{"id":16086,"date":"2017-09-10T14:27:18","date_gmt":"2017-09-10T17:27:18","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=16086"},"modified":"2017-09-10T14:27:18","modified_gmt":"2017-09-10T17:27:18","slug":"eua-a-crise-e-seu-impacto-sobre-a-classe-trabalhadora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16086","title":{"rendered":"EUA: a crise e seu impacto sobre a classe trabalhadora"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/resistir.info\/eua\/imagens\/no_loitering_banksy.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->por Jos\u00e9 Valenzuela Feij\u00f3o*<\/p>\n<p>Os processos que temos examinado afetam com for\u00e7a a classe trabalhadora estadunidense e fazem-no num sentido negativo: perdem-se empregos e n\u00edveis de vida. O tema merece um tratamento extenso que n\u00e3o vamos efetuar aqui. Mas pelo menos conv\u00e9m ensaiar uma abordagem m\u00ednima.<\/p>\n<p>Comecemos pelo dado chave: entre 1979 e 2013 (fase neoliberal), a produtividade cresceu 64,9% e o sal\u00e1rio real por hora trabalhada cresceu s\u00f3 8,2% [1] . A defasagem \u00e9 impressionante e indica-nos que foi dado um salto muito forte na taxa de mais-valia. Esta teria chegado a 4,21 em 2014, partindo de 1,7 em 1978. Em consequ\u00eancia, a rela\u00e7\u00e3o mais-valia com Rendimento Nacional teria passado de 63% para um alt\u00edssimo 8,1% [2] . Trata-se de um tra\u00e7o inerente ao modelo neoliberal e que, por sua vez, est\u00e1 muito associado \u00e0 forma que assume a economia mundial, \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o em especial.<\/p>\n<p>Para este caso, conv\u00e9m recolher dois coment\u00e1rios estadunidenses sobre os efeitos atuais da &#8220;globaliza\u00e7\u00e3o&#8221; no primeiro mundo. Jeff Faux assinala que com o NAFTA &#8220;emergem regras novas e radicais sobre o com\u00e9rcio internacional (&#8230;) as quais deslocam os benef\u00edcios de expandir o com\u00e9rcio para os investidores e os custos para os trabalhadores&#8221; [3] . Segundo Fred Goldstein, &#8220;enquanto a exporta\u00e7\u00e3o de capital foi outrora utilizada nos pa\u00edses imperialistas para impulsionar um estrato superior da classe trabalhadora (a &#8220;aristocracia oper\u00e1ria&#8221;, JVF), suavizar a luta de classes e promover a estabilidade social, com a nova divis\u00e3o internacional do trabalho a exporta\u00e7\u00e3o a exporta\u00e7\u00e3o de capital est\u00e1 a ser utilizada, nesses pa\u00edses imperialistas, para rebaixar os n\u00edveis de vida dos trabalhadores, dizimar os estratos superiores dos trabalhadores e se\u00e7\u00f5es das camadas m\u00e9dias, destro\u00e7ando a seguran\u00e7a no trabalho e os benef\u00edcios sociais&#8221; [4] .<\/p>\n<p>No curto per\u00edodo neoliberal nos EUA [o pa\u00eds] parece come\u00e7ar a dar mostras de uma doen\u00e7a terminal. H\u00e1 um processo de deslegitima\u00e7\u00e3o do sistema pol\u00edtico que cresce cada vez mais. Os mitos do &#8220;sonho americano&#8221; come\u00e7am a ruir. Do governo de Barack Obama, por exemplo, foi dito que &#8220;praticou o socialismo com a Wall Street (salvou-a da quebra, JVF) e o neoliberalismo com a classe trabalhadora&#8221;. O pr\u00f3prio triunfo eleitoral de Trump inseriu-se neste processo. Inclusive um estudo das Na\u00e7\u00f5es Unidas chegou a reconhecer que &#8220;a desconformidade de amplos setores m\u00e9dios dos pa\u00edses desenvolvidos \u00e9 o resultado de anos de crescimento lento, forte desemprego \u2013 em particular o juvenil \u2013 estancamento ou deteriora\u00e7\u00e3o salarial e press\u00f5es derivadas de correntes migrat\u00f3rios de uma magnitude que n\u00e3o se via desde fins da d\u00e9cada de 1940&#8221; [5] .<\/p>\n<p>Quais podem ser as perspectivas?<\/p>\n<p>Significativamente, ao mesmo tempo que o regime se debilita e decomp\u00f5e-se cada vez mais, as op\u00e7\u00f5es n\u00e3o parecem muito fortes.<\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o de um nacionalismo de direita de corte fascist\u00f3ide come\u00e7ou a enfraquecer nos EUA: Donald Trump, que supomos que a encabe\u00e7ava, vem-se enredando (e debilitando) na sua \u00e2nsia de resistir ao ataque feroz do establishment. Ainda que as bases sociais de apoio, atuais e potenciais, a este tipo de reordenamento estrutural continuem a estar ali. Mas est\u00e3o ali sem ter uma clara e s\u00f3lida dire\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edticas. E n\u00e3o ser\u00e1 demais sublinhar: esta op\u00e7\u00e3o, do \u00e2ngulo das for\u00e7as sociais que poderiam apoi\u00e1-la, continua a ser maiorit\u00e1ria. Por outras palavras, o &#8220;caldo de cultura&#8221; para uma sa\u00edda de corte fascist\u00f3ide continua a estar presente. E n\u00e3o se deve esquecer que esta op\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m a do continu\u00edsmo neoliberal, aponta para maior gasto militar e para a guerra como mecanismos de sa\u00edda da crise. Guerra que muito provavelmente seria de tipo nuclear, o que colocaria um desafio muito maior: o de salvar a humanidade deitando abaixo o sistema capitalista.<\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o de um capitalismo democr\u00e1tico e progressista (estilo Sanders) tampouco parecer acumular as for\u00e7as sociais necess\u00e1rias para a mudan\u00e7a. Em parte n\u00e3o menor, pelas pr\u00f3prias vacila\u00e7\u00f5es dos seus dirigentes potenciais [6] .<\/p>\n<p>Uma terceira rota, j\u00e1 de car\u00e1ter socialista, pelo menos na sua orienta\u00e7\u00e3o, parece ainda mais d\u00e9bil. Em todo caso, pensamos que no horizonte, ainda com perfis muito nebulosos, quase invis\u00edveis ou &#8220;inaud\u00edveis&#8221;, come\u00e7a a sentir-se o chamado de uma exig\u00eancia objetiva [7] de alcance vasto: superar o sistema atual e come\u00e7ar a interrogar-se sobre o que seria o socialismo no hemisf\u00e9rio norte. Se, como nos velhos tempo da grande plan\u00edcie, pusermos o ouvido na terra, muito provavelmente ouviremos esse rumor. Afinal de contas, \u00e9 esta a \u00fanica op\u00e7\u00e3o capaz de superar realmente os agudos problemas atuais.<\/p>\n<p>1. Trata-se de dados referidos aos trabalhadores de produ\u00e7\u00e3o excluindo supervisores. O dado foi tomado de J. Bivens, E. Golud, L. Mishel y H. Shierholz, &#8220;Raising America\u00b4s Pay. Why it&#8217;s Our Central Economic Policy Challenge&#8221;. Economic Policy Institute, Briefing Paper n\u00b0 378, June, 2014.<\/p>\n<p>2. Sobre a metodolog\u00eda do c\u00e1lculo da taxa de mais-valia ver Jos\u00e9 Valenzuela Feij\u00f3o, &#8220;\u00bfDe la crisis neoliberal al nacionalismo fascistoide?&#8221;, cap\u00edtulo I. CEDA, M\u00e9xico, 2017.<br \/>\n3 Citado por R. E. Scott, texto citado.<\/p>\n<p>4. Fred Goldstein, &#8220;Low \u2013 Wage Capitalism&#8221;, p\u00e1g. 57. World View Press, N. York, 2008. Do mesmo autor, ver &#8220;Capitalism at a Dead End&#8221;, World View Forum, N. York, 2012. Este, \u00e9 um texto de divulga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>5. Cepal, &#8220;La inversi\u00f3n extranjera directa en Am\u00e9rica Latina y el Caribe.2017&#8221;, p\u00e1g. 25. Santiago de Chile, 2017.<\/p>\n<p>6. Sobre esta alternativa, uma apresenta\u00e7\u00e3o sint\u00e9tica em Jonathan Tasini, &#8220;The Essential Bernie Sanders and his Vision for America&#8221;, Chelsea Green Publishers, 2015.<\/p>\n<p>7. Exig\u00eancia objetiva n\u00e3o \u00e9 o mesmo que exig\u00eancia subjetiva. A primeira opera como una exig\u00eancia do modo de produ\u00e7\u00e3o: este j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 capaz de funcionar con os ritmos de crescimento da produtividade e com as pautas distributivas que possibilitam o uso racional dos recursos. Exig\u00eancia subjectiva \u00e9 a que demandam os atores sociais (classes e frac\u00e7\u00f5es de classe) envolvidos na vida social. Ou seja, esta \u00faltima implica uma consci\u00eancia de classe adequada, que reflita com um grau aceit\u00e1vel a realidade objectiva da situa\u00e7\u00e3o. Ou seja, o que Marx denominava &#8220;classe para s\u00ed&#8221;. Se esta consci\u00eancia n\u00e3o tem lugar e domina uma falsa consci\u00eancia de classe, a base econ\u00f4mica pode estar a ruir mas a mudan\u00e7a pol\u00edtica e social n\u00e3o acontecer\u00e1. Nestes casos: a base desmorona-se mas a vari\u00e1vel pol\u00edtica n\u00e3o resolve, encontramo-nos com um per\u00edodo que se pode denominar &#8220;p\u00e2ntano hist\u00f3rico&#8221;. Na Alemanha que vai de Lutero e Thomas M\u00fcnzer at\u00e9 Bismarck observa-se uma situa\u00e7\u00e3o relativamente semelhante.<\/p>\n<p>*Economista, chileno, professor universit\u00e1rio no M\u00e9xico.<\/p>\n<p>Este artigo encontra-se em http:\/\/resistir.info\/eua\/valenzuela_eua_3.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16086\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[165],"tags":[224],"class_list":["post-16086","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eua","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4bs","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16086","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16086"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16086\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16086"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16086"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16086"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}