{"id":15937,"date":"2017-08-28T18:55:36","date_gmt":"2017-08-28T21:55:36","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=15937"},"modified":"2017-09-01T14:03:18","modified_gmt":"2017-09-01T17:03:18","slug":"privatizacao-da-eletrobras-e-pa-de-cal-no-setor-diz-ildo-sauer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/15937","title":{"rendered":"Privatiza\u00e7\u00e3o da Eletrobras \u00e9 &#8220;p\u00e1 de cal&#8221; no setor, diz Ildo Sauer"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.cartacapital.com.br\/economia\/privatizacao-da-eletrobras-e-pa-de-cal-no-setor-diz-especialista\/itaipu.jpg\/%40%40images\/b1a63e85-9fe6-4a78-b014-e2a1e68ad336.jpeg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Ex-diretor da Petrobras de 2003 a 2008 e professor do Instituto de Engenharia e Ambiente da Universidade de S\u00e3o Paulo (IEA-USP), Ildo Sauer recha\u00e7a o plano do governo de Michel Temer de privatizar a Eletrobras.<\/p>\n<p>Na noite da segunda-feira 21, a estatal anunciou ao mercado a inten\u00e7\u00e3o do governo de se desfazer de seu controle. Hoje, a Uni\u00e3o det\u00e9m 63,2% das a\u00e7\u00f5es. A not\u00edcia surpreendeu o mercado, pois os papeis da empresa subiram mais de 50%. Mas n\u00e3o Sauer. &#8220;\u00c9 um desastre continuado. Vai aprofundar os problemas e aumentar os pre\u00e7os.&#8221;<\/p>\n<p>A entrevista \u00e9 de Dimalice Nunes, publicada por CartaCapital, em 24\/08\/2017.<\/p>\n<p>Na entrevista o especialista tra\u00e7a um breve hist\u00f3rico dos fatores que levaram \u00e0 desorganiza\u00e7\u00e3o do setor el\u00e9trico, alvo de diversas privatiza\u00e7\u00f5es nos governos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e garante: &#8220;n\u00e3o tem modelo de privatiza\u00e7\u00e3o aceit\u00e1vel&#8221;.<\/p>\n<p>Segundo ele, o objetivo de aumentar a participa\u00e7\u00e3o da iniciativa privada no setor \u00e9 o mesmo da gest\u00e3o tucana: elevar a efici\u00eancia e, de quebra, tentar acomodar o rombo das contas p\u00fablicas. &#8220;O governo Fernando Henrique come\u00e7ou a privatizar dizendo que ia abater a d\u00edvida p\u00fablica, melhorar a efici\u00eancia, a qualidade e diminuir as tarifas. A d\u00edvida p\u00fablica s\u00f3 aumentou, as tarifas aumentaram muito acima da infla\u00e7\u00e3o e criamos um racionamento&#8221;, lembra Sauer.<br \/>\n<strong><br \/>\nEis a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Qual a primeira impress\u00e3o a respeito do an\u00fancio da poss\u00edvel privatiza\u00e7\u00e3o da Eletrobras?<\/strong><\/p>\n<p>Sem espanto e sem alegria. Sem alegria porque \u00e9 um desastre continuado. J\u00e1 vem de d\u00e9cadas essa postura em rela\u00e7\u00e3o aos recursos naturais e seu aproveitamento em favor da transforma\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira.<\/p>\n<p>Vem com a tentativa de privatizar a utiliza\u00e7\u00e3o aparelhada do sistema el\u00e9trico pelo governo de Jos\u00e9 Sarney, as tentativas de destrui\u00e7\u00e3o do sistema el\u00e9trico nos governos de Fernando Henrique, o n\u00e3o resgate do sistema el\u00e9trico como deveria e como foi proposto pela campanha do governo Lula, ao continuado loteamento dos cargos do sistema el\u00e9trico pelo governo de coaliz\u00e3o ou coopta\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 vem de antes, mas foi mantido.<\/p>\n<p>Houve um breve interregno numa tentativa de mudar, com a presid\u00eancia do Pinguelli (Luiz Pinguelli Rosa) na Eletrobras, mas ele foi demitido pelo ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, que dizia que o Pinguelli n\u00e3o tinha senadores e o Sarney tinha.<\/p>\n<p>E com a ex-presidente Dilma Rousseff aconteceu o desastre maior: ela fez a reforma do modelo do setor el\u00e9trico em 2004, mas abandonou o que foi compromissado na campanha, o resgate das empresas p\u00fablicas e seu papel de garantir o abastecimento da energia no Brasil em conjunto com a iniciativa privada, vendendo a energia a um custo entre o m\u00e9dio e o custo marginal, usando essa diferen\u00e7a para ampliar os investimentos no setor e investindo em educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade p\u00fablica.<br \/>\n<strong><br \/>\nQuais foram os principais erros de Dilma? <\/strong><\/p>\n<p>O que ela fez foi destruir o valor econ\u00f4mico da Eletrobras para manter os privil\u00e9gios dos grupos privados que vendiam energia a custos alt\u00edssimo, em leil\u00f5es de natureza complexa e suspeita &#8211; leil\u00f5es de reserva &#8211; e compraram muita energia t\u00e9rmica cara.<\/p>\n<p>Ela resolveu renovar as concess\u00f5es e for\u00e7ar a venda da energia a um pre\u00e7o pr\u00f3ximo do custo da opera\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o, 10 ou 12 reais o megawatt\/hora mais impostos, quando os privados vendiam entre 250 ou at\u00e9 1,1 mil reais megawatt\/hora. Ent\u00e3o ela usou o potencial de gera\u00e7\u00e3o de recursos para fazer da Eletrobras uma muleta e subsidiar um sistema que n\u00e3o funciona.<br \/>\n<strong><br \/>\nE agora com o governo Temer?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 a p\u00e1 de cal em tudo. A impress\u00e3o que eu tenho \u00e9 que \u00e9 um bando de gangsteres ou de ratos que est\u00e3o vendo o navio afundando e tentam abocanhar o resto de queijo, de riqueza, para se locupletar enquanto o navio n\u00e3o afunda. \u00c9 importante dizer que o que esse governo est\u00e1 fazendo com essa ousadia, essa aud\u00e1cia, e aus\u00eancia total de legitimidade \u00e9 um acinte \u00e0 democracia porque \u00e9 um aprofundamento da cleptocracia. \u00c9 um contraste brutal entre o que poderia ser feito e o que est\u00e1 sendo feito.<br \/>\n<strong><br \/>\nEssa medida foi proposta pelo Minist\u00e9rio da Fazenda, para cobrir o rombo das contas p\u00fablicas, e pegou o mercado de surpresa. Como esse afogadilho prejudica a seguran\u00e7a do sistema el\u00e9trico? H\u00e1 risco de desabastecimento?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o. O fato de vender usinas ou o controle de usinas n\u00e3o afeta diretamente a produ\u00e7\u00e3o de energia. At\u00e9 porque a Eletrobras est\u00e1 completamente manietada j\u00e1 h\u00e1 muito tempo. Ela n\u00e3o vem sendo usada como protagonista, virou muleta auxiliar dos neg\u00f3cios privados.<\/p>\n<p>O problema existia e est\u00e1 se agravando. O sistema est\u00e1 em risco porque estamos h\u00e1 muito tempo com planejamento completamente equivocado, escolha de vencedores de leil\u00e3o por crit\u00e9rios errados, violando o interesse p\u00fablico e falta de contrata\u00e7\u00e3o de capacidade suficiente.<\/p>\n<p>Por isso o sistema est\u00e1 em risco. Mesmo com recess\u00e3o continuada estamos com risco de falta de energia. Imagina se a economia estivesse crescendo? O sistema el\u00e9trico est\u00e1 completamente deteriorado e as medidas que o governo Temer est\u00e1 tomando tem como objetivo proteger os interesses de investidores do sistema financeiro que querem, num momento de fragilidade da mobiliza\u00e7\u00e3o popular, abocanhar ativos para depois revalorizar a empresa e aumentar tarifas.<br \/>\n<strong><br \/>\nO governo fala em redu\u00e7\u00e3o das tarifas com um potencial ganho de efici\u00eancia da empresa depois de privatizada. Qual deve ser o impacto? <\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 um acinte \u00e0 intelig\u00eancia de qualquer ser racional a afirma\u00e7\u00e3o do ministro (ministro de Minas e Energia, Fernando Coelho Filho) de que isso vai baixar tarifa. A energia est\u00e1 contratada a pre\u00e7os aviltados para tapar a lacuna dos grandes erros dos outros contratos. Ent\u00e3o ningu\u00e9m vai comprar para operar daquele jeito, v\u00e3o comprar para depois realizar uma nova manobra para reavaliar o valor e dizer que &#8220;n\u00e3o, essa energia est\u00e1 muito abaixo do mercado, precisamos dar um jeito&#8221;. Isso \u00e9 hist\u00f3rico no Brasil no setor de energia.<\/p>\n<p>O governo FHC come\u00e7ou a privatizar dizendo que ia abater a d\u00edvida p\u00fablica, melhorar a efici\u00eancia, a qualidade e diminuir as tarifas. A d\u00edvida p\u00fablica s\u00f3 aumentou, as tarifas aumentaram muito acima da infla\u00e7\u00e3o e criamos um racionamento. E essa trajet\u00f3ria de aumento das tarifas acima da infla\u00e7\u00e3o continuou nos governos Lula e Dilma.<br \/>\nFalta argumentos racionais para fazer o que eles est\u00e3o fazendo. \u00c9 uma agress\u00e3o ao sistema democr\u00e1tico e ao interesse p\u00fablico.<br \/>\n<strong><br \/>\nO que deveria ser feito para reorganizar o setor e garantir a oferta de energia com modicidade das tarifas?<\/strong><\/p>\n<p>S\u00e3o duas tarefas: uma \u00e9 impedir a privatiza\u00e7\u00e3o da Eletrobras, que vai agravar tudo. A segunda \u00e9 que o modelo colocado, herdado dos governos FHC, Lula e Dilma, precisa ser revisto. \u00c9 preciso revisar o modelo de planejamento, \u00e9 preciso retomar a contrata\u00e7\u00e3o centralizada, \u00e9 preciso reorganizar o setor e contratar a constru\u00e7\u00e3o das melhores usinas.<\/p>\n<p>No Brasil n\u00e3o faltam recursos, o maior potencial de gera\u00e7\u00e3o de energia hoje \u00e9 o e\u00f3lico, que adequadamente combinado com o hidr\u00e1ulico poderia atender toda a demanda do Brasil at\u00e9 quando a popula\u00e7\u00e3o vai se estabilizar, em 2040, como o previsto pelo IBGE, em 220 milh\u00f5es de habitantes, e dobrando o consumo per capita.<\/p>\n<p>N\u00e3o faltam recursos naturais, n\u00e3o falta capacidade tecnol\u00f3gica, n\u00e3o falta recursos humanos: falta organizar o sistema, geri-lo e oper\u00e1-lo de acordo com o interesse p\u00fablico. Tem que trocar os crit\u00e9rios de opera\u00e7\u00e3o. A proposta do governo Temer vai aprofundar os problemas e aumentar os pre\u00e7os, porque ele eleva os riscos para os agentes individuais.<\/p>\n<p>O que o governo Temer est\u00e1 fazendo \u00e9, face ao desastre do legado do governo Dilma, aproveitar essa lacuna a considerar que o interesse p\u00fablico n\u00e3o tem mais chance. \u00c9 fazer o assalto final ao que restou para gestar novos interesses que depois de constitu\u00eddos ir\u00e3o se sobrepor e ir\u00e3o impor suas condi\u00e7\u00f5es ao governo que vir\u00e1. Temos de enfrentar isso com todo o vigor. Um governo sem legitimidade que quer destruir uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de mais de meio s\u00e9culo e um recurso natural permanente.<br \/>\n<strong><br \/>\nAinda n\u00e3o h\u00e1 defini\u00e7\u00e3o sobre o modelo que ser\u00e1 usado para a venda do controle estatal da Eletrobras, mas existiria um modelo menos pior, capaz de assegurar algum n\u00edvel de controle?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 n\u00e3o vender e restaurar a Eletrobras. Restaur\u00e1-la na sua capacidade, reorganizar sua gest\u00e3o e n\u00e3o inventar mentiras como o aumento da efici\u00eancia e a redu\u00e7\u00e3o das tarifas. \u00c9 restaurar a gest\u00e3o do interesse p\u00fablico para mudar o Pa\u00eds. N\u00e3o tem modelo de privatiza\u00e7\u00e3o aceit\u00e1vel.<br \/>\n<strong><br \/>\nAlguns envolvidos no projeto de privatiza\u00e7\u00e3o da Eletrobras fizeram parte do governo FHC na \u00e9poca do apag\u00e3o. H\u00e1 algum paralelo entre as situa\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>Claro, a Elena Landau, que presidiu o conselho de administra\u00e7\u00e3o da Eletrobras e o presidente da Eletrobras (Wilson Ferreira J\u00fanior), um not\u00f3rio t\u00e9cnico que era servi\u00e7al do projeto tucano da privatiza\u00e7\u00e3o das empresas de S\u00e3o Paulo, a CPFL, Eletropaulo e Cesp.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 definido como t\u00e9cnico, mas as solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas podem servir a dois interesses, ao p\u00fablico ou ao dos grupos econ\u00f4micos e financeiros. Os que est\u00e3o l\u00e1 hoje participaram ativamente do racionamento do Fernando Henrique, todos eram s\u00f3cios do modelo daquele tempo, vinculado \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o das empresas estatais em favor dos grandes interesses privados e financeiros.<\/p>\n<p>https:\/\/www.cartacapital.com.br\/economia\/privatizacao-da-eletrobras-e-pa-de-cal-no-setor-diz-especialista<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/15937\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[190,105],"tags":[],"class_list":["post-15937","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-fora-temer","category-c118-privatizacao"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-493","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15937","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15937"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15937\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15937"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15937"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15937"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}