{"id":16551,"date":"2017-10-11T18:39:53","date_gmt":"2017-10-11T21:39:53","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=16551"},"modified":"2017-10-11T18:39:53","modified_gmt":"2017-10-11T21:39:53","slug":"etiopia-530-000-refugiados-no-mega-campo-sem-hospital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16551","title":{"rendered":"Eti\u00f3pia: 530.000 refugiados no mega campo sem hospital"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2017\/10\/10_10_2017_campo_de_refugiado_unhcr_acnur_americas_flickr.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Os destro\u00e7os do naufr\u00e1gio dos crist\u00e3os no Nilo Branco encalharam aqui, no vasto campo de barracas brancas perto de Gambella. Quinhentas mil almas. Raros homens n\u00e3o-combatentes, muitas e muitas mulheres com beb\u00eas ao peito, formigueiros de crian\u00e7as com camisetas de Messi ou Ronaldo. As mesmas usadas, do outro lado da fronteira, pelas 17.000 crian\u00e7as-soldados arrastadas para o turbilh\u00e3o da guerra.<\/p>\n<p>A reportagem \u00e9 de Gian Antonio Stella, publicada por Corriere della Sera, 07-10-2017. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 de Luisa Rabolini.<\/p>\n<p>S\u00e3o uma multid\u00e3o, 530 mil pessoas. O triplo de todos os imigrantes que chegaram \u00e0 It\u00e1lia em 2016. Cinco vezes os de 2017. No entanto, \u00e9 apenas um oitavo dos quatro milh\u00f5es de sudaneses do sul for\u00e7adas a deixar casas, terras, animais para escapar da matan\u00e7a. Um \u00eaxodo b\u00edblico que busca abrigo metade em \u00e1reas ainda n\u00e3o incendiadas pela guerra civil e metade no exterior: em Uganda, Qu\u00eania, Congo, Eti\u00f3pia. Como Nguenyyiel, um dos aglomerados do mega-campo nas colinas perto de Gambella. Inaugurado h\u00e1 um ano, sozinho j\u00e1 hospeda 54 mil refugiados. Um mar de tendas, alguma choupanas, caminh\u00f5es-pipa para a distribui\u00e7\u00e3o de \u00e1gua, uma esp\u00e9cie de alfaiataria itinerante criada por um jovem fugitivo com a velha m\u00e1quina de costura Dress, barbeiros que improvisam penteados estilo Neymar, vacas, atoleiros e tr\u00eas galp\u00f5es compridos, estreitos e insalubres. \u00c9 o &#8221;hospital&#8217;. Onde uma menina esquel\u00e9tica dorme no ch\u00e3o entre enxames de moscas. A m\u00e3e deixou-a debaixo de uma \u00e1rvore, ao lado das rodas de um caminh\u00e3o.<\/p>\n<p>P\u00f3, ferrugem, desinfetante nas narinas, cheiro de urina, mulheres doentes que perambulam feito son\u00e2mbulas, ao lado de crian\u00e7as com o destino tra\u00e7ado. &#8220;Esta pequena agora est\u00e1 no fim. Mal\u00e1ria. Dificilmente vai passar desta noite. A m\u00e3e s\u00f3 pode molhar sua testa e segurar sua m\u00e3o. Em um hospital de verdade, talvez &#8230; Aqui, n\u00e3o\u201d suspira dom Dante Carraro, m\u00e9dico, padre e diretor da &#8220;Cuamm-M\u00e9dicos com a \u00c1frica&#8221; que aceitou o apelo para assumir a organiza\u00e7\u00e3o e a gest\u00e3o do autodenominado nosoc\u00f4mio e de um min\u00fasculo centro sanit\u00e1rio em ru\u00ednas entre o campo ONU e Gambella. Onde Giuseppe Baracca, um m\u00e9dico que percorreu ao longo das d\u00e9cadas meia \u00c1frica vendo de tudo (&#8220;incluindo garotinhas infibuladas e costuradas entre l\u00e1grimas com espinhos de ac\u00e1cia\u201d) est\u00e1 treinando uma pequena equipe de jovens para montar uma nova maternidade e a pediatria (&#8220;um rec\u00e9m-nascido prematuro pode ser salvo com 25 euros\u201d) no hospital regional de Gambella. E que com um punhado de m\u00e9dicos e enfermeiros, quase nunca especialistas, \u00e9 o \u00fanico em uma \u00e1rea do tamanho da Sic\u00edlia e tem de carregar o peso de 420 mil pessoas. Mais as emerg\u00eancias do imenso campo de refugiados. Atacado ocasionalmente por sangrentas incurs\u00f5es armadas.<\/p>\n<p>&#8220;Erva venenosa&#8221;, significa Nguenyyiel. Mas aqui tudo \u00e9 envenenado. Primeiramente, as rela\u00e7\u00f5es entre as muitas diferentes etnias do Sud\u00e3o do Sul. Nascido em julho de 2011, depois de duas guerras sangrentas contra o norte isl\u00e2mico que duraram quarenta anos e custaram dois milh\u00f5es de vidas, o Estado mais jovem do mundo levou apenas meses para precipitar em uma terceira guerra civil. O tempo de comemorar o referendo da independ\u00eancia, vencido com 98,6% dos votos e j\u00e1 ressurgiam calejadas e ancestrais divis\u00f5es. Dentro da pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Os pr\u00f3prios n\u00fameros s\u00e3o envenenados. Tanto \u00e9 assim que de uma d\u00fazia de milh\u00f5es de habitantes, um ter\u00e7o foi despejado tanto no pa\u00eds quanto fora dele, e nem mesmo est\u00e1 claro quantos precisamente seriam os crist\u00e3os (que expressam tanto o presidente Salva Kiir, um Dinka, como os maiores opositores Riek Machar e Taban Deng, de etnia Nuer), quantos os animistas e quantos s isl\u00e2micos. Os quais, mesmo tendo se separado do Sud\u00e3o declaram ser dominantes. Verdadeiro? Falso? O que \u00e9 certo \u00e9 que o estado rec\u00e9m nascido est\u00e1 devastado por um conflito t\u00e3o feroz a ponto de impelir os bispos cat\u00f3licos a lan\u00e7ar duas semanas atr\u00e1s um apelo: &#8220;Apesar dos nossos apelos dirigidos a todos os partidos, fac\u00e7\u00f5es e indiv\u00edduos para parar a guerra, continua-se a matar, roubar, pilhar\u201d. Relatos apavorantes. &#8220;Muitas pessoas foram amontoados em casas, que em seguidas foram incendiadas.&#8221; Hist\u00f3rias todas iguais. Como nas deposi\u00e7\u00f5es de vinte anos atr\u00e1s em Ruanda: &#8220;Come\u00e7aram pelos meus filhos. Eu vi cair as pernas do primeiro e depois a sua cabe\u00e7a. Comecei a gritar, ent\u00e3o vieram na minha dire\u00e7\u00e3o. Cortaram-me em peda\u00e7os e eu desmaiei. A maior desgra\u00e7a foi acordar entre os cad\u00e1veres dos meus filhos\u201d. Enquanto os senhores da guerra, crist\u00e3os que sentam em poltronas VIP em frente ao altar da Catedral de Juba, matam-se pelo controle dos ricos campos de petr\u00f3leo (&#8220;O pr\u00f3prio Salva Kiir denunciou que, entre 2005 e 2011, 74 pessoas apropriaram-se de 4,5 bilh\u00f5es de d\u00f3lares dos 11 dados pelos doadores&#8221;, relatou ao &#8220;Mondo e missione&#8221; o frade comboniamo Daniele Moschetti), o mundo mu\u00e7ulmano em torno pressiona, pressiona, pressiona. &#8220;At\u00e9 poucos anos atr\u00e1s, aqui em Gambella a comunidade isl\u00e2mica era quase inexistente&#8221;, explica Don Aristide Marcandalli, o padre que dirige a Miss\u00e3o Salesiana: &#8220;Agora tem uma mesquita e o disco do muezim toca a noite toda. Ainda s\u00e3o uma minoria, mas &#8230;\u201d.<\/p>\n<p>&#8220;Eles fazem assim. T\u00eam o dinheiro da Ar\u00e1bia Saudita ou dos Emirados e constroem mesquitas em toda parte, mais cedo ou mais tarde, eles dizem, os fi\u00e9is vir\u00e3o&#8221;, suspira o arcebispo cat\u00f3lico et\u00edope Berhaneyesus Souraphiel, sentado em seu min\u00fasculo escrit\u00f3rio. &#8220;N\u00f3s n\u00e3o temos dinheiro nem mesmo para o m\u00ednimo, eles s\u00e3o ricos e ergueram uma mesquita mesmo na frente da Secretaria Cat\u00f3lica. Compram lojas, assumem contratos cat\u00f3licos, etc. Um proselitismo arrasador. O problema \u00e9 que Roma est\u00e1 longe, e a Som\u00e1lia perto. Se a Europa fecha, aqui a Eti\u00f3pia explode. \u00c9 como uma morsa. Corremos o risco de acabar como os arm\u00eanios. N\u00f3s e eles fomos os dois primeiros estados crist\u00e3os do mundo. Agora estamos cercados&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Falta tudo, menos armas!&#8221;, repete o padre Moschetti. Desolado por &#8220;seu&#8221; mundo sudanense do sul em guerra fratricida. O petr\u00f3leo \u00e9 cobi\u00e7ado, a terra \u00e9 cobi\u00e7ada (&#8220;j\u00e1 9% foi concedida a empresas multinacionais e fundos soberanos, tanto para a agricultura como para as mat\u00e9rias-primas), a \u00e1gua \u00e9 cobi\u00e7ada em um pa\u00eds rico de rios, lagos e florestas tropicais. O resultado \u00e9 que o tr\u00e1fico de morteiros, metralhadoras, lan\u00e7adores de foguetes e granadas comprados em quase todos os mercados globais vai de vento em popa, vento de morte. Sem que a proposta de um embargo no Conselho de Seguran\u00e7a da ONU, os mesmos que distribuem os refugiados que fogem dessas armas, jamais tenha conseguido dar um basta. Business is business. Nem mesmo o Papa Francisco foi capaz de abrir uma brecha no \u00f3dio: nenhuma visita. Muito arriscado.<\/p>\n<p>Tema: o que vai acontecer com esses quatro milh\u00f5es de refugiados que correm o risco de se tornarem cinco, seis &#8230;? Este \u00e9 o n\u00f3. E n\u00e3o teria sequer a desculpa, para mant\u00ea-los longe, de trazer \u00e0 baila as hordas isl\u00e2micas: s\u00e3o em grande maioria crist\u00e3os. E ent\u00e3o, o que fazer? A \u00fanica possibilidade para evitar uma cat\u00e1strofe humanit\u00e1ria \u00e9 dar sentido as palavras: ajud\u00e1-los realmente, l\u00e1 na \u00c1frica em chamas. Com op\u00e7\u00f5es de alcance mundial e junto com a for\u00e7a de um compromisso di\u00e1rio. Como justamente a dos volunt\u00e1rios do Cuamm que, desembarcados na Eti\u00f3pia em 1980 em um lepros\u00e1rio, s\u00e3o hoje a alma do hospital S\u00e3o Lucas de Wolisso, a duas horas de Addis Abeba, e o ponto de refer\u00eancia, em v\u00e1rias excel\u00eancias e duas dezenas de &#8220;centros de sa\u00fade&#8221; espalhados pelos lugares mais remotos, de um milh\u00e3o e meio de habitantes. \u00c9 Gambella, no entanto, o desafio de hoje. A ser vencido no transbordante campo de refugiados sem hospital. Mas, ainda mais, em nossa casa. Ou as palavras &#8220;vamos ajud\u00e1-los na casa deles&#8221; permanecer\u00e3o realmente apenas conversa fiada.<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/572483-etiopia-entre-os-530-000-refugiados-no-mega-campo-sem-hospital<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16551\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[177],"tags":[224],"class_list":["post-16551","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4iX","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16551","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16551"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16551\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16551"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16551"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16551"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}