{"id":1554,"date":"2011-06-12T02:54:09","date_gmt":"2011-06-12T02:54:09","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1554"},"modified":"2011-06-12T02:54:09","modified_gmt":"2011-06-12T02:54:09","slug":"portugal-espelho-do-funcionamento-da-engrenagem-capitalista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1554","title":{"rendered":"PORTUGAL, ESPELHO DO FUNCIONAMENTO DA ENGRENAGEM CAPITALISTA"},"content":{"rendered":"\n<p>Apresentadas pelos dirigentes dos partidos da burguesia como acontecimento de import\u00e2ncia transcendental, as elei\u00e7\u00f5es legislativas somente o foram na apar\u00eancia.<\/p>\n<p>O espect\u00e1culo do grande circo eleitoral, montado no contexto de uma grav\u00edssima crise \u2013 Portugal \u00e9 actualmente o \u00fanico pais da Zona Euro em recess\u00e3o &#8211; n\u00e3o exibiu inova\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O desfecho n\u00e3o trouxe surpresas. A um desastroso governo do PS, respons\u00e1vel por uma politica neoliberal que levou o Pa\u00eds \u00e0 beira da fal\u00eancia, vai seguir-se um desastroso governo PSD-CDS que executar\u00e1 uma politica neoliberal ainda mais ortodoxa, mais humilhante, ditada de fora.<\/p>\n<p>O novo primeiro-ministro cumprir\u00e1 na pr\u00e1tica o papel de intermedi\u00e1rio do poder real, estrangeiro. A sua capacidade de decis\u00e3o ser\u00e1 m\u00ednima, como executante da pol\u00edtica imposta pelo triunvirato (CE, FMI, e BCE), definida na Carta de Inten\u00e7\u00f5es imposta a Portugal, assinada pelo governo PS, pelo PSD e pelo CDS.<\/p>\n<p>Inicia-se para o nosso povo um tempo de humilha\u00e7\u00e3o, de pauperiza\u00e7\u00e3o crescente, de fome para muitos, uma ditadura do grande capital euro-americano cuja crueldade n\u00e3o foi ainda plenamente avaliada pela esmagadora maioria dos Portugueses.<\/p>\n<p>A ENGRENAGEM<\/p>\n<p>Desde o golpe do 25 de Novembro, o desfecho das elei\u00e7\u00f5es legislativas \u00e9 previs\u00edvel com margem escassa de erro.<\/p>\n<p>Alternando, o PS e o PSD, isoladamente, em alian\u00e7a informal, ou com a ajuda do CDS, formaram os governos que se empenharam em destruir as conquistas revolucionarias do povo portugu\u00eas concretizadas sobretudo durante o breve per\u00edodo em que o general Vasco Gon\u00e7alves foi Primeiro-Ministro.<\/p>\n<p>Os chamados governos de iniciativa presidencial, em <em>intermezzos<\/em> irrelevantes, n\u00e3o alteraram nem podiam alterar o funcionamento do sistema.<\/p>\n<p>O ritmo destruidor foi descont\u00ednuo, influenciado por uma multiplicidade de factores, insepar\u00e1veis da integra\u00e7\u00e3o de Portugal na CEE, de uma depend\u00eancia crescente de Bruxelas e de estrat\u00e9gias do grande capital internacional.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 identific\u00e1vel uma constante na l\u00f3gica perversa da falsa democracia representativa portuguesa, na realidade uma permanente ditadura de classe de fachada democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>O povo, vitima da politica realizada pelo partido que controla a Assembleia da Republica e que invariavelmente, t\u00e3o logo \u00e9 investido no Poder, arquiva o programa defendido durante a campanha, pune esse partido nas urnas quando o descalabro atinge propor\u00e7\u00f5es alarmantes.<\/p>\n<p>Se o descontentamento popular tem como alvo o PS, as elei\u00e7\u00f5es favorecem ent\u00e3o o PSD (com ou sem CDS) que, por sua vez, esquece os compromissos assumidos e executa no governo uma politica muito semelhante \u00e0 anterior.<\/p>\n<p>Nesse rod\u00edzio de contornos surreais, PS e PSD (com CDS de c\u00famplice) utilizam o Legislativo como o instrumento de politicas concebidas em benef\u00edcio exclusivo dos interesses do grande capital, invariavelmente submissos \u00e0s exig\u00eancias de Bruxelas e Washington. Os trabalhadores t\u00eam pagado sempre a factura dessas politicas que arruinaram o Pais, empurrando-o para a beira do abismo.<\/p>\n<p>Difere muito o discurso dos figurantes que desde o 25 de Novembro desfilaram pelo palco da caricatura de democracia existente. Mas o denominador comum a todos esses governantes tem sido aquilo que o Partido Comunista Portugu\u00eas definiu como \u00abuma politica de direita\u00bb, acompanhada por uma permanente vassalagem ao imperialismo. Com maior ou menor arrog\u00e2ncia, exibem uma autonomia decis\u00f3ria de fachada. Ostentam as ins\u00edgnias do Poder, mas o Poder real tem sido exercido pelo capital que interfere para transferir o governo de partido quando tal considera oportuno.<\/p>\n<p>Uma <em>media<\/em> de baix\u00edssimo n\u00edvel \u2013 com raras excep\u00e7oes, os analistas pol\u00edticos de servi\u00e7o s\u00e3o criaturas de pesadelo, simuladores de cultura &#8211; contribui para transmitir ao povo a ilus\u00e3o de que a \u00abnossa democracia\u00bb criou ra\u00edzes, funciona e o futuro imediato depender\u00e1 no fundamental do governante de turno. Essa convic\u00e7\u00e3o, muito generalizada, \u00e9 mais um factor de aliena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Obviamente, os actores que se revezam na ocupa\u00e7\u00e3o da cena no dram\u00e1tico desgoverno circense s\u00e3o diferentes. A converg\u00eancia quanto ao objectivo n\u00e3o \u00e9 incompat\u00edvel com estilos opostos.<\/p>\n<p>Cito os tr\u00eas mais recentes.<\/p>\n<p>S\u00f3crates actuou como personagem irrepet\u00edvel. Era um deputado obscuro quando foi catapultado para a chefia do PS. Primeiro Ministro durante seis anos, praticou uma politica neoliberal ultra reaccion\u00e1ria. Afirmando defender o Estado Social, hostilizou os professores como nenhum outro dos seus antecessores, desencadeou uma ofensiva intensa contra a Fun\u00e7\u00e3o Publica e o Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade, imp\u00f4s uma revis\u00e3o selvagem da legisla\u00e7\u00e3o do Trabalho e golpeou duramente o sector empresarial do Estado, promovendo privatiza\u00e7\u00f5es em serie.<\/p>\n<p>Demonstrou ser vocacionalmente um autocrata com fome insaci\u00e1vel de poder. Domesticou o PS com tanto \u00eaxito que, nas v\u00e9speras das elei\u00e7\u00f5es, foi glorificado, quase santificado, no Congresso como dirigente tutelar. A poucas semanas de uma derrota inevit\u00e1vel, apresentou-se ali como um triunfador, como se fora C\u00e9sar no regresso da campanha das G\u00e1lias.<\/p>\n<p>Politico de direita por op\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e pelos actos, S\u00f3crates exibiu-se sempre como um progressista. Contou para isso com a cumplicidade da imprensa escrita e da televis\u00e3o que continuam a apresentar o PS como um partido de esquerda. Essa inverdade \u00e9 fonte de confus\u00f5es perigosas sobretudo em per\u00edodos eleitorais. \u00c9 um facto que a base social do PS se diferencia das bases do PSD e do CDS, mas a direc\u00e7\u00e3o \u00absocialista\u00bb actua h\u00e1 muito como sendo colectivamente de direita. Cabe recordar que Mario Soares foi, como sublinhou \u00c1lvaro Cunhal, o principal respons\u00e1vel pela contra-revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O pr\u00f3ximo Primeiro-ministro, Passos Coelho, \u00e9 um pol\u00edtico inexperiente e med\u00edocre, ultra neoliberal. \u00c9 significativo que considere insuficiente a \u00abreceita\u00bb de medidas brutais exigidas pelo triunvirato do capital. Dele se pode esperar que cumpra o papel de submisso intermedi\u00e1rio da Finan\u00e7a nacional e internacional.<\/p>\n<p>Paulo Portas, o seu parceiro no Governo que a\u00ed vem, \u00e9 o mais h\u00e1bil e eficaz representante da direita portuguesa quimicamente pura com m\u00e1scara de centrista. Na \u00e9poca de Salazar teria sido seu ministro.<\/p>\n<p>No quadrante oposto aos partidos que aprovaram o diktat do grande capital, o Bloco de Esquerda sofreu uma pesada derrota. Partido \u2013 movimento, am\u00e1lgama nascido da fus\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es que se diziam marxistas, contou nos \u00faltimos anos com uma inst\u00e1vel base eleitoral, mas nunca conseguiu implantar &#8211; se entre os trabalhadores. Somou muitos votos em elei\u00e7\u00f5es anteriores com a ades\u00e3o de descontentes do PS, mas tal clientela levou-o a renunciar \u00e0s refer\u00eancias ideol\u00f3gicas trotskistas e maoistas da maioria dos dirigentes fundadores. Pagou agora o pre\u00e7o da metamorfose, do apoio a Manuel Alegre e de outras op\u00e7\u00f5es oportunistas.<\/p>\n<p>O PCP, o \u00fanico partido em Portugal com uma base social e um programa revolucion\u00e1rios, manteve-se fiel aos princ\u00edpios e \u00e0 sua ideologia, o marxismo-leninismo. Essa coer\u00eancia permitiu-lhe resistir vitoriosamente ao vendaval de satanizar\u00e3o do comunismo que descaracterizou a maioria dos partidos comunistas ap\u00f3s a desagrega\u00e7\u00e3o da URSS.<\/p>\n<p>Sem desvios da sua meta \u2013 a constru\u00e7\u00e3o distante do socialismo rumo ao comunismo \u2013 realizou uma campanha marcada pela dignidade, pela recusa do eleitoralismo e pela permanente preocupa\u00e7\u00e3o de esclarecer o povo portugu\u00eas, duramente atingido pela politica reaccion\u00e1ria dos governos do PS e do PSD e agora prestes a ser golpeado pelo \u00abprograma\u00bb ditatorial concebido em Bruxelas e Washington.<\/p>\n<p>A luta por uma \u00abpolitica patri\u00f3tica de esquerda\u00bb foi uma constante no discurso comunista ao longo da campanha, um discurso que n\u00e3o semeava ilus\u00f5es, porque o projecto comunista \u00e9 a longo prazo, incompat\u00edvel com promessas populistas.<\/p>\n<p>Sabia-se antecipadamente que os partidos da capitula\u00e7\u00e3o iriam eleger a grande maioria dos deputados. O PCP n\u00e3o esqueceu o ensinamento de Lenine segundo o qual a ideologia da classe dominante marca decisivamente o comportamento do conjunto da sociedade nos pa\u00edses capitalistas. Mesmo uma ponder\u00e1vel percentagem da cidadania progressista n\u00e3o escapa \u00e0 sua influ\u00eancia devastadora. Em Portugal o avan\u00e7o da consci\u00eancia de classe, heran\u00e7a da Revolu\u00e7\u00e3o de Abril, n\u00e3o foi acompanhado por um avan\u00e7o paralelo da consci\u00eancia politica. O funcionamento da engrenagem capitalista fecha, alias, em qualquer pais da Uni\u00e3o Europeia a porta \u00e0 conquista do governo por partidos comunistas pela via institucional. Da\u00ed a certeza de que os partidos que assinaram a carta de inten\u00e7\u00f5es do triunvirato iriam impor-se na grande farsa eleitoral.<\/p>\n<p>N\u00e3o subestimo \u2013 sublinho &#8211; a import\u00e2ncia da presen\u00e7a no Parlamento de uma forte bancada comunista. Nestes dias angustiantes, o seu refor\u00e7o ganha um significado especial. Vacinados contra os mecanismos perversos do sistema e a orat\u00f3ria do cretinismo parlamentar, os deputados comunistas podem cumprir um papel insubstitu\u00edvel no apoio \u00e0 luta de massas, frente principal e decisiva no combate \u00e0 iminente ofensiva predat\u00f3ria do capitalismo.<\/p>\n<p>Portugal est\u00e1 a viver o pr\u00f3logo de uma trag\u00e9dia politica e social compar\u00e1vel \u00e0 da Gr\u00e9cia.<\/p>\n<p>O horizonte apresenta-se sombrio. Mas a Historia nos ensina que foi precisamente em momentos em que tudo parecia afundar-se que o povo portugu\u00eas resistiu e venceu.<\/p>\n<p>A coragem espartana demonstrada pelo povo grego na sua luta contra as \u00absolu\u00e7oes\u00bb impostas pela corrupta burguesia hel\u00e9nica e pelos seus mentores da UE e dos EUA \u00e9 estimulante.<\/p>\n<p>Oxal\u00e1 os trabalhadores portugueses lhe sigam o exemplo.<\/p>\n<p>Vila Nova de Gaia, 10 de Junho de 2011<\/p>\n<p>O original deste artigo encontra-se em http:\/\/www.odiario.info\/?p=2100<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Odiario.info\n\n\n\n\n\n\n\n\nMiguel Urbano Rodrigues\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1554\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[98],"tags":[],"class_list":["post-1554","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c111-portugal"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-p4","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1554","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1554"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1554\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1554"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1554"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1554"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}