{"id":16512,"date":"2017-10-09T14:48:29","date_gmt":"2017-10-09T17:48:29","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=16512"},"modified":"2017-10-10T00:16:41","modified_gmt":"2017-10-10T03:16:41","slug":"brancos-ricos-e-perigosos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16512","title":{"rendered":"Brancos, ricos e perigosos"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/s3-media2.fl.yelpcdn.com\/bphoto\/UXLpwMWLruNS5_--dW7o_Q\/348s.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->O recente massacre de Las Vegas \u00e9 apenas mais um. Nos EUA houve 1515 ataques deste tipo nos \u00faltimos 1735 dias. S\u00f3 em 2016, foram 383 tiroteios, mais do que um por dia, contra v\u00edtimas aleat\u00f3rias, fazendo mais de 15 mil mortos num s\u00f3 ano. No que j\u00e1 vai de 2017, as estat\u00edsticas n\u00e3o s\u00e3o menos sombrias: 273 tiroteios em massa, quase todos sem raz\u00e3o aparente e levados a cabo por \u00ablobos solit\u00e1rios\u00bb. A quest\u00e3o \u00e9 que 273 \u00ablobos solit\u00e1rios\u00bb s\u00e3o uma alcateia.<\/p>\n<p>Em jarg\u00e3o policial estadunidense, \u00abn\u00e3o h\u00e1 nada que permita ligar este tiroteio ao terrorismo\u00bb quer apenas dizer \u00abn\u00e3o h\u00e1 provas de que o atirador fosse mu\u00e7ulmano\u00bb. Arruma\u00e7\u00f5es casu\u00edsticas \u00e0 parte, o ataque indiscriminado que fez 59 mortos e cinco centenas de feridos num concerto em Las Vegas entra para a t\u00e9trica contabilidade dos tiroteios americanos como um dos mais mort\u00edferos da hist\u00f3ria moderna dos EUA, somente atr\u00e1s do massacre de nativos em Wounded Knee (quase 300 mortos) e da repress\u00e3o dos mineiros em greve de Blair (cerca de 100 mortos).<\/p>\n<p>E, estranhamente, o que nesta chacina inspira terror \u00e9 justamente o que, para a Casa Branca, exclui a classifica\u00e7\u00e3o de terrorismo: a inquietante possibilidade de Stephen Paddock, um discreto milion\u00e1rio de 64 anos, ter acordado um dia e decidido fazer chover milhares de balas sobre uma multid\u00e3o de desconhecidos. S\u00f3 porque sim. Como James Holmes, o brilhante estudante de neuroci\u00eancias, numa sala de cinema, ou Adam Lanza, o t\u00edmido jovem de um sub\u00farbio rico, numa escola prim\u00e1ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o estamos a falar de um ou dois \u00abloucos\u00bb nem de, como se lhes convencionou chamar, \u00ablobos solit\u00e1rios\u00bb. O Congresso dos EUA define um \u00abtiroteio em massa\u00bb como um ataque com arma de fogo contra pelo menos quatro pessoas selecionadas aleatoriamente. Nos EUA houve 1515 ataques deste tipo nos \u00faltimos 1735 dias. S\u00f3 em 2016, foram 383 tiroteios, mais do que um por dia, contra v\u00edtimas aleat\u00f3rias, fazendo mais de 15 mil mortos num s\u00f3 ano. No que j\u00e1 vai de 2017, as estat\u00edsticas n\u00e3o s\u00e3o menos sombrias: 273 tiroteios em massa, quase todos sem raz\u00e3o aparente e levados a cabo por \u00ablobos solit\u00e1rios\u00bb. A quest\u00e3o \u00e9 que 275 \u00ablobos solit\u00e1rios\u00bb s\u00e3o uma alcateia.<\/p>\n<p>Alcateia de humanos solit\u00e1rios<\/p>\n<p>Segundo o site de informa\u00e7\u00e3o Mother Jones, mais de metade dos autores dos tiroteios em massa encaixa-se numa estreita base demogr\u00e1fica: homens, brancos e com rendimentos acima da m\u00e9dia. Deveria Trump proibir a entrada nos EUA, \u00e0 guisa do que tem feito com algumas nacionalidades, das pessoas que se encaixem neste molde? \u00c9 claro que n\u00e3o. E ainda assim, este \u00e9 um elemento central para um debate urgente sobre a sa\u00fade p\u00fablica, o uso e porte de armas, a decad\u00eancia cultural do capitalismo e a guerra imperialista.<\/p>\n<p>Nos EUA, a guerra imperialista \u00e9 uma constante ininterrupta h\u00e1 mais de 70 anos. Todas as gera\u00e7\u00f5es de estadunidenses vivos t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o pessoal ou familiar com a invas\u00e3o e ocupa\u00e7\u00e3o de outros pa\u00edses do mundo. Vietnam, Coreia, Col\u00f4mbia, Iraque, Afeganist\u00e3o\u2026 a lista \u00e9 infinitamente traum\u00e1tica e faz-se ao som de bombas, tiros, gritos e choros.<br \/>\nO pre\u00e7o psicol\u00f3gico da participa\u00e7\u00e3o, prolongada e massiva, da sociedade estadunidense neste dilatado crime de guerra foi uma patologia social, como que um \u00abstress p\u00f3s-traum\u00e1tico em massa\u00bb cujos sintomas mais vis\u00edveis s\u00e3o o culto da viol\u00eancia e a insensibilidade perante o sofrimento alheio. Juntemos a completa aus\u00eancia de cuidados de sa\u00fade mental, 89 armas por cada 100 habitantes e a mais alta taxa de homic\u00eddios da OCDE e temos um explosivo nas m\u00e3os. O rastilho \u00e9 o individualismo patol\u00f3gico: a ideia de que s\u00e3o ricos todos os que trabalharam para merec\u00ea-lo ou s\u00e3o suficientemente inteligentes e que, do outro lado do espelho, os pobres merecem o desprezo dos ricos e o \u00f3dio de si pr\u00f3prios. Quem atomiza uma sociedade, desligando o indiv\u00edduo do colectivo, faz do ser humano um \u00ablobo solit\u00e1rio\u00bb. E de um pa\u00eds uma alcateia inteira.<\/p>\n<p>Este artigo foi publicado no \u201cAvante!\u201d n\u00ba 2288, 5.10.2017<\/p>\n<p>https:\/\/www.odiario.info\/brancos-ricos-e-perigosos\/<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16512\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[165],"tags":[224],"class_list":["post-16512","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eua","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4ik","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16512","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16512"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16512\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16512"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16512"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16512"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}