e1tria e na constru\u00e7\u00e3o da nossa sociedade. O combate \u00e9 feito e ganho por elas e destina-se \u00e0 satisfazer os seus interesses.<\/p>\n<p>Qualquer centro nosso \u00e9 um centro coletivo ao servi\u00e7o das massas, um centro que sintetizando as experi\u00eancias da revolu\u00e7\u00e3o leva essas experi\u00eancias \u00e0s largas massas para desenvolver o processo de transforma\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p>Servimos as massas dando-lhes o exemplo da aplica\u00e7\u00e3o da nossa linha.<\/p>\n<p>Quando o nosso comportamento de militantes corresponde \u00e0 linha, estamos a educar as massas na nova vida.<\/p>\n<p>Servimos as massas dando-lhes o exemplo de vida organizada, Inculcando-lhes m\u00e9todos para viverem organizadas, orientando-as para se organizarem cada vez melhor.<\/p>\n<p>\u00c9 organizando as massas, \u00e9 criando estruturas democr\u00e1ticas e populares no seu seio que poderemos transformar a sociedade.<\/p>\n<p>S\u00e3o as estruturas criadas no seio do c\u00edrculo que orientar\u00e3o os camponeses, criadores de gado, pescadores, artes\u00e3os, a organizarem-se coletivamente para produzirem nas cooperativas, melhorarem as suas t\u00e9cnicas produtivas, diversificarem e aumentarem a produ\u00e7\u00e3o, elevando assim o n\u00edvel de vida das massas. \u00c9 evidente que o exemplo da produ\u00e7\u00e3o coletiva nos centros, dos seus resultados, as machambas, as hortas, as \u00e1rvores de fruto, as lagoas artificiais ou naturais para a cria\u00e7\u00e3o de peixe, ser\u00e3o as melhores testemunhas do valor e veracidade da nossa capacidade coletiva em transformar a sociedade.<\/p>\n<p>S\u00e3o as estruturas criadas no seio do c\u00edrculo que levar\u00e3o as massas a organizarem-se em destacamentos que punem qualquer a\u00e7\u00e3o inimiga contra a povoa\u00e7\u00e3o, as machambas e locais de trabalho. E o trabalho organizativo que transformar\u00e1 cada povoa\u00e7\u00e3o, cada machamba, numa fonte de sofrimentos e baixas para o inimigo. O exemplo dado por cada um dos nossos centros na defesa contra as agress\u00f5es inimigas, o nosso trabalho de instru\u00e7\u00e3o militar no seio das massas, o sabermos estimular a imagina\u00e7\u00e3o e iniciativa criadora das massas para combinarem as armas e armadilhas tradicionalmente utilizadas contra as feras com as armas modernas, tornar\u00e3o imposs\u00edvel qualquer a\u00e7\u00e3o generalizada do inimigo contra o nosso Povo.<\/p>\n<p>S\u00e3o as estruturas criadas no seio do c\u00edrculo que, elevando a consci\u00eancia pol\u00edtica das massas e conduzindo estas ao aprofundamento da demarca\u00e7\u00e3o com o inimigo, agu\u00e7ar\u00e3o a sensibilidade das massas contra as manobras ou infiltra\u00e7\u00f5es do inimigo, permitindo assim que as destruamos no embri\u00e3o.<\/p>\n<p>Em \u00faltima an\u00e1lise, \u00e9 esta estrutura\u00e7\u00e3o que torna irrevers\u00edvel a liberta\u00e7\u00e3o duma zona e nos conduz a recha\u00e7ar as invas\u00f5es e agress\u00f5es inimigas por poderosas que estas sejam.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que para os nossos centros dinamizarem a vida das largas massas e transformarem a sociedade, isto exige que cada centro e cada militante afetado num centro assumam a miss\u00e3o de servidores das massas e continuamente, duma maneira exemplar e sem qualquer relaxamento, respeitem integralmente os interesses das massas.<\/p>\n<p>N\u00e3o poderemos nunca tolerar que um militante nosso ouse utilizar o poder ou a arma que lhe foram confiados para servir o Povo, para cometer qualquer viola\u00e7\u00e3o dos interesses do Povo, por m\u00ednima que seja. Devemos ser intransigentes perante qualquer liberdade tomada com as mulheres e abuso aos bens do Povo, ou qualquer injusti\u00e7a cometida contra as popula\u00e7\u00f5es. Isto \u00e9 parte integrante da nossa luta, da nossa disciplina, e condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para que as massas possam sempre distinguir, sem hesita\u00e7\u00e3o, as nossas a\u00e7\u00f5es das do inimigo.<\/p>\n<p>Servir as massas, transmitir-lhes a arma invenc\u00edvel da nossa linha, as nossas experi\u00eancias, orient\u00e1-las na eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel ideol\u00f3gico e organizativo, \u00e9 a miss\u00e3o de todos os nossos centros nas suas rela\u00e7\u00f5es com as massas.<\/p>\n<p>Iniciamos o d\u00e9cimo ano da nossa guerra popular de liberta\u00e7\u00e3o contra o colonialismo portugu\u00eas e o imperialismo.<\/p>\n<p>Durante estes dez anos de luta armada, estes doze anos da exist\u00eancia da FRELIMO, a situa\u00e7\u00e3o da nossa P\u00e1tria e do mundo sofreram altera\u00e7\u00f5es profundas.<\/p>\n<p>Os nossos objetivos iniciais de independ\u00eancia nacional aprofundaram-se no processo de desenvolvimento da guerra popular, criando as bases da revolu\u00e7\u00e3o nacional democr\u00e1tica e popular para instaurar o poder popular, o poder das largas massas trabalhadoras do nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>A extens\u00e3o da luta armada para zonas onde dominam grandes interesses econ\u00f4micos e estrat\u00e9gicos do imperialismo, levou-nos a uma confronta\u00e7\u00e3o direta com este, tornando imediato e concreto o conte\u00fado anti-imperialista do nosso combate.<\/p>\n<p>As graves derrotas pol\u00edtico-militares sofridas pelas for\u00e7as coloniais portuguesas, a sua incapacidade manifesta em bloquear a progress\u00e3o do combate libertador, for\u00e7aram a dire\u00e7\u00e3o inimiga a modificar a natureza da agress\u00e3o contra o nosso Povo, com o intuito de salvaguardar os interesses fundamentais imperialistas: a explora\u00e7\u00e3o das massas trabalhadoras nacionais, a pilhagem dos nossos recursos e a destrui\u00e7\u00e3o do movimento revolucion\u00e1rio na \u00c1frica Austral em particular e no continente em geral.<\/p>\n<p>\u00c9 neste contexto que se situa a entrada da \u00c1frica do Sul e Rod\u00e9sia na guerra contra n\u00f3s, o refor\u00e7o do apoio militar, financeiro e t\u00e9cnico, a transmiss\u00e3o das experi\u00eancias de agress\u00e3o aos colonialistas portugueses e aliados, pelos Estados imperialistas, em particular os Estados Unidos, Fran\u00e7a, Alemanha Federal e Inglaterra.<\/p>\n<p>Assim a internacionaliza\u00e7\u00e3o da agress\u00e3o contra o nosso Povo tornou-se uma realidade, a guerra colonial assume j\u00e1 o car\u00e1ter de guerra imperialista de agress\u00e3o.<\/p>\n<p>Com o objetivo de diminuir as suas baixas crescentes e alarmantes, o comando inimigo decidiu modificar a cor dos cad\u00e1veres, \u201cmo\u00e7ambicanizar\u201d a guerra pela cria\u00e7\u00e3o dum ex\u00e9rcito fantoche, recrutado \u00e0 for\u00e7a e enquadrado por portugueses: OPV, GE, GEP, etc\u2026.<\/p>\n<p>Esta a\u00e7\u00e3o permitiria ainda camuflar perante a opini\u00e3o mundial a agress\u00e3o estrangeira contra o nosso Povo.<\/p>\n<p>Estas modifica\u00e7\u00f5es da situa\u00e7\u00e3o requerem de n\u00f3s uma resposta adequada.<\/p>\n<p>Definimos no passado que as nossas tarefas essenciais eram as de intensificar o trabalho pol\u00edtico no seio dos quadros, estender a luta e consolidar as nossas zonas. A IV Sess\u00e3o do nosso Comit\u00ea Central eleito pelo II Congresso (Dezembro de 1972), ao dar-nos a palavra de ordem de generalizar a ofensiva para estabelecermos a nossa favor a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as com o inimigo, precisou que isso requeria a populariza\u00e7\u00e3o da nossa linha, isto \u00e9, fazer que ela seja assumida e vivida pelas largas massas, a democratiza\u00e7\u00e3o dos m\u00e9todos de trabalho e a coletiviza\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mais recentemente, ao estudarmos os meios para criarmos as condi\u00e7\u00f5es para a aplica\u00e7\u00e3o destas diretrizes, definimos duas orienta\u00e7\u00f5es fundamentais: a intensifica\u00e7\u00e3o da ofensiva ideol\u00f3gica em dire\u00e7\u00e3o dos quadros, combatentes e massas, a intensifica\u00e7\u00e3o do trabalho organizacional pela constitui\u00e7\u00e3o de grupos e se\u00e7\u00f5es como c\u00e9lulas de base, no seio do ex\u00e9rcito, e fazer dos c\u00edrculos a base da nossa a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no seio das massas.<\/p>\n<p>Os diversos centros da FRELIMO\u2014 militares, educacionais, sanit\u00e1rios, creches, de produ\u00e7\u00e3o, de com\u00e9rcio \u2014 t\u00eam um papel decisivo a desempenhar: s\u00e3o eles o centro difusor da nossa linha.<\/p>\n<p>Para as largas massas, \u00e9 a eles que compete mostrar duma maneira pr\u00e1tica a superioridade e justeza dos nossos princ\u00edpios e objetivos.<\/p>\n<p>Em resumo, \u00e9 sobre os nossos centros que recai a responsabilidade de transmitir \u00e0s massas duma maneira viva a linha pol\u00edtica da FRELIMO.<\/p>\n<p>\u00c9 sobre cada um dos militantes que recai a responsabilidade de enraizar a revolu\u00e7\u00e3o na nossa P\u00e1tria, garantir a sua vit\u00f3ria, \u00fanica justifica\u00e7\u00e3o para a imensidade de sacrif\u00edcios, para o mar de sangue que j\u00e1 consentimos.<\/p>\n<p>\u00c9 nos nossos centros que se encontram as respostas, \u00e9 l\u00e1 que possu\u00edmos as forjas do Homem Novo, da Sociedade Nova.<\/p>\n<p>Por isso, ao prepararmos as celebra\u00e7\u00f5es do d\u00e9cimo ano da nossa guerra popular, transmitimos a todos os nossos centros e militantes a palavra de ordem:<\/p>\n<p>\u201cDemarcar o nosso Poder do Poder do Inimigo, estabelecer o Poder Popular para servir \u00e0s Massas\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/lavrapalavra.com\/2017\/07\/24\/estabelecer-o-poder-popular-para-servir-as-massas\/\">Estabelecer o Poder Popular para servir as&nbsp;massas<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Samora Machel, via Marxists.org Em 24 de julho a classe trabalhadora mo\u00e7ambicana rememora o Dia das Nacionaliza\u00e7\u00f5es,\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/15174\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[177],"tags":[],"class_list":["post-15174","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3WK","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15174","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15174"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15174\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15174"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15174"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15174"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}