{"id":16641,"date":"2017-10-19T16:19:53","date_gmt":"2017-10-19T19:19:53","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=16641"},"modified":"2017-10-20T17:41:59","modified_gmt":"2017-10-20T20:41:59","slug":"o-abismo-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16641","title":{"rendered":"&#8220;o abismo brasileiro&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<blockquote><p>Nota dos Editores:<\/p>\n<p>Ao publicarmos este importante diagn\u00f3stico da concentra\u00e7\u00e3o de renda no Brasil, destacamos que o sistema capitalista \u00e9 a causa das desigualdades sociais, que s\u00f3 desaparecer\u00e3o na sociedade socialista.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa ficarmos de bra\u00e7os cruzados diante de tanta injusti\u00e7a, mis\u00e9ria e explora\u00e7\u00e3o. Sem intensas lutas do proletariado, para al\u00e9m da institucionalidade, nenhum programa pol\u00edtico de distribui\u00e7\u00e3o de renda e riqueza, por mais avan\u00e7ado e bem intencionado que seja, sair\u00e1 do papel.<\/p><\/blockquote>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.mtst.org\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/8c389f37-ed7d-4f5b-90ef-5cd3f41b15b3.jpeg\" alt=\"imagem\" \/>Por Guilherme Boulos<strong>*<\/strong><\/p>\n<p>A concentra\u00e7\u00e3o de riqueza aprofunda a ferida nacional<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas semanas, foram publicados dois estudos reveladores do abismo social brasileiro. O primeiro e mais completo deles foi o relat\u00f3rio da Oxfam Brasil, tema da reportagem de capa da edi\u00e7\u00e3o 972 de CartaCapital, sobre as desigualdadesem termos de riqueza, renda, g\u00eanero e ra\u00e7a em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>O outro foi um levantamento do mapa de homic\u00eddios publicado pelo jornal Folha de S.Paulo na \u00faltima segunda-feira 9. Duas faces do mesmo problema, concentra\u00e7\u00e3o de riqueza e viol\u00eancia aprofundam a ferida nacional.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"imagemp\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i1.wp.com\/pcb.org.br\/portal\/images\/stories\/outras-opinioes.png\" alt=\"imagem\" \/>Os n\u00fameros apresentados pelo estudo A Dist\u00e2ncia Que Nos Une, da Oxfam, s\u00e3o chocantes: a riqueza dos seis maiores bilion\u00e1rios brasileiros equivale \u00e0 dos 100 milh\u00f5es mais pobres. Considerando o 0,1% mais rico, sua renda em um m\u00eas \u00e9 a mesma que um trabalhador com ganho de um sal\u00e1rio m\u00ednimo receberia em 19 anos. Dif\u00edcil explicar pela meritocracia uma desigualdade t\u00e3o gritante.<\/p>\n<p>O trabalho da Oxfam tem a vantagem de operar n\u00e3o apenas com o conceito de renda, mas tamb\u00e9m com o de riqueza, que inclui a propriedade imobili\u00e1ria. Por aqui, a terra historicamente foi o piv\u00f4 da desigualdade.<\/p>\n<p>No campo, os dados do \u00faltimo Censo Agropecu\u00e1rio mostraram o aumento da concentra\u00e7\u00e3o, medida pelo \u00cdndice de Gini, sendo os latif\u00fandios mais da metade da terra agr\u00edcola do Pa\u00eds. Nas cidades n\u00e3o \u00e9 diferente: em S\u00e3o Paulo, 1% dos propriet\u00e1rios concentra 25% dos im\u00f3veis, o que, por sua vez, representa 45% de todo o valor imobili\u00e1rio municipal. Enquanto isso, o d\u00e9ficit de moradia na cidade supera 470 mil fam\u00edlias.<\/p>\n<p>As disparidades entre homens e mulheres e entre brancos e negros s\u00e3o outra faceta perversa desse cen\u00e1rio. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 renda, 65% das mulheres brasileiras ganham at\u00e9 1,5 sal\u00e1rio m\u00ednimo, ao lado de 52% dos homens. Na ponta oposta, com renda superior a 10 sal\u00e1rios m\u00ednimos, h\u00e1 dois homens para cada mulher.<\/p>\n<p>No caso dos negros e negras, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais grave: na faixa inferior a 1,5 sal\u00e1rio m\u00ednimo est\u00e3o 67% da popula\u00e7\u00e3o negra e 45% da branca. Entre os que ganham mais de 10 sal\u00e1rios, h\u00e1 quatro brancos para cada negro.<\/p>\n<p>Esses n\u00edveis brutais de desigualdade s\u00f3 poderiam gerar uma sociedade conflagrada. \u00c9 o que mostra o mapa das mortes violentas, elaborado a partir de dados da Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica de S\u00e3o Paulo. O que sobressai \u00e9 como o abismo social se expressa em segrega\u00e7\u00e3o territorial, legitimando regi\u00f5es entregues \u00e0 viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Em termos de renda, servi\u00e7os p\u00fablicos e viol\u00eancia h\u00e1 duas cidades em uma. Os dados compilados referem-se a S\u00e3o Paulo, mas refletem uma realidade conhecida em todos os centros urbanos do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>O \u00edndice de homic\u00eddios na cidade equipara-se ao da Su\u00e9cia ou ao do M\u00e9xico, a depender da regi\u00e3o considerada. O Jardim S\u00e3o Lu\u00eds, na Zona Sul, tem taxa de 16 mortes violentas por 100 mil habitantes, enquanto o elitizado e protegido Jardim Paulista tem 1 morte por 100 mil, ou seja, 16 vezes menos.<\/p>\n<p>O morador do S\u00e3o Lu\u00eds tem mais chance de ser assassinado do que se estivesse no Congo ou em Porto Rico; o dos Jardins tem menos chance do que se vivesse nos EUA ou na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o torna-se ainda mais d\u00edspar se a compara\u00e7\u00e3o \u00e9 feita em n\u00edvel nacional. Mesmo a taxa mais elevada de S\u00e3o Paulo est\u00e1 bem abaixo da m\u00e9dia nacional, de 27,2 mortes por 100 mil habitantes.<\/p>\n<p>Isso porque algumas capitais do Norte e Nordeste t\u00eam \u00edndices alarmantes, a ponto de estarem acima de pa\u00edses em situa\u00e7\u00e3o de guerra. \u00c9 o caso de Fortaleza, a capital mais violenta do Pa\u00eds, com 63,7 mortes para 100 mil habitantes, de S\u00e3o Lu\u00eds, com 60,9, e Manaus, com 52,8.<\/p>\n<p>A taxa de homic\u00eddios na capital cearense \u00e9 superior \u00e0 de El Salvador (62,4), pa\u00eds com maior n\u00famero de mortes violentas do mundo. Ou seja, o abismo brasileiro permite que alguns poucos vivam como se estivessem na Su\u00e9cia e muitos outros morram como se estivessem em El Salvador.<\/p>\n<p>Isso porque, na maioria das periferias, o Estado s\u00f3 se apresenta como pol\u00edcia e, neste caso, n\u00e3o como promotora de seguran\u00e7a p\u00fablica, mas frequentemente como agente da viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Esses dois estudos trazem ao centro do debate o tema da desigualdade social, o grande dilema nacional. Enquanto coexistir por aqui uma espolia\u00e7\u00e3o selvagem das maiorias com privil\u00e9gios indecentes do 1%, teremos uma tens\u00e3o perene na base da sociedade. A polariza\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds \u00e9 o retrato dessa ferida aberta, que n\u00e3o fechar\u00e1 sem uma agenda ousada de distribui\u00e7\u00e3o de renda e riquezas.<\/p>\n<p>*Coordenador do MTST.<\/p>\n<p>https:\/\/www.cartacapital.com.br\/revista\/974\/o-abismo-brasileiro<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/16641\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[190,200,104],"tags":[226],"class_list":["post-16641","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-fora-temer","category-moradia","category-c117-outras-opinioes","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4kp","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16641","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16641"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16641\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16641"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16641"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16641"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}