{"id":16040,"date":"2017-09-07T12:37:28","date_gmt":"2017-09-07T15:37:28","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=16040"},"modified":"2017-09-06T16:45:18","modified_gmt":"2017-09-06T19:45:18","slug":"crise-estados-unidos-coreia-do-norte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16040","title":{"rendered":"Crise Estados Unidos &#8211; Coreia do Norte"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/i.ytimg.com\/vi\/5besS5i0WfM\/maxresdefault.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><strong>Entrevista com Robert Charvin* <\/strong><\/p>\n<p>DIARIO.INFO &#8211; 05 de setembro de 2017<\/p>\n<p>\u00abMaltratar um povo (\u2026) \u00e9 provocar que no seu seio surja aquilo que poderia designar-se com \u00abefeito cidadela\u00bb. Assediados por todos os lados e por todos os meios, amea\u00e7ados de agress\u00e3o militar, colocados em dificuldades econ\u00f4micas, desacreditados na opini\u00e3o internacional pelos poderes midi\u00e1ticos, esses povos n\u00e3o podem sen\u00e3o ter uma rea\u00e7\u00e3o defensiva feita de um patriotismo virulento, de uma feroz mobiliza\u00e7\u00e3o, de um monolitismo sem falhas. Toda a cr\u00edtica, numa situa\u00e7\u00e3o de beliger\u00e2ncia cr\u00f4nica, n\u00e3o pode sen\u00e3o ser trai\u00e7\u00e3o!\u00bb<\/p>\n<p><strong>Initiative Communiste (IC) <\/strong>: A sua obra inspira-se na interroga\u00e7\u00e3o de Montesquieu \u201cComo se pode ser persa?\u201d? N\u00e3o ser\u00e1 que o modo como a Coreia do Norte \u00e9 tratada no espa\u00e7o midi\u00e1tico em Fran\u00e7a, assente sobre preconceitos, \u00e9 indigno do esp\u00edrito de observa\u00e7\u00e3o pr\u00f3prio do Iluminismo?<\/p>\n<p><strong>Robert Charvin (RC) <\/strong>: Montesquieu ironizava sobre os incultos etnocentristas que n\u00e3o concebiam que algu\u00e9m \u201cpudesse ser persa\u201d! Alguns s\u00e9culos mais tarde, a mesma coisa continua a suceder nos seis da \u201cp\u00e1tria\u201d dos direitos do homem (na realidade, do homem ocidental) cujos valores s\u00e3o os \u00fanicos a serem \u00abuniversais\u00bb.<\/p>\n<p>Os Outros s\u00f3 t\u00eam li\u00e7\u00f5es a aprender da nossa eterna grandeza: os \u00abtrumpistas\u00bb franceses precederam os americanos! Os pa\u00edses que n\u00e3o alinham est\u00e3o errados e os seus dirigentes s\u00e3o rufias perigosos para o mundo!<\/p>\n<p>Em Paris, como em Washington, sabe-se que a \u00fanica democracia v\u00e1lida \u00e9 eletiva, pouco importando que sejam o dinheiro ou a viol\u00eancia (conforme os pa\u00edses) quem decide os resultados. Quanto aos direitos econ\u00f4micos e sociais, n\u00e3o entram em linha de conta quando se faz a avalia\u00e7\u00e3o\u2026e quando s\u00e3o decididas san\u00e7\u00f5es contra os regimes que \u00abdesagradam\u00bb! Os Euro-americanos, senhores (provis\u00f3rios) do mundo, autoproclamam-se desse modo ju\u00edzes do \u00abBem e do Mal\u00bb na ordem internacional. Os principais media e os partidos seguem sem escrut\u00ednio as senten\u00e7as desses ju\u00edzes. A Coreia do Norte \u00e9 consensual: seria a encarna\u00e7\u00e3o da malignidade, embora ningu\u00e9m aluda \u00e0 sua tr\u00e1gica hist\u00f3ria nacional (feroz coloniza\u00e7\u00e3o japonesa, devastadora guerra americana, embargo e san\u00e7\u00f5es sucessivas desde 1953, etc.). S\u00e3o raros os que conhecem o seu sincretismo ideol\u00f3gico feito de marxismo e de confucianismo. Para se confortarem com o seu \u00ableg\u00edtimo direito\u00bb, numerosos ocidentais preferem ignorar.<\/p>\n<p><strong>IC: <\/strong>Na sua obra, recorda certas realidades da hist\u00f3ria coreana (um embaixador coreano cometendo suic\u00eddio perante a indiferen\u00e7a geral das grandes pot\u00eancias que avalisavam a coloniza\u00e7\u00e3o do seu pa\u00eds pelo Jap\u00e3o, um \u00fanico edif\u00edcio em p\u00e9 em Pyongyang ap\u00f3s os bombardeamentos dos EUA durante a Guerra da Coreia, etc.) \u00c9 esta tr\u00e1gica hist\u00f3ria que explica a feroz resist\u00eancia patri\u00f3tica que a RPDC sempre op\u00f4s ao imperialismo?<\/p>\n<p><strong>RC<\/strong>: Maltratar um povo como aconteceu com o povo sovi\u00e9tico ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, com o povo palestino desde h\u00e1 mais de um s\u00e9culo, com o povo cubano depois de 1958, ou com o povo norte-coreano, \u00e9 provocar que no seu seio surja aquilo que poderia designar-se com \u00abefeito cidadela\u00bb. Assediados por todos os lados e por todos os meios, amea\u00e7ados de agress\u00e3o militar, colocados em dificuldades econ\u00f4micas, desacreditados na opini\u00e3o internacional pelos poderes midi\u00e1ticos, esses povos n\u00e3o podem sen\u00e3o ter uma rea\u00e7\u00e3o defensiva feita de um patriotismo virulento, de uma feroz mobiliza\u00e7\u00e3o, de um monolitismo sem falhas. Toda a cr\u00edtica, numa situa\u00e7\u00e3o de beliger\u00e2ncia cr\u00f4nica, n\u00e3o pode sen\u00e3o ser trai\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Qualquer concess\u00e3o se torna um passo no sentido da capitula\u00e7\u00e3o. Se o Ocidente e os seus \u00abdireitistas-do-homem\u00bb profissionais tivessem na realidade vontade de favorecer os direitos do homem na Coreia e no mundo, como dizem, denunciariam as san\u00e7\u00f5es coletivas e favoreceriam o desanuviamento e a coopera\u00e7\u00e3o. A pol\u00edtica de agress\u00e3o e as sistem\u00e1ticas condena\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas s\u00e3o incompat\u00edveis com a \u00abajuda ao desenvolvimento da democracia\u00bb. Estrangular um povo leva-o a respirar mal e a debater-se!<\/p>\n<p>Esta patologia feroz, associada ao fato de que o capitalismo necessita de inimigos, coloca entretanto vantagens para as v\u00edtimas. O povo coreano est\u00e1 informado, concretamente, do que \u00e9 o imperialismo e as suas taras destrutivas. Soube constituir-se como uma for\u00e7a de resist\u00eancia homog\u00eanea, coerente, aprender a ultrapassar as dificuldades impostas de fora. \u00c9 grave que os progressistas e numerosos comunistas no Ocidente n\u00e3o tenham uma consci\u00eancia clara disso, e que prefiram o imperialismo dos grandes \u00e0 soberania dos pequenos!<\/p>\n<p><strong>IC<\/strong>: Manobras militares gigantescas, instala\u00e7\u00e3o de m\u00edsseis, de submarinos e porta-avi\u00f5es nucleares, os Estados Unidos optam por uma estrat\u00e9gia de tens\u00e3o na Coreia: \u00e9 exagerado falar-se em amea\u00e7a \u00e0 paz mundial?<\/p>\n<p><strong>RC: <\/strong>H\u00e1 d\u00e9cadas que os Estados Unidos e seus aliados (em particular os de Seul e T\u00f3quio, mas tamb\u00e9m os de Paris) amea\u00e7am a pr\u00f3pria exist\u00eancia da Coreia do Norte invocando, paradoxalmente, as suas \u00abprovoca\u00e7\u00f5es\u00bb! Contudo, quem est\u00e1 \u00e0 sua porta \u00e9 o mais gigantesco ex\u00e9rcito do mundo, o dos EUA, dotado das armas mais sofisticadas, incluindo as nucleares. Em cada ano manobra nas suas fronteiras juntamente com as tropas sul-coreanas e outras, simulando cerco e ataques! O povo coreano, nomeadamente as popula\u00e7\u00f5es civis, sofreu j\u00e1 massacres como os que os ex\u00e9rcitos ocidentais praticam quando pretendem destruir um sistema que n\u00e3o lhes conv\u00e9m: n\u00e3o est\u00e1 esquecida a guerra de 1950-1952!<\/p>\n<p>S\u00e3o os EUA quem, bem longe do seu territ\u00f3rio nacional, provocam todos os povos da regi\u00e3o, que querem manter ou colocar sob a sua tutela!<\/p>\n<p>S\u00e3o os EUA quem colocam perigosamente no tabuleiro a sua capacidade nuclear, ousando invocar a leg\u00edtima defesa. Ao discurso delirante de Trump junta-se uma propaganda massiva e sem matizes contra a Coreia do Norte, que os europeus reproduzem. Certos filmes americanos chegam a imaginar uma invas\u00e3o militar norte-coreana do territ\u00f3rio dos EUA: o filme \u201cRed Dawn\u201d, por exemplo, que recentemente foi exibido num canal de televis\u00e3o franc\u00eas!<\/p>\n<p>Na realidade, esta paran\u00f3ia anti-coreana \u00e9 totalmente simulada. Ela dissimula, efetivamente, uma realidade geoestrat\u00e9gica de primeira import\u00e2ncia para os EUA: a Coreia \u00e9 uma zona de contatos com a China, a R\u00fassia e o Jap\u00e3o. A manuten\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a militar norte-americana \u00e9 considerada necess\u00e1ria aos interesses dos EUA. A pequena Coreia do Norte \u00e9 o inimigo \u00ab\u00fatil\u00bb. \u00c9 necess\u00e1rio alimentar a sua m\u00e1 reputa\u00e7\u00e3o comunista, \u00e9 necess\u00e1rio evitar a sua reunifica\u00e7\u00e3o com o Sul de modo a conservar um abcesso de fixa\u00e7\u00e3o que justifique a inger\u00eancia dos EUA na regi\u00e3o (nomeadamente as suas bases na Coreia do Sul, em Guam, etc.). Todos os meios s\u00e3o bons para manter um estado de guerra larvar impeditivo do desenvolvimento r\u00e1pido da Coreia do Norte, com o risco de desencadear o confronto entre as grandes pot\u00eancias.<\/p>\n<p>A\u00ed tamb\u00e9m se imp\u00f5e lamentar que certas correntes progressistas, obcecadas pelo eleitoralismo, negligenciem o fato de a RPDC propor, desde sempre, a desnucleariza\u00e7\u00e3o de toda a regi\u00e3o, estar pronta a concluir um tratado de paz com os EUA que garanta a sua soberania e a cooperar com todos os Estados do mundo. Colocar no mesmo plano as entidades em presen\u00e7a, do mesmo modo que tamb\u00e9m fazem com palestinos e israelitas, com a R\u00fassia e os EUA, em nome de uma paz cujo conte\u00fado n\u00e3o \u00e9 definido, \u00e9 efetivamente fazer um favor aos agressores.<\/p>\n<p><strong>IC<\/strong>: Em 2016 e 2017 um movimento popular muito importante levou \u00e0 queda do governo Park. Existe uma evolu\u00e7\u00e3o no sentido da democratiza\u00e7\u00e3o do regime autorit\u00e1rio do sul? As primeiras declara\u00e7\u00f5es do novo presidente, sobre a reabertura do di\u00e1logo directo com a Coreia do Norte, sobre o sistema antim\u00edsseis norte-americano em vias de instala\u00e7\u00e3o, apontam em v\u00e1rias dire\u00e7\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 o povo coreano o principal recurso para a paz?<\/p>\n<p><strong>RC<\/strong>: A for\u00e7a decisiva para que se verifiquem mudan\u00e7as positivas na Coreia \u00e9 a totalidade do povo coreano. A responsabilidade por que n\u00e3o existam ainda boas rela\u00e7\u00f5es entre o Norte e o Sul ap\u00f3s o final da guerra mundial cabe \u00e0s grandes pot\u00eancias, e aos EUA em primeiro lugar.<\/p>\n<p>Quando se verificam mudan\u00e7as em Seul (como foi o caso com a elei\u00e7\u00e3o de Kim Dae-jung ou recentemente com a elimina\u00e7\u00e3o da presid\u00eancia corrupta da sr\u00aa Park (hoje na pris\u00e3o), realiza-se uma aproxima\u00e7\u00e3o Norte-Sul. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o ocidentais foram muito discretos acerca do vasto movimento de massas que derrubou a equipa dirigente em Seul, grande aliada dos EUA! Infelizmente a nova equipe, que n\u00e3o \u00e9 j\u00e1 sistematicamente hostil ao Norte, permanece subordinada aos EUA, e a sua linha pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 ainda livre.<\/p>\n<p>Mas o povo sul-coreano, incluindo os grandes grupos econ\u00f4micos como Hyundai, como o povo do Norte, desejam a reunifica\u00e7\u00e3o e a paz, a coreanidade tem para ambas as partes mais virtudes, por muito que isso custe ao Ocidente, do que a American Way of Life, importada para o sul ap\u00f3s 1949.<\/p>\n<p>Pode razoavelmente conceber-se que, apesar de todos os obst\u00e1culos, o Norte e o Sul encontrem a via no sentido de uma confedera\u00e7\u00e3o, que num primeiro tempo respeite as duas soberanias e os dois regimes socioecon\u00f4micos, primeiros passos de um caminho no sentido da unidade que faria da Coreia uma nova e importante pot\u00eancia emergente.<\/p>\n<p>A solidariedade internacional, hoje amputada pela contamina\u00e7\u00e3o das teses dos neoconservadores e pelas concep\u00e7\u00f5es da social-democracia (com a exce\u00e7\u00e3o de alguns casos individuais com Jack Lang) que invadiram a corrente progressista, dever\u00e1 poder renascer se a lucidez prevalecer sobre o etnocentrismo e ultrapassar a geopol\u00edtica. A causa coreana merece.<\/p>\n<p>* De\u00e3o honor\u00e1rio da Faculdade de Direito de Nice, militante comunista, autor do livro recentemente publicado por Delga \u201cComment peut-on \u00eatre Cor\u00e9en du nord ?\u201d (\u201cComo pode ser-se norte-coreano?\u201d),<\/p>\n<p>Este texto foi publicado em:<\/p>\n<p>https:\/\/www.initiative-<wbr \/>communiste.fr\/articles\/<wbr \/>international\/crise-etats-<wbr \/>unis-coree-lanalyse-de-robert-<wbr \/>charvin-specialiste-de-coree\/<\/p>\n<p>https:\/\/www.odiario.info\/crise-estados-unidos-coreia-do-norteentrevista\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16040\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[181,38,237],"tags":[227],"class_list":["post-16040","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-asia","category-c43-imperialismo","category-rpdc","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4aI","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16040","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16040"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16040\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16040"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16040"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16040"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}