{"id":16558,"date":"2017-10-11T18:49:26","date_gmt":"2017-10-11T21:49:26","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=16558"},"modified":"2018-03-06T17:18:48","modified_gmt":"2018-03-06T20:18:48","slug":"a-demonizacao-de-che-guevara-e-a-reabilitacao-do-colonialismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16558","title":{"rendered":"A demoniza\u00e7\u00e3o de Che Guevara e a reabilita\u00e7\u00e3o do colonialismo"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/3.bp.blogspot.com\/-nJhJoPsNHxQ\/Wd0dHNPYS2I\/AAAAAAAABW4\/POxP85IGj7AtcxKirbjNiDXf352AcGYlwCLcBGAs\/s320\/ujc-che2016.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Jones Manoel*<\/p>\n<p>09 de outubro marca os 50 anos do assassinato de Ernesto \u201cChe\u201d Guevara. O argentino protagonista da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana e das lutas anticoloniais e socialistas \u00e9 um dos nomes mais conhecidos do mundo. Figura emblem\u00e1tica, nos quatro cantos do mundo, onde houver um protesto dos explorados e oprimidos, \u00e9 poss\u00edvel achar uma blusa, bandeira ou cartaz com o rosto de Che. Nos \u00faltimos anos, por\u00e9m, a biografia de Che \u00e9 atacada de todos os lados por uma historiografia revisionista que pretende encaix\u00e1-lo em r\u00f3tulos como racista, homof\u00f3bico, machista, autorit\u00e1rio, s\u00e1dico, assassino, ditador etc. Essa opera\u00e7\u00e3o revisionista obteve, ao menos no Brasil, um relativo sucesso (n\u00e3o sem contribui\u00e7\u00e3o significativa de setores da esquerda) e hoje disputa a perspectiva dominante sobre quem foi Ernesto Guevara. Mais do que mostrar a falsidade dessa ideologia, algo indispens\u00e1vel, quero nessas poucas linhas apontar o significado hist\u00f3rico-pol\u00edtico desse combate pela escrita da hist\u00f3ria. Em poucas palavras, e adiantando a tese, a demoniza\u00e7\u00e3o de Che Guevara \u00e9 parte indissoci\u00e1vel da ofensiva neocolonial do imperialismo iniciada nos anos 70, vitoriosa nos anos 90 (com a destrui\u00e7\u00e3o da URSS e do movimento terceiro-mundista) e que continua com for\u00e7a nos dias atuais. Vejamos.<\/p>\n<p><strong>O mundo antes de Outubro.<\/strong><\/p>\n<p>Vamos imaginar que estamos em outubro de 1917. Como estava o mundo nessa data? A imensa maioria da popula\u00e7\u00e3o humana estava submetida a regimes de domina\u00e7\u00e3o colonial (onde foram criados, dentre outras coisas, os campos de concentra\u00e7\u00e3o) pautados na domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica total e na explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica em suas formas mais brutais e desumanizantes. A maioria dos pa\u00edses e territ\u00f3rios de \u00c1frica, \u00c1sia, Europa Oriental, Am\u00e9rica Central e Am\u00e9rica do Sul eram dominados por um punhado de Estados imperialistas que mantinham genoc\u00eddios sistem\u00e1ticos como forma de domina\u00e7\u00e3o, institui\u00e7\u00f5es como o apartheid e destrui\u00e7\u00e3o de povos e culturas inteiras.<\/p>\n<p>A grande Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro foi uma revolu\u00e7\u00e3o socialista de dimens\u00e3o anticolonial que conclamou os escravos das col\u00f4nias a quebrarem suas correntes e lutar pela sua liberdade. Com o tempo, num processo dif\u00edcil e contradit\u00f3rio, o movimento comunista, dirigido pela Terceira Internacional junto com a URSS, passou a atuar como o partido mundial da luta anticolonial e anti-imperialista. V\u00e1rios povos em \u00c1frica, \u00c1sia e Am\u00e9rica Latina, a partir da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro e da cria\u00e7\u00e3o da Terceira Internacional organizaram seus partidos comunistas que atuavam num perspectiva de liberta\u00e7\u00e3o nacional com projeto socialista no horizonte. L\u00edderes como Ho Chi Minh (Vietn\u00e3) Kim il Sung (Coreia), Amilcar Cabral (Guin\u00e9-Bissau), Mao Tse Tung (China) expressam essa fus\u00e3o entre luta anticolonial de liberta\u00e7\u00e3o nacional e luta socialista: a \u201cquest\u00e3o social\u201d assume uma forma primeira radicalmente nacional nesses pa\u00edses.<\/p>\n<p>O confronto entre colonialismo imperialista e o movimento comunista teve seu grande epis\u00f3dio, a batalha decisiva, na Segunda Guerra Mundial. O italiano Domenico Losurdo, acertadamente, afirma que o segundo grande conflito mundial \u00e9 motivado por outra explos\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es capitalistas onde, na disputa pela reparti\u00e7\u00e3o do mundo, o nazifascismo representa uma radicaliza\u00e7\u00e3o extrema da tradi\u00e7\u00e3o colonial constitutiva do desenvolvimento capitalista. Em poucas palavras: o nazifascismo busca realizar na Europa, notadamente na parte Oriental, o que Inglaterra, Fran\u00e7a, B\u00e9lgica etc. faziam em \u00c1frica e \u00c1sia. A radicaliza\u00e7\u00e3o do colonialismo foi derrotado pelo seu maior advers\u00e1rio: o movimento comunista dirigido pela Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Na batalha de Stalingrado a sorte do mundo foi jogada: a vit\u00f3ria dos nazistas significava o reestabelecimento em larga escala da escravid\u00e3o racial no seu sentido moderno e a consolida\u00e7\u00e3o do colonialismo como padr\u00e3o de organiza\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n<p>Como bem sabemos, os sovi\u00e9ticos venceram!<\/p>\n<p><strong>O s\u00e9culo da luta anticolonial.<\/strong><\/p>\n<p>O final da Segunda Guerra Mundial, especialmente de 1950 a 1980, marcou, talvez, a maior \u00e9poca revolucion\u00e1ria da hist\u00f3ria da humanidade. O tradicional sistema colonial estava sendo destru\u00eddo em \u00c1frica, \u00c1sia e fortemente questionado na Am\u00e9rica Latina e Central. \u00c9 claro que novas formas de domina\u00e7\u00e3o imperialistas buscavam se consolidar, o que passou a hist\u00f3ria como neocolonialismo, mas o fato \u00e9 que tivemos centenas de processos revolucion\u00e1rios de liberta\u00e7\u00e3o nacional com conte\u00fado socialista ou no m\u00ednimo tend\u00eancias igualitaristas. A uni\u00e3o entre movimento comunista e movimento terceiro-mundista foi uma das maiores amea\u00e7as que o capitalismo global conheceu. N\u00e3o me parece um exagero afirmar (afinal, s\u00e3o os pr\u00f3prios ide\u00f3logos do imperialismo que dizem isso) que, se houve um momento onde o capitalismo esteve amea\u00e7ado globalmente, esse foi na \u00e9poca gloriosa dos anos 60: os quatro cantos do mundo respiravam revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O s\u00e9culo XX pode ser lido como o s\u00e9culo das lutas anticoloniais e socialistas contra o dom\u00ednio do capital. Dentro desse processo \u00e9 que podemos entender a import\u00e2ncia da figura de Ernesto Che Guevara. A Am\u00e9rica Latina era (continua sendo, na verdade) o principal s\u00edmbolo e modelo da domina\u00e7\u00e3o neocolonial da pot\u00eancia capitalista l\u00edder do planeta: os EUA. A Revolu\u00e7\u00e3o Cubana representou a primeira tentativa vitoriosa de um projeto revolucion\u00e1rio no pa\u00eds que at\u00e9 ent\u00e3o era considerado o quintal dos EUA. Como um dos principais l\u00edderes da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, Che, de pronto, tornou-se uma figura de proje\u00e7\u00e3o mundial, e passou a encarnar a fus\u00e3o do movimento terceiro-mundista e do movimento comunista. Esse l\u00edder revolucion\u00e1rio e estadista assumiu o lugar de principal s\u00edmbolo pol\u00edtico dos povos do terceiro mundo. A CIA considerou Che Guevara o homem mais perigoso da Am\u00e9rica Latina!<\/p>\n<p>Sartre, Fanon, Marcuse, Lumumba, Neruda, Brizola, Kim il Sung e muitos outros grandes nomes das lutas anti-imperialistas tinham Che como uma refer\u00eancia incontest\u00e1vel. Se houve um homem que personificou o esp\u00edrito de rebeldia do seu tempo, esse foi Ernesto Guevara. Os povos coloniais em luta por liberta\u00e7\u00e3o, os oper\u00e1rios dos pa\u00edses centrais do capitalismo, os estudantes, as camponesas, os povos origin\u00e1rios, todos olhavam para El Che como s\u00edmbolo e refer\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Neoliberalismo e renovada ofensiva do colonialismo.<\/strong><\/p>\n<p>Por motivos imposs\u00edveis de explicar nesse curto texto, o movimento comunista e terceiro-mundista foi derrotado. O neoliberalismo \u00e9 n\u00e3o apenas uma ofensiva do capital sobre os trabalhadores num momento de crise estrutural do capitalismo para garantir uma taxa de lucro satisfat\u00f3ria aprofundando a domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a explora\u00e7\u00e3o. O neoliberalismo tamb\u00e9m pressup\u00f5e uma ofensiva neocolonial de brutal recrudescimento do dom\u00ednio global do centro hegem\u00f4nico do imperialismo, os EUA, e dos seus centros regionais, como Alemanha, destruindo ou buscando destruir a soberania nacional, a independ\u00eancia pol\u00edtica e econ\u00f4mica e as conquistas dos processos revolucion\u00e1rios nos pa\u00edses dependentes. As invas\u00f5es militares, o controle direto das riquezas naturais, a reprimariza\u00e7\u00e3o das economias dependentes, o refor\u00e7amento do monop\u00f3lio tecnol\u00f3gico, o aterrador aumento da pobreza, mis\u00e9ria, fome, desemprego e precariedade no terceiro mundo, hoje chamado de Sul global, s\u00e3o express\u00f5es dessa nova ofensiva neocolonial.<\/p>\n<p>Essa derrota pol\u00edtica e ideol\u00f3gica engendrou uma onda de reabilita\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e cultural do colonialismo. Karl Popper disse tranquilamente que os povos africanos foram libertados cedo demais, afinal, eles s\u00e3o como crian\u00e7as num ber\u00e7\u00e1rio sem um adulto supervisionando. Niall Ferguson pode reafirmar com sem alarde o paradigma civiliza\u00e7\u00e3o vs barb\u00e1rie colocando, como sempre, a civiliza\u00e7\u00e3o no seio do capitalismo ocidental. A tem\u00e1tica do imperialismo \u00e9 banida dos debates pol\u00edticos e acad\u00eamicos. A esquerda do capital, normalmente socialdemocratas, e as novidades do momento, como Syriza, recusam o internacionalismo prolet\u00e1rio e a import\u00e2ncia da luta anticolonial na agenda pol\u00edtica. O sil\u00eancio aterrador da maioria da esquerda mundial na defesa na Coreia Popular frente aos ataques do imperialismo \u00e9 a prova cabal de que a ordem dominante venceu a batalha em todas as inst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>A demoniza\u00e7\u00e3o de Che, assim como o apagamento ou p\u00f3s-moderniza\u00e7\u00e3o de figuras como Fanon e Sartre, \u00e9 parte de um processo mais amplo de vit\u00f3ria do imperialismo no s\u00e9culo XX e combate, uma verdadeira guerra pela escrita da hist\u00f3ria, aos fantasmas da luta anticolonial dirigida pelos comunistas. Com formas diferentes, a demoniza\u00e7\u00e3o de Che \u00e9 constitutiva do mesmo processo de legitima\u00e7\u00e3o das invas\u00f5es imperialistas em pa\u00edses como S\u00edria, Coreia Popular ou L\u00edbia.<\/p>\n<p>Destruir a biografia de Che \u00e9 reabilitar o colonialismo, o dom\u00ednio global do imperialismo, em suas formas mais belicistas e desumanas. \u00c9 anticomunismo, mas \u00e9, tamb\u00e9m, um pouco mais que isso: \u00e9 o aflorar dos desejos nazifascistas derrotados em Stalingrado de um mundo n\u00e3o s\u00f3 com extra\u00e7\u00e3o de mais-valor, mas com escravid\u00e3o racial aberta em benef\u00edcio do povo dos senhores [Herrenvolk democracy] &#8211; seguindo as reflex\u00f5es novamente de Domenico Losurdo. Defender a mem\u00f3ria e o legado de Ernesto Che Guevara \u00e9 imprescind\u00edvel na dif\u00edcil miss\u00e3o de conter e derrotar a ofensiva neocolonial do capitalismo cada vez mais destrutivo. Temos que defender o legado desse grande argentino e sermos a gera\u00e7\u00e3o que vai realizar o seu sonho: uma revolu\u00e7\u00e3o latino-americana em dire\u00e7\u00e3o ao fim do dom\u00ednio mundial do imperialismo.<\/p>\n<p><strong>\u00a0Venceremos, El Che!<\/strong><\/p>\n<p>*Militante do PCB de Pernambuco<\/p>\n<p>http:\/\/makaveliteorizando.blogspot.com.br\/2017\/10\/a-demonizacao-de-che-guevara-e.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16558\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50,47],"tags":[],"class_list":["post-16558","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria","category-c57-revolucao-cubana"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4j4","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16558","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16558"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16558\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16558"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16558"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16558"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}