{"id":1629,"date":"2011-07-03T02:22:44","date_gmt":"2011-07-03T02:22:44","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1629"},"modified":"2011-07-03T02:22:44","modified_gmt":"2011-07-03T02:22:44","slug":"imagino-um-socialismo-democratico-sem-dogmas-nem-preconceitos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1629","title":{"rendered":"\u201cImagino um socialismo democr\u00e1tico, sem dogmas nem preconceitos\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>Entrevista de Mariela Castro, diretora do Centro Nacional de Educa\u00e7\u00e3o Sexual (CENESEX) de Cuba, filha de Raul Castro.<\/p>\n<p>Reda\u00e7\u00e3o <em>Cafefuerte<\/em><\/p>\n<p><strong>ENTREVISTA DE MARIELA CASTRO COM O PROGRAMA \u201cA S\u00d3S\u201d DE <\/strong><em><strong>ATUALIDADE RT<\/strong><\/em><strong>, 2 DE JUNHO DE 2011.<\/strong><\/p>\n<p><strong>ELENA ROSTOVA:<\/strong> Muito obrigada por ter aceitado a compartilhar experi\u00eancias mais pessoais conosco. Voc\u00ea \u00e9 a filha de Raul Castro e sobrinha de Fidel Castro. Na vida cotidiana, isso n\u00e3o te afeta, n\u00e3o te limita?<\/p>\n<p><strong>Mariela Castro: <\/strong>Afeta. Desde um ponto de vista \u00e9 incomodo, mas desde outro ponto de vista \u00e9 bonito, porque tenho recebido muita gratifica\u00e7\u00e3o espiritual, agradecimento, mensagens muito bonitas de agradecimento muito sincero de pessoas n\u00e3o somente em Cuba mas de outros lugares do mundo justamente por isso. Ou seja, me tem dado gratifica\u00e7\u00f5es espirituais.<\/p>\n<p><strong>ER: <\/strong>Voc\u00ea nasceu pouco depois do triunfo da revolu\u00e7\u00e3o cubana. Como lembra o ambiente que reinava sua inf\u00e2ncia?<\/p>\n<p><strong>MC:<\/strong> Eu lembro minha inf\u00e2ncia muito feliz. Realmente meus pais me deixavam isso de explorar, eu lembro que sempre estava pendurada numa \u00e1rvore, pendurada em qualquer coisa, subindo colunas&#8230; n\u00e3o havia essa limita\u00e7\u00e3o de por ser menina n\u00e3o podia fazer coisas de menino, ainda que sempre havia algu\u00e9m que me dizia: \u201cdesce das \u00e1rvores que isso \u00e9 coisa de menino\u201d. Mas sinto que havia liberdade, que recebiam com simpatia qualquer questionamento que fazia, sempre houve a possibilidade de dialogar, de buscar o espa\u00e7o familiar do dialogo, inclusive do questionamento, de eles a n\u00f3s e n\u00f3s a eles, da pr\u00f3pria sociedade, da hist\u00f3ria&#8230;<\/p>\n<p>Lembro quando comecei na universidade, que comecei a estudar Filosofia Marxista, (que) me deu muitas ferramentas para questionar a realidade, lembro que lia a revista <em>Literatura Sovi\u00e9tica<\/em> que vendiam aqui que era muito boa, e h\u00e1 uma que nunca vou esquecer, eu creio que vou guard\u00e1-la toda minha vida, vou conserv\u00e1-la por toda a minha vida, que era uma dedicada a Maiakovski, e me deu muita id\u00e9ia do que foi essa \u00e9poca em que viveu Maiakovski, contradit\u00f3ria entre a \u00e9poca de L\u00eanin, a desapari\u00e7\u00e3o de L\u00eanin, quando come\u00e7a Stalin, como mudou a maneira de experimentar o socialismo e ele (Maiakovski) como o sofreu. E ent\u00e3o li discursos do L\u00eanin nos quais questionava o \u201ca forma\u00e7\u00e3o de tend\u00eancias\u201d, e um grupo que ele considerava que n\u00e3o ajudava ao processo de experimenta\u00e7\u00e3o do socialismo, porque tergiversava sobre seu sentido, e eu lembro que isso me iluminou, me deu pistas para questionar a realidade cubana, e depois que a estudava, passava para o meu papai. Dizia-lhe: Olha, papai, isto tem que mudar aqui tamb\u00e9m, porque acontecia l\u00e1 com L\u00eanin, e est\u00e1 acontecendo conosco.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos essa possibilidade de dialogar e de questionar a pr\u00f3pria realidade cubana. E questionava o campo socialista tamb\u00e9m. E ao fim dos anos, me dou conta que tive essa possibilidade, essa liberdade, que fal\u00e1vamos muito abertamente em casa sobre muitas coisas. E realmente isso me deu muita fortaleza e me fez muito feliz de que pud\u00e9ssemos ter essa possibilidade.<\/p>\n<p><strong>Raul Castro quer tanta liberdade como Mariela<\/strong><\/p>\n<p><strong>ER: <\/strong>Voc\u00ea mencionou que seus pais tem tratado de proteg\u00ea-la da pol\u00edtica, que sem d\u00favida n\u00e3o \u00e9 um mundo simples. Mas, at\u00e9 que ponto isso tem sido poss\u00edvel? De qualquer maneira n\u00e3o \u00e9 uma responsabilidade que vem com o nome?<\/p>\n<p><strong>MC:<\/strong> N\u00e3o, n\u00e3o gosto de assumir responsabilidades p\u00fablicas desde o nome, sem uma responsabilidade m\u00ednima como cidad\u00e3 e uma responsabilidade de afeto familiar, que eu n\u00e3o quero fazer coisas que lastimem meus pais, a minha fam\u00edlia, como qualquer outra pessoa com sentimento de pertin\u00eancia a uma fam\u00edlia. Mas n\u00e3o&#8230; em algum momento quando eu era mais jovem me propunham, olha para que&#8230;, me propunham de delegada para um congresso de uma organiza\u00e7\u00e3o estudantil, e ent\u00e3o eu, [me perguntava] bem, e por que eu? Que no fim, a realidade foi dizendo-me que sim, que teria que participar e assumir responsabilidades mas n\u00e3o muito al\u00e9m das que eu assumia em \u00e2mbito mais simples&#8230;<\/p>\n<p>E cada vez que algu\u00e9m me propunha um trabalho, minha m\u00e3e [Vilma Sp\u00edn] dizia que n\u00e3o, que me deixassem tranq\u00fcila onde eu estava. E meu pai tamb\u00e9m vejo que tem feito tudo o poss\u00edvel para evitar que quando algu\u00e9m me prop\u00f5e para alguma responsabilidade, ele pede por favor que me deixem tranq\u00fcila em meu trabalho e nas coisas que fa\u00e7o. Eu interpreto como me protegesse. Eu sou muito apaixonada e eles, sobretudo meu pai que \u00e9 muito apaixonado, e [vendo] que mundo pol\u00edtico \u00e9 complexo e contradit\u00f3rio, talvez eles preferem que eu n\u00e3o viva essas contradi\u00e7\u00f5es. Os pais tendem sempre a proteger, ainda que digam que n\u00e3o, tendem a proteger. Talvez deva agradecer-lhes, porque eu identifico minha participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica desde a participa\u00e7\u00e3o cidad\u00e3. Creio que me d\u00e1 mais liberdade. Inclusive uma vez me disse; meu pai me disse que ele gostava muito da minha liberdade. Que queria ser t\u00e3o livre como eu. E bom, talvez essa \u00e9 a mensagem que eu deva captar.<\/p>\n<p><strong>ER:<\/strong> Uma vez em uma entrevista com Ricardo Alarc\u00f3n, ele nos falava de um forte campanha de descr\u00e9dito contra Cuba. Voc\u00ea, sendo parte da fam\u00edlia Castro, alguma vez se sentiu v\u00edtima dessa pol\u00edtica?<\/p>\n<p><strong>MC:<\/strong> Sim. Acredito que todas e todos os cubanos temos sido v\u00edtimas&#8230; Ou seja, todos os cubanos identificados com o processo revolucion\u00e1rio, temos sido v\u00edtimas disso. Ainda que eu tenha que agradecer que a grande maioria dos jornalistas com os quais tenho tido v\u00ednculo tem sido muito gentis comigo, ainda que, bem, quando chegam as not\u00edcias \u00e0s editoras ou meios de comunica\u00e7\u00e3o as coisas possam mudar. Mas sim, tenho percebido na grande maioria dos jornalistas com os quais tenho dialogado, honestidade.<\/p>\n<p><strong>Mais l\u00edder que tio<\/strong><\/p>\n<p><strong>ER:<\/strong> As grandes figuras da hist\u00f3ria muitas vezes tem que sacrificar o familiar por sua obriga\u00e7\u00e3o ante o povo, ante sua miss\u00e3o. Em seu caso, at\u00e9 que ponto poderia dizer-se que Raul pol\u00edtico n\u00e3o deixou espa\u00e7o para Raul pai?<\/p>\n<p><strong>MC:<\/strong> N\u00e3o, n\u00e3o poderia dizer. Porque tanto meu pai como minha m\u00e3e fizeram um grande esfor\u00e7o para dedicar tempo a fam\u00edlia. Sobre todas as possibilidades, \u00e0s vezes mesclavam reuni\u00f5es de trabalho com presen\u00e7a familiar, se tinham que fazer algum almo\u00e7o ou um jantar de trabalho pediam estar com os filhos, ou seja, eles sentiam muita falta disso e por isso davam muita import\u00e2ncia ao tempo que est\u00e1vamos juntos. E tamb\u00e9m por isso agrade\u00e7o. \u00c0s vezes eu reclamava que queria ter uma m\u00e3e e um pai comuns e normais, e queria que estivessem na escola todos os dias como outros pais e outras m\u00e3es, que nos levassem&#8230; Minha m\u00e3e teve mais tempo que meu pai para ir \u00e0s reuni\u00f5es de pais, de estar mais vinculada a nossas vidas cotidianas, mas ela tamb\u00e9m tinha muito trabalho. E ainda assim, buscava tempo.<\/p>\n<p><strong>ER: <\/strong>Quando falamos de Fidel Castro, o mundo inteiro imagina esse her\u00f3i, essa figura legend\u00e1ria que ousou fazer frente contra o imp\u00e9rio norte-americano. Para voc\u00ea, \u00e9 somente tio Fidel, ou segue vendo a ele como uma figura?<\/p>\n<p><strong>MC:<\/strong> N\u00e3o. Quando eu era menina, sim era tio Fidel, mas a medida em que, j\u00e1 depois da adolesc\u00eancia e da juventude, fui me dando conta com mais clareza de quem era Fidel, no sentido hist\u00f3rico e para o povo de Cuba, j\u00e1 comecei a v\u00ea-lo como Fidel, como todo mundo.<\/p>\n<p><strong>ER: <\/strong>E surgiu certa dist\u00e2ncia?<\/p>\n<p><strong>MC:<\/strong> Sim, surgiu uma dist\u00e2ncia com respeito e, al\u00e9m disso, me dignificava ver Fidel como l\u00edder e n\u00e3o como tio. Sentia que era mais digno. \u00c8 como crescer e dar-se conta: essa pessoa n\u00e3o \u00e9 teu tio, essa pessoa tem uma responsabilidade social que te coloca em uma rela\u00e7\u00e3o diferente diante dele.<\/p>\n<p><strong>ER: <\/strong>O que voc\u00ea poderia nos contar dele como ser humano, como pessoa no cotidiano?<\/p>\n<p><strong>MC:<\/strong> No cotidiano, eu gostava muito desde crian\u00e7a, bem, a apari\u00e7\u00e3o de Fidel na fam\u00edlia, de repente diziam Fidel vai chegar, ent\u00e3o, chegou Fidel, era sempre um acontecimento, uma grande emo\u00e7\u00e3o, e em parte muito prazeroso. Ou seja, pass\u00e1vamos bem na companhia de escut\u00e1-lo. Realmente sempre t\u00ednhamos desejo de escut\u00e1-lo, de fazer-lhe muitas perguntas; sempre que algu\u00e9m v\u00ea a Fidel tem vontade de perguntar-lhe muitas coisas, porque Fidel tem resposta para tudo, e al\u00e9m disso respostas engenhosas, respostas inteligentes. Ent\u00e3o, desde as perguntas mais banais at\u00e9 as perguntas mais complexas, d\u00e3o desejo de perguntar-lhe. E ele sempre tem resposta pra todo tipo de pergunta. Sempre me deu muita satisfa\u00e7\u00e3o ter a oportunidade de compartilhar momentos em que contava quest\u00f5es de hist\u00f3ria, coisas que haviam vivido, an\u00e1lises da realidade que se estava vivendo.<\/p>\n<p>Mas sobretudo, mais no ambiente privado, era muito divertido quando se reuniam ele, meu pai, Ramon, o irm\u00e3o maior, e contavam coisas deles da inf\u00e2ncia, ao longo de sua vida, durante a guerra de guerrilhas, e era simp\u00e1tico escutar coisas que nunca haviam sido ditas entre eles, e que nesse momento se diziam: \u201cE naquele momento me chamou a aten\u00e7\u00e3o e n\u00e3o gostei daquilo, porque eu n\u00e3o tive culpa.\u201d E isso era muito simp\u00e1tico, riam-se muito fazendo relembrando coisas, inclusive de momentos dif\u00edceis tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>ER:<\/strong> E do que contavam, alguma recorda\u00e7\u00e3o da \u00e9poca da Revolu\u00e7\u00e3o lhe impressionou em particular?<\/p>\n<p><strong>MC:<\/strong> Muitas. Foram muitos acontecimentos, porque eram muitas coisas e eu observava muito, porque havia muitas coisas que falavam em sussurros, em segredo, e eu sempre tratando de entender o que acontecia por ali, \u00e0s vezes tratava de perguntar e \u00e0s vezes n\u00e3o, para que n\u00e3o me exclu\u00edssem. Queria entender seus pontos de vista sobre as coisas que aconteciam em Cuba e no mundo. Uma [coisa] que me impactou muito foi Angola, a Guerra de Angola, Cuito Canavale, que foi um momento fundamental na Guerra de Angola para levar \u00e0 vit\u00f3ria final. Foi um acontecimento militar muito especial, no que se refere ao estudo de t\u00e1ticas militares (para as pessoas que se dedicam a isso).<\/p>\n<p>E eu lembro esse momento em que os cubanos estavam no sul de Angola, cercados pelas for\u00e7as sul-africanas e, no meio do cerco, de madrugada, constru\u00edram um aeroporto para que aterrissassem as tropas que fortaleceram as posi\u00e7\u00f5es angolanas e cubanas nesse confronto, eu lembro que foi um momento muito tenso, de muito sofrimento, de muito sil\u00eancio. E eu era jovem, e n\u00e3o entendia o que acontecia, e eu pensava que havia algum problema comigo. E eu chegava e dizia: \u201cPor que n\u00e3o falam? O que est\u00e1 acontecendo, mal educados? Que problema voc\u00eas tem?\u201d E eu sa\u00eda, toda ofendida, e n\u00e3o sabia tudo o que estava acontecendo, at\u00e9 que um dia chego em casa e havia uma festa, todo mundo celebrando, contentes, estava Fidel e um monte de companheiros do Ex\u00e9rcito, e ali me interei o que havia acontecido. Olha, disse a mim mesma, n\u00e3o sabia que a coisa era t\u00e3o grave, e eu pensava que havia feito algo mal. E assim muitas coisas aconteciam de todo ponto de vista, e ent\u00e3o n\u00e3o se podia falar, e eles se reuniam e falavam em segredo, e eu louca pra saber o que estava acontecendo. Com o tempo entendi que era melhor n\u00e3o saber o que n\u00e3o te correspondia e n\u00e3o perguntar o que n\u00e3o me correspondia.<\/p>\n<p><strong>ER: <\/strong>Voc\u00ea que viveu de dentro, durante esses momentos duros, sentia-se temor, uma atmosfera de d\u00favidas, de medo por algum momento?<\/p>\n<p><strong>MC: <\/strong>Sim. Tanto desde que come\u00e7ou a situa\u00e7\u00e3o que nos levou ao per\u00edodo especial com a queda do campo socialista, que foi vivido com muito sofrimento por todos os cubanos, e essa incerteza que j\u00e1 se estava esperando e quando surpreendeu-nos a todos \u2013 Fidel dizia, se apagou o sol em um segundo quando caiu a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Esse foi um momento muito duro e tudo o que veio depois foi mais duro, com o sofrimento do que se ia perdendo, todos os avan\u00e7os sociais que se iam perdendo. Isso se viveu com muito sofrimento a n\u00edvel familiar.<\/p>\n<p>A Guerra de Angola e nossos mortos em Angola viveu-se com muito sofrimento tamb\u00e9m; Eli\u00e1n, quando seq\u00fcestraram a Eli\u00e1n Gonz\u00e1lez; lembro tamb\u00e9m quando seq\u00fcestravam pescadores, que se via meu pai muito dolorido, muito angustiado, cada vez que havia um ato terrorista; o crime de Barbados sofreu-se muito na [minha] fam\u00edlia, e em toda a fam\u00edlia cubana, ainda sofremos a lembran\u00e7a do crime de Barbados, [sobre ele] ainda n\u00e3o se fez justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Os poucos avan\u00e7os que se alcan\u00e7avam vivia-se com muita felicidade, com muita hist\u00f3ria. Mas, lembro-me de 1994, quando houve um dos tantos intentos de manipular a n\u00edvel de pol\u00edtica internacional os meios norte-americanos para intervir em Cuba, quando aquela crise dos <em>balseros<\/em>. Lembro-me que eu fui a Santiago de Cuba com meu pai, que foi para controlar a situa\u00e7\u00e3o na base Naval de Guantanamo, o que poderia passar, e vi que havia real possibilidade de [uma] invas\u00e3o norte-americana. Vivi com muita angustia, [mas] Fidel o manejou a n\u00edvel diplom\u00e1tico de maneira genial.<\/p>\n<p>Diria que Fidel sempre fazia como excelentes jogadas de xadrez, diria eu \u2013 todos est\u00e1vamos atentos \u00e0 jogada que faria -, e ao final sempre fazia jogadas espetaculares que salvavam a soberania do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Outro acontecimento muito triste que est\u00e1 sendo vivido por minha fam\u00edlia, por toda a imensa maioria das fam\u00edlias cubanas, \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o dos nossos cinco her\u00f3is presos ilegalmente, arbitrariamente, nos Estados Unidos por proteger o povo cubano dos atentados terroristas que s\u00e3o organizados desde os Estados Unidos com financiamento do governo norte-americano. Isso estamos vivendo com muita impot\u00eancia, com muita raiva, e tenho que dizer a palavra raiva porque ante a arbitrariedade, ante a injusti\u00e7a, o ser humano sente-se mal. Seus direitos humanos s\u00e3o violados em todos os sentidos nesse processo, e n\u00f3s o interpretamos \u2013 ao menos eu interpreto \u2013 como uma <em>vendetta<\/em> do sistema mafioso de poder norte-americano, como um pretexto, um coringa: a jogada que eles tem para tratar de manipular as respostas de Cuba na pol\u00edtica e na rela\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos.<\/p>\n<p>Mas at\u00e9 agora n\u00e3o puderam fazer-nos curvar, n\u00e3o puderam lograr que violemos nossos princ\u00edpios mais importantes e realmente n\u00e3o sei qual ser\u00e1 sua pr\u00f3xima jogada. Porque realmente s\u00e3o t\u00e3o est\u00fapidos que nem sequer querem trocar nossos prisioneiros pelo prisioneiro norte-americano que est\u00e1 aqui [Alan Gross], que j\u00e1 foi condenado em um julgamento legal e com todos os recursos relacionados aos direitos do prisioneiro. Ent\u00e3o, estamos vivendo isso com muita indigna\u00e7\u00e3o e n\u00e3o vamos parar de lutar para que se fa\u00e7a justi\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Eu gostava do Che<\/strong><\/p>\n<p><strong>ER: <\/strong>Junto com sua fam\u00edlia, voc\u00ea teve a oportunidade de ver grandes figuras do s\u00e9culo XX, entre outros Che Guevara visitava sua casa. Como os olhos de uma menina viam-no? Que lembran\u00e7as tem de Che?<\/p>\n<p><strong>MC:<\/strong> Causavam-me muita simpatia todos os amigos de meu pai. Todos pareciam-me preciosos, atrativos, desde muito pequena eu era muito comunicativa e queria estar perto [deles] para escut\u00e1-los falar. E eu tenho uma lembran\u00e7a muito clara de Che. Uma vez estavam fazendo um churrasco, estavam todos reunidos ao redor da carne, conversando, ainda vestidos de verde-oliva, e a lembran\u00e7a que eu tenho do Che \u00e9 que eu gostava muito dele, e eu queria sempre chegar nele cuidadosamente para que meu pai n\u00e3o brigasse comigo por estar incomodando enquanto eles estavam ali conversando. E eu chegava feliz, iluminada onde estava o Che, porque lembro que era muito terno. Um homem muito terno que sabia tratar as crian\u00e7as. E para as crian\u00e7as isso \u00e9 importante, as pessoas que sabem tratar. E eu tenho assim uma lembran\u00e7a muito especial, fascinada de como era ele, de quem era ele, e todo o demais foi alimentando-se com as imagens posteriores, claro.<\/p>\n<p>Mas quando eu contava essa cena a minha m\u00e3e, ela se surpreendia e me dizia: Como podes lembrar, se tinhas dois anos? Mas era assim mesmo, eu lhe descrevia toda a situa\u00e7\u00e3o, que meu pai brigou comigo e ent\u00e3o&#8230; \u201csim, foi assim mesmo, como \u00e9 que podes te lembrar?\u201d, me dizia. Bem, as coisas especiais n\u00e3o se esquecem. Che era uma pessoa impactante.<\/p>\n<p><strong>ER: <\/strong> De outros que conhecesses, que lhe impressionaram, quem poderias mencionar?<\/p>\n<p><strong>MC: <\/strong>A Giap. O General Giap, vietnamita. Era um homem inteligent\u00edssimo, um ser humano fascinante, e sentia uma grande admira\u00e7\u00e3o por ele. General vietnamita que era Ministro da Defesa, que ganhou a guerra do [contra] Jap\u00e3o, Fran\u00e7a, e derrotou os norte-americanos no Vietnam. E era de uma humildade, que era o que mais gostava nele, a humildade, esse esp\u00edrito oriental humilde&#8230; Precioso. A esse homem, esse senhor, eu tinha muita admira\u00e7\u00e3o, j\u00e1 morreu. Mas h\u00e1 muito mais pessoas que agora n\u00e3o me lembro&#8230; Bem, [Gabriel] Garcia Marquez, um grande amigo da fam\u00edlia, o escritor Garcia Marquez. Recordo a Angela Davis, que eu sentia muita admira\u00e7\u00e3o por ela; minha m\u00e3e a atendia pela organiza\u00e7\u00e3o de mulheres; todas essas mulheres vietnamitas&#8230; e Valentina Tereshkova, agradava-me muito, era muito simp\u00e1tica. Era uma amiga da fam\u00edlia, n\u00e3o somente uma figura hist\u00f3rica. Muitas pessoas muito especiais.<\/p>\n<p><strong>ER: <\/strong>E como nota com o tempo, tanto seu pai como seu tio, como foram mudando?<\/p>\n<p><strong>MC: <\/strong>Olha, desde crian\u00e7a at\u00e9 ficar mais velha, eu vejo um trecho muito grande em como era meu pai quando eu era crian\u00e7a, como era Fidel, e no que foram mudando \u2013 em Fidel me dou conta por seus discursos, como foram mudando em muitos temas, e em meu pai em sua atitude pessoal ante muitas coisas. Foram mudando inclusive sua maneira de dirigir, em tem\u00e1ticas, por exemplo, nos temas do machismo como foram evoluindo, na vis\u00e3o sobre a pessoa homossexual como foram evoluindo, ainda que minha m\u00e3e o influenciou muito nas mudan\u00e7as que foi aceitando em sua vida. Mas em geral sim, em maior maturidade e maior clareza.<\/p>\n<p><strong>ER:<\/strong> Voc\u00ea diria que em algum aspecto perderam esse romantismo, essa for\u00e7a que tinham, que se desiludiram?<\/p>\n<p><strong>MC: <\/strong>N\u00e3o, claro que viveram coisas dif\u00edceis, viveram muitas desilus\u00f5es, mas tamb\u00e9m viveram muitas gratifica\u00e7\u00f5es quanto ao que \u00e9 estar cada vez mais convencidos do projeto social. Ou seja, ainda quando t\u00eam um sentido pr\u00e1tico da realidade para buscar solu\u00e7\u00f5es que devem levar um pensamento frio, nunca perderam essa ternura, o romantismo n\u00e3o se perdeu. E eu gosto disso: eu creio que o romantismo n\u00e3o se pode perder nunca.<\/p>\n<p><strong>ER: <\/strong>Houve diferentes rumores sobre o estado de sa\u00fade de Fidel. H\u00e1 alguns meses Hugo Chavez esteve em nosso programa, nos contou que [Fidel] passa o tempo estudando e ensinando. O que voc\u00ea pode nos dizer?<\/p>\n<p><strong>MC: <\/strong>Bem, eu pessoalmente n\u00e3o o tenho visto, porque as visitas que se fazem s\u00e3o muito reduzidas. Mas sei por meu pai e sei pelo que escreve, que leio como todos os cubanos, podemos perceber que Fidel tem uma capacidade de recupera\u00e7\u00e3o impressionante. E tudo isso n\u00e3o est\u00e1 em sua gen\u00e9tica, que como se v\u00ea tem uma forte gen\u00e9tica familiar, [mas] acredito que tudo isso est\u00e1 em sua cabe\u00e7a. Fidel sempre teve a capacidade de surpreender-nos. Ningu\u00e9m sabe qual ser\u00e1 a resposta, ningu\u00e9m sabe qual ser\u00e1 sua sa\u00edda, mas uma das coisas que mais nos fascina em Fidel \u00e9 essa sua capacidade de surpreender.<\/p>\n<p><strong>ER: <\/strong>Em que conceitos implementados j\u00e1 na Revolu\u00e7\u00e3o voc\u00ea se coloca como representante de outra gera\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>MC: <\/strong>Eu sinto que o estudo da hist\u00f3ria de Cuba, o recurso da filosofia marxista, para mim tem sido uma ferramenta para interpretar a realidade junto a outras ferramentas te\u00f3ricas e metodol\u00f3gicas, de outras ci\u00eancias, n\u00e3o somente filos\u00f3ficas, que te aportam recursos para interpretar para ver o caminho que deves seguir para continuar transformando a realidade. E esse esp\u00edrito transformador da realidade que colocava Marx \u00e9 uma das coisas que mais gosto em minha vida. Essa voca\u00e7\u00e3o de transformar buscando cada vez mais justi\u00e7a entre os seres humanos me encanta e eu creio que a\u00ed est\u00e1 tamb\u00e9m marcado o caminho da minha vida, pessoal, profissional e \u00e9 o que estou tratando de fazer.<\/p>\n<p>Ou seja, eu sim creio nas possibilidades do socialismo, creio que o socialismo teve in\u00edcios fascinantes com a experi\u00eancia leninista, depois teve experi\u00eancias que n\u00e3o foram t\u00e3o boas, umas sim, outras n\u00e3o, mas nos ensinaram. A hist\u00f3ria de Cuba sempre nos deu outras pistas e isso foi o que permitiu que o povo cubano em seu processo de transforma\u00e7\u00e3o esteja agora propondo que socialismo quer, de que maneira quer experimentar o socialismo como \u00e9 cen\u00e1rio de justi\u00e7a, de solidariedade, de equidade.<\/p>\n<p><strong>Socialismo sem dogmas nem preconceitos<\/strong><\/p>\n<p><strong>ER: <\/strong> N\u00e3o \u00e9 que se esteja negando o afirmado no passado, mas seguir adiante&#8230;<\/p>\n<p><strong>MC:<\/strong> N\u00e3o, eu acredito que o que se tem feito \u00e9 a revis\u00e3o cr\u00edtica e com a experi\u00eancia vivida do passado, e tomar do passado tudo valioso que sirva para seguir avan\u00e7ando. H\u00e1 alguns professores cubanos que colocam que n\u00e3o foram erros o que consideramos que devemos descartar. Acredito que se deram experi\u00eancias que nos deram a pista do que funciona e n\u00e3o funciona, e como devemos fazer essas mesmas coisas.<\/p>\n<p><strong>ER: <\/strong> At\u00e9 que ponto as novas gera\u00e7\u00f5es est\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es de assumir o legado de uma gera\u00e7\u00e3o t\u00e3o forte de seu pai e seu tio, com esse romantismo, essa for\u00e7a de esp\u00edrito?<\/p>\n<p><strong>MC: <\/strong>Eu acredito que sim, \u00e0 medida em que sigam facilitando os mecanismos de participa\u00e7\u00e3o popular, onde as novas gera\u00e7\u00f5es participem em assumir responsabilidades conscientemente, n\u00e3o formalmente, ou seja, que se cultive a popula\u00e7\u00e3o com esse conhecimento hist\u00f3rico, com essas experi\u00eancias que nos est\u00e3o dando a pista de como projetar o futuro. Na medida em que as jovens gera\u00e7\u00f5es participem desse processo de aprendizagem e questionamento&#8230;<\/p>\n<p><strong>ER: <\/strong>Est\u00e3o participando?<\/p>\n<p><strong>MC: <\/strong>Sim, sim. Voc\u00ea se d\u00e1 conta que na sociedade cubana h\u00e1 uma parte das gera\u00e7\u00f5es que participa e outra parte que n\u00e3o participa; uma parte que \u00e9 mais consciente, que tem mais cultura e que portanto tem mais capacidade de participar, e outra parte que \u00e9 mais inconsciente, que \u00e9 mais ignorante. Essa \u00e9 a debilidade, essa parte ignorante. \u00c1s vezes o que dizemos \u00e9: Vamos criar o cen\u00e1rio para que se apropriem do conhecimento hist\u00f3rico que lhes permita dizer \u201cisso \u00e9 meu, porque eu tenho que entrar nesse projeto, porque eu tenho que tratar de mudar as coisas, que coisa \u00e9 o que eu quero mudar&#8230;\u201d O importante \u00e9 que a gente participe de maneira consciente, que \u00e9 a maneira de participar livremente, e sem manipula\u00e7\u00e3o de nenhum tipo, nem de n\u00f3s mesmos nem de nossos inimigos, mas oferecendo conhecimentos e informa\u00e7\u00e3o que permita tirar conclus\u00f5es l\u00f3gicas de acordo com a l\u00f3gica hist\u00f3rica. Se lhes facilitamos isso, cada vez ser\u00e1 maior a quantidade de pessoas que possam participar e aportar a nosso futuro.<\/p>\n<p><strong>ER:<\/strong> Digamos que voc\u00ea v\u00ea o futuro com otimismo&#8230;<\/p>\n<p><strong>MC: <\/strong> Me encanta o que imagino\u2026<\/p>\n<p><strong>ER: <\/strong>Como voc\u00ea imagina Cuba?<\/p>\n<p><strong>MC: <\/strong>Um socialismo democr\u00e1tico, dial\u00e9tico, participativo, no qual predomine o pensamento dial\u00e9tico sem dogmas e sem preconceitos, e isso \u00e9 o que te d\u00e1 fortaleza como cultura, como na\u00e7\u00e3o; o que te d\u00e1 fortaleza como na\u00e7\u00e3o soberana que est\u00e1 definindo seu pr\u00f3prio projeto. A unidade da na\u00e7\u00e3o cubana nessa busca criativa de sociedade \u00e9 o que imagino como a sociedade que eu gostaria de viver aqui em Cuba.<\/p>\n<p><strong>ER: <\/strong>Muito obrigada por compartilhar conosco estas lembran\u00e7as e pensamentos, que s\u00e3o inestim\u00e1veis.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Resumen\n\n\n\n\n\n\n\n\nRESUMEN LATINOAMERICANO\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1629\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[47],"tags":[],"class_list":["post-1629","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c57-revolucao-cubana"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-qh","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1629","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1629"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1629\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1629"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1629"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1629"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}