{"id":1584,"date":"2011-06-20T18:34:32","date_gmt":"2011-06-20T18:34:32","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1584"},"modified":"2011-06-20T18:34:32","modified_gmt":"2011-06-20T18:34:32","slug":"a-vitoria-de-ollanta-humala-e-as-dificuldades-de-mudancas-sociais-nos-marcos-da-democracia-burguesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1584","title":{"rendered":"A vit\u00f3ria de Ollanta Humala e as dificuldades de mudan\u00e7as sociais nos marcos da democracia burguesa"},"content":{"rendered":"\n<p>Os camaradas do Partido Comunista Peruano e a esquerda peruana em geral tiveram que tomar uma decis\u00e3o muito f\u00e1cil nas elei\u00e7\u00f5es deste m\u00eas. Tirando aqueles que defendem o voto nulo como princ\u00edpio, cuja posi\u00e7\u00e3o temos que respeitar, n\u00e3o havia d\u00favidas entre Ollanta Humala e Keiko Fujimori. As diferen\u00e7as, no caso, s\u00e3o muito maiores se comparadas com a op\u00e7\u00e3o entre Dilma e Serra. Depois de oito anos de governo petista, as diferen\u00e7as entre os dois p\u00f3los principais da \u201camericaniza\u00e7\u00e3o\u201d das elei\u00e7\u00f5es brasileiras (PT e PSDB) s\u00e3o cada vez menores, como na Europa, onde se revezam no poder, com receitu\u00e1rio parecido, os socialdemocratas e os conservadores. A diferen\u00e7a \u00e9 na gest\u00e3o do capitalismo.<\/p>\n<p>Na Europa, com o agravamento da crise capitalista, a \u201camericaniza\u00e7\u00e3o\u201d eleitoral tem provocado quase invariavelmente a chamada \u201caltern\u00e2ncia de poder\u201d. Como nenhum governo consegue sequer mitigar os efeitos e os custos da crise, que s\u00e3o pagos pela maioria do povo, a oposi\u00e7\u00e3o em geral ganha as novas elei\u00e7\u00f5es, porque estas s\u00e3o levadas para o campo da compet\u00eancia para gerir a crise. Se o governo \u00e9 conservador, os socialdemocratas ganham a elei\u00e7\u00e3o seguinte; a rec\u00edproca \u00e9 verdadeira. Vejam casos de recentes elei\u00e7\u00f5es, com vit\u00f3rias de oposi\u00e7\u00f5es: em Portugal e na Espanha, vit\u00f3ria da \u201cdireita\u201d; na It\u00e1lia e na Fran\u00e7a, vit\u00f3ria da \u201cesquerda\u201d.<\/p>\n<p>Mas voltando \u00e0s elei\u00e7\u00f5es peruanas, ali as diferen\u00e7as eram gritantes, n\u00e3o porque Ollanta seja de \u201cesquerda\u201d, mas porque Keiko n\u00e3o \u00e9 apenas a filha de Alberto Fujimori, mas seria a volta do que os peruanos chamam de <em><strong>fujimorismo<\/strong><\/em>, ou seja, uma forma de governo baseada na mais descarada corrup\u00e7\u00e3o, na repress\u00e3o e no terrorismo de Estado. Ali\u00e1s, Allan Garcia (o pol\u00edtico mais parecido com Fernando Henrique Cardoso na Am\u00e9rica Latina) havia vencido Fujimori pela \u201cesquerda\u201d h\u00e1 oito anos.<\/p>\n<p>\u00c9 natural a euforia que tomou conta da esquerda peruana e de grande parte da latino-americana com a vit\u00f3ria de Ollanta. Afinal, al\u00e9m de evitar-se a volta do <em><strong>fujimorismo<\/strong><\/em>, encerra-se o ciclo neoliberal de Garcia, que governou para a burguesia e o imperialismo. O governo Ollanta tende a ser mais progressista e nacionalista do que o de Allan Garcia. Mas deve estar chegando a hora de botar os p\u00e9s no ch\u00e3o, pois podemos n\u00e3o estar \u00e0s v\u00e9speras de um governo que possamos chamar de \u201cesquerda\u201d.<\/p>\n<p>A primeira quest\u00e3o a ser levada em conta \u00e9 que, na verdade, foi Keiko que perdeu, muito mais do que Ollanta venceu. Se o segundo turno n\u00e3o fosse com a filha de Fujimori, possivelmente qualquer um dos outros tr\u00eas candidatos conservadores que n\u00e3o passaram do primeiro turno poderiam vencer o segundo.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, h\u00e1 que se ponderar o pre\u00e7o que foi pago para a vit\u00f3ria no segundo turno, no que se refere \u00e0 dilui\u00e7\u00e3o do discurso, na forma e no conte\u00fado, e principalmente ao programa. Os marqueteiros e assessores que servem ao PT transformaram o candidato no <em><strong>\u201cOllantinha paz e amor\u201d<\/strong><\/em>, que trocou a camisa vermelha pela azul celeste, afastou-se de Ch\u00e1vez e mudou o programa a alguns dias do segundo turno, divulgando uma r\u00e9plica peruana da famosa <em><strong>\u201cCarta aos Brasileiros\u201d<\/strong><\/em>, na realidade aos banqueiros, em que Lula assumiu o compromisso (que cumpriu fielmente) de n\u00e3o alterar os fundamentos da pol\u00edtica econ\u00f4mica do governo FHC.<\/p>\n<p>Se Ollanta cumprir os compromissos j\u00e1 assumidos no governo Allan Garcia, as mudan\u00e7as ser\u00e3o muito dif\u00edceis. O presidente que se retira firmou um TLC (Tratado de Livre Com\u00e9rcio) com os EUA e comprometera o pa\u00eds com uma integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica anti-ALBA, envolvendo, al\u00e9m do Peru, o Chile, o M\u00e9xico e a Col\u00f4mbia. Outro compromisso que Ollanta assumiu foi o de manter a chamada \u201cautonomia\u201d do Banco Central, ou seja, permitir que os banqueiros continuem ditando a pol\u00edtica monet\u00e1ria, como no Brasil. Outra dificuldade vai ser manter o crescimento da economia peruana, de cerca de 8% ao ano, o maior da Am\u00e9rica Latina. Este crescimento \u00e9 baseado num modelo de exporta\u00e7\u00e3o de minerais que \u00e9 excludente e predat\u00f3rio, al\u00e9m de contrariar os interesses dos que basicamente elegeram Ollanta: os camponeses pobres, sobretudo ind\u00edgenas, como ele.<\/p>\n<p>O suporte que, sem desfa\u00e7atez, o petismo deu \u00e0 candidatura Ollanta ser\u00e1 obviamente cobrado pelo capitalismo brasileiro, que fincar\u00e1 mais uma bandeira na sua ambi\u00e7\u00e3o de tornar o Brasil uma grande pot\u00eancia mundial, no contexto do imperialismo. As multinacionais de origem brasileira, alavancadas pelo BNDES no governo Lula, como jamais na hist\u00f3ria desse pa\u00eds, j\u00e1 t\u00eam hoje mais de quatro bilh\u00f5es de d\u00f3lares investidos no Peru, disputando o comando de ramos como petr\u00f3leo e g\u00e1s, eletricidade e constru\u00e7\u00e3o civil.<\/p>\n<p>Algumas diferen\u00e7as entre o novo e o velho governo j\u00e1 se fazem sentir. Na disputa pelos mercados sul-americanos e por alian\u00e7as estrat\u00e9gicas, o capitalismo brasileiro vai ter mais peso na economia e na pol\u00edtica externa peruana. Pelo que o novo Presidente declarou h\u00e1 dias no Brasil, simbolicamente sua primeira viagem internacional, vai implantar em seu pa\u00eds algumas pol\u00edticas compensat\u00f3rias, como o Bolsa Fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 outros fatores que v\u00e3o jogar papel mais decisivo nos rumos do governo Ollanta, j\u00e1 antes da posse e da nomea\u00e7\u00e3o dos ministros, per\u00edodo em que as disputas pol\u00edticas se acirram.<\/p>\n<p>O que vimos principalmente no Chile, no Paraguai, na Argentina e no Brasil \u00e9 que se as massas n\u00e3o d\u00e3o um salto de qualidade em sua organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o, podemos eleger Presidentes que se pare\u00e7am de esquerda, mas que n\u00e3o mexer\u00e3o em um mil\u00edmetro nos interesses do capital.<\/p>\n<p>Um dos problemas \u00e9 a falta de uma maioria progressista de deputados no parlamento unicameral. Para mudar, Ollanta precisa governar com o respaldo de massas para pressionar o parlamento. Do contr\u00e1rio, ser\u00e1 obrigado a cair na armadilha da governabilidade institucional, que o levar\u00e1 \u00e0 dilui\u00e7\u00e3o ou abandono do projeto de mudan\u00e7as sociais, ao balc\u00e3o de neg\u00f3cios e a concess\u00f5es de todo tipo.<\/p>\n<p>Outro complicador, talvez de maior peso pol\u00edtico, \u00e9 o risco de os recentes movimentos regressivos do governo Ch\u00e1vez se tornarem uma inflex\u00e3o pol\u00edtica e n\u00e3o apenas uma t\u00e1tica, alterando negativamente a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as na Am\u00e9rica Latina, em favor do imperialismo.<\/p>\n<p>A esquerda s\u00f3 ter\u00e1 alguma possibilidade de \u00eaxito na disputa pol\u00edtica do governo Ollanta se contar com expressiva mobiliza\u00e7\u00e3o popular. E a esquerda peruana tem diferenciais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 maioria dos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina que podem ter peso decisivo na luta de classes que certamente se acirrar\u00e1 no Peru; movimentos de ind\u00edgenas e camponeses fortes, coesos e combativos, uma frente de esquerda org\u00e2nica reunindo partidos e movimentos populares (a Coordenadora Pol\u00edtica e Social) e, principalmente, a CGTP (Confedera\u00e7\u00e3o Geral dos Trabalhadores Peruanos), uma legend\u00e1ria central sindical classista, de massas, filiada \u00e0 Federa\u00e7\u00e3o Sindical Mundial, que hegemoniza cerca de oitenta por cento dos sindicatos.<\/p>\n<p>Mas, com todas as dificuldades e limita\u00e7\u00f5es, a luta tem que ser travada, com independ\u00eancia pol\u00edtica, para tentar levar o novo governo para um processo de mudan\u00e7as sociais, at\u00e9 onde isso for poss\u00edvel. Nessas circunst\u00e2ncias, os revolucion\u00e1rios devem conjugar unidade e luta, n\u00e3o cometendo o erro de se submeter acriticamente ao novo governo, como fazem os reformistas. Tampouco devem se colocar na oposi\u00e7\u00e3o cega e fazer o discurso que hoje interessa \u00e0 direita e ao imperialismo, tal qual agem os que se proclamam ultra-esquerdistas, subestimando a capacidade das massas de influir no processo pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Junho de 2010<\/p>\n<p><em>*Ivan Pinheiro \u00e9 Secret\u00e1rio Geral do PCB<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: El Mundo\n\n\n\n\n\n\n\n\nIvan Pinheiro *\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1584\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[52],"tags":[],"class_list":["post-1584","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c63-peru"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-py","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1584","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1584"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1584\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1584"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1584"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1584"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}