{"id":1624,"date":"2011-07-01T22:57:36","date_gmt":"2011-07-01T22:57:36","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1624"},"modified":"2011-07-01T22:57:36","modified_gmt":"2011-07-01T22:57:36","slug":"tempo-de-barbarie-e-luta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1624","title":{"rendered":"Tempo de barb\u00e1rie e luta"},"content":{"rendered":"\n<p>Apresentar uma obra n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Sobretudo quando aquela que a apresenta n\u00e3o tem outros cr\u00e9ditos para al\u00e9m de ser uma leitora atenta dos escritos do autor. Ainda se torna mais dif\u00edcil se o que une a apresentadora ao autor para al\u00e9m da amizade \u00e9 uma enorme admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Obra e autor s\u00e3o indissoci\u00e1veis, e neste livro o Miguel transparece como o grande pensador que \u00e9, profundo conhecedor dos problemas da Am\u00e9rica Latina, do M\u00e9dio Oriente e com uma reflex\u00e3o acutilante sobre o caminhar da hist\u00f3ria e sobre o mundo em que vivemos neste s\u00e9culo XXI. Um mundo de profunda crise do capitalismo, que o autor caracteriza, clarifica, esclarece e interpreta sempre com a certeza inabal\u00e1vel de que existe uma outra alternativa: o socialismo. &#8220;Um socialismo de contornos ainda imprevis\u00edveis, sem um figurino \u00fanico, que ser\u00e1 o desfecho da luta dos povos&#8221;, como refere o autor na introdu\u00e7\u00e3o a este livro.<\/p>\n<p>\u00c9 comum o Miguel ser apresentado como jornalista, direi mesmo como um grande jornalista, e de facto dedicou grande parte da sua vida ao trabalho jornal\u00edstico quer no Brasil, onde foi editorialista de <em> O Estado de S. Paulo, <\/em> quer em Portugal onde dirigiu o jornal <em> O Di\u00e1rio <\/em> que ainda hoje \u00e9 &#8220;a verdade a que temos direito&#8221; que tanta falta nos faz, mas o Miguel chegou-me a dizer que &#8220;n\u00e3o se sente jornalista&#8221; e eu considero que apesar de o jornalismo dever muito ao Miguel ele \u00e9 muito mais do que um simples jornalista. O Miguel \u00e9 um homem que pela sua cultura e pela reflex\u00e3o sistem\u00e1tica dos problemas da Humanidade, pelo conhecimento da hist\u00f3ria, da geografia, da filosofia, da sociologia \u00e9 acima de tudo um pensador. Um pensador revolucion\u00e1rio. Algu\u00e9m, cuja reflex\u00e3o sobre o mundo contempor\u00e2neo \u00e9 fundamental para compreendermos a situa\u00e7\u00e3o actual de crise do capitalismo que atravessamos e os caminhos que se lhe poder\u00e3o seguir.<\/p>\n<p>A obra do Miguel \u00e9 vasta e acima de tudo heterog\u00e9nea. O ensaio, o romance, o conto, os artigos e as cr\u00f3nicas. Julgo que apenas n\u00e3o se aventurou a escrever teatro ou poesia, apesar de muito do que escreve ter laivos po\u00e9ticos. Neste livro o autor selecciona um conjunto vasto de artigos e comunica\u00e7\u00f5es que ao longo dos \u00faltimos dez anos publicou nas revistas on-line resistir.info e odiario.info, no jornal <em> Avante! <\/em> e na revista <em> O Militante <\/em> e comunica\u00e7\u00f5es apresentadas em Semin\u00e1rios e Confer\u00eancias Internacionais, nos F\u00f3runs Sociais Mundial, Europeu e Portugu\u00eas e nos Encontros de Serpa.<\/p>\n<p>Lendo &#8220;Tempo de Barb\u00e1rie e Luta&#8221; ficamos com um retrato do mundo nestes \u00faltimos dez anos. O in\u00edcio do s\u00e9culo XXI est\u00e1 aqui plasmado com a interpreta\u00e7\u00e3o do autor sobre a situa\u00e7\u00e3o que se vive em locais t\u00e3o distantes do planeta como o Chile, a Venezuela, a Col\u00f4mbia, o Brasil, a Gr\u00e9cia ou o L\u00edbano. Iluminando a hist\u00f3ria, que ao longo dos anos tem sido reescrita e falsificada de acordo com os interesses hegem\u00f3nicos, o Miguel torna leg\u00edvel aspectos das transforma\u00e7\u00f5es na Am\u00e9rica Latina, das guerras de agress\u00e3o no M\u00e9dio Oriente, do papel que os Estados Unidos da Am\u00e9rica assumem hoje no mundo, que o autor n\u00e3o tem d\u00favidas em apelidar de IV Reich, da revolu\u00e7\u00e3o russa ou da revolu\u00e7\u00e3o cubana, das transforma\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias no Chile de Allende, da revolu\u00e7\u00e3o bolivariana, ou das transforma\u00e7\u00f5es que ocorreram em v\u00e1rios partidos comunistas europeus ao longo da \u00faltima d\u00e9cada. V\u00e1rios s\u00e3o os textos onde o autor analisa e interpreta a crise estrutural do capitalismo que estamos vivendo e que levar\u00e1 \u00e0 sua morte ou \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o e por v\u00e1rias vezes coloca a velha quest\u00e3o de Lenine &#8220;Que fazer?&#8221;.<\/p>\n<p>Neste conjunto de textos surgem alguns retratos de Homens que cruzaram a vida do autor e que a marcaram: Schafik Handal revolucion\u00e1rio da Frente Farabundo Mart\u00ed de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional, Manuel Marulanda, comandante revolucion\u00e1rio e fundador das FARC e Jorge Brice\u00f1o comandante das FARC recentemente assassinado pelo regime colombiano. Deste conjunto de retratos destaco dois: o de \u00c1lvaro Cunhal com quem o Miguel trabalhou durante largos anos e que define como uma personagem irrepet\u00edvel que tinha a marca do diferente sem que para isso fizesse o menor esfor\u00e7o e Vasco Gon\u00e7alves com quem o autor cimentou uma rela\u00e7\u00e3o de profunda amizade.<\/p>\n<p>Se me pedissem para em apenas duas palavras caracterizar este livro do Miguel diria: coer\u00eancia e lucidez. Coer\u00eancia porque ao longo de dez anos e, apesar de o autor nos advertir para o facto de o pensamento n\u00e3o ser est\u00e1tico e de se ter transformado no caminhar pela vida, podemos encontrar nestes textos, que percorrem uma d\u00e9cada, uma fidelidade aos princ\u00edpios que abra\u00e7ou e \u00e0 leitura que faz do mundo e da vida. Ali\u00e1s, s\u00f3 com uma grande coer\u00eancia \u00e9 poss\u00edvel publicar hoje textos com dez anos. N\u00e3o \u00e9 por certo dif\u00edcil a qualquer um de n\u00f3s imaginar algumas pessoas que n\u00e3o publicariam hoje aquilo que disseram ou escreveram h\u00e1 dez dias quanto mais h\u00e1 dez anos. E lucidez porque o Miguel \u00e9 uma das poucas pessoas que tem o cond\u00e3o de tornar transparente o opaco e de com uma linguagem simples e cristalina tornar aparentemente claros problemas e quest\u00f5es extremamente complexas. Sem dar respostas, mas apelando \u00e0 reflex\u00e3o do leitor, o Miguel \u00e9 capaz de, eliminando o acess\u00f3rio, colocar em quest\u00e3o aquilo que \u00e9 de facto pertinente. Elimina o ru\u00eddo e desoculta aspectos da realidade aparentemente abafados no bul\u00edcio que nos sufoca.<\/p>\n<p>Talvez seja esta coer\u00eancia e esta lucidez que tem provocado tantas inimizades, mas tamb\u00e9m tantas amizades ao autor.<\/p>\n<p>Este \u00e9 tamb\u00e9m um livro de esperan\u00e7a. Desmascarando a inexist\u00eancia de democracia e considerando que nos 15 pa\u00edses da Europa Ocidental impera um regime que na pr\u00e1tica \u00e9 uma ditadura da burguesia com fachada democr\u00e1tica, afirmando que apenas os povos como sujeitos da hist\u00f3ria podem, atrav\u00e9s da luta, criar as condi\u00e7\u00f5es indispens\u00e1veis \u00e0 altera\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, o autor tem uma firme confian\u00e7a, que lhe adv\u00e9m do conhecimento, nomeadamente da obra de Marx e L\u00e9nin, num outro mundo poss\u00edvel. Considerando que a constru\u00e7\u00e3o desde novo mundo poss\u00edvel, o socialismo n\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil e muito menos r\u00e1pido e que n\u00e3o \u00e9 atrav\u00e9s do aparelho de Estado numa sociedade capitalista, que ser\u00e1 poss\u00edvel efectuar reformas incompat\u00edveis com a l\u00f3gica dos sistema, n\u00e3o deixa de salientar que:<\/p>\n<p>&#8220;O compromisso de um revolucion\u00e1rio, sobretudo de um comunista, n\u00e3o implica ser contempor\u00e2neo das transforma\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias pelas quais vive e luta. A vit\u00f3ria dos seus ideais pode ser posterior \u00e0 sua morte. Ou ser adiada durante muitas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O inadmiss\u00edvel \u00e9 o desalento, a capitula\u00e7\u00e3o numa \u00e9poca como a nossa de crise civilizacional e que um sistema monstruoso, o capitalismo globalizado, configura amea\u00e7a \u00e0 pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia da humanidade&#8221; (p.97).<\/p>\n<p>&#8220;Tempo de Barb\u00e1rie e Luta&#8221; deve ser lido por todos aqueles que queiram compreender o mundo em que vivem e as intensas transforma\u00e7\u00f5es que t\u00eam vindo a ocorrer. Deve ser lido por todos aqueles que querem saber a verdade. Deve ser lido por todos aqueles que consideram inadmiss\u00edvel o desalento e querem transformar o mundo em que vivem. Deve ser lido por todos aqueles que est\u00e3o convictos da derrota do capitalismo. Deve ser lido por todos aqueles que, tal como Jean Salem, autor citado pelo Miguel sabem que &#8220;Vivemos o fim de uma \u00e9poca. Confiamos na humanidade. Sabemos que alguma coisa vai chegar. Mas n\u00e3o sabemos o que \u00e9&#8221; (p.188)<\/p>\n<p>Obrigada Miguel por este livro! Esperamos por mais&#8230;<\/p>\n<p>*Historiadora, autora de <a href=\"http:\/\/www.editorial-avante.pcp.pt\/index.php?page=shop.product_details&amp;category_id=19&amp;flypage=flypage.tpl&amp;product_id=239&amp;option=com_virtuemart&amp;Itemid=42\"> &#8220;Vidas na clandestinidade&#8221;<\/a> . Apresenta\u00e7\u00e3o feita no Clube Liter\u00e1rio do Porto em 28\/Junho\/2011.<\/p>\n<p>Esta apresenta\u00e7\u00e3o encontra-se em <a href=\"http:\/\/resistir.info\/portugal\/barbarie_28jun11.html\"> http:\/\/resistir.info\/portugal\/barbarie_28jun11.html<\/a> .<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Resistir.info\n\n\n\n\n\n\n\n\nCristina Nogueira*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1624\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-1624","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-qc","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1624","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1624"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1624\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1624"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1624"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1624"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}