{"id":16240,"date":"2017-09-20T13:15:07","date_gmt":"2017-09-20T16:15:07","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=16240"},"modified":"2017-09-20T13:15:07","modified_gmt":"2017-09-20T16:15:07","slug":"vitimas-do-desemprego-refugiados-na-megaocupacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16240","title":{"rendered":"V\u00edtimas do desemprego, refugiados na megaocupa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/racismoambiental.net.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/ocupacao-povo-sem-medo-sp-750x410.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->A reportagem \u00e9 de\u00a0Claudia Belfort \u00a0e publicada por CartaCapital, 16-09-2017.<\/p>\n<p>O desemprego empurrou Manoel, Carmosina e Lucineide da Bahia para S\u00e3o Paulo. Sozinhos ou com os pais, eles migraram mais de 20 anos atr\u00e1s em busca de casa, comida e trabalho. Cada um se virou como p\u00f4de. Casaram, trabalharam, tiveram filhos&#8230; At\u00e9 serem atingidos novamente pelo que parece sina, mas \u00e9 condi\u00e7\u00e3o imposta e cruel: o desemprego. E outra vez se viram empurrados de suas vidas. Sem dinheiro para o aluguel ou morando de favor, acabaram em uma ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas baianos, que apesar do destino em comum n\u00e3o se conhecem, est\u00e3o entre as 7 mil fam\u00edlias acampadas em S\u00e3o Bernardo do Campo, no ABC Paulista. A ocupa\u00e7\u00e3o Povo Sem Medo Planalto, iniciada em 2 de setembro, n\u00e3o para de crescer. At\u00e9 a quinta-feira 14, era a segunda maior do Pa\u00eds, atr\u00e1s apenas da Vila Nova Palestina, na Zona Sul de S\u00e3o Paulo, que re\u00fane 8 mil fam\u00edlias.<\/p>\n<p>No ritmo atual, a ocupa\u00e7\u00e3o, estimam os organizadores, deve alcan\u00e7ar em breve a marca de 10 mil fam\u00edlias. Por dia, o terreno recebe entre 300 e 350 novos ocupantes, indicados por amigos, parentes ou por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), respons\u00e1veis por organizar a a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O terreno, espremido entre uma f\u00e1brica de caminh\u00f5es e um condom\u00ednio residencial, pertence \u00e0 construtora MZM e est\u00e1 desocupado h\u00e1 30 anos. Em 2014, a prefeitura de S\u00e3o Bernardo notificou a empresa pelo n\u00e3o cumprimento da fun\u00e7\u00e3o social da propriedade e exigiu um plano de parcelamento da terra ou de edifica\u00e7\u00f5es, o que jamais aconteceu.<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o da construtora \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o foi bem r\u00e1pida e contou com rara celeridade da Justi\u00e7a. Ainda no s\u00e1bado 2, poucas horas depois do in\u00edcio da ocupa\u00e7\u00e3o, a MZM ingressou com um pedido de reintegra\u00e7\u00e3o de posse no plant\u00e3o judicial da cidade e conseguiu do juiz Fernando de Oliveira Ladeira uma liminar autorizando a Pol\u00edcia Militar a executar ordem de despejo.<\/p>\n<p>\u201cO que se costuma fazer nessas situa\u00e7\u00f5es \u00e9 encaminhar o caso para o Gaorp, que re\u00fane as partes para negociar, mas o juiz quer uma reintegra\u00e7\u00e3o r\u00e1pida\u201d, explica Felipe Vono, advogado do MTST.<\/p>\n<p>O Gaorp, Grupo de Apoio \u00e0s Ordens Judiciais de Reintegra\u00e7\u00e3o de Posse, \u00e9 uma iniciativa do Tribunal de Justi\u00e7a de S\u00e3o Paulo formada por representantes do Judici\u00e1rio e dos governos federal, estadual e municipal, do Minist\u00e9rio P\u00fablico e da Defensoria P\u00fablica para tratar de casos de reintegra\u00e7\u00e3o de alta complexidade.<\/p>\n<p>Segundo Vono, diversas contendas foram discutidas pelo grupo. Ladeira ignorou, por\u00e9m, a alternativa e ordenou que a \u00e1rea fosse desocupada em 72 horas. O movimento recorreu e conseguiu suspender temporariamente a decis\u00e3o.<\/p>\n<p>Quase duas semanas se passaram e a possibilidade de uma reintegra\u00e7\u00e3o de posse assusta Carmosina dos Santos, de 63 anos, desempregada, e que, apesar de ter cumprido todos os anos de trabalho exigidos para a aposentadoria, n\u00e3o consegue o benef\u00edcio. \u201cEles dizem que faltam quatro anos e meio, mas eu paguei o carn\u00ea, tudo.\u201d<\/p>\n<p>Sentada sobre uma mochila de flores lilases, sozinha numa viela entre centenas de outros barracos, Carmosina dos Santos olha para sua tenda de pl\u00e1stico, enquanto o helic\u00f3ptero da Pol\u00edcia Militar sobrevoa o terreno. A baiana enxerga na ocupa\u00e7\u00e3o a chance de conseguir a casa com a qual sonha desde os 15 anos, quando trocou Vit\u00f3ria da Conquista por S\u00e3o Paulo em busca de trabalho.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a morte da m\u00e3e, por complica\u00e7\u00f5es no parto do d\u00e9cimo filho, viu-se obrigada a enviar dinheiro para o pai e os demais irm\u00e3os. Trabalhou em uma f\u00e1brica de canos, foi empregada dom\u00e9stica, teve tr\u00eas filhos e ainda pegou mais um para criar. \u201cAgora estou desempregada, ningu\u00e9m quer idoso para trabalhar, n\u00e9, fia?\u201d<\/p>\n<p>Hoje, mora de favor com a irm\u00e3 em um bairro pr\u00f3ximo da ocupa\u00e7\u00e3o e consegue alguns trocados catando latinhas nas ruas. E faz quest\u00e3o de participar de todas as reuni\u00f5es di\u00e1rias do acampamento, iniciadas invariavelmente \u00e0s 7 da noite.<\/p>\n<p>As assembleias re\u00fanem as fam\u00edlias, integrantes e advogados do MTST. Os encontros ocorrem em uma esp\u00e9cie de p\u00e1tio central, onde se localiza, por enquanto, o \u00fanico banheiro da ocupa\u00e7\u00e3o, uma barraca para o atendimento da comunidade e a cozinha coletiva, que serve diariamente 80 quilos de arroz, 20 quilos de feij\u00e3o, 20 quilos de macarr\u00e3o e 30 litros de caf\u00e9. P\u00e3o, \u00e0s vezes.<\/p>\n<p>A comida \u00e9 preparada em um esquema de revezamento e chegam a ser necess\u00e1rios at\u00e9 dez volunt\u00e1rios para servir o contingente. Nenhuma refei\u00e7\u00e3o \u00e9 cobrada, a \u00fanica exig\u00eancia \u00e9 levar o kit sem-teto, composto de um prato, um garfo e uma colher e depois se responsabilizar por lav\u00e1-los, afirma Andreia Barbosa da Silva, uma das coordenadoras do MTST S\u00e3o Bernardo.<\/p>\n<p>A militante, de 34 anos, aderiu ao movimento em 2013, quando se integrou \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o Itaquera Copa do Povo. Vi\u00fava precoce, perdeu o marido em um acidente de autom\u00f3vel aos 26 anos. Desde ent\u00e3o, vive entre o aluguel e a casa da m\u00e3e, que a abrigava sempre que a falta de emprego ou dinheiro for\u00e7ava uma mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>Identificou-se tanto com a luta que acabou coordenadora e hoje, ao lado de outras quatro companheiras, Joana, Sandra, Mauric\u00e9lia e Maria, responde pela organiza\u00e7\u00e3o da Povo Sem Medo Planalto.<br \/>\nAs cinco mulheres administram o agrupamento de 7 mil fam\u00edlias. No local \u00e9 proibido consumir bebida alco\u00f3lica ou qualquer outro tipo de droga e fazer barulho ap\u00f3s as 10 da noite. Um mutir\u00e3o de limpeza \u00e9 organizado diariamente. Por causa da expans\u00e3o do acampamento, novos banheiros e cozinhas ser\u00e3o constru\u00eddos. A ocupa\u00e7\u00e3o vai ser dividida em grupos, chamados de G, a cada 400 barracos.<\/p>\n<p>Cada um ter\u00e1 um banheiro e uma cozinha coletiva pr\u00f3prios. Na quinta-feira 14, a Planalto estava organizada em 16 grupos. N\u00e3o h\u00e1 energia el\u00e9trica ou \u00e1gua encanada. O esgoto funciona com fossas s\u00e9pticas e a \u00e1gua chega em gal\u00f5es, coletados em uma bica perto da Avenida Kennedy quando a Guarda Municipal permite.<\/p>\n<p>Desde o primeiro dia da ocupa\u00e7\u00e3o, a Guarda Municipal isola a rua que d\u00e1 acesso ao terreno e dificulta a entrega de materiais e alimentos para a elabora\u00e7\u00e3o das refei\u00e7\u00f5es. Sobre o fato de viaturas estarem no local, a prefeitura n\u00e3o prestou informa\u00e7\u00f5es, mas o prefeito Orlando Morando, do PSDB, posicionou-se publicamente a favor da construtora.<\/p>\n<p>Em um v\u00eddeo divulgado no seu perfil no Facebook, Morando, que chegou a se \u201cfantasiar\u201d de guarda municipal para \u201cca\u00e7ar bandidos\u201d, diz que n\u00e3o vai fugir do \u201cproblema\u201d e que a prefeitura dar\u00e1 \u201ctodo o suporte necess\u00e1rio para que a ordem judicial seja cumprida e o terreno devolvido a seus propriet\u00e1rios\u201d. O prefeito fala tamb\u00e9m em restabelecer a paz para quem mora na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Viver em paz com a fam\u00edlia \u00e9 o que procura o eletricista desempregado Manoel Alves Peixe, de 45 anos. \u201cT\u00e1 dif\u00edcil, minha filha, s\u00f3 Jesus mesmo para ter n\u00f3s na causa\u201d, diz, enquanto bate os primeiros pregos do barraco. Casado com uma cozinheira, desempregada como ele, e pai de tr\u00eas filhos, Peixe paga 900 reais de aluguel e n\u00e3o tem mais de onde tirar dinheiro.<\/p>\n<p>Vive de pequenos bicos e do pouco que restou da rescis\u00e3o contratual. Baiano de Senhor do Bonfim, aportou em S\u00e3o Paulo em 1990. Veio \u201cs\u00f3 de Havaianas\u201d para a casa do padrinho em busca de trabalho.<br \/>\nCasou-se aos 26 anos e nunca conseguiu casa pr\u00f3pria. At\u00e9 tentou entrar para o programa Minha Casa Minha Vida, mas foi v\u00edtima de um golpe de um corretor estelionat\u00e1rio que cobrava mil reais dos interessados em um im\u00f3vel.<\/p>\n<p>Quem sabe Peixe venha a se aconselhar com a futura advogada, e agora sua vizinha, Daiana da Silva Ara\u00fajo, de 28 anos. Casada h\u00e1 seis meses, ela e o marido v\u00e3o trocar o quarto alugado, pelo qual pagam 350 reais, por um barraco de pl\u00e1stico preto onde mal cabe um colch\u00e3o de casal. \u201cN\u00e3o tenho mais de onde tirar dinheiro, o aluguel vence dia 20 e a gente n\u00e3o tem um centavo para pagar.\u201d<\/p>\n<p>Daiana Ara\u00fajo e o marido est\u00e3o desempregados. De quinta a domingo, ele faz bicos em um lava-r\u00e1pido, onde recebe 30 reais por dia de trabalho. Ela \u00e0s vezes consegue um trabalho de faxina, \u00e0s vezes de passadeira.<\/p>\n<p>A renda n\u00e3o \u00e9 suficiente para o b\u00e1sico, comer e morar, e, como se a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o pudesse ficar pior, o passe livre estudantil de Daiana est\u00e1 50 dias atrasado, o que praticamente a impede de frequentar a Faculdade de Direito que poderia lhe garantir um futuro mais est\u00e1vel. \u201cTenho de pedir carona para ir e voltar, sen\u00e3o fica dif\u00edcil. Mas minha faculdade n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma necessidade, \u00e9 um sonho.\u201d<\/p>\n<p>Necessidade e sonho resumem perfeitamente a motiva\u00e7\u00e3o de quem participa de uma ocupa\u00e7\u00e3o, que ganha ares de esperan\u00e7a quando unida aos sonhos e necessidades de outros tantos. Como ilustra Lucineide Matos, de 55 anos, h\u00e1 apenas 24 horas no acampamento e confiante no futuro: \u201cEstou feliz, vai dar tudo certo. Consegui um pedacinho aqui, mas parece que estou dentro de uma mans\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/<wbr \/>571759-vitimas-do-desemprego-<wbr \/>refugiados-na-megaocupacao<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16240\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[200],"tags":[227],"class_list":["post-16240","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-moradia","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4dW","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16240","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16240"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16240\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16240"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16240"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16240"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}