{"id":1640,"date":"2011-07-06T13:35:06","date_gmt":"2011-07-06T13:35:06","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1640"},"modified":"2011-07-06T13:35:06","modified_gmt":"2011-07-06T13:35:06","slug":"a-dialectica-da-estrutura-e-da-historia-uma-introducao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1640","title":{"rendered":"A dial\u00e9ctica da estrutura e da hist\u00f3ria: Uma introdu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>O estudo da rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9ctica entre estrutura e hist\u00f3ria \u00e9 essencial para uma compreens\u00e3o adequada da natureza e das caracter\u00edsticas de qualquer forma\u00e7\u00e3o social para cujos problemas se procurem solu\u00e7\u00f5es sustent\u00e1veis. Isto \u00e9 particularmente importante no caso da forma\u00e7\u00e3o social do capital, com a sua tend\u00eancia inexor\u00e1vel para uma determina\u00e7\u00e3o totalmente abrangente e estruturalmente incorporada de todos os aspectos da reprodu\u00e7\u00e3o social e da \u2013 realiz\u00e1vel pela primeira vez na hist\u00f3ria \u2013 domina\u00e7\u00e3o global impl\u00edcita nesta forma de desenvolvimento. N\u00e3o \u00e9, portanto, de forma alguma acidental que, em prol da mudan\u00e7a estrutural exigida, Marx seja levado (quando, no per\u00edodo hist\u00f3rico de crises e explos\u00f5es revolucion\u00e1rias da d\u00e9cada de 1840, articulou a sua pr\u00f3pria \u2013 e radicalmente nova \u2013 concep\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria) a concentrar sua aten\u00e7\u00e3o cr\u00edtica no conceito de estrutura social.<\/p>\n<p>Na sua primeira grande obra de s\u00edntese, os <em>Manuscritos econ\u00f3micos e filos\u00f3ficos de 1844, <\/em>Marx sublinha que, no decurso do desenvolvimento hist\u00f3rico moderno, a ci\u00eancia natural, atrav\u00e9s da assimila\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas materiais da produ\u00e7\u00e3o industrial capitalista, se tornara, <em>de uma forma alienada, <\/em>a base da vida social; circunst\u00e2ncia essa que Marx considerava ser <em>&#8220;a priori, uma mentira&#8221;. <\/em>[1] Do seu ponto de vista isto teria de ser rectificado libertando a pr\u00f3pria ci\u00eancia do seu inv\u00f3lucro alienante. Ao mesmo tempo a ci\u00eancia tinha de ser mantida, numa forma qualitativamente modificada, refeita como <em>&#8220;a ci\u00eancia do homem&#8221; <\/em>[2] \u2013 intrinsecamente insepar\u00e1vel da &#8220;ci\u00eancia da hist\u00f3ria&#8221; \u2013 enquanto base enriquecedora e gratificante da vida humana efectiva. Por\u00e9m, para alcan\u00e7ar esta transforma\u00e7\u00e3o fundamental, era absolutamente necess\u00e1rio entender e p\u00f4r a nu as determina\u00e7\u00f5es estruturais profundamente enraizadas atrav\u00e9s das quais a potencialidade criativa do trabalho humano, incluindo o esfor\u00e7o cient\u00edfico de indiv\u00edduos na sociedade, fora subjugada pelos imperativos alienantes da expans\u00e3o e acumula\u00e7\u00e3o de capital fetichista\/incontrol\u00e1vel.<\/p>\n<p>Por esta raz\u00e3o a categoria <em>estrutura social <\/em>tinha de adquirir, de uma forma absolutamente tang\u00edvel, uma import\u00e2ncia seminal na vis\u00e3o marxiana. Ao contr\u00e1rio do que acontecia nas abordagens filos\u00f3ficas especulativas que dominavam aquela \u00e9poca, n\u00e3o poderia haver nada de misterioso acerca da an\u00e1lise necess\u00e1ria da estrutura social. Nem t\u00e3o pouco podia ser permitido a interesses pol\u00edticos escusos ofuscar as quest\u00f5es em causa, em prol de uma apologia do estado especulativa e transubstanciada.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 1845, Marx destacava energicamente, na sua contribui\u00e7\u00e3o para o livro escrito com Engels, <em>A ideologia alem\u00e3, <\/em>que todos os elementos relevantes da an\u00e1lise te\u00f3rica em quest\u00e3o, podiam ser objecto de observa\u00e7\u00e3o emp\u00edrica e de an\u00e1lise racional. O quadro conceptual explicativo teria de se tornar totalmente intelig\u00edvel com base nas pr\u00e1ticas correntes de reprodu\u00e7\u00e3o da sociedade, nas quais os seres humanos se encontravam quotidianamente envolvidos. Neste sentido, Marx insistia que a \u00fanica investiga\u00e7\u00e3o te\u00f3rica v\u00e1lida teria de ser capaz de trazer \u00e0 superf\u00edcie, <em>&#8220;sem qualquer mistifica\u00e7\u00e3o ou especula\u00e7\u00e3o, a rela\u00e7\u00e3o da estrutura social e pol\u00edtica com a produ\u00e7\u00e3o. A estrutura social e o estado est\u00e3o em constante evolu\u00e7\u00e3o a partir do processo vivencial dos indiv\u00edduos determinados.&#8221; <\/em>[3]<\/p>\n<p>Esta aproxima\u00e7\u00e3o te\u00f3rica desmistificadora, que visava n\u00e3o apenas as condi\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias \u00e0 \u00e9poca de Marx mas que tinha, enquanto explica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica estruturalmente ancorada no passado e no futuro, uma validade universal, teve um papel radicalmente emancipador no quadro das explos\u00f5es revolucion\u00e1rias da d\u00e9cada de 1840, continuando desde ent\u00e3o a ter uma fun\u00e7\u00e3o emancipadora vital.<\/p>\n<p>Ao concentrar-se no processo vivencial dos indiv\u00edduos determinados envolvidos na alienante produ\u00e7\u00e3o industrial capitalista, tornou-se clara para Marx &#8220;a necessidade, e ao mesmo tempo as condi\u00e7\u00f5es, de uma transforma\u00e7\u00e3o tanto na estrutura industrial como na estrutura social&#8221; [4] Isto \u00e9, tornou-se poss\u00edvel compreender tanto a necessidade de uma profunda transforma\u00e7\u00e3o em si mesma, como a natureza objectiva das condi\u00e7\u00f5es que deveriam ser objecto dessa transforma\u00e7\u00e3o. Estas \u00faltimas correspondiam \u00e0s caracter\u00edsticas estruturalmente determinadas da vida social, ao mesmo tempo que real\u00e7avam a crescente gravidade da crise em quest\u00e3o, uma vez que eram as mais profundas determina\u00e7\u00f5es estruturais das condi\u00e7\u00f5es objectivas que exigiam essa mesma alavancagem pr\u00e1tica tang\u00edvel e abrangente enunciada por Marx. Devido \u00e0s caracter\u00edsticas inerentes aos problemas encontrados, a alavancagem exigida para a supera\u00e7\u00e3o dessa crise hist\u00f3rica n\u00e3o poderia ser outra sen\u00e3o a transforma\u00e7\u00e3o radical da estrutura industrial e social.<\/p>\n<p>\u00c9 por esta mesma raz\u00e3o que, aos olhos de Marx, uma simples altera\u00e7\u00e3o das circunst\u00e2ncias pol\u00edticas n\u00e3o estaria \u00e0 altura da grandeza da tarefa hist\u00f3rica. Aquilo que se afigurava como realmente necess\u00e1rio era nada mais, nada menos que uma mudan\u00e7a estrutural qualitativa capaz de abarcar a totalidade dos processos fundamentais de reprodu\u00e7\u00e3o da sociedade. Evidentemente, uma mudan\u00e7a deste tipo teria de incluir a esfera pol\u00edtica em toda a sua extens\u00e3o, desde as institui\u00e7\u00f5es legislativas mais gerais \u00e0s entidades locais de regula\u00e7\u00e3o. No entanto tal mudan\u00e7a n\u00e3o poderia limitar-se ao dom\u00ednio pol\u00edtico, visto que tradicionalmente, mesmo as maiores subleva\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do passado tendiam a mudar apenas a elite dirigente, mantendo a estrutura exploradora da reprodu\u00e7\u00e3o material e cultural na mesma situa\u00e7\u00e3o de articula\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica de classes.<\/p>\n<p>Assim, de acordo com a concep\u00e7\u00e3o marxiana, a &#8220;estrutura social e pol\u00edtica&#8221; teria de ser integralmente transformada, e tal transforma\u00e7\u00e3o teria de ser levada a cabo pelos indiv\u00edduos sociais referidos na nossa \u00faltima cita\u00e7\u00e3o de <em>A ideologia alem\u00e3. <\/em>Como Marx deixa bem claro num outro escrito do mesmo per\u00edodo de subleva\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, a tarefa hist\u00f3rica teria de ser realizada, pelos indiv\u00edduos sociais, atrav\u00e9s de reestrutura\u00e7\u00e3o de &#8220;alto a baixo das condi\u00e7\u00f5es da sua exist\u00eancia pol\u00edtica e industrial e consequentemente <em>de toda a sua maneira de ser&#8221;. <\/em>[5]<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da estrutura social n\u00e3o pode ser correctamente perspectivada sem uma aprecia\u00e7\u00e3o dial\u00e9ctica e multifacetada de todos os factores e determina\u00e7\u00f5es complexas nela envolvidas. Pois a mais simples das verdades \u00e9 que, em toda a forma particular de ordem reprodutiva da Humanidade, a estrutura social n\u00e3o pode ser compreendida sem a correspondente articula\u00e7\u00e3o com a dimens\u00e3o hist\u00f3rica; e que, inversamente, n\u00e3o pode existir uma real compreens\u00e3o do movimento hist\u00f3rico sem a compreens\u00e3o, na sua especificidade, das determina\u00e7\u00f5es materiais estruturais correspondentes.<\/p>\n<p>Neste sentido, a hist\u00f3ria e a estrutura das condi\u00e7\u00f5es do humano est\u00e3o sempre profundamente interligadas. Por outras palavras, n\u00e3o pode existir, em qualquer forma social conceb\u00edvel, uma estrutura pertinente abstra\u00edda da Hist\u00f3ria, no seu curso din\u00e2mico de desvelamento; nem Hist\u00f3ria em si mesma, sem as estruturas associadas que sustentam as caracter\u00edsticas essenciais que determinam a forma\u00e7\u00e3o social em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Ignorar o car\u00e1cter correlativo da estrutura e da hist\u00f3ria acarreta as mais desastrosas consequ\u00eancias para a produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, pois uma abordagem anti-dial\u00e9ctica resulta necessariamente ou numa descri\u00e7\u00e3o aned\u00f3tica e filosoficamente irrelevante dos factos e personagens hist\u00f3ricas, que apresenta a sequ\u00eancia cronol\u00f3gica &#8220;do antes e depois&#8221; como contendo em si mesma a sua auto-justifica\u00e7\u00e3o narrativa, ou num culto mec\u00e2nico do &#8220;estruturalismo&#8221;.<\/p>\n<p>A primeira insufici\u00eancia \u00e9 bem demonstrada pelo facto de j\u00e1 Arist\u00f3teles classificar os relatos hist\u00f3ricos de ent\u00e3o como filosoficamente inferiores \u00e0 poesia e \u00e0 trag\u00e9dia, dada a pormenoriza\u00e7\u00e3o aned\u00f3tica que tais relatos (em sintonia com o significado do termo <em>-istor, <\/em>\u00e0 letra testemunha ocular) ofereciam dos acontecimentos. [6] No que toca \u00e0 viola\u00e7\u00e3o estruturalista da interliga\u00e7\u00e3o entre estrutura e hist\u00f3ria, e \u00e0 sua substitui\u00e7\u00e3o por um reducionismo mecanicista de orienta\u00e7\u00e3o positivista, podemos dela encontrar um exemplo paradigm\u00e1tico na outrora muito influente obra de Claude L\u00e9vi-Strauss, como ser\u00e1 o caso no \u00faltimo cap\u00edtulo do presente artigo. [7] Por ora, uma \u00fanica cita\u00e7\u00e3o ser-nos-\u00e1 suficiente para demonstrar o car\u00e1cter anti-dial\u00e9ctico e anti-hist\u00f3rico da sua abordagem:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\">&#8221; <em>A Hist\u00f3ria \u00e9 um conjunto descont\u00ednuo composto pelos mais diversos dom\u00ednios da pr\u00f3pria hist\u00f3ria, cada um dos quais \u00e9 definido por uma frequ\u00eancia caracter\u00edstica e por um diferencial de codifica\u00e7\u00e3o do antes e depois&#8230; A natureza descont\u00ednua e taxion\u00f3mica do conhecimento hist\u00f3rico aparece-nos claramente&#8230; Num sistema deste tipo, a alegada continuidade hist\u00f3rica s\u00f3 pode ser garantida por contornos fraudulentos&#8230; Ser\u00e1 necess\u00e1rio reconhecer que a hist\u00f3ria \u00e9 um m\u00e9todo sem um objecto claro para que rejeitemos uma qualquer equival\u00eancia entre o conceito de hist\u00f3ria e o conceito de humanidade, correspond\u00eancia essa que nos tentaram impingir com o intuito dissimulado de fazer da Hist\u00f3ria o \u00faltimo ref\u00fagio para um humanismo transcendental: como se o Homem pudesse recuperar a ilus\u00e3o de liberdade no plano do &#8220;N\u00f3s&#8221; pela simples recusa dos &#8220;Eus&#8221; desprovidos de consist\u00eancia. Na verdade a hist\u00f3ria n\u00e3o est\u00e1 ligada ao homem nem a qualquer objecto particular. Ela consiste inteiramente no seu m\u00e9todo, que a experi\u00eancia demonstra ser indispens\u00e1vel para a cataloga\u00e7\u00e3o dos elementos de qualquer estrutura, humana ou n\u00e3o-humana, no seu todo.&#8221; <\/em>[8]<\/p>\n<p>Assim a profunda rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9ctica existente entre continuidade e descontinuidade do desenvolvimento hist\u00f3rico \u00e9 rejeitada, de forma reveladora, por L\u00e9vi-Strauss \u2013 rejei\u00e7\u00e3o essa que ganha contornos insultuosos ao acusar aqueles que defendem esse mesmo car\u00e1cter dial\u00e9ctico de apresentarem racioc\u00ednios <em>&#8220;fraudulentos&#8221; <\/em>\u2013 de modo a permitir restringir o alegado &#8220;m\u00e9todo sem objecto&#8221; da Hist\u00f3ria, de uma forma reducionista e mecanicista, a uma fun\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria de &#8220;cataloga\u00e7\u00e3o de elementos de toda estrutura existente&#8221;. Desta forma as determina\u00e7\u00f5es objectivas, vitais para a compreens\u00e3o da hist\u00f3ria realmente existente, s\u00e3o completamente suprimidas.<\/p>\n<p>No entanto, e paradoxalmente para o pr\u00f3prio Claude L\u00e9vi-Strauss, como resultado da adop\u00e7\u00e3o de uma abordagem mecanicista e reducionista da hist\u00f3ria, &#8220;humana ou n\u00e3o-humana&#8221;, o seu conceito de estrutura \u2013 que corresponde apenas a uma defini\u00e7\u00e3o igualmente mec\u00e2nica de estrutura como aquilo cujos elementos podem ser catalogados e dissecados de forma positivista \u2013 revela-se desprovido de qualquer significado explicativo real no que se refere ao desenvolvimento social. Tudo isto \u00e9 levado a cabo, de acordo com o pr\u00f3prio L\u00e9vi-Strauss e com os seus disc\u00edpulos [9] , no apogeu da influ\u00eancia do Estruturalismo na Europa Ocidental e nos Estados Unidos, em nome do &#8220;rigor cient\u00edfico anti-ideol\u00f3gico&#8221; mais em voga.<\/p>\n<p>Certamente que a orienta\u00e7\u00e3o das abordagens &#8220;p\u00f3s-estruturalistas&#8221; e &#8220;p\u00f3s-modernas&#8221; n\u00e3o poder\u00e1 de forma alguma ser considerada superior. Todas elas partilham a mesma atitude c\u00e9ptica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Hist\u00f3ria e o mesmo desprezo absoluto das rela\u00e7\u00f5es e determina\u00e7\u00f5es objectivas e dial\u00e9cticas. Por vezes esta atitude produz enunciados totalmente mistificadores, ro\u00e7ando a mais oca sof\u00edstica. Assim, o l\u00edder te\u00f3rico do &#8220;p\u00f3s-modernismo&#8221;, Jean-Fran\u00e7ois Lyotard, \u2013 um arrependido que chegou a integrar o grupo de esquerda franc\u00eas respons\u00e1vel pela publica\u00e7\u00e3o da revista<em>Socialismo ou Barb\u00e1rie \u2013 <\/em>oferece-nos a seguinte declara\u00e7\u00e3o program\u00e1tica: <em>&#8220;O que \u00e9 ent\u00e3o o p\u00f3s-modernismo? \u00c9 sem d\u00favida parte do moderno&#8230; uma obra pode apenas tornar-se moderna se tiver sido em primeiro lugar &#8220;p\u00f3s-moderna&#8221;. O &#8220;p\u00f3s-modernismo assim entendido n\u00e3o \u00e9 o estado \u00faltimo do modernismo mas o seu estado inicial, e este estado \u00e9 constante&#8221;. <\/em>[10] Da mesma forma, a concep\u00e7\u00e3o programaticamente anti-dial\u00e9ctica de Lyotard da contraposi\u00e7\u00e3o das <em>partes <\/em>(metaforicamente exultadas sob a forma de &#8220;pequenas narrativas&#8221; ou <em>&#8220;petit r\u00e9cits&#8221; <\/em>) [11] ao <em>todo <\/em>( <em>a priori <\/em>e prontamente rejeitado na forma de <em>&#8220;grand narratives&#8221;) <\/em>\u00e9 incoerente e capitulacionista.<\/p>\n<p>Aquilo que aqui nos ocupa \u2013 isto \u00e9, a profunda correla\u00e7\u00e3o dial\u00e9ctica entre estrutura e hist\u00f3ria \u2013 n\u00e3o \u00e9 apenas te\u00f3rico, muito menos puramente acad\u00e9mico. A sua enorme import\u00e2ncia \u00e9 fruto das amplas consequ\u00eancias pr\u00e1ticas desta rela\u00e7\u00e3o para a ac\u00e7\u00e3o emancipat\u00f3ria dos seres humanos no desvelamento das tend\u00eancias do desenvolvimento hist\u00f3rico. Pois sem uma real compreens\u00e3o do verdadeiro car\u00e1cter das articula\u00e7\u00f5es hier\u00e1rquicas das <em>determina\u00e7\u00f5es estruturais <\/em>da, cada vez mais destrutiva, ordem de reprodu\u00e7\u00e3o social do capital, com o seu sistema org\u00e2nico no qual as partes sustentam o todo e vice-versa, na sua actual e paralisante circularidade rec\u00edproca, n\u00e3o pode haver qualquer melhoria significativa em tempo \u00fatil.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia revolucion\u00e1ria marxiana, na sua resposta aos problemas complexos que acarreta uma mudan\u00e7a estrutural abrangente \u2013 poss\u00edvel pela compreens\u00e3o dos mecanismos objectivos estrategicamente vitais que alavancam a transforma\u00e7\u00e3o socio-cultural \u2013 foi formulada precisamente com esse objectivo. Um discurso estruturalista conservador, anti-hist\u00f3rico e anti-dial\u00e9ctico, <em>\u00e0 la <\/em>L\u00e9vi-Strauss, (que visa a cataloga\u00e7\u00e3o dos elementos dubiamente identificados do existente e do seu passado mitificado, e junta os lamentos mais pessimistas acerca da &#8220;humanidade como o seu pior inimigo&#8221;, \u00e0 desculpabiliza\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es e for\u00e7as destrutivas do desenvolvimento social e pol\u00edtico do capitalismo), \u00e9-lhe diametralmente oposto. O mesmo se aplica ao chilreio conservador do discurso p\u00f3s-moderno acerca das &#8220;pequenas narrativas&#8221;, inventado com o intuito arrogante de descartar, n\u00e3o apenas implicitamente mas explicitamente, aquilo que Lyotard designa como &#8220;as grandes narrativas da emancipa\u00e7\u00e3o&#8221; [12] , assim como para cortar com toda a tradi\u00e7\u00e3o progressista do passado.<\/p>\n<p>O mais profundo sentido da concep\u00e7\u00e3o marxiana \u00e9 a defesa apaixonada de uma mudan\u00e7a estrutural a ser realizada num sentido hist\u00f3rico global, afectando directamente toda a Humanidade. Sem focar este aspecto do pensamento de Marx, nem a sua mensagem central nem o esp\u00edrito que o anima s\u00e3o compreens\u00edveis.<\/p>\n<p>Obviamente, a orienta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica global da mudan\u00e7a estrutural defendida por Marx, com a sua \u00eanfase na urg\u00eancia das tarefas com que se confrontam os indiv\u00edduos no seio da sociedade, devido ao perigo da auto-destrui\u00e7\u00e3o da Humanidade, s\u00f3 poderia surgir num momento hist\u00f3rico determinado. Todas as formas sociais conhecidas t\u00eam os seus limites hist\u00f3ricos inexor\u00e1veis. Independentemente da idealiza\u00e7\u00e3o do capitalismo como &#8220;o sistema natural da mais perfeita liberdade e justi\u00e7a&#8221;, levada a cabo pelos economistas e pol\u00edticos cl\u00e1ssicos do s\u00e9culo XVIII (para n\u00e3o mencionar as teorias dos que mais tarde defendem at\u00e9 as piores contradi\u00e7\u00f5es deste modo de produ\u00e7\u00e3o), o capitalismo n\u00e3o pode constituir uma excep\u00e7\u00e3o a tais limites.<\/p>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o radicalmente nova de Marx foi tornada poss\u00edvel numa \u00e9poca em que a necessidade objectiva de uma profunda mudan\u00e7a hist\u00f3rica, que permita a passagem da ordem social capitalista a uma outra qualitativamente diferente em todas as suas determina\u00e7\u00f5es fundamentais, enquanto modo de controlo metab\u00f3lico social da humanidade, surge, com a sua finalidade imperiosa, na agenda hist\u00f3rica \u2013 com o in\u00edcio da fase descendente do sistema do capital. Esta mudan\u00e7a decisiva no progresso dos processos de reprodu\u00e7\u00e3o da sociedade do capital, historicamente sem precedentes e em muitos aspectos deveras positiva, coincide com o per\u00edodo de crises e explos\u00f5es revolucion\u00e1rias, que Marx testemunhou com profunda lucidez. Gra\u00e7as a esta mudan\u00e7a hist\u00f3rica radical o sistema do capital passou a permitir mudan\u00e7as parciais, independentemente da sua extens\u00e3o, mas n\u00e3o mudan\u00e7as na sua perspectiva global, apesar do grotesco slogan propagand\u00edstico do &#8220;capitalismo popular&#8221;, proclamado pelos benefici\u00e1rios da ordem dominante.<\/p>\n<p>Como testemunhamos constantemente, a &#8220;globaliza\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 hoje em dia ilusoriamente retratada pelos interesses velados dos poderes estabelecidos como um simples prolongamento da viabilidade do sistema do capital num futuro intemporal, como se a &#8220;globaliza\u00e7\u00e3o&#8221; fosse uma caracter\u00edstica totalmente nova, s\u00edmbolo do cl\u00edmax eterniz\u00e1vel e da perfeita realiza\u00e7\u00e3o dos destinos da ordem reprodutiva da sociedade do capital. No entanto, a verdade inc\u00f3moda \u00e9 que a vis\u00e3o cr\u00edtica de Marx continha j\u00e1 em si uma perspectiva global inerente, desde o seu in\u00edcio e sobretudo a partir dos anos de 1843-44, demonstrando vigorosamente a irreversibilidade da fase descendente do desenvolvimento do capital.<\/p>\n<p>O princ\u00edpio desta fase descendente trouxe consigo graves implica\u00e7\u00f5es cujo sentido hist\u00f3rico apontava para a destrui\u00e7\u00e3o da Humanidade, a menos que um modo radicalmente novo de controlo de reprodu\u00e7\u00e3o social se pudesse substituir \u00e0 ordem existente. Esta dolorosa verdade apareceu objectivamente no horizonte hist\u00f3rico, em meados do s\u00e9culo XIX, como irrevers\u00edvel para a \u00e9poca de ent\u00e3o, apesar de nalgumas partes do planeta a ascens\u00e3o do capital estar ainda longe da sua conclus\u00e3o como mais tarde Marx explicitamente admitiu. [13]<\/p>\n<p>Este novo per\u00edodo hist\u00f3rico conceptualizado por Marx representava um contraste fundamental com a fase de desenvolvimento ascendente do sistema do capital. Pois a fase triunfante da ascens\u00e3o do capital, que come\u00e7ara nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XVI, resultou \u2013 n\u00e3o obstante o seu impacto alienante em todos os aspectos da vida humana \u2013 no maior feito produtivo de toda a hist\u00f3ria. No entanto, \u00e9 de forma perturbadora que, no decurso das d\u00e9cadas finais dessa fase ascendente de desenvolvimento, surge um problema, insuper\u00e1vel no quadro do capitalismo, que tenderia apenas a piorar. A saber, o crescimento de uma propens\u00e3o para a destrui\u00e7\u00e3o geradora de crise \u2013 cujas perigosas implica\u00e7\u00f5es foram profundamente compreendidas por Marx bem antes de qualquer outro [14] \u2013 prenunciando a implos\u00e3o da ordem reprodutiva do capital. Implos\u00e3o essa gerada n\u00e3o por um qualquer desastre natural, mas pelo pr\u00f3prio peso que as contradi\u00e7\u00f5es sist\u00e9micas e os explosivos antagonismos assumem no ponto culminante do dom\u00ednio e enraizamento global do capital.<\/p>\n<p>Esta determina\u00e7\u00e3o contradit\u00f3ria trazia consigo, como horizonte \u00faltimo da fase sist\u00e9mica descendente, o amadurecimento irrevers\u00edvel dos limites hist\u00f3ricos daquela que era de longe a mais poderosa ordem de reprodu\u00e7\u00e3o social conhecida em toda a hist\u00f3ria. Por outras palavras, este s\u00e9rio amadurecimento hist\u00f3rico dos limites estruturais absolutos do capital, preconizava n\u00e3o apenas outro per\u00edodo de crise e correspondente sofrimento, cuja recorr\u00eancia \u00e9 norma no desenvolvimento do capitalismo, mas a destrui\u00e7\u00e3o total da Humanidade, como antecipara Marx. Por este mesmo motivo Marx escreveu em <em>A ideologia alem\u00e3, <\/em>dando a sua pr\u00f3pria vers\u00e3o da alternativa <em>Socialismo ou Barb\u00e1rie <\/em>meio s\u00e9culo antes da famosa advert\u00eancia de Rosa Luxemburgo, que:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\">&#8220;Com o desenvolvimento das for\u00e7as produtivas chega-se a um momento em que as for\u00e7as produtivas e os mecanismos de troca s\u00e3o levados a ser aquilo que, no quadro das rela\u00e7\u00f5es existentes, apenas causa preju\u00edzo, deixando assim de ser produtivas para se tornarem for\u00e7as destrutivas.&#8221; [15] &#8220;Assim as coisas chegam a um estado tal, que os indiv\u00edduos se v\u00eaem obrigados a apropriar-se da totalidade das for\u00e7as produtivas existentes n\u00e3o apenas para chegar a uma manifesta\u00e7\u00e3o de si, mas t\u00e3o simplesmente para salvaguardar a sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia&#8221;. [16]<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, paralelamente a esta mudan\u00e7a qualitativa da fase hist\u00f3rica ascendente para a descendente, tamb\u00e9m a avalia\u00e7\u00e3o te\u00f3rica dos problemas em quest\u00e3o feita do ponto de vista privilegiado do capital estava em plena muta\u00e7\u00e3o. Assim em contraste com a &#8220;anatomia da sociedade civil&#8221; [17] retratada na &#8220;economia burguesa cient\u00edfica&#8221; pelos maiores representantes da economia pol\u00edtica cl\u00e1ssica do s\u00e9culo XVIIII e do primeiro ter\u00e7o do s\u00e9culo XIX, e generosamente louvada por Marx como &#8220;genu\u00edna investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica&#8221;, a defesa acr\u00edtica do sistema do capital tornou-se lastimavelmente a regra geral.<\/p>\n<p>Esta mudan\u00e7a de atitude e de perspectiva estava plenamente de acordo com a necessidade ideol\u00f3gica de racionalizar e atenuar as contradi\u00e7\u00f5es sist\u00e9micas que surgiram e se intensificaram no in\u00edcio da fase descendente do desenvolvimento do capital. Concomitantemente, esta degrada\u00e7\u00e3o da abordagem te\u00f3rica foi caracterizada da seguinte forma por Marx no &#8220;Posf\u00e1cio \u00e0 Segunda Edi\u00e7\u00e3o Alem\u00e3&#8221; do capital:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\">&#8220;A Economia Politica pode manter-se como ci\u00eancia somente enquanto a luta de classe estiver latente ou se manifestar apenas em fen\u00f3menos espor\u00e1dicos. [No entanto] em Fran\u00e7a e em Inglaterra a burguesia conquistou o poder pol\u00edtico. Desde ent\u00e3o, a luta de classes adoptou, tanto na pr\u00e1tica como na teoria, formas cada vez mais claras e amea\u00e7adoras. Ouviu-se ent\u00e3o o toque de finados da economia burguesa cient\u00edfica. A quest\u00e3o deixou ent\u00e3o de ser se este ou aquele teorema era verdadeiro para passar a ser se ele era \u00fatil ou prejudicial ao capital, vantajoso ou desvantajoso, politicamente perigoso ou n\u00e3o. Em vez de investigadores desinteressados foram contratados mercen\u00e1rios; em vez de uma investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica genu\u00edna surgiu a m\u00e1 consci\u00eancia e o intento maldoso da apologia.&#8221; [18]<\/p>\n<p>Neste sentido \u00e9 suficiente comparar os escritos de F.A. Hayek com o trabalho de Adam Smith para poder observar as devastadoras consequ\u00eancias intelectuais de trocar, na fase descendente do desenvolvimento do sistema do capital, a preocupa\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica com os crit\u00e9rios da verdade pela glorifica\u00e7\u00e3o daquilo que \u00e9 &#8220;\u00fatil e vantajoso para o capital&#8221;. Neles encontramos uma hostilidade crassa para com a mais simples men\u00e7\u00e3o a tudo o que implique uma posi\u00e7\u00e3o menos obscurantista do que aquela que \u00e9 apresentada pelo economista austr\u00edaco. Isto \u00e9 por demais evidente na cruzada cega de Hayek contra as ideias do socialismo denunciadas pelo autor de &#8220;O caminho da servid\u00e3o&#8221; e &#8220;A arrog\u00e2ncia fatal&#8221; \u2013 bem como pelos seus igualmente reaccion\u00e1rios amigos austr\u00edacos e de outras paragens \u2013 como sendo politicamente perigosas para o capital.<\/p>\n<p>De forma caracter\u00edstica, a apologia pseudo-cient\u00edfica, e por vezes abertamente irracional, que Hayek faz do capital est\u00e1 \u00e1vida por descartar toda e qualquer explica\u00e7\u00e3o causal. Diz-nos insistentemente que &#8220;a cria\u00e7\u00e3o da riqueza&#8230; n\u00e3o pode ser explicada por uma cadeia de causa-efeito&#8221;[19] Num resumo revelador da agressiva apologia do capital que caracteriza o seu pensamento, Hayek afirma que &#8220;o dinheiro misterioso e as institui\u00e7\u00f5es financeiras que nele se baseiam&#8221; [20] devem estar isentos de toda a cr\u00edtica, acrescentando ainda \u2013 no esp\u00edrito da sua obsessiva condena\u00e7\u00e3o do espectro do socialismo, que reclama ter descoberto remontar \u00e0 Gr\u00e9cia Antiga \u2013 que &#8220;o magn\u00e2nimo chav\u00e3o socialista &#8220;Produ\u00e7\u00e3o para o uso, n\u00e3o para o lucro&#8221;, que encontramos sob as mais diversas formas de Arist\u00f3teles a Bertrand Russel, de Albert Einstein ao arcebispo C\u00e2mara (conjuntamente com a ideia, presente desde Arist\u00f3teles, de que esses lucros s\u00e3o feitos \u00e0s custas de outros) revela ignor\u00e2ncia sobre a forma como a capacidade produtiva \u00e9 multiplicada pelos diferentes indiv\u00edduos&#8221; [21]<\/p>\n<p>A seriedade destes problemas \u00e9 sublinhada n\u00e3o tanto pelo car\u00e1cter apolog\u00e9tico das teorias econ\u00f3micas dominantes na fase descendente do desenvolvimento do sistema do capital, como pela raz\u00e3o objectiva que leva a que a formula\u00e7\u00e3o e a promo\u00e7\u00e3o da implementa\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica de tais teorias, se tenha tornado deploravelmente a regra geral. Aquilo que mudou fundamentalmente desde Adam Smith n\u00e3o foi o ponto de vista orientador nem a afilia\u00e7\u00e3o de classe dos te\u00f3ricos em quest\u00e3o, mas o posicionamento hist\u00f3rico do ponto de vista em si mesmo do qual as suas concep\u00e7\u00f5es surgem, mediante a passagem da fase ascendente \u00e0 fase ascendente.<\/p>\n<p>Adam Smith, que conceptualizou o mundo do ponto de vista privilegiado do capital, n\u00e3o estava menos comprometido com a defesa da viabilidade do sistema do capital. A grande diferen\u00e7a \u00e9 que, na \u00e9poca de Adam Smith, a ordem do metabolismo social do capital na sua fase ascendente representava a mais avan\u00e7ada forma de reprodu\u00e7\u00e3o da sociedade pass\u00edvel de ser realizada pela humanidade. Da mesma forma, a pr\u00f3pria luta de classes, favor\u00e1vel ou contr\u00e1ria a uma organiza\u00e7\u00e3o do trabalho, hegem\u00f3nica e alternativa, qualitativamente diferente da modalidade capitalista de controlo do metabolismo social, era ainda, na \u00e9poca de Adam Smith, <em>&#8220;latente ou manifestava-se somente em fen\u00f3menos espor\u00e1dicos e isolados&#8221;. <\/em><\/p>\n<p>Por outro lado, na \u00e9poca de Hayek, a crescente destrutibilidade do sistema socio-econ\u00f3mico capitalista, devida \u00e0 fase irreversivelmente descendente do seu desenvolvimento, juntamente com o surgimento das suas contradi\u00e7\u00f5es internas antag\u00f3nicas, sob a forma das duas devastadoras guerras mundiais que conheceu o s\u00e9culo XX, pode ser apenas negada \u2013 novamente do ponto de vista privilegiado do capital, mas desta vez com uma verdadeira &#8220;Arrog\u00e2ncia Fatal&#8221; capaz de repudiar um pensador como Arist\u00f3teles como sendo um &#8220;socialista ignorante&#8221; \u2013 no quadro da mais crua e beligerante apologia do capital. Dada esta mudan\u00e7a fundamental do campo hist\u00f3rico objectivo em que se alicer\u00e7a o ponto de vista privilegiado do capital (da sua fase ascendente para a fase descendente), a necessidade de uma mudan\u00e7a estrutural do sentido hist\u00f3rico global \u2013 a ser realizada pelos indiv\u00edduos sociais, como nos era anunciado na alternativa dram\u00e1tica entre <em>&#8220;Socialismo ou Barb\u00e1rie&#8221;, &#8220;n\u00e3o apenas para chegar a uma manifesta\u00e7\u00e3o de si, mas simplesmente para salvaguardar a sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia&#8221; \u2013 <\/em>j\u00e1 n\u00e3o poderia ser afastada do horizonte hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>A forma mais eficaz de adiar o &#8220;momento da verdade&#8221; e assim prolongar o dom\u00ednio do capital sobre a vida humana, n\u00e3o obstante o seu car\u00e1cter cada vez mais destrutivo e a sua crise estrutural, seria a sua pr\u00f3pria transforma\u00e7\u00e3o num h\u00edbrido. Esta hibridiza\u00e7\u00e3o assumiu, nos pa\u00edses onde o capitalismo estava mais avan\u00e7ado, a forma de um envolvimento directo do estado no &#8220;mercado livre&#8221; atrav\u00e9s de uma injec\u00e7\u00e3o massiva de fundos p\u00fablicos que visava a revitaliza\u00e7\u00e3o das empresas capitalistas. Esta tend\u00eancia foi bem demonstrada pela &#8220;nacionaliza\u00e7\u00e3o&#8221; em larga escala \u2013 facilmente revers\u00edvel \u2013 de v\u00e1rios sectores vitais da economia capitalista brit\u00e2nica, que se encontravam em situa\u00e7\u00e3o de fal\u00eancia, pelo governo do &#8220;antigo&#8221; Partido Trabalhista liderado por Attlee em 1945. Este resgate indispens\u00e1vel ao capitalismo brit\u00e2nico do p\u00f3s-guerra foi falaciosamente descrito como um feito genuinamente socialista. [22]<\/p>\n<p>Este tipo de opera\u00e7\u00f5es s\u00e3o levadas a cabo com o \u00fanico intuito de assegurar a continuidade e a viabilidade da ordem reprodutiva estabelecida, atrav\u00e9s de diversas contribui\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas por parte do estado (com fundos extra\u00eddos \u00e0s contribui\u00e7\u00f5es fiscais dos seus cidad\u00e3os), politicamente motivadas pela defesa do sistema do capital e com as quais Adam Smith n\u00e3o poderia nem sonhar. Estas v\u00e3o desde os recursos astron\u00f3micos que s\u00e3o continuamente postos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria militar aos trili\u00f5es de d\u00f3lares envolvidos nos fundos de resgate dos bancos privados e das seguradoras, que tiveram lugar n\u00e3o s\u00f3 em 2008 e 2009 como em 2010, os quais se responsabilizaram desde logo a cobrir 90% de eventuais perdas que as mesmas companhias possam vir a ter no futuro.<\/p>\n<p>Historicamente, trata-se de um fen\u00f3meno relativamente recente no desenvolvimento do capitalismo. O seu significado e a sua dimens\u00e3o potencial n\u00e3o eram algo de evidente para a \u00e9poca de Marx. Pois <em>&#8220;no s\u00e9culo XIX as possibilidades de reajustamento do capital como um sistema h\u00edbrido de controlo \u2013 que se tornaram manifestamente claras no s\u00e9culo XX \u2013 eram ainda impercept\u00edveis ao escrut\u00ednio te\u00f3rico.&#8221; <\/em>[23]<\/p>\n<p>Esta hibridiza\u00e7\u00e3o do sistema tem hoje um papel absolutamente decisivo no prolongamento da esperan\u00e7a de vida do sistema do capital. No entanto esta forma de envolvimento directo do estado na &#8220;salva\u00e7\u00e3o do sistema&#8221; [24] \u2013 pela transfer\u00eancia de imensos fundos p\u00fablicos e at\u00e9 pela &#8220;nacionaliza\u00e7\u00e3o&#8221; em toda a linha dos preju\u00edzos resultantes das fal\u00eancias do capital \u2013 tem os seus limites e acarreta amplas consequ\u00eancias para o desenvolvimento futuro, n\u00e3o podendo por isso ser equacionada como uma solu\u00e7\u00e3o permanente.<\/p>\n<p>Em 1972, na minha cr\u00edtica ao conceito de capitalismo de Max Weber, salientava que:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\">&#8220;\u00e9 bastante impreciso caracterizar o capitalismo em geral como algo que se define como o &#8220;investimento do capital privado&#8221;. Tal defini\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas v\u00e1lida para uma fase determinada do desenvolvimento hist\u00f3rico do capitalismo e n\u00e3o \u00e9 um &#8220;tipo ideal&#8221; no sentido weberiano. Ao enfatizar o investimento do capital privado, Weber acaba por defender acriticamente um dos movimentos mais importantes de desenvolvimento do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, isto \u00e9, o crescente envolvimento do capital estatal na reprodu\u00e7\u00e3o continuada do sistema capitalista. Em princ\u00edpio, o limite m\u00e1ximo desse mesmo desenvolvimento \u00e9 nada mais que a transforma\u00e7\u00e3o da forma vigente do capitalismo numa outra forma mais abrangente de capitalismo de estado, que implica teoricamente a total aboli\u00e7\u00e3o da fase espec\u00edfica do capitalismo idealizada por Weber. Por\u00e9m, \u00e9 precisamente devido a tais implica\u00e7\u00f5es que esta orienta\u00e7\u00e3o fundamental no desenvolvimento do capitalismo deve ser exclu\u00edda do quadro ideol\u00f3gico do &#8220;tipo ideal&#8221; weberiano.&#8221; [25]<\/p>\n<p>Esta tend\u00eancia para um cada vez maior envolvimento directo do estado na transfer\u00eancia de fundos p\u00fablicos, com o intuito de prolongar a viabilidade reprodutiva do sistema do capital, \u00e9 apresentada de forma totalmente deturpada pelos mercen\u00e1rios e propagandistas da ordem estabelecida.<\/p>\n<p>Em algumas regi\u00f5es da Gr\u00e3-Bretanha, como a Irlanda do Norte por exemplo, a gest\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o capitalista do &#8220;sector p\u00fablico&#8221;, tanto no sector da administra\u00e7\u00e3o como no da sa\u00fade e da educa\u00e7\u00e3o, entre outras actividades econ\u00f3micas, atinge hoje em dia os 71 por cento, sendo que a m\u00e9dia nacional ronda os 50 por cento. Ainda assim, a situa\u00e7\u00e3o actual, onde predomina inegavelmente a hibridiza\u00e7\u00e3o, \u00e9 descrita, com a habitual hipocrisia e distor\u00e7\u00e3o neo-liberal, como <em>&#8220;recuo das fronteiras do estado&#8221; (&#8220;rolling back the boundaries of the state&#8221;), <\/em>ou atrav\u00e9s de outras formula\u00e7\u00f5es deturpadas do mesmo tipo, como &#8221; <em>a retirada do estado&#8221;. <\/em><\/p>\n<p>Desta forma, como j\u00e1 o fizera <em>The Economist, <\/em>outro proeminente \u00f3rg\u00e3o de imprensa da burguesia internacional, o londrino <em>Financial Times<\/em>defende um novo &#8220;momento Beveridge&#8221;, numa \u00f3bvia alus\u00e3o ao Lorde Beveridge, influente pol\u00edtico liberal que, no final da segunda guerra mundial, desenvolveu a teoria do estado social no seu livro programaticamente intitulado &#8220;O Pleno Emprego numa Sociedade Livre&#8221;. Durante uma crise econ\u00f3mica global da mais extrema gravidade, em plena campanha para o parlamento brit\u00e2nico, quando se prev\u00ea que a d\u00edvida p\u00fablica inglesa exceder\u00e1 \u00a31,5 mil milh\u00f5es (aproximadamente US$2,4 mil milh\u00f5es \u00e0 taxa de c\u00e2mbio actual) em apenas quatro ou cinco anos, foi desta forma que os editores do <em>Financial Times <\/em>formularam o problema do suposto <em>&#8220;recuo do estado&#8221; <\/em>no seu principal artigo sobre o assunto:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\">&#8220;Os sal\u00e1rios p\u00fablicos, pens\u00f5es e postos de trabalho do sector estatal devem ser objecto de um corte. Assim como os servi\u00e7os p\u00fablicos. Se o Partido Trabalhista for reeleito o or\u00e7amento de estado dever\u00e1 representar uma reparti\u00e7\u00e3o dos sacrif\u00edcios&#8230; o governo est\u00e1 correcto em n\u00e3o cortar excessivamente e de forma demasiado c\u00e9lere, mas isso n\u00e3o deve servir de desculpa para n\u00e3o se planear os cortes futuros&#8230; A incerteza deliberada do Partido Trabalhista est\u00e1 a empurrar o que deveria ser um debate profundo acerca do papel do estado \u2013 um momento Beveridge \u2013 para \u00e1guas rasas. Quem quer que ganhe as elei\u00e7\u00f5es que se avizinham administrar\u00e1 o recuo <em>do estado&#8221; <\/em>[26]<\/p>\n<p>Assim o verdadeiro significado da express\u00e3o <em>&#8220;retirada do estado&#8221; \u2013 <\/em>assim como do c\u00ednico e amplamente publicitado slogan neoliberal do<em>&#8220;recuo das fronteiras do estado&#8221;, <\/em>\u2013 \u00e9 a camuflagem editorial da apologia do &#8220;planeamento&#8221; (e neste sentido os mais ac\u00e9rrimos defensores da ideologia mercado livre n\u00e3o deixam de ser apologistas de um planeamento), dos modos de transfer\u00eancia dos benef\u00edcios financeiros libertados pelos dr\u00e1sticos cortes nos &#8220;sal\u00e1rios p\u00fablicos, pens\u00f5es e postos de trabalho do sector estatal&#8221; ,assim como nos &#8220;servi\u00e7os p\u00fablicos&#8221;, para os bolsos sem fundo das empresas capitalistas, elas mesmas ainda mais gravemente falidas. Noutras palavras, este novo &#8220;momento Beveridge&#8221;, defendido pelos editores do <em>Financial Times, <\/em>significa na pr\u00e1tica, a liquida\u00e7\u00e3o planificada daquilo que ainda sobra do estado social por parte do pr\u00f3prio estado capitalista. [27] Tudo isto \u00e9 levado a cabo, justificado pela &#8220;nobre causa da salva\u00e7\u00e3o do sistema&#8221;, atrav\u00e9s de um grande envolvimento do estado, atingindo somas astron\u00f3micas, na cada vez mais fr\u00e1gil viabilidade da ordem reprodutiva do capital, nesta fase hist\u00f3rica descendente do seu desenvolvimento sist\u00e9mico, indelevelmente marcada pelo aprofundar da sua crise estrutural.<\/p>\n<p>No entanto, este tipo de linha editorial, reveladora de uma profunda consci\u00eancia de classe, como a que podemos ler em <em>The Economist <\/em>ou no<em>Financial Times, <\/em>mais n\u00e3o \u00e9 do que uma mistura de quixotismo e hipocrisia. A combina\u00e7\u00e3o destes dois componentes \u00e9 bem ilustrada pelo facto de ser publicado, na coluna imediatamente adjacente ao editorial acima citado do <em>Financial Times <\/em>de 23 de Mar\u00e7o de 2010, um artigo que critica o<em>&#8220;Fundo de Investimento Estrat\u00e9gico&#8221; <\/em>de 950 milh\u00f5es de libras, recentemente anunciado pelo governo trabalhista, no qual se incluem v\u00e1rias verbas, que ascendem at\u00e9 500 mil milh\u00f5es de libras.<\/p>\n<p>As cr\u00edticas expressas neste artigo n\u00e3o s\u00e3o dirigidas contra as crescentes verbas estatais cedidas \u00e0s empresas privadas \u2013 neste sentido n\u00e3o se pode falar de <em>&#8220;recuo do estado&#8221;, <\/em>pois o estado \u00e9 mesmo encorajado a continuar as generosas distribui\u00e7\u00f5es de capital. As cr\u00edticas t\u00eam como objecto apenas o nome do Fundo, que, na opini\u00e3o do jornalista em quest\u00e3o, deveria chamar-se <em>&#8220;Fundo Estrat\u00e9gico de Reelei\u00e7\u00e3o&#8221;. <\/em>[28] Desta forma, o autor do artigo n\u00e3o procurou questionar o conte\u00fado do fundo, sem o qual o sistema que ele pr\u00f3prio defende n\u00e3o sobreviveria, mas apenas denunciar o que acreditava ser uma sagaz manobra eleitoral.<\/p>\n<p>O car\u00e1cter simultaneamente hip\u00f3crita e quixotesco da argumenta\u00e7\u00e3o defensora do <em>&#8220;recuo do estado&#8221; <\/em>\u00e9 demonstrado pelo facto de que, na actual fase hist\u00f3rica do desenvolvimento capitalista, \u00e9 impens\u00e1vel aplicar os cortes nas v\u00e1rias \u00e1reas do sector p\u00fablico da economia, e correspondente despesa com o desemprego, que os editores do <em>Financial Times <\/em>gostariam de ver postos em pr\u00e1tica com o intuito de fortalecer o fr\u00e1gil sistema produtivo e financeiro capitalista. Pois a hibridiza\u00e7\u00e3o do sistema conheceu nos \u00faltimos cem anos propor\u00e7\u00f5es tais \u2013 chegando hoje a 50% dos pa\u00edses capitalistas mais avan\u00e7ados e apesar dos protestos das v\u00e1rias for\u00e7as pol\u00edticas conservadoras (inclu\u00eddo o Partido Trabalhista) \u2013 que o actual plano de interven\u00e7\u00e3o selvagem que procura abolir esta tend\u00eancia est\u00e1 condenado a um novo falhan\u00e7o. Estes virtuosos apelos a uma<em>&#8220;saud\u00e1vel contabilidade capitalista <\/em>&#8221; juntam-se \u00e0 mon\u00f3tona repeti\u00e7\u00e3o da promessa de &#8221; <em>reequilibrar a balan\u00e7a a favor do sector privado <\/em>&#8220;. Tudo o que estas medidas podem conseguir \u00e9 a imposi\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es de vida cada vez mais duras \u00e0s massas populares e nunca a aboli\u00e7\u00e3o da tend\u00eancia contradit\u00f3ria de hibridiza\u00e7\u00e3o do sistema.<\/p>\n<p>Na verdade, este assunto <em>&#8220;diz respeito \u00e0 estrutura actual do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista no seu todo, e n\u00e3o apenas a um dos seus sectores. N\u00e3o ser\u00e1 razo\u00e1vel pensar que o estado \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o para o problema, por mais dinheiro p\u00fablico que continue a ser desperdi\u00e7ado durante estas reveladoras opera\u00e7\u00f5es de resgate&#8230; A capacidade de interven\u00e7\u00e3o do estado na economia \u2013 que at\u00e9 a bem pouco tempo era considerado o pior rem\u00e9dio para qualquer problema da &#8220;moderna sociedade industrial&#8221; \u2013 tem como \u00fanica consequ\u00eancia o crescente agravamento destas contradi\u00e7\u00f5es. Quanto maior \u00e9 a dose administrada ao paciente em convalescen\u00e7a, maior \u00e9 a sua depend\u00eancia&#8221;. <\/em>[29]<\/p>\n<p>Neste sentido, vemo-nos confrontados com uma contradi\u00e7\u00e3o fundamental do sistema do capital. Qualquer que seja o lado da contradi\u00e7\u00e3o apresentado pelos seus defensores, este est\u00e1 condenado a ser anulado pelo seu oposto. Por um lado, a longo prazo, as doa\u00e7\u00f5es de somas astron\u00f3micas necess\u00e1rias ao financiamento do processo de hibridiza\u00e7\u00e3o do sistema do capital, produtivamente cada vez mais problem\u00e1tico, e financeiramente mais aventureiro e fraudulento, juntamente com o crescimento da gest\u00e3o privada do &#8220;sector p\u00fablico&#8221; \u2013 agora manipulada sob a forma das c\u00ednicas PPPs (Parcerias P\u00fablico-Privadas) [30] , bastante proveitosas para o capital privado \u2013 est\u00e3o condenadas ao esgotamento, minando assim a pr\u00f3pria viabilidade das doa\u00e7\u00f5es estatais.<\/p>\n<p>Por outro lado, esta equa\u00e7\u00e3o imposta ao capital pelo desenvolvimento hist\u00f3rico, a virtuosamente laudat\u00f3ria defesa do <em>&#8220;viver dentro das suas possibilidades&#8221; <\/em>\u2013 ou seja, a diminui\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria da actividade econ\u00f3mica em sintonia com os cortes draconianos nos <em>&#8220;empregos, pens\u00f5es e sal\u00e1rios&#8221; <\/em>assim como nos &#8221; <em>servi\u00e7os p\u00fablicos&#8221;, <\/em>feita com o intuito de reduzir uma &#8220;d\u00edvida nacional&#8221; que ascende j\u00e1 a milhares de milh\u00f5es e que n\u00e3o d\u00e1 sinais de decrescer \u2013 no quadro de um sistema de reprodu\u00e7\u00e3o social que funciona com base na sua mitologia de crescimento incessante: um crescimento auto-destrutivo, que no final de contas n\u00e3o significa mais que a alienante mas absolutamente necess\u00e1ria expans\u00e3o e acumula\u00e7\u00e3o do capital, reveladora de um completo desprezo pelas consequ\u00eancias \u2013 um sistema reprodutivo deste tipo, operando sobre tais princ\u00edpios contradit\u00f3rios pode apenas implodir.<\/p>\n<p>Por esta mesma raz\u00e3o, s\u00f3 uma mudan\u00e7a hist\u00f3rica global pode apresentar uma esperan\u00e7a na supera\u00e7\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es sist\u00e9micas do sistema do capital nesta fase espec\u00edfica de crise estrutural. Uma mudan\u00e7a hist\u00f3rica estrutural sustentada, cujo princ\u00edpio orientador fundamental \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de uma ordem reprodutiva social radicalmente diferente.<\/p>\n<p>A hibridiza\u00e7\u00e3o sist\u00e9mica que vemos crescer nos nossos dias, apesar de variadas tentativas pol\u00edticas para a conter, juntamente com a mitologia da superioridade <em>&#8220;do sistema privado de empreendedorismo&#8221; <\/em>e dos seus <em>&#8220;indiv\u00edduos consumidores soberanos <\/em>&#8220;, \u00e9 parte de um problema mais geral e mais grave que tem vindo a ganhar for\u00e7a no decurso dos \u00faltimos 100 anos. A causa subjacente a este problema pode ser descrita como a estreita margem de manobra hist\u00f3rica das alternativas objectivamente ao alcance do capital para deslocar e procurar controlar as suas contradi\u00e7\u00f5es antag\u00f3nicas.<\/p>\n<p>A tripla destrutividade do capital, que se apoia \u2013 (1) no sector militar, com as suas guerras imperialistas que se sucedem desde as \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XIX, \u00e0s quais se juntam as devastadoras armas de destrui\u00e7\u00e3o massiva desenvolvidas nos \u00faltimos 60 anos; (2) na intensifica\u00e7\u00e3o do impacto cada vez mais \u00f3bvio do capital na ecologia, que p\u00f5e em risco as bases naturais da pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia humana; e (3) no dom\u00ednio da produ\u00e7\u00e3o material e crescente desperd\u00edcio, resultado do avan\u00e7o da &#8220;produ\u00e7\u00e3o destrutiva&#8221;, que tomou o lugar da muito publicitada &#8220;destrui\u00e7\u00e3o criativa&#8221; ou &#8220;produtiva&#8221; \u2013 \u00e9 a consequ\u00eancia necess\u00e1ria dessa estreita margem de manobra.<\/p>\n<p>Desconcertantemente para o capital, nem o perigoso crescimento da destrutibilidade nem a consensual hibridiza\u00e7\u00e3o deste sistema antag\u00f3nico \u2013 hibridiza\u00e7\u00e3o essa que foi usada durante muito tempo para deslocar os antagonismos do capital nos pa\u00edses mais poderosos, e continuar\u00e1 a ser usado desta forma enquanto a viabilidade pol\u00edtica e econ\u00f3mica n\u00e3o for posta em causa pelo intensificar da crise estrutural \u2013 podem oferecer uma solu\u00e7\u00e3o de longo termo para a objectivamente estreita margem de manobra.<\/p>\n<p>\u00c9 parte das caracter\u00edsticas essenciais que definem um sistema antag\u00f3nico, que este seja estruturalmente incapaz de resolver as suas contradi\u00e7\u00f5es internas. \u00c9 precisamente isso que o define objectivamente como um sistema antag\u00f3nico. Desta forma, tal sistema necessita de instaurar outros modos de lidar ou gerir \u2013 enquanto puder \u2013 as suas contradi\u00e7\u00f5es sist\u00e9micas na impossibilidade de as resolver. Pois uma solu\u00e7\u00e3o historicamente vi\u00e1vel e sustent\u00e1vel, transformaria o pr\u00f3prio sistema capitalista numa forma n\u00e3o antagonista de escapar \u00e0s suas mais fundamentais determina\u00e7\u00f5es hier\u00e1rquicas estruturais de explora\u00e7\u00e3o que, ao contr\u00e1rio do pretendido pelo &#8220;capitalismo de rosto humano&#8221;, o definem realmente como uma ordem social reprodutiva insuperavelmente antag\u00f3nica. \u00c9 por isso que, de forma nada surpreendente, a ideologia apolog\u00e9tica do capital mais promovida e omnipresente \u00e9 a da nega\u00e7\u00e3o, requintada ou grosseira, da mais remota possibilidade de antagonismo sist\u00e9mico historicamente criado (e historicamente ultrapass\u00e1vel), antagonismo esse que \u00e9 apresentado de modo deturpado como um conflito individual, supostamente determinado pela sempiterna &#8220;natureza humana&#8221;.<\/p>\n<p>Todavia, uma tal nega\u00e7\u00e3o do antagonismo sist\u00e9mico pela ideologia dominante, independentemente de qu\u00e3o sofisticadamente camuflada ou cinicamente grosseira seja, n\u00e3o pode exorcizar o problema subjacente. Com efeito, tal problema pode apenas agravar-se nos tempos vindouros, como j\u00e1 aconteceu no contexto hist\u00f3rico das \u00faltimas d\u00e9cadas, marcado pelo agravamento da crise estrutural do capital. Isto sucede na medida em que h\u00e1 apenas dois modos segundo os quais uma ordem de reprodu\u00e7\u00e3o social fundamentalmente antag\u00f3nica pode lidar com as suas contradi\u00e7\u00f5es sist\u00e9micas fundamentais: (1) deslocando-as temporariamente ou (2) impondo-as aos seus advers\u00e1rios atrav\u00e9s de todos os meios ao seu dispor, incluindo os mais violentos e destrutivos. Neste duplo sentido:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\">Ao deslocar os antagonismos atrav\u00e9s de todos os meios dispon\u00edveis sob as condi\u00e7\u00f5es dadas. Como, por exemplo, atrav\u00e9s de todas as varia\u00e7\u00f5es de exporta\u00e7\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es internas que representa a bem conhecida diplomacia canhoneira do Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico, geradora de consensos sociais imperialistas, mistificadores e chauvinistas, transubstanciados e propagandeados como <em>&#8220;fardo do homem branco&#8221; <\/em>. Ou, alternativamente, atrav\u00e9s das pr\u00e1ticas, militarmente menos \u00f3bvias mas mais eficazes do ponto de vista pol\u00edtico-econ\u00f3mico, de usurpa\u00e7\u00e3o global &#8220;modernizadora&#8221; levadas a cabo, no p\u00f3s-II Guerra Mundial, nas \u00e1reas menos desenvolvidas do planeta [31] , de acordo com a pretensa ideologia p\u00f3s-imperialista \u2013 e isto por tanto tempo quanto esta modalidade de gest\u00e3o dos antagonismo sist\u00e9micos do capital pela sua desloca\u00e7\u00e3o\/exporta\u00e7\u00e3o for pratic\u00e1vel pelos poderes por enquanto dominantes a n\u00edvel internacional (e, claro, apenas por alguns, \u00e0 custa dos outros).<\/p>\n<p>Ao impor brutalmente aos seus advers\u00e1rios de classe, em situa\u00e7\u00f5es de agravamento da crise, os imperativos violentamente repressivos pr\u00f3prios de um refor\u00e7o do seu poder de classe, pondo de lado, em nome de estados de emerg\u00eancia socialmente necess\u00e1rios e &#8220;justificados&#8221;, as fic\u00e7\u00f5es da <em>&#8220;democracia e da lei&#8221;. <\/em>Ou, no caso de confrontos sist\u00e9micas inter-imperialistas, impondo ao rival mais fraco e aos inimigos do Estado, os interesses e as condi\u00e7\u00f5es <em>&#8220;n\u00e3o negoci\u00e1veis&#8221; <\/em>do poder militarmente dominante, e isto no sentido mais alargado e por todos os meios poss\u00edveis, incluindo guerras de exterm\u00ednio, como fica demonstrado pelas duas guerras mundiais de que o s\u00e9culo XX foi testemunha.<\/p>\n<p>O problema para a ordem dominante \u00e9 que nem o deslocamento exportador, atrav\u00e9s da usurpa\u00e7\u00e3o globalizada, das contradi\u00e7\u00f5es antagonistas do capital \u2013 ao qual se une um impacto devastador numa natureza, cuja sustentabilidade n\u00e3o apresentou, durante longos per\u00edodos hist\u00f3ricos, dificuldades de maior \u2013 nem a imposi\u00e7\u00e3o violenta dessas mesmas contradi\u00e7\u00f5es ao advers\u00e1rio a ser subjugado, pela for\u00e7a definitiva da guerra de exterm\u00ednio s\u00e3o, hoje em dia, prontamente realiz\u00e1veis . Com efeito, n\u00e3o restam, hoje em dia, regi\u00f5es significativas do planeta pass\u00edveis de serem usurpadas pelo poderes capitalistas dominantes, nem pela via directa da invas\u00e3o militar imperialista, nem pela recentemente institu\u00edda domina\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica <em>&#8220;modernizadora&#8221; <\/em>, visto que o dom\u00ednio global do capital, descrito por Marx na citada carta a Engels [32] , j\u00e1 est\u00e1 historicamente consumado. Por outras palavras, a usurpa\u00e7\u00e3o capitalista \u00e9, hoje em dia, completa, ainda que n\u00e3o sob a forma id\u00edlica da &#8220;globaliza\u00e7\u00e3o&#8221; [33] , glorificada pelos seus ide\u00f3logos profissionais e pelos seus mercen\u00e1rios. O capital domina e explora actualmente o nosso planeta de todos os modos que est\u00e3o ao seu alcance, no quadro da sua tripla destrutividade; mas n\u00e3o poder\u00e1 nunca resolver ou deslocar adequadamente os seus antagonismos estruturais e contradi\u00e7\u00f5es explosivas em proveito da sua tranquila expans\u00e3o e acumula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m disso, a tradicional <em>&#8220;solu\u00e7\u00e3o final&#8221; <\/em>do capital para o agravamento dos problemas, atrav\u00e9s guerra ilimitada travada no passado contra inimigos reais ou potenciais, tornou-se impratic\u00e1vel gra\u00e7as \u00e0 inven\u00e7\u00e3o de armas de destrui\u00e7\u00e3o massiva, actualmente plenamente operacionais, que destruiriam totalmente a humanidade no caso de uma nova guerra mundial. As cont\u00ednuas guerras parciais \u2013 mesmo quando nelas \u00e9 aplicada a dura estrat\u00e9gia militar da <em>&#8220;for\u00e7a esmagadora&#8221; <\/em>, com os seus imensos, e ainda mais insensivelmente denominados, <em>&#8220;danos colaterais&#8221; <\/em>infligidos \u00e0s popula\u00e7\u00f5es, como no Vietname e tantos outros s\u00edtios \u2013 n\u00e3o podem sen\u00e3o aprofundar a crise estrutural do sistema do capital, sem nunca oferecer uma alternativa ao modelo imperialista do vencedor e do vencido.<\/p>\n<p>Desta forma, o estreitamento das alternativas do capital no que toca \u00e0 gest\u00e3o dos seus antagonismos internos \u2013 os quais s\u00e3o insepar\u00e1veis da fase descendente do desenvolvimento do capital \u2013 traz consigo importantes consequ\u00eancias para o futuro, uma vez que a verdade \u00e9 \u2013 e ser\u00e1 sempre \u2013 que os problemas estruturais exigem solu\u00e7\u00f5es estruturais e clamam, como veremos, por rem\u00e9dios estruturais historicamente sustentados, num esp\u00edrito genuinamente socialista, realiz\u00e1veis apenas atrav\u00e9s da reconstitui\u00e7\u00e3o da dial\u00e9ctica hist\u00f3rica que foi radicalmente subvertida pelos antagonismos do capital no decurso da fase descendente do seu desenvolvimento sist\u00e9mico. Foi assim que a ordem metab\u00f3lica do capital, que outrora realizou aquele que foi de longe o maior desenvolvimento produtivo da Hist\u00f3ria, se transformou no seu contr\u00e1rio, tornando-se de longe o sistema de determina\u00e7\u00f5es estruturais mais destrutivo e uma amea\u00e7a directa \u00e0 sobreviv\u00eancia da Humanidade neste nosso lar planet\u00e1rio.<\/p>\n<p>No entanto, e n\u00e3o obstante todos os interesses velados que a isso se op\u00f5em, a irreprim\u00edvel dimens\u00e3o hist\u00f3rica da ordem estabelecida n\u00e3o deve ser ignorada e a configura\u00e7\u00e3o actual dos tra\u00e7os que a sustentam n\u00e3o deve ser erroneamente interpretada, uma vez que as estruturas sociais n\u00e3o podem \u2013 mesmo as mais fortemente entrincheiradas, como a ordem de reprodu\u00e7\u00e3o social do capital \u2013 vigorar como a <em>&#8220;lei da gravidade&#8221; <\/em>, exigindo um reconhecimento baseado no modelo da necessidade f\u00edsica. Da mesma forma, a necessidade hist\u00f3rica n\u00e3o pode ser concebida segundo o modelo da necessidade natural, como gostam de fazer os apologistas do capital, concebendo de forma err\u00f3nea a validade eterna do seu sistema, ao mesmo tempo que acusam Marx de ser, na sua vis\u00e3o do mundo, um <em>&#8220;determinista econ\u00f3mico&#8221;. <\/em>De acordo com a concep\u00e7\u00e3o dial\u00e9ctica de Marx, a necessidade das fases hist\u00f3ricas que se v\u00e3o revelando \u00e9 obrigatoriamente uma <em>&#8220;necessidade evanescente&#8221; <\/em>e as estruturas sociais \u2013 que ele descreve como <em>&#8220;evoluindo constantemente a partir do processo vivencial dos indiv\u00edduos concretos&#8221; <\/em>\u2013 est\u00e3o submetidas aos mais profundos limites hist\u00f3ricos. \u00c9 a isto que corresponde a dial\u00e9ctica da estrutura e da Hist\u00f3ria. Pois a estrutura e a Hist\u00f3ria est\u00e3o sempre profundamente interligadas no contexto humano e a Hist\u00f3ria \u00e9, ela mesma, necessariamente aberta. A complexidade e as contradi\u00e7\u00f5es da globaliza\u00e7\u00e3o, inevit\u00e1veis nos nossos tempos, n\u00e3o alteram isso, podendo apenas testemunhar a elevada responsabilidade de enfrentar os desafios envolvidos, como fica claro ao longo deste estudo. Como diz, de forma certeira, um prov\u00e9rbio h\u00fangaro: <em>&#8220;o que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 uma linha de feij\u00f5es&#8221; <\/em>(&#8220;nem babra megy a j\u00e1t\u00e9k&#8221;).<\/p>\n<p>Notas<\/p>\n<p>1. Marx, Economic and Philosophical Manuscripts of 1844 (London: Lawrence and Wishart: London, 1959), 110.<\/p>\n<p>2. Ibid., 111.<\/p>\n<p>3. Karl Marx and Frederick Engels, Collected Works (London: Lawrence and Wishart, 1975), 5:35 (henceforth MECW).<\/p>\n<p>4. Ibid., 41.<\/p>\n<p>5. Marx, The Poverty of Philosophy, (London: Lawrence and Wishart, 1936), 123. Written in the winter of 1846\u201347, publicado originalmente em franc\u00eas em 1847.<\/p>\n<p>6. Ver Arist\u00f3teles, Po\u00e9tica, cap\u00edtulos 8 e 9.<\/p>\n<p>7. Cf. Sec\u00e7\u00e3o 6.4 do presente livro (a publicar).<\/p>\n<p>8. Claude L\u00e9vi-Strauss, The Savage Mind (London: George Weidenfeld and Nicholson Ltd., 1966), 261\u201362. O original fran\u00e7\u00eas, La pens\u00e9e sauvage, foi publicado em Paris pela Plon em 1962. As tiradas de L\u00e9vi-Strauss contra o &#8220;humanismo transcendental&#8221; foram recuperadas por Louis Althusser e pelo seu circulo como elemento caracter\u00edstico fundamental do seu &#8220;Estruturalismo Marxista&#8221;, e do seu curioso &#8220;anti-Humanismo Te\u00f3rico&#8221;.<\/p>\n<p>9. Cf. primeiras 3 p\u00e1ginas da Sec\u00e7\u00e3o 6.4 deste livro. (a publicar).<\/p>\n<p>10. Jean-Fran\u00e7ois Lyotard, The Postmodern Condition: A Report on Knowledge (Manchester, UK: Manchester University Press, 1979), 79.<\/p>\n<p>11. Ibid, 60<\/p>\n<p>12. Lyotard, &#8220;Universal History and Cultural Differences,&#8221; The Lyotard Reader (Oxford, UK: Basil Blackwell, 1989), 318<\/p>\n<p>13. Ver a este respeito a carta de Marx a Engels, de extrema relev\u00e2ncia, de 8 de Outubro de 1858.<\/p>\n<p>14. Como o seu companheiro de armas, Engels reconhecia e destacava-o: &#8220;Marx tinha um ponto de vista privilegiado, viu mais longe, mais amplamente e mais rapidamente que qualquer um de n\u00f3s&#8221; Engels, &#8220;Ludwig Feuerbach and the End of Classical German Philosophy&#8221;, in Karl Marx and Frederick Engels: Selected Works, vol. 2 (Moscow: Foreign Languages Publishing House, 1951), 349.<\/p>\n<p>15. MECW, 5:52<\/p>\n<p>16. Ibid., 5:87<\/p>\n<p>17. Express\u00e3o de Marx usada na sua &#8220;Contribui\u00e7\u00e3o para a Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica&#8221; acerca dos feitos te\u00f3ricos elaborados no esp\u00edrito do ponto de vista dominante do capital pelos mais brilhantes intelectuais burgueses da fase ascendente do capital.<\/p>\n<p>18. Marx, Capital (Moscow: Foreign Language Publishers, 1959), 1:14.<\/p>\n<p>19. F.A. Hayek, The Fatal Conceit: the Errors of Socialism (London: Routledge, 1988), 99.<\/p>\n<p>20. Ibid., 101. Esta grosseira apologia daquilo que &#8220;\u00fatil e adequado ao capital&#8221; \u00e9 m\u00fasica para os ouvidos daqueles que acreditam que n\u00e3o se deve nem sequer tentar controlar o sistema financeiro global, catastroficamente perigoso, que desperdi\u00e7a de forma irrespons\u00e1vel de trili\u00f5es de d\u00f3lares originados pelo sector produtivo. H\u00e1 alguns anos atr\u00e1s citei um artigo do <em>London Sunday Times <\/em>que dizia que: &#8220;para cobrir a sua falta de liquidez, a General Motors, resolveu utilizar o fundo de pens\u00f5es de 15 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares, como lhe \u00e9 permitido pela lei americana. Agora 8,9 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares de dinheiro destinado \u00e0s pens\u00f5es dos seus trabalhadores est\u00e1 a descoberto&#8221;. Comentei ent\u00e3o, no meu livro <em>Para Al\u00e9m do Capital, <\/em>que: &#8220;a fraude n\u00e3o \u00e9 algo de marginal ou de excepcional ao sistema do capital, ela pertence mesmo \u00e0 sua normalidade&#8221;(xx). Recentemente o gigante industrial General Motors, que outrora se vangloriava do seu poder ao afirmar que o seu or\u00e7amento excedia o da B\u00e9lgica, teve de ser salvo da bancarrota pelo estado, apesar do seu comportamento revelador, &#8220;permitido pela lei americana&#8221;, no caso das pens\u00f5es dos seus trabalhadores.<\/p>\n<p>21. Hayek, The Fatal Conceit, 104.<\/p>\n<p>22. Esta forma deturpada de representa\u00e7\u00e3o remonta a um passado distante. J\u00e1 Engels criticara, numa nota \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do seu <em>Do socialismo ut\u00f3pico e do socialismo cient\u00edfico, <\/em>ao referir: &#8220;Tarde no tempo, Bismarck aplicou a estatiza\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es industriais, uma esp\u00e9cie de falso socialismo surgia ent\u00e3o, degenerando, aqui e ali, naquele servilismo que prontamente considera que todo o tipo de apropria\u00e7\u00e3o estatal, at\u00e9 mesmo a bismarckiana, como sendo socialista.&#8221; Marx &amp; Engels, Selected Works, 2:135.<\/p>\n<p>23. Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros, <em>Beyond Capital <\/em>(London: Merlin Press, 1995), xxi<\/p>\n<p>24. Ver o modo como uma das publica\u00e7\u00f5es semanais da burguesia internacional com maior consci\u00eancia de classe, <em>The Economist, <\/em>admite abertamente que o m\u00e9rito fundamental dos milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares, &#8220;investidos&#8221; na boa causa da bancarrota do capitalismo durante a mais recente crise, \u00e9 o de &#8220;salvar o sistema&#8221;, como sublinhado em caracteres gigantes na sua primeira p\u00e1gina de 11 de Outubro de 2008.<\/p>\n<p>25. Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros, &#8220;Ideology and Social Science&#8221;, ensaio apresentado no Interdisciplinar Seminar of the Division of Social Science na York University, Toronto, Janeiro de 1972. Publicado em The socialist register, em 1972. &#8220;Ideology and Social Science&#8221; foi publicado separadamente na \u00ccndia (New Delhi: Critical Quest, 2010). A cita\u00e7\u00e3o \u00e9 retirada da p\u00e1gina 10 desta publica\u00e7\u00e3o recente e facilmente acess\u00edvel.<\/p>\n<p>26. &#8220;Darling [o nome do ministro das Finan\u00e7as trabalhista brit\u00e2nico] deve fornecer um or\u00e7amento realista: devem ser feitos cortes no estado brit\u00e2nico; o Partido Trabalhista deve dizer-nos como&#8221;. Editorial, <em>Financial Times, <\/em>23 de Mar\u00e7o de 2010<\/p>\n<p>27. Isto significa, claro, um cada vez mais activo envolvimento directo do estado na economia e n\u00e3o o seu recuo.<\/p>\n<p>28. Ver Brian Groom, &#8220;Call It the Strategic Re-election Fund,&#8221; <em>Financial Times, <\/em>March 23, 2010<\/p>\n<p>29. De &#8220;The Necessity of Social Control&#8221;, a minha palestra em mem\u00f3ria de Isaac Deutscher, pronunciada na London School of Economics em 26 de Janeiro de 1971, citada a partir da p\u00e1gina 82 do meu livro &#8220;The Structural Crisis of Capital&#8221; (New York: Monthly Review Press, 2010)<\/p>\n<p>30. \u00c9 evidente, mesmo a partir de uma leitura de <em>The Economist, <\/em>qu\u00e3o absurdamente perdul\u00e1rias e mal geridas s\u00e3o estas &#8220;parcerias&#8221;, nascidas para compensar generosamente os accionistas das empresas capitalistas falidas e fortemente publicitadas pelo governo do &#8220;New Labour&#8221;. Mesmo que leiamos em The Economist de 15 de Maio de 2010, sob o t\u00edtulo &#8220;The Tube upgrade deals. Finis: The end of the line for Britain&#8217;s biggest private finance initiative&#8221;, que &#8220;Teoricamente, as PPP t\u00eam como objectivo aproveitar a efici\u00eancia do sector privado e, em troca de avultados lucros, transferir os riscos para as empresas contratadas. Mas, na realidade, nem a Tube Lines nem a Metronet foram capazes de p\u00f4r em pr\u00e1tica o acordado. A Metronet era mal gerida e a transfer\u00eancia dos riscos provou ser uma miragem: a empresa foi \u00e0 fal\u00eancia em 2007 e o governo resgatou as suas d\u00edvidas por cerca de 2 mil milh\u00f5es de libras&#8221; (40; ibidem para as cita\u00e7\u00f5es seguintes). Este tipo de acordo significa que nas &#8220;Parcerias P\u00fablico Privadas&#8221; o termo &#8220;Privado&#8221; equivale a &#8220;lucros avultados&#8221; e o termo &#8220;P\u00fablico&#8221; a avultadas perdas (nesta caso, cerca de 3 mil milh\u00f5es de libras), transferidas para os ombros dos trabalhadores, \u00e0 merc\u00ea da bancarrota capitalista, avidamente resgatada pelo estado. Da mesma forma, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel deixar isentas de responsabilidade as &#8220;empresas imparciais de consultoria&#8221;, cuja &#8220;especializa\u00e7\u00e3o&#8221; ajudou a justificar e a impor \u00e0 sociedade tais investimentos ficticiamente vantajosos. Assim &#8220;enquanto se instauravam as parcerias, a PricewaterhouseCoopers, uma [proeminente] consultora, previu que o sector privado poderia levar a poupan\u00e7as na ordem dos 30%, previs\u00e3o que serviu de base a todo o projecto. Mas a dita consultora n\u00e3o &#8220;apresentou qualquer base probat\u00f3ria fundamentando tal previs\u00e3o&#8221;, diz Stephen Glaister, um acad\u00e9mico que acompanhou a saga&#8221;. E este n\u00e3o \u00e9 de forma alguma o ponto final na hist\u00f3ria deste sistema de irresponsabilidade institucionalizada, visto que, &#8220;No dia 11 de Maio, Chris Bolt, o perito das PPPs, publicou uma an\u00e1lise dos antigos contratos da Metronet, agora tamb\u00e9m conduzidos internamente pela TFL [Transport for London]. \u00c9, segundo ele, decepcionante notar que a TFL mudou a forma como fazia a sua contabilidade, em compara\u00e7\u00e3o com a Tube Lines e estima imposs\u00edvel a pr\u00e9-aquisi\u00e7\u00e3o da Metronet. Assim, de acordo com a cumplicidade legal do sistema de irresponsabilidade institucionalizada, ningu\u00e9m poderia ser responsabilizado pelas perdas colossais. Mas quem pode realmente acreditar que este sistema de patroc\u00ednio estatal e irresponsabilidade catastroficamente perdul\u00e1ria ao servi\u00e7o da bancarrota capitalista pode ser mantido eternamente?<\/p>\n<p>31. Tamb\u00e9m neste aspecto \u00e9 \u00f3bvia a dimens\u00e3o hist\u00f3rica da desloca\u00e7\u00e3o estruturalmente determinante. A suposta justifica\u00e7\u00e3o das estrat\u00e9gias &#8220;modernizadoras&#8221; \u00e9-nos fornecida pelos privil\u00e9gios de explora\u00e7\u00e3o historicamente adquiridos (mas nunca referidos), pela m\u00e3o cheia de pa\u00edses capitalistas envolvidos, que falsamente prometem a difus\u00e3o universal do projecto de &#8220;desenvolvimento&#8221;, na aus\u00eancia total de base real que a sustente, como por exemplo na grotesca teoria da &#8220;arranque e caminho rumo \u00e0 maturidade&#8221; formulada por Walt Rostow (a este t\u00edtulo, conferir a sua obra The Stages of Economic Growth: A Non-Communist Manifesto (Cambridge, UK: Cambridge University Press, 1960).) Tais &#8220;teorias do desenvolvimento&#8221; tornaram-se, tamb\u00e9m no que toca a uma perspectiva de futuro, totalmente vazias assim que os &#8220;pa\u00edses modelo&#8221; privilegiados forem obrigados, apesar dos privil\u00e9gios que acumulam, a enfrentar os seus pr\u00f3prios problemas no seio da crise estrutural do capital.<\/p>\n<p>32. Ver acima, n.13<\/p>\n<p>33. Ver Martin Wolf, <em>Why Globalization Works: The Case for the Global Market Economy <\/em>(New Haven: Yale University Press, 2004).<\/p>\n<p>Trabalhos de Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros em <a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">resistir.info<\/a>:<\/p>\n<li><a href=\"http:\/\/resistir.info\/meszaros\/meszaros_nov08_p.html\" target=\"_blank\">A crise em desdobramento e a relev\u00e2ncia de Marx<\/a> , 07\/Nov\/08<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/resistir.info\/meszaros\/dual_crisis.html\" target=\"_blank\">Crise dual<\/a> , 07\/Ago\/08<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/resistir.info\/meszaros\/only_viable_economy_p.html\" target=\"_blank\">A \u00fanica economia vi\u00e1vel<\/a> , 30\/Abr\/07<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/resistir.info\/meszaros\/crise_estrutural_da_politica.html\" target=\"_blank\">A crise estrutural da pol\u00edtica<\/a> , 10\/Out\/06<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/resistir.info\/meszaros\/bolivar_chavez_p.html\" target=\"_blank\">Bol\u00edvar e Ch\u00e1vez: O esp\u00edrito da determina\u00e7\u00e3o radical<\/a> , 01\/Mai\/06<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/resistir.info\/meszaros\/harry_despedida.html\" target=\"_blank\">Despedida de Harry Magdoff<\/a> , 11\/Jan\/06<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/resistir.info\/meszaros\/meszaros_cap_18.html\" target=\"_blank\">A actualidade hist\u00f3rica da ofensiva socialista (cap\u00edtulo 18 de <em>Beyond Capital<\/em>)<\/a> , 31\/Dez\/05<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/resistir.info\/meszaros\/meszaros_educacao.html\" target=\"_blank\">A educa\u00e7\u00e3o para al\u00e9m do capital<\/a> , 23\/Fev\/05<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/resistir.info\/serpa\/comunicacoes\/meszaros_globalizacao.html\" target=\"_blank\">Marx, nosso contempor\u00e2neo, e o seu conceito de globaliza\u00e7\u00e3o<\/a> , 17\/Dez\/04<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/resistir.info\/mreview\/lembranca_de_paul.html\" target=\"_blank\">Lembran\u00e7a de Paul Sweezy<\/a> , 23\/Jul\/04<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/resistir.info\/cuba\/meszaros_cuba.html\" target=\"_blank\">Cuba: os pr\u00f3ximos 45 anos?<\/a> , 12\/Jan\/04<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/resistir.info\/crise\/militarismo.html\" target=\"_blank\">O militarismo e as guerras vindouras<\/a> , 07\/Jul\/03<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/resistir.info\/crise\/desemprego_precarizacao.html\" target=\"_blank\">Desemprego e precariza\u00e7\u00e3o: Um grande desafio para a esquerda<\/a> , 27\/Jun\/03<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/resistir.info\/mreview\/desenvolvimento_sustentavel.html\" target=\"_blank\">O desafio do desenvolvimento sustent\u00e1vel e a cultura da igualdade substantiva<\/a> , 28\/Nov\/02\n<p>O original encontra-se em <a href=\"http:\/\/monthlyreview.org\/2011\/05\/01\/the-dialectic-of-structure-and-history-an-introduction\" target=\"_blank\">monthlyreview.org\/2011\/&#8230;<\/a> . Tradu\u00e7\u00e3o de Miguel Queiroz.<\/p>\n<p>Este artigo encontra-se em <a href=\"http:\/\/resistir.info\/meszaros\/dialectica_estrutura_historia_p.html\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/meszaros\/dialectica_estrutura_historia_p.html<\/a><\/p>\n<\/li>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Resistir.info\n\n\n\n\n\n\n\n\nIstv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1640\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[33],"tags":[],"class_list":["post-1640","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c34-marxismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-qs","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1640","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1640"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1640\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1640"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1640"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1640"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}