{"id":16536,"date":"2017-10-10T17:11:34","date_gmt":"2017-10-10T20:11:34","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=16536"},"modified":"2018-03-06T17:18:45","modified_gmt":"2018-03-06T20:18:45","slug":"falacias-das-reformas-trabalhistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16536","title":{"rendered":"Fal\u00e1cias das reformas trabalhistas"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/banco\/tecnologia\/industria_automatizada_foto_maquina_atual.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->\u201cA cada dez anos, os pol\u00edticos afirmam que \u2018desta vez \u00e9 diferente porque a tecnologia est\u00e1 mudando tudo\u2019. Agora, a ideia \u00e9 que os computadores v\u00e3o passar a substituir todo o trabalho humano. Em minha opini\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 nada de novo na economia, trata-se de uma estrat\u00e9gia dos empregadores para reduzir o custo do trabalho. Isto n\u00e3o tem nada a ver com a produtividade. E mais, reduzir sal\u00e1rios costuma fazer perder produtividade\u201d. A an\u00e1lise pertence a Teresa Ghilarducci, economista norte-americana consultada por P\u00e1gina\/12, especializada no mundo do trabalho e especialista em seguridade social.<\/p>\n<p>Ghilarducci \u00e9 professora da <em>New School for Social Research<\/em> de Nova York e diretora do<em> Schwartz Center for Economic Policy Analysis<\/em> e do<em> New School\u2019s Retirement Equity Lab<\/em> (ReLab). Embora seu objeto de estudo n\u00e3o se centre na Argentina, as discuss\u00f5es locais acerca da reforma trabalhista e previdenci\u00e1ria est\u00e3o dentro de uma corrente global da qual Ghilarducci \u00e9 uma das principais cr\u00edticas.<\/p>\n<p>A entrevista \u00e9 de Javier Lewkowicz, publicada por P\u00e1gina\/12, 05-10-2017. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 do Cepat.<\/p>\n<p><strong>Eis a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O Brasil sancionou uma reforma trabalhista que avan\u00e7a para a flexibiliza\u00e7\u00e3o e a redu\u00e7\u00e3o do poder de negocia\u00e7\u00e3o dos sindicatos. Na Argentina, essa discuss\u00e3o ganha cada vez mais relev\u00e2ncia, ancorada na mudan\u00e7a tecnol\u00f3gica e na necessidade de melhorar a competitividade. Qual \u00e9 sua postura em rela\u00e7\u00e3o a este tema?<\/strong><\/p>\n<p>Em primeiro lugar, as reformas trabalhistas n\u00e3o t\u00eam nada a ver com a absor\u00e7\u00e3o das novas tecnologias. A tecnologia est\u00e1 vinculada ao trabalho formal e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. E mais, a cada dez anos os pol\u00edticos dizem que \u2018desta vez \u00e9 diferente porque a tecnologia est\u00e1 mudando tudo\u2019. Agora, a ideia em n\u00edvel global \u00e9 que os computadores podem substituir o trabalho humano e que os trabalhadores devem poder prover servi\u00e7os de maneira individual, que agora cada um ser\u00e1 seu pr\u00f3prio empregador. Existe o exemplo do Uber e outros empregos que o consumidor pode conseguir atrav\u00e9s dos aplicativos de celular. Por exemplo, nos Estados Unidos est\u00e1 bastante difundido um aplicativo com o qual \u00e9 poss\u00edvel requerer o trabalho manual de algu\u00e9m, para uma mudan\u00e7a ou um conserto. No entanto, penso que em n\u00edvel geral a tecnologia n\u00e3o modifica as bases da rela\u00e7\u00e3o de trabalho formal e est\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>Tamb\u00e9m se apresenta o assunto pelo lado da competitividade.<\/strong><\/p>\n<p>Est\u00e1 comprovado que a redu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios \u2013 que surge como efeito da redu\u00e7\u00e3o do poder de negocia\u00e7\u00e3o coletiva \u2013 n\u00e3o implica uma melhora na produtividade. Ao contr\u00e1rio, pode piorar a produtividade. O trabalho barato faz com que os empres\u00e1rios se tornem \u201cgordos e b\u00eabados\u201d \u2013 segundo a express\u00e3o em ingl\u00eas \u2013 e n\u00e3o tenham incentivos para investir no capital. Ao contr\u00e1rio, o aumento de sal\u00e1rios \u00e9 o melhor modo de aumentar a produtividade.<\/p>\n<p><strong>A concorr\u00eancia chinesa modifica essa descri\u00e7\u00e3o de algum modo?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o. De fato, a China est\u00e1 mudando rapidamente sua estrat\u00e9gia de crescimento em fun\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de bens baratos. Est\u00e1 desenvolvendo um sistema cada vez mais sofisticado, os sal\u00e1rios aumentam e os trabalhadores est\u00e3o mais treinados. A contraface \u00e9 a \u00c1frica do Sul, uma economia baseada na extra\u00e7\u00e3o de recursos naturais que n\u00e3o conta com um sistema de industrializa\u00e7\u00e3o e s\u00f3 pode empregar trabalho barato. A \u00c1frica do Sul sofre por ter baixos sal\u00e1rios e n\u00e3o ter f\u00e1bricas para processar os recursos minerais e do setor agropecu\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>Outro ponto que a curto e m\u00e9dio prazo o governo nacional planeja rediscutir \u00e9 o sistema previdenci\u00e1rio, que tamb\u00e9m costuma ser motivo de debate entre os economistas em todo o mundo.<\/strong><\/p>\n<p>Nos anos 1990, o argumento era de que a privatiza\u00e7\u00e3o dos sistemas de seguran\u00e7a social traria uma s\u00e9rie de benef\u00edcios porque os trabalhadores teriam incentivos para trabalhar mais e mais duro. Al\u00e9m disso, melhorariam as finan\u00e7as p\u00fablicas porque os idosos deixariam de cobrar por ter pagado ao Estado, mas, ao contr\u00e1rio, receberiam sua pr\u00f3pria contribui\u00e7\u00e3o. A Argentina esteve na cabe\u00e7a daquelas reformas, que tamb\u00e9m atingiram os pa\u00edses europeus. Contudo, os fundos de pens\u00f5es ingressaram no mundo da financeiriza\u00e7\u00e3o, que entrou em colapso em 2009, o que reduziu substancialmente o valor desses ativos.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o os resultados do modelo previdenci\u00e1rio privado em termos de distribui\u00e7\u00e3o do ingresso nos Estados Unidos?<\/strong><\/p>\n<p>O resultado \u00e9 que os trabalhadores precisam enfrentar a pobreza em seus \u00faltimos dias. Isto afeta especialmente as mulheres, porque t\u00eam menor quantidade de anos no setor formal e tamb\u00e9m menores ingressos. Entre os norte-americanos, 90% n\u00e3o contam com as economias necess\u00e1rias para subsistir, assim que se encerra sua vida de trabalho. Como resultado, enfrentam a experi\u00eancia da mobilidade social descendente ou precisam continuar trabalhando. Em outras palavras, os norte-americanos n\u00e3o contam com poupan\u00e7as suficientes para encarar a aposentadoria. Calcula-se que, diretamente, entre 25 e 30% das fam\u00edlias n\u00e3o possuem poupan\u00e7as, o que permite pressagiar uma grave crise previdenci\u00e1ria no pa\u00eds. Sob esta tend\u00eancia, 16 milh\u00f5es de aposentados viver\u00e3o na pobreza em 2022.<\/p>\n<p><strong>O tema previdenci\u00e1rio se coloca pelo lado do d\u00e9ficit fiscal.<\/strong><\/p>\n<p>O fato de os indiv\u00edduos pagarem por sua aposentadoria n\u00e3o tem um impacto fiscal positivo. Porque, embora o Estado n\u00e3o fa\u00e7a isto diretamente, acaba fazendo indiretamente, porque o empobrecimento dos idosos \u00e9 um custo fiscal negativo. Quero dizer, o custo da pobreza \u00e9 enorme. Por sua vez, se os idosos ampliam sua vida de trabalho, reduz-se a produtividade geral, pois os jovens ter\u00e3o menos trabalho. Ou seja, a sociedade precisa pagar pelo custo dos que j\u00e1 n\u00e3o trabalham. Colocar em causa estes temas implica que os pa\u00edses esqueceram as experi\u00eancias do passado. O sistema previdenci\u00e1rio \u00e9 parte do territ\u00f3rio de hist\u00f3rica disputa entre classes sociais, assim como os fins de semana, a dura\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho, a remunera\u00e7\u00e3o pela enfermidade e as f\u00e9rias.<\/p>\n<p><strong>Quem \u00e9 Ghilarducci<\/strong><\/p>\n<p><strong>Teresa Ghilarducci<\/strong> \u00e9 uma economista norte-americana especializada em temas trabalhistas e no sistema previdenci\u00e1rio. Doutorou-se em Economia pela Universidade da Calif\u00f3rnia e foi professora, durante 25 anos, na Universidade de Notre Dame, Indiana. De 2007 a 2009, atuou no Programa de Trabalho da Universidade de Harvard e, em 2008, incorporou-se a <em>New School for Social Research<\/em> de Nova York. \u00c9 membro da Junta de Diretores do Instituto de Pol\u00edticas Econ\u00f4micas, um <em>think tank<\/em> de Washington que busca \u201cincluir os interesses dos trabalhadores de baixos e m\u00e9dios ingressos nas pol\u00edticas econ\u00f4micas\u201d. \u201cGhilarducci est\u00e1 focada na necessidade de restaurar a promessa da aposentadoria para cada trabalhador norte-americano\u201d, resume seu blog.<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/<wbr \/>78-noticias\/572392-falacias-das-reformas-trabalhistas<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16536\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[190,15],"tags":[],"class_list":["post-16536","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-fora-temer","category-s18-sindical"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4iI","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16536","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16536"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16536\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16536"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16536"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16536"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}