{"id":16229,"date":"2017-09-19T17:49:21","date_gmt":"2017-09-19T20:49:21","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=16229"},"modified":"2017-09-19T17:49:21","modified_gmt":"2017-09-19T20:49:21","slug":"retrocedemos-27-anos-de-luta-com-uma-canetada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16229","title":{"rendered":"Retrocedemos 27 anos de luta com uma canetada!"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/anamontenegro.org\/cfcam\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/IMG-20170919-WA0018-300x223.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Via Coletivo Feminista Classista S\u00e3o Paulo<\/p>\n<p><b>Retrocedemos 27 anos de luta com uma canetada!<\/b><\/p>\n<p><i>\u201cO que \u00e9 obsceno? Obsceno? Ningu\u00e9m sabe at\u00e9 hoje o que \u00e9 obsceno. Obsceno pra mim \u00e9 a mis\u00e9ria, a fome, a crueldade, a nossa \u00e9poca \u00e9 obscena. \u201d \u2013 Hilda Hilst.<\/i><\/p>\n<p>Antes de 1970, a maioria dos pa\u00edses considerava a homossexualidade n\u00e3o apenas doen\u00e7a, mas, tamb\u00e9m, um crime. Desde o final do s\u00e9culo XIX, ativistas homossexuais lutam contra a criminaliza\u00e7\u00e3o, concomitantemente ao avan\u00e7o feroz e preconceituoso de \u201cpesquisas\u201d que buscavam patologizar a homossexualidade.<\/p>\n<p>Ao longo desse s\u00e9culo \u2013 e n\u00e3o t\u00e3o distante dos nossos dias atuais -, v\u00e1rias pr\u00e1ticas que buscavam a \u201ccura\u201d da homossexualidade \u2013 considerada homossexualismo para os pseudocientistas \u2013 utilizaram-se de v\u00e1rios m\u00e9todos de tortura, como choques el\u00e9tricos, castra\u00e7\u00e3o qu\u00edmica e f\u00edsica, trazendo danos inimagin\u00e1veis das mais variadas ordens \u00e0s pessoas que eram submetidas \u00e0 essas abomin\u00e1veis pr\u00e1ticas.<\/p>\n<p><b>As lutas LGBTs se iniciaram a partir da Revolta de Stonewall<\/b> (Nova York\/EUA), em 1969, em que uma s\u00e9rie de violentas manifesta\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas da comunidade LGBT se manifestaram contra a invas\u00e3o policial naquele bar. Esses motins s\u00e3o considerados como o evento mais importante que levou ao movimento moderno de liberta\u00e7\u00e3o e \u00e0 luta pelos direitos LGBT. As Paradas LGBTs, por exemplo, surgiram em comemora\u00e7\u00e3o a essa Revolta travando o enfrentamento pela aceita\u00e7\u00e3o da sociedade e a derrubada da vis\u00e3o da homossexualidade como patologia.<\/p>\n<p><b>H\u00e1 mais de 27 anos que a homossexualidade foi retirada da Classifica\u00e7\u00e3o Internacional de Doen\u00e7as<\/b>, CID-10, deixando de ser considerada, enfim, uma enfermidade pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS), marcando o dia 17 de maio de 1990 um avan\u00e7o contra a discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero e orienta\u00e7\u00e3o sexual.<br \/>\nMas, ap\u00f3s quase tr\u00eas d\u00e9cadas, no dia de ontem, 18 de setembro de 2017, em uma decis\u00e3o retr\u00f3grada, o juiz federal, da 14\u00aa Vara do Distrito Federal, Waldemar Cl\u00e1udio de Carvalho, em audi\u00eancia, concedeu liminar permitindo que profissionais da sa\u00fade, como os psic\u00f3logos, ofere\u00e7am a terapia de revers\u00e3o sexual, conhecida popularmente como \u2018cura gay\u2019 \u2013 \u201ctratamento\u201d este proibido pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) desde 1999.<\/p>\n<p>Com a referida liminar, at\u00e9 que seja revertida \u2013 que \u00e9 o que esperamos \u2013 fica permitido, ent\u00e3o, que os psic\u00f3logos possam atender pacientes homossexuais, buscando cur\u00e1-los de sua homossexualidade, significando, assim, que a orienta\u00e7\u00e3o sexual dos LGBTs passa, novamente, a ser vista como doen\u00e7a. Ainda que n\u00e3o possua alcance nacional e imediato, a decis\u00e3o abre precedentes para que esta discuss\u00e3o conservadora e retr\u00f3grada volte a debate, tanto em outras comarcas do judici\u00e1rio, como dentro do pr\u00f3prio legislativo que j\u00e1 tenta, h\u00e1 tempos, impulsionar projetos de lei com esta tem\u00e1tica.<\/p>\n<p>Em s\u00edntese, o que essa liminar permite \u00e9 que agora, mais do que nunca, a popula\u00e7\u00e3o LGBT continue a ser vista como doente, ou como uma aberra\u00e7\u00e3o, como algu\u00e9m que precisa ser tratada e que, caso rejeite tal ajuda (t\u00e3o generosa, n\u00e3o?), precisar\u00e1 ser evitada, rejeitada, isolada, submetida a tratamentos compuls\u00f3rios via tortura ou, quem sabe, morta. \u00c9 v\u00e1lido tra\u00e7ar a discuss\u00e3o de classe sobre esta decis\u00e3o judicial, afinal, os homossexuais que mais est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade s\u00e3o, atualmente, os que n\u00e3o possuem amparo familiar, trabalham em subempregos, est\u00e3o vulner\u00e1veis nos locais e transportes p\u00fablicos, negros e negras, fora dos padr\u00f5es e dentro das campanhas de higieniza\u00e7\u00e3o. Ou seja, aqueles que n\u00e3o t\u00eam poder aquisitivo suficiente para garantir seus direitos b\u00e1sicos.<\/p>\n<p>Importante registrar que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma pesquisa cient\u00edfica que comprove qualquer efic\u00e1cia da revers\u00e3o sexual. Cl\u00ednicas que funcionaram pelo mundo a fora sob esta perspectiva foram fechadas com pedidos de desculpas por n\u00e3o conseguirem curar o que se propuseram. Desculpas estas que n\u00e3o far\u00e3o nem c\u00f3cegas \u00e0s milhares de pessoas que foram torturadas por anos, em fun\u00e7\u00e3o de uma pretensa cura que nunca existiu.<\/p>\n<p>Argumentos velados por uma aparente preocupa\u00e7\u00e3o, como \u201ce se a pessoa sofre por ser homossexual e quer realizar um tratamento psicol\u00f3gico para deixar de ser gay, n\u00e3o pode?\u201d s\u00e3o insuficientes por dois principais motivos. Em primeiro lugar, homossexuais e bissexuais n\u00e3o sofrem em raz\u00e3o de sua homossexualidade ou bissexualidade, sofrem em raz\u00e3o do <b>not\u00f3rio preconceito social<\/b> por n\u00e3o serem heterossexuais e em fun\u00e7\u00e3o da latente heteronormatividade predominante, que prega a heterossexualidade como \u00fanica orienta\u00e7\u00e3o sexual digna \u2013 ou \u201cmais digna\u201d \u2013 de ser vivenciada. Segundo, porque <b>n\u00e3o se cura aquilo que n\u00e3o \u00e9 doen\u00e7a<\/b>. Homossexualidade n\u00e3o \u00e9 e nunca foi uma patologia, uma enfermidade e, muito menos, um desvio psicol\u00f3gico ou uma pervers\u00e3o sexual. Deste modo, n\u00e3o pode ser objeto de cura.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo e nunca, absolutamente nunca, menos importante, o Brasil \u00e9 o pa\u00eds que mais mata sua popula\u00e7\u00e3o LGBT no mundo: a cada 25 horas, uma morte. Para melhor ilustrar, no primeiro quadrimestre de 2017, 117 pessoas foram assassinadas no Brasil devido \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, segundo o GGB (Grupo Gay da Bahia). Importante salientar, tamb\u00e9m, que esses dados s\u00e3o apenas a ponta do iceberg, visto que h\u00e1 estat\u00edsticas governamentais sobre crime de \u00f3dio onde, evidentemente, devem estar enquadradas as discrimina\u00e7\u00f5es por ra\u00e7a, g\u00eanero e orienta\u00e7\u00e3o sexual, n\u00e3o esquecendo que as principais v\u00edtimas s\u00e3o os das classes mais pobres.<\/p>\n<p>A partir desses dados, <b>torna-se necess\u00e1rio reafirmar o recorte de classe e ra\u00e7a dentro das especificidades de g\u00eanero<\/b>. Dentro da popula\u00e7\u00e3o LGBT, a parcela que mais morre \u00e9 dos homossexuais e transexuais negros e pobres. Isto porque est\u00e3o expostos aos mais variados tipos de viol\u00eancia e trabalho precarizado. De tal modo, quase nunca podem pagar por uma terapia, e quando t\u00eam acesso a este tipo servi\u00e7o, \u00e9 via SUS, que a depender do bom senso, aus\u00eancia ou presen\u00e7a de preconceito do profissional, o paciente ter\u00e1 sua subjetividade negada e rejeitada, onde lhe dir\u00e3o que tudo aquilo que ele \u00e9 n\u00e3o passa de um desvio patol\u00f3gico, ou seja, ele \u00e9 a personifica\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a, enquanto o psic\u00f3logo o portador da cura. E se, por fim, a t\u00e3o almejada cura n\u00e3o chegar? A morte com certeza chegar\u00e1 mais r\u00e1pido.<\/p>\n<p><b>O Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro se junta a todos LGBTs que lutam contra tais atrocidades e convoca todas e todos a n\u00e3o se calarem diante de tamanho retrocesso! <\/b><\/p>\n<p><b>N\u00e3o passar\u00e3o!<\/b><\/p>\n<p>\u200bhttp:\/\/anamontenegro.org\/cfcam\/2017\/09\/19\/retrocedemos-27-anos-de-luta-com-uma-canetada\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16229\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[22],"tags":[224],"class_list":["post-16229","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c3-coletivo-ana-montenegro","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4dL","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16229","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16229"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16229\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16229"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16229"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16229"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}