{"id":16202,"date":"2017-09-18T17:12:37","date_gmt":"2017-09-18T20:12:37","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=16202"},"modified":"2017-09-19T14:17:20","modified_gmt":"2017-09-19T17:17:20","slug":"agro-e-pop-cultivando-desinformacao-e-elogiando-a-escravidao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16202","title":{"rendered":"&#8216;Agro \u00e9 pop\u2019: cultivando desinforma\u00e7\u00e3o e elogiando a escravid\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/gz.diarioliberdade.org\/media\/k2\/items\/cache\/66b9e5be62ae8b014da47960aabc6162_L.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Vinicius Alves<\/p>\n<p>A Rede Globo segue exibindo nos intervalos de sua programa\u00e7\u00e3o a campanha publicit\u00e1ria \u201cAgro \u00e9 Pop, Agro \u00e9 <em>Tech<\/em>, Agro \u00e9 Tudo\u201d, que busca criar uma imagem positiva e moderna do latif\u00fandio, mascarando a real situa\u00e7\u00e3o do campo e fazendo apologias \u00e0 semifeudalidade, \u00e0 semicolonialidade e at\u00e9 \u00e0 escravid\u00e3o. Na edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 181 de AND j\u00e1 havia sido abordado como essa campanha exaltava a condi\u00e7\u00e3o semicolonial do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Apologia \u00e0 escravid\u00e3o<\/p>\n<p>A cana-de-a\u00e7\u00facar foi tem\u00e1tica de um pol\u00eamico v\u00eddeo da campanha \u201cAgro \u00e9 Pop\u201d, no qual a Rede Globo faz apologia ao trabalho escravo.<\/p>\n<p>Na p\u00edlula de menos de um minuto temos o seguinte trecho: \u201cCana \u00e9 agro. Desde o Brasil colonial a cana ajuda a movimentar a nossa economia. Hoje em dia a cana gera um dos maiores faturamentos do campo: R$ 52 bilh\u00f5es\u201d. E termina o v\u00eddeo: \u201cUm sucesso brasileiro h\u00e1 500 anos\u201d.<\/p>\n<p>O elogio ao trabalho escravo tamb\u00e9m se encontra na sele\u00e7\u00e3o de uma imagem do s\u00e9culo XIX utilizada no v\u00eddeo, intitulada \u201cUm Engenho de A\u00e7\u00facar\u201d, que retrata o trabalho de escravos em um engenho. A pintura encontra-se no livro \u201cViagens ao Brasil\u201d, publicado em 1816 pelo pintor de origem inglesa Henry Koster (1793-1820). Koster, que chegou ao Brasil em 1812, se alocou em Pernambuco, onde tornou-se latifundi\u00e1rio e senhor de escravos. Koster tamb\u00e9m foi autor de um livro publicado em 1816 com um t\u00edtulo que expressa a ideologia de sua classe social: \u201cComo melhorar a escravid\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Plantando desinforma\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>A campanha \u201cAgro \u00e9 pop\u201d faz parte de uma ofensiva ideol\u00f3gica do latif\u00fandio, por meio do monop\u00f3lio da imprensa, com o intuito de construir uma imagem perante ao povo de que o latif\u00fandio \u00e9 \u201ca ind\u00fastria riqueza do Brasil\u201d, de que \u00e9 o latif\u00fandio que \u201cdesenvolve\u201d o pa\u00eds. Nesse cen\u00e1rio, se opor ao latif\u00fandio \u00e9 \u201ccolocar-se contra o crescimento econ\u00f4mico e o desenvolvimento da Na\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Um tra\u00e7o comum a todos os v\u00eddeos exibidos na TV \u00e9 o trabalho minucioso de ocultar certas informa\u00e7\u00f5es fundamentais para entender realmente o que \u00e9 o latif\u00fandio (agroneg\u00f3cio), buscando enfatizar a sua apar\u00eancia produtiva e moderna.<\/p>\n<p>No mencionado v\u00eddeo sobre a cana-de-a\u00e7\u00facar, temos um exemplo dessa campanha de desinforma\u00e7\u00e3o. A propaganda diz que \u201cnas lavouras e usinas, mais de um milh\u00e3o de pessoas est\u00e3o empregadas por causa da produ\u00e7\u00e3o de cana\u201d. Mas silencia-se intencionalmente sobre as condi\u00e7\u00f5es e rela\u00e7\u00f5es de trabalho que se desenvolvem nessas lavouras e usinas.<\/p>\n<p>Planejadamente a campanha oculta informa\u00e7\u00f5es sobre como s\u00e3o produzidas as mercadorias que chegam \u00e0s nossas mesas. A pr\u00f3pria din\u00e2mica capitalista tende a ocultar dos consumidores o conhecimento sobre a cadeia produtiva \u2013 cada vez mais complexa \u2013 das mercadorias. O tom branco do nosso a\u00e7\u00facar oculta muitas vezes o tom vermelho do sangue vertido dos trabalhadores e trabalhadoras dos canaviais e usinas.<\/p>\n<p>Segundo dados do Minist\u00e9rio do Trabalho, 22% dos mais de 52 mil trabalhadores resgatados do \u201ctrabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o\u201d no pa\u00eds entre 1995 e 2016 atuavam no setor sucroalcooleiro.<\/p>\n<p>No v\u00eddeo que aborda a gera\u00e7\u00e3o de empregos pelo agroneg\u00f3cio temos um malabarismo conceitual para demonstrar o qu\u00e3o empregador esse setor \u00e9 dentro da economia do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Segundo a propaganda, o \u201cagroneg\u00f3cio brasileiro emprega 19 milh\u00f5es de pessoas\u201d, o que representaria \u201c20% do total de empregos no pa\u00eds\u201d, sendo que o \u201csetor do agroneg\u00f3cio que mais emprega \u00e9 o da agricultura familiar, com 11,5 milh\u00f5es de trabalhadores\u201d. Ou seja, para demonstrar que o agroneg\u00f3cio \u00e9 um grande gerador de empregos eles incluem a agricultura camponesa, chamada de \u201cagricultura familiar\u201d, como parte integrante do agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Em resumo, o latif\u00fandio tradicional e de nova roupagem (agroneg\u00f3cio) que concentra em suas m\u00e3os mais da metade das terras rurais do pa\u00eds e conta com uma s\u00e9rie de benef\u00edcios fiscais do velho Estado, gera menos emprego que a agricultura camponesa. Al\u00e9m disso, o latif\u00fandio \u00e9 menos produtivo que a agricultura camponesa se levarmos em conta a quantidade e o tamanho das terras utilizadas e as condi\u00e7\u00f5es adversas de produ\u00e7\u00e3o, circula\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o das mercadorias enfrentadas pelos camponeses no pa\u00eds. S\u00e3o estes e n\u00e3o o latif\u00fandio os principais respons\u00e1veis por abastecer grande parte de nosso mercado interno.<\/p>\n<p>&#8230; E colhendo dividendos<\/p>\n<p>Cabe relembrar que a Rede Globo \u00e9 muito bem remunerada para realizar esse servi\u00e7o de desinforma\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que a campanha \u201cAgro \u00e9 Pop\u201d tem como um dos seus principais financiadores a JBS. A mesma JBS envolvida em comercializa\u00e7\u00e3o de mercadorias estragadas e em grandes esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o, que envolvem at\u00e9 os gerentes de turno do velho Estado, vide Michel Temer.<\/p>\n<p>Moderniza\u00e7\u00e3o para poucos<\/p>\n<p>A ideia de que o campo brasileiro est\u00e1 se modernizando \u00e9 uma presen\u00e7a constante em todos os v\u00eddeos publicit\u00e1rios da campanha \u201cAgro \u00e9 pop\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 um fato que o campo se modernizou e se moderniza, se nos baseamos nas suas express\u00f5es materiais como o uso de m\u00e1quinas, insumos agr\u00edcolas, irriga\u00e7\u00e3o, assist\u00eancia t\u00e9cnica etc., que est\u00e3o concentradas nos latif\u00fandios com monoculturas para exporta\u00e7\u00e3o. O pequeno e m\u00e9dio campon\u00eas, maior produtor de alimentos para o mercado interno, continua em sua esmagadora maioria trabalhando a terra com enxada e arado. O consumo dessas mercadorias apresenta diferen\u00e7as profundas segundo o tamanho dos estabelecimentos, o tipo de g\u00eanero agr\u00edcola nele produzido e a regi\u00e3o considerada.<\/p>\n<p>O que significa dizer que a moderniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 generalizada no Brasil, sendo o desenvolvimento t\u00e9cnico fortemente concentrado espacial e setorialmente, produto do desenvolvimento desigual do pr\u00f3prio capitalismo burocr\u00e1tico. N\u00e3o \u00e9 por acaso que segundo o Censo Agropecu\u00e1rio de 2006 feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) \u2013 \u00faltima pesquisa com dados minimamente confi\u00e1veis e de abrang\u00eancia nacional \u2013 apenas 10,2% dos estabelecimentos tinham tratores, num total de 820.718 unidades; apenas 6,34% dos estabelecimentos do Pa\u00eds usaram t\u00e9cnicas de irriga\u00e7\u00e3o; e apenas 22% dos estabelecimentos contaram com algum tipo de orienta\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. Ou seja, a tal \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o\u201d causou mais modifica\u00e7\u00f5es nas t\u00e9cnicas de produ\u00e7\u00e3o, do que na estrutura social, j\u00e1 que se mant\u00e9m em grande parte intactas as rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o semifeudais, como as rela\u00e7\u00f5es servis de meia e ter\u00e7a, no qual o campon\u00eas \u00e9 obrigado a entregar parte de sua produ\u00e7\u00e3o como forma de pagamento ao latifundi\u00e1rio pelo uso da terra, sem que este tenha movido uma palha sequer.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do mais, como podemos falar em \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o\u201d no campo se tem \u00e1reas que n\u00e3o contam nem mesmo com o abastecimento el\u00e9trico? Para se ter uma dimens\u00e3o do problema, em 2006, 31,9% dos estabelecimentos n\u00e3o contavam com o uso da energia el\u00e9trica. Por\u00e9m, esses valores variam de acordo com as regi\u00f5es, onde na Regi\u00e3o Norte 62% dos estabelecimentos n\u00e3o contavam com esse servi\u00e7o, 38,5% no Nordeste, 26,9% no Centro Oeste, 17,7% no Sudeste e 16% no Sul.<\/p>\n<p>Os pr\u00f3prios dados oficiais com todas as suas limita\u00e7\u00f5es evidenciam que o campo brasileiro \u00e9 menos \u201cmoderno\u201d do que se propaga usualmente. A campanha \u201cAgro \u00e9 pop\u201d nada mais \u00e9 do que a tentativa de mascarar a real situa\u00e7\u00e3o do campo brasileiro e deslegitimar a luta pela terra de camponeses, ind\u00edgenas e quilombolas.<\/p>\n<p>http:\/\/anovademocracia.com.br\/no-196\/7473-agro-e-pop-cultivando-desinformacao-e-elogiando-a-escravidao<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16202\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7,81],"tags":[227],"class_list":["post-16202","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","category-c94-ruralistas","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4dk","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16202","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16202"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16202\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16202"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16202"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16202"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}