{"id":1593,"date":"2011-06-23T20:31:54","date_gmt":"2011-06-23T20:31:54","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1593"},"modified":"2011-06-23T20:31:54","modified_gmt":"2011-06-23T20:31:54","slug":"projeto-conta-trajetoria-politica-dos-comunistas-em-mage","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1593","title":{"rendered":"Projeto conta trajet\u00f3ria pol\u00edtica dos comunistas em Mag\u00e9"},"content":{"rendered":"\n<p>A trajet\u00f3ria pol\u00edtica do Partido Comunista Brasileiro (PCB) nas grandes cidades \u00e9 conhecida e divulgada. Entretanto, houve, ao longo do tempo, polos importantes em cidades do interior do estado onde o partido atuou e que podem dizer muito sobre a classe trabalhadora e sobre a hist\u00f3ria do pr\u00f3prio PCB. Um exemplo \u00e9 a cidade de Mag\u00e9, que foi palco de muitos acontecimentos relacionados ao partido junto \u00e0 classe oper\u00e1ria. O munic\u00edpio fluminense teve 11 vereadores comunistas eleitos de 1947 a 1964, parte deles ex-oper\u00e1rios t\u00eaxteis e dirigentes nos sindicatos dos trabalhadores locais. Uma pesquisa do historiador Felipe Augusto dos Santos Ribeiro, hoje doutorando na Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas (FGV), resgata informa\u00e7\u00f5es sobre a atua\u00e7\u00e3o do PCB em Mag\u00e9. O estudo resultou em sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, defendida em 2009 na Faculdade de Forma\u00e7\u00e3o de Professores (FFP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). \u201cEste trabalho permite repensar a pol\u00edtica fluminense e a pr\u00f3pria trajet\u00f3ria do Partido Comunista Brasileiro, pois mostra os militantes comunistas fora dos grandes centros urbanos e exercendo pap\u00e9is no Parlamento, discutindo leis. Acredito que seja interessante para lan\u00e7ar um novo olhar sobre a atua\u00e7\u00e3o do partido&#8221;, conta o pesquisador, que foi contemplado com bolsa de mestrado da FAPERJ de 2007 a 2009.<\/p>\n<p>Antes de abordar especificamente a quest\u00e3o pol\u00edtica, o historiador conta, no estudo, a situa\u00e7\u00e3o que o munic\u00edpio vivia. De acordo com Felipe, desde o s\u00e9culo XIX que Mag\u00e9 enfrentava repetidos surtos de mal\u00e1ria. \u201cPara que se tenha ideia da gravidade da quest\u00e3o, vale lembrar que, em 20 anos, de 1920 a 1940, a cidade cresceu em apenas cinco mil habitantes, dado a quantidade imensa de \u00f3bitos\u201d. Foi neste contexto que o m\u00e9dico sanitarista Irun Sant\u2019Anna, hoje com 94 anos, chegou ao munic\u00edpio em 1940, designado para amenizar e controlar a propaga\u00e7\u00e3o da enfermidade no local. Felipe conta que o m\u00e9dico era filiado ao PCB desde os 18 anos. \u201cConforme o pr\u00f3prio Irun Sant\u2019Anna relata, ao chegar a Mag\u00e9, ele p\u00f4de unir o \u00fatil ao agrad\u00e1vel: atuaria com sa\u00fade p\u00fablica, sua grande paix\u00e3o, e poderia divulgar as diretrizes do partido \u00e0 popula\u00e7\u00e3o\u201d. Segundo o historiador, o m\u00e9dico viu no munic\u00edpio um terreno f\u00e9rtil para a divulga\u00e7\u00e3o da orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica propagada pelo Partido Comunista Brasileiro, j\u00e1 que Mag\u00e9 tinha, na \u00e9poca, cinco f\u00e1bricas t\u00eaxteis funcionando e uma relevante quantidade de oper\u00e1rios.<\/p>\n<p>O historiador relata que o m\u00e9dico, inicialmente, tentou se aproximar dos oper\u00e1rios por meio dos sindicatos de trabalhadores que j\u00e1 existiam no munic\u00edpio, mas n\u00e3o obteve \u00eaxito imediato. Segundo Felipe, Irun Sant\u2019Anna, ent\u00e3o, reuniu os comunistas j\u00e1 existentes na regi\u00e3o e come\u00e7ou a se aproximar dos trabalhadores t\u00eaxteis por meio da forma\u00e7\u00e3o de comiss\u00f5es nas f\u00e1bricas, que atuavam paralelamente e de forma similar aos sindicatos. Desta forma, das comiss\u00f5es come\u00e7aram a emergir l\u00edderes ligados ao Partido Comunista, abrindo caminho para que muitas campanhas fossem propagadas. \u201cMag\u00e9 era um munic\u00edpio predominantemente oper\u00e1rio e a identifica\u00e7\u00e3o com o discurso dos comunistas foi muito forte. A estrat\u00e9gia de aproxima\u00e7\u00e3o do PCB junto aos oper\u00e1rios foi bastante eficaz\u201d, diz o historiador, que continua: \u201cNa disserta\u00e7\u00e3o, eu trabalho com a perspectiva de que Irun Sant\u2019Anna intensificou um processo pol\u00edtico em Mag\u00e9, o que acabou formando uma gera\u00e7\u00e3o de oper\u00e1rios t\u00eaxteis ligados ao PCB, pois ele ministrava cursos e propagava as ideias do partido\u201d. Deste per\u00edodo, de acordo com Felipe, o m\u00e9dico guarda a lembran\u00e7a de uma ocasi\u00e3o em que foi questionado por um dos trabalhadores. \u201cEle conta que um oper\u00e1rio o questionou onde estaria o imperador do imperialismo de que Irun tanto falava.\u201d<\/p>\n<p>Do grupo de trabalhadores t\u00eaxteis, tr\u00eas foram eleitos vereadores, al\u00e9m do pr\u00f3prio Irun Sant&#8217;Anna e mais um suplente, logo na primeira elei\u00e7\u00e3o municipal p\u00f3s-Estado Novo, em 1947. Como o Partido Comunista estava na ilegalidade na \u00e9poca, eles utilizaram a legenda do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) \u2013 em elei\u00e7\u00f5es posteriores, eles lan\u00e7aram m\u00e3o de outras legendas &#8220;emprestadas&#8221;, como o Partido Trabalhista Nacional (PTN) e ao Partido Socialista Brasileiro (PSB). Entretanto, um acontecimento viria a mudar o rumo desses pol\u00edticos. O historiador conta que, pouco depois de um ano de mandato, os cinco comunistas foram cassados, mesmo n\u00e3o pertencendo legalmente ao PCB. \u201cA justificativa para a cassa\u00e7\u00e3o foi que o teor dos discursos desses vereadores no plen\u00e1rio caracterizava-se como comunista\u201d. Felipe conta que houve uma grande mobiliza\u00e7\u00e3o por causa do acontecimento, amplamente noticiado pelos jornais da \u00e9poca, como <em>O Estado<\/em>, a <em>Tribuna Popular<\/em> e a <em>A Not\u00edcia<\/em>.<\/p>\n<p>Foi justamente por causa desta cassa\u00e7\u00e3o que a pesquisa do historiador s\u00f3 p\u00f4de analisar os documentos legislativos de alguns anos depois. O historiador explica: \u201cNa verdade, n\u00e3o h\u00e1 atas desse primeiro mandato dos comunistas na C\u00e2mara Municipal de Mag\u00e9, cassados em 1948. Foi realmente um epis\u00f3dio muito traum\u00e1tico, e a lacuna das atas justamente nesse per\u00edodo pode ter sido uma tentativa de esquecimento&#8221;. \u00c9 a partir de 1951 que Felipe come\u00e7a a analisar a atua\u00e7\u00e3o dos vereadores comunistas na C\u00e2mara do munic\u00edpio. Ele destaca uma das discuss\u00f5es que identificou em atas antigas, dos anos 1950. \u201cVi um registro que descrevia uma forte discuss\u00e3o entre os vereadores, at\u00e9 que um deles foi acusado de comunista. Prontamente, o pol\u00edtico respondeu: \u2018Com muito orgulho em s\u00ea-lo&#8217;, antes da reuni\u00e3o ser interrompida. Na reuni\u00e3o seguinte, o mesmo vereador diz: \u2018Por quest\u00e3o de ordem, queria retificar que n\u00e3o tenho orgulho de ser comunista, mas agrade\u00e7o o elogio de Vossa Excel\u00eancia\u2019. Podemos interpretar isto como um reflexo da cassa\u00e7\u00e3o ocorrida em 1948\u201d. Felipe ressalta que este \u00e9 um dos pontos bem trabalhados em sua pesquisa, sobre o quanto a hist\u00f3rica cassa\u00e7\u00e3o implicou nas formas de atua\u00e7\u00e3o dos comunistas mageenses em d\u00e9cadas posteriores.<\/p>\n<p>Ainda assim, a presen\u00e7a dos vereadores comunistas junto aos trabalhadores de Mag\u00e9 foi muito ativa. Um exemplo citado pelo historiador foi a &#8220;greve do a\u00e7\u00facar&#8221;, ocorrida em 1959. Nesta ocasi\u00e3o, de acordo com Felipe, houve o racionamento do alimento, mas s\u00f3 para os oper\u00e1rios. \u201cQuando eles descobriram a sua exclus\u00e3o, se rebelaram e deflagraram uma greve. Por este motivo, muitos tecel\u00f5es foram presos e o presidente do sindicato, comunista, que tamb\u00e9m era vereador, os acompanhou at\u00e9 a delegacia. Espalhou-se ent\u00e3o a not\u00edcia de que ele tamb\u00e9m havia sido preso. Diante do ocorrido, houve grande mobiliza\u00e7\u00e3o na cidade, at\u00e9 que todos foram soltos\u201d.<\/p>\n<p>O historiador tamb\u00e9m teve acesso ao prontu\u00e1rio individual de Iran Sant&#8217;Anna no Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (Dops). \u201cEste documento me ajudou imensamente, pois al\u00e9m de ser uma fonte in\u00e9dita e de dif\u00edcil acesso, me mostrou o outro lado da hist\u00f3ria que eu investigava, a atua\u00e7\u00e3o dos agentes da pol\u00edcia pol\u00edtica em Mag\u00e9. No prontu\u00e1rio, encontrei diversas listas de comunistas do munic\u00edpio, por exemplo. Em minha pesquisa de doutorado estou analisando mais a fundo essas fontes\u201d.<\/p>\n<p>Para Felipe, este projeto n\u00e3o s\u00f3 ajuda a compreender a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do PCB de um ponto de vista diferente, como tamb\u00e9m revela uma classe trabalhadora politicamente ativa, ao contr\u00e1rio do que alguns estudos mostram. Sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, intitulada \u201cOper\u00e1rios \u00e0 tribuna: vereadores comunistas e trabalhadores t\u00eaxteis de Mag\u00e9 (1951-1964)&#8221;, foi premiada com a terceira coloca\u00e7\u00e3o na edi\u00e7\u00e3o 2011 do concurso de monografias do Arquivo P\u00fablico do Estado do Rio de Janeiro (Aperj), recebendo Men\u00e7\u00e3o Honrosa.<\/p>\n<p><strong>\u00a9 FAPERJ \u2013 <em>Todas as mat\u00e9rias poder\u00e3o ser reproduzidas, desde que citada a fonte.<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: PCB\n\n\n\n\n\n\n\n\nDanielle Kiffer\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1593\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-1593","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c56-memoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-pH","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1593","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1593"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1593\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1593"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1593"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1593"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}