{"id":1657,"date":"2018-02-09T10:00:49","date_gmt":"2018-02-09T13:00:49","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1657"},"modified":"2018-02-08T18:02:05","modified_gmt":"2018-02-08T21:02:05","slug":"a","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1657","title":{"rendered":"Pol\u00f4nia: v\u00edtimas, c\u00famplices e manipuladores"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"Pol\u00f4nia: v\u00edtimas, c\u00famplices e manipuladores\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.nexojornal.com.br\/incoming\/imagens\/Auschwitz_Pol%C3%B4nia.jpg\/ALTERNATES\/LANDSCAPE_640\/Auschwitz_Pol%C3%B4nia.jpg\" alt=\"Pol\u00f4nia: v\u00edtimas, c\u00famplices e manipuladores\" \/><!--more-->Manuel Loff<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.odiario.info\/polonia-vitimas-cumplices-e-manipuladores\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ODiario.info<\/a><\/p>\n<p>Na Pol\u00f4nia, hoje governada pela extrema-direita, a reescrita da hist\u00f3ria inclui a proibi\u00e7\u00e3o \u2013 em nome do \u201cbom-nome da Pol\u00f4nia\u201d \u2013 da men\u00e7\u00e3o aos campos de exterm\u00ednio que os nazistas ali instalaram, ou \u00e0 cumplicidade com o ocupante nazifascista no massacre anticomunista e antissemita por parte de colaboracionistas e fascistas polacos.<\/p>\n<p>H\u00e1 anos visitei o Museu da Insurrei\u00e7\u00e3o de Vars\u00f3via (de 1944, contra o ocupante nazista). Al\u00e9m do tom de ludiciza\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, que transforma os museus em quase-discotecas (m\u00fasica, ru\u00eddo de bombardeios e do matraquear das metralhadoras, atores que \u201creconstituem\u201d a hist\u00f3ria\u2026), nele se exalta a Pol\u00f4nia m\u00e1rtir e heroica, atrai\u00e7oada por todos (sovi\u00e9ticos, brit\u00e2nicos, americanos). No \ufb01nal, um colega polaco que me acompanhara, percebendo o desconforto meu e o de uma colega grega, explicou-nos que a historiogra\ufb01a polaca desde a queda do regime comunista se dividia entre \u201cnacionalistas\u201d e \u201cpatriotas\u201d\u2026<\/p>\n<p>No que chamamos os usos p\u00fablicos do passado, este \u00e9 narrado de forma adequada \u00e0s vis\u00f5es e \u00e0s propostas pol\u00edticas para o presente e o futuro, sobretudo \u00e0s daqueles (o Estado, as classes dominantes) que s\u00e3o mais capazes de as impor. O discurso hegem\u00f4nico da Pol\u00f4nia p\u00f3s-comunista, antes ainda deste governo de extrema-direita, \u00e9 o de um pa\u00eds martirizado pelos vizinhos russo e alem\u00e3o (e austr\u00edaco, em menor grau), que teria sobrevivido gra\u00e7as \u00e0 religiosidade e ao \u201cesp\u00edrito nacional\u201d. Do quadro assim desenhado, desaparece toda a hist\u00f3ria da opress\u00e3o polaca exercida sobre lituanos, bielorrussos, ucranianos, a agress\u00e3o \u00e0 R\u00fassia revolucion\u00e1ria (1918-20) ou a hist\u00f3ria de s\u00e9culos de tens\u00e3o e discrimina\u00e7\u00e3o da sua minoria judaica, a maior (3,2 milh\u00f5es de pessoas) do mundo em 1939. Quase toda dizimada nos campos de exterm\u00ednio nazistas em 1941-44. \u00c0 direita nacional-cat\u00f3lica foi sempre dif\u00edcil ocultar o seu antissemitismo, quer na Pol\u00f4nia independente de entre guerras (medidas discriminat\u00f3rias de 1936-38), quer durante e ap\u00f3s a II Guerra Mundial (os pogrons antissemitas e anticomunistas de 1944-46), quer sob o regime comunista, acusado de, ao mesmo tempo que atacava a Igreja Cat\u00f3lica, favorecer os poucos judeus sobreviventes, acabando ele pr\u00f3prio por assumir uma guinada antissemita nos anos de 1967-68. Depois de 1989, a atitude dos nacionais-cat\u00f3licos sobre o Holocausto sintetiza-se na frase da ex-primeira-ministra Beata Szydlo a prop\u00f3sito da lei aprovada h\u00e1 dias que criminaliza o uso de express\u00f5es como \u201ccampos da morte polacos\u201d ou a\ufb01rmar que \u201co Estado polaco ou a na\u00e7\u00e3o polaca foram respons\u00e1veis ou c\u00famplices de crimes cometidos pelo III Reich\u201d, por exemplo denunciando massacres perpetrados por polacos contra judeus: \u201cN\u00f3s, os polacos, fomos v\u00edtimas, assim como foram os judeus. E \u00e9 um dever de todo o polaco defender o bom-nome da Pol\u00f4nia.\u201d Aprovar uma lei assim seria o mesmo que, em Portugal, em nome das \u201cv\u00edtimas da descoloniza\u00e7\u00e3o\u201d, proibir denunciar-se os massacres da guerra colonial.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que milh\u00f5es de polacos (mas a grande maioria deles judeus) foram assassinados pelos nazistas. E que Auschwitz e os campos de exterm\u00ednio, tendo sido constru\u00eddos na Pol\u00f4nia, foram da exclusiva responsabilidade dos nazistas. Mas a Pol\u00f4nia n\u00e3o foi, na Europa ocupada (e at\u00e9 na neutra), exce\u00e7\u00e3o na l\u00f3gica social e conceitual do genoc\u00eddio: a sua viabilidade dependeu mais da indiferen\u00e7a e, sobretudo, da cumplicidade, que da ignor\u00e2ncia do crime. A morte nas c\u00e2meras de g\u00e1s foi perpetrada pelos nazistas, mas houve c\u00famplices volunt\u00e1rios polacos para massacrar judeus em v\u00e1rias aldeias, como \ufb01zeram b\u00e1lticos e ucranianos a uma escala muito superior, ou aliados dos nazistas como os h\u00fangaros, croatas, eslovacos, romenos, ou os colaboradores franceses, holandeses, italianos, ou at\u00e9 mesmo (o mais complexo de tudo) dirigentes das comunidades judaicas. Ao mesmo tempo que milhares de polacos arriscaram (e muitos perderam) as suas vidas tentando salvar as de muitos judeus, muitos mais \ufb01zeram &#8211; como ocorre quase sempre em situa\u00e7\u00f5es desta natureza &#8211; e aproveitaram-se economicamente da guetiza\u00e7\u00e3o e do exterm\u00ednio; a pr\u00f3pria resist\u00eancia nacionalista polaca (as NSZ e a Armia Krajowa) chegou a assassinar judeus em fuga dos nazistas.<\/p>\n<p>O padr\u00e3o nacional-historicista dos regimes p\u00f3s-comunistas da Europa Centro-Oriental (Pol\u00f4nia, Hungria, Eslov\u00e1quia, v\u00e1rias das ex-rep\u00fablicas iugoslavas) \u00e9, a\ufb01nal, muito semelhante ao de todos os regimes que procuram construir consenso social a partir da vitimiza\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o: representam-na como permanentemente amea\u00e7ada pelos vizinhos e\/ou por inimigos internos procurando, a partir do estatuto de v\u00edtima, que dizem (por lei!) estar con\ufb01rmado pela Hist\u00f3ria, negar poder sequer ter havido no seu seio tamb\u00e9m perpetradores. E o paradoxo \u00e9 que, se virmos bem, esse \u00e9 tamb\u00e9m o caso de Israel.<\/p>\n<p>Ilustra\u00e7\u00e3o: Auschwitz, na Pol\u00f4nia, maior conjunto de campos de concentra\u00e7\u00e3o do Terceiro Reich.<\/p>\n<p>Fonte: jornal \u201cP\u00fablico\u201d, 3.02.2018<\/p>\n<p>https:\/\/www.odiario.info\/polonia-vitimas-cumplices-e-manipuladores\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: PCB\n\n\n\n\n\n\n\n\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1657\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[256],"tags":[228],"class_list":["post-1657","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-nazifascismo","tag-5b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/s659gw-a","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1657","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1657"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1657\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1657"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1657"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1657"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}