{"id":160,"date":"2007-10-10T07:27:24","date_gmt":"2007-10-10T10:27:24","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=160"},"modified":"2017-11-13T08:20:36","modified_gmt":"2017-11-13T11:20:36","slug":"tropa-de-elite-a-criminalizacao-da-pobreza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/160","title":{"rendered":"Tropa de Elite: a criminaliza\u00e7\u00e3o da pobreza!"},"content":{"rendered":"\n<p>Como acredito mais em conspira\u00e7\u00f5es do que no acaso, n\u00e3o descarto a hip\u00f3tese de o filme ter sido encomendado por setores conservadores. Estou curioso para saber quais foram os mecenas desta car\u00edssima produ\u00e7\u00e3o, que certamente foi financiada por incentivos fiscais.<\/p>\n<p>O filme tem objetivos diferentes, para p\u00fablicos diferentes. Para os prolet\u00e1rios das comunidades carentes, o objetivo \u00e9 botar mais medo ainda na &#8220;caveira&#8221; (o BOPE, os &#8220;homens de preto&#8221;). O vazamento escancarado das c\u00f3pias piratas talvez seja, al\u00e9m de uma estrat\u00e9gia de marketing, parte de uma campanha ideol\u00f3gica. A pirataria \u00e9 a \u00fanica maneira de o filme ser visto pelos que n\u00e3o podem pagar os caros ingressos dos cinemas. Ali\u00e1s, que cinemas? N\u00e3o existe mais um cinema nos sub\u00farbios, a n\u00e3o ser em shopping, que n\u00e3o \u00e9 lugar de pobre freq\u00fcentar, at\u00e9 porque se sente exclu\u00eddo e discriminado.<\/p>\n<p>No filme, os &#8220;caveiras&#8221; s\u00e3o invenc\u00edveis e imortais. O \u00fanico que morre \u00e9 porque &#8220;deu mole&#8221;. Cometeu o erro de ir ao morro \u00e0 paisana, para levar \u00f3culos para um menino pobre, em nome de um colega de tropa que estava identificado na \u00e1rea como policial. Resumo: foi fazer uma boa a\u00e7\u00e3o e acabou assassinado pelos bandidos.<\/p>\n<p>Para as classes m\u00e9dias e altas, o objetivo do filme \u00e9 conquistar mais simpatia para o BOPE, na luta dos &#8220;de cima&#8221;, que moram embaixo, contra os &#8220;de baixo&#8221;, que moram encima.<\/p>\n<p>Os &#8220;homens de preto&#8221; s\u00e3o glamourizados, como abnegados e incorrupt\u00edveis. Apesar de bem intencionados e preocupados socialmente, s\u00e3o obrigados a torturar e assassinar a sangue frio, em &#8220;nosso nome&#8221;. Para servir \u00e0 &#8220;nossa sociedade&#8221;, sacrificam a fam\u00edlia, a sa\u00fade e os estudos. N\u00f3s lhes devemos tudo isso! Portanto, precisam ser impunes. Voc\u00ea j\u00e1 viu algum &#8220;caveira&#8221; ser processado e julgado por tortura ou assassinato? &#8220;Caveira&#8221; n\u00e3o tem nome, a n\u00e3o ser no filme. A &#8220;Caveira&#8221; \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o, impessoal, quase secreta.<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rias cenas para justificar a tortura como &#8220;um mal necess\u00e1rio&#8221;. Em ambas, o resultado \u00e9 positivo para os torturadores, ou seja, os torturados n\u00e3o resistem e &#8220;cag\u00fcetam&#8221; os procurados, que s\u00e3o pegos e mortos, com requintes de crueldade. Fica outra mensagem: sem aquelas torturas, o resultado era imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Tudo \u00e9 feito para nos sentirmos numa verdadeira guerra, do bem contra o mal. \u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o nos remetermos ao Iraque ou \u00e0 Palestina: na guerra, quase tudo \u00e9 permitido. \u00c0 certa altura, afirma o narrador, orgulhoso : &#8220;nem no ex\u00e9rcito de Israel h\u00e1 soldados iguais aos do BOPE&#8221;.<\/p>\n<p>Para quem mora no Rio, \u00e9 rid\u00edculo levar a s\u00e9rio as cenas em que os &#8220;rangers&#8221; sobem os morros, saindo do nada, se esgueirando pelas encostas e ruelas, sem que sejam percebidos pelos olheiros e fogueteiros das gangues do varejo de drogas! Esta manipula\u00e7\u00e3o cumpre o papel de torn\u00e1-los ainda mais invenc\u00edveis e, ao mesmo tempo, de esconder o estigmatizado &#8220;Caveir\u00e3o&#8221;, dentro do qual, na vida real, eles sobem o morro, blindados. O &#8220;Caveir\u00e3o&#8221;, a maior marca do BOPE, n\u00e3o aparece no filme: os her\u00f3is n\u00e3o podem parecer covardes!<\/p>\n<p>O filme procura desqualificar a pol\u00eamica ideol\u00f3gica com a esquerda, que responsabiliza as injusti\u00e7as sociais como causa principal da viol\u00eancia e marginalidade. Para ridicularizar a defesa dos direitos humanos e escamotear a den\u00fancia do capitalismo, os antagonistas da trucul\u00eancia policial s\u00e3o estudantes da PUC, &#8220;despojados de boutique&#8221;, que se d\u00e3o a alguns luxos, por n\u00e3o terem ainda chegado \u00e0 maioridade burguesa.<\/p>\n<p>Os protestos contra a viol\u00eancia retratados no filme s\u00e3o performances no estilo &#8220;viva rico&#8221;, em que a burguesia e a pequena-burguesia v\u00e3o para a orla pedir paz, como se fosse poss\u00edvel acabar com a viol\u00eancia com velas e roupas brancas, ou seja, como se tratasse de um problema moral ou cultural e n\u00e3o social.<\/p>\n<p>A burguesia passa inc\u00f3lume pelo filme, a n\u00e3o ser pela caricatura de seus filhos que, na Faculdade, fumam um baseado e discutem Foucault. Um personagem chamado &#8220;Baiano&#8221; (sutil preconceito) \u00e9 a personifica\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico de drogas e de armas, como se n\u00e3o passasse de um desses meninos pobres, apenas mais espertos que os outros, que se fazem &#8220;Chefe do Morro&#8221; e que n\u00e3o chegam aos trinta anos de idade, simples varejistas de drogas e armas, produtos dos mais rent\u00e1veis do capitalismo contempor\u00e2neo. Nenhuma men\u00e7\u00e3o a como as drogas e armas chegam \u00e0s comunidades, distribu\u00eddas pelos grandes traficantes capitalistas, sempre impunes, longe das balas achadas e perdidas. E ainda responsabilizam os consumidores pela exist\u00eancia do tr\u00e1fico de drogas, como se o sistema n\u00e3o tivesse nada a ver com isso!<\/p>\n<p>O Estado burgu\u00eas tamb\u00e9m passa inc\u00f3lume pelo filme. Nenhuma alus\u00e3o \u00e0 aus\u00eancia do Estado nas comunidades carentes, principal causa do dom\u00ednio do banditismo. Nenhuma den\u00fancia de que l\u00e1 falta tudo que sobra nos bairros ricos. No filme, corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 um soldado da PM tomar um chope de gra\u00e7a, para dar seguran\u00e7a a um bar. Ali\u00e1s, o filme arrasa impiedosamente os policiais &#8220;n\u00e3o caveiras&#8221;, generalizando-os como corruptos e covardes, principalmente os que ficam multando nossos carros e tolhendo nossas pequenas transgress\u00f5es, ao inv\u00e9s de subirem o morro para matar bandido.<\/p>\n<p>A grande sacada do filme \u00e9 que o personagem ideol\u00f3gico principal n\u00e3o \u00e9 o artista principal. Este, branco, \u00e9 o que mais mata. Ironicamente, chama-se Nascimento. \u00c9 um tipo patol\u00f3gico, messi\u00e2nico, sanguin\u00e1rio, que manda um colega matar enquanto fala ao celular com a mulher sobre o nascimento do filho.<\/p>\n<p>Mas para fazer a cabe\u00e7a de todos os p\u00fablicos, tanto os &#8220;de cima&#8221; como os &#8220;de baixo&#8221;, o grande e verdadeiro her\u00f3i da trama surge no final: Thiago, um jovem negro, pacato, criado numa comunidade pobre, que foi trabalhar na PM para custear seus estudos de Direito, louco para largar aquela vida e ser advogado. Como PM, foi um peixe fora d&#8217;\u00e1gua: incorrupt\u00edvel, respeitava as leis e os cidad\u00e3os. Generoso, foi ele quem comprou os \u00f3culos para dar para o menino m\u00edope. Sua entrada no BOPE n\u00e3o foi por voca\u00e7\u00e3o, mas por acaso.<\/p>\n<p>Para ficar claro que n\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o fora da repress\u00e3o e do exterm\u00ednio e que n\u00e3o adianta criticar nem fazer passeata, pois &#8220;guerra \u00e9 guerra&#8221;, nosso novo her\u00f3i se transforma no mais cruel dos &#8220;caveiras&#8221; da tropa da elite, a ponto de dar o tiro de miseric\u00f3rdia no varejista &#8220;Baiano&#8221;, depois que este foi torturado, dominado e imobilizado. Para n\u00e3o parecer uma guerra de brancos ricos contra negros pobres, mas do bem contra o mal, o nosso her\u00f3i \u00e9 um &#8220;caveira&#8221; negro, que mata um bandido &#8220;baiano&#8221;, de sua pr\u00f3pria classe, num ritual macabro para sinalizar uma possibilidade de &#8220;mobilidade social&#8221;, para usar uma express\u00e3o cretina dos entusiastas das &#8220;pol\u00edticas compensat\u00f3rias&#8221;.<\/p>\n<p>A fascistiza\u00e7\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno que vem sendo impulsionado pelo imperialismo em escala mundial. A pretexto da luta contra o terrorismo, criminalizam-se governos, l\u00edderes, povos, pa\u00edses, religi\u00f5es, ra\u00e7as, culturas, ideologias, camadas sociais.<\/p>\n<p>Em qualquer pa\u00eds em que &#8220;Tropa de Elite&#8221; passar, principalmente nos Estados Unidos e na Europa, o filme estar\u00e1 contribuindo para que a sociedade se torne mais fascista e mais intolerante com os negros, os imigrantes de pa\u00edses perif\u00e9ricos e delinq\u00fcentes de baixa renda.<\/p>\n<p>No Brasil, a m\u00eddia burguesa h\u00e1 muito tempo trabalha a id\u00e9ia de que estamos numa verdadeira guerra, fazendo sutilmente a apologia da repress\u00e3o. Sentimos isso de perto. Quantas vezes j\u00e1 vimos pessoas nas ruas querendo linchar um ladr\u00e3o amador, pego roubando alguma coisa de algu\u00e9m? Quantas vezes ouvimos, at\u00e9 de trabalhadores, que &#8220;bandido tem que morrer&#8221;?<\/p>\n<p>Se n\u00e3o reagirmos, daqui a pouco a classe m\u00e9dia vai para as ruas pedir mais BOPE e menos direitos humanos e, de novo, fazer o jogo da burguesia, que quer exterminar os pobres, que s\u00f3 criam problemas e ainda por cima n\u00e3o contam na sociedade de consumo. Daqui a pouco, as mil\u00edcias particulares v\u00e3o se espalhar pelo pa\u00eds, inspiradas nos her\u00f3icos &#8220;homens de preto&#8221;, num perigoso processo de privatiza\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a p\u00fablica e da justi\u00e7a. N\u00e3o nos esque\u00e7amos do modelo da &#8220;matriz&#8221;: hoje, os mais sanguin\u00e1rios soldados americanos no Iraque s\u00e3o mercen\u00e1rios recrutados por empresas particulares de seguran\u00e7a, n\u00e3o sujeitos a regulamentos e c\u00f3digos militares.<\/p>\n<p>Parafraseando Bertolt Brecht, depois vai sobrar para n\u00f3s, que teimamos em lutar contra o fascismo e a barb\u00e1rie, sonhando com um mundo justo e fraterno.<\/p>\n<p>A trilha sonora do filme j\u00e1 avisou:<\/p>\n<p><strong>&#8220;Tropa de Elite,<\/strong><\/p>\n<p><strong>Osso duro de roer,<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pega um, pega geral.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Tamb\u00e9m vai pegar voc\u00ea!&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>* Ivan Pinheiro \u00e9 Secret\u00e1rio Geral do PCB &#8211; Partido Comunista Brasileiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Homem de preto.\nQual \u00e9 sua miss\u00e3o?\n\u00c9 invadir favela\nE deixar corpo no ch\u00e3o&#8221;\n(refr\u00e3o do BOPE)\n\nIvan Pinheiro*\n\nN\u00e3o d\u00e1 cair no papo furado de que &#8220;Tropa de Elite&#8221; \u00e9 &#8220;arte pura&#8221; ou &#8220;obra aberta&#8221;. Um filme sobre quest\u00f5es sociais n\u00e3o podia ser neutro. Trata-se de uma obra de arte objetivamente ideol\u00f3gica, de car\u00e1ter fascista, que serve \u00e0 criminaliza\u00e7\u00e3o e ao exterm\u00ednio da pobreza. \u00c9 poss\u00edvel at\u00e9 que os diretores subjetivamente n\u00e3o quisessem este resultado, mas apenas ganhar dinheiro, prest\u00edgio e, quem sabe, um Oscar. V\u00e3o jurar o resto da vida que n\u00e3o s\u00e3o de direita. Ali\u00e1s, voc\u00ea conhece algu\u00e9m no Brasil, ainda mais na \u00e1rea cultural, que se diga de direita?\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/160\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-160","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2A","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/160","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=160"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/160\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=160"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=160"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=160"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}