{"id":16594,"date":"2017-10-15T01:24:02","date_gmt":"2017-10-15T04:24:02","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=16594"},"modified":"2017-10-17T19:33:13","modified_gmt":"2017-10-17T22:33:13","slug":"os-ventos-do-leste-movem-moinhos-o-impulso-revolucionario-de-1917-na-criacao-do-pcb","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16594","title":{"rendered":"Os ventos do leste movem moinhos:"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/dariodasilva.files.wordpress.com\/2017\/10\/revolucao-russa.jpg?w=747\" alt=\"Os ventos do leste movem moinhos: o impulso revolucion\u00e1rio de 1917 na cria\u00e7\u00e3o do PCB\" \/><!--more--><strong>o impulso revolucion\u00e1rio de 1917 na cria\u00e7\u00e3o do PCB<\/strong><\/p>\n<p>por Rodrigo Lima*<\/p>\n<blockquote><p>A for\u00e7a do movimento pela revolu\u00e7\u00e3o mundial estava na forma comunista de organiza\u00e7\u00e3o, o \u201cnovo tipo de partido\u201d de Lenin, uma formid\u00e1vel inova\u00e7\u00e3o de engenharia social do s\u00e9culo 20, compar\u00e1vel \u00e0 inven\u00e7\u00e3o das ordens mon\u00e1sticas crist\u00e3s e outras na Idade M\u00e9dia. Dava at\u00e9 mesmo a organiza\u00e7\u00f5es pequenas uma efic\u00e1cia desproporcional, porque o partido podia contar com extraordin\u00e1ria dedica\u00e7\u00e3o e auto-sacrif\u00edcio de seus membros, disciplina e coes\u00e3o maior que a de militares, e uma total concentra\u00e7\u00e3o na execu\u00e7\u00e3o de suas decis\u00f5es a todo custo. Isso impressionava profundamente at\u00e9 mesmo os observadores hostis.<br \/>\n(Hobsbawn \u2013 Era dos extremos: o breve s\u00e9culo XX 1914\/1991)<\/p><\/blockquote>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro de 1917 \u00a0e a consequente cria\u00e7\u00e3o da URSS como o primeiro Estado socialista na hist\u00f3ria da humanidade abriram um novo e importante ciclo de lutas e transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, pol\u00edticas e sociais protagonizadas pela classe trabalhadora em todo o mundo. H\u00e1 100 anos os\/as trabalhadores\/as russos\/as ousaram \u201ctomar o c\u00e9u de assalto\u201d e materializaram a revolu\u00e7\u00e3o socialista, cuja elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica havia sido tra\u00e7ada durante o s\u00e9culo XIX a partir das formula\u00e7\u00f5es de Karl Marx e Friedrich Engels e esbo\u00e7ada pelo movimento oper\u00e1rio europeu, principalmente atrav\u00e9s da experi\u00eancia da Comuna de Paris (1871), que teve curta dura\u00e7\u00e3o.<span id=\"more-934\"><\/span><\/p>\n<p>Se os Soviets \u2013 ou Conselhos \u2013 de oper\u00e1rios, camponeses e soldados, consolidaram o espa\u00e7o fundamental da democracia oper\u00e1ria e da organiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora russa solidificando as bases da Revolu\u00e7\u00e3o, foi o Partido Bolchevique \u2013 ou Comunista \u2013 quem cumpriu o papel de organizador das massas rebeldes, colocando a luta de classes no centro do debate, a partir de uma rica elabora\u00e7\u00e3o pol\u00edtica baseada no marxismo e de um tipo de organiza\u00e7\u00e3o sustentada na concep\u00e7\u00e3o leninista de um partido classista, orientado para o enfrentamento contra o capital e estabelecido como vanguarda da classe tralhadora em movimento. Combinando, de forma dial\u00e9tica, uma profunda democracia interna com a unidade de a\u00e7\u00e3o e a disciplina partid\u00e1ria, bases do centralismo-democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>O sopro revolucion\u00e1rio que acalentou cora\u00e7\u00f5es e mentes por todo o mundo, n\u00e3o traduziu-se apenas no desejo do avan\u00e7o dos povos rumo ao socialismo. A Revolu\u00e7\u00e3o de 1917, proporcionou uma ferramenta de elabora\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, organiza\u00e7\u00e3o e luta, que difundiu-se de forma extremamente r\u00e1pida por todos os continentes, alterando substancialmente a luta de classes no cen\u00e1rio internacional e trazendo um novo protagonismo para a classe trabalhadora, em diferentes pa\u00edses. A cria\u00e7\u00e3o de Partidos Comunistas, orientados pelos princ\u00edpios do marxismo-leninismo foi como um rastro de p\u00f3lvora que incendiou o mundo.<\/p>\n<p><strong>A influ\u00eancia da Revolu\u00e7\u00e3o Russa na Am\u00e9rica Latina: a origem dos Partidos Comunistas<\/strong><\/p>\n<p>A recep\u00e7\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro na Am\u00e9rica Latina consistiu em fen\u00f4meno pol\u00edtico que ocorreu de forma r\u00e1pida e consistente. No ciclo de dez anos p\u00f3s-Revolu\u00e7\u00e3o, os principais Partidos Comunistas latino-americanos j\u00e1 encontravam-se constitu\u00eddos, organizados e com algum grau de inser\u00e7\u00e3o nas lutas sociais de seus respectivos pa\u00edses, o que representou um novo cen\u00e1rio para as for\u00e7as revolucion\u00e1rias da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Segundo Fornet-Betancourt (1995) \u2013 em seu estudo sobre o desenvolvimento do marxismo na Am\u00e9rica Latina \u2013 os Partidos Comunistas (PC\u2019s) surgiram no subcontinente a partir de duas grandes rupturas. A primeira, que originou a maior parte dos PC\u2019s, foi a cis\u00e3o que ocorreu no seio dos Partidos Socialistas, que p\u00f3s-1917 passaram a conviver com o conflito entre tend\u00eancias reformistas e revolucion\u00e1rias, estas orientadas pelos princ\u00edpios da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro. Os setores revolucion\u00e1rios romperam com o reformismo e deram origem aos PC\u2019s na Argentina, no Chile e no Uruguai. A segunda ruptura ocorreu no movimento anarquista, que havia conquistado grande profus\u00e3o junto \u00e0 classe trabalhadora em alguns pa\u00edses latino-americanos. Setores do movimento anarquista migraram para o bolchevismo e deram origem a cria\u00e7\u00e3o dos PC\u2019s em pa\u00edses como o Brasil e o M\u00e9xico.<\/p>\n<p>Entre 1918 e 1930 ocorreu um importante ciclo de cria\u00e7\u00e3o de Partidos Comunistas na Am\u00e9rica Latina. Na Argentina, em 1918, surgiu o Partido Internacional Socialista, o primeiro inspirado diretamente pelo bolchevismo, criado antes mesmo do surgimento da III Internacional. No M\u00e9xico, em 1919, surgiu o primeiro Partido Comunista, com esta nomenclatura, no contexto latino-americano. Logo ap\u00f3s ocorreu a seguinte sequ\u00eancia de surgimento dos PC\u2019s: Uruguai (1921), Chile (1921), Brasil (1922), Guatemala (1923), El Salvador (1923), Nicar\u00e1gua(1923), Cuba (1926), Equador (1928), Peru (1928) e Col\u00f4mbia (1930).<\/p>\n<p>A III Internacional Comunista (IC), criada em mar\u00e7o de 1919, cumpriu um papel fundamental para que o processo de cria\u00e7\u00e3o dos PC\u2019s ocorresse de forma t\u00e3o r\u00e1pida. A quest\u00e3o da Am\u00e9rica Latina foi um tema de preocupa\u00e7\u00e3o da IC. J\u00e1 no ano de 1921, o Comintern lan\u00e7ou o documento \u201cA revolu\u00e7\u00e3o americana: conclama\u00e7\u00e3o \u00e0 classe oper\u00e1ria da Am\u00e9rica do Norte e do Sul\u201d, no qual sinalizava a import\u00e2ncia da unidade do proletariado e do campesinato e a necessidade da luta de car\u00e1ter anticapitalista e anti-imperialista.<\/p>\n<p>Em 1922, o IV Congresso da IC \u00a0elaborou um documento denominado \u201cAos oper\u00e1rios e camponeses da Am\u00e9rica do Sul\u201d, que refor\u00e7ava as orienta\u00e7\u00f5es apresentadas o ano anterior. No ano de 1924, constitui-se em Buenos Aires o secretariado sul-americano da III Internacional, dando um maior grau de institucionalidade ao movimento comunista no continente.\u00a0Do ponto de vista da elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, pol\u00edtica e organizativa, a publica\u00e7\u00e3o pelo secretariado sul-americano da IC, da revista <em>La correspondencia Sudamericana,\u00a0<\/em>comp\u00f4s um elemento importante na consolida\u00e7\u00e3o dos PC\u2019s na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Com a realiza\u00e7\u00e3o do VI Congresso da IC, em 1928, o debate sobre a revolu\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina ganhou relev\u00e2ncia, pois neste evento foi debatido e tratado de forma detalhada a situa\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses latino-americanos, que passaam a ser inclu\u00eddos pelo Comintern na estrat\u00e9gia da revolu\u00e7\u00e3o socialista mundial.<\/p>\n<p>Outros dois eventos foram importantes para a compreens\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o da IC com os PC\u2019s latino-americanos, no ciclo fundacional do movimento comunista na regi\u00e3o. Ambos ocorreram em 1929. O primeiro foi a realiza\u00e7\u00e3o, em Montevid\u00e9u, do Congresso Constituinte da <em>Confederaci\u00f3n Sindical Latino Americana\u00a0(CSLA)\u00a0<\/em>que permitiu a unifica\u00e7\u00e3o de importantes setores do movimento sindical ao movimento comunista, representando a primeira organiza\u00e7\u00e3o de composi\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria dirigida por sindicatos comunistas, na Am\u00e9rica Latina. O segundo evento foi a realiza\u00e7\u00e3o, em Buenos Aires, da <em>Primera Conferencia Comunista Latinoamericana, <\/em>da qual participaram delegados de 15 pa\u00edses (inclusive do Brasil), cujas principais pautas de debates giravam em torno de quest\u00f5es como: organiza\u00e7\u00e3o e estrat\u00e9gia, atua\u00e7\u00e3o sindical, quest\u00e3o agr\u00e1ria, quest\u00e3o racial e sobre o trabalho do Comintern na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Pouco mais de dez anos p\u00f3s-1917, os revolucion\u00e1rios latino-americanos, a partir de um imenso esfor\u00e7o organizativo buscavam seguir o caminho trilhado pela classe oper\u00e1ria russa. Inspirados pela perspectiva pol\u00edtica de Lenin, em suas palavras: \u201cN\u00f3s come\u00e7amos a obra. Pouco importa saber quando, em que prazo e em que na\u00e7\u00e3o culminar\u00e3o os prolet\u00e1rios esta obra. O essencial \u00e9 que se tenha rompido o elo, que se tenha aberto o caminho, que se tenha indicado a dire\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong>O PCB e o seu ciclo fundacional (1922-1930)<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil tamb\u00e9m foi atingido em cheio pelos ventos revolucion\u00e1rios que sopravam da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro. Segundo Leandro Konder (1988:117): \u201cA revolu\u00e7\u00e3o russa de novembro de 1917, com a tomada do poder pelo partido bolchevista conduzido por Lenin, teve definitiva repercuss\u00e3o no Brasil; e isto de tal modo, que se pode dizer que com ela se inicia um novo per\u00edodo na difus\u00e3o do pensamento de Marx entre n\u00f3s.\u201d<\/p>\n<p>A partir de 1917, n\u00e3o s\u00f3 a difus\u00e3o do pensamento de Marx projetou-se incrivelmente no Brasil, como tamb\u00e9m abriu-se um novo ciclo da organiza\u00e7\u00e3o e atua\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora no cen\u00e1rio pol\u00edtico nacional. A cria\u00e7\u00e3o do PCB em 25 de mar\u00e7o de 1922 \u00e9 um os elementos fundamentais para compreender essa renova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Hegemonizado pelas correntes anarco-sindicalistas, o emergente movimento sindical e oper\u00e1rio brasileiro das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, viveu uma ruptura dr\u00e1stica a partir da repercuss\u00e3o da vit\u00f3ria comunista na R\u00fassia. O per\u00edodo p\u00f3s-1917 vai ser marcado pela cis\u00e3o e pelo embate no seio do movimento anarquista brasileiro. O conflito entre anarquistas e comunistas se expressou nos debates entre figuras como Jos\u00e9 Oiticica, pelo primeiro campo, e por Oct\u00e1vio Brand\u00e3o e Astrojildo Pereira, pelo segundo.<\/p>\n<p>O processo de ascens\u00e3o das lutas oper\u00e1rias no pa\u00eds, que tiveram como grande momento a Greve Geral de julho de 1917 e os impactos da Revolu\u00e7\u00e3o combinaram-se e impulsionaram a organiza\u00e7\u00e3o dos comunistas no Brasil. Em 1918, no ato do dia 1\u00b0 de Maio, realizado na cidade do Rio de Janeiro, ent\u00e3o capital da Rep\u00fablica, o operariado j\u00e1 fazia refer\u00eancias e prestavam solidariedade a Revolu\u00e7\u00e3o Russa.<\/p>\n<p>Entre os anos de 1918 e 1921, diversos coletivos referenciados no bolchevismo, surgiram em diversas regi\u00f5es do pa\u00eds. Sendo que o Grupo Comunista do Rio de Janeiro, criado em 1921 e liderado por Astrojildo Pereira, foi o principal embri\u00e3o para o surgimento do PCB. Mar\u00e7o de 1922 representou a culmina\u00e7\u00e3o desse ac\u00famulo pol\u00edtico e organizacional que se gestava no movimento oper\u00e1rio brasileiro. A cria\u00e7\u00e3o do PCB conseguiu unificar grande parte dos grupos e coletivos comunistas at\u00e9 ent\u00e3o estabelecidos no pa\u00eds, dando uma dire\u00e7\u00e3o unit\u00e1ria e nacional para o movimento.<\/p>\n<p>O PCB nascia umbilicalmente ligado a Revolu\u00e7\u00e3o Russa, ao se propor como uma Se\u00e7\u00e3o Internacional da III Internacional Comunista, e tendo como um de seus fundadores, Ab\u00edlio de Nequete, integrante do Bureau da IC para a Am\u00e9rica Latina, que possu\u00eda liga\u00e7\u00f5es com o j\u00e1 criado Partido Comunista do Uruguai.<\/p>\n<p>Nos anos subsequentes a sua cria\u00e7\u00e3o o PCB estabeleceu as bases que o converteram em uma organiza\u00e7\u00e3o fundamental para as lutas do operariado brasileiro. Durante a d\u00e9cada de 1920 o PCB passou por um ciclo organizativo din\u00e2mico e criativo. Os comunistas brasileiros tiveram diante de si o desafio de criar um partido pol\u00edtico de novo tipo, adaptando o modelo de organiza\u00e7\u00e3o leninista a realidade brasileira, sob condi\u00e7\u00f5es adversas de repress\u00e3o e persegui\u00e7\u00e3o ao movimento oper\u00e1rio capitaneado pelos governos da Rep\u00fablica Olig\u00e1rquica.<\/p>\n<p>Os fundadores foram bem sucedidos em sua tarefa hist\u00f3rica. Em 1924, tiveram a incorpora\u00e7\u00e3o do partido aceita na III Internacional, depois da frustrada \u00a0tentativa de Bernardo Canellas, que durante o IV Congresso da IC, em 1922, atuou como representante do PCB , tendo como miss\u00e3o a inclus\u00e3o do partido na Internacional. Devido suas posi\u00e7\u00f5es confusas, que apresentavam elementos do reformismo e da ideologia anarquista, a inclus\u00e3o n\u00e3o foi aceita naquele momento.<\/p>\n<p>Entre 1922 e 1929, o PCB realizou tr\u00eas congressos, refletindo uma intensa din\u00e2mica de debate pol\u00edtico interno e de busca pela consolida\u00e7\u00e3o do partido. Em 1925 o PCB realizou seu II Congresso, onde colocava a necessidade de ampliar a atua\u00e7\u00e3o no movimento sindical, e intensificar a disputa contra os anarquistas e reformistas no interior do movimento. No mesmo ano foi criado e passou a circular o jornal <em>A Classe Oper\u00e1ria, <\/em>importante mecanismo de agita\u00e7\u00e3o e propaganda do partido junto \u00e0s massas.<em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Em 1927, o PCB criou duas estruturas pol\u00edticas que o fazem aproximar e ampliar sua inser\u00e7\u00e3o na classe trabalhadora brasileira. Em janeiro, foi lan\u00e7ado o Bloco Oper\u00e1rio e Campon\u00eas (BOC) uma experi\u00eancia de frente eleitoral liderada pelos comunistas, que teve curta dura\u00e7\u00e3o, mas que marcou a hist\u00f3ria como a primeira participa\u00e7\u00e3o eleitoral da classe oper\u00e1ria brasileira. De curta dura\u00e7\u00e3o (o BOC durou at\u00e9 1930) a experi\u00eancia eleitoral teve como um dos seus principais momentos a candidatura de Minervino de Oliveira, primeiro candidato negro e oper\u00e1rio \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>O dia 1\u00ba de agosto de 1927, marcou a funda\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o da Juventude Comunista(UJC), uma organiza\u00e7\u00e3o voltada para a juventude prolet\u00e1ria \u00a0brasileira e que foi incorporada a Internacional da Juventude Comunista no ano seguinte.<\/p>\n<p>Os reflexos dos conflitos e embates que ocorriam no movimento comunista internacional, tamb\u00e9m atingiram o PCB, em seu ciclo fundacional. No ano de 1928, o embate entre Stalin e Trotsky sobre os rumos da Revolu\u00e7\u00e3o Russa refletiu-se no Brasil. \u00a0A rebeli\u00e3o da c\u00e9lula 13 do PCB, no Rio de Janeiro, \u00a0liderada por Jo\u00e3o da Costa Pimenta e Hilcar Leite, culminou numa cis\u00e3o partid\u00e1ria que representou o surgimento do trotskismo no Brasil (Coggiola, 2003).<\/p>\n<p>Do ponto de vista da elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, durante os anos 1920 ocorreram dois fatos importantes que contribu\u00edram na afirma\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o do comunismo no Brasil. Em 1923, Oct\u00e1vio Brand\u00e3o (um dos fundadores do PCB), realizou a primeira tradu\u00e7\u00e3o brasileira do Manifesto do Partido Comunista, obra de Marx e Engels, o que representou um marco na difus\u00e3o do pensamento marxista. O mesmo Brand\u00e3o, escreveu em 1924 o cl\u00e1ssico <em>Agrarismo e Industrialismo,\u00a0<\/em>que foi um estudo pioneiro sobre a realidade brasileira, a partir de uma elabora\u00e7\u00e3o marxista.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foi na d\u00e9cada de 1920 que o PCB forjou sua estrat\u00e9gia e t\u00e1tica para a revolu\u00e7\u00e3o brasileira. Tal elabora\u00e7\u00e3o, desenvolveu-se a partir das resolu\u00e7\u00f5es dos congressos da IC, realizados em Moscou, e que marcaram profundamente a elabora\u00e7\u00e3o da linha pol\u00edtica do PCB. Segundo Mazzeo (2003), as teses da IC, a partir do seu V Congresso (1924), consolidaram a hegemonia de um marxismo reducionista e arquet\u00edpico, que foi transposto de forma mec\u00e2nica e reducionista para a an\u00e1lise do capitalismo brasileiro. O etapismo (que visava a revolu\u00e7\u00e3o por etapas, focando primeiramente na etapa democr\u00e1tico-burguesa, pr\u00e9via a revolu\u00e7\u00e3o socialista) sustentava-se na teoria do feudalismo, que enfatizava a perman\u00eancia da exist\u00eancia de rela\u00e7\u00f5es feudais, a partir de um enfoque que priorizava os aspectos jur\u00eddico-pol\u00edticos e n\u00e3o o aspecto concreto da realidade latino-americana e brasileira.<\/p>\n<p>O sopro revolucion\u00e1rio de 1917, atingiu o mundo de forma irrevers\u00edvel. No Brasil, a cria\u00e7\u00e3o do PCB foi um marco na organiza\u00e7\u00e3o e na formula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da classe trabalhadora brasileira. Em um curto per\u00edodo hist\u00f3rico o comunismo passou de uma corrente minorit\u00e1ria e praticamente desconhecida do operariado, para o status de grande referencial pol\u00edtico e organizacional da classe trabalhadora. No final do anos 1920, o PCB j\u00e1 havia conquistado a hegemonia junto \u00e0s massas oper\u00e1rias.<\/p>\n<p>Em 1930 o partido j\u00e1 estava consolidado. \u00a0As mudan\u00e7as na conjuntura nacional, com o fim da Rep\u00fablica Velha e no contexto internacional com o isolamento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e o ascenso do fascismo na Europa, colocaram o movimento comunista internacional sob novos desafios. A ascens\u00e3o do obreirismo como t\u00e1tica de atua\u00e7\u00e3o do PCB em 1930, que teve como um dos seus efeitos o afastamento de boa parte da antiga dire\u00e7\u00e3o e a destitui\u00e7\u00e3o de Astrojildo Pereira (um dos fundadores do PCB) da secretaria-geral do partido, em novembro daquele ano, estabeleceu um marco simb\u00f3lico do fim do ciclo fundacional do PCB.<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>COGGIOLA, Osvaldo. O trotskismo no Brasil (1928-64).\u00a0MAZZEO, Ant\u00f4nio Carlos; LAGOA, Maria Izabel (orgs.) Cora\u00e7\u00f5es vermelhos: os comunistas brasileiros no s\u00e9culo XX. S\u00e3o Paulo: Cortez, 2003.<\/p>\n<p>FORNET-BETANCOURT, Ra\u00fal. O marxismo na Am\u00e9rica Latina. S\u00e3o Leopoldo: Unisinos, 1995.<\/p>\n<p>HOBSBAWN, Eric. A era dos extremos: \u00a0breve s\u00e9culo XX 1914\/1991. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1995.<\/p>\n<p>KONDER, Leandro. A derrota da dial\u00e9tica: a recep\u00e7\u00e3o das ideias de Marx no Brasil, at\u00e9 o come\u00e7o dos anos 1930. Rio de Janeiro: Campus, 1988.<\/p>\n<p>MAZZEO, Ant\u00f4nio Carlos. \u00a0O Partido Comunista na raiz da teoria da via colonial do desenvolvimento do capitalismo. In: MAZZEO, Ant\u00f4nio Carlos; LAGOA, Maria Izabel (orgs.) Cora\u00e7\u00f5es vermelhos: os comunistas brasileiros no s\u00e9culo XX. S\u00e3o Paulo: Cortez, 2003.<\/p>\n<p>PACHECO, Eliezer. O Partido Comunista Brasileiro (1922-1964). S\u00e3o Paulo: Alfa-Omega, 1984.<\/p>\n<p>https:\/\/blogdorodrigolima.wordpress.com\/2017\/10\/13\/<wbr \/>os-ventos-do-leste-movem-moinhos-o-impulso-revolucionario-de-1917-na-criacao-do-pcb\/#more-934<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16594\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[5,74],"tags":[234,219],"class_list":["post-16594","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s4-pcb","category-c87-revolucao-russa","tag-6b","tag-manchete"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4jE","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16594","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16594"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16594\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16594"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16594"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16594"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}