{"id":16108,"date":"2017-09-11T18:29:44","date_gmt":"2017-09-11T21:29:44","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=16108"},"modified":"2017-09-12T18:09:08","modified_gmt":"2017-09-12T21:09:08","slug":"licoes-da-experiencia-chilena-1970-73","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16108","title":{"rendered":"Li\u00e7\u00f5es da experi\u00eancia chilena (1970-73)"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ci5.googleusercontent.com\/proxy\/Wx0Yz5AAELoQhbVU0aF0LV8KpvNF3YDw4_zuNnIdvYAqOI73ob78dfVqYLnOg6Migjka5H-5SnFkXQsNE9Vrikp4DEKIU3mtDP8U1ElJMas551ZQlRhx27PsBoXT-eDtnCuzmokmCU21c9mEuFSqxwChMjs8Vsnh1CNUg5s3-hfjAy7bHQ0ygj5E73aOzit3qNL0kt6NxOpeB5PTZlk_8--rawmvqdTIUd8=s0-d-e1-ft#https:\/\/scontent.fsdu1-1.fna.fbcdn.net\/v\/t1.0-9\/21558673_1841171185899405_5049682419116999447_n.jpg?oh=eefa11c9ffb6bebb4899c5a8203d3cdc&amp;oe=5A5B3E71\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Paulo Cesar De Biase Di Blasio (professor de Hist\u00f3ria e militante do PCB de Nova Friburgo\/RJ)<\/p>\n<p><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>O governo da Unidade Popular, presidido por Salvador Allende, impressionou-nos muito. Aos 17 anos de idade, sob ditadura militar, em pleno governo M\u00e9dici, ouvimos do professor de Hist\u00f3ria a not\u00edcia de que um socialista havia sido eleito democraticamente para a presid\u00eancia do Chile. Para n\u00f3s era um fato inusitado. Acompanh\u00e1vamos com os parcos meios dispon\u00edveis, as not\u00edcias que aqui chegavam sobre o governo Allende. Quando, no dia 11 de setembro de 1973, no Jornal Nacional, da Rede Globo, foi noticiado com grande alarde o Golpe Militar que derrubou Allende, a tristeza foi grande, apesar de n\u00e3o ter sido uma surpresa, pois em junho do mesmo ano hav\u00edamos assistido ao assassinato do cinegrafista sueco pelos militares golpistas que tentaram, em v\u00e3o, derrubar o governo. Esse processo que acompanhamos de longe contribuiu para que nos engaj\u00e1ssemos na luta contra a ditadura militar brasileira, direcionando o \u00f3dio aos gorilas chilenos para os tupiniquins, participando das elei\u00e7\u00f5es de 1974, nas quais a ditadura foi eleitoralmente derrotada.<\/p>\n<p>Nosso breve texto n\u00e3o tem outro prop\u00f3sito sen\u00e3o apenas levantar questionamentos, abrir perspectivas de an\u00e1lise e apontar poss\u00edveis caminhos. A experi\u00eancia chilena, por sua proposta, desdobramentos e tr\u00e1gico fim, obriga-nos a ressaltar a necessidade de uma profunda reflex\u00e3o sobre ela. Consideramos de fundamental import\u00e2ncia para o movimento oper\u00e1rio e popular de todos os pa\u00edses, em especial para os da periferia capitalista, uma an\u00e1lise apurada do Governo da Unidade Popular, para que dessa experi\u00eancia se tire ensinamentos para a pr\u00e1tica pol\u00edtica dos trabalhadores que lutam contra a explora\u00e7\u00e3o capitalista e a domina\u00e7\u00e3o imperialista.<\/p>\n<p>Em nosso trabalho, vamos abordar, primeiramente, os antecedentes econ\u00f4micos, sociais e pol\u00edticos que permitiram as condi\u00e7\u00f5es para a ocorr\u00eancia da experi\u00eancia popular chilena: sua singularidade na economia, sua estabilidade pol\u00edtica e institucional e sua sui generis estrutura social. Num segundo momento vamos tra\u00e7ar a trajet\u00f3ria do governo da Unidade Popular: desde a vit\u00f3ria, passando pela pol\u00edtica econ\u00f4mica, pela reforma agr\u00e1ria, pelas crises e por sua derrota. Depois iremos elencar diversas an\u00e1lises e opini\u00f5es de cientistas sociais e de dirigentes pol\u00edticos sobre as causas da derrota da Unidade Popular: ilus\u00f5es democr\u00e1ticas, apego \u00e0s institui\u00e7\u00f5es burguesas, despreparo militar, esquerdismo ou reformismo. Por \u00faltimo, daremos as nossas conclus\u00f5es sobre o governo Allende e sobre as causas de sua derrota.<\/p>\n<p><strong>A SINGULARIDADE DO CHILE<\/strong><\/p>\n<p>As guerras do processo de independ\u00eancia contribu\u00edram para aumentar as dificuldades econ\u00f4micas dos jovens pa\u00edses latino-americanos. Excluindo os metais preciosos e couros, nenhum outro produto encontrou mercado favor\u00e1vel. As dificuldades sofridas pelo algod\u00e3o, com a concorr\u00eancia dos EUA, pelo a\u00e7\u00facar, com a produ\u00e7\u00e3o de beterraba na Europa (o caf\u00e9 s\u00f3 a partir de meados do s\u00e9culo XIX ter\u00e1 um mercado crescente) ir\u00e3o abalar as economias e desestabilizar os regimes pol\u00edticos dos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, com a exce\u00e7\u00e3o do Chile.<\/p>\n<p>Inserido no contexto do sistema colonial como as demais forma\u00e7\u00f5es sociais da Am\u00e9rica Latina, o Chile, capitania aut\u00f4noma, era o mais distante e isolado dos dom\u00ednios de Espanha. Seu clima temperado e geografia bastante acidentada apresentavam um quadro bem distinto dentre os pa\u00edses latino-americanos. Sua agricultura n\u00e3o oferecia produtos atraentes para o mercado europeu e a sua produ\u00e7\u00e3o de metais preciosos (prata) era bem inferior em rela\u00e7\u00e3o ao Peru e Bol\u00edvia. A economia n\u00e3o se caracterizava pela exporta\u00e7\u00e3o de produtos agropecu\u00e1rios para a metr\u00f3pole. Na realidade, a regi\u00e3o chilena estava integrada ao p\u00f3lo peruano, que consumia a sua produ\u00e7\u00e3o de trigo e de derivados da pecu\u00e1ria.[1] Essas caracter\u00edsticas particulares do Chile fizeram com que este pa\u00eds n\u00e3o fosse t\u00e3o afetado e que preservasse o seu modelo pol\u00edtico, garantindo uma estabilidade at\u00edpica, se comparada com seus vizinhos.<\/p>\n<p>Durante o s\u00e9culo XIX, fatores internacionais favoreceram a economia chilena. Ao lado do aumento da exporta\u00e7\u00e3o de peles e do incremento da produ\u00e7\u00e3o de min\u00e9rios &#8211; prata e cobre &#8211; que se expande a partir de 1825 estimulado pela crescente industrializa\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia, o trigo chileno encontrar\u00e1 nos EUA o seu grande mercado. A descoberta de ouro na Calif\u00f3rnia, no oeste norte-americano, com a conseq\u00fcente migra\u00e7\u00e3o, colocar\u00e1 o produto chileno na pauta de importa\u00e7\u00f5es do grande pa\u00eds do norte, em virtude das facilidades de transporte pelo Pac\u00edfico e pelo fato de nenhum outro pa\u00eds latino-americano ter as mesmas condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis. Deste modo, durante um pequeno per\u00edodo, mas muito importante, o Chile transformou-se no fornecedor estrat\u00e9gico de alimentos da costa oeste dos EUA.[2] A conjun\u00e7\u00e3o desses aspectos econ\u00f4micos tamb\u00e9m favoreceu para a estabilidade pol\u00edtica ao pa\u00eds andino.<\/p>\n<p>Os setores econ\u00f4micos dominantes no Chile eram a grande burguesia financeira e comercial atrelada ao com\u00e9rcio internacional, e as oligarquias agroexportadoras. A Constitui\u00e7\u00e3o de 1833 e o governo de Diego inauguraram o predom\u00ednio da oligarquia conservadora, expressando todo seu car\u00e1ter autorit\u00e1rio, cat\u00f3lico e avesso a novidades. O regime chileno suportou bem aos solavancos provocados pelo assassinato de Portales (1837) e pela guerra contra a Confedera\u00e7\u00e3o do Peru e da Bol\u00edvia. A partir de 1841 e de 1851 ocorre uma lenta liberaliza\u00e7\u00e3o, ligada \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es na sociedade chilena geradas pelo desenvolvimento mineiro na bacia do Pequeno Norte e o conseq\u00fcente surgimento de uma classe de novos ricos, que introduz na capital um estilo de vida menos austero e tradicional.[3] Essa transi\u00e7\u00e3o do regime conservador para o liberal vai se concretizar em 1871, com a elei\u00e7\u00e3o de Za\u00f1artu, o primeiro presidente de origem liberal. A liberaliza\u00e7\u00e3o no Chile n\u00e3o significou um processo de democratiza\u00e7\u00e3o amplo, representando apenas uma amplia\u00e7\u00e3o do poder restrito aos grupos econ\u00f4micos e sociais dominantes. A classe dominante chilena dirigiu o pa\u00eds com firmeza, superando crises s\u00e9rias como a guerra do Pac\u00edfico (1879-1883), da qual saiu vencedora, tornando-se um exemplo vitorioso de pol\u00edtica olig\u00e1rquica na conturbada Am\u00e9rica Latina. A guerra bem sucedida contra o Peru e a Bol\u00edvia assegurou para o pa\u00eds as regi\u00f5es de Tarapac\u00e1 e Antofagasta, ricas em guano, salitre e outros minerais. A vit\u00f3ria militar surpreendeu o continente, que passou a respeitar e temer o Chile, sendo o pa\u00eds considerado uma esp\u00e9cie de Pr\u00fassia latino-americana.[4]<\/p>\n<p>No plano pol\u00edtico-partid\u00e1rio, a segunda metade do s\u00e9culo XIX evidencia o crescente esvaziamento dos setores conservadores. Do Partido Conservador ser\u00e1 formado o Partido Nacional, e, mais tarde, elementos mais avan\u00e7ados do Partido Liberal criar\u00e3o o Partido Radical. O bloco Nacional-Radical-Liberal, a partir de 1881, desempenhou papel importante na vida pol\u00edtica chilena, desbancando os conservadores do poder. A oligarquia liberal realizou importante programa de reformas, afastando-se dos conservadores e da Igreja Cat\u00f3lica. Na gest\u00e3o do governo Balmaceda (1886-1891) implementaram-se reformas econ\u00f4micas que objetivavam resguardar os interesses nacionais. No que dizia respeito ao salitre, riqueza nacional mais importante, Balmaceda defendia o rompimento do monop\u00f3lio ingl\u00eas sobre Tarapac\u00e1, al\u00e9m de incentivar a constitui\u00e7\u00e3o de empresas salitreiras nacionais e de obstaculizar o crescimento das empresas de capital estrangeiro. Balmaceda realizou mudan\u00e7as nos setores administrativo e tribut\u00e1rio, fazendo tamb\u00e9m reformas no Judici\u00e1rio, na Sa\u00fade e na Educa\u00e7\u00e3o, investindo na moderniza\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas, promovendo a ocupa\u00e7\u00e3o e coloniza\u00e7\u00e3o de novas \u00e1reas do territ\u00f3rio chileno. As reformas moderadas de Balmaceda provocaram a ira dos oligarcas conservadores, que contando com o apoio e financiamento do imperialismo, derrubaram o governo reformista, depois de uma violenta guerra civil. Com o fim do governo Balmaceda, encerrou-se o per\u00edodo do predom\u00ednio olig\u00e1rquico na vida pol\u00edtica do Chile, iniciando-se o per\u00edodo parlamentarista, onde o Congresso passou a exercer o poder, o que n\u00e3o alterou, no entanto, a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as na estrutura de poder do pa\u00eds.[5]<\/p>\n<p>O per\u00edodo parlamentarista (1891-1925) foi caracterizado por significativas mudan\u00e7as na economia, na estrutura social e pol\u00edtica do pa\u00eds. Ampliou-se a abertura para os investimentos estrangeiros, principalmente na minera\u00e7\u00e3o, tornando o pa\u00eds altamente dependente deste ramo de produ\u00e7\u00e3o. A industrializa\u00e7\u00e3o estava subordinada aos interesses do imperialismo, assim como aos interesses das oligarquias mineiras e agr\u00e1rias, interligados aos da crescente burguesia industrial chilena. Nenhum desses grupos tinha interesse, e no caso da burguesia industrial tamb\u00e9m faltava for\u00e7a material e pol\u00edtica, em defender uma pol\u00edtica protecionista que incentivasse uma industrializa\u00e7\u00e3o ligada ao mercado interno. Essas tr\u00eas for\u00e7as sociais e econ\u00f4micas dominaram a pol\u00edtica econ\u00f4mica do Chile no s\u00e9culo XIX e parte do atual.<\/p>\n<p>Na composi\u00e7\u00e3o interna da economia chilena, a agricultura foi perdendo import\u00e2ncia para a ind\u00fastria mineradora e para a grande finan\u00e7a. Ap\u00f3s a Guerra Mundial de 1914-1918, o cobre tornou-se o principal artigo de exporta\u00e7\u00e3o, e com o enfraquecimento do imperialismo ingl\u00eas, a explora\u00e7\u00e3o do min\u00e9rio estava em m\u00e3os de empres\u00e1rios norte-americanos. O surto de industrializa\u00e7\u00e3o decorrente do conflito mundial, semelhante ao ocorrido nos demais pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, conjugado com a expans\u00e3o do com\u00e9rcio e a melhoria dos servi\u00e7os p\u00fablicos de infraestrutura, criaram condi\u00e7\u00f5es para o crescimento da classe oper\u00e1ria e das chamadas camadas m\u00e9dias assalariadas (empregados do setor de servi\u00e7os e funcion\u00e1rios p\u00fablicos) e n\u00e3o-assalariadas ( profissionais liberais, etc.). Paulatinamente, os setores m\u00e9dios passaram a substituir nos cargos p\u00fablicos os membros das oligarquias tradicionais, o mesmo acontecendo nas for\u00e7as armadas, nos partidos pol\u00edticos, nos neg\u00f3cios e nas profiss\u00f5es liberais. Essa crescente participa\u00e7\u00e3o dessas camadas m\u00e9dias aumentava seu peso pol\u00edtico na vida do pa\u00eds, reivindicando maiores espa\u00e7os de atua\u00e7\u00e3o. Um reflexo desse incremento social e pol\u00edtico da \u201cclasse m\u00e9dia\u201d foi a elei\u00e7\u00e3o de Arturo Alessandri, considerado seu representante, em 1920. \u00c9 tamb\u00e9m nesse per\u00edodo que se constitui o Partido Comunista Chileno, em janeiro de 1922, que tem suas origens no Partido Socialista dos Trabalhadores, fundado por Lu\u00edz Em\u00edlio Recabarren, em 1912. A classe oper\u00e1ria chilena, basicamente no setor de minera\u00e7\u00e3o sob o dom\u00ednio imperialista, surge antes mesmo da configura\u00e7\u00e3o de uma burguesia nacional. As primeiras manifesta\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias de relev\u00e2ncia ocorrem nas \u00e1reas salitreiras e s\u00e3o reprimidas violentamente pela for\u00e7a p\u00fablica. Como ocorreu em Iquique, em 1907, regi\u00e3o que concentrava mais de 15 mil trabalhadores, com centenas de mortos e feridos.<\/p>\n<p>Nos anos 20, a economia chilena, de alto n\u00edvel de integra\u00e7\u00e3o com o mercado mundial em propor\u00e7\u00f5es per capita,[6] j\u00e1 d\u00e1 sinais de enfraquecimento. O salitre do Chile passa a sofrer a concorr\u00eancia do salitre sint\u00e9tico alem\u00e3o. A crise social amplia-se: aumenta a infla\u00e7\u00e3o, queda do poder de compra dos sal\u00e1rios, desemprego, greves oper\u00e1rias e amplo descontentamento da popula\u00e7\u00e3o. A esses fatores soma-se a alta rotatividade ministerial e a corrup\u00e7\u00e3o administrativa do governo, evidenciando que o regime parlamentarista estava com os seus dias contados. Os militares violam a ordem constitucional e dep\u00f5em o presidente em 1924. Sob forte press\u00e3o militar, o Congresso aprovou v\u00e1rias leis de car\u00e1ter social (c\u00f3digo do trabalho, seguro social de doen\u00e7a e invalidez). Um contragolpe militar reconduz Alessandri ao governo e uma nova Constitui\u00e7\u00e3o \u00e9 aprovada atrav\u00e9s plebiscito. A nova carta estabelecia a separa\u00e7\u00e3o entre Estado e Igreja, o regime presidencialista com elei\u00e7\u00f5es populares, o fortalecimento do poder executivo e at\u00e9 princ\u00edpios avan\u00e7ados, como a fun\u00e7\u00e3o social da propriedade e sa\u00fade p\u00fablica.[7]<\/p>\n<p>A crise econ\u00f4mica mundial de 1929 cai como uma bomba sobre a economia chilena, cujo grau de integra\u00e7\u00e3o ao sistema internacional de divis\u00e3o de trabalho era maior que a do Brasil, M\u00e9xico e Argentina, portanto sendo seriamente abalada. A queda da produ\u00e7\u00e3o industrial nos pa\u00edses importadores acarretou uma liquida\u00e7\u00e3o de estoques e um colapso da produ\u00e7\u00e3o nos pa\u00edses exportadores. Os pa\u00edses, como o Chile, exportadores de produtos minerais, foram violentamente afetados pela queda dos pre\u00e7os e do volume exportado. Entre 1925-1929, o Chile produzia 18% da produ\u00e7\u00e3o mundial de cobre, s\u00f3 abaixo dos EUA e o cobre representava 40% das exporta\u00e7\u00f5es chilenas. Com a crise, as exporta\u00e7\u00f5es chilenas de min\u00e9rios ca\u00edram em 33%.[8] A crise de 29 exp\u00f4s a fragilidade do modelo econ\u00f4mico exportador e dependente, e reorientou a economia no sentido de uma maior interven\u00e7\u00e3o estatal em alguns setores, como nas finan\u00e7as e na explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo, e adotou uma nova pol\u00edtica de prote\u00e7\u00e3o aduaneira, que deu um novo impulso \u00e0 industrializa\u00e7\u00e3o. Nesse aspecto, o Chile vai se destacar, no contexto latino-americano, pelo r\u00e1pido crescimento industrial no processo de substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es. Se em 1929, a participa\u00e7\u00e3o do setor industrial no PIB era de apenas 7,9%, bem inferior ao Brasil, Argentina e M\u00e9xico, o Chile em 1957, segundo Celso Furtado, ser\u00e1 o pa\u00eds latino-americano de maior crescimento de coeficiente industrial.[9] Em decorr\u00eancia desse processo, \u00e9 tamb\u00e9m no Chile onde h\u00e1 a queda mais significativa das importa\u00e7\u00f5es. Em 1934 foi aprovada a primeira lei de imposto de renda (18%) e com a cria\u00e7\u00e3o da CORFO (Corporaci\u00f3n de Fomento de la Produci\u00f3n) essa taxa \u00e9 majorada para 33%. O objetivo \u00e9 dotar o Estado de recursos para a chamada interioriza\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria do cobre, ou seja, integrar essa ind\u00fastria, que antes era um enclave, \u00e0 economia nacional.[10] A CORFO representa o ponto de partida para a segunda fase da industrializa\u00e7\u00e3o chilena, pois caber\u00e1 a ela elaborar e executar um plano de eletrifica\u00e7\u00e3o para o pa\u00eds, criar as bases de produ\u00e7\u00e3o e refino do petr\u00f3leo, instalar uma moderna sider\u00fargica (Huachipato), desenvolver a produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar de beterraba, promover a produ\u00e7\u00e3o de papel, entre outros projetos.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1930, o Chile passa por uma experi\u00eancia in\u00e9dita no continente. Em junho de 1932, a conflu\u00eancia da insatisfa\u00e7\u00e3o da jovem oficialidade das For\u00e7as Armadas com a intensa propaganda das for\u00e7as socialistas dos trabalhadores e intelectuais gerou o movimento revolucion\u00e1rio liderado pelo Brigadeiro Marmaduke Grove, que proclamou a \u201cRep\u00fablica Socialista\u201d, dando in\u00edcio a uma ampla democratiza\u00e7\u00e3o. No plano econ\u00f4mico, o novo governo come\u00e7ou a colocar em pr\u00e1tica v\u00e1rias medidas que transformariam as estruturas da sociedade chilena: reforma agr\u00e1ria, nacionaliza\u00e7\u00e3o das minas de salitre, o controle sobre o com\u00e9rcio exterior, imposto sobre as grandes fortunas e pleno emprego. No entanto, o novo governo n\u00e3o dispu\u00adnha de uma s\u00f3lida base de sustenta\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica, na medida em que o movimento oper\u00e1rio e popular organizado era ainda fraco. A posi\u00e7\u00e3o eq\u00fcidistante do PCCh em rela\u00e7\u00e3o ao governo Marmaduke, consoante com a pol\u00edtica sect\u00e1ria do social-fascismo da Internacional Comunista, contribuiu para o enfraquecimento do governo e a sua derrubada mediante golpe militar, que expressava os interesses burgueses e imperialistas.[11]<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m nos anos 30, os partidos populares (o Partido Socialista \u00e9 fundado em 1933) e organiza\u00e7\u00f5es de massa (sindicatos, central de trabalhadores e confedera\u00e7\u00f5es camponesas) canalizaram a insatisfa\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria e dos setores da pequena burguesia, levando-os a apoiar os candidatos progressistas do Partido Radical, o que predominou at\u00e9 1950. A Frente Popular, que elegeu Pedro Aguirre Cerda, em 1938, e a Alian\u00e7a Democr\u00e1tica, que apoiou a candidatura de Gonz\u00e1lez Videla, em 1946, foram exemplos dessa pol\u00edtica de coaliz\u00e3o.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1950, verifica-se o crescimento do movimento oper\u00e1rio e popular. Cat\u00f3licos, comunistas, socialistas, radicais e independentes formaram, em 1953, a CUT &#8211; Central \u00danica dos Trabalhadores, de cunho socialista, defendendo a propriedade social dos meios de produ\u00e7\u00e3o. No plano pol\u00edtico partid\u00e1rio, as for\u00e7as de esquerda rompem com a subordina\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica dos partidos burgueses, apresentando candidato pr\u00f3prio nas elei\u00e7\u00f5es de 1951(o socialista Allende) pela Frente do Povo. Em 1956, surge a Frente de A\u00e7\u00e3o Popular (FRAP), que encabe\u00e7ada por Allende, \u00e9 derrotada pelas for\u00e7as de direita representadas por Jorge Alessandri, em 1958. A Democracia Crist\u00e3, principal for\u00e7a do reformismo burgu\u00eas, fundada em 1957, ocupou, nos anos 60, o papel de partido pol\u00edtico alternativo para conter o avan\u00e7o do movimento oper\u00e1rio e popular. O PDC reunia camadas m\u00e9dias urbanas, parcela do proletariado e setores crist\u00e3os pr\u00f3ximos da A\u00e7\u00e3o Social Cat\u00f3lica.<\/p>\n<p>Antes de entrarmos na d\u00e9cada de 1960, \u00e9 importante abordar rapidamente a quest\u00e3o agr\u00e1ria e a pol\u00edtica do cobre. No campo chileno, entre 1950 e 1960, o minif\u00fandio correspondia a 36,9% das propriedades e a uma \u00e1rea de 0,2% das terras, enquanto que o latif\u00fandio detinha 6,9% das propriedades e 81,3% das terras. O latif\u00fandio no Chile sempre ocupou posi\u00e7\u00e3o predominante tanto no aspecto de organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o quanto como fonte de emprego no campo. O tamanho m\u00e9dio do latif\u00fandio chileno era 1500 vezes maior que o tamanho m\u00e9dio do minif\u00fandio. A concentra\u00e7\u00e3o de terras era muito grande, de acordo com Celso Furtado: <em>\u201cSe relacionamos o tamanho m\u00e9dio do latif\u00fandio com o do minif\u00fandio, encontramos um coeficiente de concentra\u00e7\u00e3o no Chile tr\u00eas vezes maior que no Brasil e na Col\u00f4mbia<\/em><em> e cinco vezes maior que na Argentina<\/em><em>.\u201d <\/em>[12] Esse quadro de concentra\u00e7\u00e3o e a baixa produtividade faziam com que fosse necess\u00e1rio o governo canalizar divisas para a importa\u00e7\u00e3o de alimentos para suprir as defici\u00eancias produtivas da agricultura chilena.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 pol\u00edtica do cobre, o Chile foi prejudicado pelas empresas mineradoras norte-americanas, que, durante a Segunda Guerra e a Guerra da Cor\u00e9ia, praticaram uma pol\u00edtica de pre\u00e7os baixos para o produto \u00e0 revelia do governo chileno, beneficiando os EUA no esfor\u00e7o de guerra. Ficava claro para a classe dirigente chilena e para amplos setores da popula\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds n\u00e3o poderia ficar t\u00e3o vulner\u00e1vel e \u00e0 merc\u00ea dos interesses estrangeiros. A press\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica fez com que o governo procurasse intervir mais diretamente nesse setor. Um acordo entre Chile e EUA garantiu que 1\/5 da produ\u00e7\u00e3o de cobre caberia ao governo chileno, que o compraria a pre\u00e7os de N. York e o venderia a pre\u00e7os mais altos no mercado internacional. Essas transa\u00e7\u00f5es renderam ao Chile 190 milh\u00f5es de d\u00f3lares de lucros, entre 1952 e 1955.[13] Com o objetivo de aumentar a produ\u00e7\u00e3o foi aprovada, em 1955, uma nova lei que reduzia a carga tribut\u00e1ria das empresas e simplificava o sistema fiscal, al\u00e9m de criar o Departamento do Cobre, que mais tarde passar\u00e1 a ser a Corporaci\u00f3n Chilena del Cobre.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1960, o quadro pol\u00edtico se apresenta com dois campos bem distintos e opostos. De um lado as for\u00e7as burguesas de direita &#8211; liberais, conservadores, radicais e democratas-crist\u00e3os, estes representando os setores m\u00e9dios, e de outro as for\u00e7as de esquerda &#8211; socialistas e comunistas. Em 1964, a Democracia Crist\u00e3 apresenta um programa reformista (Revolu\u00e7\u00e3o em liberdade) pretendendo resolver os problemas concretos da economia do pa\u00eds (infla\u00e7\u00e3o, desemprego, baixa produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, d\u00edvida externa). Nas elei\u00e7\u00f5es desse ano, Eduardo Frei do PDC derrota Allende, mais uma vez o candidato das for\u00e7as de esquerda. O programa da DC est\u00e1 diretamente ligado ao novo quadro pol\u00edtico do continente, marcado pela Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, pregando reformas com liberdade, contando com o apoio do imperialismo norte-americano, neste momento engajado no projeto \u201cAlian\u00e7a para o Progresso\u201d, procurando assim contrapor-se \u00e0 influ\u00eancia cubana no continente. O governo de Frei, cuja base social \u00e9 formada por estratos pequeno-burgueses e por grupos de trabalhadores da cidade e do campo, representar\u00e1 os interesses da grande burguesia e do imperialismo.[14]<\/p>\n<p>O governo de Frei (1964-1970) n\u00e3o conseguiu solucionar os problemas da sociedade chilena. Sua pol\u00edtica para o cobre s\u00f3 atendeu aos interesses do imperialismo e n\u00e3o conseguiu atingir seus objetivos, que eram aumentar a produ\u00e7\u00e3o e a integra\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria mineradora \u00e0 economia do pa\u00eds. A demagogicamente chamada \u201cchileniza\u00e7\u00e3o\u201d do cobre, mediante nova lei em 1966, significava a participa\u00e7\u00e3o do Estado no controle acion\u00e1rio das empresas. O Estado passaria a comprar a\u00e7\u00f5es das empresas, para assim ter acesso aos centros de decis\u00e3o que controlam a oferta do cobre nos mercados internacionais. Na realidade esse processo consistiu em uma tentativa para interessar as grandes empresas e centros financeiros internacionais para o esfor\u00e7o visando aumentar, a m\u00e9dio prazo, a produ\u00e7\u00e3o de cobre do pa\u00eds. E na concretiza\u00e7\u00e3o desse plano, o Estado chileno, al\u00e9m do grande esfor\u00e7o financeiro, fez concess\u00f5es em demasia: aval do Estado para empr\u00e9stimos internacionais e a compra das a\u00e7\u00f5es por valor muito superior ao valor cont\u00e1bil do patrim\u00f4nio das empresas (no caso da Kennecott estima-se que o seu valor real foi quadruplicado).[15]<\/p>\n<p>O governo da democracia crist\u00e3 tamb\u00e9m tentou resolver o problema da agricultura, implementando uma reforma agr\u00e1ria. A quest\u00e3o agr\u00e1ria era um dos grandes problemas do pa\u00eds, em virtude da incapacidade da agricultura para criar excedentes agr\u00edcolas necess\u00e1rios para atender \u00e0 crescente urbaniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, preocupando at\u00e9 os setores mais conservadores (a primeira lei de reforma agr\u00e1ria foi aprovada durante o governo conservador de Alessandri, sem efeito, por\u00e9m, pois foi apenas um compromisso formal no quadro da Alian\u00e7a para o Progresso). Nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola havia aumentado menos que a popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, o que significava uma crescente necessidade de importar alimentos. Do mesmo modo, o n\u00edvel de renda da popula\u00e7\u00e3o camponesa era por demais baixo e diminu\u00eda em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e9dia nacional.[16] Em 1967, um conjunto de leis desencadearam o processo de reforma agr\u00e1ria : altera\u00e7\u00e3o do direito de propriedade, a lei de sindicaliza\u00e7\u00e3o rural e a nova lei de reforma agr\u00e1ria, que autorizava a desapropria\u00e7\u00e3o de propriedades mal exploradas ou controladas por sociedades an\u00f4nimas e das terras irrigadas acima de 80 hectares. O governo democrata-crist\u00e3o desapropriou, entre 1965 e 1970, 1.408 propriedades com uma \u00e1rea de 3.563.554 hectares, sendo 290 mil irrigados. Com o recente, moderado e lento processo de reforma fundi\u00e1ria, a agricultura chilena n\u00e3o conseguiu aumentar, como se esperava, a produ\u00e7\u00e3o em t\u00e3o pouco tempo. N\u00e3o obstante a timidez da reforma (apenas em terras improdutivas indenizadas), os partidos do campo popular e a CUT fizeram um grande trabalho de conscientiza\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o com os camponeses, contribuindo para a cria\u00e7\u00e3o de cooperativas e de organiza\u00e7\u00f5es sindicais rurais (Confedera\u00e7\u00e3o Nacional Camponesa, Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Pequenos e M\u00e9dios Propriet\u00e1rios Agr\u00edcolas e Federa\u00e7\u00e3o Nacional dos Oper\u00e1rios Agr\u00edcolas). Todas essas mudan\u00e7as ocorreram sem grande rea\u00e7\u00e3o, em virtude da pequena popula\u00e7\u00e3o rural e da queda de for\u00e7a pol\u00edtica dos latifundi\u00e1rios. Registre-se que no per\u00edodo entre 1967 e 1969, o movimento popular entra em ascens\u00e3o, aumentando os n\u00fameros de greves, ocorrendo a primeira greve geral dos camponeses chilenos.<\/p>\n<p>No in\u00edcio dos anos 70, a estrutura social do Chile tamb\u00e9m se distingue dos demais pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina. A classe oper\u00e1ria distribu\u00edda entre a ind\u00fastria, constru\u00e7\u00e3o, agricultura, transporte e outras atividades representava 46,6% da popula\u00e7\u00e3o. A chamada classe m\u00e9dia assalariada englobava 21,7%. A pequena burguesia composta por pequenos propriet\u00e1rios rurais, comerciantes e artes\u00e3os reunia 29,1%. A burguesia representava 2,6% da popula\u00e7\u00e3o total do pa\u00eds. Comparando alguns desses dados com pa\u00edses capitalistas avan\u00e7ados, podemos constatar que a contingente oper\u00e1rio no Chile era superior ao do Jap\u00e3o (41,7%), da Fran\u00e7a(44,7%) e ao dos EUA(40,0%). \u00c9 verdade que, em rela\u00e7\u00e3o a esses pa\u00edses, no Chile a ind\u00fastria e a constru\u00e7\u00e3o empregavam menos trabalhadores. Mas referente \u00e0 classe m\u00e9dia assalariada, suplantava a Espanha(11,1%), a It\u00e1lia(17,0%) e o Jap\u00e3o (13,7%) em 1971. A pequena burguesia chilena era mais numerosa que a da Fran\u00e7a (22,2%), da Gr\u00e3-Bretanha(6,4%) e dos EUA (9,3%).[17] Esses dados comprovam que a estrutura social chilena em muito se diferenciava dos pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul e se aproximava bastante dos pa\u00edses capitalistas mais avan\u00e7ados, destacando-se o grande peso dos setores m\u00e9dios, a\u00ed compreendidos a pequena burguesia e a classe m\u00e9dia assalariada.<\/p>\n<p>Na estrutura do PIB do Chile em 1970, em custos de fatores e pre\u00e7os de 1960, cabia \u00e0 agricultura, 9,8%, \u00e0 ind\u00fastria mineira, 10,3%, ao setor manufatureiro, 25,2%, \u00e0 constru\u00e7\u00e3o, 4,2%, aos servi\u00e7os b\u00e1sicos, 12,0%, e a outros servi\u00e7os, 38,5%. E na composi\u00e7\u00e3o interna do setor manufatureiro em 1971, \u00e0 ind\u00fastria de bens n\u00e3o dur\u00e1veis correspondia 57,8%, o setor de insumos e produtos intermedi\u00e1rios (qu\u00edmica, derivados de petr\u00f3leo, carv\u00e3o, borracha, minerais n\u00e3o-met\u00e1licos e metalurgia b\u00e1sica) ficava com 33,2% e \u00e0 ind\u00fastria de bens de capital e de bens dur\u00e1veis cabia 9,0% da produ\u00e7\u00e3o. Esses dados demonstram que a ind\u00fastria pesada chilena encontrava-se em posi\u00e7\u00e3o bem inferior em rela\u00e7\u00e3o ao Brasil (37%) e \u00e0 Argentina (34,2%), e bem abaixo da m\u00e9dia da Am\u00e9rica Latina (19,2%). No quadro da industrializa\u00e7\u00e3o latino-<wbr \/>americana, o Chile ocupava uma posi\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria, sendo suplantado por Brasil, Argentina e M\u00e9xico.[18]<\/p>\n<p>No que tange \u00e0 composi\u00e7\u00e3o interna da classe trabalhadora chilena, a agricultura detinha 21,2% do total de 2.604.000 trabalhadores em 1971. O setor mineiro empregava 2,9%; a ind\u00fastria, 16,0%; a constru\u00e7\u00e3o, 5,7%; os servi\u00e7os p\u00fablicos, 28,0%; o com\u00e9rcio, 11,6%; o transporte, 6,0%; outras atividades assalariadas, 8,6%.[19] Apesar desses dados n\u00e3o distinguirem as diferen\u00e7as entre oper\u00e1rios e empregados n\u00e3o-produtivos, podemos verificar que os servi\u00e7os p\u00fablicos empregavam um grande contingente da classe trabalhadora chilena, a maioria, em termos relativos. N\u00fameros que confirmam o grande espa\u00e7o social ocupado pelos setores m\u00e9dios na sociedade chilena. No entanto, unindo os totais referentes aos setores produtivos (setor mineiro, ind\u00fastria, constru\u00e7\u00e3o e transporte) chegamos aos 30,6%, superando assim, por pequena margem, o percentual dos servi\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Voltando ao campo pol\u00edtico, o governo Frei aprofundava o seu desgaste em virtude do fracasso de sua pol\u00edtica no plano econ\u00f4mico e social. O processo inflacion\u00e1rio \u00e9 ascendente (1967- 21,9%; 1968- 27,9%; 1969- 40%; e nos cinco primeiros meses de 1970- 20,5%). Em 1968, o servi\u00e7o da d\u00edvida externa consumiu 35,8% do valor total das exporta\u00e7\u00f5es. As medidas do FMI e do BID (congelamento dos sal\u00e1rios, redu\u00e7\u00e3o dos gastos sociais e desvaloriza\u00e7\u00e3o da moeda) adotadas pelo governo Frei provocaram recess\u00e3o e desemprego, que chegou a 6% em Santiago e 10% nas prov\u00edncias. A insatisfa\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria e popular aumentava, recrudescendo o movimento grevista. Esse descontentamento se refletiu tamb\u00e9m nas elei\u00e7\u00f5es municipais de 1967, quando a DC teve seu capital eleitoral reduzido de 42% para 36%, enquanto que as for\u00e7as da FRAP cresciam para 30% do eleitorado, e no pleito suplementar para o Senado, do mesmo ano, em que os candidatos governistas foram vencidos. A derrota pol\u00edtica da DC foi expressiva, considerando-se que Frei engajou-se pessoalmente nas elei\u00e7\u00f5es, acontecimento in\u00e9dito na hist\u00f3ria do Chile. O insucesso da pol\u00edtica da DC gerou divis\u00f5es no partido: uma ala de direita, liderada por Frei, e outra, de esquerda, composta por membros da classe m\u00e9dia, que esperavam mudan\u00e7as mais radicais. Alguns membros dessa fra\u00e7\u00e3o da DC fundar\u00e1 o Movimento de A\u00e7\u00e3o Popular Unit\u00e1ria (MAPU), liderado por Jacques Chonchol, em 1969. O setor mais conservador da classe dominante chilena, a oligarquia agr\u00e1ria-financeira, tamb\u00e9m estava descontente com o governo da Democracia Crist\u00e3, que foi acusado de ser respons\u00e1vel pelo quadro de agita\u00e7\u00e3o social, tendo despertado as massas com suas reformas. A extrema-direita come\u00e7ar\u00e1 ent\u00e3o uma campanha de desqualifica\u00e7\u00e3o de Frei e de seu governo.[20]<\/p>\n<p>O quadro pol\u00edtico para as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 1970 delineava-se com a disputa equilibrada de tr\u00eas for\u00e7as pol\u00edticas de consider\u00e1vel peso. A oligarquia agr\u00e1ria-financeira pr\u00f3-imperialista lan\u00e7ou o ex-presidente Jorge Alessandri, com um programa contra a nacionaliza\u00e7\u00e3o do cobre, alegando o pa\u00eds prescindir da ajuda t\u00e9cnica e financeira dos EUA; contra a reforma agr\u00e1ria, que pelo fracionamento das terras diminuiria a produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria; defendia o fortalecimento do poder executivo em detrimento do Congresso. A campanha eleitoral dos conservadores foi acentuadamente anticomunista.<\/p>\n<p>A Democracia Crist\u00e3 enfraquecida politicamente, sem a mesma unidade de antes, e com o descontentamento interno com o fraco desempenho do governo Frei, dirigido pela ala direita do partido, apresenta o ex-senador e embaixador do Chile nos EUA, Radomiro Tomic, que, objetivando atrair setores oper\u00e1rios e populares, propugnava pela via n\u00e3o capitalista do desenvolvimento do pa\u00eds.[21]<\/p>\n<p>A Unidade Popular, que congregava socialistas, comunistas, cat\u00f3licos do MAPU, liberais dos Partidos Radical e Social-Democrata, e independentes do Movimento de A\u00e7\u00e3o Popular (API), defendia como sua a tarefa de construir uma sociedade socialista com liberdade, pluralismo e democracia \u2013 uma proposta sem precedentes na hist\u00f3ria do movimento oper\u00e1rio e popular mundial. A UP reunia as principais for\u00e7as da esquerda (PC e PS), ficando de fora o novo, pequeno e aguerrido Movimento de Izquierda Revolucion\u00e1ria (MIR), de inspira\u00e7\u00e3o cubana, fundado em 1965. Em seu programa, a Unidade Popular almejava o estabelecimento de um novo Estado com outro car\u00e1ter de classe e a elimina\u00e7\u00e3o do poder do capital monopolista tanto nacional quanto estrangeiro e do latif\u00fandio, para iniciar a constru\u00e7\u00e3o do socialismo. A transforma\u00e7\u00e3o proposta visava a forma\u00e7\u00e3o de uma \u00e1rea de propriedade social, estatal, que reuniria as empresas nacionalizadas da grande minera\u00e7\u00e3o de cobre, salitre, ferro e carv\u00e3o; todo o sistema banc\u00e1rio; o com\u00e9rcio exterior; os servi\u00e7os de telecomunica\u00e7\u00f5es; e os monop\u00f3lios industriais estrat\u00e9gicos. A proposta de governo da UP defendia o aprofundamento da reforma agr\u00e1ria no campo, onde haveria tr\u00eas tipos de propriedade: estatal, individual e cooperativada. Quanto \u00e0 pol\u00edtica externa, a UP propunha a autonomia pol\u00edtica e econ\u00f4mica do Chile; o estabelecimento de rela\u00e7\u00f5es com todos os pa\u00edses do mundo; denunciava a OEA como um instrumento dos EUA; e a revis\u00e3o, den\u00fancia ou condena\u00e7\u00e3o dos tratados e conv\u00eanios que limitassem a soberania chilena. No plano pol\u00edtico-institucional, propunha uma nova estrutura de poder, constru\u00edda pela base, atrav\u00e9s de um processo de democratiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o organizada das massas, onde o poder seja exercido pelos trabalhadores, camponeses e setores progressistas das camadas m\u00e9dias do campo e da cidade; uma nova Constitui\u00e7\u00e3o legitimaria a incorpora\u00e7\u00e3o maci\u00e7a do povo ao poder estatal; a substitui\u00e7\u00e3o do sistema representativo de duas c\u00e2maras pela Assembl\u00e9ia do Povo; a restrutura\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a, sendo os membros da Suprema Corte indicados pela Assembl\u00e9ia do Povo; afirmava que as transforma\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias seriam realizadas dentro dos marcos institucionais e que o governo garantiria o exerc\u00edcio dos direitos democr\u00e1ticos e respeitaria as ga\u00adrantias individuais e sociais de todo o povo, sem as restri\u00e7\u00f5es impostas pela burguesia, garantindo tamb\u00e9m \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o o respeito pleno dos direitos exercidos dentro dos limites legais, &#8211; ficando clara a escolha pela via pac\u00edfica para a realiza\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as.[22] Em suma, a UP se propunha a instaurar o socialismo atrav\u00e9s da transforma\u00e7\u00e3o gradual da economia, da sociedade e do Estado chilenos. Para o Partido Comunista, for\u00e7a hegem\u00f4nica da UP, esse programa correspondia \u00e0s tarefas colocadas pelo car\u00e1ter da revolu\u00e7\u00e3o chilena: anti-imperialista, antiolig\u00e1rquica e antifeudal.[23]<\/p>\n<p>Com a burguesia dividida nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 1970 entre o conservador Alessandri, pela direita, e o democrata-crist\u00e3o Tomic, pelo centro, a frente de esquerda Unidade Popular, encabe\u00e7ada mais uma vez por Allende, sai vitoriosa. Num universo de 2.962.743 votos v\u00e1lidos, cabendo a Tomic 27,8%, Allende se elege com um ter\u00e7o dos votos (36,3%), derrotando Alessandri, o segundo colocado, que obteve 34,9%.[24] A vit\u00f3ria da Unidade Popular, com cerca de um ter\u00e7o do eleitorado, ocorreu em virtude do crescimento do movimento oper\u00e1rio e popular, do apoio das camadas m\u00e9dias e, eleitoralmente decisivo, da divis\u00e3o das for\u00e7as burguesas, que avaliavam cada uma poder vencer a esquerda isoladamente.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria de Allende surpreendeu as for\u00e7as pol\u00edticas tradicionais chilenas, que davam como certa a elei\u00e7\u00e3o de Alessandri. Superando a paralisia inicial, a direita reage: o Partido Nacional n\u00e3o reconhece a vit\u00f3ria da UP, alegando que esta n\u00e3o obteve a maioria absoluta, rompendo a tradi\u00e7\u00e3o de confirmar a vit\u00f3ria por maioria simples. Essa posi\u00e7\u00e3o for\u00e7ava a ratifica\u00e7\u00e3o pelo Congresso, onde a UP estava em minoria. A estrat\u00e9gia do Partido Nacional de Alessandri para evitar a posse de Allende era, depois da sua rejei\u00e7\u00e3o, renunciar em favor de Tomic da DC, o terceiro colocado, constituindo-se numa artimanha constitucional golpista para impedir o governo das for\u00e7as populares.<\/p>\n<p>Simultaneamente, em 22 de outubro, a extrema-direita tentou seq\u00fcestrar o General Ren\u00e9 Schneider, comandante-em-chefe do ex\u00e9rcito, que reagiu e foi morto. Schneider, um democrata-crist\u00e3o e defensor da legalidade, era a mais alta autoridade militar do pa\u00eds e desfrutava de enorme prest\u00edgio entre as for\u00e7as armadas. O objetivo dos direitistas era tumultuar e dificultar a escolha de Allende pelo Congresso, que aconteceria em 24 de outubro, atribuindo o seq\u00fcestro aos grupos de esquerda. Ocorre que os autores do atentado foram logo descobertos pelo MIR, o que debilitou a direita.[25]<\/p>\n<p>Esse momento conturbado da vida chilena for\u00e7ou a negocia\u00e7\u00e3o de uma sa\u00edda para o impasse. A UP e a DC firmaram um compromisso estabelecendo que, em troca dos votos da DC para a confirma\u00e7\u00e3o da vit\u00f3ria de Allende, a UP se comprometia a observar os direitos democr\u00e1ticos e sociais. Nove artigos comp\u00f5em o estatuto de garantias, entre as quais figuram a liberdade de imprensa, inviolabilidade de correspond\u00eancia, livre organiza\u00e7\u00e3o e funcionamento dos partidos, direito de ter jornais, autonomia universit\u00e1ria, continuidade do ensino privado, liberdade de organiza\u00e7\u00e3o popular e sindical em todos os n\u00edveis e car\u00e1ter profissional das for\u00e7as armadas.<\/p>\n<p>Assim, o povo chileno entrava nos anos 70 com um governo popular de forte base oper\u00e1ria que se propunha a realizar grandes transforma\u00e7\u00f5es nas estruturas econ\u00f4micas e sociais do pa\u00eds, mudan\u00e7as que colocariam em xeque os 40 anos de tranq\u00fcilidade institucional e os 150 anos de relativa estabilidade pol\u00edtica para os padr\u00f5es latino-americanos.<\/p>\n<h1>O GOVERNO ALLENDE<\/h1>\n<p>A composi\u00e7\u00e3o do primeiro minist\u00e9rio de Allende corresponde \u00e0s for\u00e7as constitutivas da UP: 5 socialistas, 3 comunistas, 3 radicais, 1 do MAPU, 1 da API, e 1 independente, e a Unidade Popular come\u00e7a seu governo com grandes tarefas a realizar e com dificuldades j\u00e1 esperadas. O bloco governista estava em minoria no Congresso Pleno, contando a direita e o centro com 56% das cadeiras parlamentares. Mas o governo Allende parte para a\u00e7\u00f5es de amplo alcance popular, aumentando sua base de apoio: em janeiro de 1971, os sal\u00e1rios s\u00e3o reajustados em 34,9% (\u00edndice do custo de vida de 1970) e o sal\u00e1rio m\u00ednimo foi aumentado em 66%; em 1971, o congelamento dos pre\u00e7os dos produtos de primeira necessidade e dos servi\u00e7os p\u00fablicos; implementa\u00e7\u00e3o de um programa de habita\u00e7\u00e3o popular (100 mil apartamentos) e medidas contra o desemprego (30 mil novos postos de trabalho).[26]<\/p>\n<p>No primeiro ano de governo, a a\u00e7\u00e3o mais contundente na \u00e1rea econ\u00f4mica foi a nacionaliza\u00e7\u00e3o do cobre, j\u00e1 que respondia por cerca de 80% das exporta\u00e7\u00f5es. As cr\u00edticas \u00e0 \u201cchileniza\u00e7\u00e3o\u201d do cobre criaram uma ampla opini\u00e3o p\u00fablica favor\u00e1vel \u00e0 nacionaliza\u00e7\u00e3o das empresas mineradoras. Esse consenso nacional se manifestaria na aprova\u00e7\u00e3o de uma reforma constitucional que permitiria a estatiza\u00e7\u00e3o do cobre. As empresas mineradoras dos monop\u00f3lios norte-americanos Kennecott e Serro Co e Anaconda e as minas de cobre foram estatizadas com o devido pagamento de indeniza\u00e7\u00f5es. O processo de estatiza\u00e7\u00e3o do cobre se deu atrav\u00e9s da lei de nacionaliza\u00e7\u00e3o, que permitia ao governo fazer dedu\u00e7\u00f5es por rentabilidades excessivas (superiores a 12% ao ano), no montante das indeniza\u00e7\u00f5es a serem pagas aos monop\u00f3lios estrangeiros, e tamb\u00e9m impedia que a justi\u00e7a ordin\u00e1ria apreciasse poss\u00edveis quest\u00f5es decorrentes do estabelecimento dessa indeniza\u00e7\u00e3o. Esse novo processo surpreendeu por sua aud\u00e1cia, abrindo um precedente para que outros pa\u00edses dependentes fizessem o mesmo com os monop\u00f3lios imperialistas. [27]<\/p>\n<p>O sistema banc\u00e1rio foi praticamente estatizado (96%). Gigantes nacionais e estrangeiros dos ramos sider\u00fargico, t\u00eaxtil, cimento, papel, ferro, comunica\u00e7\u00f5es (a ITT dos EUA), carv\u00e3o, a\u00e7\u00facar e salitre foram estatizados. \u00c9 bom lembrar que atividades econ\u00f4micas ligadas \u00e0 infraestrutura j\u00e1 estavam nacionalizados, como energia el\u00e9trica, petr\u00f3leo e ferrovias. No campo, o programa de reforma agr\u00e1ria foi aprofundado, de acordo com a lei aprovada durante o governo Frei, que limitava a posse m\u00e1xima de 80 hectares de terras cultiv\u00e1veis. A CORA (Corporaci\u00f3n de Reforma Agr\u00e1ria) desapropriou cerca de 30% das terras cultiv\u00e1veis, criando nelas cooperativas agr\u00edcolas (asentamientos). O governo Allende desapropriou, entre janeiro de 1971 e junho de 1972, 3.282 propriedades com uma \u00e1rea de 5.296.756 hectares, dos quais 371 mil irrigados. Se em 1965, antes da reforma, havia 4.876 propriedades com mais de 80 hectares irrigados, que concentrava mais de 55% das terras, sob o governo da UP, em junho de 1972, havia menos de 200 propriedades desse tipo, correspondendo a menos de 3% da \u00e1rea.[28] A desapropria\u00e7\u00e3o dos latif\u00fandios terminou em 1972, embora a concentra\u00e7\u00e3o de terras ainda fosse elevada.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante suas limita\u00e7\u00f5es, o processo de reforma agr\u00e1ria agu\u00e7ou a luta de classes no campo, ocorrendo invas\u00f5es e ocupa\u00e7\u00f5es de fazendas por moradores pobres dos povoados (pobladores) e trabalhadores rurais. Essas a\u00e7\u00f5es foram incentivadas pelo MAPU, MIR e MRC (Movimento Revolucion\u00e1rio Campon\u00eas), criado pelo MIR. O MIR, apesar de n\u00e3o fazer parte do governo, apoiava a UP em v\u00e1rias quest\u00f5es, mas discordava em muitos aspectos da pol\u00edtica agr\u00e1ria governista, principalmente no referente \u00e0s invas\u00f5es, que apoiava, e \u00e0s indeniza\u00e7\u00f5es, que reprovava. Os setores olig\u00e1rquicos tentaram sabotar e tumultuar o processo de reforma agr\u00e1ria: os latifundi\u00e1rios contrabandeavam gado (300 mil cabe\u00e7as) para a Argentina para n\u00e3o entreg\u00e1-lo \u00e0s cooperativas; formaram seus grupos armados para enfrentar os partid\u00e1rios da UP, assassinando lideran\u00e7as camponesas; matan\u00e7a de reses destinadas \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o; e cerca de 10 milh\u00f5es de litros de leite atirados nos rios e nas estradas.<\/p>\n<p>Durante o governo Allende foram formados 27 Centros de Produ\u00e7\u00e3o (empresas rurais estatais), 150 Centros de Reforma Agr\u00e1ria (grandes unidades de explora\u00e7\u00e3o coletiva), 921 Comit\u00eas Camponeses (uma varia\u00e7\u00e3o do asentamiento) e 318 asentamientos. Enquanto a reforma de Frei procurava criar uma classe de pequenos propriet\u00e1rios de estabelecimentos economicamente vi\u00e1veis, a pol\u00edtica agr\u00e1ria da UP visava dar prioridade \u00e0 integra\u00e7\u00e3o dos camponeses em unidades de explora\u00e7\u00e3o coletiva. A Reforma Agr\u00e1ria chilena n\u00e3o prejudicou muito a produtividade no campo, mas, por outro lado, al\u00e9m de n\u00e3o conseguir crescer substancialmente a produ\u00e7\u00e3o, n\u00e3o aumentou o emprego de m\u00e3o-de-obra. Apesar de beneficiar cerca de 10 a 12% da massa camponesa, que vai engrossar as fileiras da pequena burguesia, o problema do minif\u00fandio e do subemprego ainda persistem.[29]<\/p>\n<p>No plano social, o governo Allende deu prioridade \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, estendendo o ensino a toda a popula\u00e7\u00e3o, ampliando o n\u00famero de matr\u00edculas, reduzindo o analfabetismo (12% em 1971 e 10,8% em 1972). Meio litro de leite foi distribu\u00eddo gratuitamente a todas as crian\u00e7as do pa\u00eds. A previd\u00eancia social tamb\u00e9m foi implementada: as pens\u00f5es m\u00ednimas foram reajustadas em 550%; a previd\u00eancia foi estendida a milhares de trabalhadores aut\u00f4nomos.[30] Na \u00e1rea habitacional, foram constru\u00eddas 82 mil casas.<\/p>\n<p>Na pol\u00edtica exterior, o Chile restabeleceu suas rela\u00e7\u00f5es com Cuba (1970), China e Rep\u00fablica Democr\u00e1tica Alem\u00e3 (1971), Vietn\u00e3 do Norte e Cor\u00e9ia do Norte (1972). Em 1970 foi assinado o acordo de coopera\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia e cultura entre Chile e URSS.<\/p>\n<p>No ano de 1971, o Produto Nacional Bruto cresceu a uma taxa recorde: 8,3%, e com as dificuldades do ano seguinte, o crescimento foi de 5%. Com a plena utiliza\u00e7\u00e3o da capacidade instalada, a ind\u00fastria expandiu 10% e a constru\u00e7\u00e3o 8%. A produ\u00e7\u00e3o de cobre manteve o seu n\u00edvel de produ\u00e7\u00e3o. O poder aquisitivo dos trabalhadores assalariados aumentou em 20%. Com a reforma constitucional de 1971, que passava para o Estado as riquezas do subsolo, e com as nacionaliza\u00e7\u00f5es, em fins de 1972, o setor estatal abarcava cerca de mais de 50% do produto nacional bruto. Contudo, o setor de distribui\u00e7\u00e3o, comercializa\u00e7\u00e3o e transporte n\u00e3o haviam sido atingidos. A rea\u00e7\u00e3o dos setores burgueses e imperialistas n\u00e3o demorou a acontecer: baixa do pre\u00e7o do cobre no mercado internacional pela manipula\u00e7\u00e3o do capitalismo internacional; suspens\u00e3o de cr\u00e9dito estrangeiro; sabotagens nas minas de cobre nacionalizadas; e intensa campanha de propaganda pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa (principalmente El Merc\u00fario) contra o governo da Unidade Popular. As mudan\u00e7as na economia provocaram turbul\u00eancias na pol\u00edtica chilena. Excluindo-se a esperada rea\u00e7\u00e3o dos burgueses, dos latifundi\u00e1rios e do imperialismo, as transforma\u00e7\u00f5es geraram contradi\u00e7\u00f5es na pr\u00f3pria UP, entre as for\u00e7as de esquerda, dentro e tamb\u00e9m fora do governo, no que diz respeito ao car\u00e1ter e ritmo do processo chileno. A maioria do PS, parte do MAPU, a Esquerda Crist\u00e3 e o MIR defendiam uma maior radicaliza\u00e7\u00e3o do processo revolucion\u00e1rio, pregando a cria\u00e7\u00e3o de organismos de massa para contrapor o Poder Popular \u00e0 burguesia e seu Estado, e apontavam a necessidade de uma ruptura institucional para se chegar ao socialismo. O PCCH defendia que a passagem para o socialismo dependia do \u00eaxito da conclus\u00e3o da etapa democr\u00e1tico-popular da revolu\u00e7\u00e3o, com suas tarefas anti-imperialistas e anti-olig\u00e1rquicas; que devia-se atrair o apoio dos setores m\u00e9dios urbanos e rurais para a UP, atrav\u00e9s de acordo com a centrista Democracia Crist\u00e3; que o processo revolucion\u00e1rio se daria de forma gradual, dentro dos marcos institucionais da democracia burguesa; que o Poder Popular seria constru\u00eddo pela participa\u00e7\u00e3o crescente do Estado na economia e pela incorpora\u00e7\u00e3o maci\u00e7a do povo ao poder estatal, transformando o Estado burgu\u00eas por dentro; e as for\u00e7as armadas eram vistas como profissionais, neutras, democr\u00e1ticas e defensoras da legalidade constitucional, onde n\u00e3o caberia um trabalho pol\u00edtico socialista. O Partido Comunista era a for\u00e7a hegem\u00f4nica da UP e detinha os postos mais importantes: minist\u00e9rios do Trabalho e Fazenda; presid\u00eancia do Banco Estatal; da CODELCO (cobre); da CORFO (fomento); da DIRINCO (ind\u00fastria e com\u00e9rcio); e a dire\u00e7\u00e3o da CUT. Parte importante do PS, inclusive o presidente Allende, e a maioria das outras for\u00e7as componentes da UP se identificavam com as posi\u00e7\u00f5es do PCCH.<\/p>\n<p>Algumas passagens do discurso de Allende, em 21 de maio de 1971, explicitam bem as posi\u00e7\u00f5es majorit\u00e1rias da UP sobre a quest\u00e3o da via institucional e sobre as for\u00e7as armadas: <em>\u201c&#8230; o Chile encontra-se ante a necessidade de iniciar uma nova maneira de constituir a sociedade socialista: a nossa via revolucion\u00e1ria, a via pluralista, antecipada pelos cl\u00e1ssicos do marxismo, por\u00e9m nunca concretizada antes. Os pensadores sociais supuseram que os primeiros a percorrer esse caminho seriam as na\u00e7\u00f5es mais desenvolvidas, provavelmente a It\u00e1lia e a Fran\u00e7a<\/em><em>, com seus poderosos partidos oper\u00e1rios de defini\u00e7\u00e3o marxista. (&#8230;) Atualmente, o Chile \u00e9 a primeira na\u00e7\u00e3o da terra chamada a formar o segundo modelo de transi\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade socialista. (&#8230;) Os c\u00e9ticos e os catastrofistas dir\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Dir\u00e3o que um parlamento que t\u00e3o bem serviu \u00e0s classes dominantes \u00e9 incapaz de transfigurar-se para chegar a ser o Parlamento do Povo Chileno. (&#8230;) E mais: afirmam enfaticamente que as for\u00e7as armadas e os carabineiros, at\u00e9 agora elementos de sustenta\u00e7\u00e3o da ordem institucional que superaremos, n\u00e3o aceitariam garantir a vontade popular decidida a edificar o socialismo em nosso pa\u00eds. Esquecem a consci\u00eancia patri\u00f3tica das nossas for\u00e7as armadas e dos carabineiros, sua tradi\u00e7\u00e3o profissional e sua submiss\u00e3o ao poder civil.\u201d <\/em>[31]<\/p>\n<p>Luis Corval\u00e1n, secret\u00e1rio-geral do Partido Comunista, publicou um artigo em dezembro de 1970, no qual deixa claro suas posi\u00e7\u00f5es sobre a possibilidade de uma coopera\u00e7\u00e3o com a Democracia Crist\u00e3 e sobre a quest\u00e3o militar: \u201c<em>(&#8230;) Ainda que permane\u00e7a na oposi\u00e7\u00e3o, a Democracia Crist\u00e3 n\u00e3o est\u00e1 em guerra contra o governo, e sua maioria pretende apoiar alguns projetos e medidas. E o que \u00e9 t\u00e3o ou mais importante, as massas populares que votaram pelo seu candidato, apoiam os partidos de esquerda. At\u00e9 mesmo no setor dos partid\u00e1rios de Alessandri observam-se atitudes positivas. (&#8230;) Nelas (for\u00e7as armadas) impera o esp\u00edrito profissional e o respeito ao governo estabelecido, de acordo com a Constitui\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m do mais, o Ex\u00e9rcito e a Marinha nasceram na luta pela independ\u00eancia. Os soldados e suboficiais das tr\u00eas institui\u00e7\u00f5es armadas prov\u00eam de camadas sociais modestas, e quase todos os oficiais sa\u00edram das camadas m\u00e9dias. (&#8230;) Deve-se ter presente, sobretudo que n\u00e3o existe mais nenhuma institui\u00e7\u00e3o que permane\u00e7a imperme\u00e1vel \u00e0s como\u00e7\u00f5es sociais, fechada aos ventos que percorrem o mundo, alheia ou indolente ao drama de milh\u00f5es e milh\u00f5es de seres humanos que vivem na mais atroz das mis\u00e9rias.\u201d<\/em>[32]<\/p>\n<p>A essas posi\u00e7\u00f5es se opunha o MIR, que contava com o apoio da maioria do PS, de uma tend\u00eancia do MAPU e da Esquerda Crist\u00e3. Fundado em 1965 e reivindicando o marxismo-leninismo, o MIR inicialmente sofre influ\u00eancias do trotskismo, matriz pol\u00edtica de um dos pequenos partidos que o compuseram. A partir de 1967, se distancia do trotskismo e se aproxima do legado da revolu\u00e7\u00e3o cubana. Em sua declara\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios, em 1965, sobre o car\u00e1ter da revolu\u00e7\u00e3o chilena e a via pac\u00edfica, o MIR afirma: \u201c<em>O triunfo da revolu\u00e7\u00e3o em numerosos pa\u00edses atrasados demonstrou que todas as na\u00e7\u00f5es t\u00eam condi\u00e7\u00f5es objetivas suficientes para realizar a revolu\u00e7\u00e3o socialista; que n\u00e3o existem proletariados \u2018maduros\u201d e \u2018imaturos\u2019. As lutas pela liberta\u00e7\u00e3o nacional e pela reforma agr\u00e1ria transformaram-se, por meio de um processo de revolu\u00e7\u00e3o permanente e ininterrupta, em revolu\u00e7\u00f5es sociais, demonstrando-se assim que, sem a derrota da burguesia, n\u00e3o existem possibilidades efetivas de liberta\u00e7\u00e3o nacional e reforma agr\u00e1ria integral, tarefas democr\u00e1ticas que se combinam com medidas socialistas.<\/em> <em>(&#8230;) As diretrizes burocr\u00e1ticas dos partidos tradicionais da esquerda chilena defraudam as esperan\u00e7as dos trabalhadores; em vez de lutar pela derrota da burguesia, limitam-se a apresentar reformas ao regime capitalista, no terreno da colabora\u00e7\u00e3o de classes, enganam os trabalhadores com uma dan\u00e7a eleitoral permanente, esquecendo a a\u00e7\u00e3o direta e a tradi\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria do proletariado chileno. Afirmam mesmo que \u00e9 poss\u00edvel alcan\u00e7ar o socialismo pela \u2018via pac\u00edfica e parlamentar\u2019, como se alguma vez na hist\u00f3ria das classes dominantes elas tivessem entregado voluntariamente o poder. (&#8230;) O MIR rejeita a teoria da \u2018via pac\u00edfica\u2019 porque ela desarma politicamente o proletariado e porque n\u00e3o pode ser aplicada, j\u00e1 que a pr\u00f3pria burguesia resistir\u00e1, at\u00e9 mesmo por interm\u00e9dio da ditadura totalit\u00e1ria e da guerra civil, antes de entregar pacificamente o poder. Reafirmamos o princ\u00edpio marxista-leninista de que o \u00fanico caminho para derrubar o regime capitalista \u00e9 a insurrei\u00e7\u00e3o popular armada.\u201d<\/em> [33]<\/p>\n<p>Vamos voltar \u00e0 conjuntura do governo Allende. Ap\u00f3s um ano, em fins de 1971, a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica come\u00e7a a dar sinais de crise. Com a comercializa\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o internas sob o controle privado, a burguesia come\u00e7a a criar dificuldades no abastecimento, dando condi\u00e7\u00f5es para a forma\u00e7\u00e3o do mercado paralelo, encarecendo as mercadorias de primeira necessidade, o que gerava descontentamento da classe m\u00e9dia e setores populares, surgindo as primeiras manifesta\u00e7\u00f5es de rua contra o governo (panelas vazias). Como j\u00e1 dissemos, apesar da Reforma Agr\u00e1ria, a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola n\u00e3o acompanhou o crescimento da demanda, criada pelo aumento dos sal\u00e1rios, obrigando o governo a importar alimentos, cerca de 200 milh\u00f5es de d\u00f3lares por ano[34], abalando a balan\u00e7a comercial. Os aumentos salariais n\u00e3o fo\u00adram acompanhados de um aumento da produtividade, o que acelerou o processo inflacion\u00e1rio. A infla\u00e7\u00e3o, que havia sido reduzida no primeiro ano (22,1% em rela\u00e7\u00e3o a 34,9% de 1970), entra num processo de ascens\u00e3o a partir de 1972 (163,4%).<\/p>\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es municipais de 1971, a soma dos votos dos partidos da UP chegava a mais de 50%. Se, em 1970, a UP ganhou a elei\u00e7\u00e3o com um milh\u00e3o de votos, em 1972 obteve um milh\u00e3o e quatrocentos mil votos. Dentro da UP, o Partido Socialista recebeu mais votos (22,3%) do que o PCCH (16,9%). Esses n\u00fameros demonstram que, apesar da crise de abastecimento, o povo chileno apoiava o seu governo.<\/p>\n<p>No Congresso, o governo da UP sofreu importantes derrotas. O projeto governista de C\u00e2mara \u00fanica (Assembl\u00e9ia do Povo) foi rejeitado e, nos primeiros meses de 1972, foi aprovada uma emenda constitucional que restringia os poderes do executivo para impor o controle estatal sobre as empresas privadas, significando que qualquer desapropria\u00e7\u00e3o exigiria a aprova\u00e7\u00e3o do Congresso. For\u00e7ado pela mo\u00e7\u00e3o de censura do Congresso ao Ministro do Interior Jos\u00e9 Toha, o governo Allende, em janeiro de 1972, realiza a sua primeira reforma ministerial. A aprova\u00e7\u00e3o da mo\u00e7\u00e3o e da emenda constitucional indicava o distanciamento da DC em rela\u00e7\u00e3o ao governo, motivado pelas elei\u00e7\u00f5es parciais de abril do mesmo ano.<\/p>\n<p>A greve dos transportes em outubro de 1972 inicia o per\u00edodo mais cr\u00edtico do ano para a UP. Cerca de 47 mil caminh\u00f5es de propriedade de empresas privadas ou de aut\u00f4nomos ficaram parados. A maior parte das mercadorias e artigos era transportada por via rodovi\u00e1ria, e o pr\u00f3prio governo contratava o uso de caminh\u00f5es de firmas particulares. Al\u00e9m das reivindica\u00e7\u00f5es de aumento no frete (dos 169% pedidos, o governo aceitou 120%) e de autoriza\u00e7\u00e3o para importar pe\u00e7as, o pretexto foi o prop\u00f3sito do governo de iniciar estudos para a cria\u00e7\u00e3o da primeira empresa estatal de transporte. A greve geral agravou ainda mais a crise de abastecimento e de alimentos, afetando tamb\u00e9m o fornecimento de mat\u00e9ria prima. A desorganiza\u00e7\u00e3o geral da economia provocada pelo movimento contribuiu em muito para o revigoramento da infla\u00e7\u00e3o.[35] O movimento popular reagiu \u00e0 tentativa de locaute dos setores conservadores, criando as Juntas de Abastecimento e Pre\u00e7os, os Conselhos Camponeses, os Cord\u00f5es Industriais e os Comandos Comunais. Organismos de base dos setores mais avan\u00e7ados e mobilizados da classe oper\u00e1ria, os Cord\u00f5es Industriais, que agrupavam as f\u00e1bricas de cada regi\u00e3o, eram \u00f3rg\u00e3os que assumiram a gest\u00e3o das empresas paralisadas e eram baseados nos princ\u00edpios da democracia oper\u00e1ria. Os Comandos Comunais eram organiza\u00e7\u00f5es por bairro e tinham a fun\u00e7\u00e3o de coordenar, a n\u00edvel local, os in\u00fameros problemas da comunidade: transportes, \u00e1gua pot\u00e1vel, luz el\u00e9trica e abastecimento. As Juntas de Abastecimento e Pre\u00e7os cuidava de organizar a distribui\u00e7\u00e3o em todos os centros populacionais e denunciar ou punir a especula\u00e7\u00e3o, o c\u00e2mbio negro e a reten\u00e7\u00e3o das mercadorias. Os Conselhos Camponeses eram \u00f3rg\u00e3os onde se estudava os problemas rurais, as prioridades nas desapropria\u00e7\u00f5es e forneciam mat\u00e9rias-primas e implementos agr\u00edcolas. Todos esses organismos populares deviam responder \u00e0s necessidades no plano de abastecimento, administra\u00e7\u00e3o, vigil\u00e2ncia e defesa.[36]<\/p>\n<p>Diante das crescentes manifesta\u00e7\u00f5es contra o governo (panelas vazias, caminhoneiros e estudantes universit\u00e1rios da DC), a UP s\u00f3 dispunha de duas alternativas: contra-atacar ou recuar. Contra-atacar seria avan\u00e7ar mais nas transforma\u00e7\u00f5es; criar e desenvolver organismos de Poder Popular para se contrapor ao setores burgueses, golpeando assim seus privil\u00e9gios, o que era exigido pela esquerda revolucion\u00e1ria. A outra alternativa seria um recuo para acumular for\u00e7as para enfrentar o cerco burgu\u00eas-imperialista, para assim dar continuidade ao projeto de mudan\u00e7as dentro da legalidade. A UP, coerente com a sua proposta original, optou pela segunda alternativa. Em novembro de 1972, Allende reformou o minist\u00e9rio, incorporando tr\u00eas militares de alta patente, sob a desaprova\u00e7\u00e3o do PS e do MIR. O objetivo era acalmar a classe m\u00e9dia e os setores populares, reconduzir o pa\u00eds \u00e0 normalidade e garantir o processo eleitoral do pleito de mar\u00e7o de 1973, o que foi alcan\u00e7ado.<\/p>\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es legislativas de mar\u00e7o de 1973, os candidatos da UP receberam 43,4% dos votos, o que representava um crescimento em rela\u00e7\u00e3o a 1970 (36,3%). Ap\u00f3s a realiza\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es, Allende, pressionado pelos socialistas animados com o resultado eleitoral, recomp\u00f5e seu minist\u00e9rio, deixando de fora os militares. A direita, para o p\u00fablico externo, saudou o resultado como uma derrota do governo, pelo fato de n\u00e3o ter conseguido a maioria absoluta. Mas para amplos setores conservadores ficava clara a dificuldade de derrotar a Unidade Popular pelos caminhos institucionais, pois apesar de toda a crise econ\u00f4mica, de toda a sabotagem nacional e internacional, o governo ampliava sua base social.[37]<\/p>\n<p>Os setores conservadores, frustrados no objetivo de conquistar 2\/3 do Congresso para derrubar o governo pela via institucional, passaram a pedir um golpe militar abertamente. Aperta-se o cerco burgu\u00eas-imperialista: aprofunda-se a crise de abastecimento e a infla\u00e7\u00e3o. \u00c9 deflagrada, em maio, a greve dos empregados (supervisores e t\u00e9cnicos) da El Teniente, que se prolonga por tr\u00eas semanas, representando uma perda de sessenta milh\u00f5es de d\u00f3lares. Allende pede ao Congresso a decreta\u00e7\u00e3o do Estado de S\u00edtio, mas este \u00e9 negado. Os presidentes da C\u00e2mara e do Senado d\u00e3o uma declara\u00e7\u00e3o conjunta, dando como ilegal o governo Allende. \u00c9 nessa conjuntura ca\u00f3tica e confusa que ocorre uma tentativa de golpe por parte de setores militares radicais em 29 de junho. Mas o golpe foi derrotado por for\u00e7as leais ao governo, que em poucas horas abortou a tentativa.[38]<\/p>\n<p>Mas Allende n\u00e3o eliminou todos os militares envolvidos no golpe, principalmente os de alta patente. Ao contr\u00e1rio, a alta c\u00fapula tramou com \u00eaxito a ren\u00fancia do General Prats, e depois os afastamentos do General Pickering, chefe de opera\u00e7\u00f5es do Estado-maior, e do general Sep\u00falveda, comandante da guarni\u00e7\u00e3o da capital, &#8211; generais de reputa\u00e7\u00e3o legalista. O governo, tentando comprometer os militares com a legalidade, incluiu oficiais de alta patente em cargos do governo. Assim, o General Pinochet assume o posto de comandante-em-chefe do Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>No seio das esquerdas, os acontecimentos do primeiro semestre de 1973 provocaram profunda discuss\u00e3o. Todas as posi\u00e7\u00f5es foram questionadas. A UP era uma frente multipartid\u00e1ria de origem social e ideol\u00f3gica diversa, portanto era muito natural que ocorressem diverg\u00eancias pol\u00edticas entre seus componentes. O MIR, que influenciava setores da Unidade Popular (PS, MAPU e Esquerda Crist\u00e3) e liderava pol\u00edtica e ideologicamente a esquerda revolucion\u00e1ria, defendia a necessidade de uma ruptura institucional. A esquerda revolucion\u00e1ria pregava o afastamento dos setores burgueses; apelava para a divis\u00e3o horizontal das for\u00e7as armadas; previa como inevit\u00e1vel a insurrei\u00e7\u00e3o popular e o enfrentamento armado; e apresentava o Poder Popular como alternativa ao poder governamental, defendendo a transforma\u00e7\u00e3o dos Cord\u00f5es Industriais e dos Comandos Comunais em \u00f3rg\u00e3os aut\u00f4nomos, independentes e alternativos ao Estado burgu\u00eas. Outra diverg\u00eancia se manifestava sobre a quest\u00e3o do armamento do povo para defender o governo popular, que a esquerda defendia e a UP era contra. Em fins de 1972, Luis Corval\u00e1n concedeu uma entrevista na qual expressa muito bem a posi\u00e7\u00e3o da maioria da UP sobre as posi\u00e7\u00f5es da esquerda revolucion\u00e1ria: \u201c<em>A atividade pol\u00edtica do MIR e dos outros grupos ultra-esquerdistas, aos quais a imprensa reacion\u00e1ria faz larga publicidade, \u00e9 cada vez mais prejudicial ao governo de Unidade Popular. A sua pol\u00edtica de ataque frontal \u00e0 burguesia e de oposi\u00e7\u00e3o global, a ocupa\u00e7\u00e3o de empresas e de dom\u00ednios agr\u00edcolas pequenos e m\u00e9dios, as provoca\u00e7\u00f5es e aventuras com grande aparato e armas de fogo, o acento posto a tese da inevitabilidade duma confronta\u00e7\u00e3o armada, a explora\u00e7\u00e3o oportunista desta ou daquela fraqueza do movimento popular, levam \u00e1gua ao moinho da oposi\u00e7\u00e3o em geral e dos conspiradores em particular.\u201d<\/em>[39]<\/p>\n<p>Prevendo o desfecho do seu governo sob um golpe militar, Allende tenta salvaguardar a ordem institucional, idealizando um plebiscito sobre o seu governo, com a certeza de que seria reprovado, dando-lhe, ent\u00e3o, lastro para uma sa\u00edda honrosa, a ren\u00fancia e, assim, evitar o golpe e manter a legalidade. Mas Allende confidencia o seu intento a Pinochet, desconhecendo a posi\u00e7\u00e3o golpista do general. Desprezando a solu\u00e7\u00e3o institucional, Pinochet vai apressar os preparativos golpistas e se antecipar ao plano de Allende, que faria um pronunciamento anunciando o plebiscito ao pa\u00eds no dia 11 de setembro. Portanto, Santiago amanheceu na ter\u00e7a-feira ocupada por for\u00e7as militares e o Pal\u00e1cio de la Moneda cercado. Os golpistas queriam a ren\u00fancia de Allende, que se recusa a sair do pal\u00e1cio de governo. Sob forte bombardeio a\u00e9reo e armas de grosso calibre, Allende suicida-se antes da entrada dos militares no pal\u00e1cio.[40]<\/p>\n<p>Apesar de seu fim anunciado, o governo da Unidade Popular n\u00e3o estava preparado para reagir contra os militares golpistas. Segundo suas concep\u00e7\u00f5es, a autodefesa estava em segundo plano, e quando a situa\u00e7\u00e3o se mostrou cr\u00edtica, n\u00e3o havia mais como recuperar o tempo perdido. As for\u00e7as de esquerda n\u00e3o tinham homens, treinamento e nem armas capazes de enfrentar um dos ex\u00e9rcitos mais bem armados e treinados do continente. Os poucos que tentaram foram massacrados. A tradi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica chilena fora quebrada na espinha, ceifando a vida de milhares de trabalhadores (50 mil), fechando o Congresso, sindicatos e partidos pol\u00edticos, e iniciando uma das mais sanguin\u00e1rias ditaduras militares da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p><strong>AS CAUSAS DA DERROTA<\/strong><\/p>\n<p>O golpe militar de dep\u00f4s Allende provocou v\u00e1rios debates e discuss\u00f5es sobre as raz\u00f5es que levaram \u00e0 derrota da Unidade Popular e ao t\u00e9rmino da experi\u00eancia chilena da via pac\u00edfica ao socialismo. Vamos expor algumas dessas teses explicativas, utilizando-nos de an\u00e1lises de cientistas sociais e dirigentes pol\u00edticos que trataram desse tema em seus livros, artigos ou entrevistas.<\/p>\n<p>O sovi\u00e9tico Mikhail Kud\u00e1tchkine, em seu livro sobre a experi\u00eancia chilena j\u00e1 citado, no qual mostra-se favor\u00e1vel ao projeto da UP, destaca a crise de dire\u00e7\u00e3o, de orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do governo popular. Para ele, a dire\u00e7\u00e3o do Partido Socialista, que acusava o PC de reformista e pregava a radicaliza\u00e7\u00e3o do processo revolucion\u00e1rio, contribuiu para enfraquecer a coes\u00e3o da UP. Para corroborar sua afirma\u00e7\u00e3o, menciona o fato de personalidades de esquerda da UP, em fins de 1972, conclamarem a cria\u00e7\u00e3o das chamadas Assembleias Populares, que deveriam substituir os \u00f3rg\u00e3os institucionais legislativos de cada localidade. Relata tamb\u00e9m a avalia\u00e7\u00e3o dos comunistas chilenos sobre os erros cometidos: a falta de uma dire\u00e7\u00e3o \u00fanica do movimento e o papel decisivo \u00e0 atividade do revolucionarismo pequeno-burgu\u00eas que resolveu dificultar a hegemonia da classe oper\u00e1ria e dos seus partidos na dire\u00e7\u00e3o do processo revolucion\u00e1rio. Kud\u00e1tchkine critica o PC e PS por n\u00e3o dedicarem aten\u00e7\u00e3o ao trabalho pol\u00edtico no seio do ex\u00e9rcito e nem \u00e0 defesa armada da revolu\u00e7\u00e3o; e tamb\u00e9m \u00e0 falta de uma orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00edtida em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s for\u00e7as armadas e \u00e0 cren\u00e7a demasiada nas posi\u00e7\u00f5es neutralistas e na tradicional n\u00e3o inger\u00eancia das for\u00e7as armadas na vida pol\u00edtica do pa\u00eds, na sua lealdade \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o e ao presidente.<\/p>\n<p>Kud\u00e1tchkine aponta os ensinamentos proporcionados pela experi\u00eancia chilena: diante do brusco agu\u00e7amento da luta de classes durante o processo revolucion\u00e1rio, os partidos e\/ou for\u00e7as atuantes devem estar preparados para encaminhar novas formas de luta, de acordo com as mudan\u00e7as da conjuntura pol\u00edtica; mesmo na etapa anterior ao socialismo, o movimento revolucion\u00e1rio n\u00e3o pode adaptar totalmente o aparelho burocr\u00e1tico-militar do Estado burgu\u00eas; n\u00e3o ter ilus\u00f5es democr\u00e1ticas, pois a burguesia n\u00e3o tem escr\u00fapulos de romper a legalidade e adotar o terror quando os seus privil\u00e9gios est\u00e3o em jogo; e por \u00faltimo, que a revolu\u00e7\u00e3o deve saber defender-se, isto \u00e9, deve estar preparada para qualquer interven\u00e7\u00e3o armada da rea\u00e7\u00e3o capitalista.[41]<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio-geral do PS durante o governo popular, Carlos Altamirano, em seu livro por n\u00f3s citado, avalia de forma diversa as causas da derrota. Refuta que a falta de uma dire\u00e7\u00e3o \u00fanica e a presen\u00e7a de duas linhas estrat\u00e9gicas tenham influenciado na derrota. Para ele o erro estava na aplica\u00e7\u00e3o obstinada de uma das linhas, a errada: a institucionaliza\u00e7\u00e3o de uma via pol\u00edtica ao socialismo, que foi levada \u00e0s \u00faltimas conseq\u00fc\u00eancias. Altamirano afirma que a derrota pol\u00edtico-militar da UP deveu-se ao apego cego \u00e0s institui\u00e7\u00f5es liberais, quando a burguesia j\u00e1 estava na luta ilegal. Da mesma forma, recusa a id\u00e9ia de que a classe oper\u00e1ria ficou isolada, pois para ele a classe oper\u00e1ria conseguiu manter \u00e0 sua volta uma porcentagem muito grande do campesinato, importantes setores do proletariado rural, mais de 40% da classe estudantil e um contingente expressivo da pequena burguesia. Seu argu\u00admento final contra esta tese \u00e9 o de que a UP conseguiu 44% dos votos nas elei\u00e7\u00f5es de 1973, isso demonstra o claro apoio de amplos setores n\u00e3o oper\u00e1rios ao governo popular. Por outro lado, afirma que quem esteve isolada foi a UP, distante de uma pol\u00edtica de defesa da revolu\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o conseguiu juntar ao redor de si uma for\u00e7a militar e pol\u00edtica para vencer.<\/p>\n<p>Altamirano considera simplista e unilateral afirmar que se a esquerda tivesse se comportado, sem radicalismos e provoca\u00e7\u00f5es, o Chile teria caminhado rumo ao socialismo \u201cem liberdade e democracia\u201d. Para ele, \u00e9 desproporcional a import\u00e2ncia dada ao \u201cesquerdismo\u201d, principalmente considerando-se o peso do trabalho contrarrevolucion\u00e1rio do imperialismo, do latif\u00fandio e da burguesia. Tamb\u00e9m acha improcedente a afirma\u00e7\u00e3o de que o processo chileno foi demasiadamente inclinado \u00e0 esquerda, ou seja, foi radical, r\u00e1pido demais para a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as da sociedade chilena, afastando assim seus aliados, e que se o governo tivesse segurado um pouco processo, o golpe n\u00e3o teria acontecido. Pergunta ele: Paralisar para qu\u00ea? Para n\u00e3o amedrontar a classe m\u00e9dia e vencer as elei\u00e7\u00f5es em 1976? O secret\u00e1rio-geral do PS concorda que a classe m\u00e9dia n\u00e3o foi bem trabalhada politicamente, avaliando que a UP subestimou os aspectos ideol\u00f3gicos caracter\u00edsticos do seu comportamento social e pol\u00edtico, e que alguns erros poderiam ser evitados, como o \u201cesquerdismo\u201d, que assustava os setores pequeno-burgueses.<\/p>\n<p>Para Altamirano, o desvio principal, \u201ca causa verdadeira, \u00faltima e profunda\u201d da derrocada do governo Allende, foi o poderio do advers\u00e1rio interno e externo, que antes mesmo da posse trabalhava com afinco contra o governo popular, e um erro decorrente: a incapacidade da dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da classe oper\u00e1ria de construir uma alternativa de defesa militar do processo revolucion\u00e1rio frente ao poderoso inimigo. Para ele, a incapacidade da dire\u00e7\u00e3o estava ligada ao mito da democracia chilena (\u201ca mais antiga da Am\u00e9rica, depois dos EUA\u201d, \u201cChile era a Su\u00ed\u00e7a da Am\u00e9rica\u201d), a entender o conjunto das for\u00e7as armadas como um corpo essencialmente profissional e neutro, como guardi\u00e3es das institui\u00e7\u00f5es e da legalidade. Segundo Altamirano:<em> \u201cuma revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria \u00e9 uma utopia indesculp\u00e1vel quando sua defesa depende das armas da burguesia<\/em>\u201d.[42]<\/p>\n<p>Altamirano afirma que a UP, durante os quase tr\u00eas anos de seu governo, teve duas op\u00e7\u00f5es que dependiam de sua vontade pol\u00edtica, e que poderiam ter alterado o curso dos acontecimentos: a primeira seria ter elaborado uma estrat\u00e9gia de poder capaz de criar uma estrutura militar de defesa do governo popular, e conseq\u00fcentemente, uma pol\u00edtica militar, pois argumenta ele, citando Marx: \u201c<em>o sufr\u00e1gio d\u00e1 direito a governar, mas n\u00e3o d\u00e1 o poder para governar<\/em>\u201d; a segunda op\u00e7\u00e3o era o movimento oper\u00e1rio tentar buscar se legitimar dentro dos marcos institucionais, utilizando o plebiscito em momentos favor\u00e1veis ao governo, como em abril de 1971, quando o governo obteve mais de 50% dos votos &#8211; tratava-se de uma possibilidade de ganhar espa\u00e7os dentro do aparelho estatal, conquistar uma nova quota de poder, e, assim, propor novas regras de poder (Altamirano ressalta que o plebiscito n\u00e3o era visto como um \u201csanto rem\u00e9dio\u201d capaz de evitar um golpe militar, mas ele poderia neutralizar alguns setores civis e militares mais conservadores).<\/p>\n<p>Miguel Enr\u00edquez, secret\u00e1rio-geral e principal te\u00f3rico do MIR, entrevistado em 1974, fez sua an\u00e1lise do processo chileno e das causas da derrota da UP. O l\u00edder do MIR rejeita a ideia de que a \u201cimpaci\u00eancia\u201d, o \u201cultra-esquerdismo\u201d e a \u201cprecipita\u00e7\u00e3o\u201d do seu partido tenha provocado a queda da UP, afirmando que esta tese procura salvar o reformismo e sua pol\u00edtica do fracasso do Chile, visando, assim, usar a mesma pol\u00edtica em outros pa\u00edses. Para Enr\u00edquez: \u201c<em>N\u00e3o foi o socialismo nem a pol\u00edtica revolucion\u00e1ria o que fracassou no Chile, mas uma d\u00e9bil e ilus\u00f3ria tentativa reformista<\/em>\u201d.[43] Enr\u00edquez caracteriza o governo da UP como um governo pequeno-burgu\u00eas de esquerda, baseado na alian\u00e7a do reformismo oper\u00e1rio com o reformismo pequeno-burgu\u00eas. Para ele: \u201c<em>A pol\u00edtica realizada no decorrer dos seus tr\u00eas anos foi reformista, caracterizou-se por sua submiss\u00e3o \u00e0 ordem burguesa e por sua tentativa de concretizar um projeto de colabora\u00e7\u00e3o de classe<\/em>\u201d.[44] Essa pol\u00edtica de colabora\u00e7\u00e3o de classe foi frustrada pelo crescimento do movimento oper\u00e1rio e popular, que avan\u00e7ou sobre as propostas reformistas, inviabilizando sua realiza\u00e7\u00e3o. Segundo Enr\u00edquez, a pol\u00edtica econ\u00f4mica do governo priorizou o consumo e n\u00e3o o controle dos meios de produ\u00e7\u00e3o, afirmando que a UP inseriu no setor \u00c1rea Social apenas 91 grandes empresas industriais, enquanto em verdade elas seriam em torno de 500 a 800, e esquecendo todas as grandes empresas de constru\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m criticou a reforma agr\u00e1ria, alegando que o latifundi\u00e1rio alvo da desapropria\u00e7\u00e3o tinha o direito de escolher para si 40 hectares, certamente os melhores da propriedade, e que as grandes empresas agr\u00edcolas, cerca 4.500 em 1970, que produziam 50% de toda a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola do Chile, cuja \u00e1rea ficava entre 40 a 80 hectares, ficaram de fora da reforma. Para ele, o esquecimento das grandes empresas, a promessa de pagar a d\u00edvida externa aos norte-americanos e a legitima\u00e7\u00e3o da alta oficialidade das for\u00e7as armadas foram concess\u00f5es que fortificaram a classe dominante e golpearam os interesses dos setores populares. Enr\u00edquez acusa a UP de n\u00e3o apoiar as mobiliza\u00e7\u00f5es diretas da classe oper\u00e1ria, ao contr\u00e1rio, combatendo-as e at\u00e9 mesmo reprimindo-as, al\u00e9m de atacar todo o trabalho pol\u00edtico no seio das for\u00e7as armadas, assim dividindo e confundindo os trabalhadores.[45]<\/p>\n<p>Para Enr\u00edquez, o movimento de massas desenvolveu altos n\u00edveis de organiza\u00e7\u00e3o e consci\u00eancia, ocupando centenas de f\u00e1bricas, organizando os Cord\u00f5es Industriais e os Comandos Comunais, que reuniam oper\u00e1rios, camponeses, favelados e estudantes, tendo chegado a desenvolver formas materiais e org\u00e2nicas de autodefesa. Ele acusa a UP, diante da crise de in\u00edcios de 1973, de atacar essas conquistas, devolvendo as f\u00e1bricas ocupadas pelos trabalhadores aos antigos propriet\u00e1rios, expulsando os oper\u00e1rios, permitindo invas\u00f5es militares a f\u00e1bricas e propriedades rurais em busca de armas, e tolerando torturas. Com essas a\u00e7\u00f5es o governo refor\u00e7ou a ofensiva patronal e da alta oficialidade reacion\u00e1ria, dividiu a esquerda, abrindo o caminho para o golpe: \u201c<em>O que arrastou o Chile para a cat\u00e1strofe gorila (&#8230;) foi a pol\u00edtica reformista, que sistematicamente golpeou, frustrou e por fim destruiu a for\u00e7a social que a levara ao governo e sua fonte fundamental de for\u00e7a, a classe oper\u00e1ria e o povo<\/em>\u201d.[46]<\/p>\n<p>Um dos poucos brasileiros que conheceram por dentro o governo da UP, como assessor, foi o antrop\u00f3logo Darcy Ribeiro. Em documento escrito em setembro de 1973, divulgado em diversos pa\u00edses, Darcy, ainda tomado pela dor da perda do amigo presidente, faz um balan\u00e7o emocionado do governo popular e da esquerda. Em seu trabalho, Darcy critica o PS por ser um partido eleitoreiro, sem uma ideologia pr\u00f3pria, que vivia \u00e0 custa da popularidade de Allende. Acusa tamb\u00e9m o PS de se transformar numa caixa de resson\u00e2ncia da esquerda desvairada, e que com o seu radicalismo verbal e sua inflexibilidade t\u00e1tica criou os maiores obst\u00e1culos \u00e0 pol\u00edtica do governo, sendo que a maioria de suas fac\u00e7\u00f5es atuou mais contra o governo do que contra o inimigo, jamais reconhecendo o car\u00e1ter gradualista do processo chileno.[47] Darcy execra os militantes da esquerda revolucion\u00e1ria, chamando-os de desvairados ou ultristas, e os socialistas, responsabilizando-os de terem facilitado a atividade contrarrevolucion\u00e1ria. Chama os \u201cultras\u201d de lun\u00e1ticos, de est\u00e9reis, critica os \u201cte\u00f3ricos\u201d que se satisfazem com suas ideias e palavras, que se negavam \u00e0s tarefas da hist\u00f3ria concreta, suspirando por uma revolu\u00e7\u00e3o de quimera que algum dia cairia sobre suas cabe\u00e7as.[48]<\/p>\n<p>Para Darcy, se o processo fosse bem conduzido \u201c&#8230; o <em>bra\u00e7o armado da velha ordem privatista ou parcelas ponder\u00e1veis dele poderiam converter-se em cust\u00f3dios de uma nova ordem solid\u00e1ria. Para tanto era indispens\u00e1vel, por\u00e9m, que os militares n\u00e3o se sentissem amea\u00e7ados em sua sobreviv\u00eancia institucional, nem prejudicados em suas regalias.\u201d<strong>[49]<\/strong><\/em> Darcy afirma que para isso acontecer era necess\u00e1rio ter um comando unificado sobre as esquerdas que as pusesse em a\u00e7\u00e3o dentro do processo de transi\u00e7\u00e3o pac\u00edfica ao socialismo.<\/p>\n<p>Darcy assegura que os atos desesperados da esquerda desvairada, somados \u00e0 in\u00e9rcia e \u00e0 demagogia dos confusos l\u00edderes socialistas, contribu\u00edram para minar a unidade das for\u00e7as populares, facilitando assim a conspira\u00e7\u00e3o de uma direita unida, francamente entregue \u00e0 contrarrevolu\u00e7\u00e3o. Finalmente, Darcy defende a via pac\u00edfica para se chegar ao socialismo: \u201c<em>a via evolutiva, participat\u00f3ria, pluralista, parlamentar e democr\u00e1tica, apesar de t\u00e3o dificultosa, \u00e9 a mais pratic\u00e1vel em muitas conjunturas no mundo de hoje\u201d. <\/em>[50]<\/p>\n<p>Para o soci\u00f3logo Emir Sader, que tamb\u00e9m acompanhou de perto a experi\u00eancia chilena, o fato de a UP considerar que haveria uma situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, uma \u201cdualidade de poderes dentro do aparelho de Estado\u201d e n\u00e3o entre dois poderes externos, explicava a posi\u00e7\u00e3o do governo de evitar a constru\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os de poder popular, que era avaliada como divisionista, na medida em que a UP s\u00f3 reconhecia como formas de organiza\u00e7\u00e3o e representa\u00e7\u00e3o popular os sindicatos e o parlamento. Sader analisa o apego da UP \u00e0s institui\u00e7\u00f5es: \u201c<em>O governo Allende, preso \u00e0 institucionalidade, foi ficando cada vez mais afogado dentro do aparelho de Estado, sem apelar para a constru\u00e7\u00e3o das bases de um poder alternativo que combinasse as a\u00e7\u00f5es do governo com iniciativas populares, e com as transfer\u00eancias crescentes de fun\u00e7\u00f5es estatais boicotadas pelo aparelho para \u00f3rg\u00e3os populares.\u201d <\/em>[51] Outro aspecto importante colocado por Sader \u00e9 que a esquerda n\u00e3o s\u00f3 subestimou o imperialismo, as for\u00e7as armadas e os meios de comunica\u00e7\u00e3o burgueses como tamb\u00e9m menosprezou a for\u00e7a popular, sua capacidade organizativa, criativa, sua possibilidade de construir um novo poder na sociedade, articulada com o poder da UP.[52]<\/p>\n<p>Para Sader, a UP n\u00e3o tinha capacidade e nem vontade de mudar o campo do enfrentamento, do institucional para o da luta de massas, n\u00e3o aproveitando os embri\u00f5es de \u00f3rg\u00e3os de poder popular que os setores mais radicalizados da esquerda estimulavam. Segundo Sader, a UP perdeu duas grandes oportunidades de avan\u00e7ar sobre a burguesia e a rea\u00e7\u00e3o: a primeira, em outubro de 1972, quando da tentativa de locaute dos grandes empres\u00e1rios, quando os trabalhadores ocuparam e assumiram a gest\u00e3o das f\u00e1bricas, o governo n\u00e3o aproveitou para coloc\u00e1-las sob a dire\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios trabalhadores; e a outra, quando da tentativa de golpe, em junho de 1973, Allende n\u00e3o colocou na reserva e nem puniu severamente os oficiais envolvidos no golpe. Para Sader, enquanto a esquerda estava dividida entre a luta revolucion\u00e1ria e a luta institucional, e a luta de massas contra a luta a partir do governo, a direita soube conciliar com sucesso a luta legal com a luta ilegal.<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o relevante colocada por Sader \u00e9 a constata\u00e7\u00e3o de que a Unidade Popular pensava as rela\u00e7\u00f5es de poder centradas exclusivamente nas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas internas e nas rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas institucionais, assim a esquerda operava um reducionismo que terminou sendo-lhe fatal. Para Sader, a estrat\u00e9gia e programa da esquerda chilena tem sua origem na vis\u00e3o tradicional dos partidos comunistas dos pa\u00edses da periferia capitalista, orientados pelo VII Congresso da IC, que transformava o poder em uma coisa a ser conquistada mediante um assalto (guerra de movimento) ou a um processo gradual de ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os (guerra de posi\u00e7\u00f5es) visando mudar a rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as e a estrutura do aparelho estatal. No plano pol\u00edtico, a apropria\u00e7\u00e3o do aparelho estatal era confundida com a resolu\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o do poder. No plano econ\u00f4mico, mais do que a propriedade, o fundamental era a apropria\u00e7\u00e3o, esquecendo-se que ela poderia assumir a forma de uma propriedade social, compartilhada pelos trabalhadores, t\u00e9cnicos, Estado, cooperativas e propriet\u00e1rios privados.[53]<\/p>\n<p>Encerrando, Sader define: \u201c<em>O Poder \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o social, da mesma forma que o capital. A altera\u00e7\u00e3o de sua natureza, a constru\u00e7\u00e3o das bases de um novo poder \u00e9, portanto, um processo pol\u00edtico, entendendo este como s\u00edntese das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, sociais, institucionais, ideol\u00f3gicas e militares.\u201d<\/em>[54]<\/p>\n<p><strong>CONCLUS\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>O desenvolvimento econ\u00f4mico, social e pol\u00edtico do Chile, como abordamos na primeira parte do trabalho, criou as bases sobre as quais a experi\u00eancia do governo popular de Allende p\u00f4de se desenvolver. Seu processo econ\u00f4mico at\u00edpico em rela\u00e7\u00e3o aos demais pa\u00edses latino-americanos, em grande parte exportadores de produtos agr\u00edcolas tropicais, condicionou seu desenvolvimento social e pol\u00edtico, de estabilidade incomum. No s\u00e9culo XX, a estrutura social chilena estava mais pr\u00f3xima das composi\u00e7\u00f5es sociais dos pa\u00edses europeus desenvolvidos do que das de seus irm\u00e3os da Am\u00e9rica Latina. A estabilidade institucional nos \u00faltimos 40 anos, dava ao pa\u00eds e \u00e0 democracia chilena, ares de pa\u00eds de primeiro mundo, com partidos oper\u00e1rios de forte base social e expressiva aceita\u00e7\u00e3o eleitoral. A conjun\u00e7\u00e3o desses fatores permitiu que o programa da Unidade Popular fosse elaborado e apresentado \u00e0 popula\u00e7\u00e3o nas elei\u00e7\u00f5es de 1970. A apertada vit\u00f3ria da UP dava in\u00edcio a uma experi\u00eancia in\u00e9dita na hist\u00f3ria do movimento oper\u00e1rio de todo o mundo: a tentativa de se chegar ao socialismo pela via pac\u00edfica, segundo um modelo democr\u00e1tico, pluralista e libert\u00e1rio. Como vimos, a cruel realidade dos fatos demonstrou que a experi\u00eancia chilena pela via pac\u00edfica n\u00e3o foi bem sucedida. Por que.<\/p>\n<p>Primeiramente, gostar\u00edamos de deixar bem claro que n\u00e3o julgamos relevante entrar na discuss\u00e3o particularizada dos erros ou defici\u00eancias da proposta e da pr\u00e1tica do governo da Unidade Popular. Isto porque consideramos que muitos desses equ\u00edvocos t\u00eam como origem uma concep\u00e7\u00e3o de Estado n\u00e3o-marxista, n\u00e3o obstante os partidos dirigentes do processo se identificarem como marxistas-leninistas. Quer\u00edamos ressaltar que de modo algum menosprezamos os erros do processo e o grande peso da a\u00e7\u00e3o imperialista na desestabiliza\u00e7\u00e3o do governo popular, apenas desejamos ser mais diretos e concisos, levando em considera\u00e7\u00e3o os objetivos desse trabalho.<\/p>\n<p>O erro fundamental dos comunistas e socialistas chilenos foi crer na possibilidade de, por dentro do Estado Burgu\u00eas, atrav\u00e9s da conquista de uma parcela dele &#8211; o executivo -, se poderia gradualmente, mediante a ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os no aparelho estatal, transformar este Estado burgu\u00eas em um Estado oper\u00e1rio. N\u00e3o bastando isso, acreditavam na viabilidade dessa transforma\u00e7\u00e3o ser feita dentro dos marcos institucionais, dentro da ordem burguesa, apostando na via eleitoral.<\/p>\n<p>Para que essa concep\u00e7\u00e3o frutificasse contribu\u00edram dois fatores: a linha comunista tradicional, marcada pela fase stalinista da Internacional Comunista, baseada na revolu\u00e7\u00e3o por etapas, na pol\u00edtica de colabora\u00e7\u00e3o de classes, na pol\u00edtica das frentes populares, e na aceita\u00e7\u00e3o da possibilidade da via pac\u00edfica ao socialismo, do final dos anos 50; e o caldo de cultura gerado pela estabilidade institucional e pol\u00edtica do Chile, criando ilus\u00f5es quanto \u00e0 solidez das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 neutralidade legalista das for\u00e7as armadas chilenas. \u00c9 importante lembrar que nos anos 60 e 70, ocorreu uma revis\u00e3o da obra de Gramsci, releitura que passou a ser a cartilha da nova postura pol\u00edtica de alguns partidos comunistas da Europa Ocidental, que \u00e9 o eurocomunismo. Em resumo, as principais teses da estrat\u00e9gia eurocomunista eram: a) s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel chegar ao socialismo nos pa\u00edses industrializados com o consenso da grande maioria da popula\u00e7\u00e3o; b) para isso, \u00e9 necess\u00e1rio conservar as institui\u00e7\u00f5es parlamentares burguesas, que tem amplo respaldo popular; c) \u00e9 poss\u00edvel que essas institui\u00e7\u00f5es burguesas sejam gradualmente esvaziadas de seu car\u00e1ter de classe; d) a todo custo deve ser evitado o confronto entre a burguesia em seu conjunto e a classe oper\u00e1ria isolada; e) mediante a conquista de maiorias parlamentares, realizar reformas estruturais que transformar\u00e3o por etapas a natureza do sistema capitalista e acabar\u00e3o por mudar a sua pr\u00f3pria ess\u00eancia; f) a principal tarefa \u00e9 a anti-monopolista, cuja alian\u00e7a pol\u00edtica necess\u00e1ria para concretiz\u00e1-la deve incluir, al\u00e9m da classe oper\u00e1ria e da massa dos setores m\u00e9dios, uma boa parte do campesinato e parte consider\u00e1vel da pequena e m\u00e9dia burguesia.[55] A semelhan\u00e7a entre a posi\u00e7\u00e3o da UP e a dos eurocomunistas \u00e9 bastante \u00f3bvia.<\/p>\n<p>Para refutar essas posi\u00e7\u00f5es, vamos \u00e0 fonte que deveria ser tamb\u00e9m dos comunistas e socialistas autointitulados marxistas-leninistas. Em seu trabalho <em>Estado e Revolu\u00e7\u00e3o<\/em>, de meados de 1917, Lenin afirmava sobre a inevitabilidade da revolu\u00e7\u00e3o violenta: \u201c<em>A ess\u00eancia de <\/em>toda<em> a doutrina de Marx e de Engels<\/em><em> \u00e9 a necessidade de inocular sistematicamente nas massas <\/em>essa<em> id\u00e9ia da revolu\u00e7\u00e3o violenta. \u00c9 a omiss\u00e3o dessa propaganda, dessa agita\u00e7\u00e3o, que marca com mais relevo a trai\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria das tend\u00eancias social-patri\u00f3ticas e kautskystas. A substitui\u00e7\u00e3o do Estado burgu\u00eas pelo Estado prolet\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel sem revolu\u00e7\u00e3o violenta.\u201d<\/em>[56]<\/p>\n<p>Sobre o papel do proletariado no processo revolucion\u00e1rio Lenin declarava: <em>\u201cA doutrina da luta de classes, aplicada por Marx ao Estado e \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o socialista, conduz fatalmente a reconhecer a <\/em>supremacia pol\u00edtica, <em>a ditadura do proletariado, isto \u00e9, um poder prolet\u00e1rio exercido sem partilha e apoiado diretamente na for\u00e7a das massas em armas. O derrubamento da burguesia s\u00f3 \u00e9 realiz\u00e1vel pela transforma\u00e7\u00e3o do proletariado em <\/em>classe dominante, <em>capaz de dominar a resist\u00eancia inevit\u00e1vel e desesperada da burguesia e de organizar todas as massas laboriosas exploradas para um novo regime econ\u00f4mico.\u201d<\/em>[57]<\/p>\n<p>Sobre o aparelho de Estado burgu\u00eas, Lenin cita duas passagens de Marx, a primeira de <em>A Guerra Civil em Fran\u00e7a: \u201cn\u00e3o basta a classe oper\u00e1ria apoderar-se da m\u00e1quina do Estado para adapt\u00e1-la aos seus pr\u00f3prios fins.\u201d<\/em>, e a outra, da correspond\u00eancia de Marx a Kugelmann: \u201c&#8230; <em>a revolu\u00e7\u00e3o em Fran\u00e7a deve tentar, antes de tudo, n\u00e3o passar para outras m\u00e3os a m\u00e1quina burocr\u00e1tica e militar &#8211; como se tem feito at\u00e9 aqui &#8211; mas quebr\u00e1-la. Eis a condi\u00e7\u00e3o preliminar para qualquer revolu\u00e7\u00e3o popular do continente.\u201d<\/em>[58]<\/p>\n<p>Mas vamos voltar \u00e0 experi\u00eancia chilena. O que fazer ent\u00e3o o revolucion\u00e1rio diante de uma elei\u00e7\u00e3o para presidente, livre e democr\u00e1tica? \u00c9 evidente que num processo desse, num pa\u00eds como o Chile, n\u00e3o cabe a recusa de participar, sendo descabida qualquer outra alternativa, na medida em que o quadro pol\u00edtico-institucional \u00e9 determinado pelo n\u00edvel de mobiliza\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o e consci\u00eancia do movimento oper\u00e1rio e popular. Se as massas t\u00eam ilus\u00f5es democr\u00e1tico-burguesas, as esquerdas devem trabalhar para que elas percam essas ilus\u00f5es agu\u00e7ando a luta de classes para que as limita\u00e7\u00f5es da democracia burguesa fiquem n\u00edtidas e as massas as superem. Mas chegando l\u00e1, conquistando eleitoralmente o poder executivo, o que fazer? Entendemos que um governo da esquerda revolucion\u00e1ria deveria aprofundar a luta de classes; praticar a democracia direta; partir para o enfrentamento institucional; apoiar as mobiliza\u00e7\u00f5es populares; criar e estimular os organismos de massas, transferindo-lhes poderes efetivos (de gest\u00e3o e de defesa); inserir os trabalhadores nos \u00f3rg\u00e3os de dire\u00e7\u00e3o das empresas estatizadas, intensificar o trabalho pol\u00edtico nas for\u00e7as armadas; e criar mil\u00edcias populares para a defesa do governo. Em suma, tudo o que a Unidade Popular n\u00e3o fez por estar presa \u00e0 concep\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o por etapas, por defender a ordem institucional, por acreditar na revolu\u00e7\u00e3o por dentro do Estado burgu\u00eas, por priorizar a luta parlamentar-institucional, por enfatizar o aspecto econ\u00f4mico (estatiza\u00e7\u00e3o) em detrimento do pol\u00edtico (gest\u00e3o oper\u00e1ria-popular) e por ter ilus\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao aparelho militar do Estado.<\/p>\n<p>Encerrando, consideramos que a experi\u00eancia chilena n\u00e3o foi uma experi\u00eancia revolucion\u00e1ria, mas sim uma concreta tentativa de reformas dentro dos marcos do sistema capitalista e da ordem burguesa, em um pa\u00eds dependente, inserido na divis\u00e3o internacional do trabalho do sistema imperialista. No entanto, a experi\u00eancia do governo Allende \u00e9 rica em ensinamentos para a esquerda revolucion\u00e1ria, que bem assimilados, contribuir\u00e3o para que em novos embates com a burguesia e o imperialismo, os equ\u00edvocos verificados no governo da Unidade Popular n\u00e3o se repitam, evitando-se assim as perdas irrepar\u00e1veis ocorridas no Chile.<\/p>\n<p>NOTAS:<\/p>\n<p>[1] Celso Furtado, <em>A Economia Latino-Americana<\/em>, p. 42.<\/p>\n<p>[2] <em>Ibid.,<\/em>p. 43.<\/p>\n<p>[3] Halperin Donghi, <em> Hist\u00f3ria da Am\u00e9rica Latina,<\/em> p. 122-123.<\/p>\n<p>[4] <em>Ibid.,<\/em> p. 161-162.<\/p>\n<p>[5] Sobre a hist\u00f3ria do Chile at\u00e9 o governo Allende nos reportamos ao livro <em>Hist\u00f3ria das Sociedades Americanas<\/em> de Aquino, Jesus e Oscar, pp 361-371.<\/p>\n<p>[6] Cardoso, Ciro &amp; Brignoli, H.,<em> Hist\u00f3ria Econ\u00f4mica da Am\u00e9rica Latina,<\/em> p. 260-261.<\/p>\n<p>[7] Halperin Donghi, op.cit., p. 198-199.<\/p>\n<p>[8] Celso Furtado, op.cit., p.65.<\/p>\n<p>[9] <em>Ibid., <\/em>p. 124-127.<\/p>\n<p>[10] <em>Ibid.,<\/em> p. 213.<\/p>\n<p>[11] Emir Sader, <em>Cuba, Chile, Nicar\u00e1gua &#8211; Socialismo na Am\u00e9rica Latina,<\/em> p. 37-38.<\/p>\n<p>[12] Celso Furtado, op.cit., p. 88.<\/p>\n<p>[13] <em>Ibid.,<\/em> p. 213-214.<\/p>\n<p>[14] Carlos Altamirano,<em> Dial\u00e9tica de uma derrota,<\/em> p.84-85.<\/p>\n<p>[15] Celso Furtado, op.cit.<em>,<\/em> p.214-215.<\/p>\n<p>[16] <em>Ibid.,<\/em> p. 306.<\/p>\n<p>[17] Carlos Altamirano, op.cit., p.70.<\/p>\n<p>[18] Celso Furtado, op.cit., p. 156 e 172-173.<\/p>\n<p>[19] Carlos Altamirano, op.cit., p. 258.<\/p>\n<p>[20] Mikhail Kud\u00e1tchkine, <em>Chile: experi\u00eancia de luta pela unidade das for\u00e7as de esquerda e por transforma\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias,<\/em> p.126-131.<\/p>\n<p>[21] <em>Ibid.,<\/em> p. 152-153.<\/p>\n<p>[22] Carlos Altamirano, op.cit., p. 36-39.<\/p>\n<p>[23] Mikhail Kud\u00e1tchkine, op.cit., p. 158.<\/p>\n<p>[24] Carlos Castilho, Com um ter\u00e7o da vota\u00e7\u00e3o UP faz governo de minoria (5.9.1970), in Tudo sobre a queda de Allende, Edi\u00e7\u00f5es Jornal do Brasil, n. 01, setembro, 1973, p. 05.<\/p>\n<p>[25] Emir Sader, op.cit., p. 42-43.<\/p>\n<p>[26] Mikhail Kud\u00e1tchkine, op.cit., p. 161.<\/p>\n<p>[27] Celso Furtado, op.cit., p. 216.<\/p>\n<p>[28] <em>Ibid.,<\/em> p. 307.<\/p>\n<p>[29] <em>Ibid.,<\/em> p.308-310.<\/p>\n<p>[30] Carlos Altamirano, op.cit., p. 46.<\/p>\n<p>[31] Salvador Allende, <em>A via chilena para o Socialismo, <\/em>in L\u00f6wy, Michael (org). O marxismo na Am\u00e9rica Latina, p. 387-388.<\/p>\n<p>[32] Luis Corval\u00e1n, <em>O Chile, o povo no poder,<\/em> in L\u00f6wy, Michael (org). O marxismo na Am\u00e9rica Latina, p. 412-414.<\/p>\n<p>[33] Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR), <em>Declaraci\u00f3n de principios<\/em>, in L\u00f6wy, Michael (org). O marxismo na Am\u00e9rica Latina, p. 328-330.<\/p>\n<p>[34] Jayme Dantas,<em> Alimento come\u00e7a a rarear no final do primeiro ano,<\/em> in Tudo sobre a queda de Allende, Edi\u00e7\u00f5es Jornal do Brasil, n. 01, setembro, 1973, p. 14.<\/p>\n<p>[35] IDEM, <em>Greve dos transportes \u00e9 a oportunidade da oposi\u00e7\u00e3o(29.10.72),<\/em> in Tudo sobre a queda de Allende, Edi\u00e7\u00f5es Jornal do Brasil, n. 01, setembro, 1973, p. 31.<\/p>\n<p>[36] Carlos Altamirano, op.cit., p. 101.<\/p>\n<p>[37] Mikhail Kud\u00e1tchine, op.cit., p 171-172.<\/p>\n<p>[38] Carlos Altamirano, op.cit., p. 177.<\/p>\n<p>[39] Luis Corvalan, in Mandel, E.(org). <em>Cr\u00edtica do euro-comunismo,<\/em> p. 260 (notas).<\/p>\n<p>[40] Emir Sader, op.cit., p. 49-50.<\/p>\n<p>[41] Mikhail Kud\u00e1tchkine, op.cit., p. 201-202.<\/p>\n<p>[42] Carlos Altamirano, op.cit., p. 205.<\/p>\n<p>[43] Miguel Enr\u00edquez, <em>As causas da derrota<\/em>, in L\u00f6wy, Michael (org). O marxismo na Am\u00e9rica Latina, p. 342.<\/p>\n<p>[44] <em>Ibid.,<\/em> p. 337<\/p>\n<p>[45] <em>Ibid.,<\/em> p. 339.<\/p>\n<p>[46] <em>Ibib.<\/em>, p. 341.<\/p>\n<p>[47] Darcy Ribeiro,<em> Salvador Allende e a esquerda desvairada,<\/em> p. 126-127.<\/p>\n<p>[48] <em>Ibid.,<\/em> p. 128.<\/p>\n<p>[49] <em>Ibid.,<\/em> p. 131.<\/p>\n<p>[50] <em>Ibid.,<\/em> p. 140.<\/p>\n<p>[51] Emir Sader, <em>O poder, cad\u00ea o poder ?<\/em>, in L\u00f6wy, Michael (org). O marxismo na Am\u00e9rica Latina, p. 533.<\/p>\n<p>[52] <em>Ibid.,<\/em> p. 534.<\/p>\n<p>[53] <em>Ibid.,<\/em> p. 534-535.<\/p>\n<p>[54] <em>Ibid.,<\/em> p. 536.<\/p>\n<p>[55] Ernest Mandel,<em> Cr\u00edtica do Euro-comunismo,<\/em> p. 161-162.<\/p>\n<p>[56] Lenin, <em>Estado e Revolu\u00e7\u00e3o,<\/em> p. 27.<\/p>\n<p>[57] <em>Ibid., <\/em>p. 32-33.<\/p>\n<p>[58] <em>Ibid., <\/em>p. 46-47.<\/p>\n<p>BIBLIOGRAFIA<\/p>\n<p>ALTAMIRANO, Carlos. <em>Dial\u00e9tica de uma derrota<\/em>. S\u00e3o Paulo, Brasiliense, 1979.<\/p>\n<p>AQUINO, Rubim, JESUS, Nivaldo, OSCAR, <em>Hist\u00f3ria das Sociedades Americanas<\/em>, Rio de Janeiro, Liv. Eu e Voc\u00ea, 1981.<\/p>\n<p>CARDOSO, Ciro &amp; BRIGNOLI, H. <em>Hist\u00f3ria Econ\u00f4mica da Am\u00e9rica Latina<\/em>, 2. ed, Rio de Janeiro, Graal, 1984.<\/p>\n<p>DONGHI, Halperin. <em>Hist\u00f3ria da Am\u00e9rica Latina.<\/em> Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1976.<\/p>\n<p>FURTADO, Celso. <em>A Economia Latino-Americana. <\/em>S\u00e3o Paulo, Cia Ed Nacional, 1976.<\/p>\n<p>KUD\u00c1TCHKINE, Mikhail.<em> Chile: experi\u00eancia de luta pela unidade das for\u00e7as de <\/em><em>esquerda e por transforma\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias<\/em>. Moscou, Progresso, 1978.<\/p>\n<p>JORNAL DO BRASIL, <em>Tudo sobre a queda de Allende.<\/em> Rio de Janeiro, Edi\u00e7\u00f5es JB, n\u00ba 1, setembro, 1973.<\/p>\n<p>LENIN, V. <em>O Estado e a Revolu\u00e7\u00e3o<\/em>. S\u00e3o Paulo, Hucitec, 1979.<\/p>\n<p>L\u00d6WY, Michael (org.). <em>O Marxismo na Am\u00e9rica Latina<\/em>. S\u00e3o Paulo, Ed. Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo, 1999.<\/p>\n<p>MANDEL, Ernest. <em>Cr\u00edtica do euro-comunismo<\/em>. Lisboa, Ant\u00eddoto, 1978.<\/p>\n<p>RIBEIRO, Darcy. Salvador Allende e a esquerda desvairada. In: <em>Gentidades.<\/em> Porto Alegre, L&amp;PM Editores, 1997.<\/p>\n<p>SADER, Emir. <em>Cuba, Chile, Nicar\u00e1gua: Socialismo na Am\u00e9rica Latina<\/em>. S\u00e3o Paulo, Editora Atual, 1992.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16108\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[226],"class_list":["post-16108","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4bO","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16108","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16108"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16108\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16108"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16108"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16108"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}