{"id":16633,"date":"2017-10-17T15:08:01","date_gmt":"2017-10-17T18:08:01","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=16633"},"modified":"2017-10-17T15:08:01","modified_gmt":"2017-10-17T18:08:01","slug":"o-fim-das-sociedades-democraticas-na-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16633","title":{"rendered":"O fim das sociedades democr\u00e1ticas na Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2017\/10\/14_10_2017_Protesto_no_Congresso_Nacional_do_Brasil_17_de_junho_de_2013_wikimedia_commons.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->\u201cSe chegamos \u00e0 conclus\u00e3o que j\u00e1 n\u00e3o existe uma sociedade de direitos, nossas estrat\u00e9gias devem se adaptar a esta nova realidade. Devemos criar nossa estrat\u00e9gia, com nossas regras de jogo em nossos territ\u00f3rios, porque as bases sociais e materiais das democracias foram erodidas por este modelo de guerra e despojo\u201d, escreve o jornalista e analista pol\u00edtico uruguaio Ra\u00fal Zibechi, em artigo publicado por La Jornada, 13-10-2017. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 do Cepat.<\/p>\n<p>Eis o artigo.<\/p>\n<p>Cena 1: Semanas atr\u00e1s, em um centro cultural em Munro, zona norte de Buenos Aires, apresentou-se a Orquestra T\u00edpica Fern\u00e1ndez Fierro, uma das mais prestigiosas bandas de tango da atualidade argentina. Em certo momento, perto do final da apresenta\u00e7\u00e3o, um dos 13 m\u00fasicos pegou o microfone para dizer: \u2018Queremos que apare\u00e7a Santiago Maldonado\u2019.<\/p>\n<p>A metade do p\u00fablico, de umas 500 pessoas, retirou-se do local com gritos e insultos contra os m\u00fasicos. Sa\u00edram de golpe, como se tivessem molas nos assentos, segundo um dos membros da banda. Entre os improp\u00e9rios, chegaram a ouvir algo que os deixou perplexos: \u2018Voc\u00eas quebraram tudo e n\u00f3s temos que pagar\u2019. Essa brutal rea\u00e7\u00e3o ocorreu porque pediram pela vida de um jovem solid\u00e1rio aos mapuches desaparecidos pela Guarda.<\/p>\n<p>Cena 2: A exposi\u00e7\u00e3o Queermuseu &#8211; Cartografias da Diferen\u00e7a na Arte Brasileira, que estava h\u00e1 um m\u00eas em cartaz no Centro Santander Cultural, em Porto Alegre, foi cancelada pelo banco que a promovia em raz\u00e3o do vendaval de reprova\u00e7\u00f5es que recebeu nas redes sociais. Os cr\u00edticos acusavam a mostra art\u00edstica de blasf\u00eamia e de apologia \u00e0 zoofilia e pedofilia.<\/p>\n<p>Tratava-se de 270 obras de 85 artistas que defendem a diversidade sexual. As cr\u00edticas vieram basicamente do Movimento Brasil Livre (MBL), que teve um papel destacado na queda do governo de Dilma Rousseff, convocando manifesta\u00e7\u00f5es com milh\u00f5es de participantes. Como destaca a cr\u00f4nica, trata-se de um grupo conservador, nascido em 2014, que vem ganhando for\u00e7a com a guinada da sociedade brasileira \u00e0 direita.<\/p>\n<p>Em um comunicado, o Santander convidou \u00e0 reflex\u00e3o sobre os desafios que devemos enfrentar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es de g\u00eanero, diversidade e viol\u00eancia, entre outras coisas. No entanto, a amea\u00e7a de boicote do MBL p\u00f4de mais que qualquer pondera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pode-se imaginar o n\u00edvel de agressividade suportado pelos setores populares, se um banco multinacional e uma orquestra c\u00e9lebre s\u00e3o assediados desse modo. Neste ponto, gostaria de refletir sobre o que considero a eros\u00e3o das bases culturais e pol\u00edticas das democracias, diante da brutal polariza\u00e7\u00e3o social que se vive nos principais pa\u00edses da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>O primeiro ponto consiste em observar a profunda brecha existente, que se agrava com o modelo extrativo e a quarta guerra mundial em curso. Uma parte das sociedades optou em se entrincheirar em seus privil\u00e9gios, de cor e de classe, que se resumem em viver em bairros consolidados onde n\u00e3os lhes falta \u00e1gua e as moradias s\u00e3o seguras. Este setor abarca a metade da popula\u00e7\u00e3o, a que tem acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade porque pode pagar por elas, os que possuem empregos mediamente bem remunerados, mas sobretudo est\u00e1veis, os que podem viajar inclusive em avi\u00f5es, dentro ou fora de seus pa\u00edses. S\u00e3o as e os cidad\u00e3os que t\u00eam direitos e s\u00e3o respeitados como seres humanos.<\/p>\n<p>O segundo ponto \u00e9 que a democracia eleitoral s\u00f3 tem sentido para este setor, ainda que n\u00e3o sejam os \u00fanicos que compare\u00e7am \u00e0s urnas. Podem eleger os candidatos que os representam, que costumam ser de sua mesma cor de pele (em geral, homens brancos), que possuem estudos universit\u00e1rios, s\u00e3o reconhecidos e estimados pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o, que lhes abrem generosamente seus espa\u00e7os.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 certo que n\u00e3o exista democracia na Am\u00e9rica Latina. \u00c9 uma democracia \u00e0 medida da parte integrada da popula\u00e7\u00e3o. Estamos diante de duas sociedades que n\u00e3o se reconhecem. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o argentinos sustentam que aqueles que perguntam pelo paradeiro de Santiago Maldonado nos declararam guerra. Pior, os grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o, que se dizem respeitosos \u00e0 democracia, associam os mapuches ao Estado Isl\u00e2mico.<\/p>\n<p>O terceiro ponto \u00e9 a retroalimenta\u00e7\u00e3o entre poder pol\u00edtico e sociedade. Costuma-se argumentar que esta parte direitista e conservadora da sociedade toma a ofensiva quando as direitas s\u00e3o governo. Em parte, \u00e9 verdade. Mas, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que foi o ativismo desse setor que conduziu as direitas aos governos, sobretudo no Brasil e Argentina.<\/p>\n<p>Penso que \u00e9 necess\u00e1rio se perguntar por que emergiu uma nova direita capilar t\u00e3o reacion\u00e1ria, t\u00e3o incapaz de dialogar, que dilacerou o tecido social, dos Estados Unidos \u00e0 Am\u00e9rica Latina. Trump \u00e9 a consequ\u00eancia, n\u00e3o a causa.<\/p>\n<p>A causa est\u00e1 no modelo extrativo e na quarta guerra mundial. Quando o modelo foi administrado pelo progressismo, essa direita emergiu inclusive com maior intransig\u00eancia, porque detesta os pobres com os quais muitas vezes precisa compartilhar seus espa\u00e7os. Podemos dizer que estamos diante de algumas classes m\u00e9dias funcionais \u00e0 quarta guerra mundial, dispostas a esmagar os de baixo sem considera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O quarto ponto, finalmente, somos n\u00f3s, que queremos derrotar o capitalismo, mas n\u00e3o sabemos bem como agir. A primeira coisa a ter claro \u00e9 que o sistema est\u00e1 se desintegrando e uma de suas consequ\u00eancias \u00e9 a ruptura da sociedade.<\/p>\n<p>Os de cima e os do meio se protegem; os de baixo n\u00e3o temos lugar em suas escolas, nem em seus hospitais, nem em seus meios de comunica\u00e7\u00e3o, nem em suas urnas. Isto n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o reivindicamos, n\u00e3o exigimos, n\u00e3o negociamos.<\/p>\n<p>Quando reivindicamos, podemos agir assim porque realmente esperamos que ir\u00e3o nos dar o que nos corresponde ou como pedagogia pol\u00edtica, para mostrar aos nossos os limites do sistema. Porque, sim, existe um n\u00f3s e um eles, como os oper\u00e1rios industriais sempre tiveram claro at\u00e9, digamos, o \u00faltimo ter\u00e7o do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>Se chegamos \u00e0 conclus\u00e3o que j\u00e1 n\u00e3o existe uma sociedade de direitos, nossas estrat\u00e9gias devem se adaptar a esta nova realidade. Devemos criar nossa estrat\u00e9gia, com nossas regras de jogo em nossos territ\u00f3rios, porque as bases sociais e materiais das democracias foram erodidas por este modelo de guerra e despojo.<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/572633-o-fim-das-sociedades-democraticas-na-america-latina-artigo-de-raul-zibechi<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16633\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[227],"class_list":["post-16633","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4kh","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16633","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16633"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16633\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16633"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16633"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16633"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}