{"id":1585,"date":"2011-06-20T18:50:59","date_gmt":"2011-06-20T18:50:59","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1585"},"modified":"2011-06-20T18:50:59","modified_gmt":"2011-06-20T18:50:59","slug":"e-necessaria-a-erradicacao-do-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1585","title":{"rendered":"\u201c\u00c9 necess\u00e1ria a erradica\u00e7\u00e3o do capitalismo\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>Ana Maria Amorim<\/p>\n<p>De passagem pelo Brasil, o fil\u00f3sofo h\u00fangaro Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros teve em sua agenda a confer\u00eancia plen\u00e1ria \u201cCrise estrutural necessita de mudan\u00e7a estrutural\u201d, no Sal\u00e3o Nobre da Reitoria da Universidade Federal da Bahia (UFBA), nesta segunda-feira (13). Come\u00e7ava com M\u00e9sz\u00e1ros, portanto, o II Encontro de S\u00e3o L\u00e1zaro, que comemora os 70 anos da Faculdade de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da UFBA. O Sal\u00e3o Nobre da Reitoria foi tomado por uma maioria jovem que recebeu M\u00e9sz\u00e1ros com entusiasmo e sonoras palmas.<\/p>\n<p>M\u00e9sz\u00e1ros come\u00e7a sua fala deixando claro que nada do que ele est\u00e1 propondo pode ser visto como uma \u201cutopia n\u00e3o realiz\u00e1vel\u201d e que, para transformarmos este t\u00e3o-chamado imposs\u00edvel em realidade \u00e9 primordial que a crise do capitalismo seja avaliada adequadamente. \u201cSem uma avalia\u00e7\u00e3o da crise econ\u00f4mica e social de nossos dias, que j\u00e1 n\u00e3o pode ser negada pelos defensores da ordem capitalista, ainda que eles rejeitem a necessidade de uma mudan\u00e7a maior, a probabilidade de sucesso a esse respeito \u00e9 insignificante\u201d, diz o fil\u00f3sofo.<\/p>\n<p><strong>Natureza da crise<\/strong><\/p>\n<p>Para M\u00e9sz\u00e1ros, a crise que o mundo enfrenta \u00e9 uma \u201ccrise estrutural profunda e cada vez mais grave, que necessita da ado\u00e7\u00e3o de rem\u00e9dios estruturais abrangentes, a fim de alcan\u00e7ar uma solu\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel\u201d. Apesar de comumente a crise ser apresentada como \u2018atual\u2019, M\u00e9sz\u00e1ros discorda que ela tenha se originado em 2007, com a explos\u00e3o da bolha habitacional dos Estados Unidos. A crise teria come\u00e7ado h\u00e1 mais de quatro d\u00e9cadas e, em 1971, ele j\u00e1 escrevia no pref\u00e1cio de \u201cTeoria da Aliena\u00e7\u00e3o em Marx\u201d que as revoltas de maio de 68 e seus desdobramentos \u201csalientavam dramaticamente a intensifica\u00e7\u00e3o da crise estrutural global do capital\u201d.<\/p>\n<p>Por ser uma crise estrutural, e n\u00e3o apenas conjuntural, esta crise n\u00e3o pode ser solucionada no foco que a gera sem que n\u00e3o haja uma mudan\u00e7a desta estrutura que a criou. M\u00e9sz\u00e1ros refor\u00e7a a diferen\u00e7a entre as crises conjunturais e estruturais, diferenciando-as pela impossibilidade destas realimentarem o sistema, se remodelarem a partir de uma nova forma ainda nas bases do sistema capitalista. Isto, contudo, n\u00e3o significa que as crises conjunturais possam se apresentar at\u00e9 mesmo de forma mais violenta que as crises estruturais. \u201cO car\u00e1ter n\u00e3o-explosivo de uma crise estrutural prolongada, em contraste com as grandes tempestades, nas palavras de Marx, atrav\u00e9s das quais crises conjunturais peri\u00f3dicas podem elas mesmas se liberar e solucionar, pode conduzir a estrat\u00e9gias fundamentalmente mal concebidas, como resultado da interpreta\u00e7\u00e3o err\u00f4nea da aus\u00eancia de tempestades, como se tal aus\u00eancia fosse uma evid\u00eancia impressionante da estabilidade indefinida do \u2018capitalismo organizado\u2019 e da \u2018integra\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora\u2019\u201d, diz M\u00e9sz\u00e1ros.<\/p>\n<p>O que esta crise (que n\u00e3o \u00e9 nova) teria como caracter\u00edsticas que a definem como estrutural? M\u00e9sz\u00e1ros aponta quatro aspectos principais: o car\u00e1ter universal (ou seja, n\u00e3o \u00e9 reservada a um ramo da produ\u00e7\u00e3o, ou estritamente financeira, por exemplo); o escopo verdadeiramente global (n\u00e3o envolve apenas um n\u00famero limitado de pa\u00edses); escala de tempo extensa e cont\u00ednua (\u201cse preferir, permanente\u201d, adiciona M\u00e9sz\u00e1ros, enfatizando que n\u00e3o se trata de mais uma crise c\u00edclica do capital) e, por fim, modo de desdobramento gradual (\u201cem contrates com as erup\u00e7\u00f5es e colapsos mais espetaculares e dram\u00e1ticos do passado\u201d, diz o fil\u00f3sofo). Assim \u00e9 constru\u00eddo o cen\u00e1rio que qualificaria esta crise como estrutural, com a impossibilidade de solu\u00e7\u00e3o das \u201ctempestades\u201d dentro da atual estrutura.<\/p>\n<p><strong>Capitalismo destrutivo<\/strong><\/p>\n<p>Outro ponto levantado por M\u00e9sz\u00e1ros \u2013 e recebido com manifesta\u00e7\u00f5es de apoio pela plat\u00e9ia \u2013 foi delinear os \u201climites absolutos\u201d do capitalismo. Um desses limites passa pelo papel do trabalho na sociedade, que \u00e9 visto como uma necessidade, tanto para os indiv\u00edduos que produzem quando para a sociedade como um todo. Uma situa\u00e7\u00e3o onde o trabalho seja visto como um problema, ou pior, como uma falha, tem em si um limite a ser resolvido. O capitalismo, para M\u00e9sz\u00e1ros, \u201ccom seu desemprego perigosamente crescente\u201d (ainda que a quest\u00e3o n\u00e3o seja meramente num\u00e9rica), apresenta no trabalho um dos seus limites.<\/p>\n<p>M\u00e9sz\u00e1ros chama ainda a aten\u00e7\u00e3o para outros males dessa estrutura. A primeira quest\u00e3o apresentada pelo fil\u00f3sofo estaria no foco que o capital vem apontado, os \u201csetores paras\u00edticos da economia\u201d. Para ilustrar o que seria isso, M\u00e9sz\u00e1ros aponta para o aventurismo especulativo que a economia tem vivenciado (e que, quando peca em seus resultados, \u00e9 apontado como um fracasso individual, pertencente a um determinado grupo, quando, para o fil\u00f3sofo, deveria ter o sistema como grande culpado, visto que ele deveria responder por aquilo que produz para se oxigenar) e a uma \u201cfraudul\u00eancia institucionalizada\u201d.<\/p>\n<p>As guerras e o seu complexo aparato industrial militar aparecem como um desperd\u00edcio autorit\u00e1rio ao qual o capital submete a sociedade. Este ponto \u00e9 analisado por M\u00e9sz\u00e1ros como uma \u201copera\u00e7\u00e3o criminosamente destrutiva e devastadora de uma ind\u00fastria de armas permanente, juntamente com as guerras necessariamente a elas associadas\u201d. Esta produ\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de conflitos e est\u00edmulo a uma produ\u00e7\u00e3o militar resultaria no outro limite destrutivo no capitalismo, apesar de n\u00e3o ser apenas resultado deste, que seria a destrui\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica: \u201co dinamismo monopolista militarmente embasado teve at\u00e9 mesmo que assumir a forma de duas devastadoras guerras mundiais, bem como da aniquila\u00e7\u00e3o total da humanidade impl\u00edcita em uma potencial terceira guerra mundial, al\u00e9m da perigosa destrui\u00e7\u00e3o atual da natureza que se tornou evidente na segunda metade do s\u00e9culo XX\u201d.<\/p>\n<p><strong>Criar o futuro<\/strong><\/p>\n<p>\u201cExiste e deve existir esperan\u00e7a\u201d, diz o fil\u00f3sofo. Apesar do retrato de destrui\u00e7\u00e3o apresentado por M\u00e9sz\u00e1ros e vivenciado cotidianamente dentro da pr\u00f3pria estrutura capitalista da sociedade, faz-se o esfor\u00e7o de pensar o futuro, n\u00e3o apenas como um desejo sonhador, mas sim como uma tarefa necess\u00e1ria para mudar o sistema.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o para os problemas apontados pelo capital j\u00e1 foram apresentados em momentos hist\u00f3ricos anteriores. M\u00e9sz\u00e1ros resgata as solu\u00e7\u00f5es apresentadas para o capitalismo. Relembrando o liberal John Stuart Mill, M\u00e9sz\u00e1ros aponta como inconceb\u00edvel que o capitalismo chegue a \u201cum estado estacion\u00e1rio da economia\u201d, como defendia Mill, pois faz parte da l\u00f3gica capitalista a incessante expans\u00e3o do capital e da sua acumula\u00e7\u00e3o. Retomando o ponto do limite da ecologia, fica mais vis\u00edvel o car\u00e1ter ilus\u00f3rio de um freio para o capital, visto que em 2012 ser\u00e1 realizado o Rio+20, Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Desenvolvimento Sustent\u00e1vel, que pretende engajar as na\u00e7\u00f5es em um projeto sustent\u00e1vel de crescimento. As tentativas de criar proje\u00e7\u00f5es para as taxas de emiss\u00e3o de carbono, por exemplo, sempre presente nas pautas ecol\u00f3gicas, seriam, para M\u00e9sz\u00e1ros, a evid\u00eancia da incompatibilidade entre o capital e o freio, ainda, entre o capital e o n\u00e3o-avan\u00e7o destrutivo na natureza.<\/p>\n<p>M\u00e9sz\u00e1ros ainda aponta como solu\u00e7\u00f5es j\u00e1 tentadas na hist\u00f3ria: a sa\u00edda social democrata, socialismo evolutivo, o Estado de Bem Estar Social e a promessa da fase mais elevada do socialismo. \u201cO denominador comum de todas essas tentativas fracassadas \u2013 a despeito de suas diferen\u00e7as principais \u2013 \u00e9 que todas elas tentaram atingir seus objetivos dentro da base estrutural da ordem sociometab\u00f3lica estabelecida\u201d. Pensar a mudan\u00e7a sem erradicar o capital, portanto, seria deixar latente a possibilidade do capital voltar, ser \u201crestaurado\u201d. A mudan\u00e7a, para M\u00e9sz\u00e1ros, precisa ser estrutural e radical, como ele bem especificou para a plateia, extirpando o capital pela raiz.<\/p>\n<p>O rombo estadunidense na economia, com um d\u00e9bito alarmante de U$ 14 trilh\u00f5es, \u00e9, para o fil\u00f3sofo, a marca de um desperd\u00edcio. Ao ver a inquietude dos capitalistas com a China e seus \u201ctr\u00eas trilh\u00f5es [de d\u00f3lares] em caixa\u201d, o capitalismo j\u00e1 pensa um \u201cmelhor uso\u201d para esse montante. \u201cE qual \u00e9 o melhor uso? Por de volta no buraco que fizeram nos Estados Unidos?\u201d, questiona M\u00e9sz\u00e1ros. Como foi gerado e como se pode assegurar que um rombo desta propor\u00e7\u00e3o n\u00e3o se repita na hist\u00f3ria s\u00e3o perguntas entrela\u00e7adas ao car\u00e1ter estrutural da crise e, em conseq\u00fc\u00eancia disto, da resposta necessariamente estrutural que ela requer. Crise esta que trope\u00e7a em suas intermin\u00e1veis guerras, devasta\u00e7\u00e3o da natureza e cont\u00ednua produ\u00e7\u00e3o destrutiva.<em><\/p>\n<p><\/em><\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.diariodaclasse.com.br\/forum\/topic\/show?id=3451330%3ATopic%3A33997&amp;xgs=1&amp;xg_source=msg_share_topic<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Brasil de Fato\n\n\n\n\n\n\n\n\nEm Salvador, o fil\u00f3sofo Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros defende que a crise do capitalismo \u00e9 estrutural\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1585\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[33],"tags":[],"class_list":["post-1585","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c34-marxismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-pz","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1585","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1585"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1585\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1585"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1585"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1585"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}