{"id":16045,"date":"2017-09-07T12:48:38","date_gmt":"2017-09-07T15:48:38","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=16045"},"modified":"2017-09-06T16:53:55","modified_gmt":"2017-09-06T19:53:55","slug":"eua-uma-contradicao-peculiar-e-novissima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16045","title":{"rendered":"EUA: uma contradi\u00e7\u00e3o peculiar e nov\u00edssima"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/resistir.info\/eua\/imagens\/desindustrializacao3.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->por Jos\u00e9 Valenzuela Feij\u00f3o*<\/p>\n<p>Comecemos por uma pergunta: pode emergir uma contradi\u00e7\u00e3o entre as grandes corpora\u00e7\u00f5es transnacionais estadunidenses e o capitalismo norte-americano?<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio enunciado poderia parecer absurdo: se se fala do capitalismo de tal ou qual pa\u00eds, ser\u00e1 poss\u00edvel pensar que surja uma contradi\u00e7\u00e3o entre este e suas empresas capitalistas? Acaso n\u00e3o se estar\u00e1 falando do mesmo? Ser\u00e1 que se pode falar de capitalismo nacional como algo distinto ou separado das empresas capitalistas que nele radicam? O tema merece alguma discuss\u00e3o m\u00ednima. Podemos abord\u00e1-lo em termos: i) da din\u00e2mica e modos que assume o investimento no estrangeiro; ii) das origens setoriais e regionais dos lucros.<\/p>\n<p><b>O investimento no estrangeiro <\/b><\/p>\n<p>O investimento no estrangeiro, ou exporta\u00e7\u00e3o de capital, constitui uma caracter\u00edstica antiga das grandes pot\u00eancias capitalistas. E quando o sistema avan\u00e7a para a sua fase monopolista, tal caracter\u00edstica acentua-se: &#8220;o que caracterizava o velho capitalismo, no qual dominava plenamente a livre competi\u00e7\u00e3o, era a exporta\u00e7\u00e3o <i> de mercadorias. <\/i> O que caracteriza o capitalismo moderno, no qual impera o monop\u00f3lio, e a exporta\u00e7\u00e3o <i> de capital <\/i> &#8220;.[1]<\/p>\n<p>Neste momento, podem-se distinguir diversas etapas. Num primeiro momento, a dire\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es de capital vai do centro para a periferia e concentra-se na produ\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias-primas. Estas tornam-se baratas e ajudam a baixar a composi\u00e7\u00e3o do valor do capital e, por esta via, elevar a taxa de lucro. Al\u00e9m disso, o grosso da ind\u00fastria continuava localizado no p\u00f3lo desenvolvido.<\/p>\n<p>Num segundo momento, pelo menos na Am\u00e9rica Latina, emerge algum desenvolvimento industrial impulsionado pelo Estado e capitalistas nacionais. O que muito contrariava os te\u00f3ricos neocl\u00e1ssicos, os que continuavam a defender a &#8220;racionalidade&#8221; da tradicional divis\u00e3o internacional do trabalho. Em termos quase &#8220;curiosos&#8221;, em pouco tempo chegou ali o capital transnacional, apoderando-se dos segmentos mais estrat\u00e9gicos. Junto a esse movimento h\u00e1 outro que se deve sublinhar: o investimento estrangeiro tamb\u00e9m se move <i> entre <\/i> os pa\u00edses do centro: vai dos Estados Unidos para a Europa e vice-versa, do Jap\u00e3o para a Europa, etc. Neste caso, n\u00e3o s\u00e3o os baixos sal\u00e1rios o factor que os impulsiona e sim a dimens\u00e3o dos mercados para bens industriais. Os lucros que este movimento gera favorecem mais os Estados Unidos: na Europa, por exemplo, expande-se o <i> american way of life <\/i> e a cultura gringa tende a impor-se. Esta fase coincide com outra: a do padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o com regula\u00e7\u00e3o keynesiana que imperou nos EUA e Europa desde fins dos anos quarenta at\u00e9, aproximadamente, meados ou fins dos setenta. Tamb\u00e9m se deve destacar: nesta fase observa-se um crescimento muito forte das grandes companhias transnacionais.<\/p>\n<p>Desde fins dos anos setenta at\u00e9 agora, o que impera \u00e9 o padr\u00e3o neoliberal. Se pensarmos nos EUA, verificamos: a) piora drasticamente a distribui\u00e7\u00e3o do rendimento: sob a taxa de mais-valia; b) cai o coeficiente de investimento e reduz-se significativamente o ritmo de crescimento do PIB; c) geram-se problemas do lado do emprego produtivo; d) o mercado interno torna-se pouco atraente; e) emerge um d\u00e9ficit cr\u00f3nico na Balan\u00e7a de Pagamentos, o qual \u00e9 financiado atrav\u00e9s do expediente de emitir d\u00f3lares que os estrangeiros adquirem e utilizam como meio de reserva.<\/p>\n<p>No plano que mais nos interessa cristaliza-se um fen\u00f4meno chave: torna-se poss\u00edvel uma minuciosa fragmenta\u00e7\u00e3o dos processos produtivos. Portanto, esta fragmenta\u00e7\u00e3o poss\u00edvel d\u00e1 lugar a que diversas partes do processo produtivo se possam localizar em muito diversos pontos do globo terr\u00e1queo. O que passa a depender dos n\u00edveis do sal\u00e1rio, das pol\u00edticas tribut\u00e1rias e cambiais e das poss\u00edveis infraestruturas (portos, caminhos, energia el\u00e9ctrica, etc) que possam oferecer os diversos pa\u00edses e regi\u00f5es. Tudo isso recorda n\u00e3o pouco as condi\u00e7\u00f5es que se verificavam durante o modelo prim\u00e1rio-exportador em vigor na Am\u00e9rica Latina durante o s\u00e9culo XIX (\u00faltimos dois ter\u00e7os) e no primeiro ter\u00e7o do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Nas condi\u00e7\u00f5es atuais, o investimento que se efetua fora, em pa\u00edses como por exemplo o M\u00e9xico, provoca um alto ritmo de crescimento das exporta\u00e7\u00f5es mexicana e, por sua vez, gera efeitos de arrastamento que s\u00e3o praticamente nulos. As exporta\u00e7\u00f5es crescem a bom ritmo (as importa\u00e7\u00f5es ainda mais), mas o PIB permanece quase estagnado em termos per capita. Ou seja, os efeitos de arrastamento destes investimentos sobre a economia nacional interna do pa\u00eds recipiente s\u00e3o quase nulos. Mas aqui interessa-nos o impacto na economia interna dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>No caso estadunidense destaca-se o forte crescimento do investimento que suas grandes empresas aplicam no estrangeiro. Ao mesmo tempo, o debilitamento do investimento que se aplica no territ\u00f3rio estadunidense: investe-se muito fora e muito pouco dentro do pa\u00eds. Em 1982 o investimento directo dos EUA acumulado no estrangeiro chegava a 207,8 mil milh\u00f5es. Em 2016 chegou a 5332,2 mil milh\u00f5es. Multiplicou-se 25,7 vezes, crescendo a uma taxa m\u00e9dia anual de 10%. Entre 1982 e 1990 cresce a 9,5%. Entre 1990 e 2007 a 12,1% e entre 2007 e 2016 (per\u00edodo que abrange a grande crise de 2007-2009) cresce a 6,6%. A expans\u00e3o \u00e9 alta, com crescimento a ritmos anuais muito elevados. Tamb\u00e9m se observa que no per\u00edodo 2007-2016 a expans\u00e3o reduz-se bastante, quase \u00e0 metade do per\u00edodo anterior. Neste, pode-se supor que, devido \u00e0 crise, os &#8220;fatores de atra\u00e7\u00e3o&#8221; se enfraquecem fortemente. O que certamente est\u00e1 ligado \u00e0 recess\u00e3o que afeta n\u00e3o s\u00f3 os EUA como tamb\u00e9m a Europa e o Jap\u00e3o. Os dados b\u00e1sicos mostram-se no Quadro I.<\/p>\n<p><b>Quadro I: EUA, Investimento direto no estrangeiro <\/b><\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td><b>Ano <\/b><\/td>\n<td><b>Valor acumulado (US$ bilh\u00f5es) <\/b><\/td>\n<td><b>\u00cdndice <\/b><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><b>1982<\/b><\/td>\n<td><b>207.8<\/b><\/td>\n<td><b>100<\/b><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><b>1990<\/b><\/td>\n<td><b>430,5<\/b><\/td>\n<td><b>207<\/b><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><b>2000<\/b><\/td>\n<td><b>1 316,2<\/b><\/td>\n<td><b>633<\/b><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><b>2007<\/b><\/td>\n<td><b>2 994,0<\/b><\/td>\n<td><b>1 441<\/b><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><b>2016<\/b><\/td>\n<td><b>5 332,2<\/b><\/td>\n<td><b>2 566<\/b><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><em>Fonte: D.T. Jennings y S. Stutzman, &#8220;Direct Investment Position for 2016&#8221;, em Survey of Current Business, July 2017.<\/em><br \/>\n<em>Valores a custos hist\u00f3ricos.<\/em><\/p>\n<p>O aumento do investimento no estrangeiro pode ser melhor avaliado se o compararmos com o comportamento do investimento no pa\u00eds. Isto \u00e9 mostrado no quadro seguinte.<\/p>\n<p><b>Quadro II: Investimento nacional e no estrangeiro (\u00edndices) <\/b><\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td><b>Rubrica <\/b><\/td>\n<td><b>2000 <\/b><\/td>\n<td><b>2014 <\/b><\/td>\n<td><b>Taxa m\u00e9dia anual de crescimento <\/b><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><b>Investimento fixo n\u00e3o residencial<\/b><\/td>\n<td><b>100,0<\/b><\/td>\n<td><b>130,4<\/b><\/td>\n<td><b>1,9 %<\/b><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td><b>Investimento direto no estrangeiro<\/b><\/td>\n<td><b>100,0<\/b><\/td>\n<td><b>373,0<\/b><\/td>\n<td><b>9,9 %<\/b><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><em>Fonte: Para investimento fora ver fonte do quadro I.<\/em><br \/>\n<em>Para Investimento Fixo n\u00e3o residencial, NBER, &#8220;Economic Report of the President, 2016&#8221;.<\/em><br \/>\n<em>A s\u00e9rie \u00e9 a pre\u00e7os constantes.<\/em><\/p>\n<p>A evid\u00eancia \u00e9 contundente. Cresce muit\u00edssimo mais o investimento no estrangeiro do que no pa\u00eds. De fato, o investimento interno mostra sinais claros de estancamento.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m especificar e notar os fatos mais decisivos.<\/p>\n<p><b>Primeiro: <\/b> cresce muito o investimento das CMN dos EUA no estrangeiro. E enfraquece-se no territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p><b>Segundo: <\/b> no exterior, gera-se uma rede ou cadeia de produ\u00e7\u00e3o que impressiona pela sua fragmenta\u00e7\u00e3o e extens\u00e3o geogr\u00e1fica. Produzem-se diversas partes do produto final em regi\u00f5es muito diversas, em cada uma das quais \u00e9 acrescentado certo montante de valor agregado.<\/p>\n<p><b>Terceiro: <\/b> numa alta percentagem, o produto final acaba por ser vendido aos pr\u00f3prios Estados Unidos.<\/p>\n<p><b>Quarto: <\/b> no fim deste c\u00edrculo, os Estados Unidos come\u00e7a a transformar-se num grande comprador (importador) de produtos finais e, ao mesmo tempo, vai perdendo sua capacidade de produ\u00e7\u00e3o industrial \u2013 com a consequente e forte perda de ocupa\u00e7\u00f5es industriais. Em alguns estudos estima-se que entre 2001 e 2011 a perda de empregos nos EUA provocada pelo seu d\u00e9fice com a China chegou aos 2,7 milh\u00f5es. [2] Um c\u00e1lculo recente abrange os anos 2001 a 2015 e estima a perda de empregos em 3,4 milh\u00f5es. [3] Quanto ao NAFTA [North American Free Trade Agreement], nos seus primeiros 20 anos de funcionamento a perda em rela\u00e7\u00e3o ao M\u00e9xico e Canad\u00e1 \u00e9 estimada em 850 mil empregos. [4]<\/p>\n<p><b>Quinto: <\/b> como contrapartida, emerge um forte d\u00e9ficit na balan\u00e7a comercial dos EUA. Com isto, o problema vital da realiza\u00e7\u00e3o do excedente agrava-se ainda mais.<\/p>\n<p>Para concluir esta enumera\u00e7\u00e3o, recordemos uma express\u00e3o cl\u00e1ssica: &#8220;o que \u00e9 bom para a General Motors \u00e9 bom para os Estados Unidos&#8221;. Alguns criticavam-na pois a classe oper\u00e1ria gringa tinha pouco a ver com tais benef\u00edcios. Pelo menos, beneficiava-se numa propor\u00e7\u00e3o bastante menor. Mas agora, a situa\u00e7\u00e3o parece estar a mudar num sentido bastante mais radical: <i> o que \u00e9 bom para as grandes corpora\u00e7\u00f5es multinacionais estadunidenses j\u00e1 deixou de ser bom para o capitalismo dos EUA. <\/i><\/p>\n<p>1. Lenin, &#8220;El imperialismo, fase superior del capitalismo&#8221;, en Obras Escogidas, Tomo I, p\u00e1g.741. Edit. Progreso, Mosc\u00fa, 1978.<br \/>\n2. Ver R. E. Scott, &#8220;The China toll: growing U.S. trade deficit with China cost more than 2.7 million jobs between 2001 and 2011, with job losses in every state&#8221;; Economic Policy Institute; Briefing Paper, n\u00b0 345.<br \/>\n3. R. E. Scott, &#8220;Renegotiation NAFTA is putting lipstick on a pig&#8221;; en Economic Policy Institute, 21 de Agosto, 2017 (p\u00e1gina eletr\u00f4nica).<br \/>\n4. R. E. Scott, ib\u00eddem.<\/p>\n<p>*Economista, chileno, professor universit\u00e1rio no M\u00e9xico.<\/p>\n<p>Este artigo encontra-se em http:\/\/resistir.info\/eua\/valenzuela_eua_1.html<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16045\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[165],"tags":[225],"class_list":["post-16045","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eua","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4aN","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16045","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16045"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16045\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16045"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16045"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16045"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}