{"id":16353,"date":"2017-09-29T18:48:46","date_gmt":"2017-09-29T21:48:46","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=16353"},"modified":"2017-09-29T18:48:46","modified_gmt":"2017-09-29T21:48:46","slug":"como-nasceu-a-obra-o-capital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16353","title":{"rendered":"Como nasceu a obra O Capital"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/opiniaoenoticia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Marx_-_Das_Kapital_-_1867_-_DHM-e1473781236392.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->No dia 11 de setembro, completaram-se 150 anos de O Capital. Esta \u00e9 sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O artigo \u00e9 de Marcello Musto, professor da Universidade Iorque, Toronto-Canad\u00e1, publicado por La Raz\u00f3n, 24-09-2017. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 do Cepat.<br \/>\nEis o artigo.<\/p>\n<p>A obra que, talvez mais que qualquer outra, contribuiu para mudar o mundo nos \u00faltimos 150 anos, teve uma gesta\u00e7\u00e3o longa e muito dif\u00edcil. Marx come\u00e7ou a escrever O Capital s\u00f3 muitos anos ap\u00f3s iniciar seus estudos de economia pol\u00edtica. Se j\u00e1 a partir de 1844 havia criticado a propriedade privada e o trabalho alienado da sociedade capitalista, foi somente ap\u00f3s o p\u00e2nico financeiro de 1857 \u2013 que come\u00e7ou nos Estados Unidos e depois se estendeu a Europa \u2013 que se sentiu obrigado a deixar de lado sua incessante pesquisa e come\u00e7ar a redigir o que chamava sua \u201cEconomia\u201d.<\/p>\n<p>Crise, os Grundrisse e pobreza<br \/>\nCom o in\u00edcio da crise, Marx antecipou o nascimento de uma nova fase de convuls\u00f5es sociais e considerou que o mais urgente era proporcionar ao proletariado a cr\u00edtica ao modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, um requisito pr\u00e9vio para super\u00e1-lo. Desse modo, nasceram os Grundrisse, oito cadernos nos quais examinou as forma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas pr\u00e9-capitalistas e descreveu algumas caracter\u00edsticas da sociedade comunista, ressaltando a import\u00e2ncia da liberdade e do desenvolvimento dos indiv\u00edduos. O movimento revolucion\u00e1rio que surgiria por causa da crise ficou em uma ilus\u00e3o e Marx n\u00e3o publicou seus manuscritos, consciente da dist\u00e2ncia que ainda estava do dom\u00ednio total dos temas que enfrentava. A \u00fanica parte publicada, ap\u00f3s uma profunda reelabora\u00e7\u00e3o do cap\u00edtulo sobre o dinheiro, foi a Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica, um texto distribu\u00eddo em 1859 e revisado por uma s\u00f3 pessoa: Engels.<\/p>\n<p>O projeto de Marx era dividir sua obra em seis livros. Deveriam se dedicar ao capital, \u00e0 propriedade da terra, ao trabalho assalariado, ao Estado, ao com\u00e9rcio exterior e ao mercado mundial. Contudo, em 1862, como resultado da guerra de secess\u00e3o estadunidense, o New York Tribune despediu seus colaboradores europeus. Marx \u2013 que trabalhou para o jornal durante mais de uma d\u00e9cada \u2013 e sua fam\u00edlia voltaram a viver em condi\u00e7\u00f5es de terr\u00edvel pobreza, as mesmas que haviam sofrido durante os primeiros anos de seu ex\u00edlio em Londres. S\u00f3 contava com a ajuda de Engels, a quem escrevia: \u201cTodos os dias, minha esposa me diz que preferiria estar em uma sepultura com as pequenas e, na verdade, n\u00e3o posso culp\u00e1-la, dadas as humilha\u00e7\u00f5es e sofrimentos que estamos padecendo, realmente indescrit\u00edveis\u201d. Sua condi\u00e7\u00e3o era t\u00e3o desesperadora que, nas semanas mais sombrias, faltava comida para as filhas e papel para escrever. Buscou emprego em um escrit\u00f3rio das ferrovias. A vaga, no entanto, n\u00e3o lhe foi concedida por causa de sua letra ruim. Portanto, para enfrentar a indig\u00eancia, a obra de Marx esteve sujeita a grandes atrasos.<\/p>\n<p>A mais-valia e o carb\u00fanculo<br \/>\nNeste per\u00edodo, em um longo manuscrito intitulado Teorias sobre a Mais-Valia, realizou uma profunda cr\u00edtica ao modo como todos os grandes economistas haviam tratado erroneamente a mais-valia como lucro ou renda. Para Marx, no entanto, era a forma espec\u00edfica pela qual se manifesta a explora\u00e7\u00e3o no capitalismo. Os trabalhadores passam parte de seu dia trabalhando para o capitalista de forma gratuita. Este \u00faltimo busca de todas as formas poss\u00edveis gerar mais-valia por meio do trabalho excedente: \u201cN\u00e3o basta que o trabalhador produza em geral, deve produzir mais-valia\u201d, ou seja, servir \u00e0 autovaloriza\u00e7\u00e3o do capital. O roubo de inclusive alguns poucos minutos da comida ou do descanso de cada trabalhador significa transferir uma enorme quantidade de riqueza aos bolsos dos patr\u00f5es. O desenvolvimento intelectual, cumprir as fun\u00e7\u00f5es sociais e os dias festivos s\u00e3o para o capital \u201cpuras e simples bagatelas\u201d.<\/p>\n<p>Apr\u00e8s moi le d\u00e9luge (depois de mim, o dil\u00favio) era para Marx o lema dos capitalistas, ainda que pudessem, hipocritamente, se opor \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o sobre as f\u00e1bricas em nome da \u201cliberdade plena do trabalho\u201d. A redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho e o aumento do valor da for\u00e7a de trabalho foi, portanto, o primeiro terreno da luta de classes.<\/p>\n<p>Em 1862, Marx escolheu o t\u00edtulo de seu livro: O Capital. Acreditava que podia come\u00e7ar imediatamente a redigi-lo, no entanto, \u00e0s j\u00e1 graves vicissitudes financeiras se somaram problemas de sa\u00fade. De fato, o que sua esposa Jenny descreveu como \u201ca terr\u00edvel enfermidade\u201d contra a qual Marx precisaria lutar muitos anos de sua vida era o carb\u00fanculo, uma horr\u00edvel infec\u00e7\u00e3o que se manifesta em v\u00e1rias partes do corpo com uma s\u00e9rie de abscessos cut\u00e2neos e uma extensa e debilitante furunculose. Marx foi operado e \u201csua vida permaneceu durante muito tempo em perigo\u201d. Sua fam\u00edlia estava \u00e0 beira do abismo.<\/p>\n<p>O Moro (este era seu apelido) se recuperou e at\u00e9 dezembro de 1865 se dedicou a escrever o que se converteria em sua aut\u00eantica obra magna. Al\u00e9m disso, a partir do outono de 1864 assistiu assiduamente as reuni\u00f5es da Associa\u00e7\u00e3o Internacional de Trabalhadores, para a qual escreveu durante oito anos seus principais documentos pol\u00edticos. Estudar durante o dia na biblioteca, para se inteirar das novas descobertas, e seguir trabalhando em seu manuscrito durante toda a noite: esta foi a esgotadora rotina a qual Marx se submeteu at\u00e9 a exaust\u00e3o de todas as suas energias e o esgotamento de seu corpo.<\/p>\n<p>Um todo art\u00edstico<br \/>\nAinda que havia reduzido seu projeto de seis para tr\u00eas volumes sobre O Capital, Marx n\u00e3o quis abandonar seu prop\u00f3sito de public\u00e1-los juntos. De fato, escreveu a Engels: \u201cN\u00e3o posso decidir sobre o que abrir m\u00e3o, antes de tudo estar diante de mim, sejam quais forem os defeitos que possam ter, este \u00e9 o valor de meus livros: todos formam um todo art\u00edstico, alcan\u00e7\u00e1vel somente gra\u00e7as ao meu sistema de n\u00e3o o entregar ao impressor antes de t\u00ea-lo completo diante de mim\u201d.<\/p>\n<p>O dilema de \u201ccorrigir uma parte do manuscrito e entreg\u00e1-lo ao editor ou terminar de escrever tudo\u201d foi resolvido pelos acontecimentos. Marx sofreu outro ataque bestial de carb\u00fanculo, o mais virulento de todos. A Engels disse que havia \u201cperdido a pele\u201d. Os m\u00e9dicos lhe disseram que a reca\u00edda se deu em raz\u00e3o do excesso de trabalho e as cont\u00ednuas vig\u00edlias noturnas. Marx se concentrou no livro um: O processo de produ\u00e7\u00e3o do capital.<\/p>\n<p>Os fur\u00fanculos seguiram o atormentando e, durante semanas, Marx nem sequer p\u00f4de se sentar. Tentou se operar. Procurou uma navalha e disse a Engels que tentou extirpar essa maldita coisa. Desta vez, o encerramento de sua obra n\u00e3o foi postergado pela \u201cteoria\u201d, mas, sim, por \u201craz\u00f5es f\u00edsicas e burguesas\u201d.<\/p>\n<p>Em abril de 1867, o manuscrito foi finalmente conclu\u00eddo. Marx pediu a seu amigo de Manchester, que lhe ajudou durante 20 anos, que lhe enviasse dinheiro para poder recuperar \u201ca roupa e o rel\u00f3gio que se encontram na casa de empenho\u201d. Marx sobreviveu com o m\u00ednimo indispens\u00e1vel e, sem esses objetos, n\u00e3o podia viajar \u00e0 Alemanha, onde a imprensa esperava por sua obra.<\/p>\n<p>A corre\u00e7\u00e3o do rascunho durou todo o ver\u00e3o e Engels lhe destacou que a exposi\u00e7\u00e3o da forma do valor era muito abstrata e \u201cse ressentia da persegui\u00e7\u00e3o dos fur\u00fanculos\u201d. Marx respondeu: \u201cespero que a burguesia se recorde de meus fur\u00fanculos at\u00e9 o dia de sua morte\u201d.<\/p>\n<p>O Capital foi colocado \u00e0 venda no dia 11 de setembro de 1867. Um s\u00e9culo e meio depois, o texto figura entre os livros mais traduzidos, vendidos e discutidos na hist\u00f3ria da humanidade. Para aqueles que queiram entender o que realmente \u00e9 o capitalismo e por que os trabalhadores devem lutar por uma \u201cforma superior de sociedade, cujo princ\u00edpio fundamental seja o desenvolvimento pleno e livre de cada indiv\u00edduo\u201d, O Capital \u00e9 hoje mais que nunca uma leitura simplesmente imprescind\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/572065-como-nasceu-a-obra-o-capital<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16353\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[234],"class_list":["post-16353","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4fL","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16353","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16353"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16353\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16353"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16353"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16353"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}