{"id":15264,"date":"2017-08-10T18:29:25","date_gmt":"2017-08-10T21:29:25","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=15264"},"modified":"2017-08-16T14:13:17","modified_gmt":"2017-08-16T17:13:17","slug":"a-imprensa-a-venezuela-o-golpe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/15264","title":{"rendered":"A imprensa, a Venezuela, o golpe"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i1.wp.com\/jornalistaslivres.org\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/photo_2017-08-07_21-28-27.jpg\" alt=\"imagem\" \/>Por Rosane Borges, especial para os Jornalistas Livres<\/p>\n<p>A Am\u00e9rica Latina parece sempre caminhar em sincronia, seja qual for <!--more-->o prisma adotado para an\u00e1lise. Sempre acossada por um capitalismo que tenta sistematicamente releg\u00e1-la \u00e0 depend\u00eancia, \u00e0 n\u00e3o soberania, experimenta \u201cepis\u00f3dios\u201d que se desenrolam em etapas c\u00edclicas e demonstram que, a despeito de nuances, particularidades e diferen\u00e7as entre os pa\u00edses, segue em marcha, com recuos e avan\u00e7os, uma hist\u00f3ria comum que demonstra, com for\u00e7a pedag\u00f3gica, como certas narrativas se espraiam no tecido social e se imp\u00f5em como a \u00fanica poss\u00edvel. O descalabro na Venezuela espelhado no cristal da chamada \u201cgrande imprensa\u201d \u00e9 mais uma mostra dessa nefasta imposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Olhe-se para onde se olhe, vimos irradiar dos jornais de quase todas as latitudes que a Venezuela soterrou definitivamente os princ\u00edpios democr\u00e1ticos ao convocar a Assembleia Constituinte e que a viol\u00eancia, um recurso atribu\u00eddo ao governo Maduro, deve ser veementemente repudiada. Vimos, igualmente, engrossar o coro deste enunciado alguns setores da esquerda e de cidad\u00e3os brasileiros \u2013 estes \u00faltimos sustentam at\u00e9 hoje que o Brasil n\u00e3o protagonizou um golpe com a deposi\u00e7\u00e3o da presidenta Dilma Rousseff, j\u00e1 que, sustentam eles, foram respeitados os princ\u00edpios legais (uma boa leitura de Giorgio Agamben sobre legalidade e legitimidade cairia bem).<\/p>\n<p>Estas pessoas insurgem-se fervorosamente contra o que est\u00e1 acontecendo na Venezuela, por\u00e9m foram incapazes de mover um m\u00fasculo sequer para o que aconteceu e vem acontecendo no Brasil. Para esses setores, golpe, inviabilidade institucional, desrespeito \u00e0 democracia, s\u00f3 acontecem na \u201cSib\u00e9ria\u201d, ou melhor, na Venezuela. A crise de nossa p\u00e1tria m\u00e3e gentil \u00e9 de outra ordem, insistem eles. Empurram os argumentos de que Maduro \u00e9 um ditador desp\u00f3tico para o campo jur\u00eddico, na esperan\u00e7a de dar a eles verniz insuspeito. Por\u00e9m, \u00e9 o pr\u00f3prio direito que diz o contr\u00e1rio, restando apenas ju\u00edzos de valor subjetivos para embasar tal acusa\u00e7\u00e3o. Vejamos as considera\u00e7\u00f5es de Herminio Porto, dos Jornalistas Livres:<\/p>\n<p><em><strong>\u201cAfirmar que Maduro cumpriu a Constitui\u00e7\u00e3o ao convocar a Constituinte e\u0301 um ju\u00edzo de valor objetivo, pois seu ato e\u0301 analisado tendo por base a norma constitucional. Dizer que Maduro e\u0301 um ditador por ter convocado a Constituinte para se \u2018perpetuar no poder\u2019 e\u0301 um ju\u00edzo de valor subjetivo, cuja import\u00e2ncia para o direito se compara ao julgamento este\u0301tico de seu bigode, ou seja, n\u00e3o tem o menor significados juri\u0301dico (\u2026). Na\u0303o pretendemos dizer aqui que tudo vai bem na Repu\u0301blica Bolivariana. Na\u0303o vai! Mas na\u0303o e\u0301 por causa da Constituinte. E\u0301 prematuro acusar de ditador um cumpridor da Constituic\u0327a\u0303o, dado que faltaria um elemento fundamental para caracterizar Maduro deste modo: o despotismo, que e\u0301 o desrespeito a\u0300 lei. Se os pai\u0301ses do Mercosul suspenderam a Venezuela, na\u0303o e\u0301 por romper com cla\u0301usula democra\u0301tica ao convocar a Constituinte. O dispositivo legal esta\u0301 la\u0301 h\u00e1 anos: se este e\u0301 \u2018antidemocra\u0301tico\u2019, por que na\u0303o repararam nisso antes?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>E o roteiro de uma \u201chist\u00f3ria comum\u201d parece ganhar densidade quando fazemos correla\u00e7\u00f5es com o passado. Quer nos parecer que a Venezuela de hoje revive os mesmos dramas do Chile de 1973, pr\u00e9-golpe. As estrat\u00e9gias para deslegitimar Maduro foram as mesmas que depuseram Allende. Tanto antes como agora, a imprensa forneceu a grande narrativa que deu nexo e liga para a constru\u00e7\u00e3o de \u201cum\u201d consenso. Allende foi acusado de colocar o Chile na rota de um marxismo que afundou o pa\u00eds, boicotado pelo empresariado opositor que provocou um desabastecimento artificial, como o que est\u00e3o fazendo com a Venezuela. Para tentar combater esse terrorismo comercial, Allende criou as Juntas de Abastecimento e Pre\u00e7o, conhecidas como JAP\u2019s e Maduro, os Comit\u00eas Locais de Abastecimento e Produ\u00e7\u00e3o (CLAPs), muitos deles queimados por uma oposi\u00e7\u00e3o entreguista. O Chile nacionalizou o cobre em 1971, a Venezuela o fez com o petr\u00f3leo. No Chile de 1973 e na Venezuela dos nossos tempos, os donos do poder lutam infatigavelmente para romper um ciclo em que mudan\u00e7as protagonizadas por diversos setores populares devem ser abortadas, mesmo que o pa\u00eds tenha que pagar um pre\u00e7o t\u00e3o alto.<\/p>\n<p>Vocalizando os interesses dos donos do poder (meios de produ\u00e7\u00e3o, capital financeiro e a inger\u00eancia note-americana), parte da imprensa global subscreve uma narrativa pomposa, fiadora dos direitos humanos, defensora intransigente da democracia, \u201csolid\u00e1ria\u201d com o povo venezuelano sem cumprir minimamente o dever de casa: nada se v\u00ea, l\u00ea, das posi\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias \u00e0s hegem\u00f4nicas. N\u00e3o h\u00e1 nestes jornais nenhuma posi\u00e7\u00e3o dos milhares de homens e mulheres que apoiam o governo venezuelano. Nada, nadica de nada\u2026 Jornalismo se faz com pluralidade de vozes, prismas diferenciados, contrabalan\u00e7o de opini\u00f5es. A aus\u00eancia disso tamb\u00e9m \u00e9 golpe no jornalismo. N\u00e3o \u00e9 nada democr\u00e1tico, para sermos gentis.<\/p>\n<p><em>*<strong>Rosane Borges<\/strong>, 42 anos, \u00e9 jornalista, professora universit\u00e1ria e autora de diversos livros, entre eles \u201cEsbo\u00e7os de um tempo presente\u201d (2016), \u201cM\u00eddia e racismo\u201d (2012) e \u201cEspelho infiel: o negro no jornalismo brasileiro\u201d (2004).<\/em><\/p>\n<blockquote data-secret=\"QtkYJQUYFD\" class=\"wp-embedded-content\"><p><a href=\"https:\/\/jornalistaslivres.org\/2017\/08\/imprensa-venezuela-o-golpe-2\/\">A imprensa, a Venezuela, o golpe<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"https:\/\/jornalistaslivres.org\/2017\/08\/imprensa-venezuela-o-golpe-2\/embed\/#?secret=QtkYJQUYFD\" data-secret=\"QtkYJQUYFD\" width=\"600\" height=\"338\" title=\"&#8220;A imprensa, a Venezuela, o golpe&#8221; &#8212; Jornalistas Livres\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Rosane Borges, especial para os Jornalistas Livres A Am\u00e9rica Latina parece sempre caminhar em sincronia, seja qual for\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/15264\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[45],"tags":[],"class_list":["post-15264","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c54-venezuela"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3Yc","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15264","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15264"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15264\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15264"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15264"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15264"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}