{"id":1625,"date":"2011-07-01T23:09:18","date_gmt":"2011-07-01T23:09:18","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1625"},"modified":"2011-07-01T23:09:18","modified_gmt":"2011-07-01T23:09:18","slug":"nao-e-a-grecia-e-o-capitalismo-estupido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1625","title":{"rendered":"N\u00e3o \u00e9 a Gr\u00e9cia. \u00c9 o capitalismo, est\u00fapido!"},"content":{"rendered":"\n<p>As m\u00eddias, as consultorias, os economistas, os bancos de investimentos, os presidentes dos bancos centrais, os ministros de fazenda, os governantes n\u00e3o fazem outra coisa que falar da &#8220;crise grega&#8221;.<\/p>\n<p>Ante tal vozerio mal intencionado, \u00e9 oportuno parafrasear um exemplo da campanha de Bill Clinton para dizer e insistir que a crise \u00e9 do capitalismo, n\u00e3o da Gr\u00e9cia. <strong>Que este pa\u00eds \u00e9 um dos elos mais d\u00e9beis da cadeia imperialista<\/strong> e que \u00e9 por causa dele que ali ocorre a eclos\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es que o est\u00e1 corroendo irremissivelmente.<\/p>\n<p>O alarma dos capitalistas, sem d\u00favidas justificado, \u00e9 que a queda da Gr\u00e9cia pode arrastar outros pa\u00edses como Espanha, Irlanda, Portugal e comprometer seriamente a estabilidade econ\u00f4mica e pol\u00edtica das principais pot\u00eancias da Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>Segundo informa a imprensa financeira internacional, representativa dos interesses da &#8220;comunidade de neg\u00f3cios&#8221; (leia-se: os gigantescos oligop\u00f3lios que controlam a economia mundial) a resist\u00eancia popular \u00e0s brutais medidas de austeridade propostas <strong>pelo ex-presidente da Internacional Socialista<\/strong> e atual primeiro ministro grego, Georgios Andreas Papandreu, amea\u00e7am arrojar pela amurada todos os esfor\u00e7os at\u00e9 agora realizados para amenizar a crise.<\/p>\n<p>A afli\u00e7\u00e3o se espalha no patronato frente \u00e0s dificuldades com que trope\u00e7a Atenas para impor as brutais pol\u00edticas exigidas por seus supostos salvadores. Com toda raz\u00e3o e justi\u00e7a os trabalhadores n\u00e3o querem ser responsabilizados por uma crise provocada pelos jogadores das finan\u00e7as, e a amea\u00e7a de uma explos\u00e3o social, que poderia reverberar por toda a Europa, tem paralisadas as lideran\u00e7as governamentais grega e europeia.<\/p>\n<p>A inje\u00e7\u00e3o de fundos outorgada pelo Banco Central Europeu, o FMI e os principais pa\u00edses da zona do euro n\u00e3o tem feito sen\u00e3o agravar a crise e fomentar os movimentos especulativos do capital financeiro. O resultado mais vis\u00edvel tem sido acrescentar a exposi\u00e7\u00e3o dos bancos europeus ao que j\u00e1 aparece como um inevit\u00e1vel default grego.<\/p>\n<p>As conhecidas receitas do FMI, do BM e do Banco Central Europeu: redu\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios e aposentadorias, demiss\u00f5es massivas de funcion\u00e1rios p\u00fablicos, arremata\u00e7\u00e3o de empresas estatais e desregulamenta\u00e7\u00e3o dos mercados para atrair investimentos tem surtido os mesmos efeitos sofridos por v\u00e1rios pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, notavelmente a Argentina. Parece que o curso dos acontecimentos na Gr\u00e9cia se encaminha para uma estrondosa queda como a que os argentinos conheceram em dezembro de 2001.<\/p>\n<p>Deixando de lado algumas \u00f3bvias diferen\u00e7as, h\u00e1 demasiadas semelhan\u00e7as que abonam este progn\u00f3stico. O projeto econ\u00f4mico \u00e9 o mesmo, o neoliberalismo e suas pol\u00edticas de choque; os atores principais s\u00e3o os mesmos: <strong>o FMI e os c\u00e3es guardi\u00e3es do imperialismo em escala global;<\/strong> os ganhadores s\u00e3o os mesmos: o capital concentrado e especialmente a banca e as finan\u00e7as; os perdedores s\u00e3o tamb\u00e9m os mesmos: os assalariados, os trabalhadores e os setores populares; e a resist\u00eancia social a essas pol\u00edticas tem a mesma for\u00e7a que soube ter na Argentina. \u00c9 dif\u00edcil imaginar um soft landing, uma aterrisagem suave, desta crise, O previs\u00edvel e mais prov\u00e1vel \u00e9 precisamente o contr\u00e1rio, tal como ocorreu no pa\u00eds sul-americano.<\/p>\n<p>Claro que diferente da crise argentina, a grega est\u00e1 destinada a ter um impacto global incomparavelmente maior. Por isso o mundo dos neg\u00f3cios contempla com horror o poss\u00edvel &#8220;cont\u00e1gio&#8221; da crise e seus devastadores efeitos entre os pa\u00edses do capitalismo metropolitano. Estima-se que a d\u00edvida p\u00fablica grega alcan\u00e7a os 486 bilh\u00f5es de d\u00f3lares e que representa uns 165% do PIB desse pa\u00eds. Mas tal coisa ocorre numa regi\u00e3o, a &#8220;eurozona&#8221; onde o endividamento j\u00e1 ascende os 120% do PIB dos pa\u00edses do euro, com casos como o da Alemanha com uns 143%, Fran\u00e7a 188% e Gr\u00e3 Bretanha com 398%.<\/p>\n<p>N\u00e3o deve ser esquecido, al\u00e9m disso<strong>, que a d\u00edvida p\u00fablica dos Estados Unidos j\u00e1 alcan\u00e7a 100% de seu PIB<\/strong>. Em uma palavra: o cora\u00e7\u00e3o do capitalismo global est\u00e1 gravemente enfermo. Por contraposi\u00e7\u00e3o, a d\u00edvida p\u00fablica chinesa em rela\u00e7\u00e3o ao seu gigantesco PIB \u00e9 de apenas 7%, a da Coreia do Sul 25% e a do Vietn\u00e3 34%. H\u00e1 um momento em que a economia, que sempre \u00e9 pol\u00edtica, se transforma em matem\u00e1tica e os n\u00fameros cantam. E a melodia que entoam dizem que aqueles pa\u00edses est\u00e3o na borda de um abismo e que sua situa\u00e7\u00e3o \u00e9 insustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>A d\u00edvida grega \u2014 exitosamente dissimulada em sua gesta\u00e7\u00e3o e desenvolvida gra\u00e7as ao conchavo criminoso de interesses entre o governo conservador grego de Kostas Karamanlis <strong>e o banco de investimento favorito da Casa Branca, Goldman Sachs<\/strong> \u2014 foi financiada por muitos bancos, principalmente na Alemanha e, em menor medida, Fran\u00e7a. Agora s\u00e3o credores de pap\u00e9is de uma d\u00edvida que a qualificadora de riscos Standard &amp; Poor&#8217;s (S&amp;P) qualificou com a pior nota do mundo: CCC, isto \u00e9, ter cr\u00e9dito sobre um devedor insolvente e que n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de pagar.<\/p>\n<p>Em igual ou pior posi\u00e7\u00e3o se encontra o ultraneoliberal Banco Central Europeu, raz\u00e3o pela qual um default grego teria consequ\u00eancias catacl\u00edsmicas para este verdadeiro ministro das finan\u00e7as da Uni\u00e3o Europeia, situado \u00e0 margem de qualquer controle democr\u00e1tico. As perdas que originaria a bancarrota grega n\u00e3o s\u00f3 comprometeria aos bancos expostos mas tamb\u00e9m aos dos pa\u00edses com problemas, como Espanha, Irlanda, It\u00e1lia e Portugal, que teriam que suportar juros mais elevados que os atuais para equilibrar suas deterioradas finan\u00e7as. N\u00e3o \u00e9 preciso muito esfor\u00e7o para imaginar o que sucederia se os gregos suspendessem unilateralmente os pagamentos, cujo primeiro impacto se daria na linha de flutua\u00e7\u00e3o da nave europeia, a Alemanha.<\/p>\n<p>Os problemas da crise grega (e europeia) s\u00e3o de origem estrutural. N\u00e3o se devem a erros ou a percal\u00e7os inesperados sen\u00e3o que expressam a classe de resultados previs\u00edveis e esperados quando a especula\u00e7\u00e3o e o parasitismo rentista assume o posto de comando do processo de acumula\u00e7\u00e3o de capital.<\/p>\n<p>Por isso, no fragor da Grande Depress\u00e3o dos anos 30, John Maynard Keynes recomendava, em sua c\u00e9lebre Teoria Geral da Ocupa\u00e7\u00e3o, o Interesse e o Dinheiro, praticar a eutan\u00e1sia do rentista como condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para garantir o crescimento econ\u00f4mico e reduzir as flutua\u00e7\u00f5es c\u00edclicas end\u00eamicas no capitalismo. Seu conselho n\u00e3o foi considerado e hoje s\u00e3o aqueles setores os que se apropriaram da hegemonia capitalista, com as consequ\u00eancias pro todos conhecidas.<\/p>\n<p>Comentando sobre esta crise, Istvan Meszaros dizia h\u00e1 poucos dias que <strong>&#8220;uma crise estrutural requer solu\u00e7\u00f5es estruturais&#8221;,<\/strong> algo que quem est\u00e1 administrando a crise recha\u00e7a terminantemente. Pretendem curar um enfermo em grav\u00edssimo estado com aspirinas. \u00c9 o capitalismo que est\u00e1 em crise e para sair dela torna-se imprescind\u00edvel sair do capitalismo, superar o quanto antes um sistema perverso que conduz a humanidade ao holocausto em meio a enormes sofrimentos e uma depreda\u00e7\u00e3o meio-ambiental sem precedentes.<\/p>\n<p>Por isso a mal chamada &#8220;crise grega&#8221; n\u00e3o \u00e9 assim; \u00e9, em lugar disso, <strong>o sintoma mais agudo da crise geral do capitalismo, essa que os meios de comunica\u00e7\u00e3o da burguesia e do imperialismo asseguram h\u00e1 tr\u00eas anos que j\u00e1 est\u00e1 em vias de supera\u00e7\u00e3o<\/strong>, apesar das coisas estarem cada vez piores. O povo grego, com sua firme resist\u00eancia, demonstra estar disposto a acabar com um sistema que j\u00e1 \u00e9 invi\u00e1vel n\u00e3o no longo, mas no m\u00e9dio prazo. H\u00e1 que acompanh\u00e1-lo em sua luta e organizar a solidariedade internacional para tratar de evitar a feroz repress\u00e3o de que \u00e9 objeto, m\u00e9todo predileto do capital para solucionar os problemas que cria sua exorbitante voracidade.<\/p>\n<p><em><strong>Talvez a Gr\u00e9cia \u2014 que h\u00e1 mais de 2.500 anos inventou a filosofia, a democracia, o teatro, a trag\u00e9dia e tantas outras coisas \u2014 possa voltar-se sobre seus foros e inventar a revolu\u00e7\u00e3o anticapitalista do s\u00e9culo 21. A humanidade lhe estaria profundamente agradecida.<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.atilioboron.com\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Atilio Boron \n\n\n\n\n\n\n\n\nAtilio Bor\u00f3n\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1625\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-1625","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-qd","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1625","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1625"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1625\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1625"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1625"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1625"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}