{"id":16355,"date":"2017-09-29T18:53:10","date_gmt":"2017-09-29T21:53:10","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=16355"},"modified":"2017-09-29T18:53:22","modified_gmt":"2017-09-29T21:53:22","slug":"desde-a-ditadura-e-o-pior-momento-da-historia-indigena-diz-sonia-guajajara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16355","title":{"rendered":"Desde a ditadura, \u201c\u00e9 o pior momento da hist\u00f3ria ind\u00edgena\u201d, diz S\u00f4nia Guajajara"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/banco\/indigenas\/indigenas_bsb_foto_-mario_vilela_funai.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p>O presidente Michel Temer publicou no Di\u00e1rio Oficial da Uni\u00e3o o decreto que revoga a abertura da Renca, a Reserva Nacional de Cobre e Associados na floresta amaz\u00f4nica, entre o Par\u00e1 e o Amap\u00e1, para a explora\u00e7\u00e3o das mineradoras. A press\u00e3o de ind\u00edgenas, ambientalistas e comunidade internacional parece ter surtido efeito.<\/p>\n<p>No \u00faltimo fim de semana de Rock in Rio, durante o show da cantora norte-americana Alicia Keys, a l\u00edder ind\u00edgena S\u00f4nia Guajajara deu seu recado em rela\u00e7\u00e3o a quest\u00e3o: \u201cEstamos de olho. N\u00e3o existe plano B\u201d.<\/p>\n<p>S\u00f4nia, uma das principais lideran\u00e7as do pa\u00eds, esteve na Casa P\u00fablica no dia anterior \u00e0 sua fala no evento de rock. Com ela, Renata Machado, da R\u00e1dio Yand\u00ea, e o antrop\u00f3logo Rubem Thomaz de Almeida concederam uma entrevista ao jornalista e antrop\u00f3logo Spensy Pimentel, colaborador da P\u00fablica.<\/p>\n<p>A entrevista \u00e9 publicada por Ag\u00eancia P\u00fablica, 26-09-2017.<\/p>\n<p>A conversa se debru\u00e7ou nas dificuldades e retrocessos em torno da quest\u00e3o ind\u00edgena desde que Temer chegou a presid\u00eancia. Na avalia\u00e7\u00e3o de S\u00f4nia, chancelada por Renata e Rubem, os ind\u00edgenas est\u00e3o passando pelo pior momento de sua hist\u00f3ria desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Eis a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Este momento que a gente vive com o Michel Temer no poder \u00e9 muito dram\u00e1tico para as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. Todo esse quadro dram\u00e1tico surgiu depois do impeachment \u2013 ou golpe \u2013 ou \u00e9 uma continuidade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Renata Machado \u2013<\/strong> Essa pergunta provocativa do Spensy me faz pensar no quanto voc\u00eas chamam de golpe o que aconteceu. S\u00f3 que a gente vem recebendo um golpe desde que o pa\u00eds foi encontrado por Pedro \u00c1lvares Cabral. A gente recebe golpes h\u00e1 mais de 517 anos. Mas l\u00f3gico que houve mudan\u00e7as dr\u00e1sticas depois do impeachment. Ocorreu um fortalecimento de uma pol\u00edtica voltada para determinados segmentos, principalmente o agroneg\u00f3cio. A gente v\u00ea que piorou muito o que j\u00e1 n\u00e3o estava bom em governos anteriores. N\u00f3s, enquanto ind\u00edgenas, sempre sofremos muito. A todo momento \u00e9 como se a gente fosse impedido de ser quem \u00e9. O Darcy Ribeiro tem uma frase muito boa sobre o povo brasileiro: \u201cN\u00f3s, brasileiros, somos um povo em ser, impedido de s\u00ea-lo\u201d. A todo momento tentam te enquadrar num formato que eles acham que tem que ser.<\/p>\n<p>Existe um pensamento muito colonialista impregnado na sociedade brasileira que influencia a forma como essas pessoas est\u00e3o vendo o mundo. O que s\u00e3o esses pol\u00edticos, esses deputados? De onde vem isso? Os ruralistas v\u00eam desde a d\u00e9cada de 1960, quando chegavam aqueles coron\u00e9is e soltavam o gado na terra ind\u00edgena falando: \u201cSe voc\u00eas quiserem ficar, voc\u00eas ficam. Voc\u00eas v\u00e3o ter que trabalhar para mim ou v\u00e3o embora\u201d. Muitas fam\u00edlias foram desestruturadas em Mato Grosso do Sul antes e durante a ditadura. Existe uma segrega\u00e7\u00e3o. Uma segrega\u00e7\u00e3o de uma popula\u00e7\u00e3o de 305 povos ind\u00edgenas. Existe uma limpeza \u00e9tnico-racial no Brasil. A gente se depara com uma pessoa como o Temer, que representa muitas pessoas voltadas para o agroneg\u00f3cio. Voltado para aqueles que a gente chama de senhores da morte.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 que a gente chegou a este momento, S\u00f4nia? Fez diferen\u00e7a, por exemplo, o di\u00e1logo com uma mulher na Presid\u00eancia da Rep\u00fablica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>S\u00f4nia Bone Guajajara \u2013<\/strong> Nunca foi f\u00e1cil. Tudo o que a gente conseguiu foi com muita luta, com muita press\u00e3o, com muita resist\u00eancia. A gente j\u00e1 estava sinalizando que com o governo Lula e o governo Dilma estava dif\u00edcil e que a gente temia o pior. E o pior est\u00e1 acontecendo. A gente n\u00e3o est\u00e1 mais s\u00f3 nas amea\u00e7as. No governo Dilma, a gente tinha muitas amea\u00e7as de retrocessos e a gente na linha de frente fazendo press\u00e3o, evitando a aprova\u00e7\u00e3o dessa pauta anti-ind\u00edgena. Mas agora tudo deixou de ser uma amea\u00e7a e virou uma realidade. N\u00f3s temos casos concretos de retrocessos que fazem com que a gente afirme que \u00e9 o pior momento da hist\u00f3ria desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o. De ataque aos direitos, de incita\u00e7\u00e3o ao \u00f3dio, ao racismo, preconceito, de conflitos fundi\u00e1rios.<\/p>\n<p>\u00c9 um discurso de \u00f3dio e de viol\u00eancia por parte do pr\u00f3prio Congresso Nacional, do Poder Executivo, dos Minist\u00e9rios. De que somos intrusos. O fato de ter uma mulher na Presid\u00eancia n\u00e3o facilitou nada pra gente. Nada! Foi muito dif\u00edcil e complicado. O que a gente tirou de proveito \u00e9 que n\u00f3s come\u00e7amos tamb\u00e9m a reagir mais fortemente. E come\u00e7amos a assumir a linha de frente no nosso contexto. As mulheres deixaram de ficar naquele papel mais secund\u00e1rio na aldeia e passaram a assumir o protagonismo. Inclusive motivadas por essa dificuldade de conversar com a Presid\u00eancia. A gente teve um encontro com a presidenta Dilma naquele contexto das manifesta\u00e7\u00f5es de rua em 2013. Sinalizou-se uma agenda com o movimento ind\u00edgena que n\u00e3o aconteceu tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Agora, mais do que nunca, a gente nem quer saber de conversa. A gente n\u00e3o quer aproxima\u00e7\u00e3o com esse governo porque a gente n\u00e3o confia. \u00c9 um governo que n\u00e3o tem compromisso nenhum com a pauta ind\u00edgena. A cada momento que se anuncia uma medida anti-ind\u00edgena, temos ido fazer as ocupa\u00e7\u00f5es. Temos ido para Bras\u00edlia. Temos feito as mobiliza\u00e7\u00f5es locais, regionais, e revertido muita coisa. No ano passado revertemos duas portarias da Sa\u00fade, que tirava a autonomia dos distritos especiais ind\u00edgenas. No in\u00edcio do ano, mudamos uma portaria do MJ [Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a] que constitu\u00eda aquele grupo de trabalho para poder fazer a identifica\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios ind\u00edgenas. E com esse decreto de extin\u00e7\u00e3o da Renca, a Reserva Nacional de Cobre Associados, fizemos uma articula\u00e7\u00e3o com artistas e conseguimos dar um salto na visibilidade.<\/p>\n<p>Tudo isso aconteceu porque a disputa territorial passou a ser o centro dos interesses. Eles n\u00e3o queriam demarcar mais terras. E, al\u00e9m disso, queriam acessar \u00e0s terras j\u00e1 demarcadas. A rea\u00e7\u00e3o foi com viol\u00eancia, o que aumentou esses conflitos no campo. A PEC 215 embora at\u00e9 hoje tramitando, n\u00e3o foi aprovada, mas coloca tudo em uma situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a muito grande. Junto a isso veio o enfraquecimento dos \u00f3rg\u00e3os. A Funai foi totalmente sucateada e o \u00f3rg\u00e3o perdeu for\u00e7a e n\u00e3o tem condi\u00e7\u00e3o de atuar.<\/p>\n<p><strong>O Rubem tem uma experi\u00eancia de quase 40 anos na elabora\u00e7\u00e3o de estudos para a Funai de identifica\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rio reivindicado por comunidades ind\u00edgenas. E a gente sabe que essa discuss\u00e3o sobre a quest\u00e3o do marco temporal, do Mato Grosso do Sul, \u00e9 um dos epicentros.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Rubem Thomaz de Almeida \u2013<\/strong> O Minist\u00e9rio P\u00fablico tem batido na tecla de que os ind\u00edgenas n\u00e3o estavam l\u00e1 em determinado tempo. Eles foram retirados \u00e0 for\u00e7a, foram colocados em outros espa\u00e7os, e, entre 1914 e 1928, o SPI \u2013 Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o ao \u00cdndio, que na \u00e9poca era um servi\u00e7o de prote\u00e7\u00e3o aos \u00edndios \u2013, demarcou oito \u00e1reas no Mato Grosso do Sul. Nunca mais se demarcou terra nenhuma no Mato Grosso do Sul depois de 1928. S\u00f3 a partir de 1985 \u00e9 que come\u00e7aram a demarcar terras no Mato Grosso por conta da press\u00e3o dos \u00edndios. A partir dos anos 1970, o agroneg\u00f3cio e o neoextrativismo come\u00e7am a se proliferar e crescer. E o Lula dizendo que o agroneg\u00f3cio era a ponta de lan\u00e7a da economia. Hoje no Mato Grosso voc\u00ea tem jagun\u00e7os a granel, toneladas de advogados defendendo os fazendeiros e os \u00edndios insistindo na reconquista das suas terras.<\/p>\n<p><strong>A gente falou da bancada ruralista e fiz levantamentos sobre os signat\u00e1rios daquela CPI da Funai e Incra que foi um dos pontos de combate aos ind\u00edgenas neste governo. A bancada evang\u00e9lica tamb\u00e9m assinou maci\u00e7amente a peti\u00e7\u00e3o. Como a bancada evang\u00e9lica interfere no avan\u00e7o do movimento ind\u00edgena? Tem um movimento de catequese evang\u00e9lica dentro das comunidades?<\/strong><\/p>\n<p><strong>S\u00f4nia Bone Guajajara \u2013<\/strong> Quando citei a bancada ruralista como a maior e a mais ofensiva aos direitos dos povos ind\u00edgenas, \u00e9 porque limitei um pouco a conversa. Somada a ela sempre est\u00e1 junto a bancada evang\u00e9lica, que vota junto com a ruralista em tudo quanto \u00e9 perda de direito. Evang\u00e9licos nas aldeias t\u00eam crescido bastante. Em um encontro religioso, falei que quem mais matou ind\u00edgena no Brasil foram religiosos, no in\u00edcio os jesu\u00edtas, pela Igreja Cat\u00f3lica e agora pelo pr\u00f3prio evang\u00e9lico. Mata pela identidade, pela cultura\u2026 e, quando voc\u00ea mata a cultura, voc\u00ea mata o povo. E essas pessoas est\u00e3o entrando nas aldeias e t\u00eam tido uma abertura por parte do povo. A aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas nas aldeias faz com que qualquer pessoa que chega com discurso de ajudar, resolver, as pessoas abrem as portas. A pessoa entra primeiro como um bonzinho querendo ajudar e de repente domina. A quest\u00e3o do evangelismo nas aldeias tem interferido demais, de condenar os pr\u00f3prios rituais ind\u00edgenas. Tem uns que s\u00e3o mais progressistas, e a gente n\u00e3o pode generalizar dizendo que s\u00e3o todos venenosos. Mas a gente n\u00e3o tem conseguido reverter isso, n\u00e3o. Eles t\u00eam tido um poder de sedu\u00e7\u00e3o grande.<\/p>\n<p><strong>Renata Machado \u2013<\/strong> Uma coisa interessante \u00e9 que dentro dessas comunidades existem muitas r\u00e1dios evang\u00e9licas. A gente tem esbarrado com isso na Yand\u00ea, quando chega em determinada comunidade para levar conte\u00fado e a r\u00e1dio \u00e9 evang\u00e9lica. Essa coisa agora de ter um general na Funai, um general ainda indicado pelo Partido Social Crist\u00e3o, como assim? Querem nos exterminar de todas as formas. \u00c9 muito preocupante esse cen\u00e1rio, mas a gente sabe que existe uma resist\u00eancia espiritual muito forte por parte de algumas culturas e comunidades.<\/p>\n<p><strong>O Rubem participou h\u00e1 uns dez anos de uma iniciativa cujo objetivo era tentar equacionar a quest\u00e3o das terras Guarani Kaiow\u00e1. Como voc\u00ea definiria o que aconteceu nesse per\u00edodo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Rubem Thomaz de Almeida \u2013<\/strong> Foi feito um levantamento em que se mostrava claramente ao Estado qual era a situa\u00e7\u00e3o dos Guarani. Obviamente, isso foi boicotado em 2008, quando iniciamos o processo. A Funai, ali\u00e1s, no tempo da ditadura, era uma institui\u00e7\u00e3o muito poderosa. Com a democracia, a Funai foi enfraquecendo. Um termo de ajustamento de conduta do Minist\u00e9rio P\u00fablico n\u00e3o funcionou nesse caso porque o agroneg\u00f3cio \u00e9 extremamente poderoso. Mas vale dizer que por parte do governo, tanto da Dilma quanto do Lula, n\u00e3o havia muito interesse tamb\u00e9m. O presidente Lula deixou bem claro que o agroneg\u00f3cio era a locomotiva da economia do pa\u00eds. Isso fez com que o agroneg\u00f3cio, os fazendeiros, as usinas de \u00e1lcool e, enfim, o neoextrativismo crescessem de forma exacerbada e, obviamente, passaram por cima da Funai, embora tenhamos os registros de todas essas \u00e1reas ocupadas ou pretendidas pelos Guarani no Mato Grosso do Sul.<\/p>\n<p><strong>A gente falou de v\u00e1rios elementos para tentar entender esse quadro atual. A gente j\u00e1 falou dos evang\u00e9licos, do agroneg\u00f3cio. Dentro desse jogo de xadrez quais s\u00e3o os pr\u00f3ximos lances de jogo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>S\u00f4nia Bone Guajajara \u2013<\/strong> Dif\u00edcil de saber, n\u00e9? A gente est\u00e1 todo dia com uma novidade e n\u00e3o d\u00e1 nem tempo de se programar para mais nada que no outro j\u00e1 mudou. Desde o primeiro dia de janeiro, a gente vem olhando para o Di\u00e1rio Oficial, vendo o jornal para ver qual a mudan\u00e7a, quais as novidades do dia. No acordo para vota\u00e7\u00e3o do impeachment, foi rateado tudo. E agora \u00e9 o momento de pagar a conta.<br \/>\nA gente escondeu a identidade, nossa l\u00edngua, a cultura para poder sobreviver e continuar resistindo, porque ser ind\u00edgena em determinado momento da hist\u00f3ria era motivo de sobressalto. Se eu disser que sou ind\u00edgena, vou ser morta. Por muito tempo as pessoas se esconderam para n\u00e3o serem mortas. E agora, por mais que tenha toda essa situa\u00e7\u00e3o de retrocessos, a gente percebe que houve uma aceita\u00e7\u00e3o das pessoas que n\u00e3o tem como negar essa origem do Brasil ind\u00edgena. N\u00f3s precisamos de mais gente apoiando porque os territ\u00f3rios ind\u00edgenas s\u00e3o um bem comum. A gente n\u00e3o briga ali por um pedacinho de terra, a gente briga \u00e9 por um territ\u00f3rio. \u00c9 a \u00e1gua, o vento, o que traz a chuva. Tudo que est\u00e1 ali \u00e9 um conjunto que, somado, garante a vida. Comprovadamente os territ\u00f3rios ind\u00edgenas s\u00e3o os mais preservados e o que mais contribui para o equil\u00edbrio do clima. Se n\u00e3o fossem os territ\u00f3rios ind\u00edgenas, o Brasil seria um total deserto. \u00c9 importante que cada um entenda isso, que defender a demarca\u00e7\u00e3o de terra n\u00e3o \u00e9 defender a terra para \u00edndio somente. \u00c9 defender a sua pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p><strong>A gente tem que passar para uma rodada final. Renata, estavam perguntando sobre o papel da grande m\u00eddia. Voc\u00ea falou bastante da iniciativa da Yand\u00ea. Se voc\u00ea puder falar um pouco desse outro lado, digamos assim, que essas iniciativas se colocam. Rubem, nesse processo todo de ataque aos direitos ind\u00edgenas, houve um ataque paralelo que foi um ataque aos profissionais que trabalham juntos aos povos ind\u00edgenas, por exemplo, via CPI da Funai e v\u00e1rias outras iniciativas de menor visibilidade.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Renata Machado \u2013<\/strong> Quando a gente fala em comunica\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, \u00e9 muito al\u00e9m de not\u00edcias \u00e9tnicas. N\u00e3o existem limites para a comunica\u00e7\u00e3o ind\u00edgena e ela envolve diretamente as nossas vis\u00f5es de mundo e a nossa cultura. Na Yand\u00ea, de certa forma a gente desconstr\u00f3i um pouco o que a outra m\u00eddia faz. A gente sabe que a imagem, a palavra t\u00eam um significado muito al\u00e9m do que outros grupos. A gente n\u00e3o est\u00e1 fechado nessa quest\u00e3o do jornalismo, de produzir not\u00edcia. Mas ver not\u00edcias que fortale\u00e7am a identidade daqueles que a produzem e que eles coloquem ali a sua identidade, olhar, sua forma de ver o mundo. N\u00e3o apenas se ater aos fatos. A gente tem m\u00fasicas ind\u00edgenas em mais de 150 l\u00ednguas ind\u00edgenas diferentes e 80% s\u00e3o l\u00ednguas ind\u00edgenas no Brasil. Tem a m\u00fasica tradicional e tem a m\u00fasica contempor\u00e2nea, que \u00e9 forr\u00f3 em Kaiap\u00f3, rap em Guarani\u2026 porque \u00e9 aquilo, a cultura ela est\u00e1 em movimento, n\u00e3o \u00e9 est\u00e1tica, ela se transforma e encontra tamb\u00e9m meios de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>A gente se apropria de todos os objetos em diferentes contextos, a gente faz neles a nossa resist\u00eancia. Comunica\u00e7\u00e3o, pra gente, \u00e9 muito al\u00e9m, eu estou olhando a \u00e1rvore l\u00e1 fora, eu estou me comunicando com ela, nos sonhos, na nossa rela\u00e7\u00e3o com a natureza. Por isso repito muito isso que a comunica\u00e7\u00e3o ind\u00edgena n\u00e3o tem limites. Ela envolve muitos mundos ao mesmo tempo. Fica aquela coisa do formato-padr\u00e3o jornal\u00edstico, apenas not\u00edcia. \u00c9 muito limitado quando a gente pensa isso. Na Yand\u00ea, a todo momento a gente se inspira. A gente v\u00ea a luta da S\u00f4nia, a gente v\u00ea a luta dos parentes em diferentes regi\u00f5es e a gente se inspira nessa garra de viver. Eu tenho um filho de 1 ano e 5 meses que \u00e9 Terena, porque \u00e9 sempre a etnia do pai que eles colocam, e me preocupo com o futuro dele. Fico pensando em como vou explicar o que acontece em Mato Grosso do Sul e \u00e9 dif\u00edcil.<\/p>\n<p><strong>Rubem Thomaz de Almeida \u2013<\/strong> Na pergunta sobre essa investida aos antrop\u00f3logos, eu diria que no intuito de acabar com os \u00edndios entrou tamb\u00e9m essa CPI da Funai e do Incra. E, se a gente observar a rela\u00e7\u00e3o da <strong>CPI<\/strong>, \u00e9 bem interessante porque vamos acabar de fato com esse pessoal. Se a gente v\u00ea os argumentos que eles usam, \u00e9 t\u00e3o absurdo quanto pensar no marco temporal. \u00c9 interessante porque eles acusam de todos os lados os antrop\u00f3logos e n\u00e3o tem nenhum fundamento. Agora, \u00e9 o poder, o poder do dinheiro, o poder propriamente dito. Eu n\u00e3o sei se vai ter \u00eaxito porque \u00e9 uma excresc\u00eancia.<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/572082-desde-a-ditadura-e-o-pior-momento-da-historia-indigena-diz-sonia-guajajara<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16355\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[190,163],"tags":[233],"class_list":["post-16355","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-fora-temer","category-movimento-indigena","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4fN","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16355","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16355"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16355\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16355"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16355"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16355"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}