{"id":16532,"date":"2017-10-10T15:59:37","date_gmt":"2017-10-10T18:59:37","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=16532"},"modified":"2017-10-10T15:59:37","modified_gmt":"2017-10-10T18:59:37","slug":"nas-ruas-do-brasil-a-ditadura-ainda-vive","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16532","title":{"rendered":"Nas ruas do Brasil, a ditadura ainda vive"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/s3-sa-east-1.amazonaws.com\/apublica-files-main\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/04144531\/Ruas-com-nomes-de-torturadores-no-Brasil-paralax1.png?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->por Rodrigo Menegat<\/p>\n<p>Uma rua de menos de 200 metros no centro de S\u00e3o Paulo leva o nome de Vladimir Herzog. Ela homenageia o jornalista que foi torturado e morto pela ditadura militar \u2013 que governou o pa\u00eds de 1964 at\u00e9 1985 \u2013 e se constitui em uma pequena exce\u00e7\u00e3o: a maioria das ruas que levam os nomes de personagens do per\u00edodo homenageia o lado dos ditadores e seus colaboradores.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso da Avenida Presidente Castelo Branco, parte do complexo de vias que forma a Marginal Tiet\u00ea, a menos de 500 metros de dist\u00e2ncia da rua Vladimir Herzog. Ela foi batizada em refer\u00eancia ao general que tomou o poder no Golpe de 1964 \u2013 iniciando o processo autorit\u00e1rio que culminaria no assassinato de Vladimir Herzog e de pelo menos mais 433 pessoas, muitas das quais seguem desaparecidas at\u00e9 hoje, sem que seus corpos tenham sido encontrados.<\/p>\n<p>Em todo o territ\u00f3rio do Brasil, s\u00e3o muitas ruas nomeadas em homenagem a personagens sombrios de nossa hist\u00f3ria \u2013 incluindo aqueles que est\u00e3o entre os 377 apontados como respons\u00e1veis por torturas e mortes pela Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV), um comit\u00ea que investigou os crimes do Estado naquele per\u00edodo.<\/p>\n<p>Embora o n\u00famero de v\u00edtimas reconhecidas seja maior que o n\u00famero de criminosos levantados pela CNV, a soma do comprimento de ruas com o nome de v\u00edtimas \u00e9 bem menor. S\u00e3o aproximadamente 160 km homenageando os que tombaram pela m\u00e3o do regime contra mais de 2000 km de vias que fazem refer\u00eancia aos algozes de acordo com o mapeamento feito nas ruas de todos os estados brasileiros.<\/p>\n<p>No projeto, foram usados dados publicados pelo <em>OpenStreetMap<\/em>, uma plataforma colaborativa em que cada usu\u00e1rio pode adicionar e atualizar informa\u00e7\u00f5es sobre localiza\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas e endere\u00e7os. O banco de dados n\u00e3o \u00e9 perfeito: h\u00e1 inconsist\u00eancias na padroniza\u00e7\u00e3o dos nomes e, principalmente, algumas das vias s\u00e3o representadas por mais de um item, o que impossibilita um contagem precisa do n\u00famero de logradouros. Uma descri\u00e7\u00e3o detalhada sobre a produ\u00e7\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel <a href=\"https:\/\/github.com\/RodrigoMenegat\/studio-projects\/tree\/master\/code\/brazil-dictatorship-streets\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p>No mapa que apresentamos abaixo, as ruas com nomes de criminosos est\u00e3o marcadas em roxo; e as das v\u00edtimas em laranja. Ao clicar em cada uma das linhas no mapa, \u00e9 poss\u00edvel ler uma breve biografia de cada pessoa.<\/p>\n<p><strong>Ruas que homenageiam torturadores e v\u00edtimas da Ditadura<\/strong><\/p>\n<p><em>Clique no estado para visualizar | <a href=\"https:\/\/s3-sa-east-1.amazonaws.com\/apublica-files-main\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/04125107\/Infografico_Brasil_Ruas.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Clique aqui<\/strong> <\/a>para melhor visualiza\u00e7\u00e3o em dispositivos m\u00f3veis<\/em><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem100a\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/s3-sa-east-1.amazonaws.com\/apublica-files-main\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/04110834\/Brasil.png?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><\/p>\n<p><strong><b>Compara\u00e7\u00e3o da extens\u00e3o de ruas com nomes de torturadores e v\u00edtimas<\/b><\/strong><\/p>\n<p><b>Vielas estreitas e grandes estradas<\/b><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem100a\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/s3-sa-east-1.amazonaws.com\/apublica-files-main\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/04133842\/Comparacao-Brasil-ruas-torturadores-torturados1.png?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 apenas em n\u00famero que as ruas com nome de generais e oficiais t\u00eam maior destaque do que as vias que homenageiam suas v\u00edtimas. H\u00e1 tamb\u00e9m uma diferen\u00e7a geogr\u00e1fica e simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>Enquanto grandes rodovias como a j\u00e1 mencionada Avenida Castelo Branco e a Ponte Costa e Silva (nome oficial da Ponte Rio-Niter\u00f3i) comemoram o regime militar, os locais de mem\u00f3ria da resist\u00eancia se concentram em \u00e1reas perif\u00e9ricas e mais pobres. Em S\u00e3o Paulo, por exemplo, a maioria das ruas que homenageiam as v\u00edtimas se concentra em regi\u00f5es pobres da Zona Norte e da Zona Sul, nos bairros de Jova Rural e Graja\u00fa, respectivamente.<\/p>\n<p>O mesmo acontece no Rio de Janeiro, onde diversas ruas que homenageiam militantes da resist\u00eancia ficam no bairro oper\u00e1rio de Bangu.<\/p>\n<p>Uma grande parcela dos locais que relembram os l\u00edderes militares foram batizados ainda sob o governo ditatorial. Em contraste, os endere\u00e7os que rememoram os mortos e desaparecidos s\u00f3 apareceram depois de esfor\u00e7os empreendidos por diferentes setores da sociedade civil.<\/p>\n<p><strong>Mudan\u00e7as de nome<\/strong><\/p>\n<p>No centro de S\u00e3o Paulo, uma via elevada corre por cerca de 3.5km, atravessando quatro bairros diferentes. Popularmente conhecida como Minhoc\u00e3o por seu comprimento e apar\u00eancia, essa controversa interven\u00e7\u00e3o urbana se chamou oficialmente Elevado Costa e Silva em refer\u00eancia ao segundo presidente da Ditadura, desde que foi finalizada, em 1970, at\u00e9 meados de 2016.<\/p>\n<p>No meio do ano passado, por\u00e9m, ela foi rebatizada de Elevado Presidente Jo\u00e3o Goulart, uma homenagem ao \u00faltimo l\u00edder civil a governar o pa\u00eds antes do Golpe de 1964.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a faz parte de um movimento que acontece conforme as institui\u00e7\u00f5es brasileiras olham para o passado e tentam decidir de que maneira ele deve se refletir no presente e no futuro. Ainda que o presidente Jo\u00e3o Goulart tenha sido perseguido e perdido os direitos pol\u00edticos durante o regime, ele n\u00e3o \u00e9 considerado oficialmente uma v\u00edtima de viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos. Paulo Stuart Wright, por\u00e9m, \u00e9.<\/p>\n<p>Ex-deputado estadual de Santa Catarina, filho de dois mission\u00e1rios norte-americanos, <a href=\"https:\/\/apublica.org\/2013\/04\/fred-morris-paulo-stuart-wright-crimmins-brown-ditadura\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Wright foi perseguido pelos militares<\/a> desde o in\u00edcio do regime. Cassado pelo golpe militar ele se exilou no M\u00e9xico em 1964, voltando clandestinamente ao pa\u00eds no ano seguinte para militar na resist\u00eancia contra a ditadura. Wright desapareceu em 1973 e sua morte s\u00f3 foi confirmada quando arquivos<\/p>\n<p><strong>Confronto aberto<\/strong><\/p>\n<p>Um dos momentos mais dram\u00e1ticos da pol\u00edtica brasileira nos \u00faltimos anos, o impeachment de Dilma Rousseff (PT), foi deflagrado na C\u00e2mara dos Deputados. Jair Bolsonaro, ex-capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito e figura proeminente da extrema-direita, estava entre os deputados que votaram contra Dilma \u2013 e ele fez isso de maneira controversa.<\/p>\n<p>\u201cPerderam em 1964 e perderam novamente em 2016\u201d, disse Bolsonaro comparando o golpe militar ao impeachment. \u201cPela mem\u00f3ria do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o terror de Dilma Rousseff [\u2026] eu voto sim [ao impeachment]\u201d.<\/p>\n<p>Bolsonaro homenageava o comandante do DOI-CODI de S\u00e3o Paulo, a c\u00e2mara de tortura e morte que operava contra os inimigos do regime entre 1970 e 1974. Ustra, que <a href=\"http:\/\/politica.estadao.com.br\/blogs\/fausto-macedo\/morre-coronel-ustra\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">h\u00e1 dois anos morreu livre<\/a> e, segundo ele, sem arrependimentos, \u00e9 considerado um dos agentes mais violentos das for\u00e7as de repress\u00e3o da ditadura.<\/p>\n<p>Suas v\u00edtimas descreveram diferentes m\u00e9todos de tormento, como choques el\u00e9tricos e a inser\u00e7\u00e3o de ratos vivos na vagina de prisioneiras. Em alguns dos casos mais brutais, as sess\u00f5es de tortura foram testemunhadas pelos filhos e c\u00f4njuges dos dissidentes. A pr\u00f3pria Dilma passou meses detida em pris\u00f5es do DOI-CODI nos anos 70 por participar de movimentos de resist\u00eancia armada.<\/p>\n<p>Durante o impeachment de Dilma, grupos que simpatizam com Bolsonaro tomaram as ruas, pedindo que as For\u00e7as Armadas \u201csalvem o pa\u00eds do comunismo outra vez\u201d\u2013 ret\u00f3rica que evoca a justificava usada pelos partid\u00e1rios do Golpe Militar h\u00e1 43 anos. Atualmente, o candidato \u00e0 presid\u00eancia Jair Bolsonaro aparece em segundo lugar nas pesquisas eleitorais, atr\u00e1s apenas do ex-presidente Lula, tamb\u00e9m detido pela ditadura militar. Mais uma evid\u00eancia de que o passado n\u00e3o est\u00e1 apenas confinado nos nomes de rua \u2013 ele insiste em voltar \u00e0 superf\u00edcie de tempos em tempos.<\/p>\n<p>Ilustra\u00e7\u00e3o: Vias p\u00fablicas batizadas em homenagem a torturadores e mandantes do regime militar est\u00e3o presentes em todo o pa\u00eds<\/p>\n<p>https:\/\/apublica.org\/2017\/10\/<wbr \/>nas-ruas-do-brasil-a-ditadura-ainda-vive\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16532\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[223],"class_list":["post-16532","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4iE","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16532","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16532"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16532\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16532"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16532"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16532"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}