{"id":15220,"date":"2021-08-05T23:30:31","date_gmt":"2021-08-06T02:30:31","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=15220"},"modified":"2021-08-06T00:01:39","modified_gmt":"2021-08-06T03:01:39","slug":"nao-e-possivel-resgatar-mais-nada-sob-o-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/15220","title":{"rendered":"&#8220;N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel resgatar mais nada sob o capitalismo&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.gannett-cdn.com\/presto\/2021\/07\/16\/USAT\/109d2f36-766f-456e-99c3-9732c5cff4a0-AP_APTOPIX_Germany_Europe_Weather.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Inunda\u00e7\u00f5es na Europa, como resultado da onda de calor e chuvas torrenciais que atingiu o hemisf\u00e9rio norte em Julho de 2021. Mesmo em pa\u00edses com infraestrutura robusta, como na Alemanha, houve mais de 200 mortes. Eventos clim\u00e1ticos extremos s\u00e3o parte de uma das contradi\u00e7\u00f5es insol\u00faveis do capitalismo, de que trata o texto<\/p>\n<p>por Eleut\u00e9rio F. S. Prado [*]<\/p>\n<p>Para demonstrar empiricamente a tese contida no t\u00edtulo deste artigo \u00e9 preciso considerar, primeiro, o fen\u00f4meno da financeiriza\u00e7\u00e3o que vem se exacerbando desde os anos 80 do s\u00e9culo passado. Eis que ele n\u00e3o se apresenta como uma passagem epis\u00f3dica na hist\u00f3ria do capitalismo, mas como um acontecimento decisivo. Faz ver que n\u00e3o se encontrou uma solu\u00e7\u00e3o virtuosa para a crise de acumula\u00e7\u00e3o engendrada no \u201cper\u00edodo de ouro\u201d do capitalismo, ocorrido ap\u00f3s o fim da II Guerra Mundial. Como se sabe, essa crise se manifestou j\u00e1 nos anos 70 por meio de uma forte e longa queda da taxa de lucro. Apontando para um impasse, a figura em sequ\u00eancia apresenta esse fen\u00f4meno. E o faz mostrando uma discrep\u00e2ncia crescente entre o PIB global e a soma dos ativos financeiros globais. Por que isso ocorreu?<\/p>\n<p>A crise de lucratividade dos anos 1970, que atingiu fortemente o centro do sistema \u2013 mas tamb\u00e9m a periferia \u2013, nunca foi plenamente resolvida porque os principais Estados capitalistas optaram por evitar uma recess\u00e3o profunda. Como esta teria efeitos econ\u00f4micos, sociais e pol\u00edticos devastadores \u2013 por causa das ondas de fal\u00eancias e do alt\u00edssimo desemprego da for\u00e7a de trabalho que produziria \u2013, preferiram uma alternativa que evitasse a destrui\u00e7\u00e3o e a desvaloriza\u00e7\u00e3o dos capitais acumulados no passado. Ocorre que esse choque disruptivo \u00e9 necess\u00e1rio para que ocorra uma verdadeira restaura\u00e7\u00e3o da taxa de lucro. Foi assim que o capitalismo se recuperou v\u00e1rias outras vezes no passado. Mas desta vez, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Fugindo desse trauma, buscaram restaurar a lucratividade por meio de um processo mais lento de reformas, ditas neoliberais, as quais visavam em \u00faltima an\u00e1lise elevar a taxa de explora\u00e7\u00e3o numa economia globalizada. Era preciso destruir o mais poss\u00edvel o que fora criado no passado, ou seja, o estado de bem-estar social. Em linhas gerais, os Estados se esfor\u00e7aram para n\u00e3o elevar ou mesmo reduzir os sal\u00e1rios reais no centro do sistema, para mudar os processos de trabalho, para for\u00e7ar a supress\u00e3o das prote\u00e7\u00f5es das economias nacionais existentes na periferia, para deslocar as ind\u00fastrias de trabalho intensivas para a \u00c1sia etc. O neoliberalismo reinventou de novo o capitalismo que fora transformado pelo keynesianismo e pela socialdemocracia. Tudo isso, no entanto, precisava de um complemento.<\/p>\n<p>Para criar um sistema nacional e internacional de domina\u00e7\u00e3o financeira e, ao mesmo tempo, para montar um mecanismo de est\u00edmulo \u00e0 demanda efetiva global, desregularam-se os mercados financeiros e se permitiu uma enorme expans\u00e3o do cr\u00e9dito mundialmente. O resultado dessa elei\u00e7\u00e3o foi o empilhamento consecutivo de d\u00edvidas do qual resultou uma &#8220;exuber\u00e2ncia irracional&#8221; nos mercados de capitais em geral. Ora, isso n\u00e3o poderia ter ocorrido sem que fosse criada tamb\u00e9m uma &#8220;magn\u00edfica&#8221; fonte de crises financeiras.<\/p>\n<p>O descolamento progressivo do montante de ativos financeiros em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 magnitude do PIB global, n\u00e3o parou de crescer desde 1980. Agora, ele aparece como um pren\u00fancio do fenecimento do capitalismo por meio de um colapso financeiro de grandes propor\u00e7\u00f5es. Mas isto n\u00e3o \u00e9 tudo.<\/p>\n<p>Para demonstrar, teoricamente agora, a tese resumida no t\u00edtulo deste artigo, \u00e9 preciso come\u00e7ar por um recorte de conhecida tese de Karl Marx, depositada no pref\u00e1cio de Para a cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica, escrito em 1859. No trecho abaixo transcrito, ele resume a sua compreens\u00e3o do processo de emerg\u00eancia, desenvolvimento e fenecimento dos modos de produ\u00e7\u00e3o em geral. Enquanto subsistem historicamente, esses modos regulam as a\u00e7\u00f5es dos seus componentes individuais e coletivos, condicionando a vida social como um todo; passam por longos per\u00edodos progressivos que desembocam, ao fim e ao cabo, em impasses hist\u00f3ricos. Crescem, ent\u00e3o, movimentos sociais que produzem instabilidades, rupturas e transforma\u00e7\u00f5es, no curso das quais s\u00e3o criadas novas formas de sociabilidade.<\/p>\n<p>Na produ\u00e7\u00e3o social da pr\u00f3pria vida, os homens contraem rela\u00e7\u00f5es determinadas, necess\u00e1rias e independentes de sua vontade, rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o estas que correspondem a uma etapa determinada de desenvolvimento das suas for\u00e7as produtivas materiais. A totalidade dessas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o forma a estrutura econ\u00f4mica da sociedade. (\u2026) Em certa etapa de seu desenvolvimento, as for\u00e7as produtivas materiais da sociedade entram em contradi\u00e7\u00e3o com as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o existentes (\u2026). De formas de desenvolvimento das for\u00e7as produtivas estas rela\u00e7\u00f5es se transformam em seus grilh\u00f5es. Sobrev\u00e9m ent\u00e3o uma \u00e9poca de revolu\u00e7\u00e3o social. [1]<\/p>\n<p>Para reinterpretar esse trecho, sustenta-se aqui em primeiro lugar que, implicitamente, Marx toma o sistema econ\u00f4mico como aquilo que atualmente \u00e9 chamado de um sistema complexo ou de um sistema social complexo. Como tal, ele est\u00e1 internamente estruturado por determinadas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e estas determinam-no como uma totalidade que tem caracter\u00edsticas pr\u00f3prias e que possui certas &#8220;leis&#8221; tendenciais de desenvolvimento.<\/p>\n<p>Tais sistemas n\u00e3o s\u00e3o descrit\u00edveis por quaisquer sincronias, j\u00e1 que se caracterizam por existirem como processos contradit\u00f3rios, abertos ao futuro e dependentes do pr\u00f3prio modo como evolvem. Enquanto tais, essas totalidades condicionam o modo de ser hist\u00f3rico dos pr\u00f3prios homens que se situam em sua pr\u00f3pria base e que se atribulam em seu interior para sobreviver, buscando atender as suas pr\u00f3prias necessidades e realizar os seus desejos mais profundos.<\/p>\n<p>Dizer que o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista \u00e9 um sistema complexo \u00e9 dizer que possui a propriedade da auto-organiza\u00e7\u00e3o e que enfrenta permanentemente problemas de sustentabilidade, sejam de ordem interna, sejam de ordem ambiental. Eis que os sistemas complexos em geral apresentam certa resili\u00eancia, mas n\u00e3o deixam tamb\u00e9m de possuir fragilidades. Existem para sobreviver, mas podem falecer por causas internas e externas.<\/p>\n<p>O que caracteriza sobretudo os sistemas complexos s\u00e3o os nexos internos que ligam entre si as suas partes constituintes e formam a sua estrutura, mas eles podem e devem ser apreendidos tamb\u00e9m pelos nexos externos, ou seja, pelos modos segundo os quais essas partes interagem entre si e determinam o seu dinamismo no tempo. \u00c9 desse modo que, numa perspectiva de cientificidade positiva e vulgar, fala-se usualmente da complexidade tendo apenas por refer\u00eancia a din\u00e2mica de intera\u00e7\u00e3o dos m\u00faltiplos elementos do sistema em considera\u00e7\u00e3o, os quais est\u00e3o entretidos em processos de auto-organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mesmo quando essa cientificidade \u2013 que ainda se at\u00e9m apenas aos nexos externos entre os fen\u00f4menos \u2013 transcende o determinismo que pretende prever o futuro com base nos fatos passados, o reducionismo, ou seja, o m\u00e9todo caracter\u00edstico da ci\u00eancia moderna (Bacon, Descartes e Newton) que pretende sempre explicar o todo a partir das partes, e a norma anal\u00edtica que manda isolar e separar as dificuldades na compreens\u00e3o de tudo que se afigura complicado, ela ainda n\u00e3o vai longe o suficiente. \u00c9 preciso, pois, dizer o porqu\u00ea.<\/p>\n<p>Apreende, assim, certas caracter\u00edsticas dos sistemas complexos tais como os seus ciclos de realimenta\u00e7\u00e3o, as n\u00e3o-linearidades causais, as redes de intera\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o acolhe de modo adequado e suficiente a propriedade da emerg\u00eancia \u2013 pois, esta n\u00e3o pode ser explicada apenas pelas configura\u00e7\u00f5es engendradas pelas intera\u00e7\u00f5es aparentes dos elementos do sistema complexo. Eis que essa propriedade crucial n\u00e3o resulta apenas das intera\u00e7\u00f5es din\u00e2micas entre as partes, mas prov\u00e9m, fundamentalmente, do evolver das contradi\u00e7\u00f5es inerentes \u00e0 sua estrutura na temporalidade hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Como o sistema econ\u00f4mico \u2013 um sistema social complexo \u2013 em sua generalidade \u00e9 sobretudo um sistema de produ\u00e7\u00e3o de coisas objetiva ou subjetivamente necess\u00e1rias \u00e0 vida humana, fica claro que as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o mencionadas por Marx se referem ao modo espec\u00edfico pelo qual se organiza o trabalho socialmente necess\u00e1rio numa determinada etapa hist\u00f3rica. No capitalismo, como se sabe, o atendimento das necessidades est\u00e1 subordinado \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o de riqueza abstrata, ou seja, de valor. E o &#8220;valor que se valoriza&#8221;, isto \u00e9, o capital \u00e9 \u2013 isso n\u00e3o se pode ignorar \u2013 um sujeito autom\u00e1tico insaci\u00e1vel.<\/p>\n<p>Crucial aqui \u00e9 interpretar a no\u00e7\u00e3o de for\u00e7a produtiva de um modo adequado aos prop\u00f3sitos deste artigo que n\u00e3o v\u00ea o capitalismo nem em sua juventude (s\u00e9culo XIX) nem em sua maturidade (primeiros dois ter\u00e7os do s\u00e9culo XX), mas em sua velhice (do \u00faltimo ter\u00e7o do s\u00e9culo XX em diante). Numa leitura produtivista, &#8220;for\u00e7a produtiva&#8221; significaria simplesmente capacidade de se apropriar da natureza e, nesse sentido, poderia ser resumida pela no\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica de produtividade do trabalho. Ora, essa leitura seria bem insuficiente porque toma o sistema econ\u00f4mico como um sistema determinado tecnologicamente que, em princ\u00edpio, dura sen\u00e3o para sempre, pelo menos indefinidamente.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o h\u00e1 produ\u00e7\u00e3o sem apropria\u00e7\u00e3o \u2013 transforma\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o \u2013 da natureza, \u00e9 preciso associar de imediato a no\u00e7\u00e3o de for\u00e7a produtiva \u00e0 no\u00e7\u00e3o de sustentabilidade. Eis que o sistema econ\u00f4mico mora no ambiente formando pela natureza n\u00e3o humana e, ao se manter ou mesmo prosperar em seu bojo, degrada-o de algum modo. E, ao faz\u00ea-lo, pode minar as condi\u00e7\u00f5es externas que d\u00e3o sustenta\u00e7\u00e3o ao movimento expansivo do sistema econ\u00f4mico. Portanto, essa categoria guarda em si o seu contr\u00e1rio, a insustentabilidade. Ora, essa contradi\u00e7\u00e3o evolve com o pr\u00f3prio evolver do modo de produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas devido \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es externas, necess\u00e1rias que s\u00e3o ao pr\u00f3prio mover-se do sistema econ\u00f4mico, mas tamb\u00e9m devido ao desenvolvimento de suas contradi\u00e7\u00f5es internas, assim como a todos os desdobramentos que delas decorrem.<\/p>\n<p>O evolver das contradi\u00e7\u00f5es internas ao sistema econ\u00f4mico gera conflitos, embates entre classes sociais, os quais, mediante tens\u00f5es crescentes, podem eventualmente resolverem-se por meio de movimentos de massa, revoltas ag\u00f4nicas e mesmo revolu\u00e7\u00f5es que mudam radicalmente a estrutura do modo de produ\u00e7\u00e3o. Assim, a contradi\u00e7\u00e3o central inerente ao desenvolvimento da sociedade de que fala Marx pode ser entendida como uma contradi\u00e7\u00e3o entre as for\u00e7as que d\u00e3o sustentabilidade ao modo de produ\u00e7\u00e3o e as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, dentro das quais aquelas for\u00e7as se desenvolvem. Nesse sentido, entende-se por for\u00e7a produtiva n\u00e3o mais, simplesmente, a produtividade do trabalho, mas a capacidade do sistema assim constitu\u00eddo de dar sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0 vida humana.<\/p>\n<p>Segue-se aqui a tese de Murray Smith em seu livro Leviat\u00e3 invis\u00edvel [2] segundo a qual se est\u00e1, desde o come\u00e7o dos anos 1980, na presen\u00e7a do ocaso do capitalismo \u2013 um processo que n\u00e3o deixou de se aprofundar desde ent\u00e3o. Pois, nessa d\u00e9cada, ele entrou \u2013 enquanto modo de produ\u00e7\u00e3o \u2013 numa crise estrutural da qual ainda n\u00e3o saiu e n\u00e3o poder\u00e1 sair inc\u00f3lume. O neoliberalismo, nessa perspectiva, n\u00e3o se afigura como uma supera\u00e7\u00e3o das dificuldades sist\u00eamicas do capitalismo, as quais se apresentaram j\u00e1 na d\u00e9cada dos anos 1970, mas como um recurso derradeiro para que possa continuar funcionando, ainda que cada vez mais precariamente. Neste ocaso, ciclos de alta e baixa aconteceram e continuar\u00e3o a acontecer, mas a tend\u00eancia se apresenta como um decl\u00ednio persistente. Segundo ele \u2013 concorda-se com o que diz \u2013 apenas um marxismo cr\u00edtico resoluto pode apreend\u00ea-la adequadamente:<\/p>\n<p>Somente Marx oferece um arcabou\u00e7o te\u00f3rico necess\u00e1rio para apreender a trajet\u00f3ria contradit\u00f3ria, irracional e crescentemente perigosa do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista \u2013 um conjunto de rela\u00e7\u00f5es sociais e capacidades humanas, organiza\u00e7\u00e3o societ\u00e1ria e tecnol\u00f3gica que, mais do que nunca, demanda ser compreendida num contexto global que, n\u00e3o menos do que no passado, mant\u00e9m-se prisioneira de suas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o que p\u00f5em a lei capitalista do valor-trabalho.<\/p>\n<p>Como base nessa premissa, Smith sustenta que tr\u00eas contradi\u00e7\u00f5es &#8220;marxianas&#8221; est\u00e3o na base dessa crise estrutural. Sabendo que aqui se acrescentar\u00e1 uma quarta, \u00e9 preciso explicit\u00e1-las:<\/p>\n<p>A primeira delas est\u00e1 no fundamento de uma crise de superacumula\u00e7\u00e3o que vem entravando o moto pr\u00f3prio do capitalismo globalizado desde a d\u00e9cada de 1970. Para aumentar continuamente a produtividade do trabalho na produ\u00e7\u00e3o de mercadorias, a concorr\u00eancia capitalista tende a elevar a raz\u00e3o entre o montante capital empregado na produ\u00e7\u00e3o e o valor total dessa pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o \u2013 e isso tende a reduzir fortemente a taxa de lucro. Como esse sistema \u2013 que nunca est\u00e1 desacoplado do Estado \u2013 n\u00e3o pode mais permitir que as crises destruam irrestritamente o capital acumulado, permitindo assim uma recupera\u00e7\u00e3o dessa taxa, ele pr\u00f3prio como um sistema mundial passou a enfrentar uma crise permanente de valoriza\u00e7\u00e3o, ou seja, uma crise estrutural originada da produ\u00e7\u00e3o &#8220;insuficiente&#8221; de mais-valor. [3]<\/p>\n<p>S\u00f3 lhe restou o neoliberalismo; grosso modo, essa pr\u00e1xis s\u00f3cio-pol\u00edtica procurou criar contratend\u00eancias \u00e0 queda da taxa de lucro. Para tanto, buscou decompor mais e mais a sociedade em indiv\u00edduos, liberar os movimentos do capital financeiro, transferir as ind\u00fastrias intensivas em trabalho para a periferia, reduzir os sal\u00e1rios reais dos trabalhadores etc. Ora, tudo isso gerou uma recupera\u00e7\u00e3o fraca principalmente no centro do sistema, que durou entre 1982 e 1997, aproximadamente. A partir dessa \u00faltima data, a tend\u00eancia de queda da taxa de lucro se imp\u00f4s novamente sem perspectivas robustas de que essa situa\u00e7\u00e3o depressiva possa mudar.<\/p>\n<p>A segunda contradi\u00e7\u00e3o consiste num desdobramento da contradi\u00e7\u00e3o entre o car\u00e1ter privado da apropria\u00e7\u00e3o e o car\u00e1ter social da produ\u00e7\u00e3o. \u00c0 medida que o capitalismo se desenvolve, cresce a necessidade de bens e servi\u00e7os ofertados como bens p\u00fablicos; eis que eles s\u00e3o necess\u00e1rios para prover a infraestrutura e a prote\u00e7\u00e3o social comunit\u00e1ria que garante uma certa unidade ao sistema. Ora, esse provimento onera o or\u00e7amento dos Estados nacionais, os quais s\u00e3o alimentados em \u00faltima an\u00e1lise por recursos extra\u00eddos do setor produtivo das economias. Diante da crise de valoriza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o lhes restou sen\u00e3o cair numa pol\u00edtica de privatiza\u00e7\u00e3o que tende a tornar os bens p\u00fablicos cada vez mais escassos. Ao erodir a base comum da sociedade, o neoliberalismo difunde a pobreza e o niilismo, concentra a renda e a riqueza, solapa a democracia liberal \u2013 ou seja, certos fundamentos que d\u00e3o sustenta\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica ao pr\u00f3prio [4] capitalismo.<\/p>\n<p>A terceira contradi\u00e7\u00e3o diz respeito \u00e0 transnacionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o por meio da financeiriza\u00e7\u00e3o, das empresas que operam em dezenas de pa\u00edses, das cadeias mundiais de componentes, das plataformas digitais etc. e o car\u00e1ter nacional da regula\u00e7\u00e3o macrossocial e macroecon\u00f4mica. Como se sabe, o Estado \u00e9 a inst\u00e2ncia de poder que p\u00f5e a unidade que falta num meio em que ocorrem frequentes disfun\u00e7\u00f5es sist\u00eamicas e que est\u00e1 permeado por antagonismos entre indiv\u00edduos, grupos e classes sociais. \u00c9 ele, ademais, que busca encontrar solu\u00e7\u00e3o para os problemas originados pelo pr\u00f3prio funcionamento do modo de produ\u00e7\u00e3o. Contudo, muitos problemas est\u00e3o sendo gerados agora numa escala global, para al\u00e9m do poder de interven\u00e7\u00e3o dos Estados nacionais. Mais do que isso, frequentemente, eles se encontram constrangidos pelos poderes que prosperam internacionalmente e que se lhe sobrep\u00f5em.<\/p>\n<p>Finalmente, \u00e9 preciso mencionar a contradi\u00e7\u00e3o entre o car\u00e1ter inerentemente predat\u00f3rio da produ\u00e7\u00e3o capitalista e as exig\u00eancias de conserva\u00e7\u00e3o e de regenera\u00e7\u00e3o do ambiente natural \u2013 nas quais se incluem a reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho. H\u00e1 um certo consenso no pensamento cr\u00edtico de que existe uma crescente &#8220;ruptura metab\u00f3lica&#8221; entre a produ\u00e7\u00e3o de mercadorias por meio da qual o capital se realiza enquanto tal e as condi\u00e7\u00f5es naturais da produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eis que as condi\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas da sustentabilidade da civiliza\u00e7\u00e3o humana v\u00eam sendo erodidas com velocidade inaudita por um processo de acumula\u00e7\u00e3o de capital que n\u00e3o pode parar e que, por isso, n\u00e3o pode deixar de receber prioridade em cada uma das na\u00e7\u00f5es que comp\u00f5em essa civiliza\u00e7\u00e3o. Mesmo se s\u00e3o feitos acordos internacionais, por exemplo, para reduzir as emiss\u00f5es de carbono, elas continuam crescendo; eis que crescem mesmo se a gera\u00e7\u00e3o desse tipo de polui\u00e7\u00e3o j\u00e1 se encontra em n\u00edvel bem cr\u00edtico.<\/p>\n<p>Ao n\u00e3o garantir a sustentabilidade da civiliza\u00e7\u00e3o humana no planeta Terra, o capitalismo se tornou insustent\u00e1vel. \u00c9 a partir dessa considera\u00e7\u00e3o que Smith chega \u00e0 tese do seu crep\u00fasculo:<\/p>\n<p>Juntas, essas crises interrelacionadas sugerem que j\u00e1 se entrou na era do ocaso do capitalismo \u2013 uma era na qual a humanidade encontra os meios para criar uma ordem social e uma organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica mais racionais ou na qual o decaimento progressivo do capitalismo trar\u00e1 junto consigo a destrui\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>[1] Marx, Karl \u2013 Para a cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica. Cole\u00e7\u00e3o Os Pensadores: Marx . S\u00e3o Paulo: Editora Abril, 1978, p. 130.<br \/>\n[2] Smith, Murray E. G. \u2013 Invisible Leviathan \u2013 Marx&#8217;s law of value in the twilight of capitalism . New York: Haymarket Books, 2018.<br \/>\n[3] Ver Prado, Eleut\u00e9rio F. S. \u2013 O futuro da economia mundial. In: A terra \u00e9 redonda , 8 de junho de 2021.<br \/>\n[4] Ver Brown, Wendy \u2013 Explicando nossos sintomas m\u00f3rbidos. In: Outras palavras , 30 de junho de 2021.<\/p>\n<p>[*] Professor titular e s\u00eanior do departamento de economia da FEA\/USP. Mant\u00e9m o blog Economia e Complexidade . Correio eletr\u00f4nico: eleuter@usp.br. O seu v\u00eddeo est\u00e1 em www.youtube.com\/watch?v=6g9Ed7Qj65M&amp;t=3s .<\/p>\n<p>O original encontra-se em outraspalavras.net\/&#8230;<\/p>\n<p>Este artigo encontra-se em https:\/\/resistir.info\/ .<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/15220\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[239],"tags":[234],"class_list":["post-15220","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiental","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3Xu","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15220","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15220"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15220\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15220"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15220"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15220"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}