{"id":16291,"date":"2017-09-24T15:09:57","date_gmt":"2017-09-24T18:09:57","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=16291"},"modified":"2017-09-24T15:09:57","modified_gmt":"2017-09-24T18:09:57","slug":"as-forcas-armadas-nao-agem-contra-o-caos-mas-sao-parte-fundamental-dele","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16291","title":{"rendered":"As For\u00e7as Armadas n\u00e3o agem contra o &#8216;caos&#8217;, mas s\u00e3o parte fundamental dele"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2017\/09\/22_09_ditadura_foto_obvious.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->\u201cO &#8220;caos&#8221; em quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a instaura\u00e7\u00e3o de um governo ilegal e brutalizado sa\u00eddo dos por\u00f5es das casernas. Ao que parece, &#8220;caos&#8221; seria a situa\u00e7\u00e3o atual de corrup\u00e7\u00e3o generalizada. S\u00f3 que algu\u00e9m poderia explicar \u00e0 popula\u00e7\u00e3o de qual del\u00edrio saiu a cren\u00e7a de que as For\u00e7as Armadas brasileiras t\u00eam alguma moral para prometer reden\u00e7\u00e3o moral do pa\u00eds?\u201d, pergunta Vladimir Safatle, professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP, em artigo publicado por Folha de S. Paulo, 22-09-2017.<\/p>\n<p>Segundo ele, \u201cAs For\u00e7as Armadas nunca foram uma garantia contra o &#8220;caos&#8221;. Elas foram parte fundamental do caos\u201d.<\/p>\n<p>Eis o artigo.<\/p>\n<p>Talvez n\u00e3o exista momento mais prop\u00edcio do que este para se lembrar da frase de Adorno\u00a0e Horkheimer, para quem h\u00e1 horas em que n\u00e3o h\u00e1 nada mais est\u00fapido do que ser inteligente. A frase se referia \u00e0 incapacidade de setores da sociedade alem\u00e3 de encararem claramente os signos de ascens\u00e3o do nazismo no come\u00e7o dos anos 1930 e pararem de procurar explica\u00e7\u00f5es sutis e inteligentes sobre a impossibilidade de o pior ocorrer. Dificilmente racioc\u00ednio dessa natureza n\u00e3o se aplicaria ao Brasil atual.<\/p>\n<p>De fato, nosso pa\u00eds tem ao menos a virtude da clareza. E foi com a clareza a guiar seus olhos redentores que o general Antonio Hamilton Mour\u00e3o\u00a0revelou aos brasileiros que as For\u00e7as Armadas t\u00eam um golpe militar preparado, que h\u00e1 uma conspira\u00e7\u00e3o em marcha a fim de destituir o poder civil. Para mostrar que n\u00e3o se tratava de uma bravata que mereceria a mais dura das puni\u00e7\u00f5es, o comandante do Ex\u00e9rcito, general Eduardo Villas B\u00f4as\u00a0descartou qualquer medida e ainda foi \u00e0 televis\u00e3o tecer loas a ditaduras e lembrar que, sim, as For\u00e7as Armadas podem intervir se o &#8220;caos&#8221; for iminente.<\/p>\n<p>O &#8220;caos&#8221; em quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a instaura\u00e7\u00e3o de um governo ilegal e brutalizado sa\u00eddo dos por\u00f5es das casernas. Ao que parece, &#8220;caos&#8221; seria a situa\u00e7\u00e3o atual de corrup\u00e7\u00e3o generalizada. S\u00f3 que algu\u00e9m poderia explicar \u00e0 popula\u00e7\u00e3o de qual del\u00edrio saiu a cren\u00e7a de que as For\u00e7as Armadas brasileiras t\u00eam alguma moral para prometer reden\u00e7\u00e3o moral do pa\u00eds?<\/p>\n<p>Que se saiba, quando seus pares tomaram de assalto o Pal\u00e1cio do Planalto, cresceram \u00e0 sua sombra grandezas morais do quilate de Jos\u00e9 Sarney, Paulo Maluf, Antonio Carlos Magalh\u00e3es: todos pilares da ditadura. Enquanto eles estavam a atirar e censurar descontentes, o Brasil foi assolado por casos de corrup\u00e7\u00e3o como Capemi, Coroa Brastel, Brasilinvest, Paulipetro, grupo Delfin, projeto Jari, entre v\u00e1rios outros. Isso mesmo em um ambiente marcado pela censura e pela viol\u00eancia arbitr\u00e1ria.<\/p>\n<p>De toda forma, como esperar moralidade de uma institui\u00e7\u00e3o que nunca viu maiores problemas em abrigar torturadores, estupradores, ocultadores de cad\u00e1veres, operadores de terrorismo de Estado, entre tantas outras grandes a\u00e7\u00f5es morais? As For\u00e7as Armadas brasileiras nunca tomaram dist\u00e2ncia dessas pessoas, expondo \u00e0 na\u00e7\u00e3o um meaculpa franco.<br \/>\nAo contr\u00e1rio, elas os defenderam, os protegeram, at\u00e9 hoje. Que, ao menos, elas n\u00e3o venham oferecer ao pa\u00eds o espet\u00e1culo pat\u00e9tico de aparecerem \u00e0 cena da vida p\u00fablica como defensoras de um renascimento moral feito, exatamente, pelas m\u00e3os de imoralistas. As For\u00e7as Armadas nunca foram uma garantia contra o &#8220;caos&#8221;. Elas foram parte fundamental do caos.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que setores da sociedade civil sonham com mais um golpe como forma de esconder o desgoverno que eles mesmos produziram. H\u00e1 setores do empresariado nacional que articulam abertamente nesse sentido, sonhando como isto n\u00e3o terem que se confrontar mais com uma popula\u00e7\u00e3o que luta pelos seus interesses. Para tanto, eles apelam ao artigo 142 da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988.<\/p>\n<p>Este artigo fora, desde o in\u00edcio, uma aberra\u00e7\u00e3o legislativa imposta pelos pr\u00f3prios militares. Ele legalizava golpes de Estado, da mesma forma que o artigo 41 da Rep\u00fablica de Weimar, que versava sobre o estado de emerg\u00eancia, permitiu a ascens\u00e3o da estrutura institucional do nazismo. Segundo o artigo, se qualquer poder chamar as For\u00e7as Armadas para garantirem a ordem, se digamos o sr. Rodrigo Maia fizer um apelo \u00e0s For\u00e7as Armadas porque h\u00e1 &#8220;caos&#8221; em demasia, o golpe est\u00e1 legalizado. Ou seja, \u00e9 verdade, nossa Constitui\u00e7\u00e3o tinha uma bomba-rel\u00f3gio no seu seio. Bomba pronta a explodi-la, como agora se percebe.<\/p>\n<p>Contra essa marcha da insanidade, h\u00e1 de se lembrar que, se chegamos ao ponto no qual um general na ativa pode expor abertamente que conspira contra o poder civil, ent\u00e3o cabe \u00e0queles que entendem n\u00e3o terem nascido para serem subjugados pela tirania, que n\u00e3o est\u00e3o dispostos a abrir m\u00e3o do resto de liberdade que ainda t\u00eam para se submeter a mais uma das infind\u00e1veis juntas latino-americanas, prepararem-se para exercer seu mais profundo direito: o direito de resist\u00eancia armada contra a tirania.<\/p>\n<p>Que os liberais se lembrem de John Locke e de seu &#8220;Segundo Tratado sobre o Governo&#8221;. Que os protestantes se lembrem de Calvino e de sua &#8220;Institui\u00e7\u00e3o da Religi\u00e3o Crist\u00e3&#8221;. E que o resto se lembre que a liberdade se defende de forma incondicional.<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/571961-as-forcas-armadas-nao-agem-contra-o-caos-mas-sao-parte-fundamental-dele<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16291\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[225],"class_list":["post-16291","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4eL","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16291","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16291"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16291\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16291"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16291"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16291"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}